Acordo Mercosul–UE pode aprofundar fragilidade da indústria brasileira, alertam especialistas

O acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia (UE), apresentado como marco diplomático após mais de duas décadas de negociações, pode aprofundar a fragilidade estrutural da indústria brasileira caso não venha acompanhado de uma política industrial articulada, agressiva e de longo prazo. O alerta foi feito por especialistas no programa especial do Projeto Brasil, transmitido na TV GGN, que discutiu os impactos econômicos, produtivos e geopolíticos do tratado.

Segundo as professoras Marta Castilho, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Miriam Saraiva, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), o acordo explicita uma assimetria estrutural entre os dois blocos. Enquanto a União Europeia opera com uma base industrial sofisticada, diversificada e tecnologicamente avançada, o Mercosul permanece concentrado em exportações agrícolas e minerais, o que eleva o risco de reprimarização da economia.

O acordo tende a reforçar um padrão clássico Norte-Sul, em que exportamos produtos primários e importamos bens de maior valor agregado”, afirmou Castilho. Para ela, sem instrumentos de defesa e investimentos produtivos coordenados, o Brasil corre o risco de aprofundar sua trajetória de desindustrialização.

Indústria sob pressão

Entre os setores mais vulneráveis estão os segmentos químico, farmacêutico, automobilístico, de máquinas e equipamentos e de bens de capital, justamente aqueles com maior densidade tecnológica e hoje dependentes de proteção tarifária para competir. Segundo Castilho, a redução dessas barreiras pode ser “perniciosa” para cadeias produtivas estratégicas.

No setor automotivo, por exemplo, há o risco de “arbitragem de produção”: empresas europeias com fábricas no Brasil podem concluir que é mais vantajoso produzir na Europa e exportar ao Mercosul, em vez de manter plantas industriais locais.

Outro ponto sensível envolve os minerais críticos, como o lítio. O acordo limita a imposição de impostos sobre a exportação desses recursos, o que, segundo Castilho, “desestimula o beneficiamento industrial” e empurra países como Brasil e Argentina para o papel de fornecedores de matéria-prima na transição energética global.

Agronegócio: ganhos aquém do esperado

Embora o agronegócio brasileiro tenha sido historicamente um dos principais defensores do acordo, os ganhos concretos ficaram abaixo das expectativas. Setores agrícolas europeus, especialmente na França, resistiram fortemente à abertura, resultando em cotas reduzidas e concessões mais restritas do que o inicialmente previsto.

No Brasil, segmentos como o vinícola se preparam para enfrentar concorrência direta de produtos europeus, com queda expressiva de tarifas. Segundo Saraiva, esses setores tendem a aceitar a abertura e, em contrapartida, pressionar o governo por políticas de competitividade, como redução do Custo Brasil e melhorias em logística e financiamento.

Compras públicas como instrumento de defesa

Apesar do cenário adverso, o Brasil conseguiu negociar exceções relevantes no capítulo de compras governamentais. Áreas estratégicas, como o Sistema Único de Saúde (SUS), ficaram fora da abertura irrestrita, preservando o poder do Estado de direcionar licitações para estimular a produção nacional.

Foi uma das partes mais difíceis da negociação”, explicou Saraiva. Segundo ela, enquanto a União Europeia defendia abertura total, o Brasil adotou postura protetiva, especialmente após renegociar pontos flexibilizados na versão assinada em 2019, durante o governo Jair Bolsonaro.

O resultado permite que União, estados e municípios mantenham áreas protegidas, usando o poder de compra pública como instrumento de política industrial, uma das poucas ferramentas diretas ainda disponíveis em um contexto de abertura comercial.

Continuidade sob risco

Outro desafio estrutural é a instabilidade das políticas industriais no Brasil. Para Saraiva, a continuidade depende menos dos governos e mais do engajamento do próprio setor privado.

O setor beneficiado precisa agir como força de veto contra retrocessos”, disse, citando o papel da Confederação Nacional da Indústria (CNI) ao barrar tentativas de desmonte da Tarifa Externa Comum do Mercosul durante o governo Paulo Guedes.

Sem esse compromisso, avalia, qualquer avanço tecnológico obtido nos anos de transição pode ser revertido por mudanças políticas, transformando o acordo em mais um episódio de abertura sem contrapartida produtiva.

Geopolítica e rearranjo global

Além dos efeitos econômicos, o acordo tem peso estratégico em um cenário de fragmentação do comércio internacional e retração do multilateralismo. Para Saraiva, trata-se de um reposicionamento do Mercosul diante da crescente rivalidade entre Estados Unidos e China.

A União Europeia está bastante fragilizada frente às pressões norte-americanas, especialmente em segurança e defesa”, afirmou. “Esse não é apenas um acordo comercial, é um acordo de associação interregional, que inclui cooperação política e tecnológica.”

Ela citou como precedente a parceria entre Brasil e Suécia no programa dos caças Gripen, exemplo de transferência tecnológica viabilizada por acordos estruturados de cooperação.

Entre desenvolvimento e dependência

Para Castilho, o sucesso ou fracasso do acordo dependerá diretamente da capacidade do Estado brasileiro de articular política comercial, industrial e tecnológica. Sem isso, o tratado pode se converter em uma abertura de mercado assimétrica, com efeitos duradouros sobre a soberania produtiva.

O acordo não pode ser visto como um fim em si mesmo”, resumiu. “Ele precisa ser tratado como uma ferramenta dentro de um projeto nacional de desenvolvimento.

O risco, caso contrário, é consolidar um modelo econômico baseado na exportação de commodities e na importação de tecnologia.

Mercosul – UE: Uma vitória Europeia?

A autorização da União Europeia para a celebração de um acordo de livre-comércio com o Mercosul depois de 25 anos de negociações é analisado neste artigo do ponto de vista europeu. Alexandra Sharp, redatora do World Brief, argumenta que será pequeno o seu impacto econômico comparado à instabilidade política que ele poderá causar.

Mas é claro que essa analise poderá ser diferente do ponto de vista do Brasil e dos outros países do bloco. Para o Brasil haverá prováveis ganhos para o setor agrícola, com a ressalva de que os preços internos dos alimentos já sofrem com as exportações atuais de alimentos. Para a indústria, a longo prazo já que as tarifas vão baixar de forma lenta, haverá prejuízos com a concorrência europeia. Mas como ressalta Sharp, o Parlamento Europeu precisa aprovar o acordo para que ele seja implementado.

O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto do World Brief, que é ”o principal boletim informativo diário da FP Foreign Policy e atualiza sobre as notícias das últimas 24 horas em cinco minutos”.

Silvia Portela

World Brief: o principal boletim informativo diário da FP, que resume as notícias das últimas 24 horas em cinco minutos.

O acordo comercial UE-Mercosul pode não ser a grande vitória que alguns na Europa esperam.

O acordo deverá adicionar apenas 0,05% à economia da UE e desencadeou uma turbulência política em toda a Europa.

Por Alexandra Sharp, redatora do World Brief na Foreign Policy.

Grande vitória ou motivo para mais instabilidade?

A União Europeia deu sinal verde na sexta-feira a um acordo comercial com o bloco sul-americano Mercosul, superando 25 anos de negociações prolongadas para criar uma das maiores zonas de livre comércio do mundo. Embora os principais apoiadores europeus do acordo, como o chanceler alemão Friedrich Merz e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, estejam comemorando o acordo como uma vitória, analistas sugerem que o impacto econômico do acordo no continente será mínimo, na melhor das hipóteses, e poderá desencadear mais instabilidade política, na pior.

Nos termos do acordo UE-Mercosul, mais de 90% das tarifas sobre as exportações da UE serão eliminadas, permitindo um mercado integrado de cerca de 780 milhões de consumidores. A Europa apresentou o acordo como necessário para contrabalançar as elevadas tarifas dos EUA, o que impulsionaria as indústrias automobilística e farmacêutica da UE, além de ser uma forma significativa de melhorar a reputação do bloco no cenário mundial.

A UE também acredita que o acordo ajudará a diversificar os mercados europeus, especificamente ao fornecer outra fonte de matérias-primas essenciais além da China. Pequim é o maior parceiro comercial da América do Sul, em grande parte devido aos investimentos da Iniciativa Cinturão e Rota da China.

“Num momento em que o comércio e as dependências estão sendo instrumentalizados e a natureza perigosa e transacional da realidade em que vivemos se torna cada vez mais evidente, este acordo comercial histórico é mais uma prova de que a Europa traça seu próprio rumo e se mantém como um parceiro confiável”, disse von der Leyen.

No entanto, a Comissão Europeia estima que o acordo UE-Mercosul acrescentará apenas 0,05% (cerca de 90,2 mil milhões de dólares) à economia do bloco até 2040.Isso ocorre porque o comércio entre a Europa e os cinco membros plenos do Mercosul — Argentina, Brasil, Bolívia, Paraguai e Uruguai — é historicamente baixo, mesmo com o Brasil (a maior economia da América Latina) fazendo parte do acordo.

A iminente assinatura do acordo também ameaça exacerbar a instabilidade política na Europa. Nas últimas semanas, agricultores e ativistas ambientais intensificaram seus protestos contra o acordo, alegando preocupações de que ele não proteja os interesses europeus. Trabalhadores agrícolas afirmam que o acordo inundará a UE com importações baratas de alimentos, especificamente carne bovina e aves; aumentará os preços; e exigirá regulamentação local excessiva. Enquanto isso, grupos ambientalistas e outros críticos argumentam que os produtores sul-americanos não atendem aos padrões europeus em relação ao tratamento de animais, desmatamento, pesticidas e direitos trabalhistas.

Áustria, França, Hungria, Irlanda e Polônia votaram contra o acordo na sexta-feira, e a Bélgica se absteve. No entanto, concessões de última hora, incluindo o acesso antecipado a cerca de US$ 52 bilhões em ajuda agrícola, convenceram a Itália — um dos principais países resistentes — a mudar de posição, permitindo a aprovação do acordo.

O Parlamento Europeu ainda precisa aprovar o tratado para que ele seja implementado. Entretanto, agricultores de toda a Europa iniciaram novos protestos na sexta-feira, e os partidos de extrema-esquerda e extrema-direita da França apresentaram ou prometeram apresentar moções de censura contra o governo do presidente Emmanuel Macron devido à iminente assinatura do acordo.

Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações.

Confederações Internacionais condenam ataque à Venezuela

Trazemos esta declaração conjunta da Confederação Sindical Internacional (CSI) e a Confederação Sindical das Américas (CSA) que condena o ataque desfechado por Trump ao povo e ao governo venezuelano

O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto da página da Confederação Sindical Internacional que tem como principal missão “a promoção e a defesa dos direitos e interesses dos trabalhadores, por meio da cooperação internacional entre sindicatos, campanhas globais e defesa de direitos junto às principais instituições globais.”

Silvia Portela

A CSI e a TUCA condenam veementemente o ataque militar dos EUA à Venezuela e a violação de sua soberania.

A Confederação Sindical Internacional (CSI) e a Confederação Sindical das Américas (CSA) expressam sua rejeição absoluta e inequívoca à operação militar realizada hoje pelo governo dos Estados Unidos da América no território da República Bolivariana da Venezuela.

A Confederação Sindical Internacional (CSI) e a Confederação Sindical das Américas (CSA) expressam sua rejeição absoluta e categórica à operação militar realizada nas primeiras horas de hoje, 3 de janeiro de 2026, pelo governo dos Estados Unidos da América na República Bolivariana da Venezuela.

Considerando a gravidade dos eventos, que incluem o bombardeio de instalações em Caracas e a confirmação pelo governo dos EUA da captura e sequestro do presidente Nicolás Maduro, o movimento sindical internacional:

  • Condena a intervenção militar: Denunciamos esta ação como uma violação flagrante da Carta das Nações Unidas e dos princípios fundamentais do direito internacional. O uso da força militar e a incursão no território de uma nação soberana constituem um ato de guerra inaceitável que ameaça a paz e a estabilidade de toda a região.
  • Defende a soberania e a autodeterminação: Em consonância com nossa histórica defesa da autonomia dos povos e em apoio às declarações dos governos da região que exigem respeito irrestrito à soberania da Venezuela, rejeitamos qualquer tentativa de mudança de regime por meio do uso da força ou interferência estrangeira. O destino da Venezuela deve ser determinado unicamente pelo povo venezuelano, por meios democráticos e pacíficos, sem tutela imperial.
  • Exige respeito aos direitos humanos: Unimo-nos às urgentes demandas internacionais por provas de que o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, estão vivos, pelo respeito à sua integridade física e por sua libertação, bem como a de quaisquer outros cidadãos detidos nesta operação ilegal. É imprescindível que a comunidade internacional receba total transparência sobre sua situação atual.
  • Apela à paz e ao diálogo: Compartilhamos a posição expressa pelos governos do Brasil, do México e de outras nações soberanas, que condenam a violência e ressaltam a necessidade urgente de retorno aos canais diplomáticos. A região deve permanecer uma Zona de Paz; não permitiremos que a América Latina seja arrastada para um conflito armado por interesses geopolíticos que não são os de nossos povos.

“De forma alguma esses atos defendem a democracia. São claros atos de agressão no contexto de uma agenda de política externa militarizada, impulsionada por interesses econômicos unilaterais”, afirmou o Secretário-Geral da CSI, Luc Triangle. “Ameaças de sequestro e o uso indevido dos tribunais para atacar um governo soberano minam o Estado de Direito, internacionalmente,“E estabelecem um precedente para a coerção imperialista que representa uma ameaça à paz em todo o mundo.”

“Nós, o movimento sindical das Américas, condenamos o ataque militar e o sequestro do presidente Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, uma violação da soberania e integridade da Venezuela e de toda a América Latina e Caribe, declarada Zona de Paz pela CELAC em 2014. Estamos lançando mecanismos internacionais de solidariedade com o povo e os trabalhadores da Venezuela”, disse o secretário-geral da CSA, Rafael Freire. “Defendemos a Venezuela e toda a América Latina como um território de paz. Não aceitamos a invasão e o uso da violência contra nossos povos e territórios. O movimento sindical está, como sempre, na linha de frente da defesa da soberania e da autodeterminação, da democracia e dos direitos humanos.”

A CSI e a CSA permanecem mobilizadas contra a interferência imperialista, militar ou econômica de um país em outro, contra as guerras e na firme defesa da paz, da democracia e do multilateralismo.

Pela soberania, paz e autodeterminação de todos os povos.

Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações.

O CLACS publica artigos em seu blog a partir de diversas perspectivas. As opiniões expressas são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente as visões do CLACS ou da UC Berkeley.

A ciência da guerra e a soberania em risco: lições de Bousquet para o Brasil e a América Latina

Em The Scientific Way of Warfare, Antoine Bousquet mostra como cada regime científico moldou a guerra moderna — da mecânica ao caos das redes — e revela chaves para compreender os ataques dos EUA à soberania latino-americana

Mais do que um estudo sobre história militar, o livro de Bousquet é um guia estratégico para entender o presente. Da pressão econômica às sanções seletivas, dos navios de guerra no Caribe às operações digitais contra o Brasil, o “regime chaoplexic” da guerra em rede evidencia que a América Latina continua sendo um laboratório de intervenções e disputas pela ordem global.

Preambulo

Há livros que atravessam a nossa trajetória de forma silenciosa, e há outros que, ao serem encontrados, transformam radicalmente a maneira como enxergamos o mundo. The Scientific Way of Warfare, de Antoine Bousquet, pertence a essa segunda categoria. Conheci a obra por indicação de um amigo querido, Eden Cardim, que, em meio a uma conversa sobre política, tecnologia e poder, me disse que esse livro poderia ser um divisor de águas nas minhas pesquisas. Ele estava certo.

A cada página, compreendi melhor não apenas o passado das guerras, mas sobretudo o presente — esse presente convulsionado, marcado por guerras híbridas, redes digitais e operações de desinformação. Bousquet me ofereceu uma chave que faltava: entender que a guerra sempre se reinventa a partir dos paradigmas científicos e tecnológicos dominantes, e que hoje, na era do caos e da complexidade, estamos vivendo uma forma de conflito que atravessa nossas democracias, nossas economias e até nossas subjetividades.

Resolvi escrever este texto não como uma resenha acadêmica, mas como um artigo estratégico, pensado para jornalistas, pesquisadores, militantes, lideranças políticas e qualquer cidadão que queira compreender a engrenagem invisível que move os ataques contra as soberanias nacionais. Mais do que comentar o livro, quero compartilhar a urgência de sua leitura: porque sem compreender os regimes científicos da guerra descritos por Bousquet, corremos o risco de não reconhecer os sinais do presente — e, consequentemente, de não ter ferramentas para enfrentá-los.

Introdução — O Livro como Chave de Leitura do Presente

Quando Antoine Bousquet publicou The Scientific Way of Warfare: Order and Chaos on the Battlefields of Modernity, em 2009, poucos poderiam prever que, mais de uma década depois, o livro seria não apenas uma referência acadêmica, mas uma ferramenta indispensável para entender o presente. A obra, parte da coleção Critical War Studies, rompe com o formalismo das análises militares tradicionais e mergulha naquilo que realmente define a guerra contemporânea: a íntima relação entre ciência, tecnologia e poder. Para Bousquet, cada paradigma científico que emergiu na modernidade deu origem a um novo regime de guerra — do mecanicismo newtoniano ao caos das redes — e é essa chave que permite compreender os conflitos atuais, em especial os ataques híbridos que hoje atingem a América Latina e o Brasil.

Ao mostrar como o “modo científico de fazer a guerra” sempre esteve associado às metáforas tecnológicas dominantes, Bousquet nos oferece um mapa para decifrar a crise global. Se no século XVIII os exércitos funcionavam como relógios disciplinados, e no século XX a destruição termodinâmica das guerras industriais deu lugar à obsessão cibernética da Guerra Fria, hoje vivemos sob o regime chaoplexic, marcado por redes, complexidade e caos. Essa é a gramática invisível que rege não apenas os drones e os algoritmos militares, mas também as sanções econômicas, o lawfare, as campanhas de desinformação e as pressões diplomáticas que se abatem sobre o Brasil e seus vizinhos.

No mundo atual, em que navios de guerra norte-americanos patrulham o Caribe enquanto ministros brasileiros sofrem sanções pessoais, a leitura de Bousquet ganha contornos quase proféticos. Ele mostra que a guerra não é apenas um fenômeno bélico restrito aos campos de batalha, mas um processo difuso que atravessa sociedades, economias e consciências. Essa perspectiva é fundamental para entender por que a América Latina permanece como um laboratório de intervenções: a lógica não é mais apenas ocupar territórios com tanques, mas sim manipular fluxos de informação, sufocar economias e corroer instituições por dentro. O livro de Bousquet nos alerta: a guerra hoje se manifesta na fronteira difusa entre ordem e caos, e é nessa fronteira que o destino das soberanias nacionais está sendo decidido.

Os Quatro Regimes Científicos da Guerra

A originalidade de Antoine Bousquet está em mostrar que a guerra nunca foi apenas técnica ou tática, mas sempre esteve moldada pelas metáforas científicas dominantes de cada época. Ele identifica quatro regimes fundamentais que não apenas explicam o passado, mas também ajudam a decifrar o presente.

O regime mecanicista, nascido com o Iluminismo e a física newtoniana, via os exércitos como relógios de engrenagens. Soldados eram peças de uma máquina que se movia de acordo com a disciplina rígida e a ordem centralizada dos monarcas ilustrados. Esse modelo foi encarnado pelos exércitos de Frederico, o Grande, e deixou marcas profundas na ideia de que a guerra podia ser organizada como um sistema previsível.

Com a Revolução Industrial, surgiu o regime termodinâmico: a guerra como motor a vapor, como liberação de energia em escala destrutiva. As batalhas da Primeira e da Segunda Guerra Mundial, com artilharia pesada, tanques, bombardeios aéreos e, no limite, a bomba atômica, expressam essa lógica. Aqui, a vitória não dependia apenas de disciplina, mas da capacidade de mobilizar recursos, indústria e energia em proporções colossais.

O regime cibernético, típico da Guerra Fria, introduziu a lógica do controle e da retroalimentação. Inspirada nos computadores e nos sistemas de comunicação, a guerra passou a ser pensada em termos de informação, comando e monitoramento. O Vietnã mostrou os limites desse paradigma, mas também consolidou a visão de que exércitos modernos precisavam ser geridos como sistemas complexos de dados, sensores e decisões centralizadas.

Por fim, chegamos ao regime chaoplexic, marcado pela teoria do caos e das redes. Aqui a guerra é descentralizada, organizada em enxames, dinâmica, fluida. Guerrilhas, terrorismo em rede, operações digitais e manipulação informacional encarnam esse novo modelo. O poder não está mais apenas em tanques ou mísseis, mas na capacidade de gerar instabilidade, manipular narrativas, controlar fluxos de informação e explorar vulnerabilidades sociais. É nesse regime que se encaixam os ataques híbridos contemporâneos contra o Brasil e a América Latina.

Do Caos à Rede: A Guerra Chaoplexic

Se os regimes mecanicista, termodinâmico e cibernético ajudaram a estruturar a guerra entre os séculos XVII e XX, é no chaoplexic warfare que encontramos a chave para compreender os conflitos atuais. Inspirado pelas ciências do caos e da complexidade, esse paradigma rompe com a ideia de hierarquia rígida e aposta na descentralização, na auto-organização e na fluidez. O campo de batalha deixa de ser um espaço delimitado por fronteiras e trincheiras para se transformar em rede: múltiplos atores, conectados de maneira horizontal, disputam narrativas, dados e percepções tanto quanto territórios físicos.

Bousquet mostra que conceitos como “enxame” e “auto-sincronização” são centrais nesse novo regime. Exércitos já não dependem apenas de comando centralizado: insurgências, milícias digitais e até campanhas de desinformação operam em lógica distribuída, adaptando-se rapidamente ao ambiente. O exemplo mais citado é o do ciclo OODA, de John Boyd, no qual a velocidade de observar, orientar-se, decidir e agir se torna decisiva. No século XXI, essa aceleração se traduz em drones autônomos, ataques cibernéticos coordenados e enxames de perfis falsos nas redes sociais, todos capazes de saturar o inimigo antes que ele consiga responder.

O mais relevante, porém, é perceber como a guerra chaoplexic transcende o campo militar. O que antes se limitava ao fronte físico hoje invade a política, a economia e a cultura. Uma sanção econômica pode paralisar um setor produtivo inteiro tão eficazmente quanto uma bomba; um processo judicial midiático pode derrubar um governo com mais impacto do que um golpe militar; uma campanha massiva de desinformação pode destruir reputações, dividir sociedades e corroer democracias. Esse é o terreno em que o Brasil e a América Latina se encontram: laboratórios onde a guerra híbrida se manifesta em sua forma mais pura, transformando a disputa geopolítica em disputa cognitiva.

América Latina: Laboratório da Guerra Híbrida

Poucas regiões do mundo ilustram tão bem a aplicação prática das teorias de Antoine Bousquet quanto a América Latina. Desde o século XIX, quando a Doutrina Monroe proclamou que o continente era “esfera de influência natural” dos Estados Unidos, nossos países foram submetidos a sucessivos experimentos de guerra — ora convencionais, ora híbridos. O que Bousquet chama de regimes científicos da guerra aqui se traduziu em golpes, invasões, sanções e operações clandestinas, cada qual adequado ao paradigma dominante da época.

No regime mecanicista, vimos os EUA moldarem exércitos latino-americanos como engrenagens dóceis, treinados em academias militares subordinadas à lógica da disciplina centralizada. No regime termodinâmico, a industrialização da violência se fez sentir em intervenções como a invasão de Granada (1983) ou do Panamá (1989), quando a mobilização de poder de fogo avassalador garantiu vitórias rápidas, mas deixou cicatrizes profundas. O regime cibernético encontrou seu auge na Guerra Fria, quando a lógica de comando e controle se traduziu na Operação Condor: redes de inteligência interligadas, bancos de dados de opositores, tortura sistemática e assassinatos coordenados em escala continental — uma espécie de “network-centric warfare” antes mesmo do termo.

Hoje, no regime chaoplexic, a América Latina volta a ser laboratório. As guerras não se dão mais apenas em selvas ou cidades, mas em redes digitais, tribunais e fluxos econômicos. A Venezuela sofre bloqueios e sanções que corroem sua economia e geram caos social. Cuba permanece sob cerco econômico enquanto é alvo de campanhas de desinformação. A Nicarágua é bombardeada por operações psicológicas e diplomáticas. E o Brasil, maior país da região, tornou-se epicentro desse novo regime: da Lava Jato, que funcionou como uma operação de lawfare transnacional, às atuais sanções contra ministros do Supremo Tribunal Federal e tarifas comerciais impostas em meio a disputas diplomáticas, o país é alvo direto da guerra híbrida estadunidense.

Essas estratégias, longe de incidentes isolados, expressam exatamente o que Bousquet descreve: a guerra como um processo difuso, caótico, descentralizado, onde redes substituem quartéis e algoritmos valem mais do que divisões blindadas. A América Latina, mais uma vez, não é apenas palco — é campo de teste, onde Washington experimenta as técnicas que depois exporta para o resto do mundo.

O Brasil na Linha de Fogo

Se a América Latina como um todo é um laboratório de guerra híbrida, o Brasil ocupa o centro desse experimento. Nenhum outro país da região reúne, ao mesmo tempo, dimensão continental, população massiva, peso econômico, biodiversidade estratégica e protagonismo geopolítico. Justamente por isso, tornou-se alvo privilegiado das pressões estadunidenses, que operam de maneira exemplar sob o regime chaoplexic descrito por Bousquet: uma guerra difusa, travada em múltiplas frentes, combinando sanções, tarifas, lawfare, desinformação e operações psicológicas.

Os exemplos recentes são eloquentes. O governo Trump retomou a escalada de medidas contra Brasília: sanções direcionadas à esposa de um ministro do Supremo Tribunal Federal, restrições de visto a autoridades e ameaças veladas no campo diplomático. Em paralelo, tarifas comerciais sobre produtos brasileiros reaparecem como instrumento de pressão, reeditando a lógica do “porrete econômico” que historicamente moldou a relação entre Washington e seus vizinhos. Ao mesmo tempo, navios de guerra dos EUA no Caribe são percebidos em Brasília como recados indiretos: gestos militares simbólicos que funcionam mais como demonstração de força e intimidação do que como preparação bélica direta.

Mas a dimensão mais sofisticada da guerra contra o Brasil se dá na esfera informacional e jurídica. A Operação Lava Jato, montada em articulação com o Departamento de Justiça dos EUA, funcionou como uma operação de lawfare exemplar: desestruturou setores estratégicos da economia, criminalizou a política desenvolvimentista e abriu espaço para interesses estrangeiros sobre o petróleo do pré-sal. Hoje, a mesma lógica ressurge em novas roupagens — processos seletivos, campanhas de difamação digital, uso de think tanks e fundações estrangeiras para pautar a opinião pública, e uma máquina de desinformação que opera de forma enxameada, saturando o ambiente cognitivo com narrativas corrosivas.

Nesse sentido, o Brasil é a expressão viva da guerra chaoplexic de Bousquet: o inimigo não está em trincheiras visíveis, mas disperso em fluxos de dados, em sanções financeiras, em algoritmos de redes sociais que privilegiam o discurso de ódio, em decisões judiciais que se transformam em armas políticas. O país enfrenta, simultaneamente, o peso de um intervencionismo externo e a corrosão interna promovida por elites locais alinhadas ao projeto hegemônico norte-americano. É um campo de batalha invisível, mas não menos devastador — e, ao mesmo tempo, um espelho do que pode se tornar o futuro da guerra em escala global.

A Ordem e o Caos nas Relações Globais

A chave de leitura de Bousquet — a tensão permanente entre ordem e caos — revela-se decisiva quando olhamos para o cenário internacional. Os Estados Unidos insistem em projetar-se como força ordenadora do sistema global, mas suas próprias estratégias geram instabilidade crônica. A tentativa de impor “ordem” por meio de sanções, tarifas, bloqueios diplomáticos e demonstrações militares tem o efeito paradoxal de alimentar o caos que pretendem controlar. É o dilema central do regime chaoplexic: quanto mais se busca centralizar e disciplinar, mais se abre espaço para resistências descentralizadas e para a emergência de novos polos de poder.

No caso brasileiro, isso se torna evidente. As tarifas de Trump, as sanções contra membros do Judiciário e a pressão sobre a economia nacional buscam enquadrar o país em uma lógica subordinada. Mas, em vez de isolamento, esses movimentos aceleram o realinhamento de Brasília com China, Rússia e os BRICS. Cada ataque norte-americano reforça a percepção de que o Brasil precisa ampliar suas parcerias estratégicas, consolidar a soberania informacional e fortalecer redes regionais de defesa. O que para Washington seria uma demonstração de ordem, acaba funcionando como catalisador de novas alianças e de maior autonomia.

Esse mesmo paradoxo se repete em escala global. As pressões contra a Venezuela alimentam a aproximação de Caracas com Moscou e Pequim. O bloqueio a Cuba só fortalece sua posição simbólica de resistência no Sul Global. E o uso cada vez mais frequente de instrumentos jurídicos, como designações de terrorismo ou programas de sanções extraterritoriais, mina a legitimidade dos EUA junto a organismos multilaterais. O resultado é uma erosão lenta, porém contínua, da hegemonia americana — enquanto cresce o espaço para alternativas multipolares.

Nesse jogo, a América Latina se encontra em um ponto crítico: pode ser apenas campo de manobra, reproduzindo ciclos de dependência e instabilidade, ou pode assumir um papel de protagonista na disputa global. Para isso, precisa reconhecer que o terreno em disputa não é apenas militar ou econômico, mas cognitivo e informacional. Como ensina Bousquet, a guerra chaoplexic se trava em redes, fluxos e percepções. Quem dominar essas camadas terá mais poder do que quem controlar apenas tanques ou bases militares.

Conclusão — Um Livro para o Nosso Tempo

The Scientific Way of Warfare não é apenas uma obra acadêmica sobre a história da guerra. É, antes de tudo, um guia intelectual para compreender o presente — e, em grande medida, antecipar o futuro. Ao mostrar que cada paradigma científico molda não apenas as batalhas, mas também as formas de organização política e social, Antoine Bousquet nos lembra que a guerra nunca está restrita aos quartéis: ela infiltra-se nas instituições, nos tribunais, nas economias e, hoje, sobretudo nas redes digitais.

Para o Brasil e a América Latina, a lição é incontornável. O continente, mais uma vez, se encontra no olho do furacão de um regime bélico global, agora marcado pela lógica chaoplexic. Os EUA aplicam sanções seletivas, tarifas comerciais, campanhas de desinformação e operações psicológicas não para conquistar territórios, mas para moldar subjetividades, corroer instituições e manter a região em posição subordinada. Ao mesmo tempo, novos polos de poder exploram as fissuras criadas por esse intervencionismo, oferecendo alternativas e abrindo espaço para uma multipolaridade em gestação.

Exaltar o livro de Bousquet, neste contexto, é exaltar um instrumento de lucidez. Ele nos ajuda a ver que o caos não é acidente, mas método; que as redes não são apenas canais de comunicação, mas armas de guerra; que a soberania não pode mais ser pensada apenas em termos militares, mas sobretudo informacionais e cognitivos. É nessa arena invisível que o Brasil joga seu destino — e é nela que precisa construir defesas e estratégias próprias.

Em última instância, a leitura de Bousquet é um chamado à vigilância. Um alerta de que a guerra mudou de forma, mas não de objetivo: continua sendo a luta pelo poder e pela hegemonia. Se a América Latina quiser deixar de ser laboratório e se afirmar como protagonista, terá de compreender que a batalha decisiva não se trava apenas nos mares ou nas fronteiras, mas no campo fluido e incerto das redes, onde ordem e caos disputam cada segundo.

Artigo publicado originalmente em <código aberto>

Os recursos naturais, a disputa geopolítica e a luta pela soberania africana

Por José Luís Fiori*

África é o segundo maior continente do mundo, com cerca de 1 bilhão e meio de habitantes, ou seja, 18,83% da população mundial. São nove territórios e 57 Estados independentes, divididos em cinco grandes regiões, e é comum separá-las em dois grandes blocos: a África do Norte, predominantemente arábica, e a África Negra ou Sub-Sahariana, ao sul do Sahel. Apesar de suas dimensões geográficas e demográficas, a África produz apenas 5,4% do PIB mundial (em termos de paridade do poder de compra), 2% das transações comerciais globais e captou menos de 2% do investimento direto estrangeiro dos últimos anos.

A independência africana, depois da II Guerra Mundial, despertou grandes expectativas com relação aos seus novos governos de “libertação nacional” e projetos de desenvolvimento, que foram bem-sucedidos – em alguns casos – durante os primeiros tempos de vida independente. Esse desempenho inicial, entretanto, foi atropelado por sucessivos golpes militares (envolvendo, quase sempre, suas ex-metrópoles coloniais) e pela crise mundial dos anos 1970, que atingiu todas as sociedades periféricas, provocando um prolongado declínio da economia africana até o início do século XXI. Na década de 90, depois do fim do mundo socialista e da Guerra Fria, e no auge da globalização financeira, o continente africano ficou praticamente à margem dos novos fluxos de comércio e investimentos globais. E só voltou a crescer nas primeiras décadas do século XXI, assim mesmo de forma extremamente desigual. Nigéria, Egito e África do Sul são os três países mais ricos da África.

A África conta com 25% das reservas mundiais de urânio, mais de 35% do potencial hidroelétrico do mundo e é responsável pelo fornecimento de 15% da produção mineral do planeta, dos quais 20% de diamantes e platina, 50% de cobalto, mais de 30% de ouro e de cromo, e cerca de 20% de manganês e fosfato.

Além disso, a África é hoje uma grande produtora e fornecedora de petróleo para a Europa e a Ásia. E foi graças a essa sua produção energética, e de alguns outros minerais estratégicos, que a economia africana começou a se recuperar a partir de 2001, alavancada pelo crescimento econômico da China e da Índia. Hoje a China é o maior parceiro comercial da África e vem aumentando seus investimentos em infraestrutura, energia e mineração, assim como no caso da Índia, que compete com os chineses em muitos casos, rivalizando e superando em conjunto a Europa e os Estados Unidos, que foram os principais parceiros econômicos do continente africano logo após as independências nacionais.

Nesse novo contexto, adquire enorme importância a incorporação de Nigéria, Egito e Etiópia como países-membros do BRICS, na 15ª Cúpula do BRICS, realizada em Johanesburgo. Estes vieram se somar à África do Sul como “membros plenos”, e a Nigéria e Uganda, que foram convidados como “membros associados” na 16ª. Cúpula do BRICS, realizada na cidade de Kazan, Rússia.

Do lado norte-americano, depois da frustrada “intervenção humanitária” na Somália, em 1993, o presidente Bill Clinton visitou o continente e definiu uma estratégia de “baixo teor” para a África: democracia e crescimento econômico, através da globalização de seus mercados nacionais. Mas após 2001, os Estados Unidos mudaram sua política africana, em nome do combate ao terrorismo e da proteção de seus interesses estratégicos e energéticos, culminando com a criação, em outubro de 2007, do Comando dos Estados Unidos para a África, o AFRICOM, estabelecido em Camp Lamonier, a maior base militar dos EUA na África, na cidade de Djibouti, onde França e China também possuem bases ultramarinas.

Esse aumento da presença militar americana, entretanto, não foi um fenômeno isolado nas duas primeiras décadas do século XXI; pelo contrário, foi acompanhado de perto pela União Europeia e Grã-Bretanha, que mantém uma importante base militar conjunta com os EUA nas Ilhas Chagos, especificamente em Diego Garcia. Por outro lado, a Rússia vem expandindo sua presença africana, com a assinatura de vários acordos de colaboração militar com países da África Negra – em particular da região do Sahel, que se estende da Costa Atlântica até o Mar Vermelho –, envolvendo o projeto de instalação de uma base naval na costa do Mar Vermelho, no território do Sudão.

Mais recentemente, depois da reeleição de Donald Trump, os EUA recolocaram a economia e recursos minerais no topo da sua agenda africana. E Trump promoveu um primeiro acordo de paz entre Ruanda e a República Democrático do Congo, depois de décadas de conflito, que rendeu para os EUA um acesso privilegiado aos recursos minerais do Congo, como no caso dos seus acordos recentes com a Ucrânia. Assim mesmo, este jogo de xadrez econômico e militar tende a se complicar com o avanço da competição e do enfrentamento entre as “potências ocidentais” e os países do BRICS, liderados exatamente, pela China, Rússia e Índia. Uma disputa que relembra a todo momento a ameaça de uma volta à história trágica da dominação colonial da África.

Cabe relembrar que tudo começou exatamente com a conquista portuguesa da cidade de Ceuta, no norte da África, em 1415, seguindo depois pela costa africana, transformando a população negra na principal commodity da economia mundial a partir do século XVI. Depois, de novo, na “era dos impérios”, no final do século XIX, as potências europeias conquistaram e submeteram – em poucos anos – todo o continente africano, com exceção da Etiópia. E agora, já na terceira década do século XXI, há sinais de que a África possa se transformar – uma vez mais – no palco de um novo grande enfrentamento entre as velhas e novas grandes potências do sistema internacional.

É nesse contexto que se deve ler e interpretar a chamada “primavera árabe”, uma revolta social que se alastrou de 2010 a 2015, no chamado “Grande Médio Oriente” (expressão cunhada pela política externa dos EUA), começando pela Tunísia, seguida por Líbia, Egito, Marrocos e Argélia. Foi um movimento que combinou, em todos os casos, a efervescência e a revolta social interna de cada um destes países com o patrocínio e a intervenção externa, direta ou indireta, dos Estados Unidos, visando a derrubada de governos ou a mudança de regimes que haviam sido apoiados ou financiados até então pelas próprias potências ocidentais. A revolta foi reprimida no Marrocos e na Argélia, e foi revertida no Egito, mas se transformou numa guerra aberta no caso da Líbia, com participação direta das forças da OTAN.

Após 2020, um novo “tufão político” sacudiu a África, com uma sucessão de golpes e revoltas militares concentrados na região do Sahel, incluindo países como Mali, Guiné, Chade, Burkina Faso, Níger e Gabão. Foram sete golpes de Estado em apenas dois anos, quase todos com uma linguagem e proposta de ruptura definitiva dos laços neocoloniais que mantiveram esses países ligados e dependentes de seus colonizadores europeus, mesmo após suas independências. E quase todos se propuseram a aumentar seus graus de soberania interna através de um realinhamento internacional, com uma aproximação militar e econômica da Rússia e da China.

Não há dúvida, entretanto, de que o grande momento de ruptura e afirmação da autonomia africana, em particular a África Negra frente aos seus colonizadores brancos e europeus, aconteceu quando o governo da África do Sul, à frente de vários outros países africanos, entrou com ação judicial junto à Corte Internacional de Justiça sediada em Haia, acusando Israel de genocídio da população palestina da Faixa de Gaza. Uma petição judicial de 84 páginas que acusa Israel de haver violado a Convenção de Genebra de 1948, apoiada posteriormente pelos 57 países da Organização dos Países Islâmicos, e pelos 22 membros da Liga Árabe, além dos governos de Turquia, Colômbia, Brasil e Bolívia.

Pela primeira vez na História, um país africano e negro, ex-colônia europeia, se levanta sobre seus próprios pés e toma a iniciativa soberana de acusar Israel, um “país branco e escolhido por Deus”, por crimes contra a humanidade, frente a um tribunal criado e controlado pelas grandes potências colonialistas europeias, as mesmas que criaram e mantêm o Estado de Israel. Um verdadeiro momento revolucionário nas relações entre a África e seus ex-colonizadores, e mais do que isto, um momento revolucionário na história moral do Sistema Internacional e da Humanidade.


* Este artigo integra a publicação “África Insubmissa” do Observatório Internacional do Século XXI, uma publicação do Grupo de Pesquisa Poder Global e Geopolítica do Capitalismo do CNPQ/LABEPOG/NUBEA/UFRJ. A íntegra da edição pode ser lida aqui, no Acervo do Projeto Brasil.