O atual presidente do Clube de Engenharia (Rio de Janeiro/Brasil), o engenheiro Francis Bogossian, conselheiro do Projeto Brasil, conversa com Luis Nassif sobre o papel da Engenharia brasileira para o desenvolvimento do país e a necessidade urgente de retomar grandes projetos de infraestrutura.
“Não há desenvolvimento sem engenharia e não há engenharia sem desenvolvimento“, resume. Na conversa, ele destaca que “a Engenharia está em todos os setores do desenvolvimento“, incluindo áreas como a medicina.
O especialista critica o atual modelo de licitações focado apenas no menor preço, defendendo que a priorização da qualidade técnica é essencial para a segurança e inovação tecnológica do país. Segundo ele, o foco deveria ser o “melhor preço“, definido como aquele que permite oferecer um “serviço de qualidade, durabilidade, segurança, responsabilidade social“.
Boghossian, que é fundador da empresa Geomecânica, que se dedicou a estudos de plataforma de produção de Petróleo para a Petrobrás desde 1973, lamenta o desmantelamento de grandes construtoras após a Operação Lava Jato e a perda de soberania em serviços especializados, como os da Petrobras.
“O objetivo foi acabar com a capacidade da engenharia brasileira“, afirma.
Uma das sugestões centrais de Boghossian é a criação de uma estrutura governamental específica, uma espécie de “Ministério da Engenharia”, para coordenar políticas industriais e científicas, coordenar licitações, o ensino da área e o uso de novas tecnologias, como a utilização estratégica da Inteligência Artificial.
A Luís Nassif, o engenheiro enfatiza que o progresso nacional é indissociável da valorização da engenharia em setores que vão da bioeconomia à medicina, e reforça a importância de projetos executivos rigorosos para evitar o desperdício de recursos públicos e garantir o crescimento sustentável.
A entrevista com Francis Boghossian, presidente do Clube de Engenharia e conselheiro do Projeto Brasil, está disponível no YouTube do Jornal GGN, confira:
O acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia (UE), apresentado como marco diplomático após mais de duas décadas de negociações, pode aprofundar a fragilidade estrutural da indústria brasileira caso não venha acompanhado de uma política industrial articulada, agressiva e de longo prazo. O alerta foi feito por especialistas no programa especial do Projeto Brasil, transmitido na TV GGN, que discutiu os impactos econômicos, produtivos e geopolíticos do tratado.
Segundo as professoras Marta Castilho, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Miriam Saraiva, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), o acordo explicita uma assimetria estrutural entre os dois blocos. Enquanto a União Europeia opera com uma base industrial sofisticada, diversificada e tecnologicamente avançada, o Mercosul permanece concentrado em exportações agrícolas e minerais, o que eleva o risco de reprimarização da economia.
“O acordo tende a reforçar um padrão clássico Norte-Sul, em que exportamos produtos primários e importamos bens de maior valor agregado”, afirmou Castilho. Para ela, sem instrumentos de defesa e investimentos produtivos coordenados, o Brasil corre o risco de aprofundar sua trajetória de desindustrialização.
Indústria sob pressão
Entre os setores mais vulneráveis estão os segmentos químico, farmacêutico, automobilístico, de máquinas e equipamentos e de bens de capital, justamente aqueles com maior densidade tecnológica e hoje dependentes de proteção tarifária para competir. Segundo Castilho, a redução dessas barreiras pode ser “perniciosa” para cadeias produtivas estratégicas.
No setor automotivo, por exemplo, há o risco de “arbitragem de produção”: empresas europeias com fábricas no Brasil podem concluir que é mais vantajoso produzir na Europa e exportar ao Mercosul, em vez de manter plantas industriais locais.
Outro ponto sensível envolve os minerais críticos, como o lítio. O acordo limita a imposição de impostos sobre a exportação desses recursos, o que, segundo Castilho, “desestimula o beneficiamento industrial” e empurra países como Brasil e Argentina para o papel de fornecedores de matéria-prima na transição energética global.
Agronegócio: ganhos aquém do esperado
Embora o agronegócio brasileiro tenha sido historicamente um dos principais defensores do acordo, os ganhos concretos ficaram abaixo das expectativas. Setores agrícolas europeus, especialmente na França, resistiram fortemente à abertura, resultando em cotas reduzidas e concessões mais restritas do que o inicialmente previsto.
No Brasil, segmentos como o vinícola se preparam para enfrentar concorrência direta de produtos europeus, com queda expressiva de tarifas. Segundo Saraiva, esses setores tendem a aceitar a abertura e, em contrapartida, pressionar o governo por políticas de competitividade, como redução do Custo Brasil e melhorias em logística e financiamento.
Compras públicas como instrumento de defesa
Apesar do cenário adverso, o Brasil conseguiu negociar exceções relevantes no capítulo de compras governamentais. Áreas estratégicas, como o Sistema Único de Saúde (SUS), ficaram fora da abertura irrestrita, preservando o poder do Estado de direcionar licitações para estimular a produção nacional.
“Foi uma das partes mais difíceis da negociação”, explicou Saraiva. Segundo ela, enquanto a União Europeia defendia abertura total, o Brasil adotou postura protetiva, especialmente após renegociar pontos flexibilizados na versão assinada em 2019, durante o governo Jair Bolsonaro.
O resultado permite que União, estados e municípios mantenham áreas protegidas, usando o poder de compra pública como instrumento de política industrial, uma das poucas ferramentas diretas ainda disponíveis em um contexto de abertura comercial.
Continuidade sob risco
Outro desafio estrutural é a instabilidade das políticas industriais no Brasil. Para Saraiva, a continuidade depende menos dos governos e mais do engajamento do próprio setor privado.
“O setor beneficiado precisa agir como força de veto contra retrocessos”, disse, citando o papel da Confederação Nacional da Indústria (CNI) ao barrar tentativas de desmonte da Tarifa Externa Comum do Mercosul durante o governo Paulo Guedes.
Sem esse compromisso, avalia, qualquer avanço tecnológico obtido nos anos de transição pode ser revertido por mudanças políticas, transformando o acordo em mais um episódio de abertura sem contrapartida produtiva.
Geopolítica e rearranjo global
Além dos efeitos econômicos, o acordo tem peso estratégico em um cenário de fragmentação do comércio internacional e retração do multilateralismo. Para Saraiva, trata-se de um reposicionamento do Mercosul diante da crescente rivalidade entre Estados Unidos e China.
“A União Europeia está bastante fragilizada frente às pressões norte-americanas, especialmente em segurança e defesa”, afirmou. “Esse não é apenas um acordo comercial, é um acordo de associação interregional, que inclui cooperação política e tecnológica.”
Ela citou como precedente a parceria entre Brasil e Suécia no programa dos caças Gripen, exemplo de transferência tecnológica viabilizada por acordos estruturados de cooperação.
Entre desenvolvimento e dependência
Para Castilho, o sucesso ou fracasso do acordo dependerá diretamente da capacidade do Estado brasileiro de articular política comercial, industrial e tecnológica. Sem isso, o tratado pode se converter em uma abertura de mercado assimétrica, com efeitos duradouros sobre a soberania produtiva.
“O acordo não pode ser visto como um fim em si mesmo”, resumiu. “Ele precisa ser tratado como uma ferramenta dentro de um projeto nacional de desenvolvimento.”
O risco, caso contrário, é consolidar um modelo econômico baseado na exportação de commodities e na importação de tecnologia.