Fiocruz lança obras que reforçam o papel da ciência na transformação do SUS

O futuro da saúde pública em pauta: dois novos livros produzidos por pesquisadores da Fiocruz reacendem o debate sobre ciência, SUS e soberania. Uma das obras, de Patrícia Seixas da Costa Braga, que integra o Grupo de Pesquisa “Desenvolvimento Sustentável, CT&I e Complexo Econômico-Industrial da Saúde”, terá 3 lançamentos — o primeiro deles ocorreu neste 1º de dezembro, durante o 14º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva (Abrascão), o maior evento de Saúde Coletiva no Brasil, em Brasília.

Os livros — “Políticas de Ciência, Tecnologia e Inovação e os Desafios de Conexão com o SUS”, de Patrícia Braga, e “Resiliência na Saúde Pública”, de Alessandro Jatobá e Paulo Victor Rodrigues de Carvalho — apresentam reflexões críticas sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), a política nacional de ciência e tecnologia (PNCT&I) e os desafios de um país que precisa fortalecer sua soberania científica e produtiva.

Ciência conectada ao SUS: uma urgência nacional

Fruto de pesquisa desenvolvida no Grupo de Pesquisa “Desenvolvimento Sustentável, CT&I e Complexo Econômico-Industrial da Saúde” (GPCEIS/CEE-ENSP/Fiocruz), o livro de Patrícia Braga sustenta que a produção científica financiada com recursos públicos precisa gerar valor social — especialmente em um sistema universal como o SUS.

A autora analisou percepções de 26 coordenadores de Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT/CNPq) da área da saúde. O estudo revela limites do atual modelo de avaliação científica, ainda guiado por métricas acadêmicas que pouco dialogam com impactos concretos na saúde pública.

“O atual sistema de avaliação científica, centrado em critérios acadêmicos e desprovido de ferramentas analíticas capazes de mensurar impactos sociais da pesquisa, não direciona os investimentos para as prioridades do SUS”, afirma Patrícia.

Para ela, aproximar conhecimento científico das demandas reais do sistema público “não é apenas desejável, mas essencial para um sistema mais equitativo, acessível, universal e sustentável”.

Resiliência em saúde: sistemas que aprendem e se adaptam

Já a obra de Alessandro Jatobá e Paulo Victor Rodrigues de Carvalho, pesquisadores do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE/Fiocruz), discute o papel da resiliência em sistemas de saúde — tema que ganhou força após crises sanitárias recentes, como a pandemia de Covid-19.

Os autores defendem a necessidade de estruturas estatais robustas, capazes de responder a emergências e ao mesmo tempo sustentar políticas de qualidade e equidade no longo prazo. O livro integra o projeto de pesquisa “Tecnologia, Informação e Resiliência em Saúde Pública”.

“Compromisso com a transformação social”

Para Carlos Gadelha, coordenador do GPCEIS/ENSP/Fiocruz e conselheiro do Projeto Brasil, as duas obras expõem uma visão integrada de saúde, ciência, tecnologia e desenvolvimento nacional — e contribuem para recolocar a soberania sanitária no centro do debate público.

“As obras buscam orientar o desenvolvimento da ciência, tecnologia, inovação e produção nacional diante dos desafios da sustentabilidade, saúde, bem-estar e soberania nacional”, afirma Gadelha.

Três lançamentos para ampliar o debate

Além da estreia no Abrascão, o livro de Patrícia Braga terá dois outros eventos de lançamento — um webinário nacional e uma noite de autógrafos no Rio de Janeiro, confira:

Webinário “Desafios da CT&I para o SUS”

  • Data: 16/12/2025, às 14h

  • Participações:

    • Olival Freire Júnior (CNPq)

    • Denise Pires de Carvalho (Capes)

    • Patrícia Braga (autora)

    • Lígia Bahia (IESC/UFRJ)

  • Abertura: Alessandro Jatobá

  • Mediação: Carlos Gadelha

Noite de autógrafos – Retrato Espaço Cultural

  • Data: 17/12/2025, às 17h30

  • Local: Rua Benjamin Constant, 115, laje – Glória, Rio de Janeiro

Leia mais:

https://projetobrasil.jornalggn.com.br/artigos/a-saude-como-pilar-do-desenvolvimento-sustentavel-por-carlos-gadelha/

Super live do Projeto Brasil vai debater a estratégia nacional de Ciência e Tecnologia

Nesta quinta-feira (09), às 18h, a TV GGN transmite um seminário especial do Projeto Brasil, reunindo alguns dos nomes mais influentes da política de inovação para debater o futuro da estratégia nacional de Ciência e Tecnologia.

O debate acontece em um momento decisivo, no qual o Brasil busca fortalecer sua posição internacional e ampliar a integração entre universidades, empresas e governo. A mediação será do jornalista Luís Nassif, que conduz a conversa entre:

– Francilene Procópio Garcia, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) — primeira mulher nordestina a liderar a maior entidade científica da América Latina

– Luis Fernandes, secretário-executivo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI);

– Sérgio Rezende, físico, professor e ex-ministro de Ciência e Tecnologia no segundo governo Lula;

– Anderson Gomes, diretor do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) e vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências para o Nordeste e o Espírito Santo;

– Fernando Rizzo, engenheiro, acadêmico e ex-diretor do Instituto Nacional de Tecnologia (INT/MCTI).

A expectativa é que o encontro vá além da análise conjuntural, trazendo diagnósticos e apontando caminhos concretos para consolidar uma política nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) à altura dos desafios globais.

Acompanhe, neste 9 de outubro, às 18h, ao vivo no canal da TV GGN. Ative o sininho para receber o lembrete da transmissão:

Um homem contra a pseudociência

Lucas Romano López

Como primeira postagem no Projeto Brasil do GGN, pensei em homenagear um dos maiores cientistas da América Latina do século XX (que faria aniversário em 21 de setembro, se estivesse vivo):

Mário Bunge (1919-2020) foi um físico e filósofo argentino influenciado em grande medida por Bertrand Russell, criou uma versão atualizada e robusta do Problema da Demarcação, que em termos simples, visa dividir o que é ciência do que não é (aqui, a lógica binária de ciência e “não ciência” faz sentido porque a ciência deve se basear em pressupostos comuns e diretivos para suas respectivas áreas). Tal tarefa é muito mais difícil do que parece, porém, o autor nos ajuda a pensar no problema de maneira didática e sistemática, oferecendo 10 condições para que um campo cognitivo seja considerado científico, a saber:

Visão de mundo, base formal, domínio, base específica, problemática, fundo de conhecimento, objetivos, métodos, atualização e integração. Tais características estão presentes em todos os campos científicos e podem ser considerados a base da “boa ciência”. A pseudociência para Bunge falha em satisfazer uma ou mais condições citadas acima. Bunge é um dos críticos mais ferrenhos da psicanálise, sem entrar na discussão acerca do Complexo de Édipo e do conservadorismo na abordagem freudiana. A crítica de Bunge à psicanálise é direta, mas pesada: os pressupostos básicos da psicanálise não se baseiam em questões passíveis de teste empírico e, portanto, não poderia ser capaz de fazer previsões testáveis. Bunge critica fortemente a noção freudiana de inconsciente e diz que esta não encontra lastro na Neurociência de sua época, o conceito de inconsciente para ele não serve nem como “entidade metafísica”.

Todo texto (ainda que de opinião) sobre Filosofia da Ciência obrigatoriamente deve fazer menção à Thomas Kuhn, por diversos motivos: sua visão sobre as revoluções científicas e o progresso da ciência pode ser considerada basilar para entendermos como a ciência funciona, porém, nem Kuhn escapou das críticas de Bunge. Em que pese, a crítica de Bunge à Kuhn é mais light se comparada à Popper, porque o autor argentino enfatiza a possibilidade de as revoluções científicas serem parciais e não aparentemente totais como em Kuhn. Veja, Bunge não nega a existência das revoluções científicas, mas propõe um olhar mais sóbrio para elas e enfatiza que mesmo as revoluções científicas não são capazes de destruir o conhecimento anterior (como fica a impressão em Kuhn).

O rigor de Bunge acerca da ciência pode ser contestado, porém, não se pode negar que o autor argentino apresentou, durante toda sua carreira, uma visão crítica do fazer ciência e a busca por uma unidade pode ser considerado uma virtude, visto que há de se ter critérios claros, coerentes e confiáveis para separar a ciência da pseudociência. Este tema é tão relevante atualmente quanto foi na época em que o filósofo escreveu, as aulas de ciências nas escolas poderiam começar com a pergunta: o que é ciência afinal? (como diria Chalmers). As escolas poderiam pensar em oficinas práticas de investigação científica para os alunos, pegar um tema como Democracia, Direitos Humanos ou Tolerância e incentivar os alunos a fazerem um debate apresentando argumentos verificáveis e referenciados (com referências públicas para que todos possam acessar e sem cópias), obviamente que exigiria algum grau de engajamento por parte dos estudantes e comunidade escolar, mas poderia despertar o interesse pela ciência nos jovens.

O questionamento é o que rege a ciência, porém, não qualquer tipo de questionamento: até para questionar você precisa de base, se não houver base, o questionamento pode se tornar raso e ad hoc, como o questionamento da eficácia das vacinas, por exemplo (não faz sentido nenhum, é baseado em achismos e pior, pode matar!). O estudo das bases da ciência, aliado ao estudo dos clássicos de uma determinada área pode ser produtivo para despertar questionamentos mais refinados e coerentes. Existem cientistas que são expoentes de uma ou mais áreas do conhecimento como por exemplo, Max Weber, que é expoente da sociologia, da filosofia e da política. O bom trabalho científico transita entre áreas e não fica limitado à uma “caixinha”. A interdisciplinariedade ou a conexão com outras áreas do conhecimento pode ser extremamente benéfica para a pesquisa científica, visto que, pode refinar os argumentos, incentivar a leitura de outras fontes de conhecimento e resolver problemas de maneira inovadora.