Soberania se constrói com ciência, por Francilene Garcia

Por Francilene Procópio Garcia, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC

As eleições de 2026 são uma oportunidade para discutir não apenas propostas para os próximos quatro anos, mas algumas escolhas estruturais para o desenvolvimento brasileiro. Quanto o País pretende investir em pesquisa e desenvolvimento? Como garantir estabilidade para o financiamento da ciência? Que capacidade queremos ter para produzir medicamentos, desenvolver tecnologias estratégicas, proteger nossos dados e participar das transformações trazidas pela inteligência artificial?

É com essa visão que a SBPC vem desenvolvendo as ações do Observatório das Eleições 2026, iniciativa voltada a ampliar a presença da Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) no debate eleitoral e a promover o diálogo entre comunidade científica, sociedade e candidaturas. Em menos de duas semanas, mais de 70 candidatas e candidatos a diferentes cargos e de várias regiões do País já aderiram ao Termo de Compromisso do Observatório, assumindo publicamente compromissos com a ciência, a democracia e a soberania nacional. Queremos ampliar essa participação ao longo de todo o processo eleitoral.

O Observatório é um desdobramento direto do ciclo Vozes da Ciência – O Brasil que Queremos, realizado entre novembro de 2025 e maio de 2026, com 13 mesas de debate e mais de 60 pesquisadoras e pesquisadores de diferentes áreas e regiões do País. Desse processo resultaram 117 propostas, organizadas em sete eixos temáticos, reunidas em um caderno disponível gratuitamente em nosso portal.

Nesta edição, destacamos os dois primeiros eixos desse conjunto: CT&I como Projeto de Nação e Soberania Nacional: Digital, Tecnológica e Sanitária. Somente esses dois eixos reúnem 44 propostas: 27 no primeiro e 17 no segundo. São temas diretamente relacionados, porque a capacidade de um país desenvolver tecnologias próprias, reduzir dependências e responder aos seus grandes desafios depende da existência de um sistema científico sólido, com financiamento, infraestrutura e recursos humanos.

O ponto de partida do primeiro eixo é uma questão que acompanha a ciência brasileira há décadas: a instabilidade do financiamento. O Brasil investe hoje cerca de 1,19% do Produto Interno Bruto em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), abaixo do pico de 1,28% alcançado em 2015 e distante da média de aproximadamente 2,7% dos países da OCDE. Essa diferença se reflete na capacidade de produzir conhecimento, desenvolver e incorporar tecnologias, ampliar a produtividade e responder com autonomia aos desafios nacionais.

No Vozes da Ciência, propusemos alcançar 2% do PIB em P&D até 2030, além de proteger constitucionalmente o orçamento de CT&I, garantir a plena execução do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), fortalecer o financiamento da ciência básica e articular a política científica a missões nacionais e à política industrial. O conjunto de propostas inclui ainda a vinculação do Fundo Social do Pré-Sal à CT&I, por meio do PL 5.876/2016, entre outras medidas voltadas a ampliar os recursos disponíveis e reduzir a histórica instabilidade do financiamento da área.

Desde a publicação do caderno, avançamos na discussão sobre como transformar a meta de investimento em uma trajetória economicamente factível. A proposta que a SBPC está trabalhando agora é alcançar 2% do PIB em P&D até 2034, com marcos intermediários de 1,38% em 2028 e 1,58% em 2030. A revisão do horizonte não reduz a ambição da proposta. Ao contrário, procura estabelecer um planejamento de longo prazo que possa ser executado, medido e acompanhado.

Partindo do patamar atual, chegar aos 2% significa ampliar em aproximadamente 68% a intensidade do esforço brasileiro em P&D. Nesse cenário, o investimento nacional alcançaria cerca de R$ 414 bilhões anuais em 2034 — valor correspondente ao investimento total em P&D naquele ano, e não a um aporte adicional de R$ 414 bilhões. A trajetória prevê que o investimento público alcance 0,78% do PIB e o empresarial, 1,22%, enfrentando também uma fragilidade importante do sistema brasileiro: a participação ainda insuficiente das empresas no desenvolvimento tecnológico.

Há uma razão para estabelecer 2034 como horizonte. Antecipar os 2% para 2030 exigiria crescimento nominal dos investimentos próximo de 20% ao ano, um ritmo sem precedente internacional para um país partindo do patamar brasileiro. Distribuído em oito anos, o crescimento necessário fica próximo de 13% ao ano, taxa que o Brasil já conseguiu sustentar entre 2007 e 2013. Temos, assim, uma trajetória ambiciosa, mas possível, com metas intermediárias que permitem à sociedade, ao Congresso Nacional e aos órgãos de controle acompanhar sua execução.

Financiamento, entretanto, é parte de uma questão mais ampla. Para que a ciência contribua de maneira consistente para o desenvolvimento, precisamos garantir continuidade às pesquisas, fortalecer a ciência básica, recuperar e ampliar laboratórios e infraestruturas, formar e reter jovens pesquisadores e aumentar a presença de mestres e doutores nas empresas. Precisamos também aproximar a produção de conhecimento das políticas industrial, de saúde, energia, agricultura, transformação digital e enfrentamento das mudanças climáticas.

É nesse ponto que o primeiro eixo se encontra com o segundo. Soberania, hoje, envolve também dados, infraestrutura computacional, inteligência artificial, plataformas digitais, medicamentos, vacinas e insumos estratégicos. O diagnóstico apresentado pelo Vozes da Ciência mostra a dimensão de algumas de nossas dependências. O Brasil gasta cerca de R$ 10 bilhões por ano em contratos com grandes empresas de tecnologia, e aproximadamente 80% das universidades dependem de infraestrutura de big techs internacionais, como Google ou Microsoft.

Isso não significa reduzir a cooperação internacional. O País deve participar das cadeias globais de conhecimento e inovação e estabelecer parcerias com empresas e instituições estrangeiras. Mas precisa fazê-lo com capacidade própria para armazenar dados estratégicos, manter infraestruturas críticas, formar profissionais, produzir tecnologias e estabelecer regras compatíveis com o interesse público.

Por isso, o segundo eixo propõe, entre outras medidas, criar infraestrutura digital soberana para universidades e sistemas críticos do Estado, retomar a política de software livre, avançar na regulamentação das plataformas digitais e da inteligência artificial e fortalecer a capacidade brasileira de desenvolver tecnologias próprias. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial já oferece uma base importante, mas sua execução precisa estar associada ao fortalecimento da capacidade computacional nacional, ao desenvolvimento de modelos voltados aos desafios brasileiros e à formação continuada de profissionais.

Na saúde, a vulnerabilidade é igualmente concreta. A pandemia de covid-19 mostrou o que significa depender de fornecedores externos para vacinas, medicamentos, equipamentos e insumos em uma situação de emergência. Hoje, a dependência de importações do Complexo Econômico-Industrial da Saúde se aproxima de US$ 30 bilhões. Ao mesmo tempo, temos instituições científicas e tecnológicas, universidades, capacidade industrial e um Sistema Único de Saúde cuja escala pode ser utilizada também para induzir inovação e produção nacional.

Por isso, uma das propostas no Vozes da Ciência é criar um programa de Estado para biotecnologia em saúde, com meta de 70% de autossuficiência em insumos estratégicos até 2030. A Nova Indústria Brasil já colocou o Complexo Econômico-Industrial da Saúde entre suas missões, e avanços recentes criaram novas condições institucionais para articular saúde, produção, inovação e desenvolvimento. O desafio é dar continuidade e escala a esse processo.

São discussões como essas que queremos levar ao processo eleitoral por meio do Observatório das Eleições 2026. Nosso objetivo é que as propostas construídas pela comunidade científica contribuam para a discussão das políticas públicas e dialoguem com questões e prioridades trazidas pelos diferentes estados e territórios. É igualmente importante conhecer as posições e os compromissos das pessoas que se apresentam para representar a sociedade nos Poderes Executivo e Legislativo.

A SBPC mantém, como sempre, sua independência político-partidária. O Observatório não apoia, recomenda ou se opõe a candidaturas. Seu papel é oferecer informação, promover o debate e dar transparência aos compromissos assumidos. Queremos que ciência, tecnologia e inovação sejam discutidas nas eleições com propostas, metas, recursos e responsabilidades claramente apresentados à sociedade.

Convidamos a comunidade científica e toda a sociedade a participar. Conheçam as propostas, consultem as adesões, enviem perguntas e levem esse debate às candidaturas de seus estados. Às candidatas e aos candidatos, o convite é igualmente aberto: conheçam a agenda construída pela comunidade científica, dialoguem conosco e assumam publicamente os compromissos que estiverem de acordo com seus projetos para o País.

Por meio do Observatório, continuaremos acompanhando esse processo durante todo o período eleitoral e manteremos, depois das eleições, a memória pública dos compromissos assumidos. Esperamos, assim, contribuir para que as propostas apresentadas durante a campanha possam ser conhecidas pela sociedade e, posteriormente, acompanhadas em sua implementação.

Eleições: O que a Ciência e pesquisadores propõem para 2026

O Projeto Brasil/GGN abre espaço para uma das mais urgentes e qualificadas reflexões sobre o futuro do País: a divulgação da série especial de artigos e relatórios produzidos no âmbito do Observatório das Eleições 2026, iniciativa organizada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Após meses de debates com mais de 60 pesquisadores e especialistas de diversas áreas e regiões do Brasil, a SBPC produziu um documento final, o caderno “O Brasil que Queremos: Ciência, Democracia e Soberania”, reunindo 117 propostas concretas estruturadas em sete eixos estratégicos, apresentadas a todas as candidaturas políticas do pleito de 2026.

Mas além de publicar o resultado de meses de reuniões e debates qualificados com a comunidade científica, a SBPC foi além: está colocando as propostas à mesa de todas as candidaturas dos futuros governantes (presidente e governadores) e legisladores (deputados e senadores) para que assinem um Termo de Compromisso do Observatório, assumindo publicamente compromissos com a ciência, a democracia e a soberania nacional.

A partir de agora, você terá acesso a uma série de artigos, reportagens e levantamentos elaborados pela SBPC, que abordam estratégias-chave de políticas públicas que, atrelados à ciência, são as únicas respostas comprovadas para o desenvolvimento do país. Confira alguns dos temas que serão tratados:

Ciência como Projeto de Nação e uma proposta real de aumento de financiamento

Ao analisar todas as propostas de candidatos à Presidência, uma das constatações da SBPC é que, embora a produção de conhecimento seja citada em 11 dos 12 planos de governo, falta detalhamento orçamentário em ciência, pesquisa e tecnologia nas propostas dos presidenciáveis. A comunidade científica defende uma meta clara para elevar o investimento nacional em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) dos atuais 1,19% para 2% do PIB até 2034, garantindo estabilidade e proteção contra contingenciamentos.

Soberania Digital e Sanitária

O Brasil gasta anualmente mais de R$ 10 bilhões em contratos de software e soluções em nuvem com big techs internacionais, perpetuando a dependência de dados públicos estratégicos. A série expõe caminhos para o desenvolvimento de infraestruturas digitais soberanas, modelos de Inteligência Artificial nacionais e a redução da vulnerabilidade sanitária, em um cenário onde 96% dos Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs) ainda são importados.

Compromissos com a Emergência Climática

Serão apresentadas análises sobre o alinhamento e as lacunas das candidaturas em relação à meta de desmatamento zero na Amazônia até 2030, sobre a recuperação de 30 milhões de hectares de pastagens degradadas em dez anos, e fortalecimento da bioeconomia e refino doméstico de minerais estratégicos, como Terras Raras e lítio.

Segurança Pública pautada por evidências científicas

Os materiais também apontam como a ciência deve embasar caminhos para a Segurança Pública. Dados públicos registrados já são transformados em conhecimento científico capaz de orientar o Estado nas políticas deste setor, que é desagregado por raça, gênero, idade e território. Os dados estatísticos já comprovam que os investimentos devem estar em inteligência, na integração de dados, na asfixia financeira do crime e na prevenção social, e não no simples endurecimento penal que o país repete há décadas, sem resultados.

Equidade Racial, Diversidade e Educação Pública

A SBPC revelou o diagnóstico alarmante de que 7 dos 13 presidenciáveis não apresentam políticas de equidade racial em seus planos de governo. A comunidade científica e acadêmica aponta para a necessidade de ampliação de ações afirmativas em todos os setores, mas principalmente na Educação, na pós-graduação e no corpo docente, e a efetivação do Plano Nacional de Educação (PNE) com financiamento protegido.


Convidamos você a acompanhar as análises dos planos de governo, identificar as convergências e omissões dos candidatos e conhecer os compromissos públicos assumidos por candidaturas de todo o país, através do Termo de Compromisso do Observatório das Eleições SBPC.

 

Os conteúdos desta série serão atualizados e reunidos no Fórum Especializado do Projeto Brasil/GGN.

Ciência e Pesquisa nas Eleições 2026

Cadernos SBPC: O Brasil que Queremos: Ciência, Democracia e Soberania, 2026

Fiocruz lança obras que reforçam o papel da ciência na transformação do SUS

O futuro da saúde pública em pauta: dois novos livros produzidos por pesquisadores da Fiocruz reacendem o debate sobre ciência, SUS e soberania. Uma das obras, de Patrícia Seixas da Costa Braga, que integra o Grupo de Pesquisa “Desenvolvimento Sustentável, CT&I e Complexo Econômico-Industrial da Saúde”, terá 3 lançamentos — o primeiro deles ocorreu neste 1º de dezembro, durante o 14º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva (Abrascão), o maior evento de Saúde Coletiva no Brasil, em Brasília.

Os livros — “Políticas de Ciência, Tecnologia e Inovação e os Desafios de Conexão com o SUS”, de Patrícia Braga, e “Resiliência na Saúde Pública”, de Alessandro Jatobá e Paulo Victor Rodrigues de Carvalho — apresentam reflexões críticas sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), a política nacional de ciência e tecnologia (PNCT&I) e os desafios de um país que precisa fortalecer sua soberania científica e produtiva.

Ciência conectada ao SUS: uma urgência nacional

Fruto de pesquisa desenvolvida no Grupo de Pesquisa “Desenvolvimento Sustentável, CT&I e Complexo Econômico-Industrial da Saúde” (GPCEIS/CEE-ENSP/Fiocruz), o livro de Patrícia Braga sustenta que a produção científica financiada com recursos públicos precisa gerar valor social — especialmente em um sistema universal como o SUS.

A autora analisou percepções de 26 coordenadores de Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT/CNPq) da área da saúde. O estudo revela limites do atual modelo de avaliação científica, ainda guiado por métricas acadêmicas que pouco dialogam com impactos concretos na saúde pública.

“O atual sistema de avaliação científica, centrado em critérios acadêmicos e desprovido de ferramentas analíticas capazes de mensurar impactos sociais da pesquisa, não direciona os investimentos para as prioridades do SUS”, afirma Patrícia.

Para ela, aproximar conhecimento científico das demandas reais do sistema público “não é apenas desejável, mas essencial para um sistema mais equitativo, acessível, universal e sustentável”.

Resiliência em saúde: sistemas que aprendem e se adaptam

Já a obra de Alessandro Jatobá e Paulo Victor Rodrigues de Carvalho, pesquisadores do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE/Fiocruz), discute o papel da resiliência em sistemas de saúde — tema que ganhou força após crises sanitárias recentes, como a pandemia de Covid-19.

Os autores defendem a necessidade de estruturas estatais robustas, capazes de responder a emergências e ao mesmo tempo sustentar políticas de qualidade e equidade no longo prazo. O livro integra o projeto de pesquisa “Tecnologia, Informação e Resiliência em Saúde Pública”.

“Compromisso com a transformação social”

Para Carlos Gadelha, coordenador do GPCEIS/ENSP/Fiocruz e conselheiro do Projeto Brasil, as duas obras expõem uma visão integrada de saúde, ciência, tecnologia e desenvolvimento nacional — e contribuem para recolocar a soberania sanitária no centro do debate público.

“As obras buscam orientar o desenvolvimento da ciência, tecnologia, inovação e produção nacional diante dos desafios da sustentabilidade, saúde, bem-estar e soberania nacional”, afirma Gadelha.

Três lançamentos para ampliar o debate

Além da estreia no Abrascão, o livro de Patrícia Braga terá dois outros eventos de lançamento — um webinário nacional e uma noite de autógrafos no Rio de Janeiro, confira:

Webinário “Desafios da CT&I para o SUS”

  • Data: 16/12/2025, às 14h

  • Participações:

    • Olival Freire Júnior (CNPq)

    • Denise Pires de Carvalho (Capes)

    • Patrícia Braga (autora)

    • Lígia Bahia (IESC/UFRJ)

  • Abertura: Alessandro Jatobá

  • Mediação: Carlos Gadelha

Noite de autógrafos – Retrato Espaço Cultural

  • Data: 17/12/2025, às 17h30

  • Local: Rua Benjamin Constant, 115, laje – Glória, Rio de Janeiro

Leia mais:

https://projetobrasil.jornalggn.com.br/artigos/a-saude-como-pilar-do-desenvolvimento-sustentavel-por-carlos-gadelha/

Super live do Projeto Brasil vai debater a estratégia nacional de Ciência e Tecnologia

Nesta quinta-feira (09), às 18h, a TV GGN transmite um seminário especial do Projeto Brasil, reunindo alguns dos nomes mais influentes da política de inovação para debater o futuro da estratégia nacional de Ciência e Tecnologia.

O debate acontece em um momento decisivo, no qual o Brasil busca fortalecer sua posição internacional e ampliar a integração entre universidades, empresas e governo. A mediação será do jornalista Luís Nassif, que conduz a conversa entre:

– Francilene Procópio Garcia, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) — primeira mulher nordestina a liderar a maior entidade científica da América Latina

– Luis Fernandes, secretário-executivo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI);

– Sérgio Rezende, físico, professor e ex-ministro de Ciência e Tecnologia no segundo governo Lula;

– Anderson Gomes, diretor do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) e vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências para o Nordeste e o Espírito Santo;

– Fernando Rizzo, engenheiro, acadêmico e ex-diretor do Instituto Nacional de Tecnologia (INT/MCTI).

A expectativa é que o encontro vá além da análise conjuntural, trazendo diagnósticos e apontando caminhos concretos para consolidar uma política nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) à altura dos desafios globais.

Acompanhe, neste 9 de outubro, às 18h, ao vivo no canal da TV GGN. Ative o sininho para receber o lembrete da transmissão:

Um homem contra a pseudociência

Lucas Romano López

Como primeira postagem no Projeto Brasil do GGN, pensei em homenagear um dos maiores cientistas da América Latina do século XX (que faria aniversário em 21 de setembro, se estivesse vivo):

Mário Bunge (1919-2020) foi um físico e filósofo argentino influenciado em grande medida por Bertrand Russell, criou uma versão atualizada e robusta do Problema da Demarcação, que em termos simples, visa dividir o que é ciência do que não é (aqui, a lógica binária de ciência e “não ciência” faz sentido porque a ciência deve se basear em pressupostos comuns e diretivos para suas respectivas áreas). Tal tarefa é muito mais difícil do que parece, porém, o autor nos ajuda a pensar no problema de maneira didática e sistemática, oferecendo 10 condições para que um campo cognitivo seja considerado científico, a saber:

Visão de mundo, base formal, domínio, base específica, problemática, fundo de conhecimento, objetivos, métodos, atualização e integração. Tais características estão presentes em todos os campos científicos e podem ser considerados a base da “boa ciência”. A pseudociência para Bunge falha em satisfazer uma ou mais condições citadas acima. Bunge é um dos críticos mais ferrenhos da psicanálise, sem entrar na discussão acerca do Complexo de Édipo e do conservadorismo na abordagem freudiana. A crítica de Bunge à psicanálise é direta, mas pesada: os pressupostos básicos da psicanálise não se baseiam em questões passíveis de teste empírico e, portanto, não poderia ser capaz de fazer previsões testáveis. Bunge critica fortemente a noção freudiana de inconsciente e diz que esta não encontra lastro na Neurociência de sua época, o conceito de inconsciente para ele não serve nem como “entidade metafísica”.

Todo texto (ainda que de opinião) sobre Filosofia da Ciência obrigatoriamente deve fazer menção à Thomas Kuhn, por diversos motivos: sua visão sobre as revoluções científicas e o progresso da ciência pode ser considerada basilar para entendermos como a ciência funciona, porém, nem Kuhn escapou das críticas de Bunge. Em que pese, a crítica de Bunge à Kuhn é mais light se comparada à Popper, porque o autor argentino enfatiza a possibilidade de as revoluções científicas serem parciais e não aparentemente totais como em Kuhn. Veja, Bunge não nega a existência das revoluções científicas, mas propõe um olhar mais sóbrio para elas e enfatiza que mesmo as revoluções científicas não são capazes de destruir o conhecimento anterior (como fica a impressão em Kuhn).

O rigor de Bunge acerca da ciência pode ser contestado, porém, não se pode negar que o autor argentino apresentou, durante toda sua carreira, uma visão crítica do fazer ciência e a busca por uma unidade pode ser considerado uma virtude, visto que há de se ter critérios claros, coerentes e confiáveis para separar a ciência da pseudociência. Este tema é tão relevante atualmente quanto foi na época em que o filósofo escreveu, as aulas de ciências nas escolas poderiam começar com a pergunta: o que é ciência afinal? (como diria Chalmers). As escolas poderiam pensar em oficinas práticas de investigação científica para os alunos, pegar um tema como Democracia, Direitos Humanos ou Tolerância e incentivar os alunos a fazerem um debate apresentando argumentos verificáveis e referenciados (com referências públicas para que todos possam acessar e sem cópias), obviamente que exigiria algum grau de engajamento por parte dos estudantes e comunidade escolar, mas poderia despertar o interesse pela ciência nos jovens.

O questionamento é o que rege a ciência, porém, não qualquer tipo de questionamento: até para questionar você precisa de base, se não houver base, o questionamento pode se tornar raso e ad hoc, como o questionamento da eficácia das vacinas, por exemplo (não faz sentido nenhum, é baseado em achismos e pior, pode matar!). O estudo das bases da ciência, aliado ao estudo dos clássicos de uma determinada área pode ser produtivo para despertar questionamentos mais refinados e coerentes. Existem cientistas que são expoentes de uma ou mais áreas do conhecimento como por exemplo, Max Weber, que é expoente da sociologia, da filosofia e da política. O bom trabalho científico transita entre áreas e não fica limitado à uma “caixinha”. A interdisciplinariedade ou a conexão com outras áreas do conhecimento pode ser extremamente benéfica para a pesquisa científica, visto que, pode refinar os argumentos, incentivar a leitura de outras fontes de conhecimento e resolver problemas de maneira inovadora.