Como a Inteligência Artificial vem revolucionando a saúde pública no Brasil

IA e telessaúde levam atendimento médico a regiões remotas do Brasil, ampliando o acesso ao SUS e reduzindo desigualdades históricas na saúde pública

A Inteligência Artificial e a telessaúde estão modernizando o atendimento da saúde pública no Brasil. Convidadas especiais do Projeto Brasil, Ana Estela Haddad, Secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde, e Ana Helena Ulbrich, farmacêutica reconhecida entre as 100 personalidades mais influentes do mundo no campo da inteligência artificial, mostraram estratégias inovadoras que estão revolucionando a saúde brasileira.

A inteligência artificial (IA) e a telessaúde estão transformando o Sistema Único de Saúde (SUS) ao ampliar o acesso, aumentar a precisão dos diagnósticos e otimizar a gestão por meio de dados. De acordo com Ana Estela, a telessaúde já é uma realidade consolidada, com o registro de 5,7 milhões de teleatendimentos no SUS em 2025, cobrindo 53% dos municípios brasileiros.

Ela explica que o feito ultrapassa o que seria a digitalização da medicina, mas significa o acesso da saúde a populações em áreas remotas de um país de proporções continentais. “O Brasil já realizou milhões de teleatendimentos, cobrindo mais da metade dos municípios, com impacto significativo na região Norte, onde distâncias geográficas são um desafio.”

Como fica a IA na saúde em um país desigual territorialmente?

No Brasil de desigualdades regionais, em territórios onde a medicina presencial não consegue chegar, a telemedicina salva vidas. A Secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde narra ao Projeto Brasil experiências e como a digitalização da saúde está sendo fundamental para permitir o acesso ao direito básico.

Ela explica que há cidades do Amazonas em que populações ribeirinhas levam até 30 dias de barco para chegar a centros de saúde de Manaus. No Ceará, a implantação de teleatendimento em quase 40 especialidades alcançou uma taxa de resolutividade superior a 70%. 

Paralelamente a projetos de acessibilidade territorial, a digitalização da saúde pública também é usada para o avanço da tecnologia dos tratamentos. Como exemplo, Haddad explicou como um banco de dados de 10 milhões de laudos de eletrocardiograma vem sendo processado, pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), para trazer diagnósticos em cardiologia, por meio de algoritmos de IA.

Esses modelos permitem fazer predições estatísticas e diagnósticos individualizados, identificando a probabilidade de um paciente desenvolver determinadas doenças. O uso da Inteligência Artificial para fazer a predição na saúde também foi assunto exposto pela farmacêutica Ana Helena Ulbrich.

Fundadora da NoHarm.AI e do Instituto de Inteligência Artificial na Saúde, única brasileira incluída na lista TIME100 AI 2025, que reconhece as 100 personalidades mais influentes do mundo no campo da inteligência artificial, ela criou um software que combina tecnologia e recursos humanos para promover cuidados integrais garantindo a segurança do paciente, otimizando as decisões dos atendimentos do SUS. Ela enfatiza que a tecnologia não substitui o profissional: “a IA é um suporte à decisão, ela não substitui ninguém, ela está ajudando”.

Não basta tecnologia, é preciso condições mínimas

Ambas as participantes anotaram a importância de se garantir, de base, infraestruturas para que a IA chegue à população. Não basta tecnologia de ponta, não basta conseguir trazer a Inteligência Artificial para o Sistema Único de Saúde (SUS) e propor medidas para a implementação real desta tecnologia e conhecimento na saúde pública brasileira, se o país não tem a infraestrutura básica, simples e necessária para receber todo este know how.

É essa visão integrativa que fez com que a farmacêutica Ana Helena Ulbrich entendesse que a garantia à saúde de ponta precisa ir além. Ela narrou um projeto da NoHarm.AI de levar tecnologia de ponta para o SUS associada à infraestrutura.

“Porque não tem como trazer a tecnologia em um lugar que não tem luz, por exemplo. Lá em Afuá, que é uma cidade do Pará, bem do norte do Brasil, a gente identificou a necessidade de levar placas solares para que as quatro unidades básicas de saúde que não tinham luz. Eles não tinham acesso à vacina na unidade porque não tinha como refrigerar as vacinas. Então a gente percebeu a necessidade de levar a infraestrutura, a internet satélite e tudo mais, para que a gente pudesse levar a tecnologia”, relatou.

Ana Estela também relatou que estão sendo distribuídos 7.000 kits de telessaúde (computador, monitor e câmera) para unidades básicas de saúde, além de investimentos pesados em conectividade, inclusive para populações indígenas em territórios isolados.

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Quais caminhos o Brasil precisa percorrer para garantir o acesso universal ao Sistema Único de Saúde (SUS) em meio à transformação digital e, ao mesmo tempo, fortalecer o desenvolvimento nacional com inovação e equidade? Esse é o debate que mobilizará o webinário “Desenvolvimento, Tecnologias Digitais e o Risco da Vulnerabilidade em Saúde (Vulnerabilidade 4.0)”, marcado para o dia 3 de março, das 10h às 12h, que será realizado online pelo Grupo de Pesquisa “Desenvolvimento Sustentável, CT&I e CEIS” (GPCEIS/CEE-ENSP/Fiocruz), parceiros do Projeto Brasil.

O encontro reunirá pesquisadores e autoridades que atuam na interface entre saúde pública, ciência, tecnologia e inovação: Ana Estela Haddad, Secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde (SEIDIGI/MS); Helena Maria Martins Lastres, Cocriadora e coordenadora da Rede de Sistemas e Arranjos Produtivos e Inovativos Locais (RedeSist/IE-UFRJ); Monica Felts de La Roca Soares, Diretora Científica do CNPq (DCTI/CNPq) e Naomar de Almeida Filho, Professor Titular de Epidemiologia do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA.

O webinário integra a série “Transformação Digital na Saúde Pública”, promovida pelo Centro de Estudos Estratégicos da Presidência da Fundação Oswaldo Cruz, iniciada em julho de 2024 e dedicada a discutir os rumos da saúde pública no contexto da revolução digital, entre eles:

• Políticas públicas voltadas ao acesso universal, à produção e à inovação local;

• Perspectivas da Economia Política de Dados e da soberania;

• Iniciativas em ciência, tecnologia e inovação para fortalecer a soberania sanitária;

• Potencialidades e desafios da transformação tecnológica a partir do olhar da saúde coletiva.

Para o pesquisador e coordenador do GPCEIS, Carlos Gadelha, conselheiro do Projeto Brasil, o encontro ocorre em um momento decisivo. Segundo ele, compreender os efeitos da digitalização sobre o sistema de saúde é fundamental para avaliar se essas mudanças ampliarão o acesso universal ou, ao contrário, poderão aprofundar vulnerabilidades e exclusões sociais no país.

Serviço:

Data: 3 de março

Horário: 10h às 12h

Transmissão: YouTube Fiocruz

Carlos Gadelha recebe Prêmio Destaque Unicamp 2025: trajetória dedicada ao desenvolvimento e saúde pública

O economista Carlos Gadelha, coordenador da rede e do grupo de pesquisa “Desenvolvimento Sustentável, CT&I e Complexo Econômico-Industrial da Saúde” (GPCEIS/CEE-ENSP/Fiocruz), foi reconhecido com o Prêmio Egresso Destaque Unicamp 2025, entregue nesta segunda-feira, 15 de dezembro. A premiação é concedida pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) a ex-alunos cuja trajetória profissional se destaca pela relevância acadêmica, institucional e social.

Gadelha concluiu o mestrado na Unicamp, instituição cujo Instituto de Economia (IE) consolidou-se como um dos principais centros de formulação do pensamento desenvolvimentista no país. O IE-Unicamp é reconhecido como celeiro de nomes fundamentais da economia política brasileira, como Celso Furtado, Maria da Conceição Tavares, Luiz Gonzaga Belluzzo, João Manuel Cardoso de Mello e Luciano Coutinho.

Inspirado pelo legado de Celso Furtado, Gadelha defende uma concepção de desenvolvimento orientada ao bem-estar social, à sustentabilidade ambiental e à soberania nacional. Tais linhas também são o mote deste Projeto Brasil do Jornal GGN, do qual temos a honra de integrar Gadelha como conselheiro consultivo, e junto ao nosso espaço o economista vem construindo debates de alto nível junto à sociedade.

Em sua atuação acadêmica e institucional, o pesquisador articula inovação, transformação produtiva e política econômica às demandas do Sistema Único de Saúde (SUS) e da sociedade brasileira.

Trajetória marcada pela formulação de políticas públicas

Carlos Augusto Grabois Gadelha é doutor em Economia pelo Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e foi, até fevereiro deste ano, secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (Sectics). Ao longo de sua trajetória, atuou como formulador de políticas públicas estratégicas desde 2003, ocupando cargos de direção em secretarias dos ministérios da Saúde, da Integração Nacional e do Desenvolvimento Industrial.

Entre suas principais contribuições está a formulação da Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP), considerada uma das mais importantes ferramentas para o fortalecimento do complexo econômico-industrial da saúde no Brasil.

Atualmente, Gadelha lidera o grupo de pesquisa GPCEIS no Centro de Estudos Estratégicos da ENSP/Fiocruz, vinculado ao Ministério da Saúde. Também é parceiro do Jornal GGN e do Projeto Brasil.

O reconhecimento da Unicamp destaca uma trajetória que conecta pensamento econômico crítico, inovação e compromisso com políticas públicas voltadas à redução das desigualdades, à sustentabilidade e ao fortalecimento do SUS — pilares centrais do desenvolvimento nacional.

Fiocruz lança obras que reforçam o papel da ciência na transformação do SUS

O futuro da saúde pública em pauta: dois novos livros produzidos por pesquisadores da Fiocruz reacendem o debate sobre ciência, SUS e soberania. Uma das obras, de Patrícia Seixas da Costa Braga, que integra o Grupo de Pesquisa “Desenvolvimento Sustentável, CT&I e Complexo Econômico-Industrial da Saúde”, terá 3 lançamentos — o primeiro deles ocorreu neste 1º de dezembro, durante o 14º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva (Abrascão), o maior evento de Saúde Coletiva no Brasil, em Brasília.

Os livros — “Políticas de Ciência, Tecnologia e Inovação e os Desafios de Conexão com o SUS”, de Patrícia Braga, e “Resiliência na Saúde Pública”, de Alessandro Jatobá e Paulo Victor Rodrigues de Carvalho — apresentam reflexões críticas sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), a política nacional de ciência e tecnologia (PNCT&I) e os desafios de um país que precisa fortalecer sua soberania científica e produtiva.

Ciência conectada ao SUS: uma urgência nacional

Fruto de pesquisa desenvolvida no Grupo de Pesquisa “Desenvolvimento Sustentável, CT&I e Complexo Econômico-Industrial da Saúde” (GPCEIS/CEE-ENSP/Fiocruz), o livro de Patrícia Braga sustenta que a produção científica financiada com recursos públicos precisa gerar valor social — especialmente em um sistema universal como o SUS.

A autora analisou percepções de 26 coordenadores de Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT/CNPq) da área da saúde. O estudo revela limites do atual modelo de avaliação científica, ainda guiado por métricas acadêmicas que pouco dialogam com impactos concretos na saúde pública.

“O atual sistema de avaliação científica, centrado em critérios acadêmicos e desprovido de ferramentas analíticas capazes de mensurar impactos sociais da pesquisa, não direciona os investimentos para as prioridades do SUS”, afirma Patrícia.

Para ela, aproximar conhecimento científico das demandas reais do sistema público “não é apenas desejável, mas essencial para um sistema mais equitativo, acessível, universal e sustentável”.

Resiliência em saúde: sistemas que aprendem e se adaptam

Já a obra de Alessandro Jatobá e Paulo Victor Rodrigues de Carvalho, pesquisadores do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE/Fiocruz), discute o papel da resiliência em sistemas de saúde — tema que ganhou força após crises sanitárias recentes, como a pandemia de Covid-19.

Os autores defendem a necessidade de estruturas estatais robustas, capazes de responder a emergências e ao mesmo tempo sustentar políticas de qualidade e equidade no longo prazo. O livro integra o projeto de pesquisa “Tecnologia, Informação e Resiliência em Saúde Pública”.

“Compromisso com a transformação social”

Para Carlos Gadelha, coordenador do GPCEIS/ENSP/Fiocruz e conselheiro do Projeto Brasil, as duas obras expõem uma visão integrada de saúde, ciência, tecnologia e desenvolvimento nacional — e contribuem para recolocar a soberania sanitária no centro do debate público.

“As obras buscam orientar o desenvolvimento da ciência, tecnologia, inovação e produção nacional diante dos desafios da sustentabilidade, saúde, bem-estar e soberania nacional”, afirma Gadelha.

Três lançamentos para ampliar o debate

Além da estreia no Abrascão, o livro de Patrícia Braga terá dois outros eventos de lançamento — um webinário nacional e uma noite de autógrafos no Rio de Janeiro, confira:

Webinário “Desafios da CT&I para o SUS”

  • Data: 16/12/2025, às 14h

  • Participações:

    • Olival Freire Júnior (CNPq)

    • Denise Pires de Carvalho (Capes)

    • Patrícia Braga (autora)

    • Lígia Bahia (IESC/UFRJ)

  • Abertura: Alessandro Jatobá

  • Mediação: Carlos Gadelha

Noite de autógrafos – Retrato Espaço Cultural

  • Data: 17/12/2025, às 17h30

  • Local: Rua Benjamin Constant, 115, laje – Glória, Rio de Janeiro

Leia mais:

https://projetobrasil.jornalggn.com.br/artigos/a-saude-como-pilar-do-desenvolvimento-sustentavel-por-carlos-gadelha/

Os caminhos para garantir saúde pública no Brasil em transformação

O futuro da saúde brasileira não pode ser tratado como um tema de curto prazo. Essa é a premissa da iniciativa “Saúde Amanhã”, coordenada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que ganhou destaque em edição especial do Projeto Brasil, transmitida pela TV GGN. [Assista ao vídeo ao final do texto]

No programa, os jornalistas Luis Nassif e Sérgio Leo receberam o pesquisador e sanitarista José Carvalho de Noronha, coordenador adjunto do projeto e membro do Conselho Consultivo do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes). Ele apresentou tendências e riscos para o Sistema Único de Saúde (SUS) no horizonte de 2050.

O debate destacou o SUS como a maior conquista do federalismo brasileiro e um modelo que já inspira outras áreas, como a segurança pública. Sua continuidade, no entanto, depende de políticas estruturais capazes de responder a transformações econômicas, tecnológicas, ambientais e demográficas.

De 2010 a 2050: a trajetória de um projeto de Estado

Noronha destacou o projeto “Saúde no Brasil em 2050”, braço do “Saúde Amanhã”, que surgiu em 2010, no segundo governo Lula (PT), como parte de um esforço nacional de planejamento conduzido pelo então ministro José Gomes Temporão.

Em 2013, a ação passou a se chamar “Saúde 2030”, adotando a ideia de horizonte móvel de 20 anos. Após o impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT), em 2016, o projeto foi vinculado à “Estratégia Fiocruz Agenda 2030”, lançada por Paulo Gadelha.

Com o retorno de Lula ao poder e a criação da “Estratégia Brasil 2050”, pelo Ministério do Planejamento, a iniciativa ganhou novo fôlego e maior institucionalidade, conectando saúde, desenvolvimento e sustentabilidade no planejamento de longo prazo.

Quatro vetores que moldarão a saúde em 2050

A longo prazo, o estudo da Fiocruz para a “Saúde no Brasil em 2050” aponta quatro grandes macrodesafios para o sistema de saúde nas próximas décadas:

Crise climática e meio ambiente

As mudanças ambientais afetam tanto a saúde da população quanto a rede de atendimento. Epidemias tendem a se intensificar, enquanto desastres naturais exigirão serviços resilientes e prontos para respostas emergenciais.

Economia e geopolítica

O financiamento limitado do SUS e a dependência externa em insumos e tecnologias médicas seguem como entraves. Apesar dos avanços de instituições como Fiocruz e Butantã, o país ainda depende fortemente de fornecedores internacionais.

Demografia e doenças crônicas

O envelhecimento populacional redefine demandas: cuidados contínuos substituem a ideia de cura. Doenças como diabetes e cardiovasculares exigem reorganização do sistema e avanços em cuidados paliativos.

Transformação digital e tecnológica

Da inteligência artificial a cirurgias robóticas, a saúde vive uma revolução. O desafio é evitar que essas inovações fiquem restritas ao setor privado, garantindo acesso pelo SUS de forma inclusiva e regulada.

Noronha lembrou ainda que toda a iniciativa segue o Artigo 196 da Constituição Federal, que define a saúde como direito de todos e dever do Estado, a ser garantido por políticas sociais e econômicas que reduzam riscos e assegurem acesso universal e igualitário.

O futuro em disputa

Para Noronha, a saúde em 2050 será reflexo das escolhas feitas hoje. O SUS já mostrou capacidade de inovação, mas enfrenta ameaças que exigem visão estratégica.

Sem planejamento consistente, alerta o pesquisador, o sistema corre o risco de perder relevância, pressionado por restrições fiscais, dependência tecnológica e impactos ambientais.

Agora, o Brasil terá de decidir se investirá em um sistema público universal e resiliente ou se permitirá a erosão de um de seus maiores patrimônios sociais.

Assista à íntegra da entrevista ao Projeto Brasil: