Lucas Romano López
Como primeira postagem no Projeto Brasil do GGN, pensei em homenagear um dos maiores cientistas da América Latina do século XX (que faria aniversário em 21 de setembro, se estivesse vivo):
Mário Bunge (1919-2020) foi um físico e filósofo argentino influenciado em grande medida por Bertrand Russell, criou uma versão atualizada e robusta do Problema da Demarcação, que em termos simples, visa dividir o que é ciência do que não é (aqui, a lógica binária de ciência e “não ciência” faz sentido porque a ciência deve se basear em pressupostos comuns e diretivos para suas respectivas áreas). Tal tarefa é muito mais difícil do que parece, porém, o autor nos ajuda a pensar no problema de maneira didática e sistemática, oferecendo 10 condições para que um campo cognitivo seja considerado científico, a saber:
Visão de mundo, base formal, domínio, base específica, problemática, fundo de conhecimento, objetivos, métodos, atualização e integração. Tais características estão presentes em todos os campos científicos e podem ser considerados a base da “boa ciência”. A pseudociência para Bunge falha em satisfazer uma ou mais condições citadas acima. Bunge é um dos críticos mais ferrenhos da psicanálise, sem entrar na discussão acerca do Complexo de Édipo e do conservadorismo na abordagem freudiana. A crítica de Bunge à psicanálise é direta, mas pesada: os pressupostos básicos da psicanálise não se baseiam em questões passíveis de teste empírico e, portanto, não poderia ser capaz de fazer previsões testáveis. Bunge critica fortemente a noção freudiana de inconsciente e diz que esta não encontra lastro na Neurociência de sua época, o conceito de inconsciente para ele não serve nem como “entidade metafísica”.
Todo texto (ainda que de opinião) sobre Filosofia da Ciência obrigatoriamente deve fazer menção à Thomas Kuhn, por diversos motivos: sua visão sobre as revoluções científicas e o progresso da ciência pode ser considerada basilar para entendermos como a ciência funciona, porém, nem Kuhn escapou das críticas de Bunge. Em que pese, a crítica de Bunge à Kuhn é mais light se comparada à Popper, porque o autor argentino enfatiza a possibilidade de as revoluções científicas serem parciais e não aparentemente totais como em Kuhn. Veja, Bunge não nega a existência das revoluções científicas, mas propõe um olhar mais sóbrio para elas e enfatiza que mesmo as revoluções científicas não são capazes de destruir o conhecimento anterior (como fica a impressão em Kuhn).
O rigor de Bunge acerca da ciência pode ser contestado, porém, não se pode negar que o autor argentino apresentou, durante toda sua carreira, uma visão crítica do fazer ciência e a busca por uma unidade pode ser considerado uma virtude, visto que há de se ter critérios claros, coerentes e confiáveis para separar a ciência da pseudociência. Este tema é tão relevante atualmente quanto foi na época em que o filósofo escreveu, as aulas de ciências nas escolas poderiam começar com a pergunta: o que é ciência afinal? (como diria Chalmers). As escolas poderiam pensar em oficinas práticas de investigação científica para os alunos, pegar um tema como Democracia, Direitos Humanos ou Tolerância e incentivar os alunos a fazerem um debate apresentando argumentos verificáveis e referenciados (com referências públicas para que todos possam acessar e sem cópias), obviamente que exigiria algum grau de engajamento por parte dos estudantes e comunidade escolar, mas poderia despertar o interesse pela ciência nos jovens.
O questionamento é o que rege a ciência, porém, não qualquer tipo de questionamento: até para questionar você precisa de base, se não houver base, o questionamento pode se tornar raso e ad hoc, como o questionamento da eficácia das vacinas, por exemplo (não faz sentido nenhum, é baseado em achismos e pior, pode matar!). O estudo das bases da ciência, aliado ao estudo dos clássicos de uma determinada área pode ser produtivo para despertar questionamentos mais refinados e coerentes. Existem cientistas que são expoentes de uma ou mais áreas do conhecimento como por exemplo, Max Weber, que é expoente da sociologia, da filosofia e da política. O bom trabalho científico transita entre áreas e não fica limitado à uma “caixinha”. A interdisciplinariedade ou a conexão com outras áreas do conhecimento pode ser extremamente benéfica para a pesquisa científica, visto que, pode refinar os argumentos, incentivar a leitura de outras fontes de conhecimento e resolver problemas de maneira inovadora.


