Nesta nota, a Confederação Sindical Internacional dá conta da preocupação de seus sindicatos associados com as possíveis conseqüências da adoção generalizada da Inteligencia Artificial. Os sindicatos querem proteção contra a perda de direitos, de condições de trabalho e de empregos.
Uma justa preocupação, Cabe lembrar que a regulamentação brasileira sobre IA não tem uma linha sobre a sua influencia no emprego e nas condições de trabalho.
Sindicatos pedem medidas rigorosas de proteção da IA para os trabalhadores
A Confederação Sindical Internacional (CSI) expressou preocupação urgente com a adoção de tecnologias de inteligência artificial (IA) não regulamentadas em um fórum internacional sobre IA e trabalho, organizado pelo Ministério do Trabalho francês em Paris.
No fórum, representantes de governos, organizações internacionais, empresas multinacionais e parceiros sociais se reuniram para avaliar coletivamente como a IA está remodelando o mundo do trabalho.
Uma delegação de sindicatos franceses, europeus e internacionais, incluindo a CSI, expressou preocupação urgente sobre a forma como essas tecnologias estão sendo implementadas:
os temores de perda de empregos e deslocamento permanecem generalizados, juntamente com os crescentes riscos de intensificação do trabalho, vigilância intrusiva e erosão das condições de trabalho.
Também foram levantadas grandes preocupações em relação ao trabalho invisível da IA. Muitos dos trabalhadores que utilizam essas tecnologias, como rotuladores de dados e moderadores de conteúdo, frequentemente trabalham em condições precárias, com baixos salários e pouca proteção.
“Não podemos aceitar uma implementação de IA que gere lucros privados enquanto socializa os custos por meio de demissões em massa e deterioração das condições de trabalho. A IA deve beneficiar a todos, não apenas bilionários da tecnologia e acionistas corporativos.”
O secretário-geral da ITUC, Luc Triangle, enfatizou que a IA deve ser governada no interesse público: “Assim como as ondas anteriores de mudanças tecnológicas, a IA deve ser regulamentada. Os formuladores de políticas devem introduzir e aplicar fortes salvaguardas para evitar violações de direitos, discriminação e abusos. E, crucialmente, os sindicatos – como representantes democráticos dos trabalhadores – devem ter voz em como essas tecnologias são projetadas, implementadas e gerenciadas. A tecnologia deve trabalhar para os trabalhadores, não contra eles. “
”Espera-se que as conclusões deste fórum influenciem as discussões internacionais subsequentes sobre essas tecnologias, incluindo a próxima Cúpula de Ação de IA da Índia.”
Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações e exclusão de partes do texto, e portanto sem a revisão do autor. As opiniões expressas são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente as visões do ODTI.
BNDES, academia e gestores públicos defendem articular uma política industrial, inspirado em JK, com inovação, tecnologia e planejamento de 20 a 30 anos.
O Projeto Brasil apresenta um debate estratégico sobre a retomada do desenvolvimento industrial e tecnológico brasileiro, inspirado no histórico “Plano de Metas” de Juscelino Kubitschek. Especialistas discutiram a necessidade de políticas públicas integradas que unam ciência, inovação e sustentabilidade para superar décadas de estagnação econômica e desmonte institucional.
Os jornalistas Luis Nassif e Sergio Leo receberam três convidados de peso para debater o plano de metas ideal para o país: José Luis Gordon, diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do BNDES; Celso Pansera, ex-ministro e presidente da Codemar (Companhia de Desenvolvimento de Maricá) e Celso Pinto de Melo, titular do Departamento de Física da UFPE.
Nassif apontou que o exemplo de Juscelino Kubitschek e seu Plano de Metas servem como uma referência fundamental para o debate atual sobre o desenvolvimento brasileiro, especialmente na ideia de retomar o papel do Estado como indutor e orquestrador da economia.
Entraves: juros e investimentos do Estado
Entre os principais entraves citados, destacam-se as altas taxas de juros, o excesso de burocracia e a falta de investimentos perenes em pesquisa. Pansera enfatizou que as altas taxas de juros “arrebentam” a economia e que o excesso de burocracia dos órgãos de controle, como o TCU, trava a inovação e consome o tempo dos pesquisadores com preenchimento de formulários em vez de foco nos resultados.
O ex-ministro defendeu a necessidade de recursos perenes e volumosos para a ciência, sugerindo a meta de 2% do PIB para inovação, com foco em áreas onde o Brasil tem vocação.
Nesse sentido, relatou a experiência de Maricá, onde royalties do petróleo são usados para criar um Fundo Soberano e financiar um parque tecnológico, aeroporto e porto, transformando compras públicas em instrumentos de desenvolvimento regional e inovação.
Brasil voltou às ‘engrenagens do desenvolvimento’
Por outro lado, o diálogo enfatizou o papel indutor do Estado, por meio de órgãos como o BNDES e a FINEP, para fortalecer a soberania nacional. O diretor do BNDES afirmou que o atual governo está “religando as engrenagens do desenvolvimento”, reconstruindo as estruturas de planejamento e políticas públicas (como a Nova Indústria Brasil – NIB) que haviam sido esvaziadas.
Gordon destacou que o BNDES voltou a ser a “casa da indústria”, batendo recordes de apoio à inovação (R$ 36 bilhões) e oferecendo taxas incentivadas para que o empresário possa correr riscos tecnológicos.
Ele ainda explicou que políticas industriais sólidas estão fazendo multinacionais (como a Bosch e montadoras) deslocarem seus centros de Pesquisa e Desenvolvimento (PID) para o Brasil, gerando empregos qualificados.
Brasil deve integrar as “ilhas de excelência” em um “continente de inovação”
O professor titular da UFPE, Celso Pinto de Melo, propôs que o Brasil deve conectar suas “ilhas de excelência” científica em um sistema integrado, transformando um arquipélago isolado em um “continente de inovação”. Ele defendeu que polos de desenvolvimento tecnológicos como a Embrapa e a Embraer devam formar um continente produtivo interligado, utilizando áreas como bioeconomia e inteligência artificial para modernizar o país.
Inspirado pelo modelo chinês e por Mariana Mazzucato, o pesquisador defendeu que o Estado deve ser o indutor, definindo missões estratégicas (saúde, defesa, bioeconomia) e organizando as agências (BNDES, FINEP, universidades) verticalmente para cumprir essas missões.
Melo citou JK como exemplo de presidente que, mesmo sob ataques e crises, conseguiu articular um plano de Estado de longo prazo que elevou o ânimo nacional, algo que o Brasil precisa recuperar para ser uma nação soberana em vez de uma “colônia tecnológica”. O docente expôs que o desenvolvimento do país não pode ser um plano de governo de 4 anos, mas sim um projeto de Estado com horizonte de 20 a 30 anos.
Por fim, o debate ressaltou que o sucesso desse projeto depende de um planejamento de longo prazo e do resgate de um sentimento de otimismo e brasilidade.
Assista à íntegra do debate no programa Projeto Brasil, no YouTube do Jornal GGN:
Quais caminhos o Brasil precisa percorrer para garantir o acesso universal ao Sistema Único de Saúde (SUS) em meio à transformação digital e, ao mesmo tempo, fortalecer o desenvolvimento nacional com inovação e equidade? Esse é o debate que mobilizará o webinário “Desenvolvimento, Tecnologias Digitais e o Risco da Vulnerabilidade em Saúde (Vulnerabilidade 4.0)”, marcado para o dia 3 de março, das 10h às 12h, que será realizado online pelo Grupo de Pesquisa “Desenvolvimento Sustentável, CT&I e CEIS” (GPCEIS/CEE-ENSP/Fiocruz), parceiros do Projeto Brasil.
O encontro reunirá pesquisadores e autoridades que atuam na interface entre saúde pública, ciência, tecnologia e inovação: Ana Estela Haddad, Secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde (SEIDIGI/MS); Helena Maria Martins Lastres, Cocriadora e coordenadora da Rede de Sistemas e Arranjos Produtivos e Inovativos Locais (RedeSist/IE-UFRJ); Monica Felts de La Roca Soares, Diretora Científica do CNPq (DCTI/CNPq) e Naomar de Almeida Filho, Professor Titular de Epidemiologia do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA.
O webinário integra a série “Transformação Digital na Saúde Pública”, promovida pelo Centro de Estudos Estratégicos da Presidência da Fundação Oswaldo Cruz, iniciada em julho de 2024 e dedicada a discutir os rumos da saúde pública no contexto da revolução digital, entre eles:
• Políticas públicas voltadas ao acesso universal, à produção e à inovação local;
• Perspectivas da Economia Política de Dados e da soberania;
• Iniciativas em ciência, tecnologia e inovação para fortalecer a soberania sanitária;
• Potencialidades e desafios da transformação tecnológica a partir do olhar da saúde coletiva.
Para o pesquisador e coordenador do GPCEIS, Carlos Gadelha, conselheiro do Projeto Brasil, o encontro ocorre em um momento decisivo. Segundo ele, compreender os efeitos da digitalização sobre o sistema de saúde é fundamental para avaliar se essas mudanças ampliarão o acesso universal ou, ao contrário, poderão aprofundar vulnerabilidades e exclusões sociais no país.
Este texto nos fala da crise hídrica que ameaça a população brasileira. Nele são apontadas diversas medidas que ajudariam na solução do problema. Mas não se trata simplesmente de “uma mudança de mentalidade na população brasileira”, o Brasil precisa de uma mudança radical na nossa estrutura econômica, que cada vez mais se aprofunda num modelo neocolonialista, profundamente dependente da produção e exportação de bens primários.
O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto do The Ecologist que “é um site de notícias e análises ambientais com foco em justiça ecológica, social e econômica.
A crescente crise hídrica do Brasil
Monica Piccinini, publicado em 19 de fevereiro de 2026
Ao nascer do sol às margens do Rio Negro, os pescadores costumam falar da água como se ela estivesse viva. Eles leem os humores do rio, medem o tempo por seus níveis e marcam as estações do ano por suas correntes.
Por gerações, os cursos d’água da Amazônia moldaram o cotidiano. Agora, esses ritmos familiares estão se tornando mais difíceis de decifrar e confiar.
As florestas brasileiras fazem mais do que armazenar carbono; elas regulam os sistemas hídricos que sustentam rios, agricultura e cidades em toda a América do Sul.
Alimentos
À medida que o desmatamento e a degradação se aceleram, cientistas alertam que o país está entrando em uma crise hídrica oculta com consequências globais.
O Brasil é frequentemente descrito como uma nação moldada pela água. Ele detém aproximadamente 12% das reservas de água doce do mundo, enquanto a bacia amazônica forma o maior sistema de água doce da Terra.
O Cerrado, a vasta savana tropical do país, alimenta rios que abastecem cidades e a agricultura em toda a América do Sul.
No papel, o Brasil parece ter segurança hídrica. No entanto, cientistas alertam que essa segurança depende fortemente de ecossistemas que estão gradualmente perdendo sua capacidade de regular as chuvas e a vazão dos rios.
Augusto Getirana, cientista pesquisador do Laboratório de Ciências Hidrológicas do Centro Goddard da NASA, falando a título pessoal, explicou como os sistemas hídricos do Brasil influenciam o abastecimento global de alimentos.
“O Brasil é o maior produtor mundial de café, soja e carne bovina, entre outras commodities que dependem da água”, disse ele ao The Ecologist.
“Uma crise hídrica no Brasil que resulta em uma interrupção na produção interna de alimentos rapidamente se torna uma crise global. Vimos isso em 2021, quando os preços dessas commodities aumentaram substancialmente em todo o mundo.”
Luciana Gatti, pesquisadora sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), argumentou que o desmatamento e a degradação da Amazônia, impulsionados pela expansão agrícola brasileira voltada para a exportação, estão diretamente ligados à crise hídrica.
“Houve um enorme aumento nas exportações de madeira, carne bovina, soja, milho e minerais. Este é um projeto baseado na destruição da natureza para vender commodities primárias. Os sistemas hídricos são prejudicados por esses modelos de desenvolvimento, com graves consequências para os ecossistemas e para a população brasileira, enquanto concentram riqueza e poder nas mãos de grandes latifundiários.”
A rede hídrica do Brasil depende de uma delicada parceria entre a floresta amazônica e o Cerrado. Juntos, eles formam uma vasta rede hidrológica que transporta umidade pela atmosfera, armazena água subterrânea e estabiliza bacias hidrográficas em grande parte da América do Sul.
A redução do tamanho dos rebanhos bovinos ajudaria a diminuir a pressão ambiental e a instabilidade hídrica.
A insegurança hídrica no Brasil não se resume à diminuição das chuvas. Pesquisadores a descrevem como um enfraquecimento dos processos naturais de regulação climática, uma mudança gradual com consequências potencialmente de longo alcance.
Pesquisas da Universidade de São Paulo estimam que o desmatamento da Amazônia seja responsável por aproximadamente 74,5% da redução das chuvas e 16,5% do aumento da temperatura durante a estação seca.
A Amazônia desempenha um papel central no ciclo da água na América do Sul. As árvores absorvem a umidade do solo e a liberam na atmosfera, gerando correntes de ar úmido, frequentemente descritas como “rios voadores”.
Essas correntes de ar invisíveis transportam a água da chuva muito além da floresta, abastecendo regiões agrícolas, reservatórios e grandes centros urbanos. Por exemplo, uma grande porcentagem da água da chuva que abastece o sistema de Cantareira, em São Paulo, depende da umidade originária da Amazônia.
Para muitos brasileiros, essas correntes atmosféricas de água são invisíveis, mas seus efeitos influenciam o crescimento das plantações, o reabastecimento dos reservatórios e a navegabilidade dos rios.
Segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), em 30 de janeiro, o sistema de Cantareira operava com apenas 22% de sua capacidade.
Com a redução das florestas, cientistas alertam que esse processo de reciclagem da umidade se enfraquece. A redução da cobertura vegetal significa menos umidade no ar, as chuvas tornam-se mais irregulares e o fluxo dos rios cada vez mais instável. Algumas regiões enfrentam secas prolongadas, enquanto outras experimentam chuvas intensas em períodos mais curtos.
Pesquisadores afirmam que esses extremos não são anomalias isoladas, mas sinais de crescente estresse ecológico. O solo mais seco reduz a recarga dos aquíferos, enquanto os rios respondem de forma mais acentuada tanto à seca quanto às chuvas intensas.
Eventos climáticos de grande escala, como El Niño, La Niña e as condições quentes no Atlântico Tropical Norte (ANT), apenas agravam a situação, desencadeando inundações ou secas que se propagam pelos sistemas fluviais e aquíferos.
Ao longo dos cursos d’água da Amazônia, as comunidades já estão sentindo as consequências. Os estoques de peixes estão diminuindo, a água potável está cada vez mais escassa e as rotas de transporte fluvial são interrompidas durante as estações secas, isolando aldeias e restringindo o acesso a alimentos e suprimentos essenciais.
Cientistas alertam que esse processo de reciclagem da umidade está enfraquecendo. A redução da cobertura vegetal significa menos umidade no ar, as chuvas se tornam mais irregulares e o fluxo dos rios cada vez mais instável. Algumas regiões enfrentam secas prolongadas, enquanto outras experimentam chuvas intensas em períodos mais curtos.
A fonte de água negligenciada do Brasil
Embora a Amazônia frequentemente domine as manchetes, cientistas enfatizam que o Cerrado desempenha um papel igualmente crucial na manutenção do equilíbrio hídrico do Brasil. Abrangendo aproximadamente um quarto do país, o bioma alimenta importantes sistemas fluviais, incluindo os rios São Francisco, Paraná e Tocantins. Gatti destacou que o bioma Cerrado é fundamental para sustentar os sistemas hídricos e as bacias hidrográficas do Brasil: “O Cerrado contém cerca de 80% das bacias hidrográficas do Brasil. Ele funciona como uma floresta invertida, concentrada em sistemas radiculares profundos. Essas raízes permitem que a água da chuva se infiltre gradualmente e recarregue os aquíferos. “Quando ocorre o desmatamento, o sistema natural de amortecimento desaparece. A água da chuva não é mais absorvida adequadamente. O solo fica exposto e a água escoa em vez de penetrar no solo.”
Por gerações, comunidades rurais e indígenas dependeram desses córregos alimentados por águas subterrâneas para a agricultura, a pesca e práticas culturais ligadas aos ciclos sazonais da água.
Mas o Cerrado está desaparecendo rapidamente. O cultivo de soja, a pecuária e a monocultura em larga escala substituíram vastas áreas de vegetação nativa. Culturas com raízes superficiais capturam menos água, reduzem a recarga dos aquíferos e aceleram a erosão do solo. Córregos que antes sustentavam comunidades agrícolas rurais estão diminuindo ou desaparecendo completamente.
A crescente pressão industrial do setor agrícola brasileiro tornou-se um pilar do crescimento econômico, mas também intensificou a pressão sobre os recursos hídricos.
A demanda por irrigação está aumentando, enquanto fertilizantes e pesticidas frequentemente escoam para os sistemas fluviais, poluindo a água, o solo e a vida selvagem. Globalmente, a agricultura responde por 70% do uso de água doce, um padrão refletido na expansão do agronegócio brasileiro.
Gatti enfatizou o papel da demanda internacional por commodities na perpetuação do desmatamento: “É hipócrita culpar apenas o Brasil por não combater o desmatamento enquanto países como os Estados Unidos, os da Europa, a China, o Reino Unido e outros continuam comprar produtos ligados ao desmatamento.
“Se parassem de comprar madeira, carne, soja, milho e minerais produzidos em áreas desmatadas, o desmatamento poderia acabar muito rapidamente.”
Os incêndios introduzem outra camada de risco. As paisagens queimadas absorvem e liberam água de forma desigual, aumentando o risco de inundações durante os períodos chuvosos e agravando as condições de seca durante os meses secos. Incêndios repetidos estão alterando a composição da floresta em partes da Amazônia, potencialmente enfraquecendo a geração de chuvas ao longo do tempo.
Gatti disse: “Em 2024, a Amazônia registrou suas maiores emissões de carbono da história, em grande parte devido aos incêndios. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) do Brasil considera as emissões dos incêndios na Amazônia como líquidas zero em sua metodologia oficial. No entanto, os incêndios representam a maior fonte de emissões de carbono da Amazônia.”
Em 2024, incêndios queimaram 3,3 milhões de hectares da Amazônia, liberando aproximadamente 791 milhões de toneladas de CO₂.sobre o que a Alemanha emite em um ano. Pela primeira vez, a degradação florestal causada por incêndios ultrapassou o desmatamento como a principal causa de emissões de carbono na Amazônia.
As atividades de mineração pressionam ainda mais os sistemas hídricos. Os cursos dos rios são, por vezes, desviados, florestas são derrubadas e os cursos d’água são contaminados com produtos químicos, reduzindo a quantidade de água doce potável disponível para consumo, pesca, agricultura, transporte e ecossistemas.
Cientistas alertam que, se o desmatamento e a degradação dos ecossistemas continuarem, o fluxo dos rios e os padrões de chuva poderão se tornar progressivamente menos previsíveis, ameaçando a agricultura e o abastecimento de água urbano.
O Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH) descreve esse desafio emergente como “falência hídrica”, uma situação em que a água doce é consumida mais rapidamente do que a natureza consegue repô-la.
Especialistas alertam que o acesso desigual à água pode aprofundar a desigualdade social, alimentar a migração e aumentar o risco de conflitos em regiões vulneráveis.
Apesar das crescentes evidências científicas, a escassez de água ainda é amplamente percebida como um problema distante ou regional em um país historicamente definido pela abundância.
Ao mesmo tempo, as decisões políticas estão remodelando os próprios rios. Assinado pelo presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva em agosto de 2025, o Decreto 12.600/2025 adicionou os rios Tapajós e Tocantins (estado do Pará), bem como o rio Madeira (estado do Amazonas), ao plano de privatização do Brasil para expandir a navegação ao longo do Arco Norte.
Hidrólogos e comunidades ribeirinhas alertam que a dragagem dos leitos dos rios e a remoção de rochas para manter essas rotas abertas para embarcações de carga maiores podem perturbar o movimento de sedimentos e os padrões sazonais de cheias.
Em uma bacia já pressionada por secas cada vez mais intensas, essas mudanças podem comprometer ainda mais a segurança hídrica dos ecossistemas e das pessoas que dependem deles.Ao mesmo tempo, decisões políticas estão remodelando os próprios rios
Getirana destacou que a crescente crise hídrica do Brasil está enraizada em práticas políticas e culturais de longa data: “Muitas das decisões políticas e econômicas do Brasil foram baseadas na ideia de que o país é rico em água”.
Decisões políticas equivocadas que resultaram em impactos negativos no meio ambiente e na disponibilidade hídrica não estão relacionadas a partidos ou ideologias. Trata-se da cultura do país. Isso acontece há décadas, talvez séculos, independentemente de quem esteja no poder. A má gestão da água está enraizada na cultura brasileira.
Uma mudança política exige, antes de tudo, uma mudança de mentalidade na população brasileira. Talvez uma maneira de mudar essa mentalidade seja demonstrando como a má gestão está impactando seus meios de subsistência e suas finanças.”
Gatti também alertou que, no Brasil, a pesquisa científica é frequentemente negligenciada no desenvolvimento de políticas: “As evidências científicas não estão chegando aos tomadores de decisão. As promessas de desmatamento zero até 2030 correm o risco de chegar tarde demais, porque partes da Amazônia podem já estar se aproximando de pontos de inflexão ecológicos.
Embora o Brasil tenha passado por mudanças políticas na liderança, as políticas estruturais de uso da terra que impulsionam o desmatamento permaneceram praticamente inalteradas.”
Recuperação
Apesar da crescente preocupação, alguns cientistas enfatizam que a recuperação ainda é possível.
Gatti explicou que diversas medidas poderiam fazer uma diferença considerável para a segurança hídrica do Brasil: “O desmatamento zero em todo o país até 2027, e não apenas na Amazônia, é essencial para estabilizar os sistemas de chuva e água.
Reduzir o tamanho dos rebanhos bovinos, estabelecer limites para a monocultura em larga escala e exigir a restauração florestal em áreas agrícolas ajudariam a reduzir a pressão ambiental e a instabilidade hídrica.
Expandir os sistemas agroflorestais em larga escala poderia ajudar a restaurar o equilíbrio ecológico, mantendo a produtividade agrícola.”
Getirana argumentou que a reforma da governança da água deveria ser o primeiro passo para restaurar a estabilidade hídrica do Brasil: “Acredito que a reforma da governança da água seria a base para outras medidas, como a recuperação de terras degradadas e o combate às mudanças climáticas. Além disso, políticas que impeçam a poluição da água poderiam ter impactos quase imediatos.”
Alguns pesquisadores estão examinando se o reconhecimento dos rios como entidades vivas poderia proporcionar uma proteção ambiental mais robusta. Um projeto liderado pela Universidade de Leeds está explorando como tais marcos legais poderiam ajudar a prevenir a poluição, o desmatamento e a superexploração industrial.
Para as comunidades ao longo do Rio Negro e em todo o interior do Brasil, a crise já é profundamente pessoal. Os rios estão menos previsíveis, os padrões de chuva estão mudando e a qualidade da água está diminuindo. Suas experiências diárias refletem uma realidade mais ampla: o futuro hídrico do Brasil depende da sobrevivência dos ecossistemas que o sustentam.
Proteger as florestas brasileiras pode, em última análise, determinar não apenas o futuro ambiental do país,mas a estabilidade dos sistemas hídricos dos quais milhões de pessoas dependem diariamente. A autora,
Monica Piccinini, é colaboradora regular da revista The Ecologist e escritora freelancer especializada em questões ambientais, de saúde e de direitos humanos.
Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações e exclusão de partes do texto, e portanto sem a revisão do autor. As opiniões expressas são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente as visões do ODTI.
Entre as referências do texto as que se seguem são de grande interesse para o entendimento do problema. As demais citações devem ser buscadas no texto original.
O atual presidente do Clube de Engenharia (Rio de Janeiro/Brasil), o engenheiro Francis Bogossian, conselheiro do Projeto Brasil, conversa com Luis Nassif sobre o papel da Engenharia brasileira para o desenvolvimento do país e a necessidade urgente de retomar grandes projetos de infraestrutura.
“Não há desenvolvimento sem engenharia e não há engenharia sem desenvolvimento“, resume. Na conversa, ele destaca que “a Engenharia está em todos os setores do desenvolvimento“, incluindo áreas como a medicina.
O especialista critica o atual modelo de licitações focado apenas no menor preço, defendendo que a priorização da qualidade técnica é essencial para a segurança e inovação tecnológica do país. Segundo ele, o foco deveria ser o “melhor preço“, definido como aquele que permite oferecer um “serviço de qualidade, durabilidade, segurança, responsabilidade social“.
Boghossian, que é fundador da empresa Geomecânica, que se dedicou a estudos de plataforma de produção de Petróleo para a Petrobrás desde 1973, lamenta o desmantelamento de grandes construtoras após a Operação Lava Jato e a perda de soberania em serviços especializados, como os da Petrobras.
“O objetivo foi acabar com a capacidade da engenharia brasileira“, afirma.
Uma das sugestões centrais de Boghossian é a criação de uma estrutura governamental específica, uma espécie de “Ministério da Engenharia”, para coordenar políticas industriais e científicas, coordenar licitações, o ensino da área e o uso de novas tecnologias, como a utilização estratégica da Inteligência Artificial.
A Luís Nassif, o engenheiro enfatiza que o progresso nacional é indissociável da valorização da engenharia em setores que vão da bioeconomia à medicina, e reforça a importância de projetos executivos rigorosos para evitar o desperdício de recursos públicos e garantir o crescimento sustentável.
A entrevista com Francis Boghossian, presidente do Clube de Engenharia e conselheiro do Projeto Brasil, está disponível no YouTube do Jornal GGN, confira:
Economista Carla Beni explica como a desdolarização avança de forma gradual, com mais ouro, Yuan e com moedas digitais fora da órbita dos EUA.
O Brasil no processo de desdolarização? Especialistas contam como o fenômeno está ocorrendo na economia brasileira e internacional. Para explicar o tema, o Projeto Brasil recebeu a economista Carla Beni, conselheira do Corecon-SP (Conselho Regional de Economia de São Paulo) e professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
A especialista afirma que a desdolarização, com a redução da quantidade de dólares estocados nas reservas internacionais, sendo substituídos por ouro ou outras moedas, como o Yuan chinês, já é visível. Segundo os dados do Banco Central, ela destaca que, entre 2018 e o final de 2024, a participação do dólar nas reservas brasileiras caiu de aproximadamente 90% para 78,45%, enquanto a moeda chinesa subiu de zero para 5,3% e o ouro saltou de 0,75% para 3,55%.
A convidada aponta que a confiança no dólar foi abalada por eventos como a pandemia e as sanções contra a Rússia, que impulsionaram a criação de sistemas de pagamento alternativos ao Swift, liderados por China e Rússia. Ela menciona que o Brasil já realiza pagamentos diretos em Yuan, evitando a “triangulação” pelo dólar através de acordos bilaterais entre bancos centrais.
Apesar do movimento de queda, ela concorda com o termo “desdolarização gradual e limitada”, pois os Estados Unidos ainda possuem um enorme poderio econômico e os países credores, como a China, têm cautela para não desvalorizar seus próprios estoques de títulos da dívida americana.
O papel do ouro e as moedas digitais
Beni observa uma tendência global de aumento das reservas em ouro como proteção contra possíveis sanções internacionais. Além disso, ela projeta que o futuro do comércio internacional passará pelas moedas digitais estatais, citando o desenvolvimento do Drex no Brasil e do Yuan digital.
A economista apontou que o gatilho para muitos países, incluindo o Brasil, foi a observação de sanções impostas contra países como a Rússia e a Venezuela. Ao ver que reservas em dólares poderiam ser congeladas ou bloqueadas por decisões políticas de governos estrangeiros (como os Estados Unidos), as nações passaram a buscar ativos que não pudessem ser sancionados, sendo o ouro a principal alternativa de segurança.
Esse cenário impulsionou a diversificação das reservas para evitar a dependência total do “privilégio exorbitante” do dólar. Por isso, expôs Carla, o ouro é utilizado para substituir o estoque de dólares nas reservas internacionais.
Esse não é um movimento isolado do Brasil, acrescentou a professora. Trata-se de um fenômeno internacional onde diversos bancos centrais estão “juntando ouro nos cofres” para se protegerem de possíveis instabilidades no sistema financeiro tradicional e no sistema de pagamentos Swift.
A alternativa é, também, o sistema de pagamentos independentes. Para reduzir a dependência do sistema Swift, a China e a Rússia desenvolveram seus próprios sistemas de pagamentos internacionais, que são descritos pela convidada como muito mais ágeis que o modelo tradicional. O movimento evita a chamada “triangulação do dólar”, permitindo que as trocas comerciais ocorram diretamente entre as moedas locais (como Real e Yuan).
Os participantes apontaram que existe, ainda, uma discussão sobre o desenvolvimento de um sistema similar ao Pix entre os países dos BRICS, o que facilitaria transferências e pagamentos imediatos em moedas locais. O futuro do comércio dentro desse bloco deve passar pelas moedas digitais emitidas pelo Estado, como o Drex no Brasil e o Yuan digital. Diferente das criptomoedas, essas moedas possuem emissão estatal e devem tornar o comércio internacional entre esses países ainda mais dinâmico.
Esta notícia dá conta da luta dos trabalhadores em saúde da Califórnia contra a utilização da inteligência artificial nas empresas de saúde, relatando os usos atuais da tecnologia e os seus riscos futuros. Trata-se portanto, de uma das primeiras lutas sindicais contra a IA e que, provavelmente, terá tanta repercussão quanto a vitoriosa luta dos escritores de enredos contra os estúdios em Hollywood. Os sindicatos brasileiros devem ficar atentos ao uso dessas tecnologias na empresas para substituir trabalhadores.
O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto do jornal Los Angeles Times, o conhecido jornal californiano.
Uma das primeiras batalhas trabalhistas da Califórnia sobre IA está acontecendo na Kaiser Permanente
Por Queenie Wong, repórter do Los Angeles Times. Publicado em 6 de fevereiro de 2026
Trabalhadores da Kaiser Permanente, incluindo terapeutas e profissionais de saúde mental, estão exigindo proteção contra a IA, à medida que o sistema de saúde expande o uso da tecnologia.
A Kaiser afirma que a IA reduz a burocracia, ajudando os médicos a se concentrarem no atendimento ao paciente, mas os trabalhadores argumentam que isso pode levar à perda de empregos e danos aos pacientes. Quase metade dos profissionais de saúde comportamental da Kaiser no norte da Califórnia se sente desconfortável com as ferramentas de IA.
Trabalhadores de um dos sindicatos mais poderosos da Califórnia estão formando uma frente inicial para a batalha contra a inteligência artificial, alertando que ela pode eliminar empregos e prejudicar a saúde das pessoas. Como parte das negociações com seu empregador, os funcionários da Kaiser Permanente têm se manifestado contra o uso de IA (Inteligência Artificial) pela gigante provedora de serviços de saúde.
Eles estão elaborando reivindicações em torno dessa questão e de outras, utilizando piquetes e greves de fome para ajudar a persuadir a Kaiser a usar a poderosa tecnologia de forma responsável. A Kaiser afirma que a IA poderia livrar os funcionários de tarefas tediosas e demoradas, como fazer anotações e preencher formulários. Os trabalhadores dizem que isso poderia ser o primeiro passo em uma espiral descendente que levaria a demissões e danos à saúde dos pacientes. (…)
“A IA não substitui a avaliação e o cuidado humanos”, disse Candice Lee, porta-voz da Kaiser, em um e-mail. “A inteligência artificial tem um potencial significativo para beneficiar a área da saúde, apoiando diagnósticos melhores, aprimorando o relacionamento entre paciente e médico, otimizando o tempo dos profissionais de saúde e garantindo equidade nas experiências de atendimento e nos resultados de saúde, atendendo às necessidades individuais.”
Os receios em relação à inteligência artificial estão abalando diversos setores em todo o país.
Assistentes administrativos da área médica estão entre os mais expostos à IA, de acordo com um estudo recente da Brookings Institution e do Center for the Governance of AI. Esses assistentes realizam o tipo de trabalho em que a IA está se tornando cada vez mais eficiente. Ao mesmo tempo, eles têm menos probabilidade de possuir as habilidades ou o apoio necessários para a transição para novos empregos, segundo o estudo.
Existem milhões de outros empregos que estão entre os mais vulneráveis à IA, como escriturários, corretores de seguros e tradutores, de acordo com a pesquisa divulgada no mês passado.
Na Califórnia, sindicatos trabalhistas pressionaram o governador Gavin Newsom e os legisladores esta semana para que aprovem mais leis para proteger os trabalhadores da IA. A Federação Sindical da Califórnia (California Federation of Labor Unions) patrocinou um pacote de projetos de lei para abordar os riscos da IA, incluindo a perda de empregos e a vigilância.
A tecnologia “ameaça destruir os direitos dos trabalhadores e causar desemprego em massa”, afirmou o grupo em uma carta conjunta com líderes da AFL-CIO em diferentes estados. A Kaiser Permanente é a maior empregadora privada da Califórnia, com cerca de 19.000 médicos e mais de 180.000 funcionários. Ela tem uma presença significativa em Washington, Colorado, Geórgia, Havaí e outros estados.
O Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Saúde (National Union of Healthcare Workers), que representa os funcionários da Kaiser, esteve entre os primeiros a reconhecer e responder à invasão da IA no ambiente de trabalho. À medida que negocia melhores salários e condições de trabalho, o uso de IA também se tornou um novo e importante ponto de discussão entre trabalhadores e administração.
A Kaiser já utiliza software de IA para transcrever conversas e fazer anotações entre profissionais de saúde e pacientes, mas os terapeutas têm preocupações com a privacidade em relação à gravação de comentários altamente sensíveis. A empresa também usa IA para prever quando pacientes hospitalizados podem apresentar piora em seu quadro clínico. Ela oferece aplicativos de saúde mental para seus beneficiários, incluindo pelo menos um com um chatbot de IA.
No ano passado, profissionais de saúde mental da Kaiser fizeram uma greve de fome em Los Angeles para exigir que a operadora de saúde melhorasse seus serviços de saúde mental e o atendimento ao paciente.
O sindicato ratificou um novo contrato que abrange 2.400 funcionários de saúde mental e medicina de dependência química no sul da Califórnia no ano passado, mas as negociações continuam. Eles querem que a Kaiser se comprometa a usar a IA apenas para auxiliar, e não para substituir, os trabalhadores.(…)
Prestadores de serviços de saúde também enfrentaram processos judiciais devido ao uso de ferramentas de IA para gravar conversas entre médicos e pacientes. Um processo judicial de novembro, apresentado no Tribunal Superior do Condado de San Diego, alegou que a Sharp HealthCare usou um software de anotações com IA chamado Abridge para gravar ilegalmente conversas entre médicos e pacientes sem consentimento.
A Sharp HealthCare afirmou que protege a privacidade dos pacientes e não usa ferramentas de IA durante as sessões de terapia.
Alguns médicos e clínicos da Kaiser, incluindo terapeutas, usam o Abridge para fazer anotações durante as consultas. A Kaiser Permanente Ventures, seu braço de capital de risco, investiu na Abridge. (…)
A empresa afirmou que seus funcionários revisam as anotações geradas por IA para garantir a precisão e obtêm o consentimento do paciente, e que as gravações e transcrições são criptografadas. Os dados são “armazenados e processados em ambientes aprovados e em conformidade com as normas por até 14 dias antes de serem excluídos permanentemente”.
Legisladores e profissionais de saúde mental estão explorando outras maneiras de restringir o uso de IA na área da saúde mental.
A Associação de Psicologia da Califórnia está tentando aprovar uma legislação para proteger os pacientes da IA. Ela se uniu a outras entidades para apoiar um projeto de lei que exige consentimento claro e por escrito antes que uma sessão de terapia seja gravada ou transcrita.
O projeto de lei também proíbe indivíduos ou empresas, incluindo aqueles que usam IA, de oferecer terapia na Califórnia sem um profissional licenciado. (…)
Cerca de 12% dos adultos provavelmente usarão chatbots de IA para cuidados com a saúde mental nos próximos seis meses, e 1% já os utiliza, de acordo com uma pesquisa da NAMI/Ipsos realizada em novembro
Queenie Wong é repórter de tecnologia do Los Angeles Times. Na CNET e no Mercury News, ela escreveu sobre as maiores redes sociais do mundo. Wong também cobriu política e educação para o Statesman Journal em Salem, Oregon. Criada no sul da Califórnia, ela começou a ler o The Times ainda criança e fez sua primeira aula de jornalismo no ensino fundamental. Ela se formou na Universidade Washington and Lee, onde estudou jornalismo e artes plásticas.
Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações e exclusão de partes do texto, e portanto sem a revisão do autor. As referencias são encontradas no original. . As opiniões expressas são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente as visões do ODTI.
O Brasil padece de uma miopia de gestão que precisa ser superada, se houver a mínima ambição de se transformar em uma economia avançada. Diante de qualquer crise ou desafio estrutural, a resposta de Brasília é quase pavloviana: cria-se um novo programa, uma nova secretaria ou uma sigla imponente. No entanto, o que a experiência de décadas nos mostra é que o problema brasileiro raramente é a falta de estruturas ou de capital humano. O Brasil dispõe do que há de mais difícil no processo de catch-up (o emparelhamento com nações desenvolvidas): instituições públicas consistentes, organizações civis de alcance nacional e centros de pesquisa de excelência.
O que falta, e o que tem condenado o país ao improviso, é o chamado Estado Orquestrador.
A Engenharia do Possível
Minha percepção sobre o poder da articulação governamental não nasceu em gabinetes, mas na prática. Em 1974, montei um jornal em Poços de Caldas, mesmo já trabalhando na imprensa paulista. Com o lançamento de máquinas Singer, de tricô, vislumbrei o que poderia ser uma política pública de baixo custo e alto impacto: unir a tradição das bordadeiras locais, o design moderno e o suporte logístico do Senac ou do Banco do Brasil. A ideia, que transformaria artesãs em empreendedoras de moda para o mercado paulista, causou pânico no poder público local. O medo do novo paralisou a oportunidade.
Anos depois, vi esse modelo florescer em Birigui. Em meio à crise do pós-Real e à avassaladora invasão dos produtos chineses, não foi o Estado quem “fez”, mas quem “ajudou a fazer”. Um sindicato empreendedor, em parceria com a prefeitura e o Banco do Brasil, criou um arranjo produtivo que salvou a indústria de calçados infantis da região. Enquanto centros tradicionais como Franca soçobravam, Birigui exportava. Ali, o Estado não foi espectador, nem dono da fábrica; foi o articulador.
O Triângulo das Bermudas de Brasília
Ao longo da minha trajetória jornalística, vi dezenas de propostas de projetos de alta viabilidade sumirem no ar rarefeito da capital federal. O “Exporta Brasil”, que pretendia usar a capilaridade das agências do Banco do Brasil e o banco de dados da Fedex para projetar a exportação de pequenas empresas no mundo, morreu na inércia de ministros que copiavam ideias de terceiros, mas não tiravam do papel.
O mesmo destino teve a proposta de transformar o currículo Lattes em uma ponte tecnológica. Temos o maior cadastro de doutores e pesquisadores do mundo, mas o utilizamos apenas para fins acadêmicos. O projeto de transformar esse “cérebro nacional” em uma consultoria acessível para pequenas empresas via Sebrae perdeu-se nos corredores do Palácio do Planalto.
No começo do governo Dilma, técnicos do Ministério do Planejamento montaram uma versão digital do orçamento participativo, permitindo o acesso popular pela Internet. Por ela, o público poderia opinar sobre parte do orçamento. As propostas mais votadas seriam analisadas pelo Tribunal de Contas da União e pelo próprio Planejamento. Aquelas aprovadas seriam inseridas na proposta orçamentária. Não saiu do papel
Em Brasília, as ideias não morrem por falta de mérito, mas por desestímulo político. E também pelo comportamento estanque das diversas instituições de Estado, sem a presença do Estado Orquestrador.
O conflito permanente entre o público e o privado tornou-se uma caricatura útil para esconder a inação. Planejar virou palavrão; decidir, um risco pessoal que o burocrata prefere não correr.
Reprodução
Orquestrar não é Controlar
O país vive falsos paradoxos:
Estado versus mercado,
público versus privado,
regulação versus crescimento.
O modelo funcional é conhecido:
o Estado define direção e reduz risco sistêmico;
o mercado executa, inova e escala;
a sociedade legitima e fiscaliza.
A alternativa para o desenvolvimento brasileiro está testada e disponível. Não exige leis mirabolantes ou orçamentos bilionários. Exige o que chamo de Engenharia Institucional básica: a capacidade do Estado de articular atores públicos, setor privado e sociedade organizada.
O modelo funcional é simples na teoria, mas exige coragem na prática: o Estado coordena e reduz o risco; o mercado executa e escala; a sociedade legitima e fiscaliza. Até hoje, só vi uma gestão pública vitoriosa nessa direção: o trabalho de Fernando Haddad à frente do Ministério da Educação.
O Brasil já provou que sabe coordenar — do Plano de Metas de JK à construção do SUS. Desaprendemos a lição por termos nos rendido ao improviso. O Estado não precisa produzir tudo, mas precisa saber alinhar as engrenagens. Sem um maestro, a melhor orquestra do mundo produz apenas ruído.
A seguir, publicaremos uma série de análises sobre o papel transformador do Estado Orquestrador, inclusive com exemplos concretos de como pode se dar essa articulação em vários níveis.
Propostas feitas com auxílio de Inteligência Artificial
Dá para fazer muita coisa — e rápido — quando o governo para de tentar reinventar a roda e passa a alinhar as engrenagens que já existem no Brasil. O país não sofre de falta de instituições; sofre de descoordenação crônica. Eis um mapa do que é possível fazer agora, com o que já está aí:
Desenvolvimento produtivo sem criar novos ministérios (milagre possível)
Quem já existe
BNDES, Finep, Embrapii
SENAI, SENAC, SENAR
Sebrae, Apex
Universidades federais, IFs
Bancos públicos (BB, CEF, BNB, Basa)
O que pode ser feito
Programas nacionais por cadeia produtiva (não por setor genérico): alimentos processados, fármacos, defesa, mobilidade elétrica, agroindústria, economia do cuidado
Crédito + tecnologia + compras públicas num único pacote
Contratos de desempenho com metas claras (exportação, emprego, inovação)
Resumo: o Estado deixa de ser caixa eletrônico e vira orquestrador.
Segurança pública: menos bravata, mais inteligência integrada
Quem já existe
PF, PRF, polícias civis e militares
Coaf, Receita Federal
CNJ, MP, Detrans, guardas municipais
O que pode ser feito
Centros integrados regionais de inteligência financeira + criminal
Força-tarefa permanente contra lavagem de dinheiro local (jogo, milícia, tráfico, grilagem)
Banco único de dados operacionais (com controle judicial)
Resumo: crime organizado odeia integração. Vive de silo.
Saúde: SUS com cérebro digital
Quem já existe
SUS, Fiocruz, Butantan
Datasus, Anvisa
Universidades e hospitais públicos
O que pode ser feito
Prontuário nacional interoperável (já tecnicamente viável)
Produção local de insumos estratégicos com compras públicas garantidas
Rede nacional de vigilância epidemiológica em tempo real
Resumo: o SUS já é gigante — falta coordenação tecnológica, não discurso.
Educação e trabalho: parar de formar desempregados sofisticados
Quem já existe
MEC, IFs, SENAI/SENAC
Sistema S
Universidades públicas
Ministérios do Trabalho e da Indústria
O que pode ser feito
Pactos regionais: formação ligada a projetos produtivos reais
Cursos técnicos conectados a compras públicas e crédito
Resumo: atraso não é falta de dinheiro — é excesso de atrito.
Meio ambiente e economia: parar de tratar como inimigos
Quem já existe
Ibama, ICMBio
Embrapa
Universidades
Cooperativas e povos tradicionais
O que pode ser feito
Bioeconomia amazônica com crédito, assistência técnica e mercado garantido
Rastreabilidade obrigatória (já existe tecnologia)
Valorização econômica de quem preserva
Resumo: floresta em pé precisa modelo de negócios, não só discurso moral.
Democracia e instituições: coordenação é proteção
Quem já existe
STF, TSE, CNJ
CGU, TCU
MP, Defensorias
Universidades e imprensa
O que pode ser feito
Protocolos institucionais contra desinformação e ataques coordenados
Transparência ativa e dados abertos integrados
Educação midiática e institucional permanente
Resumo: democracia não se defende sozinha — precisa engenharia.
A virada de chave
O Brasil não precisa de mais estruturas. Precisa de:
coordenação,
metas claras,
integração institucional,
liderança política com visão de sistema.
Ou, em termos menos diplomáticos:
menos improviso, menos vaidade, menos silo.
É só alguém juntar as peças — como num Lego institucional gigante.
Perfeito. Segue um capítulo editorial, com linguagem de análise estratégica, pé no chão institucional e aquela ironia discreta que a realidade brasileira autoriza.
Capítulo — O Brasil já existe (falta combiná-lo)
O Brasil não é um país inviável. É um país desalinhado.
Ao contrário do mito recorrente — muito útil para vendedores de soluções mágicas — o problema central do Estado brasileiro não é a ausência de instituições, nem a escassez de técnicos, nem a falta de recursos. O Brasil tem tudo isso. O que lhe falta é coordenação política com visão de sistema.
Temos ministérios que não conversam, autarquias que competem, políticas públicas que se anulam e órgãos de controle que fiscalizam o vazio porque ninguém planejou o cheio. O resultado é um Estado grande no organograma e pequeno no impacto.
Não é caos. É fragmentação administrada.
1. O fetiche da criação e a aversão à articulação
Diante de qualquer problema estrutural, a reação automática é criar:
um novo programa,
uma nova secretaria,
um novo comitê,
uma nova sigla.
É o urbanismo de Brasília aplicado à política pública: mais prédios, menos circulação.
Enquanto isso, estruturas robustas já existentes — BNDES, SUS, Sistema S, universidades federais, bancos públicos, agências reguladoras, estatais estratégicas — operam como ilhas de excelência cercadas por um oceano de descoordenação.
Criar algo novo rende manchete. Articular o que já existe rende resultado — e menos crédito político imediato. Eis o drama.
2. O Estado como orquestrador (não como caixa eletrônico)
Durante décadas, o Estado brasileiro oscilou entre dois extremos igualmente ineficientes:
o Estado que tenta fazer tudo sozinho;
o Estado que terceiriza tudo e se limita a assinar cheques.
Ambos fracassam pelo mesmo motivo: ausência de projeto.
A alternativa está dada, testada no mundo e possível no Brasil: o Estado como orquestrador de capacidades.
Não produz tudo, não controla tudo, mas coordena, define prioridades e alinha incentivos.
Isso significa:
crédito condicionado a metas produtivas;
compras públicas conectadas à inovação;
formação profissional ligada a projetos reais;
fiscalização integrada a dados e inteligência.
Nada disso exige novas leis mirabolantes. Exige vontade política de alinhar engrenagens.
3. Segurança, saúde e educação: o problema não é falta de força, é falta de cérebro coletivo
Na segurança pública, o país convive com dezenas de órgãos armados, mas raríssimos centros permanentes de inteligência integrada. O crime organizado, ao contrário, opera em rede, com fluxo financeiro, logística e informação.
Na saúde, o SUS é um dos maiores sistemas públicos do mundo, mas ainda funciona com ilhas de informação, prontuários fragmentados e compras descoordenadas. O cérebro existe; falta o sistema nervoso.
Na educação, formam-se profissionais sem conexão com projetos produtivos, enquanto setores inteiros reclamam de falta de mão de obra qualificada. É o paradoxo do diploma desempregado.
O padrão se repete: capacidade existe, coordenação não.
4. Infraestrutura, meio ambiente e desenvolvimento: o falso dilema
Outro mito persistente sustenta que desenvolvimento e meio ambiente são forças opostas. Na prática brasileira, o conflito não é entre preservar ou crescer — é entre planejar ou improvisar.
Sem planejamento integrado:
licenciamento vira gargalo político,
obra vira novela,
investimento foge.
Com coordenação:
projetos ganham previsibilidade,
preservação vira ativo econômico,
infraestrutura deixa de ser aposta e vira política.
O Brasil já tem os órgãos, os dados, a tecnologia e o capital humano para isso. Falta apenas o gesto mais simples e mais raro: sentar as instituições na mesma mesa com metas comuns.
5. Democracia: instituições fortes não funcionam no vácuo
Instituições não se defendem sozinhas. Democracia não é só Constituição; é engenharia institucional em funcionamento contínuo.
Sem articulação:
a desinformação corre solta,
conflitos viram espetáculo,
a confiança pública se dissolve.
Com coordenação:
dados circulam,
responsabilidades ficam claras,
abusos são contidos antes de virar crise.
A defesa democrática não é retórica. É processo.
6. A escolha política que nunca é técnica
Nada disso é segredo. Nada disso é utopia. Nada disso depende de “reforma estrutural profunda” para começar.
Depende de uma escolha política simples — e difícil:
trocar o protagonismo individual pelo resultado sistêmico.
Governar articulando forças existentes não rende heróis solitários, nem slogans fáceis. Rende algo mais perigoso para o populismo: política pública que funciona.
Conclusão — O país está montado. Falta apertar os parafusos.
O Brasil não precisa ser reinventado. Precisa ser operado com método.
As instituições estão aí.
As pessoas estão aí.
Os recursos estão aí.
O que falta não é Estado.
É coordenação com visão histórica.
Ou, para dizer sem rodeios:
o problema do Brasil não é falta de peças — é o manual de montagem ignorado em nome do improviso.
Memorial JK – Reprodução
Excelente gancho histórico. Aqui dá para mostrar, com fatos, que coordenação institucional não é invenção moderna — é o que separa governos “memoráveis” de governos “barulhentos”.
Segue um capítulo editorial comparativo, JK × New Deal, focado na articulação entre Estado, sociedade e instituições já existentes.
Quando o Estado resolveu coordenar: JK e o New Deal
Há momentos raros em que governos param de discutir se o Estado deve agir e passam a decidir como ele vai agir. O Plano de Metas de Juscelino Kubitschek e o New Deal de Franklin D. Roosevelt nasceram exatamente desses momentos de lucidez histórica.
Não foram milagres. Foram engenharias institucionais deliberadas.
O Plano de Metas de JK: desenvolvimento por coordenação, não por decreto
O Plano de Metas (1956–1961) não foi apenas uma lista de objetivos. Foi um método de articulação entre órgãos públicos, empresas privadas, bancos, técnicos e atores internacionais.
Estruturas já existentes mobilizadas
BNDE (criado em 1952, ainda jovem, mas central)
Banco do Brasil
SUMOC (embrião do Banco Central)
Ministérios setoriais
Empresas estatais (Petrobras, Eletrobras em gestação)
Empresas privadas nacionais e estrangeiras
Corpo técnico do ISEB e da Cepal
Nada disso foi criado por JK do zero. O mérito foi conectar.
Como funcionava a articulação na prática
a) Metas claras e finitas
31 metas agrupadas em energia, transporte, alimentação, indústria de base, educação
Um objetivo político explícito: “50 anos em 5”Sem metáfora: prazo manda.
b) Crédito direcionado
O BNDE não financiava “boas intenções”
Financiava projetos aderentes às metas
Energia financiava indústria; indústria alimentava infraestrutura
c) Aliança Estado–empresa
O Estado entrava com:
crédito,proteção cambial,infraestrutura.
crédito,
proteção cambial,
infraestrutura.
O setor privado entrava com:
capital,tecnologia,execução.
capital,
tecnologia,
execução.
Multinacionais vieram porque havia plano, não porque havia discurso liberal.
d) Coordenação política no centro
A Casa Civil funcionava como núcleo estratégico
Conflitos entre ministérios eram resolvidos politicamente, não empurrados para a gaveta
Resumo JK: o Estado não era dono de tudo — era o maestro. E ninguém toca sinfonia olhando só para a própria partitura.
O New Deal: o nascimento do Estado coordenador moderno
O New Deal (1933–1939) nasceu do colapso total: desemprego em massa, bancos quebrados, confiança zerada. Roosevelt não inventou um novo Estado — reprogramou o existente.
Instituições mobilizadas
Tesouro dos EUA
Federal Reserve
Governos estaduais e municipais
Sindicatos
Associações empresariais
Universidades
Judiciário (sim, mesmo sob tensão)
O New Deal foi menos sobre criar agências — e mais sobre fazer o sistema operar em rede.
O sistema financeiro deixou de comandar o Estado — passou a servi-lo.
d) Comunicação política permanente
Fireside chats: Roosevelt falava direto com a sociedade
Criava legitimidade para decisões difíceis
Resumo New Deal: o Estado virou plataforma de reconstrução, não árbitro distante.
O ponto comum entre JK e Roosevelt
Apesar de contextos distintos, há uma coincidência estrutural:
ElementoPlano de MetasNew DealInstituições pré-existentesPlanejamento explícitoCoordenação política centralAliança com setor produtivoLegitimidade socialConflitos resolvidos politicamente
Nenhum dos dois governou por improviso.
Nenhum dos dois acreditava em “mão invisível salvadora”.
Ambos entenderam algo simples — e esquecido:
mercados funcionam melhor quando o Estado coordena expectativas.
A lição esquecida
O Brasil de hoje se parece mais com o pré-JK do que com o JK.
E o mundo atual se parece mais com 1933 do que muitos admitem.
A diferença é que:
as instituições já existem,
a tecnologia facilita a coordenação,
o capital humano é maior.
O que falta não é capacidade.
É coragem política para coordenar.
Ou, em versão menos acadêmica:
governos fracassam não porque fazem demais,
mas porque fazem cada um por conta própria.
Questão vai ao núcleo invisível do problema. O bloqueio ao planejamento no Brasil não vem da falta de ideias, mas do choque entre dogmas opostos que, curiosamente, produzem o mesmo efeito: paralisia.
Segue o mapa dos dogmas ideológicos antagônicos que, na prática, se alimentam mutuamente e sabotam qualquer tentativa séria de coordenação.
Os dogmas ideológicos que sabotam o planejamento
O dogma do “Estado mínimo redentor”
(o mercado resolve tudo — se deixarem)
A crença
Planejamento = intervencionismo
Política industrial = atraso
Coordenação = aparelhamento
Estado bom é Estado ausente
Como isso impede o planejamento
Demoniza qualquer tentativa de definir prioridades nacionais
Transforma planejamento em suspeita moral
Faz do improviso uma virtude (“o mercado ajusta”)
O paradoxo
Os países que mais planejam (EUA, Alemanha, Coreia do Sul, China) são tratados como exceções — ou convenientemente ignorados.
Resultado: o Estado vira árbitro mudo num jogo jogado por quem já tem vantagem.
O dogma do “Estado salvador onipotente”
(o Estado faz tudo — se quiser)
A crença
Vontade política basta
Planejamento substitui execução
Decreto resolve gargalo estrutural
Instituições se alinham por comando
Como isso impede o planejamento
Confunde plano com lista de desejos
Subestima capacidade operacional
Ignora limites federativos e institucionais
Gera metas sem meios
O paradoxo
Quando o plano falha, a culpa recai “na sabotagem”, nunca no desenho.
Resultado: frustração crônica e descrédito do próprio planejamento.
O dogma tecnocrático despolitizado
(basta seguir os números)
A crença
Política atrapalha
Técnicos são neutros
Planejamento é exercício matemático
Conflitos se resolvem por evidência
Como isso impede o planejamento
Ignora que toda decisão envolve poder
Foge do conflito em vez de resolvê-lo
Substitui coordenação por planilha
O paradoxo
Sem decisão política, os melhores dados não saem do Excel.
Sem decisão, o conflito continua — só que sem solução.
Resultado: governança de café frio.
O dogma do “Brasil é inviável”
(nada dá certo aqui)
A crença
Instituições não funcionam
Planejamento sempre fracassa
Melhor não tentar
Como isso impede o planejamento
Naturaliza o improviso
Desresponsabiliza gestores
Mata ambição pública
O paradoxo
A profecia se cumpre por desistência antecipada.
Resultado: mediocridade como política de Estado.
O ponto cego comum a todos os dogmas
Apesar de opostos, todos compartilham um erro central:
tratam planejamento como ideologia, não como método.
Planejamento não é:
estatização,
voluntarismo,
tecnocracia,
populismo,
nem austeridade cega.
Planejamento é coordenação política baseada em evidência, com decisão, risco calculado e responsabilidade.
Conclusão — Planejar é escolher, e escolher incomoda
O planejamento incomoda porque:
define prioridades,
cria perdedores no curto prazo,
expõe decisões,
exige liderança.
Dogmas, de direita ou de esquerda, oferecem conforto:
explicam o fracasso,
evitam escolhas,
terceirizam a culpa.
Governar, não.
Planejamento não é ideologia. É método.
Resposta editorial aos dogmas que paralisam o Brasil
Toda vez que o Brasil tenta planejar, o debate descamba para uma guerra de rótulos. Planejamento vira “estatismo” para uns, “insuficiência política” para outros, “risco fiscal” para terceiros. O resultado é previsível: o método desaparece, o dogma vence.
Este editorial responde a esses dogmas — não para conciliá-los artificialmente, mas para desarmá-los.
Ao dogma do Estado mínimo: planejamento não substitui mercado, organiza expectativas
Planejamento não elimina concorrência, não define preços, não escolhe vencedores no detalhe. Ele faz algo mais básico: reduz incerteza sistêmica.
Os mercados que funcionam melhor no mundo são justamente os que operam dentro de:
infraestrutura planejada,
crédito coordenado,
regras previsíveis,
objetivos nacionais explícitos.
Chamar isso de intervencionismo é confundir direção com controle.
Mercado sem coordenação não é livre — é assimétrico.
Ao dogma do Estado salvador: planejamento não dispensa limites, exige execução
Planejamento não é lista de desejos nem substituto da realidade institucional. Ele só funciona quando:
reconhece capacidades existentes,
respeita limites federativos,
integra o setor privado,
aceita correções de rota.
Planos que ignoram meios viram retórica.
Retórica não transforma estrutura produtiva.
Planejar é escolher o que não será feito — e isso exige mais maturidade política do que proclamar intenções.
Ao dogma tecnocrático: dados não decidem sozinhos
Evidência é condição necessária, não suficiente.
Planejamento envolve conflito distributivo, prioridades políticas e escolhas que nenhum algoritmo resolve. Fingir neutralidade técnica é uma forma elegante de não decidir.
Sem autoridade política:
dados viram relatório,
relatório vira gaveta,
gaveta vira desculpa.
Planejamento exige técnica e decisão. Separar uma da outra é sabotagem sofisticada.
Ao dogma fiscalista absoluto: investir não é irresponsabilidade, é escolha temporal
Responsabilidade fiscal não é sinônimo de imobilismo.
O verdadeiro risco fiscal está em:
baixo crescimento,
infraestrutura precária,
desindustrialização,
perda de capacidade produtiva.
Planejamento sério diferencia:
gasto corrente de investimento,
despesa ineficiente de indução estrutural.
Austeridade sem estratégia preserva números no curto prazo e destrói o futuro silenciosamente.
Ao dogma do controle paralisante: governar envolve risco calculado
Estado que não assume risco não governa — administra o vazio.
Controle público é essencial, mas quando atua apenas como veto:
premia quem não decide,
pune quem tenta,
institucionaliza a inação.
Planejamento bem feito reduz risco justamente porque antecipa problemas.
Controlar o improviso depois é sempre tarde demais.
Ao dogma do consenso impossível: planejar é escolher, não agradar
Nenhum processo de planejamento sério nasce de unanimidade.
Ele nasce de prioridade clara e conflito administrado.
Esperar consenso total é:
adiar decisões,
diluir metas,
terceirizar responsabilidade.
Democracia não é ausência de conflito.
É capacidade de decidi-lo institucionalmente.
Ao dogma do “Brasil não dá certo”: a história prova o contrário
O Brasil já coordenou:
industrialização,
infraestrutura,
ciência,
políticas sociais complexas.
Fracassos não provam inviabilidade.
Provam descontinuidade e descoordenação.
Naturalizar o fracasso é o dogma mais confortável — e o mais destrutivo.
O ponto comum que os dogmas escondem
Todos esses dogmas, embora opostos, produzem o mesmo efeito:
impedem o Estado de funcionar como sistema.
Uns demonizam a coordenação.
Outros a caricaturam.
Quase todos preferem o conforto da crítica ao risco da execução.
Planejamento não é bandeira ideológica.
É instrumento de governo.
Conclusão — Planejar é assumir responsabilidade histórica
Planejar significa:
dizer para onde o país vai,
admitir limites,
assumir conflitos,
responder por resultados.
Dogmas oferecem álibis.
Planejamento exige compromisso.
O Brasil não precisa escolher entre Estado e mercado, controle e execução, técnica e política. Precisa integrar.
Enquanto o debate ficar preso a dogmas, o país continuará refém do improviso — que é a ideologia mais cara de todas.
Reprodução
Planejar não é ideologia. É governar.
Resposta aos dogmas que paralisam o Brasil
O Brasil não está travado por falta de ideias, recursos ou instituições. Está travado por um impasse menos visível e mais persistente: a captura do debate público por dogmas ideológicos opostos que produzem o mesmo resultado — a impossibilidade de planejar.
Sempre que o tema surge, a discussão descamba para caricaturas. Planejamento vira sinônimo de estatismo para uns, de voluntarismo para outros, de irresponsabilidade fiscal para terceiros. No meio do tiroteio, o método desaparece. E o país segue governado por improvisos.
Este editorial parte de uma tese simples:
planejamento não é doutrina. É técnica de governo em democracias complexas.
O mito do Estado mínimo que resolve tudo
O primeiro bloqueio vem do dogma segundo o qual qualquer tentativa de coordenação estatal seria uma ameaça à liberdade econômica. Planejar, nessa visão, é “escolher vencedores”, “interferir no mercado” ou “repetir erros do passado”.
O problema é factual: os países capitalistas mais dinâmicos planejam intensamente. Planejam infraestrutura, energia, inovação, defesa, cadeias produtivas estratégicas. Não para substituir o mercado, mas para organizar expectativas e reduzir incerteza.
Mercados funcionam melhor quando sabem para onde o país vai.
Sem direção, não há concorrência plena — há assimetria.
O mito do Estado salvador que resolve tudo
No polo oposto, outro dogma igualmente paralisante: a crença de que basta vontade política para que o Estado imponha uma transformação estrutural por decreto.
Aqui, planejamento vira lista de desejos. Metas se multiplicam sem meios. Conflitos institucionais são ignorados. Limites federativos desaparecem do papel — mas não da realidade.
Quando o plano falha, a culpa recai sempre em fatores externos: sabotagem, elite, conjuntura. Nunca no desenho.
Planejar não é prometer tudo.
É escolher pouco, com base no que pode ser executado.
O conforto da tecnocracia sem decisão
Há ainda o dogma aparentemente neutro: o de que bastaria “seguir os dados”. Planejamento vira exercício estatístico, e a política é tratada como ruído.
É uma ilusão elegante. Dados não resolvem conflitos distributivos. Indicadores não escolhem prioridades. Evidência não substitui autoridade política.
Sem decisão, relatórios viram gavetas.
E gavetas não governam países.
A austeridade sem horizonte
Outro bloqueio recorrente é o fiscalismo absoluto, que transforma qualquer investimento público em suspeita moral. Tudo vira risco. O futuro pode esperar.
Mas o verdadeiro risco fiscal não é investir — é não crescer. É conviver com infraestrutura precária, baixa produtividade, desindustrialização e dependência cíclica de commodities.
Planejamento sério distingue gasto de investimento.
Austeridade sem estratégia preserva números no curto prazo e corrói a base econômica no longo.
O controle que paralisa
Some-se a isso o dogma do controle punitivo, no qual governar passa a ser sinônimo de não errar. Decidir vira risco pessoal. Inovar vira exposição.
O resultado é um Estado que não falha porque não age.
Controle público é indispensável. Mas quando atua apenas como veto, ele institucionaliza a inação. Planejamento bem feito reduz risco justamente porque antecipa problemas — algo impossível no improviso permanente.
O consenso impossível
Há, por fim, o dogma do consenso absoluto: a ideia de que planejar exige agradar a todos. Como isso é impossível, decide-se não decidir.
Prioridades são diluídas, metas perdem força, e a política vira uma sequência de anúncios desconectados.
Democracia não é ausência de conflito.
É capacidade de administrá-lo institucionalmente.
O erro comum a todos os dogmas
Esses dogmas discordam em tudo — menos no efeito final. Todos impedem o Estado de funcionar como sistema.
Uns demonizam a coordenação.
Outros a caricaturam.
Quase todos preferem o conforto da crítica ao risco da execução.
Planejamento, no entanto, não é bandeira ideológica.
É instrumento básico de governo em sociedades complexas.
Planejar é assumir responsabilidade
Planejar significa:
definir prioridades nacionais,
integrar políticas públicas,
alinhar instituições,
assumir conflitos,
responder por resultados.
Dogmas oferecem álibis.
Planejamento exige compromisso.
O Brasil já fez isso antes. Em momentos decisivos, coordenou investimento, crédito, infraestrutura e política social. Não foi perfeito. Mas funcionou melhor do que o improviso que se tornou regra.
O país não precisa escolher entre Estado e mercado, técnica e política, controle e execução. Precisa integrar.
Enquanto o debate permanecer prisioneiro de dogmas, o Brasil continuará governado pela ideologia mais cara de todas: a do improviso permanente.
Diante da votação próxima no senado argentino da reforma trabalhista proposta pelo governo de Milei, a maior central argentina, a CGT, vai fazer um protesto na quarta-feira próxima em Buenos Aires.
O governo argentino continua em sua senda de destruir os direitos sociais do povo argentino – depois da devastação da população aposentada ele agora quer destruir os direitos sociais dos trabalhadores argentinos aumentando o número de “serviços essenciais”, obrigando os trabalhadores desses setores a trabalharem nos feriados sem remuneração extra; substituindo as clausulas de ultratividade nos convênios coletivos por acordos por empresa; enfraquecendo a negociação coletiva: eliminando as quotas sindicais dos trabalhadores não associados, e muito mais. Em breve, certamente veremos uma greve geral dos argentinos.
O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto do jornal Pagina 12, o combativo jornal argentino.
CGT pressiona para travar artigos-chave da reforma laboral
Depois de anunciar uma concentração para a próxima quarta-feira nos arredores do Congresso argentino, quando o Senado tratará do projeto de reforma trabalhista impulsionado pelo governo, a CGT centra a sua atenção na estratégia para frear a iniciativa, assegurando que o governo não tem os votos necessários para aprová-lo. A idéia da central operária é reunir os votos suficientes para inverter os pontos “críticos”, avaliando a judicialização como uma das vias possíveis, tal como aconteceu com o Mega DNU* de dezembro de 2023.
O triunvirato** formado por Jorge Sola, Cristian Jerónimo e Octavio Argüello vê a reforma laboral como “uma longa guerra de várias batalhas”, em que a greve geral é uma carta valiosa, mas que deve ser jogada no momento certo. O triunvirato confia em que vários legisladores que dialogam com o Presidente aprovaram o projeto em geral mas, no momento de discutir cada artigo em particular, não acompanharão a iniciativa libertária.
Os principais artigos que os sindicalistas se propõem a combater prevêem a ampliação das atividades que são consideradas “essenciais”, que garante serviços mínimos determinados ramos em feriados; a eliminação da ultratividade dos convênios coletivos, priorizando os acordos particulares por empresa, anulando a capacidade de negociação dos sindicatos; as alterações nas quotas solidárias que trazem os trabalhadores não filiados ao grêmio e a criação de um Fondo de Asignación Laboral (FAL), em substituição do atual sistema de indenizações.
O ás na manga que guarda a central operária é a judicialização daqueles pontos que fugirem ao filtro legislativo e que a central considera que dificilmente sejam considerados constitucionais em qualquer vara do trabalho. No entanto, a partir da condução advertem que a anulação na justiça “não será tão fácil” como com o Mega DNU.
Notas do Observatório
*O chamado Mega DNU é o Decreto de Necesidad y Urgencia (DNU) 70/2023 “Bases para la reconstrucción de la Economía argentina” que pretendia destruir diversas leis e direitos dos argentinos e que teve muitas das suas clausulas denegadas pelo Justiça argentina.
**O chamado triunvirato refere-se à grupo dirigente da CGU, composto hoje por Jorge Sola (Seguros), Cristian Jerónimo (Vidreiros) y Octavio Arguello (Caminhoneiros).
Este texto foi traduzido do espanhol com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações, e portanto sem a revisão do autor. As referencias são encontradas no original. . As opiniões expressas são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente as visões do ODTI.
O Brasil tem a oportunidade de se tornar protagonista na reindustrialização verde, com capacidade de atingir a total produção de terras raras com a mínima emissão de gás carbônico do mundo. É o chamado “refino verde”, explicou a diretora executiva do Instituto E+ Transição Energética, Rosana Santos, no especial Terras Raras do Projeto Brasil.
Rosana trouxe a interface entre mineração e desenvolvimento econômico sustentável no debate com a geóloga, pesquisador e ex-reitora da UnB, Márcia Abrahão. A especialista confirmou que não haverá transição energética ou avanços em tecnologias como a Inteligência Artificial sem minerais críticos e terras raras.
Desmistificando que a extração de terras raras seja amigável ao meio ambiente, Rosana foi além e argumentou que, uma vez inevitável o uso destes minérios na atualizada, o Brasil deve então utilizar sua matriz energética limpa para realizar o “refino verde”.
Ela propôs o uso de biogás e biometano para atingir as altas temperaturas necessárias no processamento dos minerais críticos, o que daria ao produto brasileiro uma vantagem competitiva internacional por ter baixas emissões de carbono, tornando o Brasil o país com a menor emissão possível destes minérios.
Refino verde: como é feito
A representante explicou que processos industriais como o refino de terras raras e outros minerais críticos são “extremamente energointensivos” e exigem altíssimas temperaturas. Enquanto outros países utilizam combustíveis fósseis (carvão ou gás natural) para esse fim, emitindo grandes volumes de gases de efeito estufa, o Brasil pode realizar o chamado “refino verde” utilizando sua matriz elétrica (que é 90% limpa) e complementando com biogás ou biometano para atingir altas temperaturas.
Isso resultaria em minerais refinados com emissões que poderiam chegar a apenas 1/3 das emissões de qualquer outro lugar do mundo.
Para a pesquisadora, a medida seria benéfica ao Brasil não somente em termos ambientais, propriamente. Há uma tendência global onde, em igualdade de preços, o comprador opta pelo produto que emite menos carbono. Mecanismos regulatórios internacionais, como o CBAM europeu (mecanismo de ajuste de fronteira de carbono), começam a considerar o conteúdo de emissões como critério de compra e tributação, o que favorece países com matrizes limpas.
A disponibilidade de energia verde abundante e barata funciona como um imã para indústrias globais, um conceito definido nas fontes como “power shoring”, afirmou Santos. Em vez de apenas exportar a matéria-prima bruta, o Brasil pode atrair empresas para produzirem em território nacional, agregando valor e gerando empregos de qualidade motivados pela pegada de carbono reduzida da produção local, expôs.
Desafios jurídicos
Advogada e pesquisadora, Ana Paula Lemes de Souza abordou junto à Márcia Abrahão os desafios jurídicos, regulatórios e socioambientais. Ela alertou para o perigo de um “atropelamento” dos processos de licenciamento ambiental devido à pressão geopolítica.
Souza destacou os interesses internacionais e os riscos do uso do “mito da sustentabilidade”, onde o discurso da emergência climática poderia ser usado para favorecer interesses bélicos e comerciais em detrimento da soberania territorial e dos povos tradicionais.
Nessa linha, a advogada expôs a importância de regulamentações como os projetos de lei em tramitação – como o PL 2780/2024 e o PL 4443 -, destacando a “regra dos 80%”, que visa exigir que a maior parte das terras raras extraídas seja processada no país para evitar o “neocolonialismo verde”.
Ambas as especialistas destacaram que o Brasil vive um momento estratégico e que a soberania nacional deve ser protegida. Segundo elas, o país deve aproveitar suas riquezas minerais para se tornar um protagonista tecnológico, garantindo que o bônus econômico não resulte em um passivo ambiental e social insustentável para os territórios explorados.
Assista à íntegra dos episódios das especialistas que abordaram os desafios ambientais das Terras Raras no Brasil:
Este texto dá conta da mobilização sindical contra a reforma previdenciária que o governo de Santiago Peña quer fazer aprovar no congresso paraguaio. Seguindo as imposições das instituições financeiras (capitaneadas pelo FMI) e das agências de análise de risco.
Peña faz um governo de austeridade. A competência da administração de Peña e sua subordinação aos EUA tem trazido dividendos para seu governo. Mas até quando? Uma mobilização sindical no país pode trazer esperança de mudanças.
O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto do blog Paraguay Post, “guia essencial sobre tudo relacionado ao Paraguai”.
Sindicatos se mobilizam contra reforma da previdência no Paraguai
The Weekly Post
Laurence Blair, publicado em 02 de fevereiro de 2026 ∙
Na imagem: Sindicatos de professores protestam contra a reforma da previdência proposta pelo governo paraguaio em frente ao Congresso, em 20 de janeiro. (Foto: OTEP)
Bomba-relógio da previdência no Paraguai
O Congresso do Paraguai foi convocado de seu recesso de verão para uma sessão extraordinária nesta quinta-feira para deliberar sobre uma importante reforma da previdência.
Delineadas pelo presidente do Paraguai, Santiago Peña, em 30 de dezembro, as mudanças imporiam uma idade mínima de aposentadoria de 57 anos para professores da rede pública, professores universitários, juízes, policiais e militares, aumentariam o valor que eles devem contribuir para suas aposentadorias e reduziriam os pagamentos finais.
O governo Peña afirma que a reforma é urgentemente necessária para sanar um rombo de US$ 380 milhões nas finanças públicas. O governo alega que o custo de sustentar aposentados dessas profissões — por meio de um fundo público de pensões conhecido como Caja Fiscal — pode chegar a US$ 10 bilhões até 2030.
Em uma proposta legislativa apresentada ao Congresso, Peña e o ministro da Economia e Finanças, Carlos Fernández Valdovinos, citam a necessidade de “enfrentar o problema de frente” e “pensar nas gerações futuras” para “transformar o Paraguai na grande nação que está destinado a ser”.
Os sindicatos reagiram com fúria às propostas, classificando-as como precipitadas, sem consenso e injustas para os trabalhadores que contribuíram para o sistema durante anos. Professores se declararam em “estado de guerra” e ameaçaram boicotar as salas de aula quando as aulas retornarem no final do mês.
Associações de policiais e militares aposentados, por sua vez, pediram a taxação dos produtores de soja, uma das principais exportações do agronegócio paraguaio, para ajudar a pagar as pensões. Eles contam com o apoio de José Rodríguez, deputado do Partido Colorado, na situação do partido governista.
Carlos Fernández Valdovinos, ministro da Economia e Finanças do Paraguai, sugeriu que a única alternativa seria aumentar o IVA de 10% para 14% — uma possibilidade que ele posteriormente descartou, afirmando que “este governo não vai aumentar impostos”.
O presidente Peña tem feito progressos na redução do déficit fiscal – a diferença entre os gastos e a receita anual do governo, para uma meta oficial de 1,5% do PIB. O déficit encerrou 2025 em 2% do PIB, ante 2,5% no ano anterior.
Mas instituições financeiras internacionais — incluindo o FMI, antigo empregador de Peña — e agências de classificação de risco como a Fitch estão pressionando-o para manter o ritmo. Ambas alertaram que o crescente déficit fiscal pode esgotar seriamente as reservas do Paraguai e, em última instância, prejudicar sua credibilidade.
A mídia corporativa e a classe política paraguaia também concordam amplamente que a complexa teia de benefícios previdenciários do país representa uma crise iminente, que se arrasta há duas décadas e não pode mais ser adiada. Alguns especialistas afirmam que as reformas precisam ir ainda mais longe para realmente cobrir o custo do envelhecimento da população.
Mas, com as eleições locais se aproximando em outubro,Logo em seguida, com as primárias partidárias para as eleições nacionais de 2028 — e com o Partido Colorado fragmentado no Congresso — o governo Peña pode ter deixado para a última hora a implementação de sua reforma mais controversa até o momento.
Análise do The Post: Instados por políticos a fazer sacrifícios pelo bem comum, os agentes da lei e educadores do Paraguai poderiam, com razão, responder: vocês primeiro.
Ao mesmo tempo em que busca reduzir os benefícios sociais dos trabalhadores comuns, Peña continuou financiando a caixa parlamentar, que permite que senadores e deputados federais recebam uma aposentadoria vitalícia a partir dos 55 anos, após apenas 10 anos de contribuições.
Esse sistema, apelidado de “aposentadoria VIP” pelos críticos, custou aos contribuintes US$ 5 milhões desde 2015 — um valor que, segundo especialistas, pode chegar a US$ 100 milhões até 2040.
“Precisamos refletir profundamente sobre nossos próprios privilégios”, disse a deputada federal da oposição e pré-candidata à prefeitura de Assunção, Johanna Ortega, na semana passada. “Não podemos pedir a um ou a vários grupos que apertem os cintos sem pensar em nós mesmos.”
Um vídeo que circulou na sexta-feira — mostrando Peña decolando de um campo de golfe em um helicóptero da Força Aérea — intensificou as críticas ao estilo de vida extravagante do presidente, à sua crescente riqueza pessoal e às frequentes viagens nacionais e internacionais financiadas pelos contribuintes.
Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações, e portanto sem a revisão do autor. As referencias são encontradas no original. As opiniões expressas são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente as visões do ODTI.
Este texto traz a palavra de um setor pouco ouvido na discussão sobre a Groenlândia – o povo inuite que constitui 90% da po0pulação local de 57 mil habitantes. Ausente do debate, o povo inuit ocupa as terras geladas da ilha há tempos imemoriais.
O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto da Arctic Today, que traz “notícias e análises de toda a região do Ártico”.
Ninguém é dono de nossas terras no Ártico, nós as compartilhamos, dizem os inuítes da Groenlândia.
Reportagem de Jacob Gronholt-Pedersen; Edição de Alex Richardson, , Reuters, publicado em 29 de janeiro de 2026
O presidente dos EUA, Donald Trump, fala sobre a Groenlândia como um ativo estratégico que poderia ser comprado por Washington, enquanto a Dinamarca afirma sua soberania legal sobre a ilha. Para o povo inuíte, que vive aqui há séculos, ninguém é dono das terras do Ártico.
O conceito de que a propriedade é compartilhada coletivamente é central para a identidade inuíte, dizem eles. Sobreviveu a 300 anos de colonização e está previsto em lei: as pessoas podem possuir casas, mas não a terra sob elas.
“Não podemos nem comprar nossa própria terra, mas Trump quer comprá-la – isso é muito estranho para nós”, disse Kaaleeraq Ringsted, 74, em Kapisillit, um pequeno assentamento de casas de madeira agarrado à margem de um fiorde a leste da capital, Nuuk.
“Desde criança, estou acostumado com a ideia de que só se pode alugar terras. Sempre estivemos acostumados com a ideia de que somos donos coletivos de nossas terras.”
Uma vida Livre na Natureza
Ringsted, um ex-pescador e caçador nascido em Kapisillit, falava na pequena igreja situada em um penhasco acima da vila, acessível apenas por uma íngreme escadaria de madeira, onde agora atua como catequista.
É pleno inverno e o sol raramente surge acima das montanhas ao redor. O povoado disperso abaixo também possui uma escola, um mercado e uma casa de serviços onde os moradores podem tomar banho e lavar roupa. Uma pequena sala de emergência contém suprimentos médicos básicos. Um anúncio de emprego para um funcionário da clínica estava afixado na porta.
É um lugar de beleza bruta e logística complexa. O pequeno cais é a tábua de salvação, por onde o barco semanal traz suprimentos de Nuuk e de onde pescadores e caçadores partem em busca de focas, alabotes, bacalhaus e renas.
“Sempre tivemos uma vida livre aqui, em contato com a natureza”, disse Heidi Lennert Nolso, a líder da aldeia. “Podemos navegar e ir a qualquer lugar sem restrições.”
Guardiôes, não donos
A Groenlândia e seu povo foram lançados aos holofotes globais no ano passado, quando Trump retomou sua exigência de que os EUA assumissem o controle da ilha por questões de segurança nacional e para ter acesso aos seus abundantes recursos minerais.
Desde então, Trump recuou das ameaças de que os EUA poderiam tomar a ilha à força e disse ter garantido acesso total e permanente dos EUA à Groenlândia em um acordo com a OTAN, mas muitos detalhes permanecem obscuros.
Os moradores da vila disseram que acompanhavam as notícias, mas não era algo sobre o qual comentavam muito.
“As pessoas aqui estão interessadas no dia que está por vir. Tem comida na geladeira? Ótimo, então posso dormir um pouco mais. Se não tiver comida, vou sair para pescar ou caçar uma rena”, disse Vanilla Mathiassen, uma professora dinamarquesa em Kapisillit que trabalha em cidades e vilarejos da Groenlândia há 13 anos.
Ulrik Blidorf, advogado em Nuuk e proprietário do escritório Inuit Law, disse que a Groenlândia, um território autônomo dinamarquês, não possui propriedade privada de terras.
“Na Groenlândia, você não pode ser dono da terra”, disse Blidorf. “É assim desde que nossos ancestrais chegaram aqui. Hoje, você tem o direito de usar a área onde tem sua casa.”
Quase 90% da população da Groenlândia, de 57.000 habitantes, é composta por indígenas inuítes, que habitam a ilha continuamente há cerca de 1.000 anos.
Rakel Kristiansen, de uma família de praticantes de xamanismo, disse que o povo inuíte se vê como guardiões temporários da terra.
“Em nossa opinião, a questão errada é a posse da terra”, disse ela. “A questão deveria ser quem é responsável pela terra. A terra existia antes de nós e existirá depois de nós.”
O foco é a Sobrevivência
De volta a Kapisillit, um vento frio sopra da camada de gelo da Groenlândia. Duas águias-marinhas circulam sobre o fiorde e gaivotas se agrupam ao redor dos barcos de pesca. Aqui, o foco é a sobrevivência. Mas há menos caçadores e pescadores agora, já que a atração da educação, dos empregos e dos serviços levou as pessoas para longe do assentamento nas últimas décadas.
Na escola, William, de 8 anos, Malerak, de 7, e Viola, de 7, são os únicos alunos restantes, estudando sob um mapa da Groenlândia impresso em 1954. Durante o recreio, eles vão andar de trenó. Os três se mudarão em breve, e a escola pode fechar.
Novas casas de veraneio, algumas com banheiras de hidromassagem externas, foram construídas ao longo da baía para os ricos moradores de Nuuk. Elas permanecem vazias e fechadas no inverno.
De um penhasco próximo, avista-se um fiorde repleto de icebergs. A paisagem poderia atrair turistas, mas a vila carece até mesmo de infraestrutura básica
“Há o risco de o assentamento morrer”, disse o líder da vila, Nolso. “As pessoas estão envelhecendo.” Kapisillit já teve quase 500 moradores em seu auge, disse Kristiane Josefsen, residente de longa data. Hoje, restam apenas 37. Josefsen, nascida em 1959, trabalha com pele de foca — lavando, processando e raspando para vender em Nuuk para a confecção de trajes típicos.
“Raspar peles de foca é muito desgastante para o corpo”, disse ela.
Mas, embora planeje se aposentar este ano, ela não pretende ir embora. “Vou ficar aqui. Este é o meu lugar”, disse ela. “Esta é a minha terra. A Groenlândia é a minha terra.”
Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações, e portanto sem a revisão do autor. As referencias são encontradas no original. . As opiniões expressas são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente as visões do ODTI.
O Dia Nacional de Luta “Fora ICE”, que se originou a partir da luta em Minneapolis, alcançou milhares de pessoas nos Estados Unidos, com destaque para o Oregon e a California, fechando escolas e empresas em mais de 120 cidades.
Os assassinatos de Renee Good e Alex Pretti por agentes federais em Minnesota ampliou a indignação e os protestos contra Trump em todo a país. A triste ironia de Good e Pretti, ambos brancos, terem sido mortos na mesma cidade em que morreu George Floyd em 2020, assassinado por um policial de Minneapolis, ilustra a insegurança que ameaça os Estados Unidos. Cabe lembrar que o assassinato de Floyd, que impulsionou o movimento “Black lives”, também marcou a fim da primeira administração de Trump.
O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto da Anadolu Agency (AA), a tradicional agência de notícias turca, fundada em abril de 1920.
Protestos em massa contra a agência federal de imigração ocorrem nos EUA, com milhares de pessoas se manifestando na Califórnia e no Oregon.
Darren Lyn, publicado em 31 de janeiro de 2026 e atualizado no dia 01 de fevereiro.
Grandes manifestações contra as operações do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) ocorreram em todo os EUA na sexta-feira, com milhares de manifestantes tomando as ruas em um dia nacional de luta que os organizadores denominaram “Fora ICE”.
A insatisfação de muitos americanos com os agentes do ICE foi exemplificada pelos milhares de manifestantes que foram às ruas de Los Angeles.
Na sequência da repressão à imigração promovida pelo governo Trump, que resultou nas mortes de Renee Good e Alex Pretti, ambos americanos, por agentes do ICE no estado de Minnesota, manifestantes em Los Angeles expressaram sua frustração e medo com as violentas operações do ICE, que têm ocorrido em muitos estados governados por democratas, como a Califórnia.
“Eu nasci em Los Angeles e vi tantos vizinhos, tantos amigos meus — pessoas que ajudaram a construir esta cidade — sendo tirados de nós”, disse um manifestante à emissora de televisão KTLA. “Não posso ficar parado e assistir ao que está acontecendo.”
Além de marchas e manifestações, os organizadores do movimento ICE Out incentivaram os americanos a faltarem ao trabalho, à escola e a deixarem de fazer compras em lojas na sexta-feira, em solidariedade à oposição ao programa federal de imigração do governo Trump.
Manifestantes entraram em confronto com a polícia em frente ao prédio federal em Los Angeles, onde atiraram lixo e garrafas contra os policiais, o que levou ao uso de spray de pimenta contra a multidão, segundo repórteres que cobriam os protestos.
Líderes locais, incluindo o deputado federal Brad Sherman e o vereador de Los Angeles Bob Blumenfield, juntaram-se às manifestações, criticando as táticas federais contra a imigração e exigindo mudanças nas políticas do governo Trump.
Sherman disse a repórteres que esperava que os protestos levassem o governo a reconsiderar sua abordagem, enquanto Blumenfield afirmou que os manifestantes estavam levantando suas vozes “o mais alto que podemos aqui… e em todo o país”.
Centenas de estudantes do ensino médio em Los Angeles fizeram greves, juntando-se aos protestos em vez de frequentar as aulas. Algumas empresas no sul da Califórnia anunciaram o fechamento temporário de suas lojas em apoio ao movimento anti-ICE.
“Está crescendo”, disse um manifestante à KTLA. “Isso nos mostra que somos mais numerosos do que eles.”
Vigílias à luz de velas foram planejadas para a noite de sexta-feira em homenagem a Good, Pretti e outros mortos durante os protestos relacionados à imigração em Minnesota.
Os manifestantes esperam que os protestos em massa pressionem os líderes federais a diminuir a agressividade e a violência das operações do ICE.
No estado do Oregon, veteranos americanos realizaram um protesto no prédio federal da cidade de Eugene para expressar sua oposição às injustiças percebidas na conduta violenta dos agentes do ICE durante as batidas de imigração.
Membros do grupo Veteranos pela Paz enfatizaram que seu objetivo é responder às táticas violentas do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA) realizando manifestações pacíficas e não violentas.
“Não somos violentos, estamos protestando pacificamente”, disse a porta-voz do grupo, Pat Driscoll, em entrevista. “Não vamos deixar isso acontecer sem nos manifestarmos e expressarmos nossas opiniões.”
O objetivo do grupo é promover a união entre o governo e o povo americano afetado pelas violentas operações do ICE. “Precisamos nos unir”, disse Driscoll.
“Precisamos nos organizar juntos, porque ninguém mais vai nos proteger.”
Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações, e portanto sem a revisão do autor. As referencias são encontradas no original. . As opiniões expressas são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente as visões do ODTI.
Diplomata afirma que o mundo vive uma ruptura histórica, enquanto o Brasil mantém um discurso defasado e uma política econômica incompatível com um projeto de desenvolvimento soberano.
O mundo não atravessa uma simples transição, mas uma “ruptura da ordem internacional a que nós estávamos acostumados”. A afirmação é do embaixador Rubens Ricupero, em entrevista ao Projeto Brasil, com os jornalistas Luís Nassif e Sergio Leo, analisando a atual conjuntura geopolítica.
Ricupero reconhece o enfraquecimento do sistema multilateral, mas pondera que as organizações internacionais não pararam totalmente de funcionar, observando que “boa parte do comércio mundial continua regido pelas regras da OMC” e que o sistema ainda opera em conflitos que não envolvem diretamente as divergências entre as três superpotências nucleares (EUA, China e Rússia).
Diplomacia do Brasil e o “Soft Power”
Ricupero enfatiza que a influência brasileira é estritamente diplomática. Ele afirma que o Brasil “só tem condições de influir no multilateral”, pois não possui poder militar estratégico ou nuclear. Para ele, o país depende do seu “soft power”, que se manifesta através de “propostas e do diálogo” em fóruns como a ONU.
O embaixador elogia o discurso recente do primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, mas lamenta que o Brasil não tenha sido o protagonista dessa fala.
Ricupero argumenta que o discurso brasileiro “não se atualizou em relação ao mundo atual”, mantendo-se preso a conceitos dos anos 70 e 80, como a dicotomia Norte-Sul, que já não refletem a posição do Brasil como grande exportador global.
Política Industrial e “Taxa de juros injustificável”
Sobre o desenvolvimento econômico, Ricupero é enfático ao dizer que o caminho para a competitividade não passa pelo protecionismo tarifário, mas pela incorporação de tecnologia. O embaixador defende que a “política industrial hoje em dia (…) tem que ser uma política de conhecimento”.
Ele cita a Embraer e a Embrapa como setores onde o Brasil é indiscutivelmente competitivo porque houve “investimento pesado e um esforço planejado de aumento da qualidade” e “incorporação de conhecimento”.
O embaixador aponta que a política macroeconômica brasileira, especialmente com as atuais taxas de juros, é incompatível com um projeto de crescimento industrial.
Ele classifica o nível da taxa SELIC como “injustificável”.
O Impacto da Operação Lava Jato
De acordo com os documentos, a Operação Lava Jato prejudicou a exportação de serviços de engenharia ao provocar a liquidação das grandes empresas brasileiras do setor, que antes possuíam forte competitividade internacional.
O embaixador Rubens Ricupero afirma que o Brasil deu um “tiro no pé” ao permitir que a operação liquidasse companhias como Odebrecht e Andrade Gutierrez. Essas empresas não apenas dominavam o mercado interno, mas eram capazes de vencer licitações internacionais de alta complexidade, como a construção do metrô de Miami.
Ele argumenta que o combate à corrupção deveria ter focado na punição de indivíduos e não na destruição das empresas, o que resultou na perda de mercado para competidores estrangeiros.
Assista à íntegra do episódio do Projeto Brasil com Rubens Ricupero no YouTube:
Diante do sucesso da greve geral de 23 de janeiro e em candente resposta ao assassinato de Alex Pretti, o sindicalista morto no dia 24, a população de Minneapolis vai fazer nova greve geral já no dio 30 de janeiro. O assassinato de Pretti teve grande repercussão no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Mas as notícias não informaram que a morte foi a resposta do governo Trump ao sucesso da greve geral.
A característica principal do fascismo não é a violência ou racismo, mas a resposta dos governos ao crescimento do movimento dos trabalhadores, a tentativa de destruir por quaisquer meios o movimento social que, em virtude da crise, não pode mais ser enfrentado por meios democráticos.
O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto do blog Popular Resistance, que se propõe a missão de “é contribuir para a união dos movimentos pela paz e pela justiça económica, racial e ambiental num movimento independente, não violento e diversificado, capaz de pôr fim ao poder da riqueza concentrada, transferir o poder para o povo e priorizar as necessidades humanas em detrimento da ganância corporativa”.
Minneapolis: Segunda greve geral marcada para 30 de janeiro
Por Tom Akaolisa, MinneapoliMedia. Publicado em 27 de janeiro de 2026
Sindicatos estudantis e organizações trabalhistas do campus da Universidade de Minnesota estão convocando uma segunda greve geral para sexta-feira, 30 de janeiro de 2026, intensificando um movimento crescente que busca responsabilização pelos recentes confrontos fatais envolvendo agentes federais de imigração e a retirada desses agentes de Minnesota.
A convocação da continuidade a uma greve geral histórica em todo o estado, em 23 de janeiro, que os organizadores definiram como um “apagão econômico”, incentivando os moradores a ficarem em casa, sem ir ao trabalho ou à escola, e a evitarem compras. Essa primeira ação atraiu participação em massa nas Cidades Gêmeas e arredores, incluindo grandes manifestações no centro da cidade realizadas em meio a temperaturas abaixo de zero, e preparou o terreno para o que os organizadores descrevem como uma segunda onda de resistência, mais focada, centrada nos campi universitários e em prédios federais.
O catalisador
Os organizadores afirmam que a nova ação foi impulsionada por uma série de tiroteios fatais envolvendo agentes federais durante operações intensificadas de fiscalização da imigração em Minneapolis. Eles apontam duas mortes como centrais para suas reivindicações:
Renée Nicole Good, cujo assassinato por um agente federal de imigração em uma operação anterior galvanizou grupos universitários e ajudou a precipitar o “Dia da Verdade e da Liberdade” de 23 de janeiro, segundo os organizadores.
Alex Pretti, um enfermeiro de UTI de 37 anos e funcionário do Departamento de Assuntos de Veteranos dos EUA, que foi baleado e morto por agentes federais no sábado, 24 de janeiro de 2026, um dia após a primeira greve. Os organizadores citam vídeos que circularam publicamente e relatos de testemunhas oculares indicando que Pretti estava gravando os agentes e tentando ajudar pessoas presentes quando foi imobilizado e baleado.
As autoridades federais não divulgaram um relato público completo das circunstâncias que envolvem nenhuma das mortes. As investigações continuam em andamento e as autoridades alertaram contra tirar conclusões precipitadas enquanto as análises prosseguem.
O que o dia 30 de janeiro exige:
Ao contrário da ampla paralisação econômica em todo o estado, defendida na semana passada, a ação de 30 de janeiro foi concebida como uma escalada ancorada nos campi universitários. Os organizadores estão promovendo greves, palestras e protestos coordenados em instalações federais, além de renovar os apelos para a suspensão de atividades laborais e gastos.
A coalizão organizadora inclui o Sindicato dos Trabalhadores Graduados da UMN, o AFSCME Local 3800, a União de Estudantes Negros e o Governo Estudantil de Graduação, entre outros.
Suas reivindicações declaradas incluem:
a retirada imediata dos agentes federais do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) e da Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP) de Minnesota;
a responsabilização criminal e legal dos agentes envolvidos nas mortes de Good e Pretti;
e o fim do que os organizadores descrevem como neutralidade institucional, com maior proteção para estudantes internacionais e imigrantes dentro do sistema universitário.
Resposta do campus e contexto trabalhista:
Antes da ação de 23 de janeiro, a Universidade de Minnesota informou aos alunos e funcionários que apoiava a expressão cívica legal, mas esperava que as aulas e as atividades continuassem, orientando os funcionários a usar as licenças aprovadas para ausências. Até a publicação desta matéria, não estava claro se orientações semelhantes seriam emitidas antes de 30 de janeiro.
Líderes sindicais que apoiam o movimento argumentam que a estrutura de greve, há muito associada ao poder no local de trabalho, é uma resposta apropriada quando os canais tradicionais falham em garantir transparência ou responsabilização. Enquanto isso, os organizadores estudantis enquadram o momento como um teste dos valores da universidade e de sua responsabilidade em proteger os membros vulneráveis de sua comunidade.
Primeira greve vs. segunda greve:
23 de janeiro: Um “apagão econômico” em todo o estado que enfatizou a participação em massa, com sindicatos, líderes religiosos e centenas de empresas participando de manifestações e fechamentos.
30 de janeiro: Uma escalada direcionada, focada em paralisações no campus e protestos em locais federais, explicitamente ligados ao assassinato de Pretti e ao que os organizadores descrevem como o medo contínuo gerado pela atividade de fiscalização da imigração.
O sucesso ou o fracasso da segunda greve dependerá da participação em todos os campi universitários, da resposta das principais empresas e de como as agências estaduais e locais se prepararem para as manifestações. Para os organizadores, no entanto, o objetivo já está claro: manter a pressão até que, segundo eles, haja responsabilização e que os agentes federais deixem Minnesota.
Gregory Bovino — o alto comandante da Patrulha da Fronteira que supervisionou a ofensiva anti-imigração de Trump em Minnesota — está, segundo relatos, arrumando as malas e deixando o estado, Essa retirada, que inclui a saída de alguns agentes federais, faz parte claramente das tentativas de Trump de desescalar a situação em Minnesota. Ela ocorre logo após um telefonema entre Donald Trump e o governador Tim Walz na segunda-feira, no qual Trump afirmou que eles estavam em “sintonia”. O prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, confirmou a mudança, afirmando que Trump lhe disse que “a situação atual não pode continuar”, antes da reunião agendada para hoje entre Frey e o ex-czar da fronteira de Trump, Tom Homan.
Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações, e portanto sem a revisão do autor. As referencias são encontradas no original. . As opiniões expressas são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente as visões do ODTI.
Debate reúne geólogos e especialistas para apontar limites, riscos e caminhos para superar o papel de exportador de matéria-prima.
Como o Brasil pode transformar suas reservas minerais de terras raras em soberania nacional e autonomia tecnológica? A geóloga, pesquisadora e ex-reitora da UnB, Márcia Abrahão, trata de responder a este questionamento com uma equipe de especialistas convidados na série especial Terras Raras, do Projeto Brasil, lançado no Youtube.
O atual diretor-presidente do Serviço Geológico do Brasil (SGB/MME) Valdir Silveira e o doutor em geologia Nilson Francisquini Botelho (UnB/Universidade de Paris) destacaram o potencial estratégico do Brasil no setor, sua importância para a soberania nacional e a transição energética global.
O país possui uma das maiores reservas mundiais desses minerais, essenciais para tecnologias de ponta como semicondutores, turbinas eólicas e veículos elétricos. Especialistas defendem que o Brasil deve superar o estágio de exportador de matéria-prima para dominar o ciclo tecnológico completo, investindo em pesquisa e purificação. Eles ressaltaram, ainda, a necessidade de políticas públicas integradas que fortaleçam instituições como a CPRM e a Universidade de Brasília (UnB).
Silveira afirma que o Brasil ocupa a segunda ou terceira posição mundial em reservas de terras raras. Ele destaca que o país possui diversidade e complexidade geológica em estados como Goiás, Amazonas, Roraima e no litoral, o que garante fertilidade para depósitos de classe mundial.
O especialista recorda que, nos anos 80, o Brasil possuía uma cadeia de valor de terras raras e tecnologias de processamento mais evoluídas que as da China.
Contudo, uma decisão política no início dos anos 90 (governo Collor) interrompeu os investimentos por considerar o mercado pequeno na época, o que ele classifica como um “grande erro” que agora exige uma corrida contra o tempo para recuperar o domínio tecnológico.
Desafios a superar
Como uma das principais representações do setor, Valdir Silveira afirmou que Serviço Geológico do Brasil conta com apenas 277 geólogos e hidrólogos para todo o país, um número até dez vezes menor do que o de países como China e Austrália.
Ele defende o uso de aerogeofísica profunda para saltar etapas de mapeamento e o fortalecimento do Plangel (plano de 10 anos para minerais da transição energética).
Silveira posiciona-se contra a criação de novas empresas estatais específicas para cada mineral (como uma “empresa de terras raras”) ou legislações isoladas.
Para ele, o Brasil já possui os órgãos necessários — SGB (pesquisa), ANM (regulação) e CETEM (tecnologia mineral) — e o que falta é dar recursos, pessoal e condições de trabalho para que essas instituições atuem de forma integrada com as universidades.
Nilson Francisquini Botelho, professor titular da Universidade de Brasília (UnB) e especialista em geologia com doutorado pela Universidade de Paris, oferece uma perspectiva científica e estratégica sobre o papel das terras raras no Brasil. Ele explicou que das 17 terras raras, ele destaca que apenas quatro elementos são realmente vitais devido ao seu alto valor e demanda: praseodímio, neodímio, disprósio e térbio.
Botelho destacou o potencial dos depósitos de argila iônica e a necessidade de conhecimento técnico para transformar reservas em produção real. Segundo ele, esses depósitos são mais fáceis de explorar e são os únicos que contêm abundância de terras raras pesadas (disprósio e térbio), que atualmente são monopólio da China.
“Otimismo exagerado”? A realidade brasileira
Contudo, Botelho alerta para o otimismo exagerado sobre as reservas brasileiras (estimadas em 21 milhões de toneladas). Ele afirma que o Brasil ainda está em estágio inicial e muitas das reservas registradas são de depósitos complexos e de difícil exploração tecnológica, e o que é realmente explotável a curto e médio prazo é uma fração bem menor do total.
Em sua participação na série especial, Adão Villaverde, membro do Conselho de Inovação da FIERGS e detentor do mérito científico brasileiro, aborda o tema das terras raras e minerais críticos sob a ótica da geopolítica e da soberania nacional.
Para ele, esses recursos não são apenas matérias-primas, mas “ativos intangíveis da inovação” e do conhecimento, fundamentais para que o Brasil alcance independência científica e tecnológica.
Ele ressalta que potências como a China e os Estados Unidos (através do Chips Act) estão investindo centenas de bilhões de dólares para garantir a hegemonia nesse setor. O especialista enfatiza que não basta possuir o minério; é preciso dominar o conhecimento técnico-científico para realizar o processamento completo.
Villaverde enfatiza que a mineração deve ocorrer sob um rigoroso rastreamento socioambiental para garantir o desenvolvimento sustentável e a autonomia geopolítica frente à disputa entre China e Estados Unidos.
O pesquisador é um forte defensor das empresas públicas como indutoras de desenvolvimento.
Ele cita a CEITEC (semicondutores) como exemplo de instituição que cria “massa crítica” e forma profissionais altamente qualificados que, muitas vezes, acabam suprindo o setor privado.
Assista aos dois episódios da série especial Terras Raras, com Márcia Abrahão:
A série propõe uma reflexão sobre a importância estratégica desses minerais na transição energética e nas disputas geopolíticas.
O Projeto Brasil apresenta a série especial “Terras Raras: soberania, energia e futuro”. A série é conduzida pela geóloga e pesquisadora da UnB, Márcia Abrahão, e reúne especialistas de diferentes áreas para discutir os desafios e oportunidades do Brasil diante dessa agenda estratégica.
A nova série de entrevistas da TV GGN, produzida para o Projeto Brasil estreia nesta semana, às 17h.
Os programas são comandados pela geóloga e pesquisadora Márcia Abrahão, ex-reitora da da Universidade de Brasília (UnB), que recebe especialistas de diversas áreas do conhecimento para debater o papel do Brasil na exploração e no uso das Terras Raras, um conjunto de 17 elementos químicos essenciais para tecnologias como baterias, turbinas eólicas, veículos elétricos e equipamentos de alta precisão.
Os episódios vão ao ar diariamente às 17h e abordam diferentes dimensões do tema:
O que são Terras Raras e por que ganharam importância mundial: A Agenda de Pesquisa no Brasil (Episódio 1): com Márcia Abrahão (UnB), Nilson Francisquini Botelho (UnB) e Valdir Silveira (Diretor-presidente interino do Serviço Geológico do Brasil – SGB/MME).
A centralidade das Terras Raras na disputa geopolítica contemporânea (Espisódio 2): com Márcia Abrahão (UnB) e Diógenes Breda (economista, UFU).
Caminhos para uma política soberana de Terras Raras no Brasil: oportunidades, desafios e estratégias (Espisódio 3): com Márcia Abrahão (UnB) e Adão Villaverde (PUC-RS).
Terras Raras e transição energética: implicações para o desenvolvimento econômico do Brasil e as mudanças climáticas (Episódio 4): com Márcia Abrahão (UnB) e Rosana Santos (Instituto E+ Transição Energética).
As terras raras e a legislação mineral e ambiental no Brasil (Episódio 5): com Márcia Abrahão (UnB) e Ana Paula Lemes (Doutoranda Direito UFRJ).
A proposta da série é contribuir para o debate público sobre como o Brasil pode desenvolver uma política soberana de Terras Raras, conectando pesquisa científica, desenvolvimento industrial e sustentabilidade ambiental.
O acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia (UE), apresentado como marco diplomático após mais de duas décadas de negociações, pode aprofundar a fragilidade estrutural da indústria brasileira caso não venha acompanhado de uma política industrial articulada, agressiva e de longo prazo. O alerta foi feito por especialistas no programa especial do Projeto Brasil, transmitido na TV GGN, que discutiu os impactos econômicos, produtivos e geopolíticos do tratado.
Segundo as professoras Marta Castilho, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Miriam Saraiva, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), o acordo explicita uma assimetria estrutural entre os dois blocos. Enquanto a União Europeia opera com uma base industrial sofisticada, diversificada e tecnologicamente avançada, o Mercosul permanece concentrado em exportações agrícolas e minerais, o que eleva o risco de reprimarização da economia.
“O acordo tende a reforçar um padrão clássico Norte-Sul, em que exportamos produtos primários e importamos bens de maior valor agregado”, afirmou Castilho. Para ela, sem instrumentos de defesa e investimentos produtivos coordenados, o Brasil corre o risco de aprofundar sua trajetória de desindustrialização.
Indústria sob pressão
Entre os setores mais vulneráveis estão os segmentos químico, farmacêutico, automobilístico, de máquinas e equipamentos e de bens de capital, justamente aqueles com maior densidade tecnológica e hoje dependentes de proteção tarifária para competir. Segundo Castilho, a redução dessas barreiras pode ser “perniciosa” para cadeias produtivas estratégicas.
No setor automotivo, por exemplo, há o risco de “arbitragem de produção”: empresas europeias com fábricas no Brasil podem concluir que é mais vantajoso produzir na Europa e exportar ao Mercosul, em vez de manter plantas industriais locais.
Outro ponto sensível envolve os minerais críticos, como o lítio. O acordo limita a imposição de impostos sobre a exportação desses recursos, o que, segundo Castilho, “desestimula o beneficiamento industrial” e empurra países como Brasil e Argentina para o papel de fornecedores de matéria-prima na transição energética global.
Agronegócio: ganhos aquém do esperado
Embora o agronegócio brasileiro tenha sido historicamente um dos principais defensores do acordo, os ganhos concretos ficaram abaixo das expectativas. Setores agrícolas europeus, especialmente na França, resistiram fortemente à abertura, resultando em cotas reduzidas e concessões mais restritas do que o inicialmente previsto.
No Brasil, segmentos como o vinícola se preparam para enfrentar concorrência direta de produtos europeus, com queda expressiva de tarifas. Segundo Saraiva, esses setores tendem a aceitar a abertura e, em contrapartida, pressionar o governo por políticas de competitividade, como redução do Custo Brasil e melhorias em logística e financiamento.
Compras públicas como instrumento de defesa
Apesar do cenário adverso, o Brasil conseguiu negociar exceções relevantes no capítulo de compras governamentais. Áreas estratégicas, como o Sistema Único de Saúde (SUS), ficaram fora da abertura irrestrita, preservando o poder do Estado de direcionar licitações para estimular a produção nacional.
“Foi uma das partes mais difíceis da negociação”, explicou Saraiva. Segundo ela, enquanto a União Europeia defendia abertura total, o Brasil adotou postura protetiva, especialmente após renegociar pontos flexibilizados na versão assinada em 2019, durante o governo Jair Bolsonaro.
O resultado permite que União, estados e municípios mantenham áreas protegidas, usando o poder de compra pública como instrumento de política industrial, uma das poucas ferramentas diretas ainda disponíveis em um contexto de abertura comercial.
Continuidade sob risco
Outro desafio estrutural é a instabilidade das políticas industriais no Brasil. Para Saraiva, a continuidade depende menos dos governos e mais do engajamento do próprio setor privado.
“O setor beneficiado precisa agir como força de veto contra retrocessos”, disse, citando o papel da Confederação Nacional da Indústria (CNI) ao barrar tentativas de desmonte da Tarifa Externa Comum do Mercosul durante o governo Paulo Guedes.
Sem esse compromisso, avalia, qualquer avanço tecnológico obtido nos anos de transição pode ser revertido por mudanças políticas, transformando o acordo em mais um episódio de abertura sem contrapartida produtiva.
Geopolítica e rearranjo global
Além dos efeitos econômicos, o acordo tem peso estratégico em um cenário de fragmentação do comércio internacional e retração do multilateralismo. Para Saraiva, trata-se de um reposicionamento do Mercosul diante da crescente rivalidade entre Estados Unidos e China.
“A União Europeia está bastante fragilizada frente às pressões norte-americanas, especialmente em segurança e defesa”, afirmou. “Esse não é apenas um acordo comercial, é um acordo de associação interregional, que inclui cooperação política e tecnológica.”
Ela citou como precedente a parceria entre Brasil e Suécia no programa dos caças Gripen, exemplo de transferência tecnológica viabilizada por acordos estruturados de cooperação.
Entre desenvolvimento e dependência
Para Castilho, o sucesso ou fracasso do acordo dependerá diretamente da capacidade do Estado brasileiro de articular política comercial, industrial e tecnológica. Sem isso, o tratado pode se converter em uma abertura de mercado assimétrica, com efeitos duradouros sobre a soberania produtiva.
“O acordo não pode ser visto como um fim em si mesmo”, resumiu. “Ele precisa ser tratado como uma ferramenta dentro de um projeto nacional de desenvolvimento.”
O risco, caso contrário, é consolidar um modelo econômico baseado na exportação de commodities e na importação de tecnologia.
Com a adesão nacional de muitos sindicatos de trabalhadores – que farão ações de solidariedade, com a adesão de pequenos comerciantes da cidade e o apoio das organizações locais, esta sexta-feira em Minnesota trará uma grande greve de massas e o surgimento de um movimento que poderá limitar ou até colocar um fim nas arbitrariedades de Trump.
Líderes sindicais de Minnesota discutem lições de organização enquanto movimento de greve ganha força nacional
Mike Elk, publicado em 23 de janeiro de 2026
Nesta sexta-feira (23), dezenas de milhares de trabalhadores em Minneapolis devem ir às ruas em uma greve geral em massa. O “Dia da Verdade e da Liberdade” foi endossado por todas as principais organizações sindicais de Minnesota. Todas as principais escolas e instituições culturais, bem como centenas de restaurantes e pequenas empresas, devem fechar.
Da mesma forma, o rastreador de greves do Payday Report documentou pelo menos 215 ações de solidariedade em todo o país. Os líderes sindicais em Minneapolis esperam que a greve se torne um modelo de como líderes sindicais e comunitários em todo o país respondem a ataques do ICE em suas cidades a qualquer momento.
Na terça-feira, o presidente do CWA Local 7520, Kieran Knutson, conversou com o Payday Report e nossos leitores sobre como surgiu o movimento de greve geral de Minneapolis e o que vem a seguir. Ele enfatizou que espera que Minneapolis mostre a outras cidades como lutar quando o ICE ocupar suas cidades. (Assista Knutson falar sobre lições para o movimento trabalhista aqui)
Knutson afirma que a ideia de uma greve geral surgiu quando o SEIU Local 26 propôs um dia de ação em massa a um grupo de sindicatos progressistas. O SEIU Local 26, cujos membros são em grande parte trabalhadores imigrantes da limpeza, buscou ajuda de outros sindicatos para lutar contra as duras consequências das batidas do ICE.
“Depois que Renee Good foi morta, acho que muitos de nós dissemos: precisamos agir. Precisamos fazer algo agora”, disse Knutson, cujo sindicato local da CWA foi o primeiro a apoiar a convocação do SEIU Local 26, ao Payday Report.
Ele afirma que o movimento trabalhista de Minneapolis aprendeu com as paralisações em massa que se seguiram ao assassinato de George Floyd pela polícia em junho de 2020, quando mais de 600 greves ocorreram no mês seguinte à morte de Floyd, de acordo com o Payday Report.
“[O movimento sindical das Cidades Gêmeas] tem experiência com lutas e com a relação com movimentos sociais que emergem da comunidade e, à medida que emergem da comunidade, influenciam os locais de trabalho. E se os sindicatos estiverem atentos, eles também podem se tornar parte disso”, diz Knutson.
As greves após o assassinato de George Floyd em 2020 não foram greves trabalhistas tradicionais, no sentido de que não foram convocadas por sindicatos. Muitas delas foram convocadas organicamente online por trabalhadores que simplesmente pararam de trabalhar. Além disso, muitas pequenas empresas fecharam em solidariedade ao protesto, criando uma energia que levou a uma paralisação em toda a cidade.
Tecnicamente, é ilegal para os sindicatos convocarem uma greve, então eles se referem a ela simplesmente como um “Dia da Verdade e da Liberdade”. No entanto, os direitos dos imigrantes e os grupos comunitários não estão sujeitos a essas restrições. Cartazes espalhados pelas Cidades Gêmeas (Minneapolis e St. Paul) anunciavam: “Sem trabalho, sem escola, sem compras em 23 de janeiro”.
“Flexibilidade é importante.”“Eu também acho que ter iniciativa e descentralizar a campanha, permitindo que diferentes pessoas imprimam sua própria marca nela, é uma forma normal de os movimentos existirem”, diz Knutson.
Centenas de restaurantes, bares e supermercados já anunciaram que fecharão em apoio ao movimento de greve. “Há uma grande parte da [comunidade de pequenos negócios] que simpatiza conosco, em parte porque muitos restaurantes perderam suas equipes de cozinha porque as pessoas estão se escondendo”, diz Knutson.
“Acho que os pequenos negócios que aderirem à causa estão se unindo. Isso ajuda a criar um clima de paralisação na cidade.” Mais do que isso, com muitos líderes empresariais da cidade apoiando a greve, há pressão sobre os empregadores para que não retaliem ou demitam os trabalhadores que aderirem à paralisação na sexta-feira, 23 de janeiro.
“Acho que muitos deles não vão querer ser o símbolo do inimigo deste movimento”, diz Knutson. “Se alguém demitir um funcionário por causa da greve, vai colocar o nome dessa pessoa em evidência, e há uma grande chance de que ela vá à falência em breve, ou que pague um preço alto pelo que está fazendo.”
A greve também inclui um elemento de boicote do consumidor, com os organizadores orientando os apoiadores a não irem à escola, ao trabalho e às compras. Em particular, os grupos estão criticando a Target, que tem sido alvo de críticas por cooperar com o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos). A Target é uma das maiores empregadoras de Minneapolis, detentora dos direitos de nomeação do campo de beisebol e da arena da NBA/WNBA da cidade.
Knutson acredita que pressionar grandes empregadores como Target e Home Depot, que têm cooperado com o ICE, pode criar oportunidades para os sindicatos se organizarem. Muitos líderes sindicais em Minnesota estão entusiasmados com as possibilidades que a greve pode inspirar, não apenas em seu estado, mas em todo o país. Mais cidades podem presenciar greves se o ICE tentar ocupá-las, como em Minnesota.
A coalizão May Day Strong já está convocando uma mobilização e greve em massa para o dia 1º de maio contra o ICE e o governo Trump.
“Em 1º de maio de 2026, precisamos levar o que o povo de Minnesota fará nesta sexta-feira, 23 de janeiro, para todo o país”, diz Neidi Dominguez, organizadora sindical veterana e diretora executiva da Organized Power In Numbers. “Não iremos trabalhar, não iremos às compras e nossos filhos não irão à escola naquele dia.”
Knutson afirma que os organizadores em Minnesota estão ansiosos para ver o impacto que a greve pode ter no movimento sindical, mas, à medida que novas táticas surgirem, precisarão avaliá-las constantemente.
“Não se trata de um evento isolado. O que eu quero é que seja um golpe duro, que mostre a seriedade da nossa atuação e que nos ensine lições valiosas para a construção do movimento, além de ideias para o próximo passo”, diz Knutson. “E como será esse próximo passo? O que é necessário para paralisar as cidades por um período prolongado?”
O autor, Mike Elk, é um repórter sindicala indicado ao Emmy. Ele fundou o Payday Report usando sua indenização do NLRB (Conselho Nacional de Relações Trabalhistas) por ter sido demitido ilegalmente durante a campanha sindical na Politico em 2015. Envie um e-mail para ele em [email protected].
Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações, e portanto sem a revisão do autor. As referencias são encontradas no original. As opiniões expressas são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente as visões do ODTI.
Como todos os anos, a organização não-governamental britânica OXFAM publicou seu relatório sobre o crescimento da desigualdade no mundo. Como sempre muito bem documentado e convincente, o relatório faz uma convocação pela construção de um mundo mais justo.
Um ponto central do relatório é o perigo para a democracia representado pelo poder descomunal dos bilionários. O seu lançamento no início do Fórum de Davos, o convescote anual desses bilionários, torna-se ainda mais oportuna com a presença de Trump, que vai apresentar sua proposta para tornar-se o imperador do mundo.
O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto da agência France 24.
Em Davos, a Oxfam apontou os ganhos vertiginosos na fortuna dos ultra-ricos
Por ocasião da abertura do Fórum Econômico Mundial de Davos, a Oxfam publicou seu relatório anual sobre as desigualdades no mundo. No relatório a ONG denuncia o enriquecimento contínuo dos ultra-ricos e apela aos governos para agirem para proteger o poder político da influência dos mais afortunados.
Publicado em 19 de janeiro de 2026
Na ocasião da abertura do Fórum Econômico Mundial, que acontecerá de 19 a 23 de janeiro, a ONG publicou um novo relatório* sobre o estado das desigualdades no mundo em 2025. Intitulado “Contra el Imperio de los Más Ricos”, o texto indica o crescimento contínuo da fortuna dos bilionários e ressalta os grandes perigos que representam para a democracia a concentração de riquezas em poucas mãos.
18,3 trilhões de dólares para 3.000 bilionários
Este é um novo recorde para o ano de 2025. A organização denunciou que mais de 3.000 bilionários no mundo que acumularam uma fortuna de 18.300 bilhões de dólares. Um recorde histórico proporcionado pelo aumento 16,2% de sua fortuna de em relação a 2024, cerca de 2.500 bilhões de dólares. Um ganho anual equivalente à riqueza total detida pela metade mais pobre da humanidade, cerca 4,1 bilhões de pessoas.
Este acúmulo de riqueza não para de crescer diz a Oxfam. O crescimento de 16,2% da fortuna dos bilionários em 2025 marcou um enriquecimento de três vezes mais rápido que durante os cinco anos anteriores. Portanto a riqueza dos bilionários aumentou 81% desde 2020.
“As ações da administração de Trump, incluindo a defesa da desregulamentação e o enfraquecimento de acordos para aumentar a tributação corporativa, beneficiaram os mais ricos do mundo”, afirmou a Oxfam.
O mais rico dos milionários, Elon Musk, dono – entre outras empresas – de Tesla e X (antigo Twitter), tornou-se a primeira pessoa a possuir uma fortuna superior de 500 bilhões de dólares, em outubro passado.
Menos de 70% dos ganhos dos bilionários em 2025 seriam suficientes para erradicar 26 vezes a extrema pobreza. Os bilionários do mundo inteiro poderiam igualmente doar 250 dólares de seus ganhos a cada habitante do planeta e mesmo assim continuarem enriquecendo cerca de 500 bilhões de dólares.
Face ao enriquecimento sempre mais rápido dos ultra-ricos, a Oxfam sublinha que a taxa de redução da pobreza estagnou nos níveis de 2019. A extrema pobreza está ao mesmo tempo aumentando na África. Aparecem sinais alarmantes, nomeadamente reduções no financiamento da ajuda ao desenvolvimento, de acordo com a ONG. Neste ano, os Estados-Unidos anunciaram o fechamento da USAID, o maior provedor de ajuda humanitária no mundo e a França reduziu consideravelmente o orçamento da Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD).
Os milionários tem 4 000 vezes mais chances de ocupar um posto político
Segundo a ONG os bilionários têm 4 000 vezes mais chances de ocupar um cargo político do que um cidadão comum. Nos Estados Unidos, Elon Musk, o homem mais rico do mundo, tornou-se dirigente do DOGE, órgão encarregado da eficácia governamental na administração de Donald Trump, que também é miliardário.
Ao longo do seu relatório, a Oxfam ressalta o acesso privilegiado dos mais ricos ao poder político, em detrimento da democracia e das liberdades. “Essa explosão de riquezas tem múltiplas consequências e coloca em perigo o bem comum. Os bilionários podem usar sua fortuna para adquirir poder político, influenciar os governos, obter meios de comunicação ou fazer negócios enfraquecendo toda a oposição, apoiando-se sobretudo em poderosas equipes jurídicas para garantir sua impunidade perante a lei”, explica Layla Abdelké Yakoub, ativista do Quênia.
Cada vez mais, esse dinheiro está comprando poder político, disse a Oxfam, apontando em particular para a compra de jornais e outros meios de comunicação por magnatas, como a aquisição da X por Musk ou a compra do The Washington Post por Jeff Bezos, da Amazon.
Ao tempo em que o governo Trump anunciou que as multinacionais americanas estariam isentas da alíquota mínima de imposto de 15% estipulada por um acordo internacional da OCDE, a Oxfam está apelando aos governos a fazerem uma escolha: oligarquia ou democracia. “A crescente desigualdade entre os ricos e o resto da população está resultando em um déficit político grave e insustentável. As desigualdades econômicas e políticas podem acelerar a erosão dos direitos e da segurança das pessoas a um ritmo alarmante”, denuncia Amitabh Behar, diretor executivo da ONG.
Este texto foi traduzido do francês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações.. As opiniões expressas são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente as visões do ODTI.
Trazemos neste texto a importante notícia da convocação de uma greve geral pela organização regional da AFL-CIO contra as políticas migratórias de Trump, especialmente a atividade criminosa do ICE em Minneapolis e outras cidades americanas. Todos os progressistas devem saudar a luta que a classe trabalhadora estadunidense inicia para enfrentar o trumpismo.
O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto do site noticioso PayDay Report, “que mostrou sua habilidade em influenciar a conversa no movimento sindical”.
A AFL-CIO de Minneapolis convoca greve geral para sexta-feira, enquanto o movimento se espalha para outras cidades.
Por Mike Elk
Neste fim de semana, a AFL-CIO de Minneapolis endossou uma convocação para uma greve geral para sexta-feira, 23 de janeiro, em resposta às contínuas operações e batidas do ICE em Minneapolis.
A convocação ocorre no mesmo dia em que Trump anunciou que a Guarda Nacional poderia ser mobilizada para as Cidades Gêmeas para conter os protestos. Trump já colocou em alerta 1.500 soldados da 11ª Divisão Aerotransportada e os avisou que podem ser enviados para Minnesota.
Minneapolis rapidamente se tornou o campo de batalha mais acirrado para ativistas que lutam contra o ICE, após um agente do ICE assassinar Renee Good, uma observadora legal que monitorava o ICE.
Agora, uma greve geral endossada pela AFL-CIO de Minneapolis pode intensificar a luta e inspirar sindicatos em outras cidades a entrarem em greve contra as contínuas operações do ICE. Diversas outras federações trabalhistas regionais já endossaram a greve, e outros sindicatos em todo o país podem ser ainda mais inspirados a agir.
“A Federação Regional do Trabalho de Minneapolis, AFL-CIO, juntamente com entidades regionais em todo o estado, incluindo a Federação Regional do Trabalho de Saint Paul, o Conselho Trabalhista da Área Oeste, o Conselho Trabalhista da Área Nordeste e o Conselho Trabalhista do Centro-Leste, uniram-se em solidariedade para apoiar uma poderosa luta unificada em todo o estado no dia 23 de janeiro: Dia da Verdade e da Liberdade”, declararam os sindicatos em um comunicado. “O movimento trabalhista de Minnesota está unido contra a violenta ocupação do ICE em nossas amadas cidades, que impactou diretamente os membros dos sindicatos, nossos locais de trabalho e nossas famílias.”
Chelsie Glaubitz Gabiou, presidente da Federação Regional do Trabalho de Minneapolis, AFL-CIO, disse que a greve é necessária para que os líderes empresariais quebrem o seu silêncio sobre a imigração.
“Pais estão sendo forçados a ficar em casa, estudantes estão sendo impedidos de ir à escola, temendo por suas vidas, enquanto a classe empregadora permanece em silêncio”, disse Gabiou. “Nossas federações trabalhistas estão incentivando todos a participarem no dia 23 de janeiro. É hora de cada cidadão de Minnesota que ama este estado e a ideia de verdade e liberdade levantar a voz e aprofundar sua solidariedade com nossos vizinhos e colegas de trabalho que vivem sob esta ocupação federal.”
A greve já começou a se espalhar para outras cidades dos Estados Unidos, com ações de solidariedade sendo planejadas em dezenas de cidades.
Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações.. As opiniões expressas são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente as visões do ODTI.
Este texto alerta para o perigo da volta da plantação de soja em áreas recém desmatadas da Amazônia diante da possibilidade que as grandes empresas compradoras de soja possam abandonar um acordo que veta a plantação do grão nessas áreas. O poder das empresas produtoras de soja está se tornando cada vez maior diante das pressões compradoras da economia chinesa.
Segundo a revista Forbes (17.01.2026) em outubro os Estados Unidos completaram o quinto mês sem qualquer exportação de soja para a China e ao mesmo tempo, em agosto o Brasil bateu o seu Record de exportações de soja para aquele país.
O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto do Energy Mix, uma organização canadense que compila “as melhores notícias disponíveis sobre clima e energia e as distribuímos em um boletim eletrônico gratuito que você pode solicitar “ A noticia foi originalmente publicada no boletim Grist.
Um acordo para proteger a Amazônia está se desfazendo após 20 anos
Por Frida Garza, publicado em 14 de janeiro de 2026
Há quase 20 anos, um grupo de lobby brasileiro de empresas de comércio e processamento de soja aderiu a um acordo histórico de conservação conhecido como moratória da soja na Amazônia. O acordo voluntário proíbe seus membros de comprarem soja cultivada em terras desmatadas após julho de 2008.
Os defensores do acordo afirmam que ele tem sido altamente eficaz na proteção de áreas florestais sem impedir a produção de soja nas últimas duas décadas. Sob a moratória, o cultivo de soja em outras terras — como aquelas desmatadas antes de 2008, ou pastagens ou savanas — ainda é permitido, e relatórios indicam que a produção nessas terras na Amazônia quadruplicou desde 2006.
Mas agora, relata a Grist, em meio a mudanças políticas, o acordo de desmatamento está em perigo.
Em 1º de janeiro, entrou em vigor no Mato Grosso, estado brasileiro responsável pela maior produção de soja, uma nova lei que elimina os benefícios fiscais para os membros da moratória. Esses benefícios fiscais funcionavam separadamente da moratória; no entanto, após a nova lei, o grupo de lobby dos comerciantes de soja — incluindo multinacionais como Cargill, Bunge, ADM e outras — anunciou sua intenção de deixar a moratória, o que, segundo especialistas, colocará ainda mais a floresta amazônica em risco de desmatamento.
Sem a participação dessas grandes corporações, o acordo corre o risco de se tornar praticamente ineficaz, agravando os crescentes desafios enfrentados atualmente pelos produtores agrícolas.
O êxodo dos grupos agroalimentares da moratória é “totalmente contraproducente”, afirmou Glenn Hurowitz, fundador da Mighty Earth, um grupo de defesa ambiental focado na conservação. Por 20 anos, “o sucesso comercial dessas empresas dependeu da moratória da soja”, disse Hurowitz. “Acabar com ela provavelmente criará muitos desafios de marketing e acesso ao mercado para elas.”
Nos últimos anos, as críticas ao acordo de conservação têm aumentado, alegando que ele privilegia essas mesmas corporações multinacionais em detrimento dos produtores agrícolas brasileiros. Os produtores de soja e pecuaristas há muito se opõem à moratória, afirmando que ela prejudica seus negócios. (A criação de gado depende da produção de soja, e um dos principais usos da soja no mundo é a alimentação animal.)
Os fazendeiros brasileiros têm pressionado o estado do Mato Grosso para que restabeleça as condições de concorrência entre eles e os comerciantes de soja, que um grupo de pressão agrícola chamou de “cartel de compras”. A discordância atingiu o ápice no ano passado, quando o órgão regulador da concorrência do Brasil tentou anular a moratória, ordenando que as empresas participantes deixassem de cumpri-la ou enfrentassem multas pesadas.
A nova lei tributária do Mato Grosso parece ter a intenção de promover esse reequilíbrio. Segundo uma estimativa, os subsídios fiscais para as empresas participantes da moratória totalizaram US$ 840 milhões entre 2019 e 2024.
João Brites, o diretor de crescimento e inovação da HowGood, uma startup que ajuda varejistas e fabricantes de alimentos a descarbonizar suas cadeias de suprimentos, classificou a saída dos comerciantes do acordo como uma “grande perda”.
A Cargill encaminhou os pedidos de comentários à Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (ABIOVE), o grupo de lobby que anunciou sua decisão de deixar a moratória na semana passada. Em um comunicado à imprensa, a ABIOVE confirmou que iniciou conversas para se retirar do acordo sobre a soja, acrescentando que outras “políticas públicas para a preservação e o controle do desmatamento”, como o Código Florestal brasileiro, continuarão em vigor.
“O legado de monitoramento e a expertise adquirida ao longo de quase 20 anos não serão perdidos”, escreveu a entidade.
Mas Brites afirmou que o enfraquecimento da moratória provavelmente terá repercussões negativas para a ecologia da Amazônia e sua capacidade de sequestrar carbono. O desmatamento libera o dióxido de carbono armazenado nas árvores de volta para a atmosfera, transformando algumas partes da Amazônia de sumidouros de carbono em fontes de carbono. Também ameaça a biodiversidade do ecossistema, à medida que as espécies sofrem perda de habitat. À medida que as espécies sofrem com a perda de habitat, uma das formas mais importantes pelas quais o desmatamento deteriora o meio ambiente está relacionada à água, afirmou Brites.
O ciclo da água — pelo qual as árvores absorvem água do solo, transpiram-na para a atmosfera e essa água cai na forma de precipitação sobre a paisagem — é de importância crucial na Amazônia, especialmente em áreas mais distantes do oceano. Se as árvores desaparecerem, “você estará prejudicando a capacidade desses ecossistemas locais de serem resilientes. Você estará impactando a quantidade de chuva”, disse Brites, acrescentando que a precipitação também está “diretamente ligada à produtividade agrícola”.
O anúncio da ABIOVE é um “péssimo sinal de que o mercado não quer mais seguir nessa direção de sustentabilidade, o que é realmente muito ruim”, disse Ane Alencar, diretora de ciência do Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia (IPAM).
Existem muitas iniciativas públicas e privadas para preservar áreas florestais na Amazônia — e muitas acusações de greenwashing. Mas a moratória da soja foi considerada especialmente bem-sucedida nos últimos 20 anos em atrair grandes corporações para a sustentabilidade. Na ausência desse acordo, as empresas certamente ainda podem assumir e cumprir compromissos com a conservação e a biodiversidade. Por exemplo, a Cargill, que compra soja de agricultores brasileiros e vende produtos derivados da soja para o McDonald’s e outras grandes redes de supermercados, afirmou que continuará trabalhando para atingir sua meta de tornar suas cadeias de suprimentos “livres de desmatamento” até 2030.
Mas esse prazo ainda está a alguns anos de distância, apontou Brites, o que significa que a corporação ainda pode obter matéria-prima de áreas recém-desmatadas até lá — enquanto que, sob a moratória da soja, ela havia prometido não fazê-lo.
O enfraquecimento da moratória da soja também ameaça terras indígenas na Amazônia, à medida que os produtores agrícolas buscam novas áreas para expansão. “Há um risco”, disse Alencar, especialmente se as terras indígenas não forem devidamente demarcadas.
A notícia da ABIOVE surge pouco depois da COP30, a cúpula climática realizada em Belém, no Brasil, onde o país anfitrião reforçou seu compromisso com a proteção de suas florestas. Contrariando a posição defendida na COP, esse desenvolvimento pode refletir a menor pressão política e social que o setor privado sente para agir, visto que governos como o da segunda administração Trump nos Estados Unidos estão abertamente retrocedendo em iniciativas de sustentabilidade e combate ao clima.
“Em toda a minha vida — não apenas na minha carreira, mas em toda a minha vida — nunca vi um momento em que as elites políticas se importassem menos com a natureza”, disse Hurowitz.
Ele acrescentou que empresas de comércio de commodities como a Cargill e outras terão que se esforçar mais para demonstrar seu compromisso com a proteção das florestas.
Haverá “um número significativo de consumidores provavelmente preocupados com o fato de estarem sendo cúmplices da destruição da floresta amazônica”, disse Hurowitz.
Afinal, essa pressão foi um dos motivos pelos quais, há 20 anos, a Cargill e outras empresas se uniram e aderiram à moratória da soja. “Isso se tornou um verdadeiro problema de imagem para essas empresas”, afirmou. Resta saber se isso se repetirá.
Esta notícia foi atualizada com uma resposta da ABIOVE.
Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações.. As opiniões expressas são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente as visões do ODTI.
Este texto do Página 12 mostra as péssimas condições que enfrentam os argentinos diante da política econômica criminosa de Milei, Nem mesmo o principal sindicato argentino, o Sindicato dos Comerciários consegue repôr os salários corroídos pela inflação. Com o grande aumento do trabalho precário e informal no país é possível imaginar a terrível situação da maioria dos trabalhadores argentinos.
O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto do Página 12, o conhecido periódico argentino.
A âncora imposta pelo Governo afundou o poder de compra
Os salários diminuíram na maioria dos sindicatos
Em novembro, registrou-se uma queda real média de 4,5% em 80% dos acordos coletivos.
Por Mara Pedrazzoli, publicado em 17 de janeiro de 2026
Em 2025, o Governo estabeleceu diretrizes salariais rígidas e congelou os aumentos em torno de 1,5%, insuficientes para compensar a alta dos preços. Como resultado, em novembro, o salário médio nos principais acordos coletivos havia acumulado uma perda real de 4,5% em comparação com o início do ano. A queda na renda foi generalizada e teve impacto direto no consumo e na atividade econômica interna. Na prática, os acordos coletivos atuaram como âncora para um processo de desinflação que acabou fracassando, levando a quedas persistentes nos salários reais no setor privado — uma dinâmica que se aprofundou nos meses seguintes e com a aceleração da inflação que marcou o final do ano.
Diante da imposição, pelo governo, de uma diretriz salarial excessivamente exigente — com aumentos mensais de 1,5% entre julho e novembro, resultando em uma significativa perda do poder de compra —, as negociações tiveram que ser reabertas em dezembro e janeiro com aumentos maiores. “A situação atual é semelhante à que ocorreu após a suspensão do controle de capitais”, observa Federico Pastrana, diretor da CP Consultora e autor de seu relatório mais recente.
A reabertura da negociação coletiva revelou que a estrutura salarial oficial era insustentável diante da alta dos preços e forçou uma correção, ainda que tardia, de uma política que corroía a renda.
No início de 2025, o governo havia pressionado por negociações abaixo de 2% ao mês, mas a disparada inflacionária em março e abril e a consequente queda real dos salários forçaram um afrouxamento das diretrizes. Posteriormente, com a desaceleração dos preços em maio e junho, o governo voltou a endurecer as diretrizes salariais. Essa oscilação nas diretrizes salariais revelou uma estratégia errática, sujeita ao ambiente inflacionário, que transferiu o custo do ajuste para os salários.
As diretrizes salariais ganharam novo fôlego em dezembro e janeiro, mas a aceleração dos preços no final de 2025 atingiu tal magnitude que os novos acordos não conseguiram compensar a queda acumulada. Segundo dados da consultoria, em novembro de 2025, o salário médio sob os principais acordos coletivos de trabalho havia acumulado uma perda real de 4,5% em comparação com o início do ano. Assim, mesmo com acordos mais favoráveis no final do ano, os salários reais ainda não haviam se recuperado.
Nesse sentido, como alerta Pastrana, “a política salarial está em suspenso”. Diante das quedas ininterruptas, nas negociações coletivas retomadas em dezembro e janeiro, foram alcançados aumentos salariais mais expressivos, mas os índices exorbitantes de inflação mensal estão impulsionando uma tendência de estagnação que pode persistir. “O componente político (reforma trabalhista) e o desempenho do emprego e da inflação serão fatores decisivos na evolução dos salários nos próximos meses”, conclui o relatório. Além disso, uma análise dos diversos Acordos Coletivos de Trabalho revela que a queda em relação à inflação foi generalizada. “Nos últimos cinco meses comparados (entre agosto e dezembro de 2025), apenas 20% dos setores conseguiram aumentar os salários reais em relação ao mês anterior”, afirma o CP.
Isso significa que uma pequena fração dos sindicatos obteve uma melhora relativa na renda, enquanto a grande maioria viu suas condições salariais piorarem. Nesse sentido, o cenário “frouxo” do mercado de trabalho desempenha um papel fundamental: com suspensões, férias antecipadas, demissões e fechamento de empresas, a possibilidade de negociar aumentos salariais é limitada.
A queda na renda também se reflete em outros indicadores salariais, além dos principais acordos coletivos. Segundo o relatório da CP Consultora, o Índice de Salários (IS) do Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC) apresentou queda real de 0,2% em outubro, pelo segundo mês consecutivo.
Da mesma forma, o salário médio no Sistema Integrado de Pensões da Argentina (SIPA), divulgado pelo Ministério do Trabalho, registrou queda real mensal de 0,9% em novembro, marcando seu terceiro declínio consecutivo. Em conjunto, esses dados confirmam que a deterioração dos salários reais é um fenômeno generalizado e persistente que continua a corroer o poder de compra dos trabalhadores.
Por outro lado, por setor, constata-se que as negociações coletivas são mais heterogêneas do que eram há alguns meses. “Os percentuais acordados e a incorporação de valores fixos apresentam um cenário mais diverso”, o que se reflete no aumento do coeficiente de variação, que subiu de 55% em agosto para 85% em outubro. As diferentes realidades setoriais também se traduzem em acordos mais diversos.
Especificamente, no caso do acordo coletivo do Comércio, descrito no relatório da CP, o maior do país e frequentemente utilizado como referência para os demais, após seis meses de aumentos mensais não cumulativos de 1%, o último acordo assinado (dezembro) estipula apenas a incorporação de um valor fixo extraordinário de 60.000 pesos. Isso não compensa a perda anterior e, sem qualquer aumento percentual daqui para frente, promete rápida erosão de seu valor nos próximos três meses.
“A incapacidade de estabelecer um aumento percentual no acordo coletivo mais importante do país é sintoma da falta de uma diretriz salarial clara”, afirmam.
A análise dos diversos acordos coletivos de trabalho também mostra que, ao contrário da visão tradicional que equipara mecanicamente a inflação mais baixa a contratos cada vez mais longos, o processo atual é lento. Os acordos aumentaram sua duração apenas timidamente, de uma média de 3,2 meses em agosto para 3,6 meses em dezembro de 2025.
Este texto foi traduzido do espanhol com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações.. As opiniões expressas são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente as visões do ODTI.
A escalada de pressões dos Estados Unidos sobre a Venezuela, sob o governo de Donald Trump, não é um episódio isolado de sua política externa agressiva, mas parte de uma disputa global por recursos estratégicos, do petróleo às terras raras, que pode redesenhar o tabuleiro de poder na América do Sul. O alerta foi feito por especialistas em geopolítica, energia e mineração em debate promovido pelo Projeto Brasil, na TV GGN, que reuniu a pesquisadora Astrid Aguilera Cazalbon, pesquisadora do Grupo de Estudos sobre Segurança Energética (GESENE/UFPB), e o professor Fernando Landgraf, da Escola Politécnica da USP. [Assista a íntegra no fim da matéria]
Segundo os analistas, a investida contra Caracas expõe não apenas a vulnerabilidade venezuelana, mas a fragilidade de toda a arquitetura regional de integração e defesa de recursos naturais. Em paralelo, escancara o vazio de uma política brasileira consistente para terras raras, minerais críticos para a indústria de alta tecnologia, em um momento de reorganização das cadeias globais.
Pressão sobre a Venezuela e risco sistêmico
Astrid Aguilera avalia que a estratégia de Washington mira diretamente o controle de recursos energéticos e infraestruturas críticas, com efeitos que extrapolam as fronteiras venezuelanas. “Qualquer processo de ataque, mesmo que pareça isolado em um país, representa um ataque à soberania de todos os outros países da região e do subcontinente como um todo”, afirmou.
Na leitura da pesquisadora, a ofensiva de Trump contra Caracas configura “um ataque direto à nossa soberania e à estabilidade da região”, com potencial de deflagrar conflitos de maior escala. O temor é que disputas em torno de petróleo e gás acabem deslocadas para áreas sensíveis, como a margem equatorial brasileira, ampliando riscos à segurança energética regional.
O debate destacou que, historicamente, episódios de intervenção ou sanções severas contra países produtores não se restringem ao plano diplomático: tendem a impactar fluxos comerciais, investimentos, cadeias de abastecimento e até infraestruturas físicas, fatores que, em um continente interdependente, reverberam além das fronteiras nacionais.
Silêncio institucional e paralisia regional
Apesar da gravidade do cenário, Astrid apontou a ausência de posicionamentos públicos por parte de organismos que deveriam liderar respostas coordenadas. “Hoje faz muita falta ter instituições fortes que consigam construir uma posição conjunta em defesa dos nossos recursos”, disse, ao citar o esvaziamento de instâncias como a União de Nações Sul-Americanas (UNASUL).
Entidades técnicas voltadas à integração energética, como a Organização Latino-Americana de Energia (Olade), a Associação Regional de Empresas de Petróleo e Gás (Arpel) e a Comissão de Integração Energética Regional (CIER), também não apresentaram manifestações formais contra ataques à infraestrutura ou à soberania energética venezuelana.
O Mercosul, que em 2018 se pronunciou sobre a crise humanitária no país, tampouco divulgou declaração recente sobre o agravamento do quadro político e geopolítico. O mesmo ocorre com o Consenso de Brasília, criado em 2023, apesar de a Venezuela integrar o bloco.
Para os especialistas, essa inércia reflete divergências políticas internas e a dificuldade de construir consensos mínimos em um cenário de fragmentação regional, agravado pelo distanciamento da Argentina do atual governo Javier Milei em relação aos mecanismos de integração sul-americana.
Terras raras: corrida global, política nacional ausente
Enquanto a geopolítica do petróleo volta ao centro das tensões internacionais, outro eixo estratégico ganha força: as terras raras, grupo de 17 elementos químicos essenciais à produção de motores elétricos, turbinas eólicas, equipamentos médicos, mísseis, satélites e chips avançados. Apesar de deter algumas das maiores reservas do mundo, o Brasil segue sem uma política estruturada para o setor e permanece majoritariamente como exportador de matéria-prima.
“Não existe hoje uma política de terras raras no Brasil. O que existe é a possibilidade de qualquer empresa, inclusive estrangeira, deter áreas de mineração no país”, afirmou Fernando Landgraf.
Segundo o professor, todos os projetos em andamento estão vinculados a capitais internacionais, sobretudo australianos e canadenses, em parte porque investidores nacionais se afastam de iniciativas de longo prazo diante do custo elevado do crédito. “Com a taxa de juros nesse patamar, o capital brasileiro não tem apetite para esse tipo de investimento”, disse.
Landgraf observa ainda que parte desses agentes atua de forma especulativa, adquirindo direitos minerários sem compromisso imediato com produção, tecnologia ou agregação de valor. “Muitos são aventureiros ou especuladores que só querem valorizar a área para depois vender”, afirmou.
Exportação primária e dependência tecnológica
Um dos principais riscos, segundo os especialistas, é a repetição do padrão histórico de exportação de matéria-prima sem beneficiamento local. Landgraf citou o projeto “Clara” como exemplo: embora avançado do ponto de vista minerário, prevê que a separação dos minerais, etapa mais complexa e tecnologicamente sofisticada, seja realizada nos Estados Unidos, com financiamento do governo americano.
“Você exporta o minério e importa o produto de alto valor agregado”, disse o pesquisador, ao apontar que essa dinâmica perpetua a dependência tecnológica e bloqueia o desenvolvimento de uma indústria nacional de ímãs permanentes, componentes-chave da transição energética.
Hoje, iniciativas brasileiras concentram-se em esforços pontuais, como o laboratório-fábrica do SENAI em Minas Gerais e pesquisas no CTEN e no CDTN, ainda restritas à escala experimental. A separação dos 17 elementos das terras raras, destacou Landgraf, permanece um gargalo tecnológico não superado no país.
Risco ambiental e dilemas regulatórios
Outro ponto sensível é o impacto ambiental da mineração de terras raras, sobretudo em regiões vulneráveis. Landgraf alertou para a ausência de estudos robustos sobre os efeitos dessas tecnologias em áreas como Poços de Caldas (MG). “Não sabemos ainda qual é o impacto ambiental real dessas novas rotas de mineração”, disse.
No Congresso, propostas para criar impostos de exportação ou mecanismos de proteção às matérias-primas enfrentam resistência, sob o argumento de que poderiam inviabilizar o surgimento de mineradoras nacionais. O impasse revela, segundo os debatedores, a falta de uma estratégia de Estado capaz de equilibrar soberania, sustentabilidade e desenvolvimento industrial.
Soberania energética e integração em xeque
Para Astrid, a ausência de uma política regional articulada e a dependência crescente de capitais externos colocam em risco a própria ideia de soberania energética coletiva. “A integração energética depende de infraestrutura compartilhada. Um ataque à soberania de um país não fica contido nele, desloca conflitos e vulnerabilidades para os vizinhos”, afirmou.
Na avaliação dos especialistas, sem instituições supranacionais fortes e sem políticas nacionais robustas para recursos estratégicos, a América do Sul tende a seguir como fornecedora de insumos brutos em um mundo cada vez mais competitivo, justamente no momento em que potências disputam petróleo, minerais críticos e cadeias industriais associadas à transição energética e à segurança tecnológica.
O resultado, alertam, é a ampliação da vulnerabilidade externa e a perda de margem de manobra estratégica em um tabuleiro internacional cada vez mais hostil aos países que não controlam suas próprias matérias-primas, tecnologias e cadeias de valor.
O presidente do IBGE, Marcio Pochmann, detalha uma reestruturação do instituto focada na análise preditiva e na modernização tecnológica para orientar políticas públicas brasileiras. A nova estratégia busca superar a fragmentação histórica de dados ao integrar diversas bases governamentais por meio de parcerias com o Serpro e o uso de inteligência artificial. O objetivo central é permitir que o Estado antecipe fenômenos sociais e econômicos, como o envelhecimento populacional e novas dinâmicas de urbanização, em vez de apenas reagir a dados passados.
Em entrevista retransmitida no YouTube do Projeto Brasil, no canal da TVGGN, nesta semana, Pochmann enfatiza a importância da soberania de dados para proteger informações sensíveis contra o domínio de grandes empresas estrangeiras de tecnologia. Sobre isso, ele expõe os riscos de treinar modelos de inteligência artificial em empresas estrangeiras.
Segundo o executivo, atualmente, 78% dos dados no Brasil são processados fora do país por empresas privadas estrangeiras. Isso cria uma situação de dependência e vulnerabilidade, pois essas chamadas “big techs” acabam detendo mais informações sobre a realidade brasileira do que os próprios governantes, como o presidente, governadores e prefeitos.
Aí é que entra a importância e a necessidade de o IBGE reformular e atualizar a metodologia e o processamento de dados, já que isto é também soberania digital.
Pochmann explica que o IBGE irá utilizar a inteligência artificial (IA) como uma ferramenta central para garantir a soberania de dados por meio da internalização tecnológica e da redução da dependência de empresas estrangeiras. Entre as estratégias, o Instituto está formando sua própria inteligência artificial, desenvolvendo essa capacidade internamente, assim como já fazem instituições como a Petrobras e o Supremo Tribunal Federal.
O IBGE também estabeleceu uma associação com o SERPRO, a maior empresa pública de processamento de dados do Brasil, para processar informações em larga escala. Essa união permite que o instituto atue como uma espécie de “big tech pública”, mantendo os dados sob controle nacional.
Além disso, os mais diversos órgãos do governo estão promovendo a homogeneização e o pareamento de diversos bancos de dados governamentais (como os do INSS, Ministério da Saúde e do Trabalho). Pochamnn narra que desde 1973, o IBGE é o coordenador do sistema estatístico nacional, mas as informações acabaram se dispersando em bancos de dados setoriais. A integração visa homogeneizar e parear esses dados para que o governo tenha uma visão do “todo” e não apenas de partes isoladas da realidade.
Ao cruzar dados do Censo com registros do INSS, Ministério do Trabalho, Educação (INEP) e Saúde, é possível identificar, por exemplo, onde a população está envelhecendo e se esses locais possuem infraestrutura hospitalar adequada, ou como as mudanças no perfil de doenças afetarão o sistema público.
Ainda, a integração permite analisar o impacto de grandes projetos, como as Rotas de Integração Sul-Americana.Tal projeto das rotas de integração permitirá uma visão detalhada e preditiva do impacto dessas infraestruturas no território brasileiro e países vizinhos. O IBGE identifica as cidades situadas ao longo das cinco rotas planejadas, analisando um raio de 100 km para cada lado desses eixos, mapeando, por exemplo, a existência de escolas, universidades e hospitais das vias em expansão.
Essa análise identifica carências e problemas, orientando onde o Estado precisa investir para dar suporte ao crescimento econômico territorial. O planejamento integrado também busca evitar a repetição de erros do passado, como a urbanização sem planejamento que gerou favelas nas regiões litorâneas, ajudam a evitar a “favelização do interior”, garantindo que o crescimento em torno das rotas seja organizado.
Com as mudanças, o IBGE espera passar o Brasil de uma política de dados baseada apenas na “realidade observada” (presente do passado) para uma política do “presente do futuro”, explicou Marcio Pochmann. Isso significa que, ao processar grandes volumes de dados, o governo pode antecipar problemas e soluções, atuando de forma precisa antes mesmo que os gargalos sociais ou logísticos se consolidem.
Assista à íntegra da entrevista no Projeto Brasil no YouTube:
Especialistas destacam o potencial e os desafios da indústria da Defesa do Brasil, notadamente nos setores aeroespacial e naval.
O painel sobre “Oportunidades, desafios e o potencial do Brasil em Defesa” da última edição do Projeto Brasil contou com a participação de diversos especialistas do ITA, IPT, Unicamp, Finep e Estudos Marítimos, destacando a necessidade de um desenvolvimento estratégico e de políticas públicas integradas para impulsionar a inovação e garantir a soberania tecnológica nacional.
Entre os pontos expostos, a conversa expõe o caso de sucesso da Embraer como modelo de apropriação e acumulação de tecnologia, contrastando-o com a fragilidade de outras empresas do setor diante de crises e processos de desnacionalização, como o da Mectron. Entre os participantes, há um consenso sobre a insuficiência dos investimentos em defesa no Brasil e o papel crucial do Estado, em parceria com a FINEP, universidades e empresas de controle nacional, para coordenar o financiamento e a aquisição de tecnologias críticas.
Por fim, os expoentes ressaltam a importância vital de manter e desenvolver recursos humanos qualificados para a sobrevivência e crescimento da base industrial de defesa brasileira.
Abaixo, um resumo das principais contribuições de cada palestrante (conteúdo elaborado com o auxílio de IA. Curadoria e edição da Redação):
Marcos Barbieri (Professor da Unicamp, especialista em indústria aeroespacial e de defesa)
O Professor Barbieri abordou o cenário geral da política de Defesa, destacando a baixa aplicação de recursos pelo Brasil. O Brasil gasta cerca de 1,1% a 1,4% do PIB em defesa, enquanto a média mundial é de 2,3% a 2,4%, e menos de 8% desse valor é destinado a investimentos (incluindo compras de equipamentos importados).
Apesar das limitações, a indústria brasileira mostra avanços na construção naval, criptografia, veículos blindados e, principalmente, na indústria aeronáutica, citando o sucesso do KC-390, que vence concorrências internacionais em países da OTAN e no Oriente Médio.
Para explicar o sucesso da Embraer e orientar o desenvolvimento tecnológico, ele destacou dois elementos chaves: apropriabilidade (o controle e comando do desenvolvimento tecnológico deve ser nacional) e cumulatividade (a competência tecnológica deve ser acumulada ao longo do tempo).
Ele ressaltou que a empresa com controle nacional é fundamental para garantir que a apropriação da tecnologia seja brasileira e permaneça no país. Barbieri alertou para a desnacionalização de empresas estratégicas e tecnologias críticas, citando a situação do Link 2BR (comunicação de dados entre aeronaves) que está sob controle de uma subsidiária de uma empresa estrangeira (israelense).
Henrique Álvares (Doutor em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento)
Henrique Álvares discutiu as perdas e o desmonte da Base Industrial de Defesa no período de 2014 a 2022.
Ele relembrou que, após a Estratégia Nacional de Defesa (2008-2009), grandes empresas de capital privado brasileiro, como a Odebrecht, entraram no setor (adquirindo a Mectron) para tocar programas importantes, principalmente de mísseis.
A crise econômica e a Lava Jato levaram a Odebrecht a vender a Mectron em 2016, resultando na desnacionalização de tecnologias críticas. A parte de comunicação e aviônica, que incluía o Link BR2 (sistema de criptografia da Aeronáutica) e outros projetos financiados com recursos públicos da FINEP, foi adquirida pela AEL, subsidiária da Elbit Systems (israelense).
Ele salientou que a desnacionalização torna a capacidade do exército mais vulnerável, citando o caso da Guerra das Malvinas, onde submarinos argentinos usavam sistemas de criptografia da CryptoAG, que depois se descobriu ser controlada pela CIA. Atualmente, os projetos desenvolvidos pela Mectron estão divididos e menos protegidos por legislação, com empresas menores sendo financiadas por capital estrangeiro.
Anderson Correa (Presidente do IPT e ex-reitor do ITA)
Anderson Correa focou na formação de recursos humanos e seu papel como elemento impulsionador da criação de empresas. Ele destacou que o ITA, criado em 1950 sob a visão do Marechal Casimiro Montenegro Filho, foi o berço da Embraer, fundada por ex-alunos como Ozires Silva.
A Embraer criou um ecossistema completo, com subsidiárias para aviação comercial, militar (KC-390), tráfego aéreo (Atech) e espaço (Visiona). Além disso, o ITA e seus engenheiros foram cruciais para a fundação de outras empresas de defesa (como a Mectron e Avibras) e a criação de outras instituições (como Unicamp e UFABC).
A indústria de defesa gera poder geopolítico e spillovers tecnológicos que beneficiam a sociedade (como a internet, GPS, e o papel da Força Aérea na Amazônia). Ele enfatizou que um país do tamanho do Brasil não pode abdicar de ter sua própria indústria de defesa e tecnologia.
Ao comentar a situação da Avibras, ele mencionou que a empresa, que já foi gigante em exportação, enfrentou dificuldades devido à COVID e à falta de garantias do BNDES para exportação, entre outros fatores.
Felipe Sares (Mestre em estudos marítimos e dono do canal Base Militar)
Felipe Sares introduziu o conceito de “Embraer Naval”, buscando contextualizar por que o Brasil domina a aviação, mas não consegue replicar esse sucesso em outras áreas complexas.
O conceito surgiu da observação da concorrência das Fragatas Tamandaré. A ideia inicial da Marinha era um projeto nacional (CV03) para desenvolver componentes internos (armamentos, sensores, software), servindo como uma “escada” tecnológica.
A estratégia falhou porque a Marinha não estabeleceu um plano de criação de uma “Embraer Naval”. As empresas estrangeiras sondadas não tinham interesse em transferir tecnologia ou fabricar um navio que se tornaria seu concorrente. Sob a sombra da Lava Jato, a Marinha criou um processo complexo, e o consórcio vencedor (TKMS, com Embraer e Atech) ofereceu um navio maior e fora das especificações, abandonando a premissa de um projeto puramente nacional.
Para Felipe, o sucesso do KC-390 na Embraer resultou da confiança da Força Aérea e do financiamento total para o desenvolvimento de um produto novo e superior, enquanto projetos longos e mal financiados (como os da Mectron) resultam em obsolescência. Ele defendeu que o problema central está na falta de compreensão geoestratégica da classe política sobre como a indústria de defesa deve funcionar. Além disso, um grande exportador precisa ser um grande comprador interno, citando a França, que compra 60% de sua produção.
Rodrigo Seioso (Superintendente de Inovação da Finep)
Rodrigo Seioso apresentou o papel da FINEP no fomento à inovação, indicando que o Brasil vive um novo momento positivo de investimento em ciência, tecnologia e inovação, alinhado à política industrial Nova Indústria Brasil (NIB).
A FINEP é a principal financiadora do eixo de inovação da NIB. A recomposição dos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) tem permitido um ciclo de investimento robusto.
Desde 2023, a FINEP já financiou mais de R$ 3 bilhões em inovação para o setor de defesa e aeroespacial.O foco é a soberania tecnológica, aumentando a participação nacional nas compras públicas e substituindo importações. Projetos recentes apoiados incluem o radar M200 multimissão (com a Embraer), o foguete para veículo hipersônico (14X), e o processo para obtenção de hexafluoreto de urânio (combustível nuclear).
Ele enfatizou que o aumento substancial do financiamento se deve a um consenso institucional e ao alinhamento de prioridades, o que permite à FINEP compatibilizar o prazo e o risco do desenvolvimento tecnológico com as soluções financeiras. A perspectiva é positiva, com previsão de arrecadação de R$ 13 bilhões no FNDCT até 2026, garantindo a continuidade do financiamento à Base Industrial de Defesa e ao Programa Espacial. Sobre a Avibras, ele esclareceu que a FINEP jáhavia investido cerca de R 150 milhões na empresa, e seus problemas atuais são mais de gestão e societários.
Assista à íntegra do Painel especial sobre a Indústria da Defesa do Projeto Brasil:
A autorização da União Europeia para a celebração de um acordo de livre-comércio com o Mercosul depois de 25 anos de negociações é analisado neste artigo do ponto de vista europeu. Alexandra Sharp, redatora do World Brief, argumenta que será pequeno o seu impacto econômico comparado à instabilidade política que ele poderá causar.
Mas é claro que essa analise poderá ser diferente do ponto de vista do Brasil e dos outros países do bloco. Para o Brasil haverá prováveis ganhos para o setor agrícola, com a ressalva de que os preços internos dos alimentos já sofrem com as exportações atuais de alimentos. Para a indústria, a longo prazo já que as tarifas vão baixar de forma lenta, haverá prejuízos com a concorrência europeia. Mas como ressalta Sharp, o Parlamento Europeu precisa aprovar o acordo para que ele seja implementado.
O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto doWorld Brief, que é ”o principal boletim informativo diário da FP Foreign Policy e atualiza sobre as notícias das últimas 24 horas em cinco minutos”.
Silvia Portela
World Brief: o principal boletim informativo diário da FP, que resume as notícias das últimas 24 horas em cinco minutos.
O acordo comercial UE-Mercosul pode não ser a grande vitória que alguns na Europa esperam.
O acordo deverá adicionar apenas 0,05% à economia da UE e desencadeou uma turbulência política em toda a Europa.
Por Alexandra Sharp, redatora do World Brief na Foreign Policy.
Grande vitória ou motivo para mais instabilidade?
A União Europeia deu sinal verde na sexta-feira a um acordo comercial com o bloco sul-americano Mercosul, superando 25 anos de negociações prolongadas para criar uma das maiores zonas de livre comércio do mundo. Embora os principais apoiadores europeus do acordo, como o chanceler alemão Friedrich Merz e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, estejam comemorando o acordo como uma vitória, analistas sugerem que o impacto econômico do acordo no continente será mínimo, na melhor das hipóteses, e poderá desencadear mais instabilidade política, na pior.
Nos termos do acordo UE-Mercosul, mais de 90% das tarifas sobre as exportações da UE serão eliminadas, permitindo um mercado integrado de cerca de 780 milhões de consumidores. A Europa apresentou o acordo como necessário para contrabalançar as elevadas tarifas dos EUA, o que impulsionaria as indústrias automobilística e farmacêutica da UE, além de ser uma forma significativa de melhorar a reputação do bloco no cenário mundial.
A UE também acredita que o acordo ajudará a diversificar os mercados europeus, especificamente ao fornecer outra fonte de matérias-primas essenciais além da China. Pequim é o maior parceiro comercial da América do Sul, em grande parte devido aos investimentos da Iniciativa Cinturão e Rota da China.
“Num momento em que o comércio e as dependências estão sendo instrumentalizados e a natureza perigosa e transacional da realidade em que vivemos se torna cada vez mais evidente, este acordo comercial histórico é mais uma prova de que a Europa traça seu próprio rumo e se mantém como um parceiro confiável”, disse von der Leyen.
No entanto, a Comissão Europeia estima que o acordo UE-Mercosul acrescentará apenas 0,05% (cerca de 90,2 mil milhões de dólares) à economia do bloco até 2040.Isso ocorre porque o comércio entre a Europa e os cinco membros plenos do Mercosul — Argentina, Brasil, Bolívia, Paraguai e Uruguai — é historicamente baixo, mesmo com o Brasil (a maior economia da América Latina) fazendo parte do acordo.
A iminente assinatura do acordo também ameaça exacerbar a instabilidade política na Europa. Nas últimas semanas, agricultores e ativistas ambientais intensificaram seus protestos contra o acordo, alegando preocupações de que ele não proteja os interesses europeus. Trabalhadores agrícolas afirmam que o acordo inundará a UE com importações baratas de alimentos, especificamente carne bovina e aves; aumentará os preços; e exigirá regulamentação local excessiva. Enquanto isso, grupos ambientalistas e outros críticos argumentam que os produtores sul-americanos não atendem aos padrões europeus em relação ao tratamento de animais, desmatamento, pesticidas e direitos trabalhistas.
Áustria, França, Hungria, Irlanda e Polônia votaram contra o acordo na sexta-feira, e a Bélgica se absteve. No entanto, concessões de última hora, incluindo o acesso antecipado a cerca de US$ 52 bilhões em ajuda agrícola, convenceram a Itália — um dos principais países resistentes — a mudar de posição, permitindo a aprovação do acordo.
O Parlamento Europeu ainda precisa aprovar o tratado para que ele seja implementado. Entretanto, agricultores de toda a Europa iniciaram novos protestos na sexta-feira, e os partidos de extrema-esquerda e extrema-direita da França apresentaram ou prometeram apresentar moções de censura contra o governo do presidente Emmanuel Macron devido à iminente assinatura do acordo.
Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações.
Trazemos esta declaração conjunta da Confederação Sindical Internacional (CSI) e a Confederação Sindical das Américas (CSA) que condena o ataque desfechado por Trump ao povo e ao governo venezuelano
O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto da página da Confederação Sindical Internacional que tem como principal missão “a promoção e a defesa dos direitos e interesses dos trabalhadores, por meio da cooperação internacional entre sindicatos, campanhas globais e defesa de direitos junto às principais instituições globais.”
Silvia Portela
A CSI e a TUCA condenam veementemente o ataque militar dos EUA à Venezuela e a violação de sua soberania.
A Confederação Sindical Internacional (CSI) e a Confederação Sindical das Américas (CSA) expressam sua rejeição absoluta e inequívoca à operação militar realizada hoje pelo governo dos Estados Unidos da América no território da República Bolivariana da Venezuela.
A Confederação Sindical Internacional (CSI) e a Confederação Sindical das Américas (CSA) expressam sua rejeição absoluta e categórica à operação militar realizada nas primeiras horas de hoje, 3 de janeiro de 2026, pelo governo dos Estados Unidos da América na República Bolivariana da Venezuela.
Considerando a gravidade dos eventos, que incluem o bombardeio de instalações em Caracas e a confirmação pelo governo dos EUA da captura e sequestro do presidente Nicolás Maduro, o movimento sindical internacional:
Condena a intervenção militar: Denunciamos esta ação como uma violação flagrante da Carta das Nações Unidas e dos princípios fundamentais do direito internacional. O uso da força militar e a incursão no território de uma nação soberana constituem um ato de guerra inaceitável que ameaça a paz e a estabilidade de toda a região.
Defende a soberania e a autodeterminação: Em consonância com nossa histórica defesa da autonomia dos povos e em apoio às declarações dos governos da região que exigem respeito irrestrito à soberania da Venezuela, rejeitamos qualquer tentativa de mudança de regime por meio do uso da força ou interferência estrangeira. O destino da Venezuela deve ser determinado unicamente pelo povo venezuelano, por meios democráticos e pacíficos, sem tutela imperial.
Exige respeito aos direitos humanos: Unimo-nos às urgentes demandas internacionais por provas de que o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, estão vivos, pelo respeito à sua integridade física e por sua libertação, bem como a de quaisquer outros cidadãos detidos nesta operação ilegal. É imprescindível que a comunidade internacional receba total transparência sobre sua situação atual.
Apela à paz e ao diálogo: Compartilhamos a posição expressa pelos governos do Brasil, do México e de outras nações soberanas, que condenam a violência e ressaltam a necessidade urgente de retorno aos canais diplomáticos. A região deve permanecer uma Zona de Paz; não permitiremos que a América Latina seja arrastada para um conflito armado por interesses geopolíticos que não são os de nossos povos.
“De forma alguma esses atos defendem a democracia. São claros atos de agressão no contexto de uma agenda de política externa militarizada, impulsionada por interesses econômicos unilaterais”, afirmou o Secretário-Geral da CSI, Luc Triangle. “Ameaças de sequestro e o uso indevido dos tribunais para atacar um governo soberano minam o Estado de Direito, internacionalmente,“E estabelecem um precedente para a coerção imperialista que representa uma ameaça à paz em todo o mundo.”
“Nós, o movimento sindical das Américas, condenamos o ataque militar e o sequestro do presidente Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, uma violação da soberania e integridade da Venezuela e de toda a América Latina e Caribe, declarada Zona de Paz pela CELAC em 2014. Estamos lançando mecanismos internacionais de solidariedade com o povo e os trabalhadores da Venezuela”, disse o secretário-geral da CSA, Rafael Freire. “Defendemos a Venezuela e toda a América Latina como um território de paz. Não aceitamos a invasão e o uso da violência contra nossos povos e territórios. O movimento sindical está, como sempre, na linha de frente da defesa da soberania e da autodeterminação, da democracia e dos direitos humanos.”
A CSI e a CSA permanecem mobilizadas contra a interferência imperialista, militar ou econômica de um país em outro, contra as guerras e na firme defesa da paz, da democracia e do multilateralismo.
Pela soberania, paz e autodeterminação de todos os povos.
Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações.
O CLACS publica artigos em seu blog a partir de diversas perspectivas. As opiniões expressas são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente as visões do CLACS ou da UC Berkeley.
A Economia Solidária aliada à inteligência artificial e análise de dados são ferramentas estratégicas para combater a pobreza e modernizar o mercado de trabalho brasileiro. O Projeto Brasil recebeu especialistas que discutem a necessidade de unificar cadastros governamentais e estatísticas para identificar trabalhadores invisíveis, como aqueles em plataformas digitais ou na informalidade, superando métricas tradicionais de desemprego.
O debate, levantado por Ricardo T. Neder, pesquisador plataformas digitais solidárias e reindustrialização (UnB), contou como convidada a Subsecretária de Estudos e Estatísticas do Ministério do Trabalho (MTE), Paula Montagner.
Segundo eles, a integração de grandes bases de dados (Big Data) e o uso de inteligência estratégica são vistos como ferramentas fundamentais para superar a pobreza no Brasil, pois permitem identificar realidades antes invisíveis e conectar trabalhadores a oportunidades reais de qualificação e emprego.
Neder explicou que as estatísticas tradicionais de desemprego são consideradas insuficientes para captar a complexidade do mercado de trabalho atual. Nesse sentido, os especialistas narraram como a integração de dados permite mapear o movimento transversal do trabalhador entre a economia formal e a economia popular, identificando ocupações fragilizadas que hoje não são captadas, como os “data workers” (pessoas que treinam algoritmos de IA) e trabalhadores de plataformas digitais.
Montagner concordou que as estatísticas atuais ainda falham em captar as ocupações mais fragilizadas da economia digital. Ela mencionou especificamente os “data workers” — pessoas, em sua maioria mulheres, que trabalham de casa ensinando algoritmos de inteligência artificial (machine learning) para grandes grupos internacionais — sobre os quais o Brasil ainda não possui estatísticas oficiais sólidas. Para Ricardo Neder, sem esses dados, as políticas públicas “estão de costas” para uma massa de trabalhadores subempregados.
O pesquisador expôs a proposta de transformar o SINE em uma plataforma de Big Data proativa, integrando informações do CadÚnico (Bolsa Família), eSocial e cadastros de economia solidária. Esse rastreamento permitiria, segundo Neder, políticas de incentivo mais assertivas para quebrar o ciclo da pobreza.
No olhar dos especialistas, outro uso dos dados para o combate à pobreza passa pelo modelo de reindustrialização tecnológica, capacitando jovens e pequenos empreendedores com “Big Data” para orientar políticas públicas de qualificação profissional. O uso de dados pode qualificar pequenos empreendimentos para participar de cadeias de valor mais complexas.
Em sua participação, Montagner também destacou o esforço do Ministério do Trabalho em criar plataformas digitais acessíveis que conectem certificações, cursos técnicos e oportunidades reais de emprego.
Ela detalhou um projeto em parceria com o Banco Mundial, inspirado no modelo da Coreia do Sul, para transformar o SINE (Sistema Nacional de Emprego). Trata-se de uma plataforma que conecta os currículos do Sistema S (SENAI, SENAC) e escolas federais com as demandas reais do mercado. Nesse projeto que está sendo finalizado pelo governo, a ideia é que o jovem possa ver quais cursos estão disponíveis e como eles se traduzem em ocupações e salários melhores, facilitando a mobilidade social por meio do conhecimento digital.
A representante do Ministério do Trabalho defendeu que a integração de dados funciona como um filtro de precisão que permite identificar o vasto contingente da economia popular, dando-lhe a qualificação e a estrutura necessárias para que ele se torne tão valioso e produtivo quanto o setor mais avançado do país.
O debate reforçou que a tecnologia deve servir à inclusão social, garantindo direitos e melhores remunerações diante das novas dinâmicas da economia popular.
Assista à íntegra do programa do Projeto Brasil no YouTube:
O relatório Mundial sobre a Desigualdade 2026 mostra que menos de 60 mil pessoas controlam mais riqueza que a metade mais pobre da humanidade. O relatório, que é produzido a cada quatro anos em conjunto com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), mostra o crescimento da desigualdade em cada uma de suas edições, sem que nada seja feito para mudar essa situação.
Apenas 0,001% detém três vezes mais riqueza do que a metade mais pobre da humanidade, revela relatório.
Menos de 60 mil pessoas – 0,001% da população mundial – controlam três vezes mais riqueza do que toda a metade mais pobre da humanidade, segundo um relatório que argumenta que a desigualdade global atingiu níveis tão extremos que medidas urgentes se tornaram essenciais.
O influente Relatório Mundial da Desigualdade 2026*, baseado em dados compilados por 200 pesquisadores, também constatou que os 10% mais ricos ganham mais do que os outros 90% juntos, enquanto a metade mais pobre detém menos de 10% da renda global total.
A riqueza – o valor dos ativos das pessoas – estava ainda mais concentrada do que a renda, ou seja, os ganhos do trabalho e investimentos, segundo o relatório, com os 10% mais ricos da população mundial detendo 75% da riqueza e a metade mais pobre apenas 2%.
Em quase todas as regiões, o 1% mais rico era mais rico do que os 90% mais pobres juntos, constatou o relatório, com a desigualdade de riqueza aumentando rapidamente em todo o mundo.
“O resultado é um mundo em que uma pequena minoria detém um poder financeiro sem precedentes, enquanto bilhões permanecem excluídos até mesmo da estabilidade econômica básica”, escreveram os autores, liderados por Ricardo Gómez-Carrera, da Escola de Economia de Paris.
A parcela da riqueza global detida pelos 0,001% mais ricos cresceu de quase 4% em 1995 para mais de 6%, segundo o relatório, enquanto a riqueza dos multimilionários aumentou cerca de 8% ao ano desde a década de 1990 – quase o dobro da taxa dos 50% mais pobres.
Os autores, entre os quais o influente economista francês Thomas Piketty, afirmaram que, embora a desigualdade “seja há muito tempo uma característica definidora da economia global“, em 2025 ela “atingiu níveis que exigem atenção urgente“.
Reduzir a desigualdade “não é apenas uma questão de justiça, mas essencial para a resiliência das economias, a estabilidade das democracias e a viabilidade do nosso planeta”. Afirmaram que tais divisões extremas não são mais sustentáveis para as sociedades ou ecossistemas.
Produzido a cada quatro anos em conjunto com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o relatório utiliza o maior banco de dados de acesso aberto sobre desigualdade econômica global e é amplamente considerado um indicador do debate público internacional sobre o tema.
Em um prefácio, o economista ganhador do Prêmio Nobel, Joseph Stiglitz, reiterou o apelo por um painel internacional comparável ao IPCC da ONU sobre mudanças climáticas, para “monitorar a desigualdade em todo o mundo e fornecer recomendações objetivas e baseadas em evidências”.
Indo além da desigualdade econômica estrita, o relatório constatou que a desigualdade de oportunidades alimenta a desigualdade de resultados, com o gasto com educação por criança na Europa e na América do Norte, por exemplo, sendo mais de 40 vezes maior do que na África Subsaariana – uma diferença aproximadamente três vezes maior que o PIB per capita.
Essas disparidades “consolidam uma geografia de oportunidades”, afirmou, acrescentando que um imposto global de 3% sobre menos de 100 milionários e bilionários arrecadaria US$ 750 bilhões por ano – o orçamento da educação de países de baixa e média renda.
A desigualdade também foi alimentada pelo sistema financeiro global, que é manipulado em favor dos países ricos, segundo o relatório. As economias avançadas conseguem tomar empréstimos a baixo custo e investir no exterior com retornos mais altos, o que lhes permite atuar como “rentistas financeiros”.
Cerca de 1% do PIB global flui anualmente dos países mais pobres para os mais ricos por meio de transferências líquidas de renda associadas a altos rendimentos e baixos juros sobre passivos dos países ricos, afirma o relatório – quase três vezes o valor da ajuda global ao desenvolvimento.
Sobre a desigualdade de gênero, o relatório afirma que a disparidade salarial entre homens e mulheres “persiste em todas as regiões“. Excluindo o trabalho não remunerado, as mulheres ganham, em média, apenas 61% do que os homens ganham por hora trabalhada. Incluindo o trabalho não remunerado, esse número cai para apenas 32%, acrescenta o relatório.
O relatório também destacou o papel crucial desempenhado pela propriedade do capital na desigualdade das emissões de carbono que alteram o clima. “Indivíduos ricos alimentam a crise climática por meio de seus investimentos, ainda mais do que por meio de seu consumo e estilo de vida”, afirma o relatório.
Dados globais mostram que a metade mais pobre da população mundial é responsável por apenas 3% das emissões de carbono associadas à propriedade de capital privado, segundo cálculos do relatório, enquanto os 10% mais ricos respondem por cerca de 77% das emissões.
“Essa disparidade diz respeito à vulnerabilidade”, explica o relatório. “Aqueles que emitem menos, em grande parte as populações de países de baixa renda, são também os mais expostos aos impactos climáticos. Aqueles que emitem mais estão mais protegidos contra os impactos das mudanças climáticas.”
As evidências mostram que as desigualdades podem ser reduzidas, principalmente por meio de investimentos públicos em educação e saúde e por programas eficazes de tributação e redistribuição de renda. O relatório observa que, em muitos países, os ultrarricos escapam da tributação.
“Indivíduos ricos alimentam a crise climática por meio de seus investimentos, ainda mais do que por meio de seu consumo e estilo de vida”, afirma o relatório.
“As taxas efetivas de imposto de renda aumentam de forma constante para a maior parte da população, mas caem drasticamente para bilionários e multimilionários”, diz o relatório. Proporcionalmente, “essas elites pagam menos do que a maioria das famílias com renda muito menor”.
Reduzir a desigualdade é uma escolha política dificultada por “eleitores fragmentados, sub-representação dos trabalhadores e a influência desproporcional da riqueza”, conclui o documento. “As ferramentas existem. O desafio é a vontade política.”