Onde começa o SUS: a base produtiva que sustenta a saúde

O SUS começa antes do atendimento: a base produtiva que sustenta o direito à saúde

Da Plataforma Região e Redes+

Por Davi Carvalho

Indústria, serviços, dados e trabalho formam uma mesma agenda: reduzir dependências externas e orientar inovação, compras públicas e produção para as necessidades de saúde da população.

Antes que um medicamento chegue à farmácia, um exame produza o diagnóstico ou a atenção básica acesse o prontuário de um paciente, uma extensa rede já foi mobilizada. Ela reúne pesquisa, formação profissional, insumos, equipamentos, laboratórios, logística, sistemas digitais, financiamento e regulação. É nesse espaço que o Complexo Econômico-Industrial da Saúde, o CEIS, revela uma questão central para o Sistema Único de Saúde: não há acesso universal estável sem capacidades produtivas, tecnológicas e institucionais que sustentem o cuidado.

A pandemia tornou essa dependência visível, mas não a criou. Encerrada a emergência sanitária, permanece o problema estrutural: o Brasil tem um dos maiores sistemas universais do mundo e demanda capaz de orientar investimentos, porém ainda depende de conhecimento, componentes e plataformas controlados no exterior. O debate atual é sobre a base material que sustentará o SUS nas próximas décadas.

O direito à saúde precisa de uma base material

O CEIS abrange quatro conjuntos interdependentes: produção química e biotecnológica; equipamentos, dispositivos e materiais médicos; serviços de saúde e distribuição; e informação, conectividade, softwares e processamento de dados. Sua amplitude mostra que a dependência não se restringe a medicamentos. Ela alcança componentes eletrônicos, máquinas, plataformas digitais, formação e capacidade de organizar os serviços.

Essa definição altera o modo de interpretar o gasto em saúde. Associada a metas de produção, inovação, transferência tecnológica e acesso, a compra pública organiza demanda e reduz incertezas. Quando é fragmentada ou guiada apenas pelo menor preço imediato, tende a reforçar importações e a dificultar investimentos que exigem escala e previsibilidade.

Em Complexo Econômico-Industrial da Saúde: a base econômica e material do Sistema Único de Saúde, Carlos Augusto Grabois Gadelha resume essa relação: “Uma sociedade equânime […] é estruturalmente condicionada pela existência de uma base econômica e material que lhe dê sustentação.” A formulação vincula o direito constitucional à saúde às condições concretas de produzi-lo. Não significa que todos os itens devam ser fabricados no país, mas que áreas críticas não podem ficar inteiramente submetidas a decisões externas, rupturas logísticas ou estratégias empresariais sem compromisso com as prioridades do SUS.

A política federal retomada em 2023 procura ligar acesso e capacidade produtiva. A Estratégia Nacional para o Desenvolvimento do CEIS reúne programas de parcerias produtivas, inovação local, vacinas e hemoderivados, doenças negligenciadas, modernização da assistência e infraestrutura. O Plano Nacional de Saúde 2024–2027 contabilizou 138 Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo desde 2009: 71 vigentes e 67 extintas. A escala acumulada exige avaliação de continuidade, absorção tecnológica e resultado assistencial.

O Relatório de Gestão Integrado do Ministério da Saúde, referente a 2024, situou em R$ 3,6 bilhões a perspectiva de investimentos do Novo PAC no CEIS. A margem de preferência vinculada à Nova Indústria Brasil acrescenta outro instrumento: o Estado pode considerar benefícios produtivos e tecnológicos nas licitações, sem reduzir a decisão ao preço nominal da compra.

Política industrial voltou ao centro da geopolítica

O movimento brasileiro ocorre enquanto as maiores economias reorganizam cadeias estratégicas. Estados Unidos e União Europeia procuram diversificar fornecedores e relocalizar etapas produtivas; China e Índia adotam políticas para preservar competitividade e avançar em segmentos de maior valor agregado. Segurança sanitária, domínio tecnológico, sustentabilidade e alinhamento geopolítico orientam subsídios, financiamento, regulação e compras governamentais.

Esse cenário reduz o espaço para uma política baseada na expectativa de que o mercado internacional sempre forneça produtos críticos. Também exige cautela com a autossuficiência indiscriminada. As prioridades devem combinar risco de desabastecimento, relevância epidemiológica, capacidade científica, aprendizagem e sustentabilidade econômica. O objetivo é construir autonomia para negociar, produzir, adaptar e escalar tecnologias decisivas.

No artigo Políticas industriais para o Complexo Industrial da Saúde no mundo pós-Covid-19, Diego Nyko, Vitor Pimentel e Clarice Braga observam que “a experiência recente demonstra a importância da utilização coordenada desses mecanismos para atuar de forma sistêmica”. Nenhum instrumento isolado resolve a dependência: crédito sem demanda pode não induzir investimento; compra sem contrapartida apenas substitui fornecedores; e transferência tecnológica sem pesquisa mantém a subordinação.

O poder de compra do SUS oferece escala e direção, mas precisa estar conectado à avaliação de tecnologias, à vigilância sanitária, ao financiamento de longo prazo, à propriedade intelectual e às instituições de ciência e produção. A coordenação pública deve estabelecer missões, prazos e indicadores, além de interromper projetos que não entreguem domínio tecnológico ou benefício assistencial.

O financiamento do SUS faz parte dessa equação. A política industrial perde força quando o orçamento assistencial é instável ou quando estados e municípios não dispõem de recursos e capacidade técnica para planejar aquisições. A coordenação federativa é necessária para agregar demanda e reduzir desigualdades. A fragilidade da política social ou fiscal compromete o alcance da estratégia produtiva.

Inovação também se mede por empregos e territórios

A escala econômica do CEIS aparece com nitidez no mercado de trabalho. O estudo O Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS) como espaço estratégico para a modernização do SUS e para a geração dos empregos do futuro, de Carlos Gadelha, Denis Gimenez, Juliana Cajueiro e Juliana Moreira, registra: “Em 2019, 8,7 milhões de profissionais estão ocupados no CEIS, representando 9,2% da população ocupada no Brasil.” Trata-se de uma fotografia anterior à pandemia, mas útil para dimensionar uma estrutura que já combinava peso econômico, elevada participação feminina, diversidade ocupacional e demanda por qualificação.

Expansão quantitativa, contudo, não equivale a desenvolvimento social. Em 2019, as mulheres correspondiam a 66,3% dos vínculos formais do complexo e a 75,4% nos serviços, enquanto desigualdades de renda atingiam sobretudo trabalhadoras negras. A pesquisa estimou que 60% das ocupações haviam sido ou poderiam ser fortemente afetadas pelas tecnologias 4.0. O desafio inclui educação permanente, proteção do trabalho e distribuição dos ganhos de produtividade.

A concentração de empresas, pesquisa e empregos qualificados também limita a redução das desigualdades regionais. Em 2019, o Sudeste reunia 51,2% dos ocupados do complexo. Descentralizar exige sistemas regionais de inovação, universidades, formação técnica, fornecedores, serviços e capacidade de compra local. Instalar fábricas isoladas não cria esse ambiente.

Há ainda uma fronteira ambiental. Hospitais, laboratórios e cadeias industriais consomem energia, água e materiais e geram resíduos. Compras sustentáveis, eficiência energética, logística reversa e materiais menos poluentes podem aproximar saúde e transição ecológica. Sem esses critérios, a expansão produtiva deslocará custos para territórios já expostos à degradação.

A soberania do SUS será também digital

A digitalização tornou dados, conectividade e capacidade computacional componentes da infraestrutura sanitária. Prontuários eletrônicos, teleatendimento e inteligência artificial podem reduzir distâncias e melhorar o cuidado. Porém, também podem ampliar exclusões quando dependem de conectividade desigual, bases fragmentadas, algoritmos opacos ou plataformas que concentram dados e conhecimento.

Em Complexo Econômico-Industrial da Saúde, saúde digital na APS e o risco da vulnerabilidade 4.0, Carlos Gadelha, Patrícia Braga, Mírian Cohen, Ana Lúcia de Araújo e Karla Montenegro definem um critério para essa transição: “A inovação tecnológica deve seguir a necessidade social, e não o contrário.” Aplicado ao SUS, esse princípio exige que a escolha de ferramentas digitais parta de problemas assistenciais concretos, inclua avaliação de impacto e preserve a capacidade pública de governar dados, padrões de interoperabilidade e prioridades de pesquisa.

A alternativa não está entre adotar ou recusar tecnologias, mas entre trajetórias distintas. O país pode permanecer consumidor de sistemas fechados; modernizar partes da rede com benefícios desiguais; ou combinar conhecimento local, padrões abertos, proteção de dados, infraestrutura pública e acesso universal. A escolha alcança a contratação de softwares e a formação de profissionais capazes de compreender limites, vieses e usos clínicos das ferramentas.

O CEIS organiza políticas que normalmente aparecem dispersas. A demanda do SUS pode orientar pesquisa, produção, empregos, digitalização e transição ambiental. Esse encadeamento depende de governança contínua: metas de produção e transferência tecnológica precisam ser acompanhadas de preço, qualidade, prazo, absorção de conhecimento e efeito assistencial.

O período iniciado em 2023 recompôs instrumentos e ampliou investimentos, mas sua medida será a execução. O teste está na redução de dependências críticas, na entrega regular de produtos, na formação de competências, na desconcentração regional e na qualidade dos empregos. É nessa passagem do programa para o resultado que o CEIS poderá deixar de ser uma agenda reativada por uma crise passada e se consolidar como política de Estado para o futuro da saúde.

Referências bibliográfica:

  1. Carlos Augusto Grabois Gadelha. Complexo Econômico-Industrial da Saúde: a base econômica e material do Sistema Único de Saúde. Cadernos de Saúde Pública, 2022.
  2. Diego Nyko, Vitor Pimentel e Clarice Braga. Políticas industriais para o Complexo Industrial da Saúde no mundo pós-Covid-19. Revista do BNDES, 2024.
  3. Carlos Augusto Grabois Gadelha, Denis Maracci Gimenez, Juliana Pinto de Moura Cajueiro e Juliana Duffles Donato Moreira. O Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS) como espaço estratégico para a modernização do SUS e para a geração dos empregos do futuro. Ciência & Saúde Coletiva, 2023.
  4. Carlos Augusto Grabois Gadelha, Patrícia Seixas da Costa Braga, Mírian Miranda Cohen, Ana Lúcia Fernandes de Araújo e Karla Bernardo Mattoso Montenegro. Complexo Econômico-Industrial da Saúde, saúde digital na APS e o risco da vulnerabilidade 4.0. Saúde em Debate, 2025.

Desindustrialização expõe crise do Rio e saúde aparece como alternativa estratégica

Especialistas defendem novo pacto entre Estado, SUS e indústria para reconstruir a economia fluminense e a do próprio país

A crise de desindustrialização do Rio de Janeiro ganhou um novo enquadramento estratégico: a saúde como motor de desenvolvimento econômico, tecnológico e social. Esse foi o eixo central do debate promovido pelo Fórum de Reitores das Instituições Públicas do Estado (Friperj) e pela Finep, durante seminário realizado no último dia 7.

Reunindo nomes-chave da formulação de políticas públicas — como o ex-ministro José Gomes Temporão, o pesquisador Carlos Gadelha e o superintendente do BNDES João Pieroni —, o encontro apontou caminhos concretos para reposicionar o estado no cenário produtivo nacional, a partir do fortalecimento do chamado Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS).

Desindustrialização e oportunidade estratégica

Há um diagnóstico comum entre academia, governo e instituições de fomento: o Rio enfrenta um processo prolongado de desindustrialização. Mas, longe de um cenário de esvaziamento irreversível, especialistas veem na saúde uma oportunidade concreta de reverter esse quadro.

Carlos Gadelha, coordenador da Rede CEIS e líder do Grupo de Pesquisa Desenvolvimento Sustentável, CT&I e CEIS – GPCEIS/CEE-ENSP/Fiocruz, e conselheiro do Projeto Brasil, destacou que o CEIS reúne condições únicas para liderar esse movimento. Ao integrar indústria, serviços, ciência e tecnologia, o setor pode agregar valor à produção, estimular inovação e gerar empregos qualificados — elementos centrais para qualquer estratégia de desenvolvimento sustentável.

Os dados reforçam esse potencial. A saúde já responde por cerca de 11% dos empregos no estado, além de concentrar uma base científica robusta: o Rio é o segundo estado brasileiro em número de mestres e doutores, com forte presença nas áreas de saúde e ciências biológicas, responsáveis por um quarto da produção científica nacional.

Estado, governança e política industrial

Se há consenso sobre o potencial, também há clareza sobre o desafio: transformar capacidade instalada em projeto de desenvolvimento exige coordenação política e institucional.

José Gomes Temporão defendeu a construção de uma governança própria para o setor, baseada em um pacto entre diferentes atores — governo estadual, municípios, universidades, indústria e instituições de fomento. A proposta passa por organizar o CEIS como política de Estado, com planejamento estratégico e metas de longo prazo.

Um dos instrumentos centrais dessa estratégia é o uso do poder de compra do Sistema Único de Saúde (SUS). Ao direcionar a demanda pública para fortalecer cadeias produtivas locais, o Estado pode induzir inovação, ampliar a produção nacional e reduzir a dependência externa — um ponto recorrente nos debates recentes sobre soberania.

Integração entre ciência, indústria e financiamento

Outro ponto enfatizado foi a necessidade de articulação efetiva entre universidades, centros de pesquisa e setor produtivo — uma lacuna histórica no modelo brasileiro de desenvolvimento.

Nesse sentido, o papel de instituições como o BNDES e a Finep aparece como decisivo para financiar a inovação e estruturar cadeias produtivas mais sofisticadas. A integração entre conhecimento científico e produção industrial é vista como condição para transformar potencial em capacidade econômica real.

Um projeto em disputa

O debate também evidenciou que o futuro do Rio — e, em alguma medida, do próprio país — passa pela definição de um projeto nacional que recoloque o Estado como indutor do desenvolvimento.

A proposta de novos fóruns e articulações sinaliza que esse processo está em construção. Mais do que diagnósticos, o desafio agora é transformar consenso em ação coordenada, capaz de enfrentar a desindustrialização e reposicionar a saúde não apenas como política social, mas como eixo estruturante da economia.

Acompanhe a íntegra do evento:

Como a Inteligência Artificial vem revolucionando a saúde pública no Brasil

IA e telessaúde levam atendimento médico a regiões remotas do Brasil, ampliando o acesso ao SUS e reduzindo desigualdades históricas na saúde pública

A Inteligência Artificial e a telessaúde estão modernizando o atendimento da saúde pública no Brasil. Convidadas especiais do Projeto Brasil, Ana Estela Haddad, Secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde, e Ana Helena Ulbrich, farmacêutica reconhecida entre as 100 personalidades mais influentes do mundo no campo da inteligência artificial, mostraram estratégias inovadoras que estão revolucionando a saúde brasileira.

A inteligência artificial (IA) e a telessaúde estão transformando o Sistema Único de Saúde (SUS) ao ampliar o acesso, aumentar a precisão dos diagnósticos e otimizar a gestão por meio de dados. De acordo com Ana Estela, a telessaúde já é uma realidade consolidada, com o registro de 5,7 milhões de teleatendimentos no SUS em 2025, cobrindo 53% dos municípios brasileiros.

Ela explica que o feito ultrapassa o que seria a digitalização da medicina, mas significa o acesso da saúde a populações em áreas remotas de um país de proporções continentais. “O Brasil já realizou milhões de teleatendimentos, cobrindo mais da metade dos municípios, com impacto significativo na região Norte, onde distâncias geográficas são um desafio.”

Como fica a IA na saúde em um país desigual territorialmente?

No Brasil de desigualdades regionais, em territórios onde a medicina presencial não consegue chegar, a telemedicina salva vidas. A Secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde narra ao Projeto Brasil experiências e como a digitalização da saúde está sendo fundamental para permitir o acesso ao direito básico.

Ela explica que há cidades do Amazonas em que populações ribeirinhas levam até 30 dias de barco para chegar a centros de saúde de Manaus. No Ceará, a implantação de teleatendimento em quase 40 especialidades alcançou uma taxa de resolutividade superior a 70%. 

Paralelamente a projetos de acessibilidade territorial, a digitalização da saúde pública também é usada para o avanço da tecnologia dos tratamentos. Como exemplo, Haddad explicou como um banco de dados de 10 milhões de laudos de eletrocardiograma vem sendo processado, pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), para trazer diagnósticos em cardiologia, por meio de algoritmos de IA.

Esses modelos permitem fazer predições estatísticas e diagnósticos individualizados, identificando a probabilidade de um paciente desenvolver determinadas doenças. O uso da Inteligência Artificial para fazer a predição na saúde também foi assunto exposto pela farmacêutica Ana Helena Ulbrich.

Fundadora da NoHarm.AI e do Instituto de Inteligência Artificial na Saúde, única brasileira incluída na lista TIME100 AI 2025, que reconhece as 100 personalidades mais influentes do mundo no campo da inteligência artificial, ela criou um software que combina tecnologia e recursos humanos para promover cuidados integrais garantindo a segurança do paciente, otimizando as decisões dos atendimentos do SUS. Ela enfatiza que a tecnologia não substitui o profissional: “a IA é um suporte à decisão, ela não substitui ninguém, ela está ajudando”.

Não basta tecnologia, é preciso condições mínimas

Ambas as participantes anotaram a importância de se garantir, de base, infraestruturas para que a IA chegue à população. Não basta tecnologia de ponta, não basta conseguir trazer a Inteligência Artificial para o Sistema Único de Saúde (SUS) e propor medidas para a implementação real desta tecnologia e conhecimento na saúde pública brasileira, se o país não tem a infraestrutura básica, simples e necessária para receber todo este know how.

É essa visão integrativa que fez com que a farmacêutica Ana Helena Ulbrich entendesse que a garantia à saúde de ponta precisa ir além. Ela narrou um projeto da NoHarm.AI de levar tecnologia de ponta para o SUS associada à infraestrutura.

“Porque não tem como trazer a tecnologia em um lugar que não tem luz, por exemplo. Lá em Afuá, que é uma cidade do Pará, bem do norte do Brasil, a gente identificou a necessidade de levar placas solares para que as quatro unidades básicas de saúde que não tinham luz. Eles não tinham acesso à vacina na unidade porque não tinha como refrigerar as vacinas. Então a gente percebeu a necessidade de levar a infraestrutura, a internet satélite e tudo mais, para que a gente pudesse levar a tecnologia”, relatou.

Ana Estela também relatou que estão sendo distribuídos 7.000 kits de telessaúde (computador, monitor e câmera) para unidades básicas de saúde, além de investimentos pesados em conectividade, inclusive para populações indígenas em territórios isolados.

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Dados de saúde viram disputa global e especialistas alertam: SUS precisa de soberania digital

Fiocruz lança obras que reforçam o papel da ciência na transformação do SUS

O futuro da saúde pública em pauta: dois novos livros produzidos por pesquisadores da Fiocruz reacendem o debate sobre ciência, SUS e soberania. Uma das obras, de Patrícia Seixas da Costa Braga, que integra o Grupo de Pesquisa “Desenvolvimento Sustentável, CT&I e Complexo Econômico-Industrial da Saúde”, terá 3 lançamentos — o primeiro deles ocorreu neste 1º de dezembro, durante o 14º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva (Abrascão), o maior evento de Saúde Coletiva no Brasil, em Brasília.

Os livros — “Políticas de Ciência, Tecnologia e Inovação e os Desafios de Conexão com o SUS”, de Patrícia Braga, e “Resiliência na Saúde Pública”, de Alessandro Jatobá e Paulo Victor Rodrigues de Carvalho — apresentam reflexões críticas sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), a política nacional de ciência e tecnologia (PNCT&I) e os desafios de um país que precisa fortalecer sua soberania científica e produtiva.

Ciência conectada ao SUS: uma urgência nacional

Fruto de pesquisa desenvolvida no Grupo de Pesquisa “Desenvolvimento Sustentável, CT&I e Complexo Econômico-Industrial da Saúde” (GPCEIS/CEE-ENSP/Fiocruz), o livro de Patrícia Braga sustenta que a produção científica financiada com recursos públicos precisa gerar valor social — especialmente em um sistema universal como o SUS.

A autora analisou percepções de 26 coordenadores de Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT/CNPq) da área da saúde. O estudo revela limites do atual modelo de avaliação científica, ainda guiado por métricas acadêmicas que pouco dialogam com impactos concretos na saúde pública.

“O atual sistema de avaliação científica, centrado em critérios acadêmicos e desprovido de ferramentas analíticas capazes de mensurar impactos sociais da pesquisa, não direciona os investimentos para as prioridades do SUS”, afirma Patrícia.

Para ela, aproximar conhecimento científico das demandas reais do sistema público “não é apenas desejável, mas essencial para um sistema mais equitativo, acessível, universal e sustentável”.

Resiliência em saúde: sistemas que aprendem e se adaptam

Já a obra de Alessandro Jatobá e Paulo Victor Rodrigues de Carvalho, pesquisadores do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE/Fiocruz), discute o papel da resiliência em sistemas de saúde — tema que ganhou força após crises sanitárias recentes, como a pandemia de Covid-19.

Os autores defendem a necessidade de estruturas estatais robustas, capazes de responder a emergências e ao mesmo tempo sustentar políticas de qualidade e equidade no longo prazo. O livro integra o projeto de pesquisa “Tecnologia, Informação e Resiliência em Saúde Pública”.

“Compromisso com a transformação social”

Para Carlos Gadelha, coordenador do GPCEIS/ENSP/Fiocruz e conselheiro do Projeto Brasil, as duas obras expõem uma visão integrada de saúde, ciência, tecnologia e desenvolvimento nacional — e contribuem para recolocar a soberania sanitária no centro do debate público.

“As obras buscam orientar o desenvolvimento da ciência, tecnologia, inovação e produção nacional diante dos desafios da sustentabilidade, saúde, bem-estar e soberania nacional”, afirma Gadelha.

Três lançamentos para ampliar o debate

Além da estreia no Abrascão, o livro de Patrícia Braga terá dois outros eventos de lançamento — um webinário nacional e uma noite de autógrafos no Rio de Janeiro, confira:

Webinário “Desafios da CT&I para o SUS”

  • Data: 16/12/2025, às 14h

  • Participações:

    • Olival Freire Júnior (CNPq)

    • Denise Pires de Carvalho (Capes)

    • Patrícia Braga (autora)

    • Lígia Bahia (IESC/UFRJ)

  • Abertura: Alessandro Jatobá

  • Mediação: Carlos Gadelha

Noite de autógrafos – Retrato Espaço Cultural

  • Data: 17/12/2025, às 17h30

  • Local: Rua Benjamin Constant, 115, laje – Glória, Rio de Janeiro

Leia mais:

https://projetobrasil.jornalggn.com.br/artigos/a-saude-como-pilar-do-desenvolvimento-sustentavel-por-carlos-gadelha/

Os caminhos para garantir saúde pública no Brasil em transformação

O futuro da saúde brasileira não pode ser tratado como um tema de curto prazo. Essa é a premissa da iniciativa “Saúde Amanhã”, coordenada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que ganhou destaque em edição especial do Projeto Brasil, transmitida pela TV GGN. [Assista ao vídeo ao final do texto]

No programa, os jornalistas Luis Nassif e Sérgio Leo receberam o pesquisador e sanitarista José Carvalho de Noronha, coordenador adjunto do projeto e membro do Conselho Consultivo do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes). Ele apresentou tendências e riscos para o Sistema Único de Saúde (SUS) no horizonte de 2050.

O debate destacou o SUS como a maior conquista do federalismo brasileiro e um modelo que já inspira outras áreas, como a segurança pública. Sua continuidade, no entanto, depende de políticas estruturais capazes de responder a transformações econômicas, tecnológicas, ambientais e demográficas.

De 2010 a 2050: a trajetória de um projeto de Estado

Noronha destacou o projeto “Saúde no Brasil em 2050”, braço do “Saúde Amanhã”, que surgiu em 2010, no segundo governo Lula (PT), como parte de um esforço nacional de planejamento conduzido pelo então ministro José Gomes Temporão.

Em 2013, a ação passou a se chamar “Saúde 2030”, adotando a ideia de horizonte móvel de 20 anos. Após o impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT), em 2016, o projeto foi vinculado à “Estratégia Fiocruz Agenda 2030”, lançada por Paulo Gadelha.

Com o retorno de Lula ao poder e a criação da “Estratégia Brasil 2050”, pelo Ministério do Planejamento, a iniciativa ganhou novo fôlego e maior institucionalidade, conectando saúde, desenvolvimento e sustentabilidade no planejamento de longo prazo.

Quatro vetores que moldarão a saúde em 2050

A longo prazo, o estudo da Fiocruz para a “Saúde no Brasil em 2050” aponta quatro grandes macrodesafios para o sistema de saúde nas próximas décadas:

Crise climática e meio ambiente

As mudanças ambientais afetam tanto a saúde da população quanto a rede de atendimento. Epidemias tendem a se intensificar, enquanto desastres naturais exigirão serviços resilientes e prontos para respostas emergenciais.

Economia e geopolítica

O financiamento limitado do SUS e a dependência externa em insumos e tecnologias médicas seguem como entraves. Apesar dos avanços de instituições como Fiocruz e Butantã, o país ainda depende fortemente de fornecedores internacionais.

Demografia e doenças crônicas

O envelhecimento populacional redefine demandas: cuidados contínuos substituem a ideia de cura. Doenças como diabetes e cardiovasculares exigem reorganização do sistema e avanços em cuidados paliativos.

Transformação digital e tecnológica

Da inteligência artificial a cirurgias robóticas, a saúde vive uma revolução. O desafio é evitar que essas inovações fiquem restritas ao setor privado, garantindo acesso pelo SUS de forma inclusiva e regulada.

Noronha lembrou ainda que toda a iniciativa segue o Artigo 196 da Constituição Federal, que define a saúde como direito de todos e dever do Estado, a ser garantido por políticas sociais e econômicas que reduzam riscos e assegurem acesso universal e igualitário.

O futuro em disputa

Para Noronha, a saúde em 2050 será reflexo das escolhas feitas hoje. O SUS já mostrou capacidade de inovação, mas enfrenta ameaças que exigem visão estratégica.

Sem planejamento consistente, alerta o pesquisador, o sistema corre o risco de perder relevância, pressionado por restrições fiscais, dependência tecnológica e impactos ambientais.

Agora, o Brasil terá de decidir se investirá em um sistema público universal e resiliente ou se permitirá a erosão de um de seus maiores patrimônios sociais.

Assista à íntegra da entrevista ao Projeto Brasil: