Rubens Ricupero: o lugar do Brasil na ruptura da ordem internacional

Diplomata afirma que o mundo vive uma ruptura histórica, enquanto o Brasil mantém um discurso defasado e uma política econômica incompatível com um projeto de desenvolvimento soberano.

O mundo não atravessa uma simples transição, mas uma “ruptura da ordem internacional a que nós estávamos acostumados”. A afirmação é do embaixador Rubens Ricupero, em entrevista ao Projeto Brasil, com os jornalistas Luís Nassif e Sergio Leo, analisando a atual conjuntura geopolítica.

Ricupero reconhece o enfraquecimento do sistema multilateral, mas pondera que as organizações internacionais não pararam totalmente de funcionar, observando que “boa parte do comércio mundial continua regido pelas regras da OMC” e que o sistema ainda opera em conflitos que não envolvem diretamente as divergências entre as três superpotências nucleares (EUA, China e Rússia).

Diplomacia do Brasil e o “Soft Power”

Ricupero enfatiza que a influência brasileira é estritamente diplomática. Ele afirma que o Brasil “só tem condições de influir no multilateral”, pois não possui poder militar estratégico ou nuclear. Para ele, o país depende do seu “soft power”, que se manifesta através de “propostas e do diálogo” em fóruns como a ONU. 

O embaixador elogia o discurso recente do primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, mas lamenta que o Brasil não tenha sido o protagonista dessa fala. 

Ricupero argumenta que o discurso brasileiro “não se atualizou em relação ao mundo atual”, mantendo-se preso a conceitos dos anos 70 e 80, como a dicotomia Norte-Sul, que já não refletem a posição do Brasil como grande exportador global.

Política Industrial e “Taxa de juros injustificável”

Sobre o desenvolvimento econômico, Ricupero é enfático ao dizer que o caminho para a competitividade não passa pelo protecionismo tarifário, mas pela incorporação de tecnologia. O embaixador defende que a “política industrial hoje em dia (…) tem que ser uma política de conhecimento”.

Ele cita a Embraer e a Embrapa como setores onde o Brasil é indiscutivelmente competitivo porque houve “investimento pesado e um esforço planejado de aumento da qualidade” e “incorporação de conhecimento”.

O embaixador aponta que a política macroeconômica brasileira, especialmente com as atuais taxas de juros, é incompatível com um projeto de crescimento industrial. 

Ele classifica o nível da taxa SELIC como “injustificável”.

O Impacto da Operação Lava Jato

De acordo com os documentos, a Operação Lava Jato prejudicou a exportação de serviços de engenharia ao provocar a liquidação das grandes empresas brasileiras do setor, que antes possuíam forte competitividade internacional.

O embaixador Rubens Ricupero afirma que o Brasil deu um “tiro no pé” ao permitir que a operação liquidasse companhias como Odebrecht e Andrade Gutierrez. Essas empresas não apenas dominavam o mercado interno, mas eram capazes de vencer licitações internacionais de alta complexidade, como a construção do metrô de Miami.

Ele argumenta que o combate à corrupção deveria ter focado na punição de indivíduos e não na destruição das empresas, o que resultou na perda de mercado para competidores estrangeiros.

Assista à íntegra do episódio do Projeto Brasil com Rubens Ricupero no YouTube:

30 de Janeiro: Segunda Greve Geral em Minnesota

Silvia Portela

Diante do sucesso da greve geral de 23 de janeiro e em candente resposta ao assassinato de Alex Pretti, o sindicalista morto no dia 24, a população de Minneapolis vai fazer nova greve geral já no dio 30 de janeiro. O assassinato de Pretti teve grande repercussão no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Mas as notícias não informaram que a morte foi a resposta do governo Trump ao sucesso da greve geral. 

A característica principal do fascismo não é a violência ou racismo, mas a resposta dos governos ao crescimento do movimento dos trabalhadores, a tentativa de destruir por quaisquer meios o movimento social que, em virtude da crise,  não pode mais ser enfrentado por meios democráticos. 

O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto do blog Popular Resistance, que se propõe a missão de “é contribuir para a união dos movimentos pela paz e pela justiça económica, racial e ambiental num movimento independente, não violento e diversificado, capaz de pôr fim ao poder da riqueza concentrada, transferir o poder para o povo e priorizar as necessidades humanas em detrimento da ganância corporativa”.

Minneapolis: Segunda greve geral marcada para 30 de janeiro  

Por Tom Akaolisa, MinneapoliMedia.  Publicado em 27 de janeiro de 2026 

Sindicatos estudantis e organizações trabalhistas do campus da Universidade de Minnesota estão convocando uma segunda greve geral para sexta-feira, 30 de janeiro de 2026, intensificando um movimento crescente que busca responsabilização pelos recentes confrontos fatais envolvendo agentes federais de imigração e a retirada desses agentes de Minnesota.  

A convocação da continuidade a uma greve geral histórica em todo o estado, em 23 de janeiro, que os organizadores definiram como um “apagão econômico”, incentivando os moradores a ficarem em casa, sem ir ao trabalho ou à escola, e a evitarem compras. Essa primeira ação atraiu participação em massa nas Cidades Gêmeas e arredores, incluindo grandes manifestações no centro da cidade realizadas em meio a temperaturas abaixo de zero, e preparou o terreno para o que os organizadores descrevem como uma segunda onda de resistência, mais focada, centrada nos campi universitários e em prédios federais. 

 O catalisador  

Os organizadores afirmam que a nova ação foi impulsionada por uma série de tiroteios fatais envolvendo agentes federais durante operações intensificadas de fiscalização da imigração em Minneapolis. Eles apontam duas mortes como centrais para suas reivindicações:  

  • Renée Nicole Good, cujo assassinato por um agente federal de imigração em uma operação anterior galvanizou grupos universitários e ajudou a precipitar o “Dia da Verdade e da Liberdade” de 23 de janeiro, segundo os organizadores. 
  • Alex Pretti, um enfermeiro de UTI de 37 anos e funcionário do Departamento de Assuntos de Veteranos dos EUA, que foi baleado e morto por agentes federais no sábado, 24 de janeiro de 2026, um dia após a primeira greve. Os organizadores citam vídeos que circularam publicamente e relatos de testemunhas oculares indicando que Pretti estava gravando os agentes e tentando ajudar pessoas presentes quando foi imobilizado e baleado.  

As autoridades federais não divulgaram um relato público completo das circunstâncias que envolvem nenhuma das mortes. As investigações continuam em andamento e as autoridades alertaram contra tirar conclusões precipitadas enquanto as análises prosseguem. 

 O que o dia 30 de janeiro exige:  

Ao contrário da ampla paralisação econômica em todo o estado, defendida na semana passada, a ação de 30 de janeiro foi concebida como uma escalada ancorada nos campi universitários. Os organizadores estão promovendo greves, palestras e protestos coordenados em instalações federais, além de renovar os apelos para a suspensão de atividades laborais e gastos.  

A coalizão organizadora inclui o Sindicato dos Trabalhadores Graduados da UMN, o AFSCME Local 3800, a União de Estudantes Negros e o Governo Estudantil de Graduação, entre outros.  

Suas reivindicações declaradas incluem:  

  • a retirada imediata dos agentes federais do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) e da Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP) de Minnesota;  
  • a responsabilização criminal e legal dos agentes envolvidos nas mortes de Good e Pretti;  
  • e o fim do que os organizadores descrevem como neutralidade institucional, com maior proteção para estudantes internacionais e imigrantes dentro do sistema universitário. 

Resposta do campus e contexto trabalhista:  

Antes da ação de 23 de janeiro, a Universidade de Minnesota informou aos alunos e funcionários que apoiava a expressão cívica legal, mas esperava que as aulas e as atividades continuassem, orientando os funcionários a usar as licenças aprovadas para ausências. Até a publicação desta matéria, não estava claro se orientações semelhantes seriam emitidas antes de 30 de janeiro.  

Líderes sindicais que apoiam o movimento argumentam que a estrutura de greve, há muito associada ao poder no local de trabalho, é uma resposta apropriada quando os canais tradicionais falham em garantir transparência ou responsabilização. Enquanto isso, os organizadores estudantis enquadram o momento como um teste dos valores da universidade e de sua responsabilidade em proteger os membros vulneráveis ​​de sua comunidade.  

Primeira greve vs. segunda greve:  

  • 23 de janeiro: Um “apagão econômico” em todo o estado que enfatizou a participação em massa, com sindicatos, líderes religiosos e centenas de empresas participando de manifestações e fechamentos.  
  • 30 de janeiro: Uma escalada direcionada, focada em paralisações no campus e protestos em locais federais, explicitamente ligados ao assassinato de Pretti e ao que os organizadores descrevem como o medo contínuo gerado pela atividade de fiscalização da imigração.  

O sucesso ou o fracasso da segunda greve dependerá da participação em todos os campi universitários, da resposta das principais empresas e de como as agências estaduais e locais se prepararem para as manifestações. Para os organizadores, no entanto, o objetivo já está claro: manter a pressão até que, segundo eles, haja responsabilização e que os agentes federais deixem Minnesota.   

Gregory Bovino — o alto comandante da Patrulha da Fronteira que supervisionou a ofensiva anti-imigração de Trump em Minnesota — está, segundo relatos, arrumando as malas e deixando o estado,  Essa retirada, que inclui a saída de alguns agentes federais, faz parte claramente das tentativas de Trump de desescalar a situação em Minnesota. Ela ocorre logo após um telefonema entre Donald Trump e o governador Tim Walz na segunda-feira, no qual Trump afirmou que eles estavam em “sintonia”. O prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, confirmou a mudança, afirmando que Trump lhe disse que “a situação atual não pode continuar”, antes da reunião agendada para hoje entre Frey e o ex-czar da fronteira de Trump, Tom Homan. 

Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações, e portanto sem a revisão do autor. As referencias são encontradas no original. . As opiniões expressas são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente as visões do ODTI. 

Terras Raras: a corrida contra o tempo para o Brasil

Debate reúne geólogos e especialistas para apontar limites, riscos e caminhos para superar o papel de exportador de matéria-prima.

Como o Brasil pode transformar suas reservas minerais de terras raras em soberania nacional e autonomia tecnológica? A geóloga, pesquisadora e ex-reitora da UnB, Márcia Abrahão, trata de responder a este questionamento com uma equipe de especialistas convidados na série especial Terras Raras, do Projeto Brasil, lançado no Youtube.

O atual diretor-presidente do Serviço Geológico do Brasil (SGB/MME) Valdir Silveira e o doutor em geologia Nilson Francisquini Botelho (UnB/Universidade de Paris) destacaram o potencial estratégico do Brasil no setor, sua importância para a soberania nacional e a transição energética global. 

O país possui uma das maiores reservas mundiais desses minerais, essenciais para tecnologias de ponta como semicondutores, turbinas eólicas e veículos elétricos. Especialistas defendem que o Brasil deve superar o estágio de exportador de matéria-prima para dominar o ciclo tecnológico completo, investindo em pesquisa e purificação. Eles ressaltaram, ainda, a necessidade de políticas públicas integradas que fortaleçam instituições como a CPRM e a Universidade de Brasília (UnB).

Silveira afirma que o Brasil ocupa a segunda ou terceira posição mundial em reservas de terras raras. Ele destaca que o país possui diversidade e complexidade geológica em estados como Goiás, Amazonas, Roraima e no litoral, o que garante fertilidade para depósitos de classe mundial.

O especialista recorda que, nos anos 80, o Brasil possuía uma cadeia de valor de terras raras e tecnologias de processamento mais evoluídas que as da China. 

Contudo, uma decisão política no início dos anos 90 (governo Collor) interrompeu os investimentos por considerar o mercado pequeno na época, o que ele classifica como um “grande erro” que agora exige uma corrida contra o tempo para recuperar o domínio tecnológico.

Desafios a superar

Como uma das principais representações do setor, Valdir Silveira afirmou que Serviço Geológico do Brasil conta com apenas 277 geólogos e hidrólogos para todo o país, um número até dez vezes menor do que o de países como China e Austrália. 

Ele defende o uso de aerogeofísica profunda para saltar etapas de mapeamento e o fortalecimento do Plangel (plano de 10 anos para minerais da transição energética).

Silveira posiciona-se contra a criação de novas empresas estatais específicas para cada mineral (como uma “empresa de terras raras”) ou legislações isoladas. 

Para ele, o Brasil já possui os órgãos necessários — SGB (pesquisa), ANM (regulação) e CETEM (tecnologia mineral) — e o que falta é dar recursos, pessoal e condições de trabalho para que essas instituições atuem de forma integrada com as universidades.

Nilson Francisquini Botelho, professor titular da Universidade de Brasília (UnB) e especialista em geologia com doutorado pela Universidade de Paris, oferece uma perspectiva científica e estratégica sobre o papel das terras raras no Brasil. Ele explicou que das 17 terras raras, ele destaca que apenas quatro elementos são realmente vitais devido ao seu alto valor e demanda: praseodímio, neodímio, disprósio e térbio. 

Botelho destacou o potencial dos depósitos de argila iônica e a necessidade de conhecimento técnico para transformar reservas em produção real. Segundo ele,  esses depósitos são mais fáceis de explorar e são os únicos que contêm abundância de terras raras pesadas (disprósio e térbio), que atualmente são monopólio da China.

“Otimismo exagerado”? A realidade brasileira

Contudo, Botelho alerta para o otimismo exagerado sobre as reservas brasileiras (estimadas em 21 milhões de toneladas). Ele afirma que o Brasil ainda está em estágio inicial e muitas das reservas registradas são de depósitos complexos e de difícil exploração tecnológica, e o que é realmente explotável a curto e médio prazo é uma fração bem menor do total.

Em sua participação na série especial, Adão Villaverde, membro do Conselho de Inovação da FIERGS e detentor do mérito científico brasileiro, aborda o tema das terras raras e minerais críticos sob a ótica da geopolítica e da soberania nacional.

Para ele, esses recursos não são apenas matérias-primas, mas “ativos intangíveis da inovação” e do conhecimento, fundamentais para que o Brasil alcance independência científica e tecnológica.

Ele ressalta que potências como a China e os Estados Unidos (através do Chips Act) estão investindo centenas de bilhões de dólares para garantir a hegemonia nesse setor. O especialista enfatiza que não basta possuir o minério; é preciso dominar o conhecimento técnico-científico para realizar o processamento completo.  

Villaverde enfatiza que a mineração deve ocorrer sob um rigoroso rastreamento socioambiental para garantir o desenvolvimento sustentável e a autonomia geopolítica frente à disputa entre China e Estados Unidos.

O pesquisador é um forte defensor das empresas públicas como indutoras de desenvolvimento. 

Ele cita a CEITEC (semicondutores) como exemplo de instituição que cria “massa crítica” e forma profissionais altamente qualificados que, muitas vezes, acabam suprindo o setor privado. 

Assista aos dois episódios da série especial Terras Raras, com Márcia Abrahão:

Projeto Brasil lança série especial sobre Terras Raras e soberania brasileira na TV GGN

A série propõe uma reflexão sobre a importância estratégica desses minerais na transição energética e nas disputas geopolíticas.

O Projeto Brasil apresenta a série especial “Terras Raras: soberania, energia e futuro”. A série é conduzida pela geóloga e pesquisadora da UnB, Márcia Abrahão, e reúne especialistas de diferentes áreas para discutir os desafios e oportunidades do Brasil diante dessa agenda estratégica.

A nova série de entrevistas da TV GGN, produzida para o Projeto Brasil estreia nesta semana, às 17h.

Os programas são comandados pela geóloga e pesquisadora Márcia Abrahão, ex-reitora da da Universidade de Brasília (UnB), que recebe especialistas de diversas áreas do conhecimento para debater o papel do Brasil na exploração e no uso das Terras Raras, um conjunto de 17 elementos químicos essenciais para tecnologias como baterias, turbinas eólicas, veículos elétricos e equipamentos de alta precisão.

Os episódios vão ao ar diariamente às 17h e abordam diferentes dimensões do tema:

O que são Terras Raras e por que ganharam importância mundial: A Agenda de Pesquisa no Brasil (Episódio 1): com Márcia Abrahão (UnB), Nilson Francisquini Botelho (UnB) e Valdir Silveira (Diretor-presidente interino do Serviço Geológico do Brasil – SGB/MME).

A centralidade das Terras Raras na disputa geopolítica contemporânea (Espisódio 2): com Márcia Abrahão (UnB) e Diógenes Breda (economista, UFU).

Caminhos para uma política soberana de Terras Raras no Brasil: oportunidades, desafios e estratégias (Espisódio 3): com Márcia Abrahão (UnB) e Adão Villaverde (PUC-RS).

Terras Raras e transição energética: implicações para o desenvolvimento econômico do Brasil e as mudanças climáticas (Episódio 4): com Márcia Abrahão (UnB) e Rosana Santos (Instituto E+ Transição Energética).

A proposta da série é contribuir para o debate público sobre como o Brasil pode desenvolver uma política soberana de Terras Raras, conectando pesquisa científica, desenvolvimento industrial e sustentabilidade ambiental.

Assista aos episódios:

Acordo Mercosul–UE pode aprofundar fragilidade da indústria brasileira, alertam especialistas

O acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia (UE), apresentado como marco diplomático após mais de duas décadas de negociações, pode aprofundar a fragilidade estrutural da indústria brasileira caso não venha acompanhado de uma política industrial articulada, agressiva e de longo prazo. O alerta foi feito por especialistas no programa especial do Projeto Brasil, transmitido na TV GGN, que discutiu os impactos econômicos, produtivos e geopolíticos do tratado.

Segundo as professoras Marta Castilho, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Miriam Saraiva, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), o acordo explicita uma assimetria estrutural entre os dois blocos. Enquanto a União Europeia opera com uma base industrial sofisticada, diversificada e tecnologicamente avançada, o Mercosul permanece concentrado em exportações agrícolas e minerais, o que eleva o risco de reprimarização da economia.

O acordo tende a reforçar um padrão clássico Norte-Sul, em que exportamos produtos primários e importamos bens de maior valor agregado”, afirmou Castilho. Para ela, sem instrumentos de defesa e investimentos produtivos coordenados, o Brasil corre o risco de aprofundar sua trajetória de desindustrialização.

Indústria sob pressão

Entre os setores mais vulneráveis estão os segmentos químico, farmacêutico, automobilístico, de máquinas e equipamentos e de bens de capital, justamente aqueles com maior densidade tecnológica e hoje dependentes de proteção tarifária para competir. Segundo Castilho, a redução dessas barreiras pode ser “perniciosa” para cadeias produtivas estratégicas.

No setor automotivo, por exemplo, há o risco de “arbitragem de produção”: empresas europeias com fábricas no Brasil podem concluir que é mais vantajoso produzir na Europa e exportar ao Mercosul, em vez de manter plantas industriais locais.

Outro ponto sensível envolve os minerais críticos, como o lítio. O acordo limita a imposição de impostos sobre a exportação desses recursos, o que, segundo Castilho, “desestimula o beneficiamento industrial” e empurra países como Brasil e Argentina para o papel de fornecedores de matéria-prima na transição energética global.

Agronegócio: ganhos aquém do esperado

Embora o agronegócio brasileiro tenha sido historicamente um dos principais defensores do acordo, os ganhos concretos ficaram abaixo das expectativas. Setores agrícolas europeus, especialmente na França, resistiram fortemente à abertura, resultando em cotas reduzidas e concessões mais restritas do que o inicialmente previsto.

No Brasil, segmentos como o vinícola se preparam para enfrentar concorrência direta de produtos europeus, com queda expressiva de tarifas. Segundo Saraiva, esses setores tendem a aceitar a abertura e, em contrapartida, pressionar o governo por políticas de competitividade, como redução do Custo Brasil e melhorias em logística e financiamento.

Compras públicas como instrumento de defesa

Apesar do cenário adverso, o Brasil conseguiu negociar exceções relevantes no capítulo de compras governamentais. Áreas estratégicas, como o Sistema Único de Saúde (SUS), ficaram fora da abertura irrestrita, preservando o poder do Estado de direcionar licitações para estimular a produção nacional.

Foi uma das partes mais difíceis da negociação”, explicou Saraiva. Segundo ela, enquanto a União Europeia defendia abertura total, o Brasil adotou postura protetiva, especialmente após renegociar pontos flexibilizados na versão assinada em 2019, durante o governo Jair Bolsonaro.

O resultado permite que União, estados e municípios mantenham áreas protegidas, usando o poder de compra pública como instrumento de política industrial, uma das poucas ferramentas diretas ainda disponíveis em um contexto de abertura comercial.

Continuidade sob risco

Outro desafio estrutural é a instabilidade das políticas industriais no Brasil. Para Saraiva, a continuidade depende menos dos governos e mais do engajamento do próprio setor privado.

O setor beneficiado precisa agir como força de veto contra retrocessos”, disse, citando o papel da Confederação Nacional da Indústria (CNI) ao barrar tentativas de desmonte da Tarifa Externa Comum do Mercosul durante o governo Paulo Guedes.

Sem esse compromisso, avalia, qualquer avanço tecnológico obtido nos anos de transição pode ser revertido por mudanças políticas, transformando o acordo em mais um episódio de abertura sem contrapartida produtiva.

Geopolítica e rearranjo global

Além dos efeitos econômicos, o acordo tem peso estratégico em um cenário de fragmentação do comércio internacional e retração do multilateralismo. Para Saraiva, trata-se de um reposicionamento do Mercosul diante da crescente rivalidade entre Estados Unidos e China.

A União Europeia está bastante fragilizada frente às pressões norte-americanas, especialmente em segurança e defesa”, afirmou. “Esse não é apenas um acordo comercial, é um acordo de associação interregional, que inclui cooperação política e tecnológica.”

Ela citou como precedente a parceria entre Brasil e Suécia no programa dos caças Gripen, exemplo de transferência tecnológica viabilizada por acordos estruturados de cooperação.

Entre desenvolvimento e dependência

Para Castilho, o sucesso ou fracasso do acordo dependerá diretamente da capacidade do Estado brasileiro de articular política comercial, industrial e tecnológica. Sem isso, o tratado pode se converter em uma abertura de mercado assimétrica, com efeitos duradouros sobre a soberania produtiva.

O acordo não pode ser visto como um fim em si mesmo”, resumiu. “Ele precisa ser tratado como uma ferramenta dentro de um projeto nacional de desenvolvimento.

O risco, caso contrário, é consolidar um modelo econômico baseado na exportação de commodities e na importação de tecnologia.

EUA: Minnesota faz greve em resposta a ações do ICE e políticas de Trump

Greve Geral em Minnesota 

Silvia Portela

Com a adesão nacional de muitos sindicatos de trabalhadores – que farão ações de solidariedade, com a adesão de pequenos comerciantes da cidade e o apoio das organizações locais, esta sexta-feira em Minnesota trará uma grande greve de massas e o surgimento de um movimento que poderá limitar ou até colocar um fim nas arbitrariedades de Trump. 

O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto do blog PayDay Report.

Líderes sindicais de Minnesota discutem lições de organização enquanto movimento de greve ganha força nacional   

Mike Elk, publicado em 23 de janeiro de 2026 

Nesta sexta-feira (23), dezenas de milhares de trabalhadores em Minneapolis devem ir às ruas em uma greve geral em massa. O “Dia da Verdade e da Liberdade” foi endossado por todas as principais organizações sindicais de Minnesota. Todas as principais escolas e instituições culturais, bem como centenas de restaurantes e pequenas empresas, devem fechar.  

Da mesma forma, o rastreador de greves do Payday Report documentou pelo menos 215 ações de solidariedade em todo o país. Os líderes sindicais em Minneapolis esperam que a greve se torne um modelo de como líderes sindicais e comunitários em todo o país respondem a ataques do ICE em suas cidades a qualquer momento.  

Na terça-feira, o presidente do CWA Local 7520, Kieran Knutson, conversou com o Payday Report e nossos leitores sobre como surgiu o movimento de greve geral de Minneapolis e o que vem a seguir. Ele enfatizou que espera que Minneapolis mostre a outras cidades como lutar quando o ICE ocupar suas cidades. (Assista Knutson falar sobre lições para o movimento trabalhista aqui)  

Knutson afirma que a ideia de uma greve geral surgiu quando o SEIU Local 26 propôs um dia de ação em massa a um grupo de sindicatos progressistas. O SEIU Local 26, cujos membros são em grande parte trabalhadores imigrantes da limpeza, buscou ajuda de outros sindicatos para lutar contra as duras consequências das batidas do ICE.  

“Depois que Renee Good foi morta, acho que muitos de nós dissemos: precisamos agir. Precisamos fazer algo agora”, disse Knutson, cujo sindicato local da CWA foi o primeiro a apoiar a convocação do SEIU Local 26, ao Payday Report. 

 Ele afirma que o movimento trabalhista de Minneapolis aprendeu com as paralisações em massa que se seguiram ao assassinato de George Floyd pela polícia em junho de 2020, quando mais de 600 greves ocorreram no mês seguinte à morte de Floyd, de acordo com o Payday Report. 

 “[O movimento sindical das Cidades Gêmeas] tem experiência com lutas e com a relação com movimentos sociais que emergem da comunidade e, à medida que emergem da comunidade, influenciam os locais de trabalho. E se os sindicatos estiverem atentos, eles também podem se tornar parte disso”, diz Knutson.  

As greves após o assassinato de George Floyd em 2020 não foram greves trabalhistas tradicionais, no sentido de que não foram convocadas por sindicatos. Muitas delas foram convocadas organicamente online por trabalhadores que simplesmente pararam de trabalhar. Além disso, muitas pequenas empresas fecharam em solidariedade ao protesto, criando uma energia que levou a uma paralisação em toda a cidade.  

Tecnicamente, é ilegal para os sindicatos convocarem uma greve, então eles se referem a ela simplesmente como um “Dia da Verdade e da Liberdade”. No entanto, os direitos dos imigrantes e os grupos comunitários não estão sujeitos a essas restrições. Cartazes espalhados pelas Cidades Gêmeas (Minneapolis e St. Paul) anunciavam: “Sem trabalho, sem escola, sem compras em 23 de janeiro”.  

“Flexibilidade é importante.”“Eu também acho que ter iniciativa e descentralizar a campanha, permitindo que diferentes pessoas imprimam sua própria marca nela, é uma forma normal de os movimentos existirem”, diz Knutson.  

Centenas de restaurantes, bares e supermercados já anunciaram que fecharão em apoio ao movimento de greve. “Há uma grande parte da [comunidade de pequenos negócios] que simpatiza conosco, em parte porque muitos restaurantes perderam suas equipes de cozinha porque as pessoas estão se escondendo”, diz Knutson. 

 “Acho que os pequenos negócios que aderirem à causa estão se unindo. Isso ajuda a criar um clima de paralisação na cidade.” Mais do que isso, com muitos líderes empresariais da cidade apoiando a greve, há pressão sobre os empregadores para que não retaliem ou demitam os trabalhadores que aderirem à paralisação na sexta-feira, 23 de janeiro.  

“Acho que muitos deles não vão querer ser o símbolo do inimigo deste movimento”, diz Knutson. “Se alguém demitir um funcionário por causa da greve, vai colocar o nome dessa pessoa em evidência, e há uma grande chance de que ela vá à falência em breve, ou que pague um preço alto pelo que está fazendo.”  

A greve também inclui um elemento de boicote do consumidor, com os organizadores orientando os apoiadores a não irem à escola, ao trabalho e às compras. Em particular, os grupos estão criticando a Target, que tem sido alvo de críticas por cooperar com o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos). A Target é uma das maiores empregadoras de Minneapolis, detentora dos direitos de nomeação do campo de beisebol e da arena da NBA/WNBA da cidade. 

 Knutson acredita que pressionar grandes empregadores como Target e Home Depot, que têm cooperado com o ICE, pode criar oportunidades para os sindicatos se organizarem. Muitos líderes sindicais em Minnesota estão entusiasmados com as possibilidades que a greve pode inspirar, não apenas em seu estado, mas em todo o país. Mais cidades podem presenciar greves se o ICE tentar ocupá-las, como em Minnesota.  

A coalizão May Day Strong já está convocando uma mobilização e greve em massa para o dia 1º de maio contra o ICE e o governo Trump.  

“Em 1º de maio de 2026, precisamos levar o que o povo de Minnesota fará nesta sexta-feira, 23 de janeiro, para todo o país”, diz Neidi Dominguez, organizadora sindical veterana e diretora executiva da Organized Power In Numbers. “Não iremos trabalhar, não iremos às compras e nossos filhos não irão à escola naquele dia.”  

Knutson afirma que os organizadores em Minnesota estão ansiosos para ver o impacto que a greve pode ter no movimento sindical, mas, à medida que novas táticas surgirem, precisarão avaliá-las constantemente.  

“Não se trata de um evento isolado. O que eu quero é que seja um golpe duro, que mostre a seriedade da nossa atuação e que nos ensine lições valiosas para a construção do movimento, além de ideias para o próximo passo”, diz Knutson. “E como será esse próximo passo? O que é necessário para paralisar as cidades por um período prolongado?” 

O autor, Mike Elk, é um repórter sindicala indicado ao Emmy. Ele fundou o Payday Report usando sua indenização do NLRB (Conselho Nacional de Relações Trabalhistas) por ter sido demitido ilegalmente durante a campanha sindical na Politico em 2015. Envie um e-mail para ele em [email protected].   

Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações, e portanto sem a revisão do autor. As referencias são encontradas no original. As opiniões expressas são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente as visões do ODTI. 

Bilionários ameaçam a democracia, mostra relatório da Oxfam em Davos

Silvia Portela

Como todos os anos, a organização não-governamental britânica OXFAM publicou seu relatório sobre o crescimento da desigualdade no mundo. Como sempre muito bem documentado e convincente, o relatório faz uma convocação pela construção de um mundo mais justo.

Um ponto central do relatório é o perigo para a democracia representado pelo poder descomunal dos bilionários. O seu lançamento no início do Fórum de Davos, o convescote anual desses bilionários, torna-se ainda mais oportuna com a presença de Trump, que vai apresentar sua proposta para tornar-se o imperador do mundo.

O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto da agência France 24.

Em Davos, a Oxfam apontou os ganhos vertiginosos na fortuna dos ultra-ricos   

Por ocasião da abertura do Fórum Econômico Mundial de Davos, a  Oxfam publicou seu relatório anual sobre as desigualdades no mundo. No relatório a ONG denuncia o enriquecimento contínuo dos ultra-ricos e apela aos governos para agirem para proteger o poder político da influência dos mais afortunados.  

Publicado em 19 de janeiro de 2026  

Na ocasião da abertura do Fórum Econômico Mundial, que acontecerá de 19 a 23 de janeiro, a ONG publicou um novo relatório* sobre o estado das desigualdades no mundo em 2025. Intitulado “Contra el Imperio de los Más Ricos”, o texto indica o crescimento contínuo da fortuna dos bilionários e ressalta os grandes perigos que representam para a democracia a concentração de riquezas em poucas mãos.

18,3 trilhões de dólares para 3.000 bilionários  

Este é um novo recorde para o ano de 2025. A organização denunciou que mais de 3.000 bilionários no mundo que acumularam uma fortuna de 18.300 bilhões de dólares. Um recorde histórico proporcionado pelo aumento 16,2%  de sua fortuna de em relação a 2024, cerca de 2.500 bilhões de dólares. Um ganho anual equivalente à riqueza total detida pela metade mais pobre da humanidade, cerca 4,1 bilhões de pessoas.

Este acúmulo de riqueza não para de crescer diz a Oxfam. O crescimento de 16,2% da fortuna dos bilionários em 2025 marcou um enriquecimento de três vezes mais rápido que durante os cinco anos anteriores. Portanto a riqueza dos bilionários aumentou 81% desde 2020.

“As ações da administração de Trump, incluindo a defesa da desregulamentação e o enfraquecimento de acordos para aumentar a tributação corporativa, beneficiaram os mais ricos do mundo”, afirmou a Oxfam.

O mais rico dos milionários, Elon Musk, dono – entre outras empresas – de Tesla e X (antigo Twitter), tornou-se a primeira pessoa a possuir uma fortuna superior de 500 bilhões de dólares, em outubro passado.

Menos de 70% dos ganhos dos bilionários em 2025 seriam suficientes para erradicar 26 vezes a extrema pobreza. Os bilionários do mundo inteiro poderiam igualmente doar 250 dólares de seus ganhos a cada habitante do planeta e mesmo assim continuarem enriquecendo cerca de 500 bilhões de dólares.

Face ao enriquecimento sempre mais rápido dos ultra-ricos, a Oxfam sublinha que a taxa de redução da pobreza  estagnou nos níveis de 2019. A extrema pobreza está ao mesmo tempo  aumentando na África. Aparecem sinais alarmantes, nomeadamente reduções no financiamento da ajuda ao desenvolvimento, de acordo com a ONG. Neste ano, os Estados-Unidos anunciaram o fechamento da USAID, o  maior provedor de ajuda humanitária no mundo e a França reduziu consideravelmente o orçamento da Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD).

Os milionários tem 4 000 vezes mais chances de ocupar um posto político  

Segundo a ONG os bilionários têm 4 000 vezes mais chances de ocupar um cargo político do que um cidadão comum. Nos Estados Unidos, Elon Musk, o homem mais rico do mundo, tornou-se dirigente do DOGE,  órgão encarregado da eficácia governamental na administração de Donald Trump, que também é miliardário.

Ao longo do seu relatório, a Oxfam ressalta o acesso privilegiado dos mais ricos ao poder político, em detrimento da democracia e das liberdades. “Essa explosão de riquezas tem múltiplas consequências e coloca em perigo o bem comum. Os bilionários podem usar sua fortuna para adquirir poder político, influenciar os governos, obter meios de comunicação ou fazer negócios enfraquecendo toda a oposição, apoiando-se sobretudo em poderosas equipes jurídicas para garantir sua impunidade perante a lei”, explica Layla Abdelké Yakoub, ativista do Quênia.

Cada vez mais, esse dinheiro está comprando poder político, disse a Oxfam, apontando em particular para a compra de jornais e outros meios de comunicação por magnatas, como a aquisição da X por Musk ou a compra do The Washington Post por Jeff Bezos, da Amazon.

Ao tempo em que o governo Trump anunciou que as multinacionais americanas estariam isentas da alíquota mínima de imposto de 15% estipulada por um acordo internacional da OCDE, a Oxfam está apelando aos governos a fazerem uma escolha: oligarquia ou democracia. “A crescente desigualdade entre os ricos e o resto da população está resultando em um déficit político grave e insustentável. As desigualdades econômicas e políticas podem acelerar a erosão dos direitos e da segurança das pessoas a um ritmo alarmante”, denuncia Amitabh Behar, diretor executivo da ONG.

*Leia o Relatório da OXFAM: 

Contra el Imperio de los Más Ricos. Defendiendo la democracia frente al poder de los milmillonarios (espanhol) (pdf)

Resumo Executivo (espanhol) (pdf) 

Este texto foi traduzido do francês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações.. As opiniões expressas são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente as visões do ODTI. 

Caso Renee Good: Minneapolis convoca greve e resistência nos EUA

AFL-CIO de Minneapolis convoca greve geral  

Silvia Portela 

Trazemos neste texto a importante notícia da convocação de uma greve geral pela organização regional da AFL-CIO contra as políticas migratórias de Trump, especialmente a atividade criminosa do ICE em Minneapolis e outras cidades americanas. Todos os progressistas devem saudar a luta que a classe trabalhadora estadunidense inicia para enfrentar o trumpismo. 

O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto do site noticioso PayDay Report, “que mostrou sua habilidade em influenciar a conversa no movimento sindical”.

A AFL-CIO de Minneapolis convoca greve geral para sexta-feira, enquanto o movimento se espalha para outras cidades.  

Por Mike Elk

Neste fim de semana, a AFL-CIO de Minneapolis endossou uma convocação para uma greve geral para sexta-feira, 23 de janeiro, em resposta às contínuas operações e batidas do ICE em Minneapolis.  

A convocação ocorre no mesmo dia em que Trump anunciou que a Guarda Nacional poderia ser mobilizada para as Cidades Gêmeas para conter os protestos. Trump já colocou em alerta 1.500 soldados da 11ª Divisão Aerotransportada e os avisou que podem ser enviados para Minnesota.  

Minneapolis rapidamente se tornou o campo de batalha mais acirrado para ativistas que lutam contra o ICE, após um agente do ICE assassinar Renee Good, uma observadora legal que monitorava o ICE.  

Agora, uma greve geral endossada pela AFL-CIO de Minneapolis pode intensificar a luta e inspirar sindicatos em outras cidades a entrarem em greve contra as contínuas operações do ICE. Diversas outras federações trabalhistas regionais já endossaram a greve, e outros sindicatos em todo o país podem ser ainda mais inspirados a agir.  

“A Federação Regional do Trabalho de Minneapolis, AFL-CIO, juntamente com entidades regionais em todo o estado, incluindo a Federação Regional do Trabalho de Saint Paul, o Conselho Trabalhista da Área Oeste, o Conselho Trabalhista da Área Nordeste e o Conselho Trabalhista do Centro-Leste, uniram-se em solidariedade para apoiar uma poderosa luta unificada em todo o estado no dia 23 de janeiro: Dia da Verdade e da Liberdade”, declararam os sindicatos em um comunicado. “O movimento trabalhista de Minnesota está unido contra a violenta ocupação do ICE em nossas amadas cidades, que impactou diretamente os membros dos sindicatos, nossos locais de trabalho e nossas famílias.” 

 Chelsie Glaubitz Gabiou, presidente da Federação Regional do Trabalho de Minneapolis, AFL-CIO, disse que a greve é ​​necessária para que os líderes empresariais quebrem o seu silêncio sobre a imigração.  

“Pais estão sendo forçados a ficar em casa, estudantes estão sendo impedidos de ir à escola, temendo por suas vidas, enquanto a classe empregadora permanece em silêncio”, disse Gabiou. “Nossas federações trabalhistas estão incentivando todos a participarem no dia 23 de janeiro. É hora de cada cidadão de Minnesota que ama este estado e a ideia de verdade e liberdade levantar a voz e aprofundar sua solidariedade com nossos vizinhos e colegas de trabalho que vivem sob esta ocupação federal.” 

 A greve já começou a se espalhar para outras cidades dos Estados Unidos, com ações de solidariedade sendo planejadas em dezenas de cidades. 

Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações.. As opiniões expressas são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente as visões do ODTI. 

Proteção contra desmatamento pela soja na Amazônia está em risco

O perigo da soja na Amazônia

Silvia Portela

Este texto alerta para o perigo da volta da plantação de soja em áreas recém desmatadas da Amazônia diante da possibilidade que as grandes empresas compradoras de soja possam abandonar um acordo que veta a plantação do grão nessas áreas. O poder das empresas produtoras de soja está se tornando cada vez maior diante das pressões compradoras da economia chinesa.

Segundo a revista Forbes (17.01.2026) em outubro os Estados Unidos completaram o quinto mês sem qualquer exportação de soja para a China e ao mesmo tempo, em agosto o Brasil bateu o seu Record de exportações de soja para aquele país.

O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto do Energy Mix, uma organização canadense que  compila “as melhores notícias disponíveis sobre clima e energia e as distribuímos em um boletim eletrônico gratuito que você pode solicitar “ A noticia foi originalmente publicada no boletim Grist.

Um acordo para proteger a Amazônia está se desfazendo após 20 anos

Por Frida Garza, publicado em 14 de janeiro de 2026 

Há quase 20 anos, um grupo de lobby brasileiro de empresas de comércio e processamento de soja aderiu a um acordo histórico de conservação conhecido como moratória da soja na Amazônia. O acordo voluntário proíbe seus membros de comprarem soja cultivada em terras desmatadas após julho de 2008.

Os defensores do acordo afirmam que ele tem sido altamente eficaz na proteção de áreas florestais sem impedir a produção de soja nas últimas duas décadas. Sob a moratória, o cultivo de soja em outras terras — como aquelas desmatadas antes de 2008, ou pastagens ou savanas — ainda é permitido, e relatórios indicam que a produção nessas terras na Amazônia quadruplicou desde 2006.

Mas agora, relata a Grist, em meio a mudanças políticas, o acordo de desmatamento está em perigo.

Em 1º de janeiro, entrou em vigor no Mato Grosso, estado brasileiro responsável pela maior produção de soja, uma nova lei que elimina os benefícios fiscais para os membros da moratória. Esses benefícios fiscais funcionavam separadamente da moratória; no entanto, após a nova lei, o grupo de lobby dos comerciantes de soja — incluindo multinacionais como Cargill, Bunge, ADM e outras — anunciou sua intenção de deixar a moratória, o que, segundo especialistas, colocará ainda mais a floresta amazônica em risco de desmatamento.

Sem a participação dessas grandes corporações, o acordo corre o risco de se tornar praticamente ineficaz, agravando os crescentes desafios enfrentados  atualmente pelos produtores agrícolas.

O êxodo dos grupos agroalimentares da moratória é “totalmente contraproducente”, afirmou Glenn Hurowitz, fundador da Mighty Earth, um grupo de defesa ambiental focado na conservação. Por 20 anos, “o sucesso comercial dessas empresas dependeu da moratória da soja”, disse Hurowitz. “Acabar com ela provavelmente criará muitos desafios de marketing e acesso ao mercado para elas.”

Nos últimos anos, as críticas ao acordo de conservação têm aumentado, alegando que ele privilegia essas mesmas corporações multinacionais em detrimento dos produtores agrícolas brasileiros. Os produtores de soja e pecuaristas há muito se opõem à moratória, afirmando que ela prejudica seus negócios. (A criação de gado depende da produção de soja, e um dos principais usos da soja no mundo é a alimentação animal.)

Os fazendeiros brasileiros têm pressionado o estado do Mato Grosso para que restabeleça as condições de concorrência entre eles e os comerciantes de soja, que um grupo de pressão agrícola chamou de “cartel de compras”. A discordância atingiu o ápice no ano passado, quando o órgão regulador da concorrência do Brasil tentou anular a moratória, ordenando que as empresas participantes deixassem de cumpri-la ou enfrentassem multas pesadas.

A nova lei tributária do Mato Grosso parece ter a intenção de promover esse  reequilíbrio. Segundo uma estimativa, os subsídios fiscais para as empresas participantes da moratória totalizaram US$ 840 milhões entre 2019 e 2024.

João Brites, o  diretor de crescimento e inovação da HowGood, uma startup que ajuda varejistas e fabricantes de alimentos a descarbonizar suas cadeias de suprimentos, classificou a saída dos comerciantes do acordo como uma “grande perda”.

A Cargill encaminhou os pedidos de comentários à Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (ABIOVE), o grupo de lobby que anunciou sua decisão de deixar a moratória na semana passada. Em um comunicado à imprensa, a ABIOVE confirmou que iniciou conversas para se retirar do acordo sobre a soja, acrescentando que outras “políticas públicas para a preservação e o controle do desmatamento”, como o Código Florestal brasileiro, continuarão em vigor.

“O legado de monitoramento e a expertise adquirida ao longo de quase 20 anos não serão perdidos”, escreveu a entidade.

Mas Brites afirmou que o enfraquecimento da moratória provavelmente terá repercussões negativas para a ecologia da Amazônia e sua capacidade de sequestrar carbono. O desmatamento libera o dióxido de carbono armazenado nas árvores de volta para a atmosfera, transformando algumas partes da Amazônia de sumidouros de carbono em fontes de carbono. Também ameaça a biodiversidade do ecossistema, à medida que as espécies sofrem perda de habitat. À medida que as espécies sofrem com a perda de habitat, uma das formas mais importantes pelas quais o desmatamento deteriora o meio ambiente está relacionada à água, afirmou Brites.

O ciclo da água — pelo qual as árvores absorvem água do solo, transpiram-na para a atmosfera e essa água cai na forma de precipitação sobre a paisagem — é de importância crucial na Amazônia, especialmente em áreas mais distantes do oceano. Se as árvores desaparecerem, “você estará prejudicando a capacidade desses ecossistemas locais de serem resilientes. Você estará impactando a quantidade de chuva”, disse Brites, acrescentando que a precipitação também está “diretamente ligada à produtividade agrícola”.

O anúncio da ABIOVE é um “péssimo sinal de que o mercado não quer mais seguir nessa direção de sustentabilidade, o que é realmente muito ruim”, disse Ane Alencar, diretora de ciência do Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia (IPAM).

Existem muitas iniciativas públicas e privadas para preservar áreas florestais na Amazônia — e muitas acusações de greenwashing. Mas a moratória da soja foi considerada especialmente bem-sucedida nos últimos 20 anos em atrair grandes corporações para a sustentabilidade. Na ausência desse acordo, as empresas certamente ainda podem assumir e cumprir compromissos com a conservação e a biodiversidade. Por exemplo, a Cargill, que compra soja de agricultores brasileiros e vende produtos derivados da soja para o McDonald’s e outras grandes redes de supermercados, afirmou que continuará trabalhando para atingir sua meta de tornar suas cadeias de suprimentos “livres de desmatamento” até 2030.

Mas esse prazo ainda está a alguns anos de distância, apontou Brites, o que significa que a corporação ainda pode obter matéria-prima de áreas recém-desmatadas até lá — enquanto que, sob a moratória da soja, ela havia prometido não fazê-lo.

O enfraquecimento da moratória da soja também ameaça terras indígenas na Amazônia, à medida que os produtores agrícolas buscam novas áreas para expansão. “Há um risco”, disse Alencar, especialmente se as terras indígenas não forem devidamente demarcadas.

A notícia da ABIOVE surge pouco depois da COP30, a cúpula climática realizada em Belém, no Brasil, onde o país anfitrião reforçou seu compromisso com a proteção de suas florestas. Contrariando a posição defendida na COP, esse desenvolvimento pode refletir a menor pressão política e social que o setor privado sente para agir, visto que governos como o da segunda administração Trump nos Estados Unidos estão abertamente retrocedendo em iniciativas de sustentabilidade e combate ao clima.

“Em toda a minha vida — não apenas na minha carreira, mas em toda a minha vida — nunca vi um momento em que as elites políticas se importassem menos com a natureza”, disse Hurowitz.

Ele acrescentou que empresas de comércio de commodities como a Cargill e outras terão que se esforçar mais para demonstrar seu compromisso com a proteção das florestas.

Haverá “um número significativo de consumidores provavelmente preocupados com o fato de estarem sendo cúmplices da destruição da floresta amazônica”, disse Hurowitz.

Afinal, essa pressão foi um dos motivos pelos quais, há 20 anos, a Cargill e outras empresas se uniram e aderiram à moratória da soja. “Isso se tornou um verdadeiro problema de imagem para essas empresas”, afirmou. Resta saber se isso se repetirá.

Esta notícia foi atualizada com uma resposta da ABIOVE.

Esta matéria foi originalmente publicada pela Grist. Inscreva-se para receber a newsletter semanal (em inglês) da Grist em  https://go.grist.org/signup/weekly/partner?utm_campaign=republish-content&utm_medium=syndication&utm_source=partner

Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações.. As opiniões expressas são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente as visões do ODTI.

Argentina: Salários em queda

Silvia Portela 

Este texto do Página 12 mostra as péssimas condições que enfrentam os argentinos diante da política econômica criminosa de Milei, Nem mesmo o principal sindicato argentino, o Sindicato dos Comerciários consegue repôr os salários corroídos pela inflação. Com o grande aumento do trabalho precário e informal no país é possível imaginar a terrível situação da maioria dos trabalhadores argentinos. 

O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto do Página 12, o conhecido periódico argentino.

A âncora imposta pelo Governo afundou o poder de compra

Os salários diminuíram na maioria dos sindicatos  

Em novembro, registrou-se uma queda real média de 4,5% em 80% dos acordos coletivos.  

Por Mara Pedrazzoli, publicado em 17 de janeiro de 2026  

Em 2025, o Governo estabeleceu diretrizes salariais rígidas e congelou os aumentos em torno de 1,5%, insuficientes para compensar a alta dos preços. Como resultado, em novembro, o salário médio nos principais acordos coletivos havia acumulado uma perda real de 4,5% em comparação com o início do ano. A queda na renda foi generalizada e teve impacto direto no consumo e na atividade econômica interna. Na prática, os acordos coletivos atuaram como âncora para um processo de desinflação que acabou fracassando, levando a quedas persistentes nos salários reais no setor privado — uma dinâmica que se aprofundou nos meses seguintes e com a aceleração da inflação que marcou o final do ano.  

Diante da imposição, pelo governo, de uma diretriz salarial excessivamente exigente — com aumentos mensais de 1,5% entre julho e novembro, resultando em uma significativa perda do poder de compra —, as negociações tiveram que ser reabertas em dezembro e janeiro com aumentos maiores. “A situação atual é semelhante à que ocorreu após a suspensão do controle de capitais”, observa Federico Pastrana, diretor da CP Consultora e autor de seu relatório mais recente.  

A reabertura da negociação coletiva revelou que a estrutura salarial oficial era insustentável diante da alta dos preços e forçou uma correção, ainda que tardia, de uma política que corroía a renda. 

No início de 2025, o governo havia pressionado por negociações abaixo de 2% ao mês, mas a disparada inflacionária em março e abril e a consequente queda real dos salários forçaram um afrouxamento das diretrizes. Posteriormente, com a desaceleração dos preços em maio e junho, o governo voltou a endurecer as diretrizes salariais. Essa oscilação nas diretrizes salariais revelou uma estratégia errática, sujeita ao ambiente inflacionário, que transferiu o custo do ajuste para os salários.  

As diretrizes salariais ganharam novo fôlego em dezembro e janeiro, mas a aceleração dos preços no final de 2025 atingiu tal magnitude que os novos acordos não conseguiram compensar a queda acumulada. Segundo dados da consultoria, em novembro de 2025, o salário médio sob os principais acordos coletivos de trabalho havia acumulado uma perda real de 4,5% em comparação com o início do ano. Assim, mesmo com acordos mais favoráveis ​​no final do ano, os salários reais ainda não haviam se recuperado.  

Nesse sentido, como alerta Pastrana, “a política salarial está em suspenso”. Diante das quedas ininterruptas, nas negociações coletivas retomadas em dezembro e janeiro, foram alcançados aumentos salariais mais expressivos, mas os índices exorbitantes de inflação mensal estão impulsionando uma tendência de estagnação que pode persistir. “O componente político (reforma trabalhista) e o desempenho do emprego e da inflação serão fatores decisivos na evolução dos salários nos próximos meses”, conclui o relatório. Além disso, uma análise dos diversos Acordos Coletivos de Trabalho revela que a queda em relação à inflação foi generalizada. “Nos últimos cinco meses comparados (entre agosto e dezembro de 2025), apenas 20% dos setores conseguiram aumentar os salários reais em relação ao mês anterior”, afirma o CP.  

Isso significa que uma pequena fração dos sindicatos obteve uma melhora relativa na renda, enquanto a grande maioria viu suas condições salariais piorarem. Nesse sentido, o cenário “frouxo” do mercado de trabalho desempenha um papel fundamental: com suspensões, férias antecipadas, demissões e fechamento de empresas, a possibilidade de negociar aumentos salariais é limitada.  

A queda na renda também se reflete em outros indicadores salariais, além dos principais acordos coletivos. Segundo o relatório da CP Consultora, o Índice de Salários (IS) do Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC) apresentou queda real de 0,2% em outubro, pelo segundo mês consecutivo.  

Da mesma forma, o salário médio no Sistema Integrado de Pensões da Argentina (SIPA), divulgado pelo Ministério do Trabalho, registrou queda real mensal de 0,9% em novembro, marcando seu terceiro declínio consecutivo. Em conjunto, esses dados confirmam que a deterioração dos salários reais é um fenômeno generalizado e persistente que continua a corroer o poder de compra dos trabalhadores.  

Por outro lado, por setor, constata-se que as negociações coletivas são mais heterogêneas do que eram há alguns meses. “Os percentuais acordados e a incorporação de valores fixos apresentam um cenário mais diverso”, o que se reflete no aumento do coeficiente de variação, que subiu de 55% em agosto para 85% em outubro. As diferentes realidades setoriais também se traduzem em acordos mais diversos.  

Especificamente, no caso do acordo coletivo do Comércio, descrito no relatório da CP, o maior do país e frequentemente utilizado como referência para os demais, após seis meses de aumentos mensais não cumulativos de 1%, o último acordo assinado (dezembro) estipula apenas a incorporação de um valor fixo extraordinário de 60.000 pesos. Isso não compensa a perda anterior e, sem qualquer aumento percentual daqui para frente, promete rápida erosão de seu valor nos próximos três meses.  

“A incapacidade de estabelecer um aumento percentual no acordo coletivo mais importante do país é sintoma da falta de uma diretriz salarial clara”, afirmam.  

A análise dos diversos acordos coletivos de trabalho também mostra que, ao contrário da visão tradicional que equipara mecanicamente a inflação mais baixa a contratos cada vez mais longos, o processo atual é lento. Os acordos aumentaram sua duração apenas timidamente, de uma média de 3,2 meses em agosto para 3,6 meses em dezembro de 2025. 

Este texto foi traduzido do espanhol com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações.. As opiniões expressas são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente as visões do ODTI. 

Pressão de Trump sobre Venezuela expõe fragilidade regional e disputa por minerais críticos

A escalada de pressões dos Estados Unidos sobre a Venezuela, sob o governo de Donald Trump, não é um episódio isolado de sua política externa agressiva, mas parte de uma disputa global por recursos estratégicos, do petróleo às terras raras, que pode redesenhar o tabuleiro de poder na América do Sul. O alerta foi feito por especialistas em geopolítica, energia e mineração em debate promovido pelo Projeto Brasil, na TV GGN, que reuniu a pesquisadora Astrid Aguilera Cazalbon, pesquisadora do Grupo de Estudos sobre Segurança Energética (GESENE/UFPB), e o professor Fernando Landgraf, da Escola Politécnica da USP. [Assista a íntegra no fim da matéria]

Segundo os analistas, a investida contra Caracas expõe não apenas a vulnerabilidade venezuelana, mas a fragilidade de toda a arquitetura regional de integração e defesa de recursos naturais. Em paralelo, escancara o vazio de uma política brasileira consistente para terras raras, minerais críticos para a indústria de alta tecnologia, em um momento de reorganização das cadeias globais.

Pressão sobre a Venezuela e risco sistêmico

Astrid Aguilera avalia que a estratégia de Washington mira diretamente o controle de recursos energéticos e infraestruturas críticas, com efeitos que extrapolam as fronteiras venezuelanas. “Qualquer processo de ataque, mesmo que pareça isolado em um país, representa um ataque à soberania de todos os outros países da região e do subcontinente como um todo”, afirmou.

Na leitura da pesquisadora, a ofensiva de Trump contra Caracas configura “um ataque direto à nossa soberania e à estabilidade da região”, com potencial de deflagrar conflitos de maior escala. O temor é que disputas em torno de petróleo e gás acabem deslocadas para áreas sensíveis, como a margem equatorial brasileira, ampliando riscos à segurança energética regional.

O debate destacou que, historicamente, episódios de intervenção ou sanções severas contra países produtores não se restringem ao plano diplomático: tendem a impactar fluxos comerciais, investimentos, cadeias de abastecimento e até infraestruturas físicas, fatores que, em um continente interdependente, reverberam além das fronteiras nacionais.

Silêncio institucional e paralisia regional

Apesar da gravidade do cenário, Astrid apontou a ausência de posicionamentos públicos por parte de organismos que deveriam liderar respostas coordenadas. “Hoje faz muita falta ter instituições fortes que consigam construir uma posição conjunta em defesa dos nossos recursos”, disse, ao citar o esvaziamento de instâncias como a União de Nações Sul-Americanas (UNASUL).

Entidades técnicas voltadas à integração energética, como a Organização Latino-Americana de Energia (Olade), a Associação Regional de Empresas de Petróleo e Gás (Arpel) e a Comissão de Integração Energética Regional (CIER), também não apresentaram manifestações formais contra ataques à infraestrutura ou à soberania energética venezuelana.

O Mercosul, que em 2018 se pronunciou sobre a crise humanitária no país, tampouco divulgou declaração recente sobre o agravamento do quadro político e geopolítico. O mesmo ocorre com o Consenso de Brasília, criado em 2023, apesar de a Venezuela integrar o bloco.

Para os especialistas, essa inércia reflete divergências políticas internas e a dificuldade de construir consensos mínimos em um cenário de fragmentação regional, agravado pelo distanciamento da Argentina do atual governo Javier Milei em relação aos mecanismos de integração sul-americana.

Terras raras: corrida global, política nacional ausente

Enquanto a geopolítica do petróleo volta ao centro das tensões internacionais, outro eixo estratégico ganha força: as terras raras, grupo de 17 elementos químicos essenciais à produção de motores elétricos, turbinas eólicas, equipamentos médicos, mísseis, satélites e chips avançados. Apesar de deter algumas das maiores reservas do mundo, o Brasil segue sem uma política estruturada para o setor e permanece majoritariamente como exportador de matéria-prima.

“Não existe hoje uma política de terras raras no Brasil. O que existe é a possibilidade de qualquer empresa, inclusive estrangeira, deter áreas de mineração no país”, afirmou Fernando Landgraf.

Segundo o professor, todos os projetos em andamento estão vinculados a capitais internacionais, sobretudo australianos e canadenses, em parte porque investidores nacionais se afastam de iniciativas de longo prazo diante do custo elevado do crédito. “Com a taxa de juros nesse patamar, o capital brasileiro não tem apetite para esse tipo de investimento”, disse.

Landgraf observa ainda que parte desses agentes atua de forma especulativa, adquirindo direitos minerários sem compromisso imediato com produção, tecnologia ou agregação de valor. “Muitos são aventureiros ou especuladores que só querem valorizar a área para depois vender”, afirmou.

Exportação primária e dependência tecnológica

Um dos principais riscos, segundo os especialistas, é a repetição do padrão histórico de exportação de matéria-prima sem beneficiamento local. Landgraf citou o projeto “Clara” como exemplo: embora avançado do ponto de vista minerário, prevê que a separação dos minerais, etapa mais complexa e tecnologicamente sofisticada, seja realizada nos Estados Unidos, com financiamento do governo americano.

Você exporta o minério e importa o produto de alto valor agregado”, disse o pesquisador, ao apontar que essa dinâmica perpetua a dependência tecnológica e bloqueia o desenvolvimento de uma indústria nacional de ímãs permanentes, componentes-chave da transição energética.

Hoje, iniciativas brasileiras concentram-se em esforços pontuais, como o laboratório-fábrica do SENAI em Minas Gerais e pesquisas no CTEN e no CDTN, ainda restritas à escala experimental. A separação dos 17 elementos das terras raras, destacou Landgraf, permanece um gargalo tecnológico não superado no país.

Risco ambiental e dilemas regulatórios

Outro ponto sensível é o impacto ambiental da mineração de terras raras, sobretudo em regiões vulneráveis. Landgraf alertou para a ausência de estudos robustos sobre os efeitos dessas tecnologias em áreas como Poços de Caldas (MG). “Não sabemos ainda qual é o impacto ambiental real dessas novas rotas de mineração”, disse.

No Congresso, propostas para criar impostos de exportação ou mecanismos de proteção às matérias-primas enfrentam resistência, sob o argumento de que poderiam inviabilizar o surgimento de mineradoras nacionais. O impasse revela, segundo os debatedores, a falta de uma estratégia de Estado capaz de equilibrar soberania, sustentabilidade e desenvolvimento industrial.

Soberania energética e integração em xeque

Para Astrid, a ausência de uma política regional articulada e a dependência crescente de capitais externos colocam em risco a própria ideia de soberania energética coletiva. “A integração energética depende de infraestrutura compartilhada. Um ataque à soberania de um país não fica contido nele, desloca conflitos e vulnerabilidades para os vizinhos”, afirmou.

Na avaliação dos especialistas, sem instituições supranacionais fortes e sem políticas nacionais robustas para recursos estratégicos, a América do Sul tende a seguir como fornecedora de insumos brutos em um mundo cada vez mais competitivo, justamente no momento em que potências disputam petróleo, minerais críticos e cadeias industriais associadas à transição energética e à segurança tecnológica.

O resultado, alertam, é a ampliação da vulnerabilidade externa e a perda de margem de manobra estratégica em um tabuleiro internacional cada vez mais hostil aos países que não controlam suas próprias matérias-primas, tecnologias e cadeias de valor.

Entrevista: A revolução do processamento de dados que o IBGE prepara

O presidente do IBGE, Marcio Pochmann, detalha uma reestruturação do instituto focada na análise preditiva e na modernização tecnológica para orientar políticas públicas brasileiras. A nova estratégia busca superar a fragmentação histórica de dados ao integrar diversas bases governamentais por meio de parcerias com o Serpro e o uso de inteligência artificial. O objetivo central é permitir que o Estado antecipe fenômenos sociais e econômicos, como o envelhecimento populacional e novas dinâmicas de urbanização, em vez de apenas reagir a dados passados.

Em entrevista retransmitida no YouTube do Projeto Brasil, no canal da TVGGN, nesta semana, Pochmann enfatiza a importância da soberania de dados para proteger informações sensíveis contra o domínio de grandes empresas estrangeiras de tecnologia. Sobre isso, ele expõe os riscos de treinar modelos de inteligência artificial em empresas estrangeiras.

Segundo o executivo, atualmente, 78% dos dados no Brasil são processados fora do país por empresas privadas estrangeiras. Isso cria uma situação de dependência e vulnerabilidade, pois essas chamadas “big techs” acabam detendo mais informações sobre a realidade brasileira do que os próprios governantes, como o presidente, governadores e prefeitos.

Aí é que entra a importância e a necessidade de o IBGE reformular e atualizar a metodologia e o processamento de dados, já que isto é também soberania digital.

Pochmann explica que o IBGE irá utilizar a inteligência artificial (IA) como uma ferramenta central para garantir a soberania de dados por meio da internalização tecnológica e da redução da dependência de empresas estrangeiras. Entre as estratégias, o Instituto está formando sua própria inteligência artificial, desenvolvendo essa capacidade internamente, assim como já fazem instituições como a Petrobras e o Supremo Tribunal Federal. 

O IBGE também estabeleceu uma associação com o SERPRO, a maior empresa pública de processamento de dados do Brasil, para processar informações em larga escala. Essa união permite que o instituto atue como uma espécie de “big tech pública”, mantendo os dados sob controle nacional.

Além disso, os mais diversos órgãos do governo estão promovendo a homogeneização e o pareamento de diversos bancos de dados governamentais (como os do INSS, Ministério da Saúde e do Trabalho). Pochamnn narra que desde 1973, o IBGE é o coordenador do sistema estatístico nacional, mas as informações acabaram se dispersando em bancos de dados setoriais. A integração visa homogeneizar e parear esses dados para que o governo tenha uma visão do “todo” e não apenas de partes isoladas da realidade.

Ao cruzar dados do Censo com registros do INSS, Ministério do Trabalho, Educação (INEP) e Saúde, é possível identificar, por exemplo, onde a população está envelhecendo e se esses locais possuem infraestrutura hospitalar adequada, ou como as mudanças no perfil de doenças afetarão o sistema público.

Ainda, a integração permite analisar o impacto de grandes projetos, como as Rotas de Integração Sul-Americana. Tal projeto das rotas de integração permitirá uma visão detalhada e preditiva do impacto dessas infraestruturas no território brasileiro e países vizinhos. O IBGE identifica as cidades situadas ao longo das cinco rotas planejadas, analisando um raio de 100 km para cada lado desses eixos, mapeando, por exemplo, a existência de escolas, universidades e hospitais das vias em expansão.

Essa análise identifica carências e problemas, orientando onde o Estado precisa investir para dar suporte ao crescimento econômico territorial. O planejamento integrado também busca evitar a repetição de erros do passado, como a urbanização sem planejamento que gerou favelas nas regiões litorâneas, ajudam a evitar a “favelização do interior”, garantindo que o crescimento em torno das rotas seja organizado.

Com as mudanças, o IBGE espera passar o Brasil de uma política de dados baseada apenas na “realidade observada” (presente do passado) para uma política do “presente do futuro”, explicou Marcio Pochmann. Isso significa que, ao processar grandes volumes de dados, o governo pode antecipar problemas e soluções, atuando de forma precisa antes mesmo que os gargalos sociais ou logísticos se consolidem.

Assista à íntegra da entrevista no Projeto Brasil no YouTube:

 

Da Embraer naval à crise da Avibras: O mapa da Indústria da Defesa no Brasil

Especialistas destacam o potencial e os desafios da indústria da Defesa do Brasil, notadamente nos setores aeroespacial e naval.

O painel sobre “Oportunidades, desafios e o potencial do Brasil em Defesa” da última edição do Projeto Brasil contou com a participação de diversos especialistas do ITA, IPT, Unicamp, Finep e Estudos Marítimos, destacando a necessidade de um desenvolvimento estratégico e de políticas públicas integradas para impulsionar a inovação e garantir a soberania tecnológica nacional.

Entre os pontos expostos, a conversa expõe o caso de sucesso da Embraer como modelo de apropriação e acumulação de tecnologia, contrastando-o com a fragilidade de outras empresas do setor diante de crises e processos de desnacionalização, como o da Mectron. Entre os participantes, há um consenso sobre a insuficiência dos investimentos em defesa no Brasil e o papel crucial do Estado, em parceria com a FINEP, universidades e empresas de controle nacional, para coordenar o financiamento e a aquisição de tecnologias críticas.

Por fim, os expoentes ressaltam a importância vital de manter e desenvolver recursos humanos qualificados para a sobrevivência e crescimento da base industrial de defesa brasileira.

Abaixo, um resumo das principais contribuições de cada palestrante (conteúdo elaborado com o auxílio de IA. Curadoria e edição da Redação):

Marcos Barbieri (Professor da Unicamp, especialista em indústria aeroespacial e de defesa)

O Professor Barbieri abordou o cenário geral da política de Defesa, destacando a baixa aplicação de recursos pelo Brasil. O Brasil gasta cerca de 1,1% a 1,4% do PIB em defesa, enquanto a média mundial é de 2,3% a 2,4%, e menos de 8% desse valor é destinado a investimentos (incluindo compras de equipamentos importados).

Apesar das limitações, a indústria brasileira mostra avanços na construção naval, criptografia, veículos blindados e, principalmente, na indústria aeronáutica, citando o sucesso do KC-390, que vence concorrências internacionais em países da OTAN e no Oriente Médio.

Para explicar o sucesso da Embraer e orientar o desenvolvimento tecnológico, ele destacou dois elementos chaves: apropriabilidade (o controle e comando do desenvolvimento tecnológico deve ser nacional) e cumulatividade (a competência tecnológica deve ser acumulada ao longo do tempo).

Ele ressaltou que a empresa com controle nacional é fundamental para garantir que a apropriação da tecnologia seja brasileira e permaneça no país. Barbieri alertou para a desnacionalização de empresas estratégicas e tecnologias críticas, citando a situação do Link 2BR (comunicação de dados entre aeronaves) que está sob controle de uma subsidiária de uma empresa estrangeira (israelense). 

Henrique Álvares (Doutor em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento)

Henrique Álvares discutiu as perdas e o desmonte da Base Industrial de Defesa no período de 2014 a 2022.

Ele relembrou que, após a Estratégia Nacional de Defesa (2008-2009), grandes empresas de capital privado brasileiro, como a Odebrecht, entraram no setor (adquirindo a Mectron) para tocar programas importantes, principalmente de mísseis. 

A crise econômica e a Lava Jato levaram a Odebrecht a vender a Mectron em 2016, resultando na desnacionalização de tecnologias críticas. A parte de comunicação e aviônica, que incluía o Link BR2 (sistema de criptografia da Aeronáutica) e outros projetos financiados com recursos públicos da FINEP, foi adquirida pela AEL, subsidiária da Elbit Systems (israelense).

Ele salientou que a desnacionalização torna a capacidade do exército mais vulnerável, citando o caso da Guerra das Malvinas, onde submarinos argentinos usavam sistemas de criptografia da CryptoAG, que depois se descobriu ser controlada pela CIA. Atualmente, os projetos desenvolvidos pela Mectron estão divididos e menos protegidos por legislação, com empresas menores sendo financiadas por capital estrangeiro.

Anderson Correa (Presidente do IPT e ex-reitor do ITA)

Anderson Correa focou na formação de recursos humanos e seu papel como elemento impulsionador da criação de empresas. Ele destacou que o ITA, criado em 1950 sob a visão do Marechal Casimiro Montenegro Filho, foi o berço da Embraer, fundada por ex-alunos como Ozires Silva.

A Embraer criou um ecossistema completo, com subsidiárias para aviação comercial, militar (KC-390), tráfego aéreo (Atech) e espaço (Visiona). Além disso, o ITA e seus engenheiros foram cruciais para a fundação de outras empresas de defesa (como a Mectron e Avibras) e a criação de outras instituições (como Unicamp e UFABC).

A indústria de defesa gera poder geopolítico e spillovers tecnológicos que beneficiam a sociedade (como a internet, GPS, e o papel da Força Aérea na Amazônia). Ele enfatizou que um país do tamanho do Brasil não pode abdicar de ter sua própria indústria de defesa e tecnologia. 

Ao comentar a situação da Avibras, ele mencionou que a empresa, que já foi gigante em exportação, enfrentou dificuldades devido à COVID e à falta de garantias do BNDES para exportação, entre outros fatores.

Felipe Sares (Mestre em estudos marítimos e dono do canal Base Militar)

Felipe Sares introduziu o conceito de “Embraer Naval”, buscando contextualizar por que o Brasil domina a aviação, mas não consegue replicar esse sucesso em outras áreas complexas.

O conceito surgiu da observação da concorrência das Fragatas Tamandaré. A ideia inicial da Marinha era um projeto nacional (CV03) para desenvolver componentes internos (armamentos, sensores, software), servindo como uma “escada” tecnológica.

A estratégia falhou porque a Marinha não estabeleceu um plano de criação de uma “Embraer Naval”. As empresas estrangeiras sondadas não tinham interesse em transferir tecnologia ou fabricar um navio que se tornaria seu concorrente. Sob a sombra da Lava Jato, a Marinha criou um processo complexo, e o consórcio vencedor (TKMS, com Embraer e Atech) ofereceu um navio maior e fora das especificações, abandonando a premissa de um projeto puramente nacional.

Para Felipe, o sucesso do KC-390 na Embraer resultou da confiança da Força Aérea e do financiamento total para o desenvolvimento de um produto novo e superior, enquanto projetos longos e mal financiados (como os da Mectron) resultam em obsolescência. Ele defendeu que o problema central está na falta de compreensão geoestratégica da classe política sobre como a indústria de defesa deve funcionar. Além disso, um grande exportador precisa ser um grande comprador interno, citando a França, que compra 60% de sua produção.

Rodrigo Seioso (Superintendente de Inovação da Finep)

Rodrigo Seioso apresentou o papel da FINEP no fomento à inovação, indicando que o Brasil vive um novo momento positivo de investimento em ciência, tecnologia e inovação, alinhado à política industrial Nova Indústria Brasil (NIB).

A FINEP é a principal financiadora do eixo de inovação da NIB. A recomposição dos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) tem permitido um ciclo de investimento robusto.

Desde 2023, a FINEP já financiou mais de R$ 3 bilhões em inovação para o setor de defesa e aeroespacial.O foco é a soberania tecnológica, aumentando a participação nacional nas compras públicas e substituindo importações. Projetos recentes apoiados incluem o radar M200 multimissão (com a Embraer), o foguete para veículo hipersônico (14X), e o processo para obtenção de hexafluoreto de urânio (combustível nuclear).

Ele enfatizou que o aumento substancial do financiamento se deve a um consenso institucional e ao alinhamento de prioridades, o que permite à FINEP compatibilizar o prazo e o risco do desenvolvimento tecnológico com as soluções financeiras. A perspectiva é positiva, com previsão de arrecadação de R$ 13 bilhões 150 milhões na empresa, e seus problemas atuais são mais de gestão e societários.

 

Assista à íntegra do Painel especial sobre a Indústria da Defesa do Projeto Brasil:

Mercosul – UE: Uma vitória Europeia?

A autorização da União Europeia para a celebração de um acordo de livre-comércio com o Mercosul depois de 25 anos de negociações é analisado neste artigo do ponto de vista europeu. Alexandra Sharp, redatora do World Brief, argumenta que será pequeno o seu impacto econômico comparado à instabilidade política que ele poderá causar.

Mas é claro que essa analise poderá ser diferente do ponto de vista do Brasil e dos outros países do bloco. Para o Brasil haverá prováveis ganhos para o setor agrícola, com a ressalva de que os preços internos dos alimentos já sofrem com as exportações atuais de alimentos. Para a indústria, a longo prazo já que as tarifas vão baixar de forma lenta, haverá prejuízos com a concorrência europeia. Mas como ressalta Sharp, o Parlamento Europeu precisa aprovar o acordo para que ele seja implementado.

O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto do World Brief, que é ”o principal boletim informativo diário da FP Foreign Policy e atualiza sobre as notícias das últimas 24 horas em cinco minutos”.

Silvia Portela

World Brief: o principal boletim informativo diário da FP, que resume as notícias das últimas 24 horas em cinco minutos.

O acordo comercial UE-Mercosul pode não ser a grande vitória que alguns na Europa esperam.

O acordo deverá adicionar apenas 0,05% à economia da UE e desencadeou uma turbulência política em toda a Europa.

Por Alexandra Sharp, redatora do World Brief na Foreign Policy.

Grande vitória ou motivo para mais instabilidade?

A União Europeia deu sinal verde na sexta-feira a um acordo comercial com o bloco sul-americano Mercosul, superando 25 anos de negociações prolongadas para criar uma das maiores zonas de livre comércio do mundo. Embora os principais apoiadores europeus do acordo, como o chanceler alemão Friedrich Merz e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, estejam comemorando o acordo como uma vitória, analistas sugerem que o impacto econômico do acordo no continente será mínimo, na melhor das hipóteses, e poderá desencadear mais instabilidade política, na pior.

Nos termos do acordo UE-Mercosul, mais de 90% das tarifas sobre as exportações da UE serão eliminadas, permitindo um mercado integrado de cerca de 780 milhões de consumidores. A Europa apresentou o acordo como necessário para contrabalançar as elevadas tarifas dos EUA, o que impulsionaria as indústrias automobilística e farmacêutica da UE, além de ser uma forma significativa de melhorar a reputação do bloco no cenário mundial.

A UE também acredita que o acordo ajudará a diversificar os mercados europeus, especificamente ao fornecer outra fonte de matérias-primas essenciais além da China. Pequim é o maior parceiro comercial da América do Sul, em grande parte devido aos investimentos da Iniciativa Cinturão e Rota da China.

“Num momento em que o comércio e as dependências estão sendo instrumentalizados e a natureza perigosa e transacional da realidade em que vivemos se torna cada vez mais evidente, este acordo comercial histórico é mais uma prova de que a Europa traça seu próprio rumo e se mantém como um parceiro confiável”, disse von der Leyen.

No entanto, a Comissão Europeia estima que o acordo UE-Mercosul acrescentará apenas 0,05% (cerca de 90,2 mil milhões de dólares) à economia do bloco até 2040.Isso ocorre porque o comércio entre a Europa e os cinco membros plenos do Mercosul — Argentina, Brasil, Bolívia, Paraguai e Uruguai — é historicamente baixo, mesmo com o Brasil (a maior economia da América Latina) fazendo parte do acordo.

A iminente assinatura do acordo também ameaça exacerbar a instabilidade política na Europa. Nas últimas semanas, agricultores e ativistas ambientais intensificaram seus protestos contra o acordo, alegando preocupações de que ele não proteja os interesses europeus. Trabalhadores agrícolas afirmam que o acordo inundará a UE com importações baratas de alimentos, especificamente carne bovina e aves; aumentará os preços; e exigirá regulamentação local excessiva. Enquanto isso, grupos ambientalistas e outros críticos argumentam que os produtores sul-americanos não atendem aos padrões europeus em relação ao tratamento de animais, desmatamento, pesticidas e direitos trabalhistas.

Áustria, França, Hungria, Irlanda e Polônia votaram contra o acordo na sexta-feira, e a Bélgica se absteve. No entanto, concessões de última hora, incluindo o acesso antecipado a cerca de US$ 52 bilhões em ajuda agrícola, convenceram a Itália — um dos principais países resistentes — a mudar de posição, permitindo a aprovação do acordo.

O Parlamento Europeu ainda precisa aprovar o tratado para que ele seja implementado. Entretanto, agricultores de toda a Europa iniciaram novos protestos na sexta-feira, e os partidos de extrema-esquerda e extrema-direita da França apresentaram ou prometeram apresentar moções de censura contra o governo do presidente Emmanuel Macron devido à iminente assinatura do acordo.

Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações.

Confederações Internacionais condenam ataque à Venezuela

Trazemos esta declaração conjunta da Confederação Sindical Internacional (CSI) e a Confederação Sindical das Américas (CSA) que condena o ataque desfechado por Trump ao povo e ao governo venezuelano

O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto da página da Confederação Sindical Internacional que tem como principal missão “a promoção e a defesa dos direitos e interesses dos trabalhadores, por meio da cooperação internacional entre sindicatos, campanhas globais e defesa de direitos junto às principais instituições globais.”

Silvia Portela

A CSI e a TUCA condenam veementemente o ataque militar dos EUA à Venezuela e a violação de sua soberania.

A Confederação Sindical Internacional (CSI) e a Confederação Sindical das Américas (CSA) expressam sua rejeição absoluta e inequívoca à operação militar realizada hoje pelo governo dos Estados Unidos da América no território da República Bolivariana da Venezuela.

A Confederação Sindical Internacional (CSI) e a Confederação Sindical das Américas (CSA) expressam sua rejeição absoluta e categórica à operação militar realizada nas primeiras horas de hoje, 3 de janeiro de 2026, pelo governo dos Estados Unidos da América na República Bolivariana da Venezuela.

Considerando a gravidade dos eventos, que incluem o bombardeio de instalações em Caracas e a confirmação pelo governo dos EUA da captura e sequestro do presidente Nicolás Maduro, o movimento sindical internacional:

  • Condena a intervenção militar: Denunciamos esta ação como uma violação flagrante da Carta das Nações Unidas e dos princípios fundamentais do direito internacional. O uso da força militar e a incursão no território de uma nação soberana constituem um ato de guerra inaceitável que ameaça a paz e a estabilidade de toda a região.
  • Defende a soberania e a autodeterminação: Em consonância com nossa histórica defesa da autonomia dos povos e em apoio às declarações dos governos da região que exigem respeito irrestrito à soberania da Venezuela, rejeitamos qualquer tentativa de mudança de regime por meio do uso da força ou interferência estrangeira. O destino da Venezuela deve ser determinado unicamente pelo povo venezuelano, por meios democráticos e pacíficos, sem tutela imperial.
  • Exige respeito aos direitos humanos: Unimo-nos às urgentes demandas internacionais por provas de que o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, estão vivos, pelo respeito à sua integridade física e por sua libertação, bem como a de quaisquer outros cidadãos detidos nesta operação ilegal. É imprescindível que a comunidade internacional receba total transparência sobre sua situação atual.
  • Apela à paz e ao diálogo: Compartilhamos a posição expressa pelos governos do Brasil, do México e de outras nações soberanas, que condenam a violência e ressaltam a necessidade urgente de retorno aos canais diplomáticos. A região deve permanecer uma Zona de Paz; não permitiremos que a América Latina seja arrastada para um conflito armado por interesses geopolíticos que não são os de nossos povos.

“De forma alguma esses atos defendem a democracia. São claros atos de agressão no contexto de uma agenda de política externa militarizada, impulsionada por interesses econômicos unilaterais”, afirmou o Secretário-Geral da CSI, Luc Triangle. “Ameaças de sequestro e o uso indevido dos tribunais para atacar um governo soberano minam o Estado de Direito, internacionalmente,“E estabelecem um precedente para a coerção imperialista que representa uma ameaça à paz em todo o mundo.”

“Nós, o movimento sindical das Américas, condenamos o ataque militar e o sequestro do presidente Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, uma violação da soberania e integridade da Venezuela e de toda a América Latina e Caribe, declarada Zona de Paz pela CELAC em 2014. Estamos lançando mecanismos internacionais de solidariedade com o povo e os trabalhadores da Venezuela”, disse o secretário-geral da CSA, Rafael Freire. “Defendemos a Venezuela e toda a América Latina como um território de paz. Não aceitamos a invasão e o uso da violência contra nossos povos e territórios. O movimento sindical está, como sempre, na linha de frente da defesa da soberania e da autodeterminação, da democracia e dos direitos humanos.”

A CSI e a CSA permanecem mobilizadas contra a interferência imperialista, militar ou econômica de um país em outro, contra as guerras e na firme defesa da paz, da democracia e do multilateralismo.

Pela soberania, paz e autodeterminação de todos os povos.

Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações.

O CLACS publica artigos em seu blog a partir de diversas perspectivas. As opiniões expressas são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente as visões do CLACS ou da UC Berkeley.

Economia solidária, Big Data e o desafio de enxergar quem trabalha fora das estatísticas

A Economia Solidária aliada à inteligência artificial e análise de dados são ferramentas estratégicas para combater a pobreza e modernizar o mercado de trabalho brasileiro. O Projeto Brasil recebeu especialistas que discutem a necessidade de unificar cadastros governamentais e estatísticas para identificar trabalhadores invisíveis, como aqueles em plataformas digitais ou na informalidade, superando métricas tradicionais de desemprego.

O debate, levantado por Ricardo T. Neder, pesquisador plataformas digitais solidárias e reindustrialização (UnB), contou como convidada a Subsecretária de Estudos e Estatísticas do Ministério do Trabalho (MTE), Paula Montagner.

Segundo eles, a integração de grandes bases de dados (Big Data) e o uso de inteligência estratégica são vistos como ferramentas fundamentais para superar a pobreza no Brasil, pois permitem identificar realidades antes invisíveis e conectar trabalhadores a oportunidades reais de qualificação e emprego.

Neder explicou que as estatísticas tradicionais de desemprego são consideradas insuficientes para captar a complexidade do mercado de trabalho atual. Nesse sentido, os especialistas narraram como a integração de dados permite mapear o movimento transversal do trabalhador entre a economia formal e a economia popular, identificando ocupações fragilizadas que hoje não são captadas, como os “data workers” (pessoas que treinam algoritmos de IA) e trabalhadores de plataformas digitais.

Montagner concordou que as estatísticas atuais ainda falham em captar as ocupações mais fragilizadas da economia digital. Ela mencionou especificamente os “data workers” — pessoas, em sua maioria mulheres, que trabalham de casa ensinando algoritmos de inteligência artificial (machine learning) para grandes grupos internacionais — sobre os quais o Brasil ainda não possui estatísticas oficiais sólidas. Para Ricardo Neder, sem esses dados, as políticas públicas “estão de costas” para uma massa de trabalhadores subempregados.

O pesquisador expôs a proposta de transformar o SINE em uma plataforma de Big Data proativa, integrando informações do CadÚnico (Bolsa Família), eSocial e cadastros de economia solidária. Esse rastreamento permitiria, segundo Neder, políticas de incentivo mais assertivas para quebrar o ciclo da pobreza.

No olhar dos especialistas, outro uso dos dados para o combate à pobreza passa pelo modelo de reindustrialização tecnológica, capacitando jovens e pequenos empreendedores com “Big Data” para orientar políticas públicas de qualificação profissional. O uso de dados pode qualificar pequenos empreendimentos para participar de cadeias de valor mais complexas.

Em sua participação, Montagner também destacou o esforço do Ministério do Trabalho em criar plataformas digitais acessíveis que conectem certificações, cursos técnicos e oportunidades reais de emprego.

Ela detalhou um projeto em parceria com o Banco Mundial, inspirado no modelo da Coreia do Sul, para transformar o SINE (Sistema Nacional de Emprego). Trata-se de uma plataforma que conecta os currículos do Sistema S (SENAI, SENAC) e escolas federais com as demandas reais do mercado. Nesse projeto que está sendo finalizado pelo governo, a ideia é que o jovem possa ver quais cursos estão disponíveis e como eles se traduzem em ocupações e salários melhores, facilitando a mobilidade social por meio do conhecimento digital.

A representante do Ministério do Trabalho defendeu que a integração de dados funciona como um filtro de precisão que permite identificar o vasto contingente da economia popular, dando-lhe a qualificação e a estrutura necessárias para que ele se torne tão valioso e produtivo quanto o setor mais avançado do país.

O debate reforçou que a tecnologia deve servir à inclusão social, garantindo direitos e melhores remunerações diante das novas dinâmicas da economia popular.

Assista à íntegra do programa do Projeto Brasil no YouTube:

 

A desigualdade global atinge níveis extremos 

Silvia Portela

O relatório Mundial sobre a Desigualdade 2026 mostra que menos de 60 mil pessoas controlam mais riqueza que a metade mais pobre da humanidade. O relatório, que é produzido a cada quatro anos em conjunto com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), mostra o crescimento da desigualdade  em cada uma de suas edições, sem que nada seja feito para mudar essa situação. 

Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto do conhecido jornal inglês The Guardian.

Apenas 0,001% detém três vezes mais riqueza do que a metade mais pobre da humanidade, revela relatório.  

Menos de 60 mil pessoas – 0,001% da população mundial – controlam três vezes mais riqueza do que toda a metade mais pobre da humanidade, segundo um relatório que argumenta que a desigualdade global atingiu níveis tão extremos que medidas urgentes se tornaram essenciais. 

O influente Relatório Mundial da Desigualdade 2026*, baseado em dados compilados por 200 pesquisadores, também constatou que os 10% mais ricos ganham mais do que os outros 90% juntos, enquanto a metade mais pobre detém menos de 10% da renda global total.  

A riqueza – o valor dos ativos das pessoas – estava ainda mais concentrada do que a renda, ou seja, os ganhos do trabalho e investimentos, segundo o relatório, com os 10% mais ricos da população mundial detendo 75% da riqueza e a metade mais pobre apenas 2%.  

Em quase todas as regiões, o 1% mais rico era mais rico do que os 90% mais pobres juntos, constatou o relatório, com a desigualdade de riqueza aumentando rapidamente em todo o mundo.  

“O resultado é um mundo em que uma pequena minoria detém um poder financeiro sem precedentes, enquanto bilhões permanecem excluídos até mesmo da estabilidade econômica básica”, escreveram os autores, liderados por Ricardo Gómez-Carrera, da Escola de Economia de Paris.  

A parcela da riqueza global detida pelos 0,001% mais ricos cresceu de quase 4% em 1995 para mais de 6%, segundo o relatório, enquanto a riqueza dos multimilionários aumentou cerca de 8% ao ano desde a década de 1990 – quase o dobro da taxa dos 50% mais pobres.  

Os autores, entre os quais o influente economista francês Thomas Piketty, afirmaram que, embora a desigualdade “seja há muito tempo uma característica definidora da economia global“, em 2025 ela “atingiu níveis que exigem atenção urgente“. 

 Reduzir a desigualdade “não é apenas uma questão de justiça, mas essencial para a resiliência das economias, a estabilidade das democracias e a viabilidade do nosso planeta”. Afirmaram que tais divisões extremas não são mais sustentáveis ​​para as sociedades ou ecossistemas.  

Produzido a cada quatro anos em conjunto com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o relatório utiliza o maior banco de dados de acesso aberto sobre desigualdade econômica global e é amplamente considerado um indicador do debate público internacional sobre o tema.  

Em um prefácio, o economista ganhador do Prêmio Nobel, Joseph Stiglitz, reiterou o apelo por um painel internacional comparável ao IPCC da ONU sobre mudanças climáticas, para “monitorar a desigualdade em todo o mundo e fornecer recomendações objetivas e baseadas em evidências”.

Indo além da desigualdade econômica estrita, o relatório constatou que a desigualdade de oportunidades alimenta a desigualdade de resultados, com o gasto com educação por criança na Europa e na América do Norte, por exemplo, sendo mais de 40 vezes maior do que na África Subsaariana – uma diferença aproximadamente três vezes maior que o PIB per capita.  

Essas disparidades “consolidam uma geografia de oportunidades”, afirmou, acrescentando que um imposto global de 3% sobre menos de 100 milionários e bilionários arrecadaria US$ 750 bilhões por ano – o orçamento da educação de países de baixa e média renda. 

A desigualdade também foi alimentada pelo sistema financeiro global, que é manipulado em favor dos países ricos, segundo o relatório. As economias avançadas conseguem tomar empréstimos a baixo custo e investir no exterior com retornos mais altos, o que lhes permite atuar como “rentistas financeiros”.  

Cerca de 1% do PIB global flui anualmente dos países mais pobres para os mais ricos por meio de transferências líquidas de renda associadas a altos rendimentos e baixos juros sobre passivos dos países ricos, afirma o relatório – quase três vezes o valor da ajuda global ao desenvolvimento.  

Sobre a desigualdade de gênero, o relatório afirma que a disparidade salarial entre homens e mulheres “persiste em todas as regiões“. Excluindo o trabalho não remunerado, as mulheres ganham, em média, apenas 61% do que os homens ganham por hora trabalhada. Incluindo o trabalho não remunerado, esse número cai para apenas 32%, acrescenta o relatório. 

O relatório também destacou o papel crucial desempenhado pela propriedade do capital na desigualdade das emissões de carbono que alteram o clima. “Indivíduos ricos alimentam a crise climática por meio de seus investimentos, ainda mais do que por meio de seu consumo e estilo de vida”, afirma o relatório.  

Dados globais mostram que a metade mais pobre da população mundial é responsável por apenas 3% das emissões de carbono associadas à propriedade de capital privado, segundo cálculos do relatório, enquanto os 10% mais ricos respondem por cerca de 77% das emissões.  

Essa disparidade diz respeito à vulnerabilidade”, explica o relatório. “Aqueles que emitem menos, em grande parte as populações de países de baixa renda, são também os mais expostos aos impactos climáticos. Aqueles que emitem mais estão mais protegidos contra os impactos das mudanças climáticas.”  

As evidências mostram que as desigualdades podem ser reduzidas, principalmente por meio de investimentos públicos em educação e saúde e por programas eficazes de tributação e redistribuição de renda. O relatório observa que, em muitos países, os ultrarricos escapam da tributação. 

Indivíduos ricos alimentam a crise climática por meio de seus investimentos, ainda mais do que por meio de seu consumo e estilo de vida”, afirma o relatório.  

As taxas efetivas de imposto de renda aumentam de forma constante para a maior parte da população, mas caem drasticamente para bilionários e multimilionários”, diz o relatório. Proporcionalmente, “essas elites pagam menos do que a maioria das famílias com renda muito menor”.  

Reduzir a desigualdade é uma escolha política dificultada por “eleitores fragmentados, sub-representação dos trabalhadores e a influência desproporcional da riqueza”, conclui o documento. “As ferramentas existem. O desafio é a vontade política.” 

Relatório sobre a Desigualdade Mundial 2026 (em português) (pdf)  (incluir o link https://wir2026.wid.world/www-site/uploads/2025/12/WIR26_Executive_Summary_Portuguese.pdf ) 

World Inequality Report 2026, Full Report (em inglês) (pdf(incluir o link https://wir2026.wid.world/www-site/uploads/2025/12/World_Inequality_Report_2026.pdf

Mais informações na página https://wir2026.wid.world/   

Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações. 

Carlos Gadelha recebe Prêmio Destaque Unicamp 2025: trajetória dedicada ao desenvolvimento e saúde pública

O economista Carlos Gadelha, coordenador da rede e do grupo de pesquisa “Desenvolvimento Sustentável, CT&I e Complexo Econômico-Industrial da Saúde” (GPCEIS/CEE-ENSP/Fiocruz), foi reconhecido com o Prêmio Egresso Destaque Unicamp 2025, entregue nesta segunda-feira, 15 de dezembro. A premiação é concedida pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) a ex-alunos cuja trajetória profissional se destaca pela relevância acadêmica, institucional e social.

Gadelha concluiu o mestrado na Unicamp, instituição cujo Instituto de Economia (IE) consolidou-se como um dos principais centros de formulação do pensamento desenvolvimentista no país. O IE-Unicamp é reconhecido como celeiro de nomes fundamentais da economia política brasileira, como Celso Furtado, Maria da Conceição Tavares, Luiz Gonzaga Belluzzo, João Manuel Cardoso de Mello e Luciano Coutinho.

Inspirado pelo legado de Celso Furtado, Gadelha defende uma concepção de desenvolvimento orientada ao bem-estar social, à sustentabilidade ambiental e à soberania nacional. Tais linhas também são o mote deste Projeto Brasil do Jornal GGN, do qual temos a honra de integrar Gadelha como conselheiro consultivo, e junto ao nosso espaço o economista vem construindo debates de alto nível junto à sociedade.

Em sua atuação acadêmica e institucional, o pesquisador articula inovação, transformação produtiva e política econômica às demandas do Sistema Único de Saúde (SUS) e da sociedade brasileira.

Trajetória marcada pela formulação de políticas públicas

Carlos Augusto Grabois Gadelha é doutor em Economia pelo Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e foi, até fevereiro deste ano, secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (Sectics). Ao longo de sua trajetória, atuou como formulador de políticas públicas estratégicas desde 2003, ocupando cargos de direção em secretarias dos ministérios da Saúde, da Integração Nacional e do Desenvolvimento Industrial.

Entre suas principais contribuições está a formulação da Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP), considerada uma das mais importantes ferramentas para o fortalecimento do complexo econômico-industrial da saúde no Brasil.

Atualmente, Gadelha lidera o grupo de pesquisa GPCEIS no Centro de Estudos Estratégicos da ENSP/Fiocruz, vinculado ao Ministério da Saúde. Também é parceiro do Jornal GGN e do Projeto Brasil.

O reconhecimento da Unicamp destaca uma trajetória que conecta pensamento econômico crítico, inovação e compromisso com políticas públicas voltadas à redução das desigualdades, à sustentabilidade e ao fortalecimento do SUS — pilares centrais do desenvolvimento nacional.

Entidades sindicais pedem a integração no setor naval do Mercosul

Silvia Portela 

Este texto traz o documento* entregue ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), que pede que o governo brasileiro promova junto aos governos do Mercosul um processo de integração produtiva do setor naval para enfrentar a concorrência dos estaleiros asiáticos. O processo de construção da plataforma teve a participação do escritório regional do IndustriAll Sindicato Global, sediado em Montevideo, Uruguai.

Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais transcreveu este texto de CNM Noticias, da página da Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT.

Trabalhadores entregam Plataforma Naval do Cone Sul e reforçam unidade regional 

Redação CNM/CUT, publicado em 05 de dezembro de 2025 

Com participação importante da CNM/CUT, iniciativa inédita une países da região em torno de um projeto comum para retomar a indústria naval e ampliar oportunidades de trabalho qualificado 

Em um ato considerado histórico para a classe trabalhadora sul-americana, a Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT (CNM/CUT) participou, nesta quarta-feira (3), em Brasília, da entrega oficial ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) da Plataforma de Integração e Cooperação da Indústria Naval e Offshore do Cone Sul. A entidade foi representada pelo secretário de Relações Internacionais, Maicon Michel Vasconcelos da Silva, e pelo coordenador do segmento Naval, Edson Rocha. 

A plataforma é fruto de um processo iniciado há dois anos. Já teve seminário realizado na Universidade de Buenos Aires (UBA), reunindo trabalhadores, sindicatos, empresários, universidades e representantes governamentais de vários países e várias reuniões onlines. Trata-se da primeira iniciativa em 34 anos de Mercosul a produzir um documento setorial comum envolvendo todos esses atores, um marco político, econômico e sindical. 

O objetivo central é integrar a cadeia produtiva da indústria naval e offshore em toda a América do Sul, fortalecer o desenvolvimento regional, gerar empregos de qualidade e impedir que as demandas industriais do continente continuem migrando para países da Ásia, aprofundando desigualdades e precarização. 

“A construção desta plataforma é inédita. Pela primeira vez trabalhadores, empresários, academia e governos elaboram juntos uma proposta para o setor naval no Cone Sul. Isso devolve força à nossa região num momento em que corporações transnacionais tentam retirar direitos e explorar nossos recursos. Com esta plataforma, recolocamos o Cone Sul na disputa global”, destacou Maicon. 

O documento entregue ao MDIC propõe que o Brasil, por ser o país com maior estrutura produtiva e por estar retomando políticas industriais, lidere o diálogo entre os governos da região. O Ministério, responsável por reorganizar a legislação e reconstruir a indústria naval brasileira, recebeu o material como subsídio estratégico. 

Segundo Edson Rocha, a entrega é apenas o primeiro passo. “A luta está só começando. Precisamos impedir que nossa demanda industrial continue sendo enviada ao exterior enquanto os trabalhadores brasileiros e nossos hermanos ficam no subemprego. Esta plataforma cria um caminho para retomar a construção de navios, plataformas e toda a cadeia produtiva, com emprego de qualidade aqui na América do Sul.” 

A cadeia naval é uma das mais extensas e de maior impacto social e econômico, envolvendo setores como metalurgia, química, construção civil, energia, logística, alimentação e tecnologia. Como aponta o documento, ela possui enorme potencial de reativar economias, reduzir a sazonalidade típica do setor e garantir produção contínua e lucrativa na região. 

Um passo decisivo para um futuro comum 

Para Maicon, a plataforma inaugura um novo patamar de cooperação regional. “Estamos colocando a região na rota dos grandes blocos internacionais. A indústria naval é estratégica e pode integrar economias inteiras. É disso que se trata: empregos, soberania e futuro para o nosso povo.” 

Edson reforça o compromisso da CNM/CUT. “Seguiremos lutando para transformar este documento em políticas concretas que gerem trabalho, renda e dignidade para milhões de trabalhadores e trabalhadoras.” 

A entrega ao MDIC simboliza o início de uma articulação que pode redesenhar o mapa industrial da América do Sul, com protagonismo dos trabalhadores, integração produtiva e desenvolvimento a serviço da soberania da região.

A Plataforma reafirma a necessidade de ressignificar e fortalecer o papel sindical nas relações de trabalho, especialmente diante dos desafios tecnológicos, das reformas trabalhistas recentes e da convivência entre múltiplas gerações no mundo do trabalho.O documento propõe: 

  • – Criação de um Fórum Tripartite Permanente + Academia;
  • – integração de universidades, institutos técnicos e escolas de engenharia;
  • – alinhamento das condições de trabalho, segurança e proteção social entre os países;
  • – equivalência salarial na cadeia naval;
  • – integração tecnológica entre empresas do Cone Sul;
  • – políticas de fomento e soberania produtiva em toda a região;
  • – centros tecnológicos integrados;
  • – articulação legislativa conjunta nos países participantes.

 

Construindo uma agenda de transformação na América do Sul

O processo conta também com a participação do deputado federal Alexandre Lindenmeyer (PT-RS), integrante da Frente Parlamentar em Defesa da Indústria Naval, e de sindicatos nacionais do Uruguai, Argentina, Chile, Bolívia e Paraguai. 

As entidades signatárias incluem: CNM/CUT; UOM; ATE; PIT-CNT; Industriall/Constramet; CNTM; Sindicato Argentino de Obreros Navales; FISENGE; Senge-RJ; UFF; CCSCS; SINAVAL e Transpetro.

* O documento: Integração e Cooperação da Indústria Naval e Offshore no Cone Sul (pdf) pode ser lido no Acervo do Projeto Brasil, confira:

Integração e Cooperação da Indústria Naval e Offshore no Cone Sul

“Não sou menina”: como o diminutivo nos infantiliza, erotiza e apaga nossa potência

Janethe Fontes*

Há algum tempo venho refletindo sobre um fenômeno que, apesar de não ser recente, tem se intensificado: mulheres adultas passaram a se chamar — e a chamar outras mulheres — de “meninas”. 

Eu sei que, à primeira vista, parece um termo afável e qualquer problematização sobre ele pode soar exagerada. Porém, é necessário observar que, por trás dessa suavidade, esconde-se uma armadilha linguística e simbólica que reforça desigualdades de gênero, nega a maturidade feminina e sustenta estruturas patriarcais. Não se trata apenas de uma escolha de vocabulário, mas de um mecanismo cultural que distribui lugares sociais e afeta profundamente a forma como mulheres são percebidas e tratadas. 

Como observa Angela Davis, o poder opera também no plano simbólico; e, quando a linguagem legitima hierarquias, ela própria se torna dispositivo de dominação. É exatamente por isso que precisamos analisar expressões que parecem inocentes — como “menina” — antes de deixá-las atuar sobre nossos corpos e histórias. 

Eu sei também que muitos poderão classificar essa preocupação como “mi-mi-mi” ou considerá-la tola — inclusive algumas mulheres (ou muitas). No entanto, insisto em trazer essas reflexões por acreditar que o uso constante desse diminutivo infantiliza as mulheres, associando-as a características historicamente usadas para mantê-las em posição de subalternidade: fragilidade, dependência e docilidade. 

O curioso é que, conforme uma menina vai crescendo, a sociedade passa a cobrar dela uma postura de “mocinha”. Por isso, o termo se torna uma verdadeira armadilha: ao embaralhar os limites entre infância e vida adulta — chamando meninas de 8, 10 ou 12 anos de mocinhas e mulheres adultas de 30, 40 ou 50 anos de meninas — apaga-se uma diferença crucial entre mulheres e meninas reais. E isso não apenas enfraquece a noção de maturidade feminina, como também abre espaço para uma erotização precoce que normaliza práticas violentas — algo gravíssimo em um país como o Brasil, com índices extremamente altos de violência sexual contra mulheres e meninas. Assim, é fundamental estarmos vigilantes. 

Os dados recentes são alarmantes: Segundo a Câmara dos Deputados, a partir de um estudo da OMS (2019), o Brasil chegou a figurar entre os países com as maiores taxas de feminicídio — dado que, segundo especialistas, pode variar conforme metodologia, subnotificação e atualização dos dados. 

Em 2024, o país registrou o maior número histórico de casos de estupro, totalizando 87.545 ocorrências — o que equivale, em média, a uma vítima a cada seis minutos — com 76,8% dos casos classificados como estupro de vulnerável, categoria que engloba, entre outros, crimes contra menores de 14 anos, conforme o 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2025), em dados divulgados pelo jornal Poder360. Esses indicadores reforçam a urgência de políticas públicas efetivas e de transformações culturais profundas para enfrentar a violência de gênero. A linguagem que infantiliza mulheres adultas e erotiza meninas reais não é mero detalhe: ela participa, ainda que simbolicamente, da engrenagem cultural que sustenta essa violência. 

Como alerta a pensadora Betty Friedan, a dependência infantil passiva e a imaturidade são confundidas com “feminilidade”. Essa confusão mantém as mulheres presas a um ideal de juventude eterna, negando-lhes o direito de envelhecer, amadurecer e adquirir autoridade sem serem vistas como menos valiosas. Afinal, se o envelhecer é difícil para todos os corpos e experiências humanas, para as mulheres é ainda mais cruel. 

 

Infantilizar é dominar 

Quando uma mulher adulta é chamada de “menina”, ela é automaticamente associada à fragilidade, dependência e obediência — qualidades socialmente esperadas das crianças. 

Essa nomenclatura raramente é aplicada a homens adultos, que dificilmente serão chamados de “meninos” fora de um contexto brincalhão. Mas, mesmo quando isso ocorre, o termo é usado apenas para diluir a cobrança ou até mesmo amenizar a conduta do homem adulto — isentando-o, muitas vezes, das consequências de suas ações. Contudo, jamais reduz o valor ou a autoridade que lhe são socialmente atribuídos. 

Para a filósofa Simone de Beauvoir, “não se nasce mulher, torna-se mulher” — um processo complexo de vivências, conquistas e resistências que é ignorado quando reduzimos essa experiência ao termo “menina”. 

 

A armadilha da hiperssexualização 

O uso do termo “menina” infantiliza a mulher adulta, assim como o termo “mocinha” é frequentemente utilizado para erotizar disfarçadamente a criança ou a adolescente. Enquanto chamar mulheres adultas de “meninas” as infantiliza, chamar meninas reais de “mocinhas” as erotiza — dois movimentos complementares que distorcem a fronteira entre infância e vida adulta. 

Ao fundir mulheres adultas com adolescentes, o discurso machista dissolve os limites entre infância e sexualidade — um terreno bastante perigoso, pois abre espaço para a normalização da pedofilia e da exploração sexual de meninas reais. 

No Brasil, com altos índices de violência sexual contra crianças e adolescentes, sobretudo negras e pobres, essa banalização é especialmente grave. Por isso, a discussão não pode ser subestimada: a linguagem atua tanto no corpo simbólico quanto no corpo material das mulheres e meninas. 

 

A cobrança da juventude eterna 

O controle sobre os corpos femininos não se limita à infantilização; ele também se manifesta na exigência constante de juventude. 

Outro aspecto simbólico do uso de “meninas” para designar mulheres adultas é o ideal de juventude eterna. A sociedade faz com que mulheres que envelhecem percam valor, como se beleza e desejo fossem exclusivamente da juventude. 

Para Marcia Tiburi, o corpo feminino é politicamente controlado por meio de padrões estéticos e morais. O termo “menina” reforça a ideia de fragilidade e beleza como única existência feminina, negando maturidade, força e sabedoria. 

 

Nomear é resistir 

Reivindicar o direito de ser chamada de mulher é ato político e libertador. É afirmar autonomia, história, dores e lutas. É dizer não aos moldes que nos querem enquadrar. 

Chamar mulheres adultas de “meninas” não é um gesto inocente: é reforço simbólico.
“Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância.” — Simone de Beauvoir. 

Ser mulher significa assumir responsabilidade, potência e voz ativa, rompendo com modelos patriarcais que querem nos manter infantilizadas e silenciadas. Essa não é uma crítica moral, mas política: não se trata de certo ou errado, e sim de compreender como determinadas palavras sustentam estruturas de poder. 

 

Conclusão 

Em tempos de retrocessos, em que se tenta rebaixar o papel da mulher à submissão e superficialidade, devemos estar atentas às palavras. Afinal, a linguagem molda a realidade e carrega estruturas de poder. 

“Eu não serei livre enquanto alguma mulher não o for, mesmo que suas correntes sejam diferentes das minhas.” — Audre Lorde. 

Por isso tudo, torna-se tão importante reafirmar: não somos meninas! Somos mulheres que carregam história, força, maturidade — e nenhuma de nós cabe em diminutivos. 

Lembre(m)-se: corroborar com discursos machistas nos torna cúmplices. 

 

Nota: Enquanto refletia e esboçava este texto, inúmeros casos de violência doméstica vieram à tona nas mídias brasileiras, e o presidente da República iniciou uma campanha nacional de enfrentamento à violência contra a mulher. No entanto, na escola, o discurso permanece atravessado por uma lógica antiga: diante de qualquer comportamento considerado “inadequado” dos(as) estudantes, a culpa recai sempre — e exclusivamente — sobre as mães. Não se fala em “pais”. Nunca ouvi — nem mesmo entre professores e professoras que se identificam como progressistas, de esquerda — qualquer questionamento sobre o papel dos pais (e aqui me refiro aos homens) na educação de seus filhos e filhas. Ah, como é bom ser homem no Brasil! 

Esse padrão revela o quanto ainda precisamos debater seriamente as desigualdades de gênero no país, pois até aqueles e aquelas que deveriam reconhecer essa estrutura acabam reproduzindo — muitas vezes sem perceber — o machismo que responsabiliza unicamente as mulheres pela dinâmica familiar. E, quando essa cobrança recai sobre uma mulher, o peso simbólico é ainda mais brutal. Esse discurso, repetido diariamente, reforça desigualdades e evidencia o quanto ainda estamos distantes de uma verdadeira consciência de gênero — inclusive em espaços que se pretendem críticos. 

 

Referências: 

BRASIL. Lei nº 13.104, de 9 de março de 2015. Institui o crime de feminicídio no Código Penal. Diário Oficial da União, Brasília, 9 mar. 2015. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13104.htm. Acesso em: 30 de nov. 2025. 

CÂMARA DOS DEPUTADOS. Brasil tem a quinta maior taxa de feminicídio do mundo, segundo a OMS. Câmara Debate, TV Câmara, 14 mar. 2019. Disponível em: https://www.camara.leg.br/tv/553531-brasil-tem-a-quinta-maior-taxa-de-feminicidio-no-mundo. Acesso em: 30 de nov. 2025. 

FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Anuário Brasileiro de Segurança Pública – 19ª ed., 2025. São Paulo: FBSP, 2025. 

PODER360. Brasil bate recorde de estupros em 2024: uma vítima a cada 6 minutos. Poder360, 24 jul. 2025. Disponível em: https://www.poder360.com.br/poder-seguranca-publica/brasil-bate-recorde-de-estupros-em-2024-uma-vitima-a-cada-6-minutos/. Acesso em: 30 de nov. 2025. 

 

*Janethe Fontes é professora de história e sociologia e escritora. Autora, entre outros livros, de Natureza Selvagem (Ed. A Liter Ação). 

A engenharia dos juros altos: Banco Central alimenta superlucros do sistema financeiro

O Banco Central valida o modelo de negócio do sistema financeiro, impulsionando grande poder político: isso é o que explica as altas taxas de juros no Brasil. “A função do Banco Central é preservar a estabilidade do sistema, mas a forma como ele o faz implica em garantir a segurança e a rentabilidade financeira dos operadores”, resumiu Marco Aurelio Crocco, professor da UFMG, CEO do BH-TEC, presidente da Rede Mineira de Inovação e ex-presidente do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais.

Em entrevista ao Projeto Brasil desta semana, Crocco analisou o mercado de crédito, seus impasses e alternativas. Ele narrou o condicionamento das altas taxas de juros, no qual tanto a política monetária (que se manifesta na taxa Selic), quanto a política fiscal são condicionadas pelo setor financeiro. 

Segundo o especialista e os jornalistas Luis Nassif e Sergio Leo, o Banco Central foi criticado pela sua falta de iniciativa total em relação aos spreads abusivos, permitindo que taxas cheguem a mais de 1000%, como no caso da Crefisa. 

O professor também explicou que o regime macrofinanceiro – a articulação entre políticas monetária, fiscal e regulação financeira – é estruturado para permitir que a lógica e o modelo de negócio do sistema financeiro continuem operando. A alta taxa de juros (como o piso da Selic) define a rentabilidade necessária para investimentos em Parcerias Público-Privadas (PPPs).

Se a taxa de juros básica é elevada, o setor privado só participa de PPPs se o retorno for compatível. Isso significa que o Estado precisa fornecer mais garantias para reduzir o risco e ajustar a expectativa de risco e retorno da operação para o setor privado, fechando a operação em torno do custo alto do dinheiro. Assim, a política monetária se integra à fiscal, e o Estado atua indiretamente para manter e garantir um ambiente de alta lucratividade para quem financia.

Crocco conclui que a captura do Banco Central garante que o modelo de negócio que gerou “milionários e bilionários” nos últimos anos seja priorizado, colocando a defesa do crédito como um direito para as calendas em favor da segurança e rentabilidade do sistema financeiro.

Assista à íntegra do episódio:

Fiocruz lança obras que reforçam o papel da ciência na transformação do SUS

O futuro da saúde pública em pauta: dois novos livros produzidos por pesquisadores da Fiocruz reacendem o debate sobre ciência, SUS e soberania. Uma das obras, de Patrícia Seixas da Costa Braga, que integra o Grupo de Pesquisa “Desenvolvimento Sustentável, CT&I e Complexo Econômico-Industrial da Saúde”, terá 3 lançamentos — o primeiro deles ocorreu neste 1º de dezembro, durante o 14º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva (Abrascão), o maior evento de Saúde Coletiva no Brasil, em Brasília.

Os livros — “Políticas de Ciência, Tecnologia e Inovação e os Desafios de Conexão com o SUS”, de Patrícia Braga, e “Resiliência na Saúde Pública”, de Alessandro Jatobá e Paulo Victor Rodrigues de Carvalho — apresentam reflexões críticas sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), a política nacional de ciência e tecnologia (PNCT&I) e os desafios de um país que precisa fortalecer sua soberania científica e produtiva.

Ciência conectada ao SUS: uma urgência nacional

Fruto de pesquisa desenvolvida no Grupo de Pesquisa “Desenvolvimento Sustentável, CT&I e Complexo Econômico-Industrial da Saúde” (GPCEIS/CEE-ENSP/Fiocruz), o livro de Patrícia Braga sustenta que a produção científica financiada com recursos públicos precisa gerar valor social — especialmente em um sistema universal como o SUS.

A autora analisou percepções de 26 coordenadores de Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT/CNPq) da área da saúde. O estudo revela limites do atual modelo de avaliação científica, ainda guiado por métricas acadêmicas que pouco dialogam com impactos concretos na saúde pública.

“O atual sistema de avaliação científica, centrado em critérios acadêmicos e desprovido de ferramentas analíticas capazes de mensurar impactos sociais da pesquisa, não direciona os investimentos para as prioridades do SUS”, afirma Patrícia.

Para ela, aproximar conhecimento científico das demandas reais do sistema público “não é apenas desejável, mas essencial para um sistema mais equitativo, acessível, universal e sustentável”.

Resiliência em saúde: sistemas que aprendem e se adaptam

Já a obra de Alessandro Jatobá e Paulo Victor Rodrigues de Carvalho, pesquisadores do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE/Fiocruz), discute o papel da resiliência em sistemas de saúde — tema que ganhou força após crises sanitárias recentes, como a pandemia de Covid-19.

Os autores defendem a necessidade de estruturas estatais robustas, capazes de responder a emergências e ao mesmo tempo sustentar políticas de qualidade e equidade no longo prazo. O livro integra o projeto de pesquisa “Tecnologia, Informação e Resiliência em Saúde Pública”.

“Compromisso com a transformação social”

Para Carlos Gadelha, coordenador do GPCEIS/ENSP/Fiocruz e conselheiro do Projeto Brasil, as duas obras expõem uma visão integrada de saúde, ciência, tecnologia e desenvolvimento nacional — e contribuem para recolocar a soberania sanitária no centro do debate público.

“As obras buscam orientar o desenvolvimento da ciência, tecnologia, inovação e produção nacional diante dos desafios da sustentabilidade, saúde, bem-estar e soberania nacional”, afirma Gadelha.

Três lançamentos para ampliar o debate

Além da estreia no Abrascão, o livro de Patrícia Braga terá dois outros eventos de lançamento — um webinário nacional e uma noite de autógrafos no Rio de Janeiro, confira:

Webinário “Desafios da CT&I para o SUS”

  • Data: 16/12/2025, às 14h

  • Participações:

    • Olival Freire Júnior (CNPq)

    • Denise Pires de Carvalho (Capes)

    • Patrícia Braga (autora)

    • Lígia Bahia (IESC/UFRJ)

  • Abertura: Alessandro Jatobá

  • Mediação: Carlos Gadelha

Noite de autógrafos – Retrato Espaço Cultural

  • Data: 17/12/2025, às 17h30

  • Local: Rua Benjamin Constant, 115, laje – Glória, Rio de Janeiro

Leia mais:

https://projetobrasil.jornalggn.com.br/artigos/a-saude-como-pilar-do-desenvolvimento-sustentavel-por-carlos-gadelha/

G20 sob a ótica da Sindical Internacional: Solidariedade, Igualdade e Sustentabilidade

Silvia Portela 

Neste texto a Confederação Sindical Internacional (CSI) avalia positivamente a reunião dos líderes do G20, ocorrida na Africa do Sul (Joanesburgo) recentemente. A Confederação saúda diversos avanços na discussão, que deu continuidade às positivas decisões tomadas na reunião anterior do grupo, ocorrida no Brasil. 

Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto da página da Confederação Sindical Internacional (CSI).

Cúpula de Líderes do G20: Sindicatos saúdam declaração e pedem forte ambição para avançar na luta contra as desigualdades.  

A Cúpula de Líderes do G20, realizada nos dias 22 e 23 de novembro em Joanesburgo, marcou  o ápice de uma Presidência sul-africana que promoveu uma agenda progressista e colocou as prioridades da África no centro do processo do G20.  .  

Sob o lema “Solidariedade, Igualdade e Sustentabilidade”, a Presidência deste ano deu continuidade ao legado progressista do Brasil e estabeleceu diversos grupos de especialistas que divulgaram relatórios com importantes recomendações políticas sobre desigualdades, dívida e política industrial.  

A Cúpula adotou a Declaração dos Líderes da Cúpula do G20 na África do Sul, que enfatizou fortemente o desenvolvimento e as prioridades africanas. Os sindicatos saúdam:  

  • O reconhecimento da importância de empregos de qualidade e trabalho decente no cerne da industrialização sustentável, bem como o papel crucial de instituições trabalhistas robustas, mecanismos justos de fixação de salários e proteção social universal na redução das desigualdades.  
  • O reconhecimento da necessidade de políticas coordenadas que vinculem a industrialização, a criação de empregos decentes, a proteção social e o respeito aos direitos trabalhistas como motores do crescimento econômico inclusivo.  
  • A inclusão de metas específicas sobre emprego juvenil, participação das mulheres na força de trabalho e a diferença salarial entre homens e mulheres, previamente acordadas pelos Ministros do Trabalho e Emprego do G20. 
  • O reconhecimento de trajetórias nacionais de Transição Justa como facilitadoras essenciais da ação climática. Os líderes do G20 também apoiaram padrões econômicos, sociais e ambientais robustos na exploração de minerais críticos.  
  • Compromissos para aumentar os investimentos e a proteção social na economia do cuidado, juntamente com o apelo para apoiar a adoção e implementação de sistemas universais de proteção social.  
  • O reconhecimento da importância de abordar os direitos humanos, a transparência e a explicabilidade*, a regulamentação, a segurança e a supervisão humana para garantir uma IA segura, protegida e confiável.  

Embora a Declaração seja um passo positivo, a ambição política fica aquém em áreas-chave vitais para a redução das desigualdades, como o avanço do salário mínimo, o fortalecimento da negociação coletiva e compromissos firmes em matéria de tributação internacional. O texto deixa de abordar recomendações importantes do Comitê Extraordinário de Especialistas Independentes do G20 sobre Desigualdade Global.  

“O G20 precisa definir uma agenda política robusta para o combate às desigualdades. Os líderes do G20 devem aproveitar as conclusões do relatório do Comitê Extraordinário de Especialistas Independentes do G20 sobre Desigualdade e promover compromissos concretos para reduzir as desigualdades, inclusive por meio do engajamento construtivo no desenvolvimento de uma Convenção Tributária robusta da ONU e do apoio à criação de um Painel Internacional sobre Desigualdade”, afirmou Luc Triangle, Secretário-Geral da CSI (Confederação Sindical Internacional).  

A Secretária-Geral do Comitê Consultivo Sindical da OCDE (TUAC), Veronica Nilsson, acrescentou:Para demonstrar sua relevância como plataforma multilateral, o G20 deve cumprir suas promessas de prosperidade compartilhada e liderar ações concretas em níveis nacional e internacional. Metas mensuráveis ​​sobre a criação de trabalho decente, liberdade sindical, fortalecimento da negociação coletiva e salários mínimos dignos precisam estar no centro das estratégias do G20 para realmente promover a solidariedade, a igualdade e a sustentabilidade.  

Os Estados Unidos da América assumirão a presidência do G20 em 1º de dezembro. 

Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações. 

*Explicabilidade (Explainability) refere-se a técnicas que tornam as decisões e previsões de modelos de IA interpretáveis ​​e compreensíveis para humanos. Mais especificamente, a explicabilidade visa proporcionar transparência sobre como os modelos chegam a resultados a partir de um conjunto de entradas. (nota do ODTI) 

COP30: Transição Justa deve incluir os trabalhadores, avalia CSI

Confederação Sindical Internacional avalia COP30

Silvia Portela

Neste texto o secretário-geral da Confederação Sindical Internacional (CSI) avalia os resultados da  COP30 recém realizada em Belem. Luc Triangle destaca principalmente a criação do Mecanismo de Ação de Belém (MAB) para uma Transição Justa que incluiu a participação dos trabalhadores em sua implementação. 

Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto da página da Confederação Sindical Internacional (CSI).

Mecanismo de Ação de Belém para uma Transição Justa: Um avanço para os trabalhadores em meio a grandes fracassos na COP30

A decisão tomada na COP30, a conferência climática, de criar um Mecanismo de Ação de Belém (MAB) para uma Transição Justa representa uma grande vitória para os trabalhadores e seus sindicatos.  

Pela primeira vez, os trabalhadores e seus sindicatos terão um papel formal na formulação de políticas de transição justa por meio da UNFCCC. Essa decisão histórica é resultado de anos de persistente defesa por parte do movimento sindical internacional, bem como de aliados em organizações ambientais, de justiça climática, de mulheres e gênero, de jovens e de povos indígenas. Ela reconhece que a organização da participação dos trabalhadores, a proteção dos direitos trabalhistas, a garantia da proteção social e do trabalho decente são essenciais para uma ação climática ambiciosa e justa.  

“O Mecanismo de Ação de Belém é uma vitória decisiva para o movimento sindical e para os trabalhadores de todo o mundo, em todos os setores, mas especialmente naqueles das indústrias em transição.”  Secretário-Geral da CSI, Luc Triangle  

“Precisamos garantir que o Mecanismo de Adaptação às Mudanças Climáticas (BAM) esteja operacional no próximo ano, gerando resultados concretos e colocando empregos decentes, direitos trabalhistas e justiça social no centro das soluções climáticas.  

O próximo ano será crucial para assegurar que o novo Mecanismo de Transição Justa ofereça apoio concreto aos países de todo o mundo e que os parceiros sociais, a sociedade civil e a OIT façam parte de sua governança.  

Mas também precisamos ser claros: a COP30 não alcançou a ambição exigida pela ciência e pelos trabalhadores 

  • No geral, os resultados da COP30 ficaram muito aquém do necessário em termos de mitigação, adaptação e financiamento climático:  
  • Não houve um roteiro para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis de maneira “justa, ordenada e equitativa”, conforme estabelecido na COP28. 
  • Não houve um pacote de justiça para apoiar os trabalhadores e as comunidades na linha de frente da transição.  
  • Não houve um plano crível para reduzir a lacuna entre as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) e os objetivos do Acordo de Paris sobre a redução das emissões de gases de efeito estufa.  
  • Promessas fracas sobre financiamento para adaptação, com metas críticas adiadas para 2035. 
  • Um processo falho, marcado por regras de consenso muito rígidas e falta de transparência nas negociações finais.  

Luc Triangle comentou: “Não pode haver Transição Justa se as emissões de gases de efeito estufa continuarem a aumentar, afetando trabalhadores e comunidades em todo o mundo, se os governos não conseguirem proteger os cidadãos dos impactos do aquecimento global e se os países do Sul Global não tiverem acesso a financiamento climático”.  

No entanto, além da decisão de desenvolver o BAM, conquistas importantes para a justiça social incluíram:  

  • a inclusão dos direitos trabalhistas, trabalho decente e proteção social no mandato do BAM; 
  • o reconhecimento das Diretrizes da OIT para uma Transição Justa como base para a implementação;  
  • e a renovação do Plano de Ação para a Igualdade de Gênero, com referência explícita à Transição Justa.  

“A CSI continuará trabalhando para garantir que o BAM seja governado por e para os trabalhadores e que impulsione políticas climáticas concretas, socialmente justas e inclusivas.” Luc Triangle, Secretário-Geral da CSI.  

Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações. 

Projeto Brasil e GPCEIS/CEE-Fiocruz divulgam Projeto Nacional de Desenvolvimento

Um mapa dos diagnósticos dos desafios de desenvolvimento do país e propostas concretas foram desenhadas por 6 especialistas, mediados pelo jornalista Luís Nassif, em um encontro no último dia 30 de outubro, resultando em um Projeto Nacional de Desenvolvimento, que divulgamos nesta sexta-feira (14).

O documento é resultado do Seminário “Inovação, Soberania e Desafios Nacionais”, promovido pelo Projeto Brasil e pelo grupo de pesquisa Desenvolvimento Sustentável, CT&I e Complexo Econômico-Industrial da Saúde (GPCEIS) do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE-Fiocruz/Ministério da Saúde), em parceria com a Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).

Na ocasião, especialistas de diversas áreas (Saúde, Educação, Meio Ambiente, Defesa, Macroeconomia e Políticas Públicas) promoveram o intercâmbio de conhecimentos e propostas para pensar, de forma conjunta, novas políticas de desenvolvimento produtivo e inovação, visando soluções integradas para os desafios nacionais de crescimento, competitividade, bem-estar e sustentabilidade. 

O encontro reuniu Cesar Callegari, consultor educacional, presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE/MEC); Carlos Nobre, cientista ambiental, professor da USP/IEA e Copresidente do SPA (Painel Científico para a Amazônia); Gabriela Maretto, coordenadora da Comissão Interministerial de Contratações Públicas para o Desenvolvimento Sustentável (Cics) do MGI; Marcos Barbieri, professor da UNICAMP e especialista em Indústria Aeroespacial e de Defesa, e Antonio Lacerda; doutor em Economia, pesquisador do Departamento de Economia da PUC-SP.

A realização do evento foi do jornalista Luís Nassif, responsável pela mediação, e do economista Carlos Gadelha, coordenador do GPCEIS do CEE-Fiocruz e conselheiro do Projeto Brasil, que realizou a abertura do encontro. 

Os especialistas promoveram os referidos diagnósticos e apontaram propostas concretas, sistematizadas no documento “Agenda de Estratégias para a Soberania e Desenvolvimento Estrutural do Brasil”, divulgado na data de hoje e que será entregue a instituições, gestores e representantes públicos e órgãos de fomento. O objetivo é que as proposições possam alimentar agendas de políticas públicas para os próximos anos.

O Projeto Nacional de Desenvolvimento 

A proposição parte da atual conjuntura do país, sugerindo caminhos para um desenvolvimento que vá além da mitigação de crises cíclicas e promova um projeto de transformação estrutural de longo prazo, com estratégias políticas e econômicas focadas na mudança estrutural, na soberania tecnológica e no uso direcionado da capacidade estatal

O documento aponta que o desenvolvimento soberano do Brasil requer a implementação de políticas públicas ousadas e inovadoras, ancoradas em uma visão integrada que articule o econômico, a inovação, o social e o ambiental. 

A proposta visa um novo modelo de desenvolvimento para o país, concebido para as complexidades do século XXI. A tese central do documento é que o crescimento sustentável e inclusivo só pode ser alcançado por meio de uma estratégia fundamentada em um tripé de soberania, bem-estar e sustentabilidade. 

Acesse a íntegra do documento: 

Agenda de Estratégias para a Soberania e Desenvolvimento Estrutural do Brasil

 

Banco Master e BRB: por dentro das fraudes bilionárias que desafiaram reguladores

Para destrinchar os negócios bilionários do Banco Master e do BRB, o jornalista Luis Nassif recebeu o perito investigador de fraudes, Marcelo Alcides Carvalho Gomes, doutor em Ciências Contábeis pela FEA-USP, e Manfred Back, ex-trader, professor de economia e mercado de capitais.

Os especialistas analisaram a crescente amplitude das fraudes financeiras complexas no Brasil, com vistas nos casos Banco Master e Refite. Para eles, apesar da evolução tecnológica — que potencializa o alcance dos golpes —, as modalidades de fraude em si permanecem inalteradas, fundamentadas na ganância humana e no sonho do dinheiro fácil.

A digitalização e o avanço da tecnologia potencializaram a escala e a dimensão dos antigos esquemas financeiros fraudulentos, mesmo que a essência dos golpes permaneça a mesma. Marcelo Gomes expôs que o aparecimento de Fintechs e outros instrumentos digitais conferiu aos antigos esquemas uma dimensão enorme.

O que antes poderia ser a venda de um produto restrito a um bairro, hoje, com a internet, pode ser vendido “para o mundo”. Para Gomes, que é doutor em ciências contábeis e perito investigador de fraudes, essa é a principal mudança proporcionada pela tecnologia: a capacidade de transacionar muito maior, potencializando tudo o que os fraudadores fazem.

Ainda, com a tecnologia e a flexibilização exagerada dada pelo Banco Central e pela CVM, surgiu um “efeito pirâmide no mercado” com fundos de investimento que estão sempre precisando de mais recursos.

As instituições reguladoras, notadamente a CVM, foram apontadas como ineficazes por priorizar normas excessivas, em vez de investir em liderança técnica e aplicação da lei. Da mesma forma, embora o Banco Central possua um corpo técnico de auditoria excelente, sua gestão anterior foi criticada por decisões passadas sobre a supervisão de instituições financeiras, permitindo que irregularidades ganhassem grandes proporções.

O ex-trader Manfred Back compartilhou sua experiência e opinião sobre a reguladora, destacando que as falhas da Comissão de Valores Mobiliários não são recentes e que, na sua impressão, a instituição “até piorou”. Ele observou que o único método que coíbe o mercado é quando este “sente no bolso”, visto que a CVM se concentra em criar “alíneas e alíneas” de normas, muitas vezes sem cumprimento efetivo.

Os especialistas em contabilidade e economia também detalharam como criminosos utilizam paraísos fiscais como Delaware e sofisticadas operações de interligação entre empresas para a lavagem de dinheiro e sonegação fiscal.

Eles concluíram que o combate efetivo exige menos novas legislações e mais foco no cumprimento rigoroso da lei e no aprimoramento tecnológico das agências de investigação.

Confira a íntegra do episódio do Projeto Brasil na TVGGN:

A saúde como pilar do desenvolvimento sustentável, por Carlos Gadelha

Carlos Gadelhaconselheiro do Projeto Brasil, Maria Augusta Arruda e Marcelo Manzano

A saúde como pilar do desenvolvimento sustentável é o tema do artigo publicado no jornal Valor Econômico do dia 19/11. De autoria do professor e pesquisador do CEE, Carlos Gadelha, em conjunto com Maria Augusta Arruda, diretora do LNBio/CNPEM, e Marcelo Manzano, diretor do CESIT/IE-Unicamp, o texto é fruto do trabalho desenvolvido pelos pesquisadores no projeto: “O potencial da biodiversidade para a transformação ecológica do Complexo Econômico-Industrial da Saúde”

A realização da COP-30 no Brasil reforça a necessidade e a urgência do debate sobre a transformação ecológica. O agravamento da crise ambiental e climática, nas últimas décadas, evidencia a desconexão entre o modelo de produção e consumo da sociedade e as necessidades sociais e ambientais.

A saúde não está à parte desse cenário. Ao mesmo tempo em que os sistemas de saúde sofrem com as pressões geradas por este modelo, também contribuem para a crise ambiental. Portanto, a saúde pode ser parte fundamental da solução, ajudando a construir um padrão de desenvolvimento sustentável que reposicione as relações entre economia, sociedade e natureza.

Ao redor do mundo, a saúde já responde à crise climática com soluções inovadoras, como o uso de materiais biodegradáveis para a fabricação de próteses, órteses e dispositivos médicos, a utilização de painéis solares em hospitais e combustíveis verdes no transporte médico, além do mapeamento genético da biodiversidade, que abre portas para a descoberta de novos fármacos, valorizando a floresta em pé. Para que essas iniciativas avancem, no entanto, é preciso ir além de soluções pontuais: é necessária uma mudança estrutural, capaz de promover um padrão não predatório de uso dos recursos naturais.

Estudo coordenado pela Fiocruz, em parceira com o Laboratório Nacional de Biociências e o Instituto de Economia da Unicamp, mostra que o Complexo Econômico-Industrial da Saúde, uma das seis áreas prioritárias da Nova Indústria Brasil, desponta como pilar estratégico para alavancar esta mudança, ao integrar CT&I e produção nacional aos desafios do Sistema Único de Saúde (SUS), o maior sistema universal de saúde do mundo em termos de população.

Os dados levantados mostram que a saúde tem grande relevância social, econômica e ambiental no Brasil. Atualmente, responde por cerca de 10% do PIB, 30% do investimento em P&D, empregando mais de 10 milhões de pessoas. Entre 2012 e 2023, enquanto a população ocupada geral cresceu 12,3%, o número de trabalhadores no CEIS aumentou 65,7%, um ritmo muito superior à média nacional.

Além disso, a amplitude e a heterogeneidade de ecossistemas como a Amazônia, o Cerrado, a Mata Atlântica, a Caatinga, o Pantanal e o Pampa, somadas à extensa faixa costeira e marinha, fazem do território nacional um espaço estratégico para promover a convergência entre saúde, biodiversidade e potencial científico. Estima-se que o país concentre entre 15% e 20% de toda a diversidade biológica existente no planeta, ocupando a 6ª posição mundial quando o assunto é pesquisa em biodiversidade, o que corresponde a 7,5% do número de publicações científicas – um valor significativamente superior à média de 2% nas publicações científicas em geral.

Esse dado por si só já coloca o Brasil em uma posição de excepcionalidade no cenário internacional, mas sua importância vai além do aspecto quantitativo. Os biomas brasileiros, além de reservas naturais a serem preservadas, servem também como plataformas de inovação científica e tecnológica, que podem ser translacionadas para o atendimento das demandas de saúde, superando a tradicional segmentação entre políticas sociais, ambientais e econômicas.

A Amazônia, por exemplo, oferece base genética para prospecção de fármacos, vacinas, fitoterápicos e biomateriais, enquanto o Cerrado aparece com compostos antioxidantes e anti-inflamatórios. A Mata Atlântica destaca-se em fitoterápicos e insumos farmacotécnicos, como o medicamento Acheflan, desenvolvido a partir da erva-baleeira (Cordia verbenaceae) e utilizado no tratamento de inflamações. A Caatinga, único bioma exclusivamente brasileiro, reúne moléculas antivirais, anti-inflamatórias, antibióticas, cicatrizantes — como o óleo de licuri (Syagrus coronata) —, e com potencial anticâncer, a exemplo dos derivados do lapachol, extraído de plantas do gênero Tabebuia avellanedae, capazes de inibir a proliferação de células metastáticas.

Essas informações evidenciam que a biodiversidade deve ser vista não apenas como um recurso a explorar, mas concebida como uma infraestrutura viva para inovação, saúde e justiça social. Para isso, é necessária a formulação de uma nova geração de políticas públicas orientadas pelas principais demandas da sociedade – como a ampliação do acesso à saúde, a geração de renda e empregos e a sustentabilidade ambiental.

Nos últimos anos, o Brasil consolidou um conjunto de políticas públicas que abrem condições inéditas para integrar biodiversidade, saúde e desenvolvimento em uma estratégia de Estado. A promulgação do Protocolo de Nagoya, em 2023, estabeleceu a obrigação de alinhar suas práticas de pesquisa e inovação a padrões internacionais de repartição justa e equitativa de benefícios oriundos do uso de recursos genéticos. Trata-se de um passo decisivo para articular ciência e justiça socioambiental, ao assegurar que o aproveitamento da biodiversidade esteja vinculado não apenas à inovação tecnológica, mas também ao reconhecimento e à valorização dos povos e comunidades tradicionais.

No mesmo ano, foi instituída a Estratégia Nacional para o Desenvolvimento do CEIS (Decreto nº 11.715/2023), definindo seis programas estruturantes, com a finalidade de orientar investimentos públicos e privados na busca de soluções produtivas e tecnológicas para ampliar o acesso à saúde e reduzir a vulnerabilidade do SUS. Em 2024, a Nova Indústria Brasil incorporou essa visão, incluindo a meta de ampliar a participação da produção no país de 42% para 70% das necessidades nacionais em medicamentos, vacinas, equipamentos e dispositivos médicos, entre outros, contribuindo para o fortalecimento do SUS e a melhoria do acesso da população à saúde.

No presente, essas condições conferem ao Brasil a oportunidade única de articular biodiversidade e saúde em um Projeto Nacional comprometido com a transformação produtiva e a mudança estrutural. Isso exige ir além de políticas compensatórias que, embora essenciais, quando tomadas como horizonte máximo, apenas reproduzem o receituário clássico de preservação da estrutura econômica e social existente, matriz tanto da desigualdade quanto de um padrão produtivo nacional ambientalmente insustentável.

Por isso, é fundamental o fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde como pilar estruturante da transformação ecológica, que visa orientar o desenvolvimento da ciência, tecnologia, inovação e produção nacional aos desafios da sustentabilidade, do bem-estar e da soberania.

Carlos Gadelha é professor e pesquisador da Fiocruz. Maria Augusta Arruda é diretora do LNBio/CNPEM. Marcelo Manzano é diretor do CESIT/IE-Unicamp.  

A prisão de Bolsonaro: o custo da Educação de Base sobre a Memória do golpe e da ditadura

Foto: Jair Bolsonaro aponta para placa com foto do general Emílio Garrastazu Médici, ditador entre 1969 e 1974, com a frase: “Eu era feliz e sabia!” – Flickr

A História não se repete: ela insiste 

Autoritarismo, medo e resistência na longa travessia latino-americana (1930 a 2023) 

Janethe Fontes*

Introdução: o fio invisível das repetições 

Embora já se tenha falado muito sobre a tentativa de golpe de 2023, sinto — sobretudo em sala de aula do Ensino Médio — que boa parte da sociedade ainda não percebeu as conexões entre esse episódio e os golpes militares que o precederam. Muitos o relativizam; outros, ainda hoje, o apoiam — mesmo sem compreender plenamente suas motivações, apenas repetindo o coro das forças que se uniram em torno do autoritarismo. Creio, portanto, que, se não formos capazes de enxergar essa continuidade, corremos o risco de repetir, em breve, o mesmo erro — talvez de modo ainda mais brutal e irreversível.  

E é justamente essa repetição disfarçada que me leva a refletir sobre o fio invisível que atravessa nossa história: uma linha que, embora se apresente como progresso, conduz sempre ao mesmo ponto — a crença de que o autoritarismo é o preço necessário da ordem. O que muda são os uniformes, os slogans e os meios de comunicação. O que permanece é o mesmo medo: do outro, do pobre, do pensamento crítico, da liberdade. 

Desde 1937, quando Getúlio Vargas justificou o golpe do Estado Novo com a farsa do Plano Cohen, até 2023, quando extremistas tomaram a Praça dos Três Poderes clamando por “intervenção militar”, o discurso é o mesmo — apenas traduzido em novas linguagens. O inimigo muda de rosto, mas nunca de função: é o bicho-papão ideológico necessário para que a elite conserve o privilégio sob a máscara da moral. 

A História não se repete, como diria Marx — ela insiste. E insiste porque a estrutura social que a produz continua a mesma. 

 

O “pai dos pobres” e o autoritarismo paternal

A Revolução de 1930 colocou Getúlio Vargas no poder com o discurso da modernização e da justiça social. O país precisava de ordem, diziam — e, em nome dessa ordem, dissolveram o Congresso e impuseram, em 1937, a Constituição Polaca, inspirada nos regimes totalitários europeus. 

A figura de Vargas foi esculpida com perfeição simbólica pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). O rádio, então o meio de comunicação mais popular, transformou o “chefe” em pai e a política em liturgia. Vargas era o “pai dos pobres” — expressão que disfarçava a essência do autoritarismo: o controle das vozes que poderiam ser ouvidas. 

O Estado Novo criou direitos trabalhistas, mas sob vigilância. Os sindicatos passaram a existir apenas com autorização estatal. Era o corporativismo paternalista — a inclusão subordinada. Como analisou Florestan Fernandes, o povo brasileiro foi convidado a participar da nação como súdito agradecido, não como cidadão consciente. 

O Plano Cohen, forjado pelo Estado-Maior do Exército, simbolizou a gênese do medo político no Brasil moderno: a invenção do inimigo interno como fundamento do poder. A ideia de proteger a pátria do comunismo — esse conceito elástico que cabe em qualquer ameaça — nascia ali como retórica permanente das elites. 

 

Entre Jânio e Jango: o medo como método 

A renúncia de Jânio Quadros em 1961 abriu uma crise que serviria de laboratório para o golpe de 1964. Seu vice, João Goulart, defendia as Reformas de Base — agrária, bancária, educacional e eleitoral —, buscando corrigir desigualdades estruturais. Mas, como denunciava Florestan, a democracia no Brasil só se torna perigosa quando começa a incluir os pobres. 

Os setores conservadores reagiram com violência simbólica. O anticomunismo voltou a ser o espantalho de sempre. E, sob o pretexto da fé, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade levou milhares às ruas, embalados por hinos religiosos e slogans moralistas. A religião foi instrumentalizada como escudo político do medo — o mesmo mecanismo que, décadas depois, voltaria às telas e púlpitos das igrejas neopentecostais. 

O golpe civil-militar de 1964, apoiado por empresários, pela grande mídia e pelo governo dos Estados Unidos, mergulhou o país em duas décadas de censura e tortura. Os militares chamaram-no de “Revolução Redentora” — o nome pomposo que disfarça a violência. Como toda revolução de mentira, ela começou prometendo liberdade e terminou produzindo silêncio. 

 

Ditadura, silêncio e resistência 

Os porões do DOPS e do DOI-CODI tornaram-se laboratórios do medo. A tortura era método, a censura, rotina, e o exílio, destino. Mas, mesmo na escuridão, a resistência germinava. 

A canção “Cálice”, de Chico Buarque e Gilberto Gil, ecoava como oração e denúncia: “Pai, afasta de mim esse cálice / de vinho tinto de sangue”. A arte se fez trincheira quando a palavra foi proibida. Como observa Jessé Souza, a arte, quando se transforma em denúncia, é o último refúgio da verdade. 

A repressão não era exclusividade brasileira. No Chile, Salvador Allende tombou em 1973 defendendo a democracia. “A história não perdoará aqueles que traíram o mandato do povo.” Na Argentina, o golpe de 1976 produziu cerca de trinta mil vítimas da ditadura. E no Uruguai, Pepe Mujica — preso por 14 anos, a maior parte em isolamento absoluto — demonstrou que a dignidade não se destrói nem com grades, nem com torturas. 

Esses regimes formaram a Operação Condor, uma aliança repressiva continental com apoio dos EUA. A violência virou política de Estado, e o silêncio — política continental. 

 

A redemocratização e o pacto do esquecimento 

Com a Lei da Anistia (1979), o Brasil iniciou o caminho de volta à democracia. Mas a conciliação teve um custo: o perdão aos algozes. O país tentou se reconciliar sem lembrar, curar sem tocar a ferida. 

Como nos ensinou Paulo Freire, “a educação muda pessoas, e pessoas transformam o mundo”. Mas sem memória, a educação se torna anestesia. O esquecimento virou estratégia de sobrevivência das elites, e o autoritarismo, em vez de ser extinto, apenas se recolheu — esperando o momento de ressurgir. 

 

Do golpe de 1964 à tentativa de 2023: a mutação do autoritarismo 

Em 8 de janeiro de 2023, manifestantes invadiram os prédios dos Três Poderes em Brasília, pedindo intervenção militar e questionando eleições legítimas. A cena, transmitida ao vivo, parecia inédita — mas era uma nova versão (remake) do velho enredo. 

Os tanques deram lugar aos tweets; o medo, às fake news; e a retórica da “salvação nacional” ressurgiu sob novas bandeiras. Mas algo permaneceu intocado: o medo do comunismo — o velho espantalho que, desde 1937, é ressuscitado sempre que a elite teme perder privilégios. 

O “comunismo” virou o rótulo de tudo o que ameaça o poder: educação crítica, diversidade, consciência racial, igualdade de gênero e até políticas sociais básicas. 

É o mesmo bicho-papão ideológico que justificou o auto-golpe de 1937, o golpe civil-militar de 1964 e que, em 2023, foi atualizado nas redes, pintando professores, artistas e jornalistas como “inimigos da nação”. 

Durante as eleições de 2022, esse discurso foi amplificado. Púlpitos religiosos foram transformados em palanques eleitorais; pregadores confundiram fé com voto; e o medo, novamente, tornou-se evangelho. A religião, que deveria humanizar, foi politizada como arma de guerra cultural. 

Ao mesmo tempo, o Judiciário e o discurso moralista da “anticorrupção” foram instrumentalizados para neutralizar vozes progressistas e legitimar perseguições seletivas. Era a velha tática da elite latino-americana: usar a lei e a moral como instrumentos de poder. 

O que mudou foi o meio — não o enredo. A mesma elite ressentida, o mesmo moralismo, o mesmo ataque à escola e ao pensamento crítico. Mas também, como antes, a mesma resistência: professores, artistas, estudantes, jornalistas. A História insistia. 

 

Conclusão: o eco que teima em voltar 

“A história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.” (Karl Marx, O 18 Brumário de Luís Bonaparte, 1852) 

Como lembrou Marx, a primeira vez é tragédia, a segunda é farsa. Mas no Brasil — e em toda a América Latina —, a farsa é o eco prolongado da tragédia que teima em voltar. A cada geração, o autoritarismo muda de nome e de forma, mas continua a disputar corações, mentes e algoritmos. 

Cabe à educação crítica, à arte e à memória impedir que o riso cínico da farsa apague o luto da tragédia. Porque esquecer — como ensinou a História — é sempre o primeiro passo para repetir. 

Nota final: 

Há algumas semanas, enquanto redigia este texto, uma desastrada operação policial nos Complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, deixou oficialmente 121 mortos — um deles, decapitado. Uma chacina que o governador do Estado teve a audácia de classificar como “sucesso”. Casos assim revelam, com clareza brutal, o quanto a extrema direita pode ser letal caso, um dia, reassuma o poder no governo federal. 

REFERÊNCIAS: 

ALLENDE, Salvador. Discurso final ao povo chileno, 11 set. 1973. Santiago do Chile: Rádio Magallanes, 1973. Disponível em: https://www.memoriachilena.gob.cl. Acesso em: 2 nov. 2025. 

BUARQUE, Chico; GIL, Gilberto. Cálice. Composta em 1973. In: BUARQUE, Chico. Chico Buarque [LP]. Rio de Janeiro: Philips Records, 1978. 

FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil: ensaio de interpretação sociológica. 5. ed. São Paulo: Globo, 2005. 

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 50. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021. (1ª ed. 1968). 

MARX, Karl. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. Tradução de Nélio Schneider. São Paulo: Boitempo, 2011. 

MUJICA, José (Pepe). Uma ovelha negra no poder: conversas com Pepe Mujica. Conversas com Andrés Danza e Ernesto Tulbovitz. São Paulo: L&PM, 2015. 

SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2017. 

AGÊNCIA BRASIL. Moradores de favelas protestam no Rio após megaoperação com 121 mortos. CartaCapital, São Paulo, 31 out. 2025. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/moradores-de-favelas-protestam-no-rio-apos-megaoperacao-com-121-mortos/. Acesso em: 3 nov. 2025. 

 

* Janethe Fontes é escritora, professora de História e Sociologia e pós-graduanda pelo ICL/FESPSP. Autora, entre outros livros, de Natureza Selvagem (Ed. A Liter Ação). 

Bélgica entra em greve geral contra mudanças trabalhistas

Silvia Portela 

Trabalhadores da Bélgica convocam greve geral no país nesta quarta-feira em protesto contra cortes orçamentários e mudanças na legislação trabalhista. A greve iniciou-se na segunda-feira no setor de transportes, ampliou-se na terça-feira com a entrada de servidores públicos e culmina nesta quarta-feira com a paralisação geral. A burguesia belga segue a receita de resolver os seus próprios problemas econômicos às custas dos direitos trabalhistas. 

Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto da agência noticiosa France 24, com informações da AFP e Reuters.

Bélgica se prepara para greve nacional de três dias contra cortes orçamentários.  

A Bélgica enfrenta grandes interrupções no transporte, além do fechamento de escolas e serviços públicos, durante uma greve de três dias que começou na segunda-feira em protesto contra os cortes de gastos e as mudanças na legislação trabalhista propostos pelo governo. As greves ocorrem mesmo após o governo ter chegado a um acordo sobre o orçamento na manhã da segunda-feira, depois de meses de negociações intensas.  

France 24, publicado em 24 de novembro de 2025    

A Bélgica se preparava nesta segunda-feira para três dias de greves em todo o país, convocadas por sindicatos para protestar contra os cortes orçamentários e as reformas no sistema previdenciário propostos pelo governo.  

As greves estão ocorrendo em três ondas. Trens e transportes públicos entraram em greve na segunda-feira, com a companhia ferroviária nacional SNCB prevendo operar dois de cada três trens, ou apenas um de cada três em algumas linhas. Vários trens Eurostar ligando Bruxelas a Paris foram cancelados.  

Na terça-feira, serviços públicos como escolas, creches e hospitais aderem à greve.  

Para quarta-feira, os sindicatos convocaram uma greve geral total, abrangendo todas as categorias.  

Não há previsão de voos nesta quarta-feira nos dois principais aeroportos do país, Bruxelas-Zaventem e Charleroi. As greves estão programadas para ocorrer apesar de um acordo alcançado na manhã de segunda-feira pelo governo sobre o orçamento para o próximo ano.  

Governo chega a acordo orçamentário  

O primeiro-ministro belga, Bart De Wever, confirmou nesta segunda-feira as notícias veiculadas pela imprensa de que um acordo havia sido alcançado sobre o orçamento nacional para o próximo ano.  

De Wever havia estabelecido, no início deste mês, um prazo até o Natal para que sua coalizão de cinco partidos chegasse a um acordo, após continuarem discordando sobre como sanear as finanças públicas.  

O acordo foi alcançado durante negociações maratonas que começaram na manhã de domingo e se estenderam até a madrugada de segunda-feira. O acordo inclui aumentos de impostos sobre a compra de ações, passagens aéreas e gás natural, além de um novo imposto sobre bancos, informou o jornal financeiro De Tijd. Juntamente com cortes nos gastos do governo, isso deve reduzir o déficit público em € 9,2 bilhões (US$ 10,6 bilhões) até 2029.  

O déficit orçamentário da sexta maior economia da zona do euro deve atingir 4,5% do Produto Interno Bruto (PIB) este ano, com uma dívida equivalente a 104,7% do PIB, segundo o Banco Central – bem acima do máximo acordado pelas regras orçamentárias da UE.  

O acordo não impedirá uma greve nacional de três dias contra as reformas do sistema previdenciário, anunciadas anteriormente, que começa na segunda-feira. 

 ‘Desprezo’  

A greve foi convocada pelos principais sindicatos belgas, que estão em impasse com De Wever devido aos seus esforços para reduzir a dívida do país, uma das mais altas da Europa, juntamente com Grécia, Itália e França.  

No poder desde fevereiro, o conservador flamengo está tentando impor um grande esforço de austeridade por meio de uma série de reformas estruturais sem precedentes relacionadas à liberalização do mercado de trabalho, ao seguro-desemprego e às pensões. Mas apenas um pequeno número das medidas propostas por De Wever foi implementado até agora, em grande parte devido a divisões dentro de sua coalizão de cinco partidos. Ele deu à sua coalizão até o Natal para chegar a um acordo, inclusive sobre seu pedido de cortes de gastos para cobrir um aumento no orçamento militar.  

A greve tem como objetivo pressionar os partidos enquanto negociam entre si. 

 Trata-se de “um apelo ao primeiro-ministro De Wever e a todo o governo para que ponham fim ao desmantelamento dos programas sociais”, afirmaram os sindicatos em um comunicado à imprensa. 

A central sindical socialista FGTB acusou o primeiro-ministro de demonstrar “desprezo” e “desrespeito” por esse movimento social.  

Esforços sindicais anteriores tiveram resultados mistos. Cerca de dezenas de milhares de manifestantes marcharam pelas ruas de Bruxelas em meados de outubro para protestar contra o que chamaram de cortes orçamentários “brutais”.  

 

E se os Big Data fossem aplicados no combate à pobreza? Por Ricardo T. Neder

E SE OS BIG-DATA FOSSEM APLICADOS NO COMBATE A POBREZA ? (*)

Ricardo T. Neder
UnB – [email protected]

A íntegra deste artigo também está disponível no Acervo do Projeto Brasil, aqui.

INTRODUÇÃO: A RETÓRICA VAZIA DO DESEMPREGO

A conjuntura histórica que se abre nos anos 2010 com as tecnologias de base digital desnuda um cenário que revela um País com pés de barro devido ao subemprego e desemprego cronico que não podem mais ser vistos pela métrica dos anos 1990 quando 22% da classe trabalhadora vivia do trabalho industrial. Com o desenvolvimento do ecossistema da internet e da ciência das organizações (que não se resume em tratar os sistemas tipo big-data) temos as condições de possibilidade de inaugurar um projeto nacional em torno do sistema de emprego, trabalho e renda que hoje está fraturado entre mercado formal x informal.

O desenvolvimento do ecossistema da internet e da ciência das organizações (que não se resume em tratar os sistemas tipo big-data) abre as condições de possibilidade de lidar com este complexo de questões acumuladas para superar a desregulação social nesse estádio primitivo e de barbárie em que vivem os contingentes submetidos a extensas jornadas de trabalhos como parte do clássico excedente do exército industrial de reserva em formações capitalistas (assentada na análise do cap. 23 de O Capital – A Lei Geral de Acumulação Capitalista) no qual Marx analisa como o crescimento do capital, especialmente por meio do investimento em maquinário, gera uma superpopulação relativa de trabalhadores, que forma o exército de reserva e pressiona os salários para baixo.

1. AINDA O MESMO PROBLEMA DOS ANOS 1990: FALTA PLANEJAMENTO, IDIOTA!

Nos anos que precederam a queda do campo socialista (1989/90) um debate comum entre as esquerdas era como viabilizar a construção de um modelo de gestão para o planejamento descentralizado e estrategicamente orientado para reunir dados e contribuir para compreender e fazer a estruturação do poder em distintas escalas, global, nacional e local. Esse era um sonho do planejamento soviético até a queda do campo socialista da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas).

Quarenta anos depois (em 2020) a China estruturou seu ecossistema de internet nacional, criou uma indústria para a infraestrutura física, gerou politicamente os marcos regulatórios para sua sustentação e avançou ao ponto de um ecossistema digital ser capaz de viabilizar uma governança 4.0 que tem entre seus principais desdobramentos um sistema de previdência e seguridade social integrado com a vida civil, funcional e trabalhista do cidadão (o que permitiu, por sua vez, criar um cadastro unificado de famílias em situação de extrema pobreza).

A primeira, e mais óbvia, política industrial de combate a pobreza entre os BRICs deverá se inspirar neste modelo chinês: criar um ecossistema de big-data modelado como uma governança capaz de atuar enquanto eixos de inteligência para incluir toda a população em idade ativa (ou PIA) em diretrizes para ações, acompanhamento e controles que permitirão qualificar o acesso da população a políticas públicas para trabalho e renda.

As principais características do big-data são conhecidas como os cinco V’s: Volume: volume de dados gerados e coletados, que pode ser medido em terabytes, petabytes ou até mesmo exabytes; Velocidade: rapidez com que os dados são gerados e processados, muitas vezes em tempo real; Variedade: diversidade de fontes e formatos de dados, incluindo dados estruturados, semi-estruturados e não estruturados; Veracidade: precisão e confiabilidade dos dados, que é fundamental para tomar decisões informadas; 5. Valor: valor que os dados podem agregar à organização, seja em termos de redução de custos, aumento de receita ou melhoria dos processos. Em sua totalidade são dados coletados em grande escala diferem dos bancos de dados comuns, que não permitem correlações.

2. INDUSTRIALIZAÇÃO POPULAR: QUEM CONDUZIRÁ O REGIME DE TRANSIÇÃO ?

Fazer a passagem pelo deserto dos invisíveis do mercado de trabalho informal no Brasil para incluí-los no sistema nacional de emprego, trabalho e renda não é uma tarefa para quadros tecnocráticos, racionalistas e positivistas; sem direção politica da esquerda mais afinada com os temas tecnocientíficos e sociocientíficos (fins e não meios solidários) ninguém mais é capaz como força organizada na política de enxergar saídas para o labirinto que tem um Minotauro que destrói e mutila os corpos na economia popular.

O conhecimento sobre as características cruzadas – localização produtiva de cadeias econômicas no território, perfis ocupacionais, profissões, qualificação das pessoas-residentes, escolaridade, perfis ocupacionais, saúde e qualidade de vida por faixa etária e étnicas das relações de gênero – podem ser identificadas por interseccionalidades nos algoritmos, e estes interagem com os contingentes fora do mercado formal, tanto quanto com os que estão nos circuitos da economia popular. Rompe-se assim, a separação entre formal & informal no mercado de trabalho do ponto de vista das TICs e bases de dados digitais.

3. A CEGUEIRA MORAL COMO FUNDAMENTO

Saramago explorou o tema da cegueira como metáfora para a indiferença, o egoísmo e a intolerância na sociedade moderna, explorando o que acontece quando as pessoas perdem não só a visão, mas também a lucidez e a ética. Trata-se, é claro, da cegueira moral da sociedade, refletindo a incapacidade das pessoas de ver e lidar com problemas sociais como a intolerância, a apatia e a violência. Será preciso chegar a melhor taxonomia para enquadrar os 80 milhões restantes, que estão artificialmente, de forma malandra e capciosa, classificados como não-empregados do setor formal. Mas ambos, formais e informais, são como substâncias apolares de acordo com o princípio químico de que semelhante dissolve semelhante, ou seja, eles seriam miscíveis. Mas não é o caso, pois os fluxos e dinâmicas do mercado de trabalho formal e informal podem ser comparados à mistura do óleo e azeite (que são apolares). Não se misturam mas sintetizam uma terceira substância como propôs Chico de Oliveira (1933-2019) como se o trabalho formal se misturasse com o informal, em constante troca de qualidades! As bases técnicas para integrar os registros de ambos os contingentes já existe desde janeiro de 2020, quando o Sistema do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) foi substituído pelo Sistema de Escrituração Digital das Obrigações Fiscais, Previdenciárias e Trabalhistas (eSocial) para parte das empresas (tal como estabelecido pela Portaria SEPRT nº 1.127, de 14/10/2019).

3. ALTERNATIVAS PARA POLÍTICAS DO TRABALHO COM A REVOLUÇÃO DIGITAL 4.0

A balança geopolítica de poder entre Sul e Norte Global parece pender para movimentos de grande autonomia a favor do Sul. Se tomarmos como referência a experiência chinesa que reúne regulação social para seguridade e vida laboral, este pode ser caminho virtuoso para criar sistemas complexos de big-data. O financiamento dessa regulação social precisa ser revista para incluir a economia popular, e o melhor modelo não é ‘pejotização’.

Existem hoje no Brasil quatro regimes tributários específicos. Recolhimento feito pelo microempreendedor como contribuinte individual com CNPJ; o simples nacional, a arrecadação derivada do lucro presumido e do lucro real que incidem sobre todo tipo de empresário e trabalhadores autônomo/as da chamada economia formal. Hoje o contingente dos 80 milhões de pessoas (matriculadas no CADÚNICO) é uma força de trabalho que tem plena viabilidade econômica de gerar valores, pois opera sob formas de gestão cooperativa unifamiliar, pluri-familiar (por economia de vizinhança), ou associativa e cooperativa sem fins lucrativos, na total ou parcial ilegalidade. Formam circuitos que tenho conceituado como Organizações Produtivas Populares (OPPs). Como poderão ser enquadradas num regime fiscal ao mesmo tempo diferenciado (do setor formal com suas quatro modalidades fiscais), e com potencial inédito de definir obrigações modulares a serem cumpridas por estas organizações? O roteiro de sete passos para começar a planejar essa integração é meramente exemplificativo, e poderia ter outras agências e atores, interesses e setores envolvidos:

1 Revitalizar o SINE para dotá-lo de banco de dados integrado com a base CADÚnico/MDS sob orientação do CADSOL/ SENAES área hoje que dialoga com os invisíveis do mercado de trabalho;

2 Revitalizar e integrar o SINE/SENAES/MTE ao programa Periferia Viva que opera sob dois vetores: Ministério das Cidades/Secretária Nacional de Periferia + BNDES/Periferia Viva

3 Cruzar o banco de dados relacional ECOSOL/SENAES/SINE com um sistema de apoio à pesquisa com base no modelo da área de ciência e tecnologia/saúde ou PPSUS/C&T Saúde (que tem expertise para trabalhar com agentes comunitários)

4 Apoio MCTI/SEDES: fomento a linhas de pesquisa de extensão tecnológica para incubadoras (Universitárias, municipais e comunitárias) para diagnóstico quali-quantitativo para formação de agentes multiplicadores ECOSOL nos territórios.

5 Conexão FAT/Fundo de Apoio ao Trabalhador/SENAES/BNDES(I) – Relatório Técnico sobre empregos gerados (fev/2025): desenvolver outro modelo análogo aplicado com metodologia para formular políticas econômicas de industrialização dirigida para a força de trabalho subutilizada com destaque para bairros populares e periferias.

6 Conexão FAT/SENAES/BNDES(II) – Fomento para crédito/investimento em cadeias de produção envolvendo territórios participantes do programa Periferia Viva.

7 Conexão FAT/SENAES/BNDES(III) – Programa Nacional de mini-incubadoras por cadeias produtivas a exemplo do existente PRONINC – Programa Nacional de Incubadoras Populares.

Abandonar a política do Bolsa-Família é difícil, mas necessário, pois é ilusório como política de geração de trabalho e renda. A crítica é expor um osso quebrado: a focalização dos benefícios sociais nasceu de recomendações da tecnocracia do Banco Mundial nos anos 1990; está empoeirada e cheira mal pois não conseguimos como esquerda, mencionar seu caráter de cidadania ativa para industrializar a produção de bens e serviços de consumo popular. Sua associação à política neoliberal nunca deve ser esquecida pois se funda na redução do papel do Estado tanto na provisão de bem-estar social, quanto sobretudo, no abandono do Estado que atua no campo dos investimentos produtivos.

4. PLATAFORMIZAÇÃO SOLIDÁRIA

O novo eSocial tem a virtualidade de ser um sistema de gestão pública tanto para os empregados, quanto pode ser aplicado também para os trabalhadores em OPPs/organizações produtivas populares articulados em federações e confederações de cooperativas. O SINE poderá ser vitaminado pelo FAT (Fundo de Apoio ao Trabalhador) com recursos consideráveis e manejado pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Isto exigirá um pacto político estratégico a fim de garantir regras e políticas de proteção aos/às trabalhadores/as em todas as formas de inserção laboral (assalariados, autônomos, conta-própria, teletrabalho, mediado por aplicativo ou plataformas, mulheres em condições de trabalho na economia do cuidado e precariato em geral).

Nota-se a partir de uma análise sumária do escopo da Nova Indústria Brasil (NIB) que 99% de seus recursos são investimentos públicos e privados em segmentos já intensivos de capital, da agroindústria, indústria automobilística, bioeconomia, energia renovável, construção civil, indústria da saúde, papel e celulose, siderurgia e defesa aero e nuclear. Para essa expansão se exige quadros técnicos, mas uma das características da revolução digital é superar o modelo gerencial de supervisão e comando, e adotar outro mais barato e eficaz devido a funções inteligentes compartilhadas em equipes monitoradas. Portanto, que se danem os gerentes! Essa é a estrela que surge no horizonte como uma das principais transformações verificadas no mundo do trabalho na última década, o surgimento de plataformas digitais de trabalho online. O processo centra-se em plataformas baseadas na web, por meio das quais as empresas e outros clientes podem externalizar tarefas por meio de um convite aberto a mão-de-obra vasta e flexível («crowd», multidão), geograficamente dispersa pelo mundo.

5. AS TRÊS DIMENSÕES DA LUTA POLÍTICO-IDEOLÓGICA EM TORNO DAS PLATAFORMAS

i) Uma primeira dimensão da luta político-ideológica instaurada pelo capitalismo de plataforma reside nas suas tentativas de impor uma lógica proto-fascista que combate todas as formas de solidariedade de classe trabalhadora. Pesquisadores tem chamado a atenção para correlação entre plataformas digitais e o comportamento político destes trabalhadores arregimentados pela lógica dos aplicativos de grandes empresas de comércio eletrônico, ou de entrega na última milha.

ii) As contradições envolvem os campos das relações laborais e trabalhistas. As empresas que se identificam como “aplicativos” e “plataformas” são a atual coqueluche que radicalizou uma narrativa de que os trabalhadores não são seus empregados, mas clientes. É nessa esteira que difundem o argumento de que os trabalhadores teriam autonomia, liberdade e flexibilidade para definir onde, como e quando prestar os serviços.

iii) O que é, afinal, a plataforma digital para autogestão? Tem sido definido de forma um tanto vaga, como plataformas digitais controladas por trabalhadores e/ou pelas comunidades locais. Demandam fomento continuado de assistência sociotécnica aos grupos produtores, e experiências-piloto para constituir formas organizacionais próprias reconhecidas juridicamente e dotadas de segurança econômica para receber uma parcela do poder de investimento dos Governos que tem sido direcionado para as Empresas do setor formal. No Brasil a maioria das experiências registra modelos no compartilhamento do cuidado (saúde familiar, coletiva, saúde mental; assistência e serviço sociais, serviços domésticos, cuidados de idosos e crianças), prestação de serviços, alimentação, agricultura familiar, agroecologia, sistemas de entrega.

São unidades com trabalhado/as com ou sem estabelecimentos, vinculados aos circuitos mercantis mediante unidades produtivas em espaços econômicos não explorados pela grande empresa (economia criativa por meio de cervejarias artesanais, produção de alimentos orgânicos, microempresas de tecnologia de informação e comunicação, parte de um aglomerado). Esta base já existente poderá no futuro próximo se articular como Cooperativismo Solidário de Plataformas Digitais no Brasil com a reapropriação de tecnologias digitais autogestionadas por trabalhador/as. Esta base poderá ser somada com a experiências entre 2002-2016 com a Política Nacional de Economia Solidária que apontam sete setores e subsetores da economia popular que tem grande potencial de operar cadeias e redes de empreendimentos econômicos solidários: 1. reciclagem, 2. construção civil, 3. manufatura artesanal, 4. metalurgia e polímeros, 5. agricultura familiar e camponesa, populações tradicionais 6. apicultura, olericultura, fruticultura, 7. cereais sob certificação agroecológica e orgânica. Formar cadeias de valor nestes segmentos mediante OPP’s organizações geradoras de outras formas de trabalho e renda como inédito viável de um regime de transição especial que os inserira numa política industrial de combate a pobreza (ou industrialização solidária – Renato Dagnino). Este é o universo de oportunidades que se abre com os big-data para alavancar as ações do movimento pela Economia Solidária (ECOSOL).

REFERÊNCIAS

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(*) Pesquisa de base sobre os temas aqui apresentados contou com apoio fundamental do CNPq Chamada nº 40/2022 – Linha 4B – Projetos em Rede – Políticas públicas para a inovação e para o desenvolvimento econômico sustentável. Pro-Humanidades 2022 – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq. (proc. 4208772/2022-1).