Terras Raras: analistas debatem falta de planjeamento estratégico e os riscos ambientais

A ausência de um planejamento estratégico centralizado para a exploração de terras raras no Brasil foi o tema debatido no episódio “TERRAS RARAS: O planejamento que falta ao Brasil”, do especial Plano de Metas do Projeto Brasil, com a participação do ambientalista, professor do IFMG e pesquisador especializado em conflitos minerários, Daniel Neri, e do ex-presidente da Codemig e ex-presidente da Usiminas, Marco Antônio Castello Branco.

Aos jornalistas Luis Nassif e Sergio Leo, os especialistas apontam que, embora o país possua grandes reservas minerais, o cenário atual é marcado por um vácuo de políticas executivas e pela pulverização de recursos financeiros e debateram a necessidade de soberania tecnológica e industrial aos severos riscos de degradação ambiental e impactos sociais nas comunidades locais.

O engenheiro e ex-presidente da Codemig destacou a falta de coordenação entre os diversos ministérios e órgãos governamentais, afirmando que o governo sofre com a dispersão de esforços e dinheiro entre vários ministérios (Minas e Energia, Ciência e Tecnologia, Desenvolvimento Industrial). Castello Branco sugeriu a criação de uma coordenação centralizada, semelhante ao que foi a Casa Civil durante o PAC, como um “centro único” de gestão.

Enquanto para Castello Branco, a tecnologia pode mitigar danos, Neri argumenta que o modelo extrativista atual apenas reproduz a lógica de exportação de matéria-prima sem agregar valor nacional.

O pesquisador e ambientalista afirmou que o Brasil continua preso a uma matriz primária de exportação que beneficia apenas o Norte Global, tratando a “transição energética” apenas como uma nova oportunidade de negócios capitalistas. 

Ao comentar o chamado “desenvolvimento sustentável” na mineração, ele contestou, chamando-o de “categoria artificial”, e disse categoricamente que não existe projeto de mineração no mundo que alie extração com preservação total, pois o recurso é finito. 

Ainda, alertou para a ameaça aos aquíferos e ao abastecimento de água (como o de Belo Horizonte) devido a projetos minerários e o risco de rompimento de barragens, citando que a questão ambiental é tratada de forma “absurdamente leniente”. Discordou que a população destes territórios possa ser beneficiada pela mineração; pelo contrário, afirmou que as empresas chegam a territórios seculares (como Bento Rodrigues) e impõem sua exploração, muitas vezes resultando em tragédias.

Já para o ex-presidente da Codemig, é possível realizar a exploração mineral com preservação ambiental, citando o nióbio como um “benchmark” de agregação de valor e controle de efeitos. Ele afirmou que a tecnologia pode resolver ou minimizar impactos, como ocorreu na mecanização da colheita de cana-de-açúcar.

Os convidados também criticaram a passividade do Estado diante do domínio de mineradoras estrangeiras, sugerindo que o Brasil precisa retomar o protagonismo no setor por meio de uma gestão mais democrática e planejada.

Nassif destacou que, enquanto o governo discute soberania de forma abstrata, pequenas mineradoras estrangeiras já estão em Poços de Caldas “furando terra” para especular com fundos de investimento. O jornalista também relembrou que o Brasil já teve períodos de planejamento robusto (como com Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek) e questionou por que o atual governo Lula parece sofrer de “inação” ou falta de coordenação nesse setor.

Assista à íntegra do episódio:

Confira também os demais conteúdos produzidos para o Plano de Metas 1:

Plano de Metas 1: Minerais Críticos e Energia Verde

Soberania do Brasil na nova geopolítica das Terras Raras , por Marco Antônio S. C. Branco

Terras raras, políticas públicas e competitividade, por Arthur Oscar Guimarães

Por que as terras raras comandarão a reindustrialização no país

Luis Nassif

Não se montou, até agora, um projeto mapeando as possibilidades com a cadeia produtiva das terras raras, da extração aos produtos finais.

Quando se fala em terras raras, especialmente na relevância delas para a reindustrialização do país, ainda há muita mitologia, muita dificuldade para entender as possibilidades que se abrem com ela. 

Praticamente nenhuma associação industrial montou, até agora, um projeto mapeando as possibilidades com a cadeia produtiva das terras raras, da extração aos produtos finais.

Vamos a um exercício rápido em torno dessas possibilidades.

Peça 1 – a cadeia produtiva

Ou, em texto corrido:

Setores industriais ao longo da cadeia produtiva de terras raras

Elo 1 — Geologia e pesquisa mineral

Reservas de 21 Mt (2ª maior reserva do mundo), ainda subqualificadas tecnicamente.

Setores que emergem: geotecnologia e software (modelagem 3D, IA geológica aplicada à prospecção); sondagem e laboratórios analíticos (ensaios, metrologia mineral, qualificação de jazidas).

Elo 2 — Extração (lavra)

Produção atual residual frente ao potencial. Projetos Serra Verde (GO) e Caldeira (MG) são os mais avançados.

Setores que emergem: equipamentos de mineração (máquinas, sensores, automação de lavra); logística e infraestrutura (ferrovias, portos, armazenamento de concentrado).

Elo 3 — Beneficiamento (concentração)

Etapa incipiente no Brasil, com gargalo logístico entre mina e planta.

Setores que emergem: plantas de beneficiamento (flotação, hidrometalurgia); engenharia química e ambiental (gestão de rejeitos, licenciamento, passivo ambiental).

Elo 4 — Refino químico (óxidos e metais)

Principal gargalo. China domina mais de 70% do processamento global. Brasil praticamente ausente neste elo, que concentra o maior valor agregado da cadeia.

Setores que emergem: química fina e separação (extração por solvente, troca iônica — CETEM e IPEN têm rotas laboratoriais comprovadas); materiais avançados (cerâmicas técnicas, catalisadores, fósforos para iluminação, vidros especiais).

Elo 5 — Insumos intermediários (ligas e compostos)

Brasil importa hoje da China. Etapa que converte óxidos em matéria-prima industrial.

Setores que emergem: metalurgia especial (ligas NdFeB e SmCo para ímãs, precursores de baterias como NMC e LFP); fertilizantes e agroquímica (fosfatados, potássicos e nitrogenados — conexão direta com segurança alimentar e redução de dependência externa).

Elo 6 — Manufatura avançada (componentes)

Brasil ausente. Importa a totalidade dos produtos finais que dependem de terras raras.

Setores que emergem: ímãs permanentes (motores elétricos, turbinas eólicas de geração direta, alto-falantes, equipamentos de ressonância magnética — nó estratégico de toda a cadeia); baterias e veículos elétricos (células, módulos, packs para EVs, ônibus e armazenamento estacionário); energia eólica e solar (geradores, inversores, painéis fotovoltaicos — WEG é âncora potencial para demanda de ímãs).

Elo 7 — Reciclagem e economia circular

Embrionário no Brasil. INCT PaTrIA tem rotas laboratoriais para recuperação de elementos.

Setores que emergem: mineração urbana (recuperação de eletroeletrônicos, baterias exauridas, ímãs usados); logística reversa e serviços (coleta, triagem, certificação, rastreabilidade digital — espaço natural para PMEs e startups).

Setores transversais — presentes em toda a cadeia

Quatro setores atravessam todos os elos e não pertencem a nenhum em particular:

Software e automação (IA aplicada à geologia e à produção, IoT industrial, gêmeos digitais de plantas); instrumentação (sensores especializados, metrologia, certificação de qualidade mineral); P&D e universidades (CETEM, IPEN, INCT PaTrIA, universidades federais — base científica que já existe e precisa de escala industrial); finanças e capital (BNDES, Finep, debêntures incentivadas, fundos de participação — camada de capital paciente sem a qual os outros elos não se financiam).

Peça 2 – empresas já existentes

Aqui, uma relação de empresas já existentes, potenciais interessadas em ingressar em uma das etapas. O levantamento foi feito com o uso de Inteligência Artificial.

Boa pergunta — vou cruzar o mapa setorial com o que existe no tecido industrial brasileiro, distinguindo empresas já presentes na cadeia, empresas de setores adjacentes que poderiam migrar, e instituições públicas que seriam âncoras.Mapa completo abaixo, distinguindo empresas já presentes, candidatas naturais por adjacência setorial, e instituições públicas âncora.

Elo 1 — Geologia e pesquisa mineral

Instituições públicas âncoras: CPRM (Serviço Geológico do Brasil), que precisa de ampliação de orçamento para mapear os distritos prioritários em velocidade compatível com a disputa global; CETEM (Centro de Tecnologia Mineral), vinculado ao MCTI, com expertise acumulada em caracterização de depósitos de terras raras.

Empresas privadas já atuantes: a ADL Mineração é uma empresa brasileira que atua em minerais estratégicos e terras raras e realizou o primeiro embarque privado de monazita do país em 2026, para Canadá e EUA. A CBMM (Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração), controlada pelo grupo Moreira Salles, domina 80% do nióbio mundial e representa o único caso brasileiro de controle nacional sobre um mineral estratégico do início ao fim da cadeia.

Candidatas por adjacência: empresas de software geológico como a Geoambiente e startups de IA para prospecção, que já atuam em petróleo e gás e poderiam migrar para mineração de terras raras.

Elo 2 — Extração (lavra)

A Serra Verde, em Minaçu (GO), era a única produtora em larga escala de terras raras pesadas fora da Ásia — e foi adquirida pela norte-americana USA Rare Earth por US$ 2,8 bilhões em abril de 2026. Essa venda é o episódio central do debate sobre soberania: o ativo estratégico mais relevante do país saiu do controle nacional antes de qualquer marco legal que pudesse condicioná-la.

A australiana Meteoric Resources detém o Projeto Caldeira em Poços de Caldas (MG), com licença prévia concedida em 2025 e início de operações previsto para 2026. A também australiana Viridis Mining possui o Projeto Colossus, com reservas de argilas iônicas ricas em neodímio, praseodímio, térbio e disprósio no sul de Minas Gerais, e anunciou a construção de um centro de pesquisa e processamento em Poços de Caldas sem uso de tecnologia chinesa. A St George Mining, dona do Projeto Araxá, está localizada ao lado da CBMM e prevê início de operações em 2027.

O quadro é revelador: a extração está sendo dominada por empresas australianas e americanas, não por capital nacional. A ADL Mineração é a exceção brasileira com operação concreta.

Elo 3 — Beneficiamento (concentração)

Empresas do setor discutem a instalação de plantas de refino no Vale do Jequitinhonha e em Poços de Caldas, mas pedem incentivos, financiamento e previsibilidade regulatória para viabilizar projetos.

Candidatas nacionais: a Vale, maior mineradora do país, tem capacidade de engenharia e capital para entrar no beneficiamento de terras raras, mas sua estratégia atual está focada em ferro, cobre e níquel. A Braskem tem expertise em química de processo que é transferível para a etapa de concentração. Empresas de engenharia pesada como a Odebrecht Engenharia Industrial (hoje rebatizada) e a Construtora Andrade Gutierrez poderiam construir e operar plantas.

Elo 4 — Refino químico (óxidos e metais)

Este é o elo mais crítico e onde a dependência da China é mais intensa. A China responde por cerca de 60% da mineração mundial de terras raras e mais de 85% do processamento e fabricação de ímãs de alta performance.

Instituições com capacidade técnica comprovada: IPEN (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares), que já tem rotas de separação por troca iônica e extração por solvente; CETEM, cujos grupos do INCT PaTrIA dominam separação com pureza acima de 99,9% em escala laboratorial. O gargalo, como a SBPC explicitou, é a passagem para escala industrial — plantas-piloto de TRL 6-8.

A operação da Serra Verde em Minaçu passou a integrar a primeira cadeia de suprimentos de terras raras da mina ao ímã fora da Ásia, com preços mínimos garantidos para disprósio e térbio — mas agora sob controle americano, não brasileiro.

Candidata natural de capital nacional: a INB (Indústrias Nucleares do Brasil), que historicamente processou monazita com extração de terras raras como subproduto e tem infraestrutura instalada em Caetité (BA) e Caldas (MG).

Elo 5 — Insumos intermediários (ligas e compostos)

A CBMM é o único modelo brasileiro de sucesso neste elo: produz ferronióbio e óxido de nióbio em escala industrial e exporta produto processado, não minério bruto. É o template que o Plano de Metas propõe replicar para terras raras.

Para fertilizantes e fosfatados, a Mosaic Fertilizantes (controlada pela americana Mosaic, mas com operações integradas no Brasil) e a Yara Brasil são candidatas ao desenvolvimento de fosfato processado com minerais críticos associados. A Petrobras tem capacidade para entrar em catalisadores baseados em terras raras para refino, segmento onde já é usuária intensiva desses materiais.

Elo 6 — Manufatura avançada

Este é o elo onde a oportunidade brasileira é maior e a ausência mais custosa.

A WEG, maior fabricante de motores elétricos da América Latina, é candidata natural ao desenvolvimento de ímãs permanentes de NdFeB — ela já fabrica os motores que consomem esses ímãs, mas hoje importa 100% deles da China. Uma cadeia integrada WEG–planta de ímãs–refinaria de óxidos seria o núcleo de uma política industrial real neste elo.

Para energia eólica, a Vestas e a Siemens Gamesa já têm fábricas no Brasil e poderiam ser âncoras de demanda para ímãs permanentes produzidos localmente. A Embraer tem interesse estratégico no segmento de motores elétricos para aeronaves e poderia puxar uma demanda qualificada de ligas especiais.

Para veículos elétricos, a BYD (instalada em Camaçari, BA) e a Volkswagen (que anunciou eletrificação da linha brasileira) são demandantes potenciais de baterias e ímãs produzidos no Brasil — mas até hoje nenhum acordo de conteúdo nacional foi formalizado.

Elo 7 — Reciclagem e economia circular

Este é o espaço natural para PMEs e startups. Empresas como a Sinctronics (reciclagem de eletroeletrônicos, joint venture da Foxconn com a Positivo) já atuam na cadeia de resíduos e poderiam migrar para a recuperação de terras raras. A Braskem tem expertise em química de recuperação de materiais. Startups de logística reversa como a Cataki e plataformas digitais de rastreabilidade mineral poderiam ocupar o tecido nervoso desse elo.

O quadro sintético e o problema central

O professor Luiz Jardim Wanderley, da UFF, resume o padrão histórico que se repete: o Brasil mantém a mesma dependência que teve com o ouro colonial, com o ferro e até o petróleo — exporta minerais e consome pouco no mercado nacional. Sem avançar nas etapas de beneficiamento e refino, o país tende a continuar importando produtos de maior valor agregado, mesmo sendo dono da matéria-prima bruta.

O mapa de empresas confirma isso: no elo de extração há capital australiano e americano; no refino há ausência quase total; na manufatura há demandantes (WEG, Embraer, montadoras) sem fornecedores nacionais. A cadeia existe em potencial — os atores estão presentes em elos separados, sem conexão industrial entre eles. O papel do marco legal aprovado seria criar os incentivos para que essa conexão se forme.

As indústrias que poderão se beneficiar das terras raras

Luis Nassif

Vamos mapear o que já existe no país, que empresas poderão assumir elos da cadeia das terras raras.

Aqui publicamos as principais etapas do processo de neoindustrialização a partir das terras raras. Agora, com a ajuda da IA, vamos mapear o que já existe no país, que empresas poderão assumir elos da cadeia das terras raras.

Vai se cruzar o mapa setorial com o que existe no tecido industrial brasileiro, distinguindo empresas já presentes na cadeia, empresas de setores adjacentes que poderiam migrar, e instituições públicas que seriam âncoras. Mapa completo abaixo, distinguindo empresas já presentes, candidatas naturais por adjacência setorial, e instituições públicas âncora.

Elo 1 — Geologia e pesquisa mineral

Instituições públicas âncoras: CPRM (Serviço Geológico do Brasil), que precisa de ampliação de orçamento para mapear os distritos prioritários em velocidade compatível com a disputa global; CETEM (Centro de Tecnologia Mineral), vinculado ao MCTI, com expertise acumulada em caracterização de depósitos de terras raras.

Empresas privadas já atuantes: a ADL Mineração é uma empresa brasileira que atua em minerais estratégicos e terras raras e realizou o primeiro embarque privado de monazita do país em 2026, para Canadá e EUA. A CBMM (Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração), controlada pelo grupo Moreira Salles, domina 80% do nióbio mundial e representa o único caso brasileiro de controle nacional sobre um mineral estratégico do início ao fim da cadeia.

Candidatas por adjacência: empresas de software geológico como a Geoambiente e startups de IA para prospecção, que já atuam em petróleo e gás e poderiam migrar para mineração de terras raras.

Elo 2 — Extração (lavra)

A Serra Verde, em Minaçu (GO), era a única produtora em larga escala de terras raras pesadas fora da Ásia — e foi adquirida pela norte-americana USA Rare Earth por US$ 2,8 bilhões em abril de 2026. Essa venda é o episódio central do debate sobre soberania: o ativo estratégico mais relevante do país saiu do controle nacional antes de qualquer marco legal que pudesse condicioná-la.

A australiana Meteoric Resources detém o Projeto Caldeira em Poços de Caldas (MG), com licença prévia concedida em 2025 e início de operações previsto para 2026. A também australiana Viridis Mining possui o Projeto Colossus, com reservas de argilas iônicas ricas em neodímio, praseodímio, térbio e disprósio no sul de Minas Gerais, e anunciou a construção de um centro de pesquisa e processamento em Poços de Caldas sem uso de tecnologia chinesa. A St George Mining, dona do Projeto Araxá, está localizada ao lado da CBMM e prevê início de operações em 2027.

O quadro é revelador: a extração está sendo dominada por empresas australianas e americanas, não por capital nacional. A ADL Mineração é a exceção brasileira com operação concreta.

Elo 3 — Beneficiamento (concentração)

Empresas do setor discutem a instalação de plantas de refino no Vale do Jequitinhonha e em Poços de Caldas, mas pedem incentivos, financiamento e previsibilidade regulatória para viabilizar projetos.

Candidatas nacionais: a Vale, maior mineradora do país, tem capacidade de engenharia e capital para entrar no beneficiamento de terras raras, mas sua estratégia atual está focada em ferro, cobre e níquel. A Braskem tem expertise em química de processo que é transferível para a etapa de concentração. Empresas de engenharia pesada como a Odebrecht Engenharia Industrial (hoje rebatizada) e a Construtora Andrade Gutierrez poderiam construir e operar plantas.

Elo 4 — Refino químico (óxidos e metais)

Este é o elo mais crítico e onde a dependência da China é mais intensa. A China responde por cerca de 60% da mineração mundial de terras raras e mais de 85% do processamento e fabricação de ímãs de alta performance.

Instituições com capacidade técnica comprovada: IPEN (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares), que já tem rotas de separação por troca iônica e extração por solvente; CETEM, cujos grupos do INCT PaTrIA dominam separação com pureza acima de 99,9% em escala laboratorial. O gargalo, como a SBPC explicitou, é a passagem para escala industrial — plantas-piloto de TRL 6-8.

A operação da Serra Verde em Minaçu passou a integrar a primeira cadeia de suprimentos de terras raras da mina ao ímã fora da Ásia, com preços mínimos garantidos para disprósio e térbio — mas agora sob controle americano, não brasileiro.

Candidata natural de capital nacional: a INB (Indústrias Nucleares do Brasil), que historicamente processou monazita com extração de terras raras como subproduto e tem infraestrutura instalada em Caetité (BA) e Caldas (MG).

Elo 5 — Insumos intermediários (ligas e compostos)

A CBMM é o único modelo brasileiro de sucesso neste elo: produz ferronióbio e óxido de nióbio em escala industrial e exporta produto processado, não minério bruto. É o template que o Plano de Metas propõe replicar para terras raras.

Para fertilizantes e fosfatados, a Mosaic Fertilizantes (controlada pela americana Mosaic, mas com operações integradas no Brasil) e a Yara Brasil são candidatas ao desenvolvimento de fosfato processado com minerais críticos associados. A Petrobras tem capacidade para entrar em catalisadores baseados em terras raras para refino, segmento onde já é usuária intensiva desses materiais.

Elo 6 — Manufatura avançada

Este é o elo onde a oportunidade brasileira é maior e a ausência mais custosa.

A WEG, maior fabricante de motores elétricos da América Latina, é candidata natural ao desenvolvimento de ímãs permanentes de NdFeB — ela já fabrica os motores que consomem esses ímãs, mas hoje importa 100% deles da China. Uma cadeia integrada WEG–planta de ímãs–refinaria de óxidos seria o núcleo de uma política industrial real neste elo.

Para energia eólica, a Vestas e a Siemens Gamesa já têm fábricas no Brasil e poderiam ser âncoras de demanda para ímãs permanentes produzidos localmente. A Embraer tem interesse estratégico no segmento de motores elétricos para aeronaves e poderia puxar uma demanda qualificada de ligas especiais.

Para veículos elétricos, a BYD (instalada em Camaçari, BA) e a Volkswagen (que anunciou eletrificação da linha brasileira) são demandantes potenciais de baterias e ímãs produzidos no Brasil — mas até hoje nenhum acordo de conteúdo nacional foi formalizado.

Elo 7 — Reciclagem e economia circular

Este é o espaço natural para PMEs e startups. Empresas como a Sinctronics (reciclagem de eletroeletrônicos, joint venture da Foxconn com a Positivo) já atuam na cadeia de resíduos e poderiam migrar para a recuperação de terras raras. A Braskem tem expertise em química de recuperação de materiais. Startups de logística reversa como a Cataki e plataformas digitais de rastreabilidade mineral poderiam ocupar o tecido nervoso desse elo.

O quadro sintético e o problema central

O professor Luiz Jardim Wanderley, da UFF, resume o padrão histórico que se repete: o Brasil mantém a mesma dependência que teve com o ouro colonial, com o ferro e até o petróleo — exporta minerais e consome pouco no mercado nacional. Sem avançar nas etapas de beneficiamento e refino, o país tende a continuar importando produtos de maior valor agregado, mesmo sendo dono da matéria-prima bruta.

O mapa de empresas confirma isso: no elo de extração há capital australiano e americano; no refino há ausência quase total; na manufatura há demandantes (WEG, Embraer, montadoras) sem fornecedores nacionais. A cadeia existe em potencial — os atores estão presentes em elos separados, sem conexão industrial entre eles. O papel do marco legal aprovado seria criar os incentivos para que essa conexão se forme. A questão em aberto, como a CartaCapital documentou, é se os incentivos do substitutivo Jardim são suficientes sem um ator estatal que force a verticalização.

Terras raras, políticas públicas e competitividade, por Arthur Oscar Guimarães

“Não vamos entregar nossas terras raras”

Arthur Oscar Guimarães¹

Terras raras, políticas públicas e competitividade: esse é o tripé básico do debate em questão. Com esse breve texto trazemos ao debate uma tese: em momento de efervescência midiática, a discussão a respeito das terras raras brasileiras está com foco no que vem ocorrendo no cenário mundial. Não nos esqueçamos que o Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras, e a nossa tarefa central deverá ser a definição de uma política pública clara, factível e com objetivos de curto, médio e longo prazos de como cuidaremos dessa nossa riqueza mineral. E, para início de conversa, o debate sobre terras raras só faz sentido se falarmos em política industrial e projeto nacional de desenvolvimento.  

Ao menos três pressupostos ganham relevo nesse momento. Em qualquer das opções que adotar, o Brasil não pode: 

  1. prescindir dos conhecimentos acumulados ao longo dos anos pelo SGB/CPRM – Serviço Geológico do Brasil; 
  1. adotar medida que não seja discutida no âmbito do CNPM – Conselho Nacional de Política Mineral (de preferência, como fez o presidente Lula, incluindo Terras Raras no nome desse Conselho, pra indicar prioridade nesse momento); e 
  1. deixar de ouvir, até mesmo por razões constitucionais, o Congresso Nacional em relação às proposições legislativas atinentes ao tema (com destaque para a criação da empresa estatal TERRABRAS S.A.)2  

Nesses termos, a presença do Estado é primordial, mas o desenvolvimento do setor se dará com um setor produtivo dinâmico, público e privado, mas em estrita obediência à legislação vigente, mas fundamentalmente à soberania nacional. 

Dois eventos ganharam destaque na mídia e partiremos deles para expor nosso posicionamento: um primeiro, ainda do final de 2025 e reforçado agora no início de 2026, relaciona-se à decisão do Governo Federal em relação ao Conselho Nacional de Política Mineral (CNPM) que terá como foco os minerais críticos, entre os quais as terras raras, elementos essenciais para a fabricação de produtos de tecnologia como, por exemplo, smartphones e carros elétricos (mas sabemos que as aplicações industriais vão muito mais além, particularmente na área de energia – voltaremos a esse ponto); e um segundo, o debate que se amplia a cada dia, centrado na criação ou não de uma empresa estatal, já batizada de TERRABRAS – Terras Raras Brasileiras S.A.3   

Todavia, é preciso reconhecer que o atual debate relacionado às terras raras se transformou, nesse momento, numa miríade de conceitos, sonhos, expectativas e barreiras que estão por demandar – de todos nós – pés no chão. É preciso que tenhamos claro que existem ações já em andamento, mas há um outro universo de ações ainda por implementar. E o Governo, ao menos de público, encontra-se mais lento que o demandado para esse tipo de cenário. 

Segundo nossa concepção não há como desconsiderar a necessidade de definição de uma política pública que, segundo nos ensina a teoria, tem por objeto central “colocar o governo em ação”4. Estão explícitas as demonstrações que a tarefa cobra ação urgente do nosso País, em particular ao Governo Federal, visto estarem escancaradas as manifestações dos norte-americanos. 

Sabemos que há ações em andamento, mas o ciclo da política pública é constituído por estágios, que muitas vezes não são considerados (às vezes porque demandam tempo), e no caso específico das terras raras talvez seja o caso de nos adequarmos a eles, sendo o papel do CNPM central nesse caso, senão vejamos: definição de agenda; identificação de alternativas; avaliação das opções; seleção das opções; implementação e avaliação5, sendo esta última de caráter permanente, particularmente quanto ao impacto desejado com a nova política pública para o setor produtivo. Ratificamos, público e privado. 

Poderíamos nos ater, preliminarmente, a debater os elementos que entendemos centrais da mencionada política pública, mas a opção aqui é indicar – mais à frente – um aspecto que entendemos basilar para posicionar o Brasil no mercado de terras raras, caso a nossa opção seja a de não nos mantermos como historicamente estivemos, posicionados no mercado mineral como fornecedores de commodities. 

Em texto recente, denominado Lonely Empire (Império Solitário), Mark Blyth, Professor de Economia Internacional da Brown at University, afirma que “O imperialismo aberto da administração Trump desfez a ordem global de normas e instituições compartilhadas mais rápido do que qualquer um esperava.”6 (grifamos) E complementa o autor: 

Em tal mundo, a segurança aparentemente reside em tomar território antes que outras potências o façam, em vez de se apoiar em alianças e instituições multilaterais. Assim, a Groenlândia será americana, e a influência chinesa na América Latina será eliminada. O projeto de dividir o mundo em esferas de segurança, sustentadas por arquiteturas tecnológicas rivais e fontes de energia concorrentes, está avançando rapidamente. A única lei internacional agora é a lei da selva, na qual os fortes predam os fracos. (grifamos) 

Se concordássemos com o cenário sombrio desenhado por Mark Blyth, caberia perguntar: o que nos resta fazer? Dentre outras, temos uma resposta. Ao Brasil será fundamental gerar competitividade no setor dos minerais críticos, incluso aí nossas terras taras. 

Devemos partir de um conceito tradicional de competitividade vinculado à capacidade de uma indústria ou empresa de se destacar no mercado, buscando manter ou aumentar (melhorar) a sua posição em relação aos concorrentes (ou um país de alcançar maior espaço para seus produtos no comércio mundial). 

Mas falar em gerar competitividade é falar primordialmente em investimento. Não há uma conta exata no setor mineral de quanto estamos falando, mas a despeito desse aparentemente desconhecimento, há indícios claros de que estamos diante de movimentações políticas e econômicas que não podem ser desconsideradas, senão vejamos: 

Fato 1. Os governos dos Estados Unidos e de Goiás (Gov. Ronaldo Caiado, candidato a Presidente da República) assinaram um memorando de entendimento (na opinião de vários juristas um ato inconstitucional) cujo objetivo reside em aumentar o acesso de empresas americanas a minerais críticos e terras raras naquele estado. (Revista Exame, 18.03.2026) 

Fato 2. O Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato a Presidente da República, em palestra proferida nos EUA (29.03.2026) afirmou: “O Brasil é a solução para que os Estados Unidos não dependam mais da China em terras raras e minerais críticos”. (CNN, Brasil, 30.03.2026) 

Fato 3. O U.S. International Development Finance Corporation (DFC), uma agência financeira do governo dos EUA (um banco estatal de desenvolvimento voltado a projetos estratégicos no exterior), realizou um investimento na empresa Serra Verde (Goiás). Trata-se de um financiamento de US$ 565 milhões. (Folha de S.Paulo, 05.02.26)  

Fato 4. A USA Rare Earth, empresa dos EUA comprou a mineradora brasileira de terras raras Serra Verde por US$ 2,8 bilhões. O acordo de 15 anos com capital do governo dos EUA garante escoamento total da produção da Serra Verde, consolidando o Brasil na corrida global por tecnologia. (REUTERS, 20.04.2026)7 

Um resumo do que estamos assistindo indica que há uma clara estratégia de “pré-posicionamento” geoeconômico. Mais que isso: uma opção de participação futura, mesmo que minoritária. Não se trata de novidade, pois os norte-americanos usam esse tipo de instrumento financeiro (na África e na Ásia para minerais críticos), em que esse tipo de investimento é bastante revelador. O caso da DFC no Brasil segue um padrão já testado pelos Estados Unidos: financiar, garantir acesso e manter opção estratégica sem controle explícito imediato. Era o que se imaginava até a USA Rare Earth informar que adquiriu (?) a mineradora brasileira de terras raras Serra Verde por US$ 2,8 bilhões em dinheiro e ações. 

Esse caso da empresa Serra Verde, com o DFC financiando e a USA Rare Earth comprando, revela exatamente o padrão que os americanos já usaram na África e na Ásia: entra como financiador, garante o fluxo da produção e compra quando o ativo está maduro. Enquanto o Brasil debate modelos e marcos regulatórios, o mercado já havia decidido. 

Antes de tratar com maior acuidade de aspectos legais referentes a essa transação corporativa, chama a atenção de qualquer leitor mais atento o teor da cláusula de proibição de venda da produção da Serra Verde para qualquer empresa do resto do mundo, inclusive para empresas brasileiras. 

Caberia, então, perguntar: o negócio entre a empresa Serra Verde e a USA Rare Earth não seria uma afronta à livre concorrência e à livre iniciativa, além de ser contra a soberania e o interesse nacional? O conjunto de informações disponível justifica e exige que a Justiça brasileira e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica – CADE se posicionem rapidamente. 

Por todos os motivos até aqui elencados, a proposição legislativa, já em tramitação na Câmara dos Deputados, de criação da empresa estatal TERRABRAS – Terras Raras Brasileiras S.A. (uma delas é o PL Nº 1.733q2026, de autoria do Dep. Rodrigo Rollemberg, do PSB/DF) passe, a cada dia, a fazer mais sentido político, econômico e social, pois abre o debate para um projeto de desenvolvimento nacional. Ainda está em aberto qual seria o melhor formato de inserção do Estado, mas de pronto traz à lume a ideia de que o Estado brasileiro deverá atuar em favor da nossa soberania no setor mineral, como indutor do desenvolvimento tecnológico nacional. 

A realidade nos impõe como tarefa histórica destacar que o formato da TERRABRAS, se vier a se constituir e consolidar, precisa ter desde a concepção o que aqui denominaremos de mandato tecnológico, não apenas o extrativo mineral, mas termos em mente a necessidade de condicionar qualquer licença ou incentivo do setor a critérios de processamento mínimo em território nacional, como fizemos no caso do petróleo, quando da exploração do pré-sal. 

Sem isso, continuaremos exportando minério bruto e repetindo com as terras raras o mesmo equívoco histórico que cometemos, por exemplo, com o minério de ferro. O risco concreto é trocar a dependência em relação à China pela dependência com os EUA, com a desvantagem de que, no segundo caso, os ativos já estarão fora do nosso controle quando a negociação começar. 

Não se trata, nem de longe, de tarefa fácil. Construir uma empresa do porte que se faz necessário no setor mineral poderá custar alto ao País, mas a opção política, seja do atual Governo (e nas palavras do Presidente Lula, parece sim haver interesse no assunto), seja no próximo mandato presidencial (2027/2030), a TERRABRAS servirá como o pontapé para os debates e ações efetivas de como o Brasil deve proceder para alcançar uma inserção verdadeiramente competitiva no cenário internacional dos minerais críticos e das terras raras. 

Referências 

BLYTH, Mark. Império Solitário. Império Solitário de Mark Blyth – Project Syndicate. Mar 16, 2026. In https://project-syndicate.us10.list-manage.com/track/click?u=9116789a51839e0f88fa29b83&id=bb354800ae&e=db042cbac9 (Acessado em 20.04.2026) 

GUIMARÃES, A.O. Terrabras – uma estatal necessária. Publicado 11/02/2026. In https://outraspalavras.net/crise-brasileira/terrabras-uma-estatal-necessaria/ (Acessado em 10.04.2026) 

GUIMARÃES, A.O. e BRANDÃO, F.C. TERRABRAS S.A. – terras raras e soberania. Publicado 30/03/2026. https://revistaforum.com.br/opiniao/terrabras-s-a-terras-raras-e-soberania/ (Acessado em 20.04.2026) 

SOUZA, Celina. Políticas públicas: uma revisão da literatura. In https://www.scielo.br/j/soc/a/6YsWyBWZSdFgfSqDVQhc4jm/?format=html&lang=pt (Acessado em 03.04.2026) 

REUTERS. Empresa dos EUA compra mineradora brasileira de terras raras por US$ 2,8 bilhões – ISTOÉ DINHEIRO. In https://istoedinheiro.com.br/usa-rare-earth-mineradora (Acessado em 20.04.2026) 

Soberania do Brasil na nova geopolítica das Terras Raras , por Marco Antônio S. C. Branco

Hub TR: Soberania do Brasil com Integração Global na Nova Geopolítica das Terras Raras 

Marco Antônio S. C. Castello Branco¹

21 de abril de 2026

1. O Tabuleiro Global: A Corrida pela Transição e o “De-risking” Ocidental

1.1. Introdução Analítica: A Hegemonia em Xeque e a Nova Ordem Mineral

O século XXI assiste a uma transição tectônica no poder global, onde a supremacia militar e
econômica não é mais medida apenas por barris de petróleo, mas por miligramas de elementos
críticos. Atualmente, o mundo vive sob uma assimetria perigosa: a China controla
aproximadamente 90% da separação e refino de terras raras. Este monopólio não é um acidente
geológico, mas o resultado de quatro décadas de uma política industrial agressiva e deliberada.
Para o Ocidente, essa dependência transformou-se em uma vulnerabilidade existencial.

A urgência do “de-risking” — termo cunhado pela diplomacia europeia e rapidamente adotado
por Washington — não trata apenas de diversificar fornecedores; trata-se de segurança
nacional. No contexto do Inflation Reduction Act (IRA) nos Estados Unidos e do Critical Raw
Materials Act na União Europeia, a busca por fontes seguras (friendly-shoring) tornou-se o novo
imperativo. O acesso a estes minerais é o alicerce para as metas de descarbonização e para a
viabilidade da indústria de defesa. Neste tabuleiro, o Brasil emerge não apenas como um
reservatório mineral, mas como a peça fundamental para o realinhamento estratégico das
democracias liberais.

1.2. Análise de Déficit e Demanda: O Motor da Economia de Baixo Carbono

A transição energética é, em sua essência, uma transição para uma economia intensiva em
metais. O coração desta mudança reside nos ímãs permanentes de alta performance, que
utilizam Neodímio (Nd) e Praseodímio (Pr). Sem esses imãs, a eficiência de motores elétricos e
aerogeradores cai drasticamente. Projeções de mercado indicam um déficit estrutural
iminente: a demanda por NdPr deve triplicar até 2035, enquanto a oferta de terras raras
separadas fora da China caminha a passos lentos.

Estamos diante de um paradoxo da física e da economia: a matriz de baixo carbono, para ser
eficaz, depende de motores de alta densidade energética que só os ímãs de terras raras podem
proporcionar. O déficit de oferta não é uma possibilidade, mas uma certeza matemática se
novos hubs de processamento não forem erguidos com urgência.

1.3. O Paradoxo Brasileiro: O Gigante Refém do Extrativismo

O Brasil detém a terceira maior reserva mundial de terras raras, com 21 milhões de toneladas.
Em termos de volume, nossas jazidas são equivalentes às da Rússia e do Vietnã. No entanto,
nossa relevância industrial é próxima de zero. Este é o “Paradoxo Brasileiro”: possuímos a
geologia, mas somos tecnologicamente irrelevantes na cadeia de valor.

Enquanto países como a Austrália avançam agressivamente para o refino, o Brasil continua
preso à “armadilha da commodity”. Exportamos minério e importamos tecnologia. Se não
alterarmos essa dinâmica, as 21 milhões de toneladas no nosso subsolo (majoritariamente
monazita) servirão apenas para subsidiar a liderança industrial de outras nações, mantendo o
país na periferia da nova economia verde.

1.4. Transição: O Momento do Pivot Estratégico

A convergência entre a fome global por fontes alternativas e a dotação mineral brasileira cria
uma janela de oportunidade histórica que se fechará em breve. O realinhamento estratégico
exige que o Brasil deixe de ser um mero “buraco na terra” para se tornar um elo industrial. O
caminho para isso não passa apenas pela mineração, mas pelo enfrentamento direto do maior
gargalo do setor: a etapa de separação química.

2. O “Gap” da Separação: Onde a Soberania Brasileira se Rompe

2.1. Introdução Analítica: O Choke Point Tecnológico

A mineração de terras raras é, comparativamente, simples. O verdadeiro desafio — e onde
reside o segredo da soberania chinesa — é a separação química individual de cada um dos 17
elementos. É neste estágio que a cadeia brasileira se rompe. Sem infraestrutura de refino, o
Brasil sofre um “enfarte industrial” logo após a extração. A separação é o choke point (ponto
de estrangulamento) que define quem captura o valor e quem apenas arca com o impacto
ambiental da extração.

2.2. O Dilema das Junior Miners: O Sequestro do Valor Agregado

O cenário mineral brasileiro é hoje povoado por junior miners vibrantes, como Serra Verde,
Meteoric, Aclara, Viridis e Brazil Rare Earths. Estas empresas possuem acesso a depósitos de
classe mundial e gestão ágil, mas enfrentam um dilema cruel. Listadas majoritariamente nas
bolsas do Canadá e Austrália, elas carecem de balanço para investir sozinhas nos bilhões de
dólares necessários para uma refinaria.

A consequência é um “Brain Drain” mineral: para viabilizar seus projetos perante investidores,
elas são forçadas a assinar contratos de offtake com a China ou se tornam alvo de aquisições
por tubarões mundiais apoiados pelo cofre de governos estrangeiros. Na prática, estas
empresas para não morrerem estão exportando concentrados brutos e fortalecendo o mesmo
monopólio que o mundo tenta combater. É uma exportação forçada de soberania por falta de
alternativa brasileira de processamento.

2.3. A Barreira de Entrada: Por que o Hub é Inevitável

A separação não é viável para mineradoras isoladas por razões estruturais:

• Intensidade de Capital (CAPEX): Uma planta de refino exige investimentos que
superam o valor de mercado de muitas junior miners.

• Complexidade Metalúrgica: Alcançar purezas de 99,99% exige centenas de estágios de
extração por solventes, um know-how que o Brasil ainda não detém em escala
comercial.

• Gestão de Rejeitos: O processamento lida com elementos radioativos de ocorrência
natural, exigindo uma infraestrutura de segurança que só um arranjo centralizado e
apoiado pelo Estado pode garantir com eficiência.

2.4. Transição: A Solução Colaborativa

A fragmentação é o caminho para a irrelevância. Se o Brasil quer competir, deve abandonar a
ilusão de que cada mineradora terá sua própria refinaria. A soberania brasileira exige à
inteligência institucional e humildade pragmática, porque o tempo corre, o dinheiro é limitado
e mercados não caem do céu. O caminho é a criação de uma “solução de condomínio
industrial”: o Hub TR, onde o processamento centralizado permite escala e viabilidade
econômica para todos os players do setor.

3. A Economia da Agregação de Valor: O Multiplicador de 45x

3.1. Introdução Analítica: O Imperativo da Lucratividade Nacional

Industrializar terras raras não é um exercício de nacionalismo retórico; é uma decisão
pragmática de fluxo de caixa nacional. A diferença entre exportar minério e produzir ímãs é a
diferença entre ser uma economia de subsistência e ser uma potência tecnológica.

3.2. Decomposição da Cadeia de Valor: A Escala do Lucro

A tabela abaixo ilustra o salto exponencial de valor à medida que o mineral é processado. A
maior parte desse valor é capturada após a etapa de separação.

Tabela 1: Comparativo de Agregação de Valor (Base: 1 tonelada de Monazita)

3.3. Avaliação de Impacto: O Significado da Conversão

O dado é avassalador: ao converter apenas 120 kg de NdPr (derivados de uma tonelada de
concentrado) em ímãs, o valor econômico da matéria-prima original é multiplicado por 45
vezes. Quando o Brasil exporta o concentrado, ele está “doando” 44 vezes o valor do seu
recurso natural para que outro país gere empregos de alta tecnologia e impostos em sua
própria jurisdição. Capturar essa margem é o que garantirá o financiamento de toda a
infraestrutura industrial do país.

3.4. Transição: Da Teoria ao Plano de Negócios

Essa pujança econômica é o que sustenta a viabilidade financeira do Hub TR. Não se busca
subsídio, mas a captura de uma margem que hoje é transferida gratuitamente para o exterior.
Para capturar esse valor, desenhou-se um modelo de negócio inovador que partilha riscos e
lucros.

4. O Modelo de Negócio Hub TR: Um Ecossistema de Riscos Partilhados²

4.1. Introdução Analítica: Orquestração Estratégica

O Hub TR não é uma estatal pesada, mas uma “plataforma de orquestração”. Ele resolve a falhade mercado da fragmentação mineral brasileira ao consolidar volumes de fornecedoresdistintos para atingir o “ponto de equilíbrio” industrial que o refino exige.

4.2. O Modelo de “Tolling” (Condomínio Industrial)

O diferencial é o modelo de Tolling: a mineradora mantém a propriedade do mineral (“Feed”) epaga ao Hub uma taxa de processamento (estimada em US$ 59,48/kg REO). O Hub atua comoum prestador de serviço tecnológico.

• Take-or-Pay: Mecanismo onde as mineradoras garantem o pagamento de custos fixos(~US$ 7,30/kg), assegurando a estabilidade financeira do Hub mesmo em ciclos debaixa do mercado.

• Eficiência: O Hub devolve os óxidos separados à mineradora, que agora possui umproduto de alto valor para exportar ou vender para a indústria nacional.

4.3. Estrutura de Capital e Sócios (Investimento Total: USD 409,5M)

A composição acionária é um equilíbrio tripartido desenhado para oferecer soberania nacional,segurança institucional e dinamismo privado.

² Essa proposta foi apresentada em 17/12/2025 à Secretaria Especial do PAC, órgão doMinistério da Casa Civil do governo federal.

Tabela 2: Estrutura de Equity (USD 122,9M)

Nota: O financiamento de 70% da dívida (USD 286,7M) seria via bancos de fomento com custo estimadoem 5% a.a. em dólar.

4.4. Mitigação de Riscos (De-risking) e Perfil de Retorno

O projeto apresenta uma TIR de 6% e um WACC de 4,11% em dólares de 2025, caracterizandoum perfil de “Utility” — um investimento estável, de baixo risco e previsibilidade de longo prazo,ideal para fundos de infraestrutura e parceiros estratégicos. O risco é mitigado peladiversificação de fornecedores de minério concentrado e de mercados de óxidos separados,porque cada mineradora acionista poderá desenvolver sua própria cadeia de consumidores,impedindo que a parada de uma mina ou de um mercado específico comprometa asobrevivência econômica da refinaria.

Aos acionistas mineradores fica assegurado a captura ao comercializar óxidos separados aoinvés de concentrado de minérios. Os acionistas industriais capturam valor ao ter acesso emcondições vantajosas à matéria-prima para seus processos metalúrgicos.

4.5. Transição: A Modernidade da Parceria

Este modelo supera a velha dicotomia entre Estado e Mercado. Ele não é uma tentativa demonopólio, mas uma rede de cooperação. É o reconhecimento de que, no setor de mineraiscríticos, a soberania moderna exige inteligência geopolítica e estratégia de integraçãoglobal.

5. Além da Petrobras: Por que o Modelo de Monopólio é Inadequado

5.1. Introdução Analítica: Evitando o “Estado 1.0”

Muitos analistas sugerem, por inércia histórica, a criação de uma “TerrasBras” nos moldes daPetrobras original. Este é um erro crasso de estratégia geopolítica. O mercado de terras raras éde “nicho tecnológico”, exigindo agilidade e parcerias em P&D que o modelo de monopólioestatal centralizado sufocaria.

5.2. O Desafio da Escala e do Mercado Doméstico

Diferente do petróleo, onde o Brasil tem um mercado interno gigante de combustíveis, as terrasraras servem a indústrias de ponta que ainda estão ganhando escala no país. Um monopólioisolado seria ineficiente e incapaz de absorver a produção. A soberania hoje não significa “fazertudo sozinho”, mas sim “ser indispensável para os outros”.

Quem sabe ser indispensável para os outros num mundo de competição geoestratégicaescolhe o que quer fazer, decide com quem quer trabalhar e negocia o quanto quer ganhar. Asoberania do século XXI é a soberania de rede. O Brasil será livre quando ele for o elo maiseficiente da cadeia verde global, não quando tentar construir uma autarquia mineral.

6. Especificações Técnicas, Governança e o Papel do Estado

6.1. Introdução Analítica: A Infraestrutura da Excelência

Para ser um centro global, o Hub TR deve operar sob os mais rigorosos padrões técnicos eregulatórios. Aqui, o Estado deixa de ser apenas acionista para se tornar o fiador da segurançae da viabilidade de longo prazo.

6.2. Rotas de Processamento e Capacidade (Total: 5.000 t/ano REO)

O projeto utiliza tecnologias validadas internacionalmente:

• Extração por Solventes (SX): Capacidade de 3.850 t/ano para terras raras leves (Ce/La)e 1.000 t/ano para o lucrativo NdPr. É a mesma tecnologia utilizada na planta de WhiteMesa (EUA).

• Troca Iônica (IX): Capacidade de 150 t/ano dedicada exclusivamente a terras raraspesadas (HRE), alcançando pureza superior a 99,999%.

6.3. O Papel do Estado e a Soberania Nuclear

Este é o ponto de maior arrojo estratégico e que levou à paralização da cadeia de terras rarasnos Estados Unidos: a gestão de Urânio e Tório presentes na Monazita.

• A Solução: O Estado brasileiro assume a titularidade e a custódia final desses rejeitos.

• Impacto Financeiro: Isso remove um passivo ambiental e jurídico imenso do balançodas empresas privadas, reduzindo drasticamente o risco do investimento.

• Visão de Futuro: O Tório e o Urânio não serão tratados como lixo, mas armazenadoscomo uma Reserva Estratégica de Energia. O Brasil estará estocando o combustívelpara a próxima geração de reatores nucleares modulares (SMRs).

6.4. Instrumentos Regulatórios: O “Pau e a Cenoura”

Para garantir que o Hub não seja apenas uma via de passagem, propõem-se mecanismos deproteção industrial:

• Imposto de Exportação Progressivo: Sobre concentrados, com 5 anos de carência,para forçar a industrialização local.

• Cota Prioritária de 35%: Consumidores de óxidos de terras raras instalados no Brasiltem acesso garantido a no mínimo 35% da produção de óxidos de terras raras do Hub TRa preços com referência internacional. Isso viabiliza a instalação da cadeia de produção

de componentes e equipamentos usados nas indústrias de petróleo, biocombustíveis,defesa e E-mobilidade.

• Incentivo Fiscal: Crédito de 5% no IRPJ para exportações de produtos finais (comomotores) que utilizem óxidos do Hub.

6.5. Transição: O Alicerce da Indústria Verde

Com as regras do jogo claras e o risco ambiental sob custódia estatal, o terreno está pronto parao florescimento de uma cadeia downstream sem precedentes no Hemisfério Sul.

7. O Impacto a Jusante: O Renascimento da Indústria Verde Brasileira

7.1. Introdução Analítica: A Reação em Cadeia

O Hub TR é o primeiro dominó de uma nova revolução industrial. Sua existência tornaeconomicamente viável a instalação de fábricas de ímãs e ligas que hoje preferem se localizarna Ásia, América do Norte ou na Europa.

7.2. A Nova Indústria: Do Óxido ao Produto Final

• Etapa 2 (Metalurgia): Transformação dos óxidos em ligas metálicas (NdFeB) e emcatalizadores para refino de petróleo e produção de biocombustíveis como o SAF.

• Etapa 3 (Ímãs): Fabricação de componentes que são o cérebro dos motores modernos.

• Etapa 4 (Indústria Final): Fornecimento para a WEG (aerogeradores e motoresindustriais) e Embraer (eletrificação da aviação), consolidando o Brasil como o “Hub deTecnologia Limpa” do mundo.

7.3. Soberania e Defesa

Em um cenário de conflitos globais, ter o controle da separação de terras raras é vital para aautonomia dos projetos de defesa brasileiros, como o Submarino Nuclear e o caça Gripen. Aindependência nacional depende de não sermos reféns de fornecedores que podem cortar osuprimento por conveniência política.

7.4. Conclusão Geral

O Hub TR é a única resposta concreta que alinha o interesse nacional brasileiro com anecessidade ocidental de “de-risking”. Ele transforma o Brasil de um espectador mineral em umpilar geopolítico. Ao resolver o gap da separação, capturamos o multiplicador de 45x egarantimos que a transição energética global tenha, obrigatoriamente, uma marca brasileira emseu DNA tecnológico. Este é o futuro da soberania industrial: verde, integrada e inabalável.

  ¹ Eng. Metalurgista, Dr.-Ing. pela Universidade Técnica de Clausthal, Alemanha. Ex-presidente da
Vallourec&Mannesmann do Brasil, da Usiminas e da Cia. de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais
([email protected])  

Átomos, estratégia e o futuro da soberania brasileira, por Anderson Gomes

Anderson Gomes*

*Presidente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), Membro ABC e Professor UFPE   

O controle sobre recursos críticos e capacidades tecnológicas redefine o poder global e desafia o Brasil a transformar potencial em estratégia 

Em meio a um cenário internacional cada vez mais fragmentado e competitivo, uma transformação silenciosa redefine as bases do poder global. Vivemos uma era em que a geopolítica deixou de ser apenas sobre territórios e passou a ser, fundamentalmente, sobre átomos. 

Átomos não como abstração científica, mas como matéria-prima do poder. O hélio (He), invisível e escasso, torna-se essencial na fabricação de semicondutores (AsGa, AsGaIn, etc) – o coração de toda infraestrutura digital contemporânea, insumo para os chips. O hidrogênio (H), o primeiro elemento da tabela periódica, ressurge como promessa energética na forma do hidrogênio verde. E os minerais críticos, especialmente as terras raras (Nd, Pr, etc) sustentam desde turbinas eólicas até sistemas militares avançados. Mais ainda: quando falamos dos fertilizantes (outra criticidade), falamos de NPK (Nitrogênio, Fósforo e Potássio). 

Quem controla esses átomos – sua extração, processamento e aplicação – controla cadeias produtivas inteiras. E quem controla cadeias produtivas controla dependências. E dependência, na geopolítica, é o oposto de soberania. 

O caso do hélio é emblemático. Concentrado em poucos países, como o Qatar, ele é um insumo invisível, porém insubstituível, para a indústria de chips. Sem ele, não há litografia de precisão; sem chips, não há economia digital, defesa moderna ou inteligência artificial. Um único elemento químico, portanto, pode condicionar a autonomia tecnológica de nações inteiras. Isso vale para o hidrogênio. Embora abundante no universo, sua forma utilizável como vetor energético exige tecnologia, infraestrutura e, sobretudo, estratégia. Países que dominarem a produção e logística do hidrogênio verde poderão redefinir fluxos energéticos globais, deslocando centros tradicionais de poder. 

Já os minerais críticos revelam outra dimensão: não basta possuir reservas. É preciso dominar refino, cadeia industrial e aplicação tecnológica. A soberania não está no subsolo, mas na capacidade de transformar recurso em valor estratégico. 

No caso dos fertilizantes, a dependência de exportações vai além 80% da quantidade de NPK que consome, sendo altamente vulnerável a choques externos. A dependência é crítica no potássio (até 97,8% importado) e nitrogenados. Já existe o Plano Nacional de Fertilizantes – muito bem elaborado – mas que carece de inteligência estratégica para ser mais efetivo.  

Dessa forma, a equação contemporânea é clara: átomos são poder potencial; soberania é o resultado desse poder internalizado; e estratégia é o que conecta um ao outro. Sem estratégia, recursos viram dependência. Com estratégia, tornam-se autonomia. 

O Brasil, nesse tabuleiro, não é irrelevante – ao contrário. É um dos poucos países que combinam base mineral significativa, capacidade energética renovável e um sistema científico respeitável. Em tese, reúne condições para ser protagonista na geopolítica dos átomos. Na prática, no entanto, ainda opera aquém dessa possibilidade. 

Persistimos, em grande medida, como fornecedores de insumos em cadeias globais cujo valor agregado se concentra fora. Exportamos potencial e importamos tecnologia. Participamos da base, mas raramente do topo. 

Isso não é resultado inevitável da economia global, mas de escolhas – ou da ausência delas. A questão, portanto, não é diagnóstica. Já sabemos onde estão nossos ativos. A questão é estratégica: o que o Brasil decidiu, ou pretende decidir, fazer com eles? 

Responder a isso exige coordenação que vá além de agendas fragmentadas. Exige alinhar política industrial, ciência, tecnologia e inovação, energia e inserção internacional. Exige, sobretudo, instituições capazes de pensar no longo prazo e de sustentar essa visão ao longo do tempo. 

Ministérios, agências, bancos públicos, centros de pesquisa e espaços de reflexão estratégica têm, todos, um papel a cumprir. Alguns, inclusive, já acumulam experiência e capacidade para articular essas agendas de forma mais integrada – ainda que, por vezes, subaproveitada. 

O ponto central é que, sem uma estratégia explícita e consistente, o país corre o risco de assistir à reorganização do poder global a partir de uma posição periférica – não por falta de recursos, mas por falta de direção. O mundo não será dividido apenas entre países ricos e pobres, mas entre aqueles que sabem o que fazer com seus átomos – e aqueles que não sabem. O Brasil claramente tem os átomos.  

E começa, também, a construir caminhos mais estruturados para transformá-los em estratégia. A nova Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ENCTI) surge como uma oportunidade de organizar essa visão de forma transversal – reconhecendo que ciência, tecnologia e inovação não são setores isolados, mas a base sobre a qual se estruturam energia, indústria, defesa e soberania. 

Porque, no fim, os átomos são ciência transformada em capacidade. E é essa capacidade, quando orientada por estratégia, que define o lugar das nações no mundo. 

A ENCTI, se efetivamente incorporada como instrumento de coordenação e ação, seguida por um plano concertado nacionalmente, pode ser o passo decisivo nessa direção. 

Mas, como toda estratégia, seu valor não estará apenas no que diz – e sim no que mobiliza. Já está no papel, precisa sair do papel. 

É aí que, finalmente, átomos deixam de ser apenas matéria. E passam a ser destino. 

Terras raras colocam o Brasil no centro da reindustrialização verde mundial

O Brasil tem a oportunidade de se tornar protagonista na reindustrialização verde, com capacidade de atingir a total produção de terras raras com a mínima emissão de gás carbônico do mundo. É o chamado “refino verde”, explicou a diretora executiva do Instituto E+ Transição Energética, Rosana Santos, no especial Terras Raras do Projeto Brasil.

Rosana trouxe a interface entre mineração e desenvolvimento econômico sustentável no debate com a geóloga, pesquisador e ex-reitora da UnB, Márcia Abrahão. A especialista confirmou que não haverá transição energética ou avanços em tecnologias como a Inteligência Artificial sem minerais críticos e terras raras.

Desmistificando que a extração de terras raras seja amigável ao meio ambiente, Rosana foi além e argumentou que, uma vez inevitável o uso destes minérios na atualizada, o Brasil deve então utilizar sua matriz energética limpa para realizar o “refino verde”.

Ela propôs o uso de biogás e biometano para atingir as altas temperaturas necessárias no processamento dos minerais críticos, o que daria ao produto brasileiro uma vantagem competitiva internacional por ter baixas emissões de carbono, tornando o Brasil o país com a menor emissão possível destes minérios.

Refino verde: como é feito

A representante explicou que processos industriais como o refino de terras raras e outros minerais críticos são “extremamente energointensivos” e exigem altíssimas temperaturas. Enquanto outros países utilizam combustíveis fósseis (carvão ou gás natural) para esse fim, emitindo grandes volumes de gases de efeito estufa, o Brasil pode realizar o chamado “refino verde” utilizando sua matriz elétrica (que é 90% limpa) e complementando com biogás ou biometano para atingir altas temperaturas.

Isso resultaria em minerais refinados com emissões que poderiam chegar a apenas 1/3 das emissões de qualquer outro lugar do mundo.

Para a pesquisadora, a medida seria benéfica ao Brasil não somente em termos ambientais, propriamente. Há uma tendência global onde, em igualdade de preços, o comprador opta pelo produto que emite menos carbono. Mecanismos regulatórios internacionais, como o CBAM europeu (mecanismo de ajuste de fronteira de carbono), começam a considerar o conteúdo de emissões como critério de compra e tributação, o que favorece países com matrizes limpas.

A disponibilidade de energia verde abundante e barata funciona como um imã para indústrias globais, um conceito definido nas fontes como “power shoring”, afirmou Santos. Em vez de apenas exportar a matéria-prima bruta, o Brasil pode atrair empresas para produzirem em território nacional, agregando valor e gerando empregos de qualidade motivados pela pegada de carbono reduzida da produção local, expôs.

Desafios jurídicos

Advogada e pesquisadora, Ana Paula Lemes de Souza abordou junto à Márcia Abrahão os desafios jurídicos, regulatórios e socioambientais. Ela alertou para o perigo de um “atropelamento” dos processos de licenciamento ambiental devido à pressão geopolítica.

Souza destacou os interesses internacionais e os riscos do uso do “mito da sustentabilidade”, onde o discurso da emergência climática poderia ser usado para favorecer interesses bélicos e comerciais em detrimento da soberania territorial e dos povos tradicionais.

Nessa linha, a advogada expôs a importância de regulamentações como os projetos de lei em tramitação – como o PL 2780/2024 e o PL 4443 -, destacando a “regra dos 80%”, que visa exigir que a maior parte das terras raras extraídas seja processada no país para evitar o “neocolonialismo verde”.

Ambas as especialistas destacaram que o Brasil vive um momento estratégico e que a soberania nacional deve ser protegida. Segundo elas, o país deve aproveitar suas riquezas minerais para se tornar um protagonista tecnológico, garantindo que o bônus econômico não resulte em um passivo ambiental e social insustentável para os territórios explorados.

Assista à íntegra dos episódios das especialistas que abordaram os desafios ambientais das Terras Raras no Brasil:

Terras Raras: a corrida contra o tempo para o Brasil

Debate reúne geólogos e especialistas para apontar limites, riscos e caminhos para superar o papel de exportador de matéria-prima.

Como o Brasil pode transformar suas reservas minerais de terras raras em soberania nacional e autonomia tecnológica? A geóloga, pesquisadora e ex-reitora da UnB, Márcia Abrahão, trata de responder a este questionamento com uma equipe de especialistas convidados na série especial Terras Raras, do Projeto Brasil, lançado no Youtube.

O atual diretor-presidente do Serviço Geológico do Brasil (SGB/MME) Valdir Silveira e o doutor em geologia Nilson Francisquini Botelho (UnB/Universidade de Paris) destacaram o potencial estratégico do Brasil no setor, sua importância para a soberania nacional e a transição energética global. 

O país possui uma das maiores reservas mundiais desses minerais, essenciais para tecnologias de ponta como semicondutores, turbinas eólicas e veículos elétricos. Especialistas defendem que o Brasil deve superar o estágio de exportador de matéria-prima para dominar o ciclo tecnológico completo, investindo em pesquisa e purificação. Eles ressaltaram, ainda, a necessidade de políticas públicas integradas que fortaleçam instituições como a CPRM e a Universidade de Brasília (UnB).

Silveira afirma que o Brasil ocupa a segunda ou terceira posição mundial em reservas de terras raras. Ele destaca que o país possui diversidade e complexidade geológica em estados como Goiás, Amazonas, Roraima e no litoral, o que garante fertilidade para depósitos de classe mundial.

O especialista recorda que, nos anos 80, o Brasil possuía uma cadeia de valor de terras raras e tecnologias de processamento mais evoluídas que as da China. 

Contudo, uma decisão política no início dos anos 90 (governo Collor) interrompeu os investimentos por considerar o mercado pequeno na época, o que ele classifica como um “grande erro” que agora exige uma corrida contra o tempo para recuperar o domínio tecnológico.

Desafios a superar

Como uma das principais representações do setor, Valdir Silveira afirmou que Serviço Geológico do Brasil conta com apenas 277 geólogos e hidrólogos para todo o país, um número até dez vezes menor do que o de países como China e Austrália. 

Ele defende o uso de aerogeofísica profunda para saltar etapas de mapeamento e o fortalecimento do Plangel (plano de 10 anos para minerais da transição energética).

Silveira posiciona-se contra a criação de novas empresas estatais específicas para cada mineral (como uma “empresa de terras raras”) ou legislações isoladas. 

Para ele, o Brasil já possui os órgãos necessários — SGB (pesquisa), ANM (regulação) e CETEM (tecnologia mineral) — e o que falta é dar recursos, pessoal e condições de trabalho para que essas instituições atuem de forma integrada com as universidades.

Nilson Francisquini Botelho, professor titular da Universidade de Brasília (UnB) e especialista em geologia com doutorado pela Universidade de Paris, oferece uma perspectiva científica e estratégica sobre o papel das terras raras no Brasil. Ele explicou que das 17 terras raras, ele destaca que apenas quatro elementos são realmente vitais devido ao seu alto valor e demanda: praseodímio, neodímio, disprósio e térbio. 

Botelho destacou o potencial dos depósitos de argila iônica e a necessidade de conhecimento técnico para transformar reservas em produção real. Segundo ele,  esses depósitos são mais fáceis de explorar e são os únicos que contêm abundância de terras raras pesadas (disprósio e térbio), que atualmente são monopólio da China.

“Otimismo exagerado”? A realidade brasileira

Contudo, Botelho alerta para o otimismo exagerado sobre as reservas brasileiras (estimadas em 21 milhões de toneladas). Ele afirma que o Brasil ainda está em estágio inicial e muitas das reservas registradas são de depósitos complexos e de difícil exploração tecnológica, e o que é realmente explotável a curto e médio prazo é uma fração bem menor do total.

Em sua participação na série especial, Adão Villaverde, membro do Conselho de Inovação da FIERGS e detentor do mérito científico brasileiro, aborda o tema das terras raras e minerais críticos sob a ótica da geopolítica e da soberania nacional.

Para ele, esses recursos não são apenas matérias-primas, mas “ativos intangíveis da inovação” e do conhecimento, fundamentais para que o Brasil alcance independência científica e tecnológica.

Ele ressalta que potências como a China e os Estados Unidos (através do Chips Act) estão investindo centenas de bilhões de dólares para garantir a hegemonia nesse setor. O especialista enfatiza que não basta possuir o minério; é preciso dominar o conhecimento técnico-científico para realizar o processamento completo.  

Villaverde enfatiza que a mineração deve ocorrer sob um rigoroso rastreamento socioambiental para garantir o desenvolvimento sustentável e a autonomia geopolítica frente à disputa entre China e Estados Unidos.

O pesquisador é um forte defensor das empresas públicas como indutoras de desenvolvimento. 

Ele cita a CEITEC (semicondutores) como exemplo de instituição que cria “massa crítica” e forma profissionais altamente qualificados que, muitas vezes, acabam suprindo o setor privado. 

Assista aos dois episódios da série especial Terras Raras, com Márcia Abrahão:

Projeto Brasil lança série especial sobre Terras Raras e soberania brasileira na TV GGN

A série propõe uma reflexão sobre a importância estratégica desses minerais na transição energética e nas disputas geopolíticas.

O Projeto Brasil apresenta a série especial “Terras Raras: soberania, energia e futuro”. A série é conduzida pela geóloga e pesquisadora da UnB, Márcia Abrahão, e reúne especialistas de diferentes áreas para discutir os desafios e oportunidades do Brasil diante dessa agenda estratégica.

A nova série de entrevistas da TV GGN, produzida para o Projeto Brasil estreia nesta semana, às 17h.

Os programas são comandados pela geóloga e pesquisadora Márcia Abrahão, ex-reitora da da Universidade de Brasília (UnB), que recebe especialistas de diversas áreas do conhecimento para debater o papel do Brasil na exploração e no uso das Terras Raras, um conjunto de 17 elementos químicos essenciais para tecnologias como baterias, turbinas eólicas, veículos elétricos e equipamentos de alta precisão.

Os episódios vão ao ar diariamente às 17h e abordam diferentes dimensões do tema:

O que são Terras Raras e por que ganharam importância mundial: A Agenda de Pesquisa no Brasil (Episódio 1): com Márcia Abrahão (UnB), Nilson Francisquini Botelho (UnB) e Valdir Silveira (Diretor-presidente interino do Serviço Geológico do Brasil – SGB/MME).

A centralidade das Terras Raras na disputa geopolítica contemporânea (Espisódio 2): com Márcia Abrahão (UnB) e Diógenes Breda (economista, UFU).

Caminhos para uma política soberana de Terras Raras no Brasil: oportunidades, desafios e estratégias (Espisódio 3): com Márcia Abrahão (UnB) e Adão Villaverde (PUC-RS).

Terras Raras e transição energética: implicações para o desenvolvimento econômico do Brasil e as mudanças climáticas (Episódio 4): com Márcia Abrahão (UnB) e Rosana Santos (Instituto E+ Transição Energética).

A proposta da série é contribuir para o debate público sobre como o Brasil pode desenvolver uma política soberana de Terras Raras, conectando pesquisa científica, desenvolvimento industrial e sustentabilidade ambiental.

Assista aos episódios:

Pressão de Trump sobre Venezuela expõe fragilidade regional e disputa por minerais críticos

A escalada de pressões dos Estados Unidos sobre a Venezuela, sob o governo de Donald Trump, não é um episódio isolado de sua política externa agressiva, mas parte de uma disputa global por recursos estratégicos, do petróleo às terras raras, que pode redesenhar o tabuleiro de poder na América do Sul. O alerta foi feito por especialistas em geopolítica, energia e mineração em debate promovido pelo Projeto Brasil, na TV GGN, que reuniu a pesquisadora Astrid Aguilera Cazalbon, pesquisadora do Grupo de Estudos sobre Segurança Energética (GESENE/UFPB), e o professor Fernando Landgraf, da Escola Politécnica da USP. [Assista a íntegra no fim da matéria]

Segundo os analistas, a investida contra Caracas expõe não apenas a vulnerabilidade venezuelana, mas a fragilidade de toda a arquitetura regional de integração e defesa de recursos naturais. Em paralelo, escancara o vazio de uma política brasileira consistente para terras raras, minerais críticos para a indústria de alta tecnologia, em um momento de reorganização das cadeias globais.

Pressão sobre a Venezuela e risco sistêmico

Astrid Aguilera avalia que a estratégia de Washington mira diretamente o controle de recursos energéticos e infraestruturas críticas, com efeitos que extrapolam as fronteiras venezuelanas. “Qualquer processo de ataque, mesmo que pareça isolado em um país, representa um ataque à soberania de todos os outros países da região e do subcontinente como um todo”, afirmou.

Na leitura da pesquisadora, a ofensiva de Trump contra Caracas configura “um ataque direto à nossa soberania e à estabilidade da região”, com potencial de deflagrar conflitos de maior escala. O temor é que disputas em torno de petróleo e gás acabem deslocadas para áreas sensíveis, como a margem equatorial brasileira, ampliando riscos à segurança energética regional.

O debate destacou que, historicamente, episódios de intervenção ou sanções severas contra países produtores não se restringem ao plano diplomático: tendem a impactar fluxos comerciais, investimentos, cadeias de abastecimento e até infraestruturas físicas, fatores que, em um continente interdependente, reverberam além das fronteiras nacionais.

Silêncio institucional e paralisia regional

Apesar da gravidade do cenário, Astrid apontou a ausência de posicionamentos públicos por parte de organismos que deveriam liderar respostas coordenadas. “Hoje faz muita falta ter instituições fortes que consigam construir uma posição conjunta em defesa dos nossos recursos”, disse, ao citar o esvaziamento de instâncias como a União de Nações Sul-Americanas (UNASUL).

Entidades técnicas voltadas à integração energética, como a Organização Latino-Americana de Energia (Olade), a Associação Regional de Empresas de Petróleo e Gás (Arpel) e a Comissão de Integração Energética Regional (CIER), também não apresentaram manifestações formais contra ataques à infraestrutura ou à soberania energética venezuelana.

O Mercosul, que em 2018 se pronunciou sobre a crise humanitária no país, tampouco divulgou declaração recente sobre o agravamento do quadro político e geopolítico. O mesmo ocorre com o Consenso de Brasília, criado em 2023, apesar de a Venezuela integrar o bloco.

Para os especialistas, essa inércia reflete divergências políticas internas e a dificuldade de construir consensos mínimos em um cenário de fragmentação regional, agravado pelo distanciamento da Argentina do atual governo Javier Milei em relação aos mecanismos de integração sul-americana.

Terras raras: corrida global, política nacional ausente

Enquanto a geopolítica do petróleo volta ao centro das tensões internacionais, outro eixo estratégico ganha força: as terras raras, grupo de 17 elementos químicos essenciais à produção de motores elétricos, turbinas eólicas, equipamentos médicos, mísseis, satélites e chips avançados. Apesar de deter algumas das maiores reservas do mundo, o Brasil segue sem uma política estruturada para o setor e permanece majoritariamente como exportador de matéria-prima.

“Não existe hoje uma política de terras raras no Brasil. O que existe é a possibilidade de qualquer empresa, inclusive estrangeira, deter áreas de mineração no país”, afirmou Fernando Landgraf.

Segundo o professor, todos os projetos em andamento estão vinculados a capitais internacionais, sobretudo australianos e canadenses, em parte porque investidores nacionais se afastam de iniciativas de longo prazo diante do custo elevado do crédito. “Com a taxa de juros nesse patamar, o capital brasileiro não tem apetite para esse tipo de investimento”, disse.

Landgraf observa ainda que parte desses agentes atua de forma especulativa, adquirindo direitos minerários sem compromisso imediato com produção, tecnologia ou agregação de valor. “Muitos são aventureiros ou especuladores que só querem valorizar a área para depois vender”, afirmou.

Exportação primária e dependência tecnológica

Um dos principais riscos, segundo os especialistas, é a repetição do padrão histórico de exportação de matéria-prima sem beneficiamento local. Landgraf citou o projeto “Clara” como exemplo: embora avançado do ponto de vista minerário, prevê que a separação dos minerais, etapa mais complexa e tecnologicamente sofisticada, seja realizada nos Estados Unidos, com financiamento do governo americano.

Você exporta o minério e importa o produto de alto valor agregado”, disse o pesquisador, ao apontar que essa dinâmica perpetua a dependência tecnológica e bloqueia o desenvolvimento de uma indústria nacional de ímãs permanentes, componentes-chave da transição energética.

Hoje, iniciativas brasileiras concentram-se em esforços pontuais, como o laboratório-fábrica do SENAI em Minas Gerais e pesquisas no CTEN e no CDTN, ainda restritas à escala experimental. A separação dos 17 elementos das terras raras, destacou Landgraf, permanece um gargalo tecnológico não superado no país.

Risco ambiental e dilemas regulatórios

Outro ponto sensível é o impacto ambiental da mineração de terras raras, sobretudo em regiões vulneráveis. Landgraf alertou para a ausência de estudos robustos sobre os efeitos dessas tecnologias em áreas como Poços de Caldas (MG). “Não sabemos ainda qual é o impacto ambiental real dessas novas rotas de mineração”, disse.

No Congresso, propostas para criar impostos de exportação ou mecanismos de proteção às matérias-primas enfrentam resistência, sob o argumento de que poderiam inviabilizar o surgimento de mineradoras nacionais. O impasse revela, segundo os debatedores, a falta de uma estratégia de Estado capaz de equilibrar soberania, sustentabilidade e desenvolvimento industrial.

Soberania energética e integração em xeque

Para Astrid, a ausência de uma política regional articulada e a dependência crescente de capitais externos colocam em risco a própria ideia de soberania energética coletiva. “A integração energética depende de infraestrutura compartilhada. Um ataque à soberania de um país não fica contido nele, desloca conflitos e vulnerabilidades para os vizinhos”, afirmou.

Na avaliação dos especialistas, sem instituições supranacionais fortes e sem políticas nacionais robustas para recursos estratégicos, a América do Sul tende a seguir como fornecedora de insumos brutos em um mundo cada vez mais competitivo, justamente no momento em que potências disputam petróleo, minerais críticos e cadeias industriais associadas à transição energética e à segurança tecnológica.

O resultado, alertam, é a ampliação da vulnerabilidade externa e a perda de margem de manobra estratégica em um tabuleiro internacional cada vez mais hostil aos países que não controlam suas próprias matérias-primas, tecnologias e cadeias de valor.

Especial Terras Raras: um debate sobre o potencial do Brasil

Um debate sobre o potencial do Brasil em terras raras, elementos químicos cruciais para o desenvolvimento tecnológico e a geopolítica mundial. Este foi o tema do programa do Projeto Brasil no Youtube desta semana, que foi ao ar nesta quinta-feira (23) e contou com a participação de especialistas que estão na linha de frente da pesquisa e do desenvolvimento industrial em torno das terras raras, insumos estratégicos para a transição energética e para a reindustrialização do país.

Na mesa mediada por Sergio Leo, foram convidados Fernando Landgraf, professor titular da Escola Politécnica da USP, doutor em ímãs de terras raras e coordenador do INCT Terras Raras entre 2018 e 2024; Luiz Gonzaga Trabasso, engenheiro mecânico e pesquisador-chefe do Instituto Senai de Inovação em Sistemas de Manufatura e Processamento a Laser, em Joinville (SC), além de coordenador do projeto MagBras, voltado à consolidação da cadeia produtiva nacional de ímãs permanentes; Edinei Koester, geólogo e professor titular do Instituto de Geociências da UFRGS, e Marcelo Barcellos da Rosa, químico e professor associado da UFSM, coordenador do LAQUIF e do projeto CNPq sobre a geoquímica de elementos terras raras na região central do Rio Grande do Sul.

A exploração e industrialização de terras raras no Brasil configuram um tema de extrema relevância geopolítica e econômica para o desenvolvimento nacional. O Brasil possui reservas minerais potencialmente classificadas como a segunda ou terceira maior do mundo, com novos achados de alta concentração no Rio Grande do Sul (como em Caçapava do Sul e Santa Maria) confirmando este potencial.

Os especialistas discutiram os avanços científicos, os desafios industriais e a importância desses minérios para a produção de super ímãs usados em diversas aplicações, como motores elétricos e veículos, destacando o domínio global da China no setor e como o Brasil começa a se destacar nesse campo e a atrair atenção internacional.

O professor Fernando Landgraf focou na dimensão geopolítica e nos desafios estratégicos da produção e discutiu a dependência global da China, que detém mais de 90% da oferta de super ímãs. Como especialista, ele reforçou que o ponto crítico na cadeia produtiva é a etapa de separação (refino) dos elementos de terras raras e explicou que sem essa estrutura no Brasil, o país não conseguirá produzir ímãs, pois não seria viável importar neodímio refinado da Chin.

Landgraf alertou que, embora o Brasil tenha grandes reservas, o jogo global é competitivo, pois o mundo inteiro está desenvolvendo projetos de terras raras, mas confirmou que o país tem potencial e mentes brasileiras por trás, citando a UFSC e a USP, e que egressos brasileiros estão trabalhando em Lagoa Santa e até mesmo em fábricas de ímãs na Europa.

Luís Gonzaga Trabasso, por sua vez, apontou caminhos com o projeto brasileiro MAGBRAS, que busca estabelecer um ciclo completo de produção de ímãs permanentes de terras raras no país, desde a mineração até a reciclagem, com o apoio do setor automotivo e diversas parcerias industriais e acadêmicas. Já em andamento, o objetivo central do projeto, segundo ele, é “dominar o ciclo completo” – desde a mina até o ímã pronto e sua reciclagem – e evitar que as mineradoras exportem o material como commodity.

Ele explicou que o MAGBRAS interliga plantas piloto existentes, como a de separação no CTEM (Rio de Janeiro) e a de redução no IPT (São Paulo). O projeto envolve 12 mineradoras, além de usuários finais como Weg e montadoras (Iveco, Stellantis) e confirmou que há mais parceiros estratégicos de olho, como a Alemanha, que é o país que tem demonstrado maior interesse em transformar a pesquisa em oportunidade de negócios no Brasil.

O geólogo Ednei Queiroz (UFRGS) abordou a prospecção geológica de novas reservas no Sul do país e a viabilidade da exploração. Ele narrou que seu grupo de pesquisa (UFRGS, UFSM, Unipampa) fez achados de rochas com alta concentração de terras raras na região central do Rio Grande do Sul, nas áreas de Caçapava do Sul e Santa Maria (carbonatito Picada dos Tocos e Passo Feio).

Sobre as preocupações ambientais, Queiroz defendeu que tudo pode ser explorado e tudo tem remediação ambiental, desde que seja realizado com cuidado, acompanhamento constante e que todos os atores trabalhem em conjunto. Mencionou o desafio de conciliar a demanda crescente por minerais críticos (devido à tecnologia limpa, como carros elétricos) com a necessidade de responsabilidade ambiental.

Marcelo Barcelos da Rosa (UFSM) detalhou os métodos de pesquisa interdisciplinar utilizados no Sul, com químicos, biólogos, geólogos e engenheiros de Minas, e os desafios ambientais e tecnológicos do beneficiamento (separação dos minérios). Explicou a técnica de Bioprospecção Sustentável, que utiliza a bioprospecção monitorando plantas “ultraabsorvedoras” de terras raras, o que é considerado uma abordagem mais ambientalmente amigável para prospecção.

Ele contou que o grupo já desenvolveu metodologias para a separação dos terras raras em nível de bancada (laboratórios), mas a transição para a escala piloto não é linear, e que há interesse e conversas abertas com entidades internacionais, incluindo doutorandos de Harvard, e empresas que procuram a nanotecnologia desenvolvida no laboratório para auxiliar na extração.

A conclusão principal que emerge da discussão é que o Brasil está em uma corrida estratégica para dominar o ciclo completo de produção, que abrange desde a extração (mina) até o ímã pronto, e a sua posterior reciclagem. O dilema central é evitar a exportação de minérios como commodities, agregando valor ao produto. Para isso, o ponto crítico inegociável é o desenvolvimento da capacidade de separação (refino) dos elementos de terras raras, pois sem essa instalação, a produção de ímãs brasileiros não é viável. O grupo também expôs as parcerias internacionais (com Europa e Japão sendo potenciais colaboradores) e a sustentabilidade ambiental da exploração desses recursos.

Terras Raras, A Nova Fronteira da Reindustrialização Brasileira, por Luís Nassif

Luís Nassif

Oportunidade está em dominar a cadeia produtiva: da separação ao produto final, passando por ímãs, motores, catalisadores, sensores.

O Brasil está diante de uma nova janela histórica — talvez a mais estratégica desde a descoberta do pré-sal. Com cerca de 23% das reservas mundiais estimadas de terras raras, o país tem em mãos um ativo geopolítico e tecnológico capaz de reposicioná-lo como potência industrial verde no século XXI.

A recente decisão da China de restringir exportações aos Estados Unidos reacende o interesse global por fontes alternativas. Nesse contexto, o gesto de aproximação entre Donald Trump e o governo Lula ganha contornos claros: garantir acesso às terras raras brasileiras.

Mas o desafio não é apenas geológico — é político, tecnológico e institucional. O Brasil precisa evitar repetir o ciclo colonial de extração e fuga de valor. A oportunidade está em dominar toda a cadeia produtiva: da separação ao produto final, passando por ímãs, motores, catalisadores, sensores e reciclagem.

Esta série apresenta um plano estratégico para transformar o potencial mineral em soberania industrial, com protagonismo das PMEs, atração de capital estrangeiro sob controle nacional e estímulo à inovação em setores críticos como mobilidade elétrica, saúde, defesa e cultura tecnológica.

As possibilidades trazidas pelas terras raras são grandiosas que, se o país jogar fora a oportunidade, não haverá perdão para os responsáveis.

Resumo Executivo:

  • O Brasil possui uma das maiores reservas de terras raras do mundo, mas ainda não domina sua cadeia produtiva.
  • A série propõe uma Política Nacional de Terras Raras (PNTR) com foco em industrialização, soberania tecnológica e sustentabilidade.
  • São identificados sete eixos industriais estratégicos, com destaque para eletromobilidade, eletrônicos, saúde, defesa e reciclagem.
  • As PMEs são colocadas no centro da estratégia, com instrumentos específicos de crédito, inovação e certificação.
  • A entrada de capital estrangeiro é estruturada em cinco zonas seguras, com cláusulas de controle nacional, transferência de tecnologia e reinvestimento obrigatório.
  • A proposta inclui mecanismos jurídicos, financeiros e diplomáticos para garantir que o Brasil agregue valor e não apenas exporte minério.
  • O objetivo é transformar as terras raras em vetor de reindustrialização verde, geração de empregos qualificados e inserção soberana na nova economia global.

 

Este artigo também consta no Acervo do Projeto Brasil, acesse clicando aqui.

 


 

Leia mais este e outros artigos do Especial GGN Terras Raras no Jornal GGN:

Especial GGN: Terras Raras, A Nova Fronteira da Reindustrialização Brasileira

Eixos de Desenvolvimento Industrial Baseados em Terras Raras

O papel das PMEs no Plano Nacional de Terras Raras

O papel do capital estrangeiro na Política Nacional de Terras Raras