Funcionários da Saúde nos EUA querem banir sistemas da gigante de IA Palantir

ODTI

A União dos Enfermeiros e Enfermeiras dos Estados Unidos e membros de comunidades em todo o país pedem que a Palantir e sua perigosa tecnologia sejam banidos dos sistemas de saúde. O sindicato critica a falta de transparência da tecnologia da Palantir e os riscos de sua notória ligação com a repressão do ICE contra os imigrantes. 

O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais,  traduziu o texto original de Healthcare IT News, “a fonte de referência do setor, cobrindo as pessoas, as políticas e as tecnologias que impulsionam a próxima geração da saúde nos EUA e em todo o mundo”.

Enfermeiros em todo o país protestam contra a tecnologia da Palantir em hospitais

Profissionais de saúde e membros da comunidade em cidades de todo o país estão pedindo que hospitais e sistemas de saúde “rompam imediatamente os laços” com a gigante da IA.  

Por Nathan Eddy, publicado em 27 de agosto de 2026 

A National Nurses United (NNU), o maior sindicato de enfermeiros e enfermeiras dos EUA, está intensificando suas preocupações com o uso da tecnologia da Palantir em hospitais e sistemas de saúde.  

Entre outras queixas, seus membros argumentam que os sistemas automatizados de alocação de pessoal e as práticas opacas de dados da empresa exigem uma supervisão clínica mais rigorosa e maior transparência.  

A NNU anunciou que enfermeiros, pacientes e aliados da comunidade estão se manifestando em 27 de agosto em oito cidades dos EUA, da Área da Baía à Nova Inglaterra, exigindo que os sistemas de saúde e autoridades públicas rompam os laços com a empresa de software e vigilância.  

O sindicato, que representa mais de 225.000 enfermeiros e enfermeiras, organizou eventos em Palo Alto, Califórnia, e Los Angeles; Chicago; Washington, DC; Portland, Maine; Asheville, Carolina do Norte; Austin, Texas; e Nova Orleans.  

Sindicato questiona dimensionamento automatizado de pessoal e uso de dados.  

As preocupações do sindicato de enfermagem (NNU) com relação à saúde se concentram, em parte, no uso do Timpani pela HCA Healthcare, uma plataforma automatizada de agendamento e dimensionamento de pessoal desenvolvida com a tecnologia da Palantir.  

O NNU argumenta que a centralização dessas decisões pode excluir gerentes locais e substituir o julgamento clínico necessário para determinar o dimensionamento adequado de pessoal em cada unidade por um software.  

A HCA rebateu argumentando que o Timpani utiliza as preferências, competências, regras de agendamento e outras informações dos funcionários para gerar possíveis escalas, que os líderes de enfermagem não podem revisar e editar, e afirma que os funcionários da linha de frente ajudaram a projetar a plataforma e continuam a contribuir para o seu desenvolvimento.  

“Em toda a HCA Healthcare, a tecnologia de agendamento é usada para reduzir o trabalho administrativo e ajudar os líderes de enfermagem a atender às preferências de escala dos enfermeiros”, disse um porta-voz da Mission Health, pertencente à HCA, à 828 News Now de Asheville, Carolina do Norte. “A ferramenta é um recurso usado pelos líderes de enfermagem e não toma decisões de escala nem usa dados de pacientes.”  

A NNU também observa que a MaineHealth usa a tecnologia da Palantir para análises, mas não divulgou informações suficientes sobre o escopo do relacionamento ou as salvaguardas que regem os dados de pacientes e funcionários – no mês passado, o próprio sindicato dos enfermeiros da MaineHealth pediu que o sistema de saúde cancelasse seu contrato com a Palantir.  

“Até o momento, essa ferramenta ajudou a reverter negativas de cobertura indevidas para milhares de pacientes da MaineHealth que receberam cuidados médicos necessários”, observaram os líderes da MaineHealth em um comunicado em julho. “O papel da ferramenta se limita a essa única função”, disseram os representantes. “A tecnologia da Palantir não está envolvida em decisões clínicas, nem a Palantir possui ou controla os dados da MaineHealth.” 

Disputa sobre o Medicaid levanta questões de privacidade.  

As manifestações também conectam a campanha hospitalar com o trabalho da Palantir para o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE). Documentos judiciais tornados públicos em julho mostraram que o ICE compartilhou um conjunto de dados do Medicaid que não estava autorizado a reter com funcionários da Palantir.  

Autoridades federais afirmaram que o arquivo não foi usado para fins de segurança pública, embora os registros judiciais mostrem que cópias permaneceram mesmo após o ICE ter sido instruído a excluí-lo.  

A Palantir opera o ELITE, um aplicativo que fornece aos agentes do ICE endereços de estrangeiros que podem estar sujeitos à deportação. A NNU citou o sistema como prova de que o trabalho da Palantir fora da área da saúde não pode ser dissociado de questões sobre confiança e governança de dados dentro dos hospitais.  

“Nenhuma parte do país ficou imune ao terror e à violência do ICE e da CBP [Alfândega e Proteção de Fronteiras], facilitados pela tecnologia da Palantir”, disse a presidente da NNU, enfermeira Jamie Brown, em um comunicado antes dos protestos dos enfermeiros.  

“Temos que resistir a um futuro em que bilionários da tecnologia controlem nossa política e nossos recursos públicos”, acrescentou.  

Nathan Eddy é um freelancer especializado em saúde e tecnologia. Sediado em Berlim. Contate o autor por e-mail: [email protected].  

Healthcare IT News é uma publicação da HIMSS Media. 

Este texto foi traduzido para o português com pequenas modificações  e, portanto, sem a revisão dos autores. As opiniões expressas são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente as visões do ODTI. O texto original contêm os links para as referências.  

Nota do revisor: O Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), vinculado ao Ministério da Educação, informopu em 24.07.2026 “que iniciou, junto ao Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), os procedimentos para descontinuar a utilização da plataforma Foundry, da empresa Palantir”.  

O arranjo envolvendo o Serpro, a AWS e a tecnologia da Palantir em dezembro de 2023 gerou questionamentos no Congresso e na sociedade civil quanto à soberania de dados educacionais, somando montantes expressivos em contratos de infraestrutura tecnológica.

De acordo com dois estudos apresentados durante o 2º Encontro Nacional pela Soberania Digital, realizado em Brasília nos dias 18 e 19 de maio deste ano, o Brasil tem baixo nível de soberania digital, pois é dependente tecnologicamente das corporações transnacionais de tecnologia dos Estados Unidos, em primeiro lugar, e da China e da Europa.]

Maiores infomações sobre essa questão podem ser encontradas no texto de Lia Ribeiro Dias , jornalista e pesquisadora do Laboratório de Tecnologias Livres – Lablivre da UFABC.

Perspectivas para um novo padrão de desenvolvimento do Brasil até 2030

Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS): perspectivas para um novo padrão de desenvolvimento do Brasil até 2030¹

Carta produzida e assinada pelo GPCEIS – Grupo de Pesquisa “Complexo Econômico-Industrial da Saúde, Desenvolvimento Sustentável e CT&I” (GPCEIS/CEE-ENSP/Fiocruz), coordenado por Carlos Gadelha*

CARTAS DE JOÃO PESSOA 

I. TRANSFORMAÇÕES EM CURSO E CENÁRIOS PARA O BRASIL ATÉ 2030 

O mundo atravessa um período de transformação estrutural. A emergência climática, a revolução digital, as mudanças demográficas, a intensificação das disputas geopolíticas e a reorganização das cadeias globais de produção estão alterando profundamente as bases econômicas, tecnológicas e sociais do desenvolvimento. 

A pandemia de Covid-19 tornou particularmente visível uma dimensão central dessas transformações. Em uma economia global altamente integrada, o acesso a vacinas, medicamentos, equipamentos, diagnósticos, insumos e tecnologias essenciais permaneceu fortemente condicionado pela concentração das capacidades produtivas, científicas e tecnológicas em poucos países e empresas. A dependência produtiva e tecnológica revelou-se, de forma dramática, como dependência sanitária e limitação concreta ao direito à vida. 

Essa experiência se articula a mudanças ainda mais profundas. A inteligência artificial, a biotecnologia, a genômica, a ciência de dados, os novos materiais e as tecnologias digitais abrem possibilidades inéditas para a produção e o cuidado, ao mesmo tempo que podem aprofundar a concentração do conhecimento, da riqueza e do poder. A transformação tecnológica não possui direção social previamente determinada: seus resultados dependem das instituições, das políticas públicas e das estratégias de desenvolvimento que orientam sua incorporação. 

A questão ambiental acrescenta outra dimensão incontornável. Mudança climática, perda de biodiversidade, transformação dos ecossistemas e emergência de novos riscos sanitários evidenciam a interdependência entre saúde humana, desenvolvimento e sustentabilidade planetária. Saúde e ambiente deixam de constituir agendas setoriais para se tornarem dimensões estruturantes das estratégias de desenvolvimento. 

Nesse contexto, as estratégias nacionais de desenvolvimento e as políticas industriais e de inovação voltaram ao centro da agenda internacional. A busca por autonomia tecnológica, segurança sanitária, energética e alimentar, domínio de tecnologias críticas e maior resiliência das cadeias produtivas recoloca em questão a ideia de que os mercados, isoladamente, seriam capazes de orientar as transformações necessárias. 

O Estado reassume papel decisivo na definição de prioridades, na mobilização de investimentos, na redução de riscos, na indução tecnológica e na articulação entre objetivos econômicos, sociais e ambientais. 

O desafio brasileiro 

Para o Brasil, essas transformações representam simultaneamente riscos e oportunidades. O País chega a esse momento preservando capacidades econômicas, científicas, tecnológicas e institucionais relevantes, mas acumulando fragilidades estruturais associadas à perda de densidade industrial, à dependência tecnológica, à vulnerabilidade externa e às persistentes desigualdades sociais e territoriais. 

A trajetória brasileira de industrialização constituiu uma estrutura produtiva diversificada e capacidades institucionais significativas, mas esse processo foi marcado pela permanência de barreiras estruturais de um padrão de desenvolvimento desigual e dependente. A perda de dinamismo industrial ocorrida nas últimas décadas limitou a capacidade de geração de produtividade, de empregos qualificados e de incorporação soberana das novas tecnologias, reforçando as características estruturais do subdesenvolvimento. 

A desindustrialização brasileira adquire caráter particularmente preocupante porque consolida uma estrutura produtiva incapaz de liderar ganhos sustentados de produtividade difundir o progresso técnico para a sociedade e permitir uma inserção internacional menos dependente.  

A questão que se coloca até 2030 não é, portanto, apenas a retomada do crescimento. Trata-se de definir qual estrutura econômica e produtiva será capaz de sustentar um desenvolvimento socialmente inclusivo, tecnologicamente dinâmico, ambientalmente sustentável e menos vulnerável às assimetrias da economia mundial. 

Essa perspectiva exige superar dicotomias que historicamente limitaram o debate sobre o desenvolvimento brasileiro: economia versus política social; Estado versus mercado; crescimento versus sustentabilidade; inovação versus emprego; eficiência versus equidade. 

Crescer, investir, produzir, gerar empregos e inovar permanecem objetivos indispensáveis. Mas uma estratégia contemporânea de desenvolvimento precisa responder permanentemente: para quê, para quem e onde? É nesse ponto que a saúde assume posição estratégica. 

Saúde como vetor de transformação 

O Brasil construiu, a partir da Constituição de 1988, uma das experiências mais relevantes de política universal do mundo. O Sistema Único de Saúde articula direito de cidadania, presença territorial do Estado, capacidade profissional, produção de conhecimento e uma demanda pública de grande escala. 

Essa demanda não se limita à prestação de serviços. O funcionamento do SUS mobiliza medicamentos, vacinas, equipamentos, dispositivos médicos, diagnósticos, tecnologias digitais, serviços especializados e um vasto conjunto de atividades científicas e produtivas. 

O Complexo Econômico-Industrial da Saúde expressa a articulação entre a dimensão social, ambiental e econômica. Reúne produção, ciência, tecnologia e serviços cuja dinâmica sistêmica determina simultaneamente a capacidade de atendimento das necessidades sanitárias e a inserção brasileira nas áreas mais intensivas em conhecimento da economia contemporânea. 

A saúde representa aproximadamente 10% do PIB brasileiro, mobiliza cerca de 17 milhões de empregos diretos e indiretos e responde por parcela expressiva do esforço nacional de pesquisa e inovação. Ao mesmo tempo, permanece elevada a dependência externa em produtos, insumos e tecnologias estratégicas. Essa contradição constitui precisamente uma oportunidade para o desenvolvimento. 

O tamanho e a capilaridade do SUS, a base científica nacional, as universidades, a Fiocruz, o Butantan as demais Instituições Científicas, Tecnológicas e de Inovação, os produtores públicos, as empresas nacionais e a biodiversidade brasileira oferecem condições para que a saúde se transforme em um dos principais vetores de uma nova estratégia de desenvolvimento. 

O desafio é fazer com que essas capacidades deixem de operar de forma fragmentada e passem a integrar uma política sistêmica capaz de articular demandas da sociedade, produção, inovação, financiamento, regulação, sustentabilidade e acesso universal, marcando um outro padrão de desenvolvimento equânime, inclusivo e sustentável. 

Três cenários para o CEIS e para o Brasil até 2030 

O horizonte de 2030 não está predeterminado. As transformações em curso podem conduzir o Brasil a trajetórias muito distintas, a depender das escolhas políticas realizadas, das capacidades institucionais mobilizadas e do grau de articulação entre as políticas econômica, social, industrial, de ciência, tecnologia e inovação e ambiental. 

Os cenários apresentados nesta Carta não constituem previsões. Representam trajetórias possíveis e funcionam como instrumento para explicitar as consequências de diferentes padrões de desenvolvimento. 

Três dimensões são particularmente relevantes: bem-estar, envolvendo o fortalecimento das políticas sociais e do SUS, em particular; a geração e distribuição da renda e a qualidade das ocupações; sustentabilidade ambiental, associada à sociobiodiversidade, à preservação dos biomas e às emissões de gases de efeito estufa; e soberania, compreendida como capacidade produtiva e inovativa nacional, compromisso da ciência e tecnologia com os desafios do País e capacidade do Estado de orientar as transformações contemporâneas. 

A combinação dessas dimensões permite identificar três trajetórias possíveis. 

Cenário 1 — Regressão estrutural: estagnação dependente, excludente e predatória 

Este cenário combina estagnação econômica com regressão estrutural: renda, emprego e investimento permanecem sem crescimento sustentado. Restrições fiscais de curto prazo prevalecem sobre objetivos estruturais, o Estado perde capacidade de coordenação, as políticas do CEIS são enfraquecidas e o SUS enfrenta subfinanciamento ainda mais intenso. 

Na dimensão do bem-estar, a estagnação se traduz em redução da renda per capita e maior concentração no topo. O desemprego aumenta e se amplia a heterogeneidade entre ocupações qualificadas e protegidas e formas precárias de trabalho. O enfraquecimento do sistema universal de saúde aprofunda desigualdades no acesso e reduz a capacidade de resposta às necessidades sanitárias da população. 

Na dimensão da sustentabilidade ambiental, o baixo dinamismo econômico não produz uma economia ambientalmente sustentável. Ao contrário, preserva ou amplia formas predatórias de apropriação dos recursos naturais. Aumentam as emissões de gases de efeito estufa e o desmatamento, enquanto diminui a capacidade de utilização tecnológica e sustentável da biodiversidade brasileira pelo CEIS. 

Na dimensão da soberania, reduzem-se o esforço em PD&I e a produção nacional, enquanto cresce a dependência de importações estratégicas. Amplia-se o déficit comercial do CEIS, cai a inserção internacional em inovação, e retrocedem a Estratégia Nacional para o CEIS e os instrumentos de política produtiva, tecnológica e de inovação. 

O resultado é um círculo de reforço entre estagnação econômica, enfraquecimento das políticas sociais, dependência tecnológica e deterioração ambiental. A saúde permanece como grande mercado consumidor, mas progressivamente dissociado das capacidades nacionais de produção, inovação e desenvolvimento. 

Cenário 2 — Crescimento dependente com estagnação estrutural: crescimento com baixo dinamismo e um padrão compensatório da política social e ambiental 

Este cenário corresponde a um crescimento baixo e volátil, capaz de gerar melhorias parciais nas condições de vida, mas insuficiente para transformar a estrutura da economia brasileira. O Estado preserva políticas sociais, industriais, tecnológicas e ambientais, evitando a regressão do Cenário 1, mas atua de forma fragmentada, condicionada pelas limitações do padrão de crescimento e por uma dinâmica dependente da demanda externa por produtos de baixa intensidade tecnológica. 

Na dimensão do bem-estar, a renda per capita e o emprego podem subir – dependendo de fatores exógenos –, mas os ganhos se distribuem desigualmente: persiste alta concentração de renda e forte heterogeneidade entre empregos qualificados e formas precárias de trabalho. O SUS mantém centralidade institucional, mas segue subfinanciado. A política social atenua a desigualdade sem alterar seus mecanismos estruturais de reprodução. 

Na dimensão da sustentabilidade ambiental, ocorre maior capacidade de controle sobre vetores específicos de degradação, inclusive com redução do desmatamento em relação ao cenário anterior. Entretanto, persistem emissões elevadas de GEE e baixo aproveitamento tecnológico e sustentável da biodiversidade pelo CEIS. A agenda ambiental preserva relevância institucional, mas continua insuficientemente articulada à estratégia produtiva e tecnológica. 

Na dimensão da soberania, as capacidades existentes são preservadas, mas sem mudança estrutural: o esforço em P&D não avança substancialmente e a produção nacional continua insuficiente para reduzir a dependência tecnológica. O déficit comercial do CEIS permanece elevado ou cresce, e a participação brasileira em patentes internacionais de saúde continua baixa, refletindo a dificuldade de converter ciência em inovação de escala. As instituições e políticas do CEIS são preservadas e podem gerar avanços em segmentos específicos, mas sem amplitude suficiente para romper os elos críticos da dependência. O risco à soberania social e do direito à vida permanece como uma ameaça permanente à garantia do acesso universal. 

Configura-se, assim, uma trajetória de crescimento dependente, na qual as políticas sociais e ambientais cumprem importante papel compensatório, mas permanecem incapazes de transformar estruturalmente o padrão de desenvolvimento marcado pela desigualdade e dependência. 

Cenário 3 — Mudança estrutural: crescimento soberano, inclusivo e sustentável 

Este cenário corresponde a uma trajetória de desenvolvimento sustentado associada à mudança estrutural da economia brasileira, no qual crescimento econômico, transformação produtiva, bem-estar, sustentabilidade ambiental e soberania deixam de ser objetivos paralelos e passam a integrar uma estratégia nacional comum. O Estado amplia sua capacidade de planejamento e investimento de longo prazo, e o setor privado ganha horizonte mais estável para investir e inovar. O CEIS assume posição central por conectar o acesso universal à saúde à transformação produtiva e tecnológica, digital e ecológica do País. 

Na dimensão do bem-estar, o fortalecimento do SUS deixa de ser visto apenas como gasto social e um espaço de consumo e passa a integrar a estratégia de desenvolvimento. A superação do subfinanciamento amplia o acesso à saúde; a renda per capita cresce com menor concentração; e a geração de empregos industriais, científicos e assistenciais aproxima o País do pleno emprego, reduzindo a heterogeneidade do mercado de trabalho. A política social deixa de apenas compensar e passa a transformar o padrão econômico. 

Na dimensão da sustentabilidade ambiental, a transformação ecológica se incorpora ao modelo de desenvolvimento: avançam os compromissos climáticos, incluindo desmatamento zero até 2030. A sociobiodiversidade torna-se patrimônio ambiental e ativo estratégico de inovação, com o CEIS ampliando seu uso tecnológico de forma articulada à preservação dos biomas. A produção e a inovação em saúde assumem protagonismo em uma agenda de transformação ecológica. 

Na dimensão da soberania, cresce de forma persistente o esforço em PD&I, articulado às necessidades do SUS. A produção nacional se expande, com meta estratégica de cerca de 70% da demanda do CEIS suprida internamente, reduzindo vulnerabilidades e déficit comercial. Amplia-se também a presença brasileira na geração de inovações e conhecimento em saúde, com trajetória de internacionalização acompanhada por metas avaliadas periodicamente. A Estratégia Nacional para o CEIS se consolida como política de Estado. 

Esse cenário pressupõe soberania, que significa dispor de capacidades produtivas, científicas e tecnológicas suficientes para realizar escolhas, reduzir vulnerabilidades críticas e participar das redes globais de conhecimento e produção em condições menos assimétricas. 

O SUS – e o CEIS, como sua base material – deixa de constituir predominantemente um espaço de absorção de tecnologias desenvolvidas no exterior e passa a atuar como vetor de inovação, produção, investimento, emprego, bem-estar e sustentabilidade. É essa trajetória de crescimento soberano, inclusivo e sustentável que orienta a agenda proposta nesta Carta. 

II. UMA AGENDA PARA A MUDANÇA ESTRUTURAL ATÉ 2030 

A realização do terceiro cenário depende de escolhas políticas, capacidades institucionais e articulação entre instrumentos orientados a uma mudança estrutural. Não se trata apenas de manter políticas existentes, mas de transformá-las profundamente para que produção, inovação, acesso, sustentabilidade e equidade façam parte de uma mesma estratégia de desenvolvimento.  

Propõem-se dez diretrizes. 

1. Instituir o CEIS como eixo estratégico do desenvolvimento nacional 

A política para o CEIS deve deixar de ser concebida como iniciativa setorial e passar a integrar a estratégia nacional de desenvolvimento. 

Diretriz: consolidar o CEIS como prioridade transversal das políticas industrial, tecnológica, social, ambiental e regional, estabelecendo objetivos nacionais, metas de longo prazo e mecanismos permanentes de governança e coordenação. 

2. Reduzir vulnerabilidades do SUS e ampliar a soberania sanitária e tecnológica 

A elevada dependência externa em produtos, insumos e tecnologias essenciais à saúde constitui vulnerabilidade econômica e sanitária para garantir o acesso universal, equânime e integral, que constituem os princípios do SUS. Soberania não significa uma visão autárquica ou isolada, mas sim desenvolver capacidades nacionais nos segmentos e tecnologias que determinam a autonomia estratégica do SUS e do País, permitindo, inclusive, uma cooperação global simétrica e sustentável, onde a solidariedade planetária possa emergir. 

Diretriz: identificar os elos críticos do sistema cadeias produtivo e tecnológico da saúde e estabelecer prioridades para produção local, domínio tecnológico e inovação, com horizonte de ampliar significativamente o coeficiente nacional de produção e reduzir o déficit estrutural do CEIS. 

3. Utilizar a demanda do SUS como instrumento de transformação produtiva e tecnológica 

A escala e a capilaridade do SUS constituem um ativo singular da economia brasileira. Sua demanda pode orientar investimentos de longo prazo e reduzir a incerteza inerente à inovação. 

Diretriz: integrar compras públicas, encomendas tecnológicas, financiamento, regulação e parcerias para o desenvolvimento produtivo e para a inovação local, associando a demanda pública a compromissos concretos de produção nacional, domínio tecnológico, inovação e ampliação do acesso. 

4. Assegurar a saúde como eixo da nova industrialização brasileira 

A reindustrialização nacional deve ser orientada pelos grandes desafios da sociedade e pelas tecnologias que definirão o futuro. A saúde como direito à qualidade de vida possui potencial para alavancar área estratégicas de um novo sistema produtivo brasileiro, estimulando a biotecnologia, fármacos, vacinas, equipamentos e dispositivos médicos, inteligência artificial, genômica, ciência de dados e outras áreas de elevada intensidade de conhecimento, vinculando e orientando a reindustrialização para os grandes desafios nacionais e globais. 

Diretriz: consolidar e fortalecer o CEIS como uma das prioridades da política industrial brasileira e ampliar as capacitações produtivas e tecnológicas nas áreas que combinam relevância sanitária, potencial de inovação e capacidade de geração de emprego e renda. 

5. Articular desenvolvimento produtivo e desenvolvimento territorial 

O SUS está presente em todo o território e constitui uma das redes institucionais de maior capilaridade do Estado brasileiro. Essa presença permite aproximar transformação econômica e tecnológica das necessidades concretas da população e utilizar a saúde como vetor de redução das desigualdades regionais. 

Diretriz: combinar a estratégia nacional do CEIS com políticas territoriais de desenvolvimento, estimulando capacidades produtivas, científicas, tecnológicas e de serviços segundo as potencialidades e necessidades de cada região. 

6. Integrar a transformação ecológica ao desenvolvimento do CEIS 

Não existe saúde em um ambiente degradado. Ao mesmo tempo, os sistemas produtivos e de serviços de saúde também precisam transformar seus padrões tecnológicos e ambientais. A relação entre saúde e ambiente requer que o CEIS assuma a liderança nacional na conformação de uma estratégia em que as transformações ecológica e social constituam novos vetores do desenvolvimento nacional. 

Diretriz: incorporar objetivos de descarbonização, economia circular, eficiência energética, redução de resíduos e uso tecnológico sustentável da biodiversidade à estratégia do CEIS, articulando preservação ambiental, inovação, produção e desenvolvimento territorial, para apresentar um novo caminho de desenvolvimento capaz de mobilizar o país para uma transformação estrutural sustentável. 

7. Reconhecer o financiamento do SUS como investimento econômico e social 

A oposição entre política social e desenvolvimento econômico constitui uma falsa dicotomia. Os recursos destinados ao SUS asseguram direitos e, simultaneamente, mobilizam emprego, renda, produção, inovação, arrecadação e conhecimento quando articulados às capacidades nacionais. 

Diretriz: garantir financiamento público estável e adequado ao sistema universal de saúde para atingir o patamar de 7% do PIB, ampliando seus efeitos estruturantes mediante a articulação com as políticas produtivas e de inovação, tecnológicas, educacionais e territoriais. 

8. Fazer da saúde uma grande fronteira de geração de empregos dignos 

As transformações tecnológicas não precisam resultar em precarização ou substituição indiscriminada do trabalho. Na saúde, novas tecnologias podem ampliar a capacidade dos profissionais, melhorar o cuidado e gerar novas ocupações qualificadas. As mudanças demográficas tornam, adicionalmente, a economia do cuidado uma das grandes fronteiras de emprego das próximas décadas. 

Diretriz: articular a expansão do CEIS às políticas de trabalho, educação e qualificação profissional, combinando incorporação tecnológica com geração de empregos dignos e redução das desigualdades de renda, gênero, raça e território. 

9. Orientar o Sistema Nacional de Inovação aos grandes desafios da saúde 

Soberania sanitária depende da capacidade de produzir conhecimento e convertê-lo em tecnologias, produtos e soluções acessíveis à população. A saúde ocupa posição singular no Sistema Nacional de Inovação brasileiro e oferece a possibilidade de aproximar a excelência científica e a inovação das necessidades concretas da sociedade.  

Diretriz: ampliar de forma persistente os investimentos em ciência, tecnologia e inovação; fortalecer universidades, ICTs e empresas nacionais; e organizar programas orientados por desafios nacionais e globais em áreas como vacinas, biotecnologia, diagnósticos, genômica, saúde digital, inteligência artificial, equipamentos e tecnologias para o cuidado. A agenda de inovação e de produção nacional deve ser pautada pelas demandas da sociedade e do SUS, invertendo os modelos tradicionais que desvinculam a inovação da soberania, da equidade e da transformação ecológica. 

10. Associar soberania nacional à cooperação internacional 

O fortalecimento das capacidades nacionais deve ampliar, e não restringir, a cooperação internacional. A pandemia demonstrou que a concentração global de capacidades científicas, tecnológicas e produtivas está diretamente associada às desigualdades no acesso à saúde. O Brasil pode contribuir para uma agenda internacional orientada à construção compartilhada de capacidades, especialmente na América Latina, no Caribe e na África. 

Diretriz: colocar o CEIS no centro da cooperação internacional brasileira em saúde, promovendo pesquisa conjunta, transferência e desenvolvimento tecnológico, produção local, formação de capacidades e ampliação do acesso universal. A solidariedade estrutural em saúde deve pautar uma nova agenda de saúde global. 

2030: UMA ESCOLHA SOBRE O FUTURO 

O horizonte brasileiro de 2030 não está predeterminado. As mesmas transformações globais que podem aprofundar a dependência e as desigualdades também abrem possibilidades para uma trajetória de desenvolvimento mais soberana, inclusiva e sustentável. A diferença entre esses caminhos estará nas escolhas realizadas no presente. 

O Brasil possui ativos singulares: um sistema universal de saúde de dimensão continental; uma base científica expressiva; instituições públicas de excelência; empresas com capacitações produtivas e tecnológicas; biodiversidade única; e uma demanda interna capaz de sustentar estratégias de produção e inovação em grande escala. 

O desafio consiste em articular essas capacidades em torno de uma direção comum. 

O Complexo Econômico-Industrial da Saúde oferece uma possibilidade concreta porque permite superar uma das divisões que historicamente empobreceram a discussão sobre o desenvolvimento brasileiro: a separação entre a dinâmica econômica e as necessidades da sociedade e do planeta terra. 

Na saúde, o desenvolvimento produtivo pode ampliar o acesso; a inovação pode fortalecer direitos; a política social pode induzir investimentos; a sustentabilidade pode abrir novas fronteiras tecnológicas; e a soberania pode estar diretamente associada à melhoria das condições de vida. 

A perspectiva apresentada nas Cartas de João Pessoa não é a da autossuficiência em um mundo interdependente. É a construção de autonomia para realizar escolhas, dominar conhecimentos estratégicos, reduzir vulnerabilidades e participar da economia global em condições menos assimétricas. 

Até 2030, o CEIS pode regredir em uma economia estagnada, dependente, excludente e ambientalmente predatória; pode avançar em uma economia de baixo crescimento sem superar sua dependência estrutural; ou pode se consolidar como um dos eixos de uma nova estratégia de desenvolvimento. 

A terceira trajetória exige continuidade, ampliação e reformulação das políticas públicas. Requer coordenação entre saúde, política industrial, ciência, tecnologia e inovação, sustentabilidade ambiental, financiamento, educação e desenvolvimento regional. Requer um Estado capaz de estabelecer direção e assumir compromissos de longo prazo, um sistema produtivo disposto a investir e inovar e instituições científicas orientadas aos grandes desafios nacionais. 

O objetivo não é apenas produzir mais. É transformar a estrutura produtiva e tecnológica para responder às necessidades da sociedade e da vida em nosso planeta. 

Essa é a oportunidade histórica colocada pela saúde. Crescer, investir, produzir e inovar, sempre perguntando para quê, para quem e onde. Para garantir o acesso e o direito à vida! Para uma sociedade justa! Para o Brasil e suas regiões e territórios! Para um novo modelo de desenvolvimento! Saúde é desenvolvimento! 

Referências: 

GADELHA, Carlos A. G.; GIMENEZ, Denis M.; CASSIOLATO, José E. (org.). Saúde é desenvolvimento: o Complexo Econômico-Industrial da Saúde como opção estratégica nacional. Rio de Janeiro: CEE-Fiocruz, 2022. 

GADELHA, Carlos A. G. Política industrial, desenvolvimento e os grandes desafios nacionais. In: LASTRES, H. M. M.; CASSIOLATO, J. E.; LAPLANE, G.; SARTI, F. (org.). O futuro do desenvolvimento. Campinas: Ed. Unicamp, 2016. p. 215-351. 

LIMA, Nísia Trindade; GADELHA, Carlos Grabois. The COVID-19 pandemic: global asymmetries and challenges for the future of health. China CDC Weekly, v. 3, n. 7, p. 140-141, 2021. Disponível em: https://doi.org/10.46234/ccdcw2021.039. Acesso em: 8 ago. 2026. 

* Lançadas durante o VII Congresso Internacional do Centro Celso Furtado (PB, 2026), que aconteceu na semana de 10 a 14 de agosto, as Cartas de João Pessoa são um conjunto de documentos com cenários e perspectivas da economia brasileira em eixos estratégicos: Macroeconomia, Economia Ecológica, Complexo Econômico-Industrial da Saúde e Economia de Dados.

Elas foram produzidas pelos pesquisadores que atuam no Cicef (Centro Internacional Celso Furtado) e colaboradores de instituições parceiras, a partir do desenho de possíveis horizontes até 2030. Seu principal objetivo é contribuir para o debate público, considerando o Estado como indutor do desenvolvimento nacional e a premissa da construção de um país soberano e independente.

Desindustrialização expõe crise do Rio e saúde aparece como alternativa estratégica

Especialistas defendem novo pacto entre Estado, SUS e indústria para reconstruir a economia fluminense e a do próprio país

A crise de desindustrialização do Rio de Janeiro ganhou um novo enquadramento estratégico: a saúde como motor de desenvolvimento econômico, tecnológico e social. Esse foi o eixo central do debate promovido pelo Fórum de Reitores das Instituições Públicas do Estado (Friperj) e pela Finep, durante seminário realizado no último dia 7.

Reunindo nomes-chave da formulação de políticas públicas — como o ex-ministro José Gomes Temporão, o pesquisador Carlos Gadelha e o superintendente do BNDES João Pieroni —, o encontro apontou caminhos concretos para reposicionar o estado no cenário produtivo nacional, a partir do fortalecimento do chamado Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS).

Desindustrialização e oportunidade estratégica

Há um diagnóstico comum entre academia, governo e instituições de fomento: o Rio enfrenta um processo prolongado de desindustrialização. Mas, longe de um cenário de esvaziamento irreversível, especialistas veem na saúde uma oportunidade concreta de reverter esse quadro.

Carlos Gadelha, coordenador da Rede CEIS e líder do Grupo de Pesquisa Desenvolvimento Sustentável, CT&I e CEIS – GPCEIS/CEE-ENSP/Fiocruz, e conselheiro do Projeto Brasil, destacou que o CEIS reúne condições únicas para liderar esse movimento. Ao integrar indústria, serviços, ciência e tecnologia, o setor pode agregar valor à produção, estimular inovação e gerar empregos qualificados — elementos centrais para qualquer estratégia de desenvolvimento sustentável.

Os dados reforçam esse potencial. A saúde já responde por cerca de 11% dos empregos no estado, além de concentrar uma base científica robusta: o Rio é o segundo estado brasileiro em número de mestres e doutores, com forte presença nas áreas de saúde e ciências biológicas, responsáveis por um quarto da produção científica nacional.

Estado, governança e política industrial

Se há consenso sobre o potencial, também há clareza sobre o desafio: transformar capacidade instalada em projeto de desenvolvimento exige coordenação política e institucional.

José Gomes Temporão defendeu a construção de uma governança própria para o setor, baseada em um pacto entre diferentes atores — governo estadual, municípios, universidades, indústria e instituições de fomento. A proposta passa por organizar o CEIS como política de Estado, com planejamento estratégico e metas de longo prazo.

Um dos instrumentos centrais dessa estratégia é o uso do poder de compra do Sistema Único de Saúde (SUS). Ao direcionar a demanda pública para fortalecer cadeias produtivas locais, o Estado pode induzir inovação, ampliar a produção nacional e reduzir a dependência externa — um ponto recorrente nos debates recentes sobre soberania.

Integração entre ciência, indústria e financiamento

Outro ponto enfatizado foi a necessidade de articulação efetiva entre universidades, centros de pesquisa e setor produtivo — uma lacuna histórica no modelo brasileiro de desenvolvimento.

Nesse sentido, o papel de instituições como o BNDES e a Finep aparece como decisivo para financiar a inovação e estruturar cadeias produtivas mais sofisticadas. A integração entre conhecimento científico e produção industrial é vista como condição para transformar potencial em capacidade econômica real.

Um projeto em disputa

O debate também evidenciou que o futuro do Rio — e, em alguma medida, do próprio país — passa pela definição de um projeto nacional que recoloque o Estado como indutor do desenvolvimento.

A proposta de novos fóruns e articulações sinaliza que esse processo está em construção. Mais do que diagnósticos, o desafio agora é transformar consenso em ação coordenada, capaz de enfrentar a desindustrialização e reposicionar a saúde não apenas como política social, mas como eixo estruturante da economia.

Acompanhe a íntegra do evento:

A saúde como pilar do desenvolvimento sustentável, por Carlos Gadelha

Carlos Gadelhaconselheiro do Projeto Brasil, Maria Augusta Arruda e Marcelo Manzano

A saúde como pilar do desenvolvimento sustentável é o tema do artigo publicado no jornal Valor Econômico do dia 19/11. De autoria do professor e pesquisador do CEE, Carlos Gadelha, em conjunto com Maria Augusta Arruda, diretora do LNBio/CNPEM, e Marcelo Manzano, diretor do CESIT/IE-Unicamp, o texto é fruto do trabalho desenvolvido pelos pesquisadores no projeto: “O potencial da biodiversidade para a transformação ecológica do Complexo Econômico-Industrial da Saúde”

A realização da COP-30 no Brasil reforça a necessidade e a urgência do debate sobre a transformação ecológica. O agravamento da crise ambiental e climática, nas últimas décadas, evidencia a desconexão entre o modelo de produção e consumo da sociedade e as necessidades sociais e ambientais.

A saúde não está à parte desse cenário. Ao mesmo tempo em que os sistemas de saúde sofrem com as pressões geradas por este modelo, também contribuem para a crise ambiental. Portanto, a saúde pode ser parte fundamental da solução, ajudando a construir um padrão de desenvolvimento sustentável que reposicione as relações entre economia, sociedade e natureza.

Ao redor do mundo, a saúde já responde à crise climática com soluções inovadoras, como o uso de materiais biodegradáveis para a fabricação de próteses, órteses e dispositivos médicos, a utilização de painéis solares em hospitais e combustíveis verdes no transporte médico, além do mapeamento genético da biodiversidade, que abre portas para a descoberta de novos fármacos, valorizando a floresta em pé. Para que essas iniciativas avancem, no entanto, é preciso ir além de soluções pontuais: é necessária uma mudança estrutural, capaz de promover um padrão não predatório de uso dos recursos naturais.

Estudo coordenado pela Fiocruz, em parceira com o Laboratório Nacional de Biociências e o Instituto de Economia da Unicamp, mostra que o Complexo Econômico-Industrial da Saúde, uma das seis áreas prioritárias da Nova Indústria Brasil, desponta como pilar estratégico para alavancar esta mudança, ao integrar CT&I e produção nacional aos desafios do Sistema Único de Saúde (SUS), o maior sistema universal de saúde do mundo em termos de população.

Os dados levantados mostram que a saúde tem grande relevância social, econômica e ambiental no Brasil. Atualmente, responde por cerca de 10% do PIB, 30% do investimento em P&D, empregando mais de 10 milhões de pessoas. Entre 2012 e 2023, enquanto a população ocupada geral cresceu 12,3%, o número de trabalhadores no CEIS aumentou 65,7%, um ritmo muito superior à média nacional.

Além disso, a amplitude e a heterogeneidade de ecossistemas como a Amazônia, o Cerrado, a Mata Atlântica, a Caatinga, o Pantanal e o Pampa, somadas à extensa faixa costeira e marinha, fazem do território nacional um espaço estratégico para promover a convergência entre saúde, biodiversidade e potencial científico. Estima-se que o país concentre entre 15% e 20% de toda a diversidade biológica existente no planeta, ocupando a 6ª posição mundial quando o assunto é pesquisa em biodiversidade, o que corresponde a 7,5% do número de publicações científicas – um valor significativamente superior à média de 2% nas publicações científicas em geral.

Esse dado por si só já coloca o Brasil em uma posição de excepcionalidade no cenário internacional, mas sua importância vai além do aspecto quantitativo. Os biomas brasileiros, além de reservas naturais a serem preservadas, servem também como plataformas de inovação científica e tecnológica, que podem ser translacionadas para o atendimento das demandas de saúde, superando a tradicional segmentação entre políticas sociais, ambientais e econômicas.

A Amazônia, por exemplo, oferece base genética para prospecção de fármacos, vacinas, fitoterápicos e biomateriais, enquanto o Cerrado aparece com compostos antioxidantes e anti-inflamatórios. A Mata Atlântica destaca-se em fitoterápicos e insumos farmacotécnicos, como o medicamento Acheflan, desenvolvido a partir da erva-baleeira (Cordia verbenaceae) e utilizado no tratamento de inflamações. A Caatinga, único bioma exclusivamente brasileiro, reúne moléculas antivirais, anti-inflamatórias, antibióticas, cicatrizantes — como o óleo de licuri (Syagrus coronata) —, e com potencial anticâncer, a exemplo dos derivados do lapachol, extraído de plantas do gênero Tabebuia avellanedae, capazes de inibir a proliferação de células metastáticas.

Essas informações evidenciam que a biodiversidade deve ser vista não apenas como um recurso a explorar, mas concebida como uma infraestrutura viva para inovação, saúde e justiça social. Para isso, é necessária a formulação de uma nova geração de políticas públicas orientadas pelas principais demandas da sociedade – como a ampliação do acesso à saúde, a geração de renda e empregos e a sustentabilidade ambiental.

Nos últimos anos, o Brasil consolidou um conjunto de políticas públicas que abrem condições inéditas para integrar biodiversidade, saúde e desenvolvimento em uma estratégia de Estado. A promulgação do Protocolo de Nagoya, em 2023, estabeleceu a obrigação de alinhar suas práticas de pesquisa e inovação a padrões internacionais de repartição justa e equitativa de benefícios oriundos do uso de recursos genéticos. Trata-se de um passo decisivo para articular ciência e justiça socioambiental, ao assegurar que o aproveitamento da biodiversidade esteja vinculado não apenas à inovação tecnológica, mas também ao reconhecimento e à valorização dos povos e comunidades tradicionais.

No mesmo ano, foi instituída a Estratégia Nacional para o Desenvolvimento do CEIS (Decreto nº 11.715/2023), definindo seis programas estruturantes, com a finalidade de orientar investimentos públicos e privados na busca de soluções produtivas e tecnológicas para ampliar o acesso à saúde e reduzir a vulnerabilidade do SUS. Em 2024, a Nova Indústria Brasil incorporou essa visão, incluindo a meta de ampliar a participação da produção no país de 42% para 70% das necessidades nacionais em medicamentos, vacinas, equipamentos e dispositivos médicos, entre outros, contribuindo para o fortalecimento do SUS e a melhoria do acesso da população à saúde.

No presente, essas condições conferem ao Brasil a oportunidade única de articular biodiversidade e saúde em um Projeto Nacional comprometido com a transformação produtiva e a mudança estrutural. Isso exige ir além de políticas compensatórias que, embora essenciais, quando tomadas como horizonte máximo, apenas reproduzem o receituário clássico de preservação da estrutura econômica e social existente, matriz tanto da desigualdade quanto de um padrão produtivo nacional ambientalmente insustentável.

Por isso, é fundamental o fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde como pilar estruturante da transformação ecológica, que visa orientar o desenvolvimento da ciência, tecnologia, inovação e produção nacional aos desafios da sustentabilidade, do bem-estar e da soberania.

Carlos Gadelha é professor e pesquisador da Fiocruz. Maria Augusta Arruda é diretora do LNBio/CNPEM. Marcelo Manzano é diretor do CESIT/IE-Unicamp.  

OMS alerta sobre condições de trabalho na Saúde

Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais

Por Silvia Portela 

Neste dia 10 de Outubro, Dia Mundial da Saúde Mental, trazemos este alerta da Organização Mundial da Saúde OMS-Europa sobre o sofrimento e angústia dos profissionais da saúde com os transtornos causados por más condições de trabalho. Ainda que o relatório da OMS refira-se aos trabalhadores europeus, não resta duvida que essa mesma situação atinge os trabalhadores brasileiros da saúde.  

Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais, vinculado ao Instituto Lavoro transcreveu este texto  do boletim ONU News da Divisão de Jornalismo das Nações Unidas. 

OMS na Europa alerta para casos de depressão em agentes de saúde

OMS-Europa revelou que grande parte de profissionais de medicina e enfermagem têm transtornos de saúde mental e bem-estar por causa das condições de trabalho 

ONU News, 10 Outubro 2025    

Um em cada três profissionais de enfermagem e medicina sofre de depressão, um em cada 10 sofreu violência física e/ou assédio sexual e um em cada 10 tem pensamentos suicidas, revela novo relatório da Organização Mundial da Saúde, OMS, na Europa; 10 de outubro é o Dia Mundial da Saúde Mental. 

Num alerta preocupante divulgado no Dia Mundial da Saúde Mental, neste 10 de outubro, um estudo do Escritório da Organização Mundial de Saúde na Europa, OMS-Europa, revelou que grande parte de profissionais de medicina e enfermagem têm transtornos de saúde mental e bem-estar por causa das condições de trabalho. 

O relatório “A Saúde Mental de Médicos e Enfermeiros” mostra que um em cada três profissionais sofre de depressão ou ansiedade e um em cada 10 pensou que “seria melhor estar morto”, duas semanas antes de ser entrevistado para a pesquisa. 

Uma crise silenciosa nos hospitais da Europa 

O inquérito conhecido como Mend recolheu e analisou mais de 90 mil respostas de profissionais de saúde nos 27 países da União Europeia, além da Islândia e da Noruega. 

Os resultados revelam o impacto direto de anos de subfinanciamento dos sistemas de saúde europeus. 

Nos últimos 12 meses, um em cada três médicos e enfermeiros foi alvo de bullying ou intimidações, e 10% reportaram ter sofrido violência física ou assédio sexual. 

Além disso, um em cada quatro médicos trabalha mais de 50 horas por semana, enquanto cerca de um terço dos médicos e um quarto dos enfermeiros têm contratos temporários, o que alimenta a ansiedade e a insegurança profissional. 

Quase 1 bilhão com transtornos mentais 

As condições de saúde mental incluem transtornos mentais e deficiências psicossociais, bem como outros estados mentais associados a sofrimento significativo, comprometimento no funcionamento ou risco de autolesão. 

Em 2019, 970 milhões de pessoas em todo o mundo viviam com um transtorno mental, sendo ansiedade e depressão os mais comuns. 

As condições de saúde mental podem causar dificuldades em todos os aspectos da vida, incluindo relacionamentos com família, amigos e comunidade. Elas podem levar ainda a problemas na escola e no trabalho. 

Globalmente, pessoas com condições graves de saúde mental morrem de 10 a 20 anos mais cedo do que a população em geral. 

Além disso, ter uma condição de saúde mental aumenta o risco de suicídio e de sofrer violações dos direitos humanos. As consequências econômicas das condições de saúde mental também são enormes, com as perdas de produtividade superando significativamente os custos diretos de cuidado. 

População geral 

De acordo com a OMS, estas condições estão diretamente ligadas à deterioração da saúde mental. 

Os profissionais expostos a violência, longas jornadas e turnos noturnos têm o dobro da probabilidade de sofrer de depressão ou ansiedade e de desenvolver pensamentos suicidas, em comparação com a população geral. 

Hans Henri P. Kluge, diretor regional da OMS-Europa, afirmou que “o resultado do inquérito é um lembrete claro de que os sistemas de saúde da Europa são tão fortes quanto as pessoas que os sustentam”. 

Tolerância zero 

Kluge ressaltou que um em cada três médicos e enfermeiros vive com depressão ou ansiedade, e mais de um em cada 10 já pensou em acabar com a própria vida, representando “um fardo inaceitável sobre aqueles que cuidam de nós”. 

O diretor regional apelou a medidas imediatas para enfrentar esta crise, incluindo a tolerância zero para a violência e o assédio, reformas nos turnos e horas extra para pôr fim à cultura de exaustão, redução das cargas de trabalho através de investimentos em tecnologia e contratação inteligente, e apoio psicológico confidencial e livre de estigma para todos os profissionais de saúde. 

Movidos pelo propósito 

Apesar da sobrecarga e do sofrimento psicológico, a maioria dos profissionais mantém um forte sentido de missão: três em cada quatro médicos e dois em cada três enfermeiros afirmam encontrar propósito e satisfação no seu trabalho. 

A médica francesa, Mélanie Debarreix, residente em radiologia, relatou que “os médicos estão fisicamente e mentalmente exaustos, o que infelizmente pode levar a erros e que estas condições têm um impacto devastador na saúde mental dos profissionais”. 

Para ela, 66% dos estudantes de medicina, na França, já viveram um episódio depressivo e 21% tiveram pensamentos suicidas no último ano. 

Quando quem cuida adoece 

O relatório alerta que o sofrimento mental dos profissionais de saúde tem consequências diretas para os pacientes e para o funcionamento dos sistemas de saúde. 

Dependendo do país, até 40% dos médicos e enfermeiros com sintomas depressivos tiraram licença médica no último ano, e entre 11% e 34% consideram abandonar a profissão. 

Essa perda de capacidade humana traduz-se em tempos de espera mais longos, cuidados de menor qualidade e maior pressão sobre os serviços públicos. 

Escassez crescente e necessidade de ação urgente 

A OMS alerta que, se nada for feito, a Europa enfrentará uma escassez de 940 mil profissionais de saúde até 2030. 

Melhorar as condições de trabalho, reduzir o absenteísmo e reter profissionais é essencial para garantir que os sistemas de saúde estejam preparados para futuras crises. 

O relatório da OMS-Europa define sete ações políticas urgentes: implementar tolerância zero à violência, melhorar a previsibilidade dos turnos, controlar as horas extra, reduzir cargas de trabalho, treinar líderes e responsabilizá-los, ampliar o acesso a apoio psicológico e monitorar regularmente o bem-estar dos profissionais. 

Kluge, por fim, declarou que “com a Europa a caminho de perder quase um milhão de profissionais de saúde até 2030, não podemos permitir que o burnout, o desespero ou a violência destruam esta força vital”. 

Os caminhos para garantir saúde pública no Brasil em transformação

O futuro da saúde brasileira não pode ser tratado como um tema de curto prazo. Essa é a premissa da iniciativa “Saúde Amanhã”, coordenada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que ganhou destaque em edição especial do Projeto Brasil, transmitida pela TV GGN. [Assista ao vídeo ao final do texto]

No programa, os jornalistas Luis Nassif e Sérgio Leo receberam o pesquisador e sanitarista José Carvalho de Noronha, coordenador adjunto do projeto e membro do Conselho Consultivo do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes). Ele apresentou tendências e riscos para o Sistema Único de Saúde (SUS) no horizonte de 2050.

O debate destacou o SUS como a maior conquista do federalismo brasileiro e um modelo que já inspira outras áreas, como a segurança pública. Sua continuidade, no entanto, depende de políticas estruturais capazes de responder a transformações econômicas, tecnológicas, ambientais e demográficas.

De 2010 a 2050: a trajetória de um projeto de Estado

Noronha destacou o projeto “Saúde no Brasil em 2050”, braço do “Saúde Amanhã”, que surgiu em 2010, no segundo governo Lula (PT), como parte de um esforço nacional de planejamento conduzido pelo então ministro José Gomes Temporão.

Em 2013, a ação passou a se chamar “Saúde 2030”, adotando a ideia de horizonte móvel de 20 anos. Após o impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT), em 2016, o projeto foi vinculado à “Estratégia Fiocruz Agenda 2030”, lançada por Paulo Gadelha.

Com o retorno de Lula ao poder e a criação da “Estratégia Brasil 2050”, pelo Ministério do Planejamento, a iniciativa ganhou novo fôlego e maior institucionalidade, conectando saúde, desenvolvimento e sustentabilidade no planejamento de longo prazo.

Quatro vetores que moldarão a saúde em 2050

A longo prazo, o estudo da Fiocruz para a “Saúde no Brasil em 2050” aponta quatro grandes macrodesafios para o sistema de saúde nas próximas décadas:

Crise climática e meio ambiente

As mudanças ambientais afetam tanto a saúde da população quanto a rede de atendimento. Epidemias tendem a se intensificar, enquanto desastres naturais exigirão serviços resilientes e prontos para respostas emergenciais.

Economia e geopolítica

O financiamento limitado do SUS e a dependência externa em insumos e tecnologias médicas seguem como entraves. Apesar dos avanços de instituições como Fiocruz e Butantã, o país ainda depende fortemente de fornecedores internacionais.

Demografia e doenças crônicas

O envelhecimento populacional redefine demandas: cuidados contínuos substituem a ideia de cura. Doenças como diabetes e cardiovasculares exigem reorganização do sistema e avanços em cuidados paliativos.

Transformação digital e tecnológica

Da inteligência artificial a cirurgias robóticas, a saúde vive uma revolução. O desafio é evitar que essas inovações fiquem restritas ao setor privado, garantindo acesso pelo SUS de forma inclusiva e regulada.

Noronha lembrou ainda que toda a iniciativa segue o Artigo 196 da Constituição Federal, que define a saúde como direito de todos e dever do Estado, a ser garantido por políticas sociais e econômicas que reduzam riscos e assegurem acesso universal e igualitário.

O futuro em disputa

Para Noronha, a saúde em 2050 será reflexo das escolhas feitas hoje. O SUS já mostrou capacidade de inovação, mas enfrenta ameaças que exigem visão estratégica.

Sem planejamento consistente, alerta o pesquisador, o sistema corre o risco de perder relevância, pressionado por restrições fiscais, dependência tecnológica e impactos ambientais.

Agora, o Brasil terá de decidir se investirá em um sistema público universal e resiliente ou se permitirá a erosão de um de seus maiores patrimônios sociais.

Assista à íntegra da entrevista ao Projeto Brasil: