Pressão de Trump sobre Venezuela expõe fragilidade regional e disputa por minerais críticos

A escalada de pressões dos Estados Unidos sobre a Venezuela, sob o governo de Donald Trump, não é um episódio isolado de sua política externa agressiva, mas parte de uma disputa global por recursos estratégicos, do petróleo às terras raras, que pode redesenhar o tabuleiro de poder na América do Sul. O alerta foi feito por especialistas em geopolítica, energia e mineração em debate promovido pelo Projeto Brasil, na TV GGN, que reuniu a pesquisadora Astrid Aguilera Cazalbon, pesquisadora do Grupo de Estudos sobre Segurança Energética (GESENE/UFPB), e o professor Fernando Landgraf, da Escola Politécnica da USP. [Assista a íntegra no fim da matéria]

Segundo os analistas, a investida contra Caracas expõe não apenas a vulnerabilidade venezuelana, mas a fragilidade de toda a arquitetura regional de integração e defesa de recursos naturais. Em paralelo, escancara o vazio de uma política brasileira consistente para terras raras, minerais críticos para a indústria de alta tecnologia, em um momento de reorganização das cadeias globais.

Pressão sobre a Venezuela e risco sistêmico

Astrid Aguilera avalia que a estratégia de Washington mira diretamente o controle de recursos energéticos e infraestruturas críticas, com efeitos que extrapolam as fronteiras venezuelanas. “Qualquer processo de ataque, mesmo que pareça isolado em um país, representa um ataque à soberania de todos os outros países da região e do subcontinente como um todo”, afirmou.

Na leitura da pesquisadora, a ofensiva de Trump contra Caracas configura “um ataque direto à nossa soberania e à estabilidade da região”, com potencial de deflagrar conflitos de maior escala. O temor é que disputas em torno de petróleo e gás acabem deslocadas para áreas sensíveis, como a margem equatorial brasileira, ampliando riscos à segurança energética regional.

O debate destacou que, historicamente, episódios de intervenção ou sanções severas contra países produtores não se restringem ao plano diplomático: tendem a impactar fluxos comerciais, investimentos, cadeias de abastecimento e até infraestruturas físicas, fatores que, em um continente interdependente, reverberam além das fronteiras nacionais.

Silêncio institucional e paralisia regional

Apesar da gravidade do cenário, Astrid apontou a ausência de posicionamentos públicos por parte de organismos que deveriam liderar respostas coordenadas. “Hoje faz muita falta ter instituições fortes que consigam construir uma posição conjunta em defesa dos nossos recursos”, disse, ao citar o esvaziamento de instâncias como a União de Nações Sul-Americanas (UNASUL).

Entidades técnicas voltadas à integração energética, como a Organização Latino-Americana de Energia (Olade), a Associação Regional de Empresas de Petróleo e Gás (Arpel) e a Comissão de Integração Energética Regional (CIER), também não apresentaram manifestações formais contra ataques à infraestrutura ou à soberania energética venezuelana.

O Mercosul, que em 2018 se pronunciou sobre a crise humanitária no país, tampouco divulgou declaração recente sobre o agravamento do quadro político e geopolítico. O mesmo ocorre com o Consenso de Brasília, criado em 2023, apesar de a Venezuela integrar o bloco.

Para os especialistas, essa inércia reflete divergências políticas internas e a dificuldade de construir consensos mínimos em um cenário de fragmentação regional, agravado pelo distanciamento da Argentina do atual governo Javier Milei em relação aos mecanismos de integração sul-americana.

Terras raras: corrida global, política nacional ausente

Enquanto a geopolítica do petróleo volta ao centro das tensões internacionais, outro eixo estratégico ganha força: as terras raras, grupo de 17 elementos químicos essenciais à produção de motores elétricos, turbinas eólicas, equipamentos médicos, mísseis, satélites e chips avançados. Apesar de deter algumas das maiores reservas do mundo, o Brasil segue sem uma política estruturada para o setor e permanece majoritariamente como exportador de matéria-prima.

“Não existe hoje uma política de terras raras no Brasil. O que existe é a possibilidade de qualquer empresa, inclusive estrangeira, deter áreas de mineração no país”, afirmou Fernando Landgraf.

Segundo o professor, todos os projetos em andamento estão vinculados a capitais internacionais, sobretudo australianos e canadenses, em parte porque investidores nacionais se afastam de iniciativas de longo prazo diante do custo elevado do crédito. “Com a taxa de juros nesse patamar, o capital brasileiro não tem apetite para esse tipo de investimento”, disse.

Landgraf observa ainda que parte desses agentes atua de forma especulativa, adquirindo direitos minerários sem compromisso imediato com produção, tecnologia ou agregação de valor. “Muitos são aventureiros ou especuladores que só querem valorizar a área para depois vender”, afirmou.

Exportação primária e dependência tecnológica

Um dos principais riscos, segundo os especialistas, é a repetição do padrão histórico de exportação de matéria-prima sem beneficiamento local. Landgraf citou o projeto “Clara” como exemplo: embora avançado do ponto de vista minerário, prevê que a separação dos minerais, etapa mais complexa e tecnologicamente sofisticada, seja realizada nos Estados Unidos, com financiamento do governo americano.

Você exporta o minério e importa o produto de alto valor agregado”, disse o pesquisador, ao apontar que essa dinâmica perpetua a dependência tecnológica e bloqueia o desenvolvimento de uma indústria nacional de ímãs permanentes, componentes-chave da transição energética.

Hoje, iniciativas brasileiras concentram-se em esforços pontuais, como o laboratório-fábrica do SENAI em Minas Gerais e pesquisas no CTEN e no CDTN, ainda restritas à escala experimental. A separação dos 17 elementos das terras raras, destacou Landgraf, permanece um gargalo tecnológico não superado no país.

Risco ambiental e dilemas regulatórios

Outro ponto sensível é o impacto ambiental da mineração de terras raras, sobretudo em regiões vulneráveis. Landgraf alertou para a ausência de estudos robustos sobre os efeitos dessas tecnologias em áreas como Poços de Caldas (MG). “Não sabemos ainda qual é o impacto ambiental real dessas novas rotas de mineração”, disse.

No Congresso, propostas para criar impostos de exportação ou mecanismos de proteção às matérias-primas enfrentam resistência, sob o argumento de que poderiam inviabilizar o surgimento de mineradoras nacionais. O impasse revela, segundo os debatedores, a falta de uma estratégia de Estado capaz de equilibrar soberania, sustentabilidade e desenvolvimento industrial.

Soberania energética e integração em xeque

Para Astrid, a ausência de uma política regional articulada e a dependência crescente de capitais externos colocam em risco a própria ideia de soberania energética coletiva. “A integração energética depende de infraestrutura compartilhada. Um ataque à soberania de um país não fica contido nele, desloca conflitos e vulnerabilidades para os vizinhos”, afirmou.

Na avaliação dos especialistas, sem instituições supranacionais fortes e sem políticas nacionais robustas para recursos estratégicos, a América do Sul tende a seguir como fornecedora de insumos brutos em um mundo cada vez mais competitivo, justamente no momento em que potências disputam petróleo, minerais críticos e cadeias industriais associadas à transição energética e à segurança tecnológica.

O resultado, alertam, é a ampliação da vulnerabilidade externa e a perda de margem de manobra estratégica em um tabuleiro internacional cada vez mais hostil aos países que não controlam suas próprias matérias-primas, tecnologias e cadeias de valor.

Confederações Internacionais condenam ataque à Venezuela

Trazemos esta declaração conjunta da Confederação Sindical Internacional (CSI) e a Confederação Sindical das Américas (CSA) que condena o ataque desfechado por Trump ao povo e ao governo venezuelano

O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto da página da Confederação Sindical Internacional que tem como principal missão “a promoção e a defesa dos direitos e interesses dos trabalhadores, por meio da cooperação internacional entre sindicatos, campanhas globais e defesa de direitos junto às principais instituições globais.”

Silvia Portela

A CSI e a TUCA condenam veementemente o ataque militar dos EUA à Venezuela e a violação de sua soberania.

A Confederação Sindical Internacional (CSI) e a Confederação Sindical das Américas (CSA) expressam sua rejeição absoluta e inequívoca à operação militar realizada hoje pelo governo dos Estados Unidos da América no território da República Bolivariana da Venezuela.

A Confederação Sindical Internacional (CSI) e a Confederação Sindical das Américas (CSA) expressam sua rejeição absoluta e categórica à operação militar realizada nas primeiras horas de hoje, 3 de janeiro de 2026, pelo governo dos Estados Unidos da América na República Bolivariana da Venezuela.

Considerando a gravidade dos eventos, que incluem o bombardeio de instalações em Caracas e a confirmação pelo governo dos EUA da captura e sequestro do presidente Nicolás Maduro, o movimento sindical internacional:

  • Condena a intervenção militar: Denunciamos esta ação como uma violação flagrante da Carta das Nações Unidas e dos princípios fundamentais do direito internacional. O uso da força militar e a incursão no território de uma nação soberana constituem um ato de guerra inaceitável que ameaça a paz e a estabilidade de toda a região.
  • Defende a soberania e a autodeterminação: Em consonância com nossa histórica defesa da autonomia dos povos e em apoio às declarações dos governos da região que exigem respeito irrestrito à soberania da Venezuela, rejeitamos qualquer tentativa de mudança de regime por meio do uso da força ou interferência estrangeira. O destino da Venezuela deve ser determinado unicamente pelo povo venezuelano, por meios democráticos e pacíficos, sem tutela imperial.
  • Exige respeito aos direitos humanos: Unimo-nos às urgentes demandas internacionais por provas de que o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, estão vivos, pelo respeito à sua integridade física e por sua libertação, bem como a de quaisquer outros cidadãos detidos nesta operação ilegal. É imprescindível que a comunidade internacional receba total transparência sobre sua situação atual.
  • Apela à paz e ao diálogo: Compartilhamos a posição expressa pelos governos do Brasil, do México e de outras nações soberanas, que condenam a violência e ressaltam a necessidade urgente de retorno aos canais diplomáticos. A região deve permanecer uma Zona de Paz; não permitiremos que a América Latina seja arrastada para um conflito armado por interesses geopolíticos que não são os de nossos povos.

“De forma alguma esses atos defendem a democracia. São claros atos de agressão no contexto de uma agenda de política externa militarizada, impulsionada por interesses econômicos unilaterais”, afirmou o Secretário-Geral da CSI, Luc Triangle. “Ameaças de sequestro e o uso indevido dos tribunais para atacar um governo soberano minam o Estado de Direito, internacionalmente,“E estabelecem um precedente para a coerção imperialista que representa uma ameaça à paz em todo o mundo.”

“Nós, o movimento sindical das Américas, condenamos o ataque militar e o sequestro do presidente Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, uma violação da soberania e integridade da Venezuela e de toda a América Latina e Caribe, declarada Zona de Paz pela CELAC em 2014. Estamos lançando mecanismos internacionais de solidariedade com o povo e os trabalhadores da Venezuela”, disse o secretário-geral da CSA, Rafael Freire. “Defendemos a Venezuela e toda a América Latina como um território de paz. Não aceitamos a invasão e o uso da violência contra nossos povos e territórios. O movimento sindical está, como sempre, na linha de frente da defesa da soberania e da autodeterminação, da democracia e dos direitos humanos.”

A CSI e a CSA permanecem mobilizadas contra a interferência imperialista, militar ou econômica de um país em outro, contra as guerras e na firme defesa da paz, da democracia e do multilateralismo.

Pela soberania, paz e autodeterminação de todos os povos.

Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações.

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