A ciência da guerra e a soberania em risco: lições de Bousquet para o Brasil e a América Latina

Em The Scientific Way of Warfare, Antoine Bousquet mostra como cada regime científico moldou a guerra moderna — da mecânica ao caos das redes — e revela chaves para compreender os ataques dos EUA à soberania latino-americana

Mais do que um estudo sobre história militar, o livro de Bousquet é um guia estratégico para entender o presente. Da pressão econômica às sanções seletivas, dos navios de guerra no Caribe às operações digitais contra o Brasil, o “regime chaoplexic” da guerra em rede evidencia que a América Latina continua sendo um laboratório de intervenções e disputas pela ordem global.

Preambulo

Há livros que atravessam a nossa trajetória de forma silenciosa, e há outros que, ao serem encontrados, transformam radicalmente a maneira como enxergamos o mundo. The Scientific Way of Warfare, de Antoine Bousquet, pertence a essa segunda categoria. Conheci a obra por indicação de um amigo querido, Eden Cardim, que, em meio a uma conversa sobre política, tecnologia e poder, me disse que esse livro poderia ser um divisor de águas nas minhas pesquisas. Ele estava certo.

A cada página, compreendi melhor não apenas o passado das guerras, mas sobretudo o presente — esse presente convulsionado, marcado por guerras híbridas, redes digitais e operações de desinformação. Bousquet me ofereceu uma chave que faltava: entender que a guerra sempre se reinventa a partir dos paradigmas científicos e tecnológicos dominantes, e que hoje, na era do caos e da complexidade, estamos vivendo uma forma de conflito que atravessa nossas democracias, nossas economias e até nossas subjetividades.

Resolvi escrever este texto não como uma resenha acadêmica, mas como um artigo estratégico, pensado para jornalistas, pesquisadores, militantes, lideranças políticas e qualquer cidadão que queira compreender a engrenagem invisível que move os ataques contra as soberanias nacionais. Mais do que comentar o livro, quero compartilhar a urgência de sua leitura: porque sem compreender os regimes científicos da guerra descritos por Bousquet, corremos o risco de não reconhecer os sinais do presente — e, consequentemente, de não ter ferramentas para enfrentá-los.

Introdução — O Livro como Chave de Leitura do Presente

Quando Antoine Bousquet publicou The Scientific Way of Warfare: Order and Chaos on the Battlefields of Modernity, em 2009, poucos poderiam prever que, mais de uma década depois, o livro seria não apenas uma referência acadêmica, mas uma ferramenta indispensável para entender o presente. A obra, parte da coleção Critical War Studies, rompe com o formalismo das análises militares tradicionais e mergulha naquilo que realmente define a guerra contemporânea: a íntima relação entre ciência, tecnologia e poder. Para Bousquet, cada paradigma científico que emergiu na modernidade deu origem a um novo regime de guerra — do mecanicismo newtoniano ao caos das redes — e é essa chave que permite compreender os conflitos atuais, em especial os ataques híbridos que hoje atingem a América Latina e o Brasil.

Ao mostrar como o “modo científico de fazer a guerra” sempre esteve associado às metáforas tecnológicas dominantes, Bousquet nos oferece um mapa para decifrar a crise global. Se no século XVIII os exércitos funcionavam como relógios disciplinados, e no século XX a destruição termodinâmica das guerras industriais deu lugar à obsessão cibernética da Guerra Fria, hoje vivemos sob o regime chaoplexic, marcado por redes, complexidade e caos. Essa é a gramática invisível que rege não apenas os drones e os algoritmos militares, mas também as sanções econômicas, o lawfare, as campanhas de desinformação e as pressões diplomáticas que se abatem sobre o Brasil e seus vizinhos.

No mundo atual, em que navios de guerra norte-americanos patrulham o Caribe enquanto ministros brasileiros sofrem sanções pessoais, a leitura de Bousquet ganha contornos quase proféticos. Ele mostra que a guerra não é apenas um fenômeno bélico restrito aos campos de batalha, mas um processo difuso que atravessa sociedades, economias e consciências. Essa perspectiva é fundamental para entender por que a América Latina permanece como um laboratório de intervenções: a lógica não é mais apenas ocupar territórios com tanques, mas sim manipular fluxos de informação, sufocar economias e corroer instituições por dentro. O livro de Bousquet nos alerta: a guerra hoje se manifesta na fronteira difusa entre ordem e caos, e é nessa fronteira que o destino das soberanias nacionais está sendo decidido.

Os Quatro Regimes Científicos da Guerra

A originalidade de Antoine Bousquet está em mostrar que a guerra nunca foi apenas técnica ou tática, mas sempre esteve moldada pelas metáforas científicas dominantes de cada época. Ele identifica quatro regimes fundamentais que não apenas explicam o passado, mas também ajudam a decifrar o presente.

O regime mecanicista, nascido com o Iluminismo e a física newtoniana, via os exércitos como relógios de engrenagens. Soldados eram peças de uma máquina que se movia de acordo com a disciplina rígida e a ordem centralizada dos monarcas ilustrados. Esse modelo foi encarnado pelos exércitos de Frederico, o Grande, e deixou marcas profundas na ideia de que a guerra podia ser organizada como um sistema previsível.

Com a Revolução Industrial, surgiu o regime termodinâmico: a guerra como motor a vapor, como liberação de energia em escala destrutiva. As batalhas da Primeira e da Segunda Guerra Mundial, com artilharia pesada, tanques, bombardeios aéreos e, no limite, a bomba atômica, expressam essa lógica. Aqui, a vitória não dependia apenas de disciplina, mas da capacidade de mobilizar recursos, indústria e energia em proporções colossais.

O regime cibernético, típico da Guerra Fria, introduziu a lógica do controle e da retroalimentação. Inspirada nos computadores e nos sistemas de comunicação, a guerra passou a ser pensada em termos de informação, comando e monitoramento. O Vietnã mostrou os limites desse paradigma, mas também consolidou a visão de que exércitos modernos precisavam ser geridos como sistemas complexos de dados, sensores e decisões centralizadas.

Por fim, chegamos ao regime chaoplexic, marcado pela teoria do caos e das redes. Aqui a guerra é descentralizada, organizada em enxames, dinâmica, fluida. Guerrilhas, terrorismo em rede, operações digitais e manipulação informacional encarnam esse novo modelo. O poder não está mais apenas em tanques ou mísseis, mas na capacidade de gerar instabilidade, manipular narrativas, controlar fluxos de informação e explorar vulnerabilidades sociais. É nesse regime que se encaixam os ataques híbridos contemporâneos contra o Brasil e a América Latina.

Do Caos à Rede: A Guerra Chaoplexic

Se os regimes mecanicista, termodinâmico e cibernético ajudaram a estruturar a guerra entre os séculos XVII e XX, é no chaoplexic warfare que encontramos a chave para compreender os conflitos atuais. Inspirado pelas ciências do caos e da complexidade, esse paradigma rompe com a ideia de hierarquia rígida e aposta na descentralização, na auto-organização e na fluidez. O campo de batalha deixa de ser um espaço delimitado por fronteiras e trincheiras para se transformar em rede: múltiplos atores, conectados de maneira horizontal, disputam narrativas, dados e percepções tanto quanto territórios físicos.

Bousquet mostra que conceitos como “enxame” e “auto-sincronização” são centrais nesse novo regime. Exércitos já não dependem apenas de comando centralizado: insurgências, milícias digitais e até campanhas de desinformação operam em lógica distribuída, adaptando-se rapidamente ao ambiente. O exemplo mais citado é o do ciclo OODA, de John Boyd, no qual a velocidade de observar, orientar-se, decidir e agir se torna decisiva. No século XXI, essa aceleração se traduz em drones autônomos, ataques cibernéticos coordenados e enxames de perfis falsos nas redes sociais, todos capazes de saturar o inimigo antes que ele consiga responder.

O mais relevante, porém, é perceber como a guerra chaoplexic transcende o campo militar. O que antes se limitava ao fronte físico hoje invade a política, a economia e a cultura. Uma sanção econômica pode paralisar um setor produtivo inteiro tão eficazmente quanto uma bomba; um processo judicial midiático pode derrubar um governo com mais impacto do que um golpe militar; uma campanha massiva de desinformação pode destruir reputações, dividir sociedades e corroer democracias. Esse é o terreno em que o Brasil e a América Latina se encontram: laboratórios onde a guerra híbrida se manifesta em sua forma mais pura, transformando a disputa geopolítica em disputa cognitiva.

América Latina: Laboratório da Guerra Híbrida

Poucas regiões do mundo ilustram tão bem a aplicação prática das teorias de Antoine Bousquet quanto a América Latina. Desde o século XIX, quando a Doutrina Monroe proclamou que o continente era “esfera de influência natural” dos Estados Unidos, nossos países foram submetidos a sucessivos experimentos de guerra — ora convencionais, ora híbridos. O que Bousquet chama de regimes científicos da guerra aqui se traduziu em golpes, invasões, sanções e operações clandestinas, cada qual adequado ao paradigma dominante da época.

No regime mecanicista, vimos os EUA moldarem exércitos latino-americanos como engrenagens dóceis, treinados em academias militares subordinadas à lógica da disciplina centralizada. No regime termodinâmico, a industrialização da violência se fez sentir em intervenções como a invasão de Granada (1983) ou do Panamá (1989), quando a mobilização de poder de fogo avassalador garantiu vitórias rápidas, mas deixou cicatrizes profundas. O regime cibernético encontrou seu auge na Guerra Fria, quando a lógica de comando e controle se traduziu na Operação Condor: redes de inteligência interligadas, bancos de dados de opositores, tortura sistemática e assassinatos coordenados em escala continental — uma espécie de “network-centric warfare” antes mesmo do termo.

Hoje, no regime chaoplexic, a América Latina volta a ser laboratório. As guerras não se dão mais apenas em selvas ou cidades, mas em redes digitais, tribunais e fluxos econômicos. A Venezuela sofre bloqueios e sanções que corroem sua economia e geram caos social. Cuba permanece sob cerco econômico enquanto é alvo de campanhas de desinformação. A Nicarágua é bombardeada por operações psicológicas e diplomáticas. E o Brasil, maior país da região, tornou-se epicentro desse novo regime: da Lava Jato, que funcionou como uma operação de lawfare transnacional, às atuais sanções contra ministros do Supremo Tribunal Federal e tarifas comerciais impostas em meio a disputas diplomáticas, o país é alvo direto da guerra híbrida estadunidense.

Essas estratégias, longe de incidentes isolados, expressam exatamente o que Bousquet descreve: a guerra como um processo difuso, caótico, descentralizado, onde redes substituem quartéis e algoritmos valem mais do que divisões blindadas. A América Latina, mais uma vez, não é apenas palco — é campo de teste, onde Washington experimenta as técnicas que depois exporta para o resto do mundo.

O Brasil na Linha de Fogo

Se a América Latina como um todo é um laboratório de guerra híbrida, o Brasil ocupa o centro desse experimento. Nenhum outro país da região reúne, ao mesmo tempo, dimensão continental, população massiva, peso econômico, biodiversidade estratégica e protagonismo geopolítico. Justamente por isso, tornou-se alvo privilegiado das pressões estadunidenses, que operam de maneira exemplar sob o regime chaoplexic descrito por Bousquet: uma guerra difusa, travada em múltiplas frentes, combinando sanções, tarifas, lawfare, desinformação e operações psicológicas.

Os exemplos recentes são eloquentes. O governo Trump retomou a escalada de medidas contra Brasília: sanções direcionadas à esposa de um ministro do Supremo Tribunal Federal, restrições de visto a autoridades e ameaças veladas no campo diplomático. Em paralelo, tarifas comerciais sobre produtos brasileiros reaparecem como instrumento de pressão, reeditando a lógica do “porrete econômico” que historicamente moldou a relação entre Washington e seus vizinhos. Ao mesmo tempo, navios de guerra dos EUA no Caribe são percebidos em Brasília como recados indiretos: gestos militares simbólicos que funcionam mais como demonstração de força e intimidação do que como preparação bélica direta.

Mas a dimensão mais sofisticada da guerra contra o Brasil se dá na esfera informacional e jurídica. A Operação Lava Jato, montada em articulação com o Departamento de Justiça dos EUA, funcionou como uma operação de lawfare exemplar: desestruturou setores estratégicos da economia, criminalizou a política desenvolvimentista e abriu espaço para interesses estrangeiros sobre o petróleo do pré-sal. Hoje, a mesma lógica ressurge em novas roupagens — processos seletivos, campanhas de difamação digital, uso de think tanks e fundações estrangeiras para pautar a opinião pública, e uma máquina de desinformação que opera de forma enxameada, saturando o ambiente cognitivo com narrativas corrosivas.

Nesse sentido, o Brasil é a expressão viva da guerra chaoplexic de Bousquet: o inimigo não está em trincheiras visíveis, mas disperso em fluxos de dados, em sanções financeiras, em algoritmos de redes sociais que privilegiam o discurso de ódio, em decisões judiciais que se transformam em armas políticas. O país enfrenta, simultaneamente, o peso de um intervencionismo externo e a corrosão interna promovida por elites locais alinhadas ao projeto hegemônico norte-americano. É um campo de batalha invisível, mas não menos devastador — e, ao mesmo tempo, um espelho do que pode se tornar o futuro da guerra em escala global.

A Ordem e o Caos nas Relações Globais

A chave de leitura de Bousquet — a tensão permanente entre ordem e caos — revela-se decisiva quando olhamos para o cenário internacional. Os Estados Unidos insistem em projetar-se como força ordenadora do sistema global, mas suas próprias estratégias geram instabilidade crônica. A tentativa de impor “ordem” por meio de sanções, tarifas, bloqueios diplomáticos e demonstrações militares tem o efeito paradoxal de alimentar o caos que pretendem controlar. É o dilema central do regime chaoplexic: quanto mais se busca centralizar e disciplinar, mais se abre espaço para resistências descentralizadas e para a emergência de novos polos de poder.

No caso brasileiro, isso se torna evidente. As tarifas de Trump, as sanções contra membros do Judiciário e a pressão sobre a economia nacional buscam enquadrar o país em uma lógica subordinada. Mas, em vez de isolamento, esses movimentos aceleram o realinhamento de Brasília com China, Rússia e os BRICS. Cada ataque norte-americano reforça a percepção de que o Brasil precisa ampliar suas parcerias estratégicas, consolidar a soberania informacional e fortalecer redes regionais de defesa. O que para Washington seria uma demonstração de ordem, acaba funcionando como catalisador de novas alianças e de maior autonomia.

Esse mesmo paradoxo se repete em escala global. As pressões contra a Venezuela alimentam a aproximação de Caracas com Moscou e Pequim. O bloqueio a Cuba só fortalece sua posição simbólica de resistência no Sul Global. E o uso cada vez mais frequente de instrumentos jurídicos, como designações de terrorismo ou programas de sanções extraterritoriais, mina a legitimidade dos EUA junto a organismos multilaterais. O resultado é uma erosão lenta, porém contínua, da hegemonia americana — enquanto cresce o espaço para alternativas multipolares.

Nesse jogo, a América Latina se encontra em um ponto crítico: pode ser apenas campo de manobra, reproduzindo ciclos de dependência e instabilidade, ou pode assumir um papel de protagonista na disputa global. Para isso, precisa reconhecer que o terreno em disputa não é apenas militar ou econômico, mas cognitivo e informacional. Como ensina Bousquet, a guerra chaoplexic se trava em redes, fluxos e percepções. Quem dominar essas camadas terá mais poder do que quem controlar apenas tanques ou bases militares.

Conclusão — Um Livro para o Nosso Tempo

The Scientific Way of Warfare não é apenas uma obra acadêmica sobre a história da guerra. É, antes de tudo, um guia intelectual para compreender o presente — e, em grande medida, antecipar o futuro. Ao mostrar que cada paradigma científico molda não apenas as batalhas, mas também as formas de organização política e social, Antoine Bousquet nos lembra que a guerra nunca está restrita aos quartéis: ela infiltra-se nas instituições, nos tribunais, nas economias e, hoje, sobretudo nas redes digitais.

Para o Brasil e a América Latina, a lição é incontornável. O continente, mais uma vez, se encontra no olho do furacão de um regime bélico global, agora marcado pela lógica chaoplexic. Os EUA aplicam sanções seletivas, tarifas comerciais, campanhas de desinformação e operações psicológicas não para conquistar territórios, mas para moldar subjetividades, corroer instituições e manter a região em posição subordinada. Ao mesmo tempo, novos polos de poder exploram as fissuras criadas por esse intervencionismo, oferecendo alternativas e abrindo espaço para uma multipolaridade em gestação.

Exaltar o livro de Bousquet, neste contexto, é exaltar um instrumento de lucidez. Ele nos ajuda a ver que o caos não é acidente, mas método; que as redes não são apenas canais de comunicação, mas armas de guerra; que a soberania não pode mais ser pensada apenas em termos militares, mas sobretudo informacionais e cognitivos. É nessa arena invisível que o Brasil joga seu destino — e é nela que precisa construir defesas e estratégias próprias.

Em última instância, a leitura de Bousquet é um chamado à vigilância. Um alerta de que a guerra mudou de forma, mas não de objetivo: continua sendo a luta pelo poder e pela hegemonia. Se a América Latina quiser deixar de ser laboratório e se afirmar como protagonista, terá de compreender que a batalha decisiva não se trava apenas nos mares ou nas fronteiras, mas no campo fluido e incerto das redes, onde ordem e caos disputam cada segundo.

Artigo publicado originalmente em <código aberto>

Maria da Penha sob ataque: como desinformação e discurso de ódio alimentam a misoginia

Julie Ricard e Ergon Cugler

Nesta semana comemoramos mais um aniversário da Lei Maria da Penha, marco histórico na luta contra a violência de gênero no Brasil. Reconhecida internacionalmente como uma das legislações mais avançadas no enfrentamento à violência contra as mulheres, ela continua sendo alvo de uma campanha persistente de desinformação na machosfera; e não por acaso.

Mas por que essa lei, símbolo da luta contra a violência de gênero, tem sido sistematicamente atacada em canais de desinformação e ódio online? A resposta está menos nas fake news em si e mais nas estruturas de poder que se sentem ameaçadas.

Em investigações que temos conduzido no Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas (DesinfoPop) da FGV, encontramos uma combinação perigosa de desinformação e discurso de ódio em comunidades do Telegram. O que vemos nesses espaços é um retrato assustador de como falsas narrativas alimentam e justificam a misoginia, abrindo caminho para a legitimação da violência contra as mulheres.

Essas campanhas misóginas não ganham tração sozinhas. Elas prosperam em plataformas digitais que lucram com o engajamento do ódio e que pouco fazem para conter a propagação de mentiras que colocam vidas em risco.

A construção dessa retórica segue um roteiro perturbadoramente simples. A base é desacreditar a vítima que deu origem à lei: Maria da Penha. Mensagens sensacionalistas como “A lei Maria da Penha sendo desmascarada” ou “Vocês sabem da real história da Maria da Penha?! Eu tbm nunca tinha ouvido falar sobre o outro lado da história”, buscam semear dúvida sobre um caso que passou por várias instâncias de julgamento no Brasil, e até chegar à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (CIDH/OEA). A fonte que utilizam para tal afirmação? Uma suposta “investigação” publicada na plataforma “Brasil Paralelo”, que inclusive foi processada pela AGU por disseminar essa desinformação.

Em outras palavras: as narrativas buscam esvaziar de credibilidade a própria base moral e histórica da legislação. Uma vez criada a dúvida inicial, a retórica avança alegando que a lei é utilizada para perseguir injustamente os homens. Assim, mulheres fariam em sua maioria falsas acusações e os homens seriam vítimas indefesas de um sistema que supostamente não exige provas. Uma mensagem ilustra bem esse mecanismo: “Às mulheres BASTA FALAR que foi agr3ssão, ao rapaz resta se desdobrar para mostrar que é mentira”. Em outra afirmação falsa que não cita nenhuma fonte, afirmam que “80% das acusações da Lei Maria da Penha são falsas”.

Se você assistiu à série “Adolescência”, que bombou nas redes há alguns meses, vai lembrar de uma característica marcante dos grupos masculinistas da chamada “machosfera”: a síndrome de perseguição. E é exatamente o que observamos nesses conteúdos: a ideia delirante de que existe uma conspiração misândrica orquestrada contra os homens. Esse backlash ilustra a sensação dos homens que estão sendo questionados e perdendo privilégios, frente aos avanços impulsionados pelos movimentos feministas e políticas públicas de igualdade de gênero. Eles não entendem essas mudanças como uma busca por igualdade, entendem como um ataque pessoal contra eles: “Vivemos numa sociedade ginocêntrica, misândrica, anti-masculina e infanticida, governada tiranicamente pelo feminismo”, diz uma mensagem.

Algumas mensagens chegam a conectar essa síndrome de perseguição ao universo conspiratório mais amplo, alegando supostos “planos globais de redução populacional”, narrativas comumente associadas aos “globalistas” e a chamada “nova ordem mundial”: “Se relacionar hoje em dia ficou quase impossível. Isso favorece o quê? O que os globalistas sempre sonharam: redução da população mundial”, diz outra mensagem. 

Uma vez estabelecida a suposta conspiração, o próximo passo eleva a retórica ao ódio, com mensagens que fazem parte de uma engrenagem de ódio cuja meta é apagar a humanidade feminina e reconfigurar a mulher como alvo legítimo de violência. Uma mensagem perturbadora sintetiza essa escalada: “O homem tem que abandonar casamento e filhos e começar a ver mulher não como ser humano, mas como vaginas que falam, que só servem pra ser depósito de esperma”.

Esses conteúdos não podem ser naturalizados, porque eles formam opinião, moldam percepções e, sobretudo, legitimam a violência. A Lei Maria da Penha incomoda porque ela toca exatamente onde precisa: no poder patriarcal que, por séculos, naturalizou o silêncio das mulheres frente à violência doméstica. É por isso que enfrentar a desinformação não é só uma questão de corrigir informação, é sobretudo enfrentar as normas sociais e estruturas de ódio que são acionadas através da mentira. 

Neste 7 de agosto, não basta celebrar as (muitas) conquistas da Lei Maria da Penha. Infelizmente, ainda precisamos defendê-la, inclusive nas trincheiras digitais onde o ódio tem se organizado. Combater essas narrativas é essencial para garantir os direitos das mulheres em uma sociedade cada vez mais intoxicada por conspirações e ódio. Defender a Lei Maria da Penha é também defender um projeto de país onde a verdade e a justiça prevaleçam sobre o ódio e a mentira. É escolher o lado da vida, da dignidade e da igualdade em uma disputa cada vez mais visceral pelo futuro do Brasil.

Julie Ricard é doutoranda em Administração Pública e Governo na Fundação Getulio Vargas (FGV), onde integra o Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas (DesinfoPop/CEAPG/FGV). Mestre em Relações Internacionais pelo Sciences Po (França) e em Estudos de Gênero pela Université Paris 7, foi pesquisadora para a Iniciativa Humanitária de Harvard e o Shorenstein Center. Atuou como consultora da UNESCO, apoiando os esforços de enfrentamento à desinformação sobre saúde pública da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República e Diretora do programa Tecnologia e Democracia na Data-Pop Alliance.

Ergon Cugler atua como pesquisador CNPq no Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas (DesinfoPop/CEAPG/FGV). É graduado em gestão de políticas públicas pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-graduado em Data Science & Analytics também pela USP, possui mestrado em Administração Pública em Governo pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e especialização em ciência de dados pela Universitat de Barcelona. É Conselheiro da Presidência da República no Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CDESS), o Conselhão do Governo Federal.

Créditos da imagem: Maria da Penha, homenageada com o título de Doutora Honoris Causa – Fotomontagem: Flickr/UFCD, Pixabay e Jornal da USP