A revolução financeira do BRICS, por Luís Nassif

Luís Nassif

A cobertura das reuniões do Novo Banco do BRICS limitou-se às reuniões e discursos públicos. A parte mais relevante, no entanto, foram os relatórios com as conclusões.

Um dos temas centrais foram as formas de fugir ao domínio do dólar. Não se falou em moeda única, mas em maneiras de reduzir a influência do dólar e proceder a uma desdolarização progressiva.

Há grandes avanços sobre as propostas anteriores.

Em vez de insistir numa “moeda única”, o BRICS está montando modelos permitindo a convivência entre as diversas moedas do grupo, além da criação de instrumentos financeiros e de seguros para fortalecer os investimentos prioritários.

Os organismos centrais em construção são:

  1. Novo Banco de Desenvolvimento (NBD).
    Já em operação. Uma das declarações conjuntas, no encontro no NBD no Rio de Janeiro,  foi o apoio à liderança de Dilma Rousseff. É atribuída à sua gestão a expansão dos membros do BRICS e do NBD. A  prioridade será a expansão do financiamento em moeda local e sua consolidação como instituição global de desenvolvimento.
  2. Plataforma Multilateral de Garantias (BMG)
    Projeto piloto, incubado no NDB, para reduzir riscos e atrair investimentos privados em infraestrutura e sustentabilidade.
  3. Nova Plataforma de Investimentos (NIP)
    Ainda em discussão, com foco na cooperação entre Ministérios da Fazenda e Bancos Centrais.

São mudanças significativas em relação às propostas anteriores.

Abrimos esta discussão no Projeto Brasil, em Fórum onde você encontra esta e as últimas informações sobre o BRICs. Leia e participe:

Entre Contingências e Códigos

Da utopia skinneriana ao tecno-behaviorismo algorítmico no capitalismo da fricção zero

Por Reynaldo Aragon e Wagner de Lara Machado

Numa época em que algoritmos preveem nossos passos antes que sequer ousamos caminhar, este ensaio percorre a distância entre a utopia de uma engenharia comportamental democrática e a captura silenciosa de nossas vontades pelo tecno-behaviorismo global. Entre contingências vivas e códigos preditivos, ergue-se o maior desafio de nosso tempo: resgatar a práxis, a hesitação e o conflito como trincheiras da liberdade, antes que nos tornemos apenas dados obedientes de uma máquina sem rosto.

Introdução.

A ideia corrente de um controle comportamental ao nível macrossocial não é algo novo, que surge com a popularização da internet e, principalmente, das redes e mídias sociais. Em 1948, pouco após o fim da II Guerra Mundial, Skinner publica seu romance utópico Walden Two, no qual descreve uma sociedade baseada na engenharia comportamental. Para entendermos o contexto e a relevância desta obra, alguma introdução se faz necessária. 

Skinner foi professor de Harvard e um dos mais brilhantes nomes da Psicologia e das ciências comportamentais. Seus postulados sobre a análise do comportamento estão presentes em diversas áreas, desde a psicologia clínica até as neurociências comportamentais. De forma muito abreviada, sua teoria propunha que os comportamentos são definidos (condicionados)    por suas consequências. Comportamentos que resultam em consequências negativas (punições diretas ou remoção de estímulos prazerosos/agradáveis) tendiam a extinção, ao passo que comportamentos com consequências positivas (reforço direto ou remoção de estímulo aversivo/negativo) teriam maior probabilidade de ocorrência. Do ponto de vista neuropsicológico, a via mesolímbica (que integra a área tegmental ventral e o sistema límbico) é responsável por essa aprendizagem associativa, isto é, a relação entre prazer, reforço e motivação (para repetir o comportamento). Quando algo prazeroso ocorre (consequência positiva do comportamento) a dopamina (neurotransmissor) é liberada pela área tegmental ventral, chegando aos receptores no sistema límbico (especialmente o núcleo accumbens), essas duas estruturas interagem com o córtex pré-frontal (este, responsável pela tomada de decisão, engajamento, regulação emocional e motivação). Todo esse circuito cerebral também é chamado de “sistema de recompensa”. Cabe aqui uma pequena digressão: é justamente este circuito que têm sido bastante estudado na relação de como o conteúdo e o desenho (interface do usuário) de redes e mídias sociais condicionam nosso comportamento.

Skinner sempre alertou que o controle aversivo do comportamento (baseado em punições ou coerções) deveria ser evitado, pois gerava efeitos contraproducentes como o alto nível de estresse e emoções negativas, o uso da mentira para evitar consequências negativas e a supressão temporária do comportamento. Em seu romance (Walden Two) Skinner idealizou uma sociedade regida pelo reforço positivo aos comportamentos socialmente desejáveis, pró-sociais e alinhados aos valores comunitários. Sua proposta era que a tecnologia comportamental assumiria o papel hoje delegado à ação política e regulação do Estado. Sua idéia era que este modelo levaria a sociedade a maximizar o bem-estar, manter a harmonia social e a distribuir o trabalho e ganhos de forma equitativa. Skinner propôs um modelo no qual as práticas sociais seriam testadas, avaliadas e corrigidas à luz de objetivos compartilhados, submetidas a processos éticos e continuamente reavaliadas. Como se pode imaginar, a obra (e modelo) de Skinner foi alvo de críticas na academia e no público em geral. Questionamentos sobre a falta de liberdade, escolhas individuais e sobre a legitimidade de quem faria o “planejamento social” logo foram estabelecidos. A utopia (muito bem intencionada – opinião do autor) de Skinner logo foi rotulada de distopia. É compreensível, já que naquela época eram rádios, jornais e revistas os principais “meios de comunicação de massa”. A internet seria criada dez anos mais tarde para fins militares. Hoje, sabe-se que o conteúdo e o desenho de interface do usuário de redes e mídias sociais está intrinsecamente alinhado aos conhecimentos do condicionamento comportamental, desde os princípios da análise comportamental de Skinner até os recentes avanços nas neurociências comportamentais. 

Em Walden II, B. F. Skinner ousou vislumbrar uma sociedade capaz de transformar a engenharia comportamental em projeto emancipador. Sua utopia experimental apostava na possibilidade de que a ação humana, deliberada e supervisionada, pudesse reconstruir a vida coletiva por meio de contingências culturais projetadas conscientemente. Em vez de confiar ao acaso, à tradição ou ao mercado a regulação da conduta, Skinner concebeu um modelo em que as práticas sociais passariam por experimentação, análise e ajustes orientados por metas coletivas, sendo submetidas a formas moderadas de escrutínio ético e revisadas de modo contínuo. Dentro dessa perspectiva, a liberdade não significaria a eliminação de todos os condicionamentos, mas sim a elaboração de contingências sociais capazes de ampliar a autonomia funcional. Assim, os indivíduos poderiam agir alinhados aos propósitos comuns, livres de imposições arbitrárias.

Setenta anos depois da publicação de Walden II, a promessa de uma engenharia comportamental deliberada se converteu em seu avesso. A revolução algorítmica, sustentada pela ideologia da fricção zero, reconfigurou a gestão da ação e da experiência em direção a um automatismo tecnicamente gerido, intransparente e não deliberativo. Os chamados metaintermediários algorítmicos (inteligências preditivas capazes de antecipar, modular e automatizar comportamentos) se tornaram os novos engenheiros de nossa subjetividade, erguendo uma forma superior de controle comportamental, muito mais difusa e silenciosa que qualquer panóptico tradicional. Não se trata mais de supervisionar práticas por meio de um coletivo crítico, mas de dissolver o espaço da deliberação, substituindo a práxis pela fluidez operacional, esvaziando o erro, o conflito e a mediação, que são, paradoxalmente, as condições para a autonomia.

Este ensaio se propõe a investigar, com rigor e sem concessões retóricas, a passagem histórica e técnica que nos trouxe de Walden II ao capitalismo informacional da fricção zero. Nosso argumento parte de uma hipótese central: a proposta de Skinner consistia em uma engenharia comportamental democrática, baseada em metacontingências deliberadas e supervisionadas, enquanto a ideologia da fricção zero converte essa engenharia num modelo automatizado de controle, alienando a própria experiência humana por meio de ciclos de reforçamento tecnicamente geridos, e amputando a possibilidade de ação consciente. Em outras palavras, se Walden II representou uma aposta na experimentação coletiva, os metaintermediários algorítmicos representam a captura dessa mesma experimentação pela lógica de mercado, transformando a liberdade funcional em aderência passiva, a supervisão comunitária em vigilância algorítmica, e a deliberação política em um fluxo de comandos preditivos.

A escolha de examinar este contraste a partir do materialismo histórico-dialético não é casual. Só esta abordagem permite desnudar a relação entre técnica e poder como síntese contraditória de forças históricas, situando o controle algorítmico dentro da totalidade social dominada pela racionalidade do valor. A ideologia da fricção zero não nasce de uma fatalidade técnica, mas de um projeto político-tecnológico que reorganiza a mediação entre sujeito e mundo, dissolvendo toda hesitação, todo espaço de crítica, toda possibilidade de práxis, para melhor moldar a experiência humana ao imperativo da eficiência e da previsibilidade. Nesse sentido, a crítica aqui desenvolvida recusa a visão ingênua de que a inteligência artificial e seus metaintermediários seriam meros instrumentos neutros, pois opera a partir do princípio de que a técnica é sempre, ao mesmo tempo, mediação e dominação, campo de disputa e de captura.

Nosso itinerário percorrerá, portanto, quatro movimentos principais: primeiro, reconstruir a utopia de Skinner e suas bases conceituais; segundo, analisar os fundamentos técnicos e ideológicos da fricção zero; terceiro, comparar criticamente esses dois paradigmas de engenharia comportamental; e, por fim, propor uma reconstrução dialética da mediação, capaz de restituir a agência e a deliberação enquanto horizontes políticos irredutíveis à automação. Em cada etapa, buscaremos revelar não apenas as continuidades históricas entre o behaviorismo e o tecno-behaviorismo algorítmico, mas também as rupturas radicais que inauguram, na sociedade da informação, uma forma inédita de alienação de segunda ordem, aquela que não apenas modela a ação, mas redefine a própria ontologia do agir.

Entre Walden II e o capitalismo da fricção zero ergue-se, enfim, um campo de batalha conceitual, no qual a luta pela soberania cognitiva se tornou uma exigência civilizatória. É nesse terreno que o presente ensaio se inscreve, não para oferecer respostas fáceis, mas para iluminar as contradições e interrogações que precisam ser trazidas à tona, se ainda quisermos recuperar o sentido crítico de nossa humanidade.

Walden II: a utopia da engenharia comportamental deliberada

Walden II emerge como uma das mais radicais experiências literárias de imaginar a engenharia comportamental não como aparato de dominação, mas como possibilidade de emancipação social. Publicado em 1948, o romance de B. F. Skinner inscreve-se na tradição das utopias modernas, mas desloca seu eixo normativo da política para a técnica, propondo uma comunidade regida por contingências cuidadosamente planejadas, testadas e reajustadas em função do bem-estar coletivo. Ali, a liberdade deixa de ser entendida como livre-arbítrio incondicional e passa a ser concebida como liberdade funcional: a capacidade de agir sem coerções arbitrárias, dentro de arranjos culturais projetados para promover comportamentos socialmente desejáveis.

o cerne de Walden II está a noção de metacontingências, ainda não formalizada à época, mas presente em estado germinal na visão skinneriana de cultura como rede de contingências que molda padrões de interação. Diferentemente das contingências individuais, que mantêm o comportamento pela relação entre estímulos antecedentes, respostas e consequências, as metacontingências operam no plano supra-individual, preservando ou transformando práticas culturais pela retroalimentação de consequências agregadas. Em Walden II, esse princípio se manifesta na forma de normas comunitárias ajustadas de modo contínuo, evitando a cristalização de tradições autoritárias. Skinner propõe, assim, uma espécie de democracia experimental, onde os arranjos institucionais não são imunes à crítica, mas ao contrário, vivem sob constante escrutínio dos próprios participantes, uma arquitetura de deliberação permanente.

Ainda que Skinner tenha sonhado com uma engenharia comportamental ética, sustentada por sanções brandas e pelo consentimento dos membros da comunidade, seu projeto revela tensões não resolvidas. A primeira diz respeito ao risco de transformar a liberdade funcional em mera adaptação: ao condicionar os indivíduos para agir “livremente” dentro de contingências pré-configuradas, a comunidade corre o risco de substituir a liberdade política substantiva por um simulacro de autonomia, ainda que sob vigilância benevolente. Essa contradição reflete um ponto sensível do behaviorismo radical: a dificuldade de lidar com a historicidade do conflito, do dissenso e do antagonismo social. Ao reduzir o erro e a contradição a falhas do arranjo contingencial, Walden II se aproxima perigosamente de uma utopia sem negatividade, onde a mudança se dá apenas pelo reajuste técnico de práticas, e não pelo embate político entre projetos de mundo inconciliáveis.

Apesar dessas ambiguidades, a proposta skinneriana oferece uma provocação ainda atual. Ao apostar na possibilidade de que o comportamento coletivo pode ser transformado racionalmente, sem apelos místicos ou fatalismos de mercado, Skinner resgata a noção de que a cultura é obra humana, passível de crítica, experimentação e reconstrução. Ele antecipa, de certo modo, a luta contemporânea contra as formas opacas e automáticas de modulação social que se instalam no capitalismo digital. Ao recusar o espontaneísmo e defender uma supervisão coletiva deliberada das contingências culturais, Skinner pavimenta um caminho que, mesmo marcado por limites, aponta para a importância de restituir a práxis como dimensão inegociável da organização social.

Em síntese, Walden II encarna uma utopia tecnológica orientada pela supervisão humana, na qual o controle do comportamento não exclui o debate, mas o incorpora como eixo da governança cultural. Sua promessa radical, no entanto, reside justamente naquilo que a atual racionalidade algorítmica obliterou: a crença de que as contingências podem ser continuamente redesenhadas pelos próprios agentes, e não automatizadas por sistemas externos e opacos. Se Skinner pode ser criticado por seu tecnicismo, não se pode ignorar sua lição: a transformação cultural é, antes de tudo, uma questão política, e não uma fatalidade imposta pelo progresso técnico.

Metaintermediários algorítmicos e a ideologia da fricção zero

Se Walden II imaginava uma engenharia comportamental deliberada, ancorada em supervisão ética e no reajuste coletivo de normas, a contemporaneidade nos entrega uma versão automatizada e maquinal desse sonho: a ideologia da fricção zero. Essa racionalidade técnico-política, consolidada no interior do capitalismo informacional, opera a partir de uma promessa de eficiência total, suprimindo hesitações, conflitos e mediações em nome de uma experiência contínua, previsível e otimizada. Seu horizonte não é a emancipação consciente, mas a adesão passiva, um tipo de obediência tornada invisível, porque programada no nível pré-reflexivo do agir.

No coração dessa ideologia se erguem os metaintermediários algorítmicos, arquiteturas digitais que transcendem a velha mediação técnica baseada na interação explícita. Diferentemente das interfaces gráficas ou dos motores de busca de primeira geração, os metaintermediários assumem funções proativas, interpretando sinais, antecipando demandas e tomando decisões antes que o sujeito sequer formule uma intenção consciente. É uma mediação que não media, mas antecipa; que não negocia, mas prediz. O resultado é a dissolução da práxis: o espaço de ação, de escolha, de conflito e de reinvenção passa a ser recodificado como ruído, falha ou desperdício de tempo. O algoritmo, ao capturar padrões comportamentais e projetar reforçamentos em tempo real, transforma a experiência vivida em um fluxo de respostas automáticas, esvaziando a deliberação e colonizando a subjetividade pela lógica da fluidez.

Essa operação não é neutra, nem apenas técnica. Ela expressa a consolidação de uma forma superior de alienação, alienação de segunda ordem, em que não apenas a atividade produtiva ou comunicacional do sujeito é subsumida ao capital, mas a própria ontologia do desejo, da percepção e da linguagem se torna terreno de gestão preditiva. Ao antecipar e modular emoções, preferências e expectativas, os metaintermediários convertem o campo da experiência humana em matéria-prima de um projeto de dominação algorítmica, onde a liberdade funcional dá lugar à adaptação automatizada, e a autonomia cede espaço à adesão maquinal.

O capitalismo da fricção zero, assim, leva às últimas consequências a noção behaviorista de reforçamento: não se contenta em condicionar comportamentos pontuais, mas reprograma a própria infraestrutura da cognição, transformando a hesitação, essência da liberdade, em falha sistêmica. Se Skinner acreditava que as contingências deviam ser continuamente ajustadas pela coletividade, aqui elas são definidas a priori, inscritas no código, imunes ao escrutínio democrático. É a vitória da engenharia comportamental sem sujeitos, onde a deliberação desaparece porque se torna supérflua.

Sob o prisma do materialismo histórico-dialético, a ideologia da fricção zero revela-se como uma racionalidade de captura total: ela naturaliza a tecnologia enquanto destino, oculta as relações de poder embutidas no código e transforma a mediação técnica em campo de normalização, esvaziando a negatividade crítica. Trata-se de um projeto político-tecnológico sofisticado, que desloca o conflito para a infraestrutura e pacifica a rebeldia pela eficiência. Ao tornar a práxis redundante, instaura-se uma nova forma de hegemonia, em que a espontaneidade se confunde com a servidão e a fluidez com a liberdade.

Por isso, entender a ascensão dos metaintermediários algorítmicos não é apenas descrever sua arquitetura técnica, mas historicizá-los enquanto parte de uma estratégia global de governamentalidade automatizada, na qual a gestão do comportamento humano se articula à extração de valor, ao colonialismo cognitivo e ao esvaziamento do dissenso. É nesse ponto que se torna imprescindível retomar a lição de Skinner: nenhuma engenharia comportamental pode prescindir da crítica, da supervisão coletiva e da abertura ao conflito. O tecno-behaviorismo da fricção zero, ao contrário, se constrói justamente negando essas dimensões, instaurando uma forma de controle que não apenas organiza as ações, mas captura a própria potência de agir.

Conexões, analogias e rupturas: Skinner e o tecno-behaviorismo

O encontro conceitual entre Walden II e o capitalismo da fricção zero não se esgota na analogia superficial de ambos mobilizarem técnicas de engenharia comportamental. Ao contrário, revela um campo de tensões e contradições que ilumina o percurso histórico do controle social: do condicionamento supervisionado ao condicionamento automatizado; da metacontingência coletiva ao metaintermediário algorítmico. A hipótese que atravessa este ensaio é que, embora compartilhem a ambição de modelar comportamentos, Skinner e o tecno-behaviorismo contemporâneo partem de premissas políticas e epistemológicas radicalmente distintas e, por isso, produzem efeitos antagônicos na constituição da subjetividade.

Em Walden II, a experimentação comportamental surge como projeto democrático, orientado pela deliberação comunitária, no qual a supervisão ética e a crítica coletiva preservam a plasticidade das contingências. É a comunidade, enquanto sujeito histórico, que decide como regular seus padrões de interação, sempre aberta à revisão e ao erro. A práxis, nesse contexto, é inseparável da engenharia comportamental: agir é testar, corrigir, remodelar, num movimento dialético de retroalimentação entre cultura e comportamento. O erro não é falha a ser extirpada, mas elemento essencial da aprendizagem coletiva.

O tecno-behaviorismo da fricção zero, por sua vez, sequestra essa racionalidade experimental e a converte num sistema automatizado de captura. Aqui, a mediação desaparece enquanto campo de negociação simbólica e se transmuta em processo de predição algorítmica, onde o conflito, a dúvida e a hesitação passam a ser interpretados como ruídos. Os metaintermediários não toleram a negatividade; dissolvem-na em fluxos de reforçamento automático, pré-programados, otimizados para a adesão instantânea. O sujeito já não experimenta, mas é continuamente interpretado e conduzido, sem margem real de deliberação. O espaço político se transforma, assim, em um circuito fechado de modulação comportamental, no qual a agência é substituída por microajustes invisíveis.

Essa ruptura tem implicações profundas. Skinner, ainda que criticável por seu tecnicismo, preservava a dimensão comunitária e política da regulação comportamental. Sua utopia admitia a mudança, a crítica e a pluralidade, ainda que subordinadas a um horizonte de eficiência cultural. O tecno-behaviorismo algorítmico, ao contrário, anula a política pela técnica, suprimindo a contingência viva em favor de um determinismo cibernético, programado para manter a previsibilidade a qualquer custo. O que Skinner concebia como processo coletivo e ético se converte, na racionalidade dos metaintermediários, numa dominação silenciosa, que não demanda consentimento explícito porque opera abaixo da consciência, no nível da pré-ação.

Nessa passagem, vemos delinear-se uma mudança de paradigma na história do controle social. Se o behaviorismo clássico ainda requeria sujeitos participantes, capazes de refletir, mesmo que sob contingências planejadas, o tecno-behaviorismo contemporâneo transforma o sujeito em variável de ajuste, apagando a dialética entre indivíduo e coletivo. Não se trata mais de educar para a autonomia funcional, mas de produzir aderência maquinal, administrada como fluxo de dados. O resultado é a consolidação de uma alienação ontotecnológica, na qual o campo da experiência se torna terreno de gestão preditiva, e a linguagem, antes espaço de mediação e crítica, converte-se em interface funcional para comandos.

Por isso, mais do que comparar Walden II e a ideologia da fricção zero, é preciso explicitar sua clivagem estrutural. A proposta de Skinner, embora limitada e por vezes autoritária, ainda reconhecia a potência transformadora do conflito, do erro e da revisão cultural. Já os metaintermediários algorítmicos instauram uma nova forma de governamentalidade, na qual a gestão técnica suprime qualquer abertura para o dissenso, naturalizando a servidão como se fosse liberdade. Essa clivagem marca a passagem de um projeto ético de engenharia comportamental para um projeto de alienação integral, que captura não apenas o que fazemos, mas o que somos, antes mesmo que possamos querer sê-lo.

Guerra informacional, colonialismo cognitivo e tecno-behaviorismo global

A radicalização do tecno-behaviorismo, expressa nos metaintermediários algorítmicos, não pode ser dissociada de um contexto geopolítico mais amplo. O capitalismo da fricção zero não apenas reorganiza subjetividades em escala individual, mas integra uma arquitetura global de poder, na qual a informação se tornou arma estratégica de captura. Vivemos sob o signo de uma guerra informacional permanente, em que a disputa pelo controle da atenção, do desejo e da linguagem se articula a projetos de dominação transnacional, capazes de operar sem tanques nem exércitos, mas com a mesma capacidade de devastação social e política.

Nessa guerra, o metaintermediário algorítmico emerge como soldado silencioso: ele recolhe dados, antecipa padrões, modula afetos e filtra percepções, intervindo diretamente na formação de valores, atitudes e crenças. Seu poder não se limita a otimizar escolhas de consumo; estende-se à moldagem de narrativas, à normalização de comportamentos e à legitimação de estruturas de poder. É a própria formação do sentido, tradicionalmente alicerçada em processos coletivos, que passa a ser gerida como serviço técnico, terceirizado a plataformas de alcance planetário. O resultado é uma mutação civilizatória que desloca a mediação política para a infraestrutura tecnológica, instaurando um colonialismo cognitivo: as linguagens, os afetos, os saberes e as memórias de populações inteiras passam a ser extraídos, monetizados e reprogramados segundo a lógica de acumulação do capital informacional.

No Sul Global, essa dinâmica assume contornos ainda mais perversos. Sociedades marcadas por desigualdades históricas, dependência tecnológica e frágil soberania informacional tornam-se laboratórios privilegiados para a experimentação de modelos de modulação comportamental. O tecno-behaviorismo algorítmico, nessa chave, funciona como prolongamento de antigas formas de colonialismo, atualizando-as para a era da automação preditiva. A dependência de plataformas estrangeiras, a captura de dados sensíveis e a internalização de racionalidades técnicas alienígenas conformam um novo imperialismo, mais difícil de perceber porque se infiltra no cotidiano, na linguagem, nos hábitos e até nos sonhos.

Do ponto de vista materialista histórico-dialético, este processo revela sua natureza de classe: a automação da mediação não é um simples avanço técnico, mas um projeto político de reconfiguração do trabalho, do consumo e da própria subjetividade. Ao transformar a ação humana em fluxo de dados, os metaintermediários despolitizam a experiência, deslocando o conflito social para algoritmos imunes à crítica. Essa alienação de segunda ordem não apenas administra comportamentos, mas bloqueia a própria capacidade de questionar, transformando a práxis em performance, a deliberação em adesão e a linguagem em interface.

Frente a esse cenário, a guerra informacional não pode ser compreendida apenas como disputa de narrativas, mas como um embate pela ontologia do agir. O colonialismo cognitivo contemporâneo avança justamente porque substitui a construção coletiva do sentido por sistemas opacos, programados para moldar desejos sem mediação. É nesse ponto que a comparação com Walden II se torna ainda mais reveladora: Skinner sonhava com uma engenharia cultural que ampliasse a autonomia funcional de sujeitos conscientes, enquanto o tecno-behaviorismo global suprime essa autonomia pela captura integral da cognição. O que poderia ser experimentação deliberativa converte-se em submissão automatizada, esterilizando a imaginação e neutralizando toda potência de resistência.

Portanto, a luta contra o tecno-behaviorismo algorítmico não é apenas técnica ou regulatória. É uma luta civilizatória, que demanda recolocar a mediação no centro da experiência social, resgatando a política, a linguagem e o dissenso como trincheiras indispensáveis diante do avanço do colonialismo informacional. Só assim será possível reabrir o espaço do erro, da hesitação e do conflito, sem os quais não existe verdadeira liberdade.

Perspectivas críticas e reconstrução dialética da mediação

Diante da captura tecnocêntrica promovida pelos metaintermediários algorítmicos, pensar alternativas implica retomar radicalmente a noção de mediação como campo político, ético e cultural. O desaparecimento da práxis, substituída por processos automatizados de antecipação e reforçamento, não é um detalhe técnico: representa uma regressão civilizatória, na qual a condição humana se rebaixa ao estatuto de variável operacional, domesticada para aderir, consumir e repetir. Se Walden II nos ensinou que a cultura pode ser conscientemente projetada e supervisionada, a crítica contemporânea deve avançar ainda mais, situando essa supervisão no terreno da deliberação democrática e da tecnodiversidade.

Reconstituir a mediação significa resgatar a linguagem como espaço de conflito e invenção, rompendo a lógica do fluxo contínuo que naturaliza a adesão e dissolve a hesitação. Significa defender o erro, o tempo lento, a negatividade, como dimensões constitutivas de toda experiência autêntica. Nenhum algoritmo, por mais sofisticado que seja, pode substituir o ato humano de interpretar, hesitar, deliberar. Ao contrário: a reconstrução de um horizonte emancipatório depende de devolver à linguagem seu poder de recusa, à política seu poder de invenção, e à coletividade seu poder de negociação, que são, em última instância, as garantias mínimas de liberdade.

Essa reconstrução crítica demanda, por consequência, a formulação de diretrizes normativas claras. Uma delas é a ética da fricção: reconhecer que a fricção, longe de ser um defeito, é condição de autonomia, pois nela habita o espaço de discordância, de crítica e de reinvenção. Outra é a tecnodiversidade: romper com a uniformização das plataformas e estimular ecossistemas tecnológicos pluralistas, abertos ao controle social e à experimentação democrática. E, finalmente, a soberania cognitiva: reivindicar que dados, linguagens e afetos não sejam transformados em matéria-prima de algoritmos alienígenas, mas permaneçam sob governança coletiva e transparente.

 materialismo histórico-dialético nos ajuda a enxergar que a técnica, por si só, jamais será neutra. Enquanto expressão histórica de relações sociais, ela carrega as marcas do capital e das disputas de poder. Por isso, não basta sonhar com regulações protocolares ou códigos de ética de gabinete: a transformação efetiva supõe reconstruir as condições políticas de apropriação da técnica, reposicionando a mediação no centro da luta social. É nessa arena que a crítica de Skinner, ainda que ingênua em certos aspectos, dialoga com as urgências do presente. Ao insistir na possibilidade de controlar as contingências culturais de forma coletiva e consciente, Skinner abriu uma fresta para pensar a técnica como espaço de experimentação democrática. Essa fresta não deve ser fechada, mas radicalizada, para impedir que a história da engenharia comportamental seja sequestrada em favor de um automatismo predador e anti-humano.

Reconstruir a mediação, portanto, não é nostalgia de uma era perdida: é projeto de futuro. Um futuro onde a linguagem não seja apenas interface, mas território de disputa; onde a deliberação não seja simulada, mas vivida; onde a subjetividade não seja programada, mas construída, negada, refeita, num movimento dialético constante. Recuperar a potência política da mediação é, em última instância, resgatar a dignidade da experiência humana contra a redução comportamentalista extrema, seja ela administrada por psicólogos iluminados ou por algoritmos que pretendem ser deuses silenciosos.

Conclusão

Entre Walden II e a ideologia da fricção zero, ergue-se um abismo histórico que revela mais do que uma diferença de técnicas: denuncia uma mudança profunda na ontologia do agir. Skinner, com todas as ambiguidades de seu behaviorismo radical, ainda acreditava na plasticidade da cultura, na potência transformadora da crítica coletiva, na possibilidade de redesenhar contingências sob supervisão ética e democrática. Sua utopia comportamental podia ser tecnicista, mas não era cega ao valor da deliberação e da experimentação humana. Via no erro, na revisão e na negociação a base para reinventar a liberdade, mesmo que esta fosse funcional, mesmo que fosse limitada.

O tecno-behaviorismo contemporâneo, sob o signo da fricção zero, perverte essa ambição. Ao deslocar a engenharia do comportamento para plataformas algorítmicas opacas, elimina o espaço do dissenso, esteriliza a dúvida, neutraliza o erro. Converte a práxis em fluxo programado, subtraindo do sujeito até a chance de desejar livremente. É a culminação de uma alienação de segunda ordem: não apenas nos condiciona, mas nos reprograma, reorganizando nossos afetos, nossa linguagem, nossos próprios modos de existir. Sob a aparência de liberdade total, constrói-se uma servidão maquinal, polida e silenciosa, a antítese perfeita do projeto skinneriano, que ao menos exigia que a comunidade participasse de sua própria modelagem.

A hipótese que sustenta este ensaio, portanto, se confirma: vivemos a passagem de uma engenharia comportamental democrática, fundada em metacontingências deliberadas, para um modelo de controle automatizado, administrado pelos algoritmos de um capitalismo que transforma a experiência em dado e a autonomia em obediência previsível. A fricção, que outrora representava hesitação, reflexão e reinvenção, foi recodificada como falha a ser eliminada, e com ela se extingue também a dimensão trágica, imprevisível e potente da ação humana.

O que está em jogo não é apenas uma tecnologia. É a própria possibilidade de nos constituirmos enquanto sujeitos históricos. Por isso, retomar a crítica dialética da mediação, defender a ética da fricção, apostar na tecnodiversidade e resgatar a soberania cognitiva não são tarefas acessórias, mas atos fundamentais de resistência civilizatória. Não se trata de rejeitar a técnica, mas de politizá-la radicalmente, impedindo que ela se converta em forma suprema de colonização do espírito.

Walden II nos lembra que toda engenharia social deve permanecer aberta ao conflito, ao erro, à reinvenção, pois é no inacabamento que se preserva a dignidade do humano. A ideologia da fricção zero, ao negar essa abertura, ergue uma nova prisão, mais perigosa que qualquer disciplina autoritária do passado, porque dissolve as grades na suavidade de suas interfaces e nos faz esquecer que ainda podemos escolher.

Se há uma lição final a extrair deste contraste, é que a luta pelo direito de hesitar, de pensar, de agir contra a corrente, por mínima que seja, tornou-se hoje o ato mais revolucionário que podemos sonhar. Pois nesse direito habita a possibilidade de reconstruir a liberdade, não como fluidez automática, mas como conquista sempre inacabada, sempre crítica, sempre humana.

Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global.

Wagner de Lara Machado. Psicólogo, Doutor em Psicologia. Pesquisador Bolsista Produtividade do CNPq. Pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia – Disputas e Soberania Informacional (INCT – DSI). Coordenador do grupo de pesquisa Avaliação em Bem-estar e Saúde Mental (ABES) e professor nos níveis de graduação e pós-graduação na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Tem atuado nas áreas de estatística e machine learning, desenvolvimento de intervenções e medidas em contextos clínicos, educacionais, laborais e da saúde.

Quando a emergência climática invade a crise civilizacional

A Tempestade sobre as Ruínas – O que acontece quando a emergência climática invade a crise civilizacional

Por Reynaldo Aragon

Quando o colapso ecológico encontra a falência moral e política de um mundo à beira do abismo, nasce uma tempestade perfeita. Este ensaio vasculha as profundezas dessa convergência, onde o futuro se decide entre a barbárie e a reinvenção.

E quando as mudanças climáticas se somarem à crise civilizacional? Talvez seja neste ponto, e não em outro, que o ser humano seja forçado a encarar o que sempre temeu nomear: que seu império sobre a Terra, forjado na sanha de extrair, explorar e subjugar, pode ruir não por falta de tecnologia, mas por excesso de arrogância. Pois não haverá algoritmo, satélite ou moeda forte capaz de conter a fúria de um planeta reconfigurado, quando a atmosfera se tornar ácida, os rios secarem, os ventos não respeitarem mais estações, e os ciclos de vida entrarem em convulsão.

Imagine um mundo onde a seca prolongada transforme grandes metrópoles em arquipélagos de sobrevivência, onde a água seja vigiada com metralhadoras, onde o alimento se converta em arma, e onde cada fronteira se torne trincheira contra a miséria migrante. Imagine as ondas de calor não mais como exceção, mas como ritual de morte cíclica, ceifando vidas ao ritmo de cifras que jamais irão aparecer nos telejornais. Imagine as chuvas tão intensas que dissolvam bairros inteiros em poucos minutos, rasgando encostas, pontes, cidades, memórias.

Este não é um delírio distópico. É uma projeção material, calculada, quantificada, medida — sustentada por todas as evidências da ciência planetária que se acumularam nas últimas quatro décadas. Mas ela se torna ainda mais sombria quando encosta, como fera faminta, na carcaça frágil de um mundo que já vem derretendo por dentro: democracias esgarçadas, povos colonizados, elites cada vez mais predatórias, valores comunitários transformados em pó pelo consumismo narcótico, e uma violência ideológica que nos acostuma a aceitar a desigualdade como destino.

Nada disso ocorrerá em um planeta socialmente estável e politicamente pacífico. Não haverá transição suave quando as colheitas falharem ao mesmo tempo, em que explodem golpes de Estado, guerras híbridas e redes de ódio projetadas por máquinas algorítmicas a serviço do lucro. A emergência climática chegará, e já chega, a um mundo fraturado, doente, sem compaixão — onde cada catástrofe física ecoará como catástrofe moral.

A cada grau de aquecimento que se soma, a cada estação perdida, a cada floresta transformada em fumaça, dilata-se também o abismo civilizacional que a humanidade cavou com as próprias mãos. E quando os sinais se tornarem impossíveis de ignorar — quando a floresta amazônica colapsar de vez, quando as monções errarem de endereço, quando as calotas polares se transformarem em mar aberto — não será apenas a temperatura que terá mudado. Terá mudado a própria gramática da vida, o tecido mínimo de solidariedade e confiança que sustenta qualquer civilização.

Este ensaio começa, portanto, num lugar incômodo: a interseção entre o planeta em colapso e a sociedade em vertigem. É nesta junção que se produz o ponto de ruptura histórico, onde a crise ecológica se torna crise civilizacional, e vice-versa. É neste ponto que devemos mirar, sem medo, pois dele depende não só o futuro do clima, mas a própria possibilidade de humanidade.

A urgência planetária e o colapso civilizacional.

Vivemos, de fato, o crepúsculo de uma civilização que, ao negar os limites do planeta, começou a corroer também os limites da própria dignidade humana. O colapso climático não pode ser lido como um acidente da natureza: ele é a consequência histórica de um projeto civilizatório que fez do crescimento sem fim um dogma sagrado, da mercantilização de tudo uma promessa de redenção, e da exploração sem escrúpulos a engrenagem fundamental do progresso. Por trás de cada grau extra na atmosfera, há séculos de pilhagem colonial, há impérios que se ergueram sobre corpos escravizados e florestas queimadas, há fronteiras forjadas a pólvora para garantir a circulação de mercadorias.

A Terra respondeu. Não por capricho, mas pela lógica inescapável das leis biofísicas que regem sistemas vivos. Aquilo que queimamos retorna, aquilo que destruímos cobra juros, e aquilo que desprezamos se revolta — não em termos morais, mas no rigor das reações químicas e físicas que mantêm a estabilidade do clima. A aceleração do aquecimento global, o colapso da biodiversidade, a acidificação dos oceanos e o envenenamento dos ciclos da água não são sinais isolados: são a sinfonia trágica de um sistema planetário ultrapassando os limites de resiliência, amplificada por um modelo econômico que transformou a própria natureza em cifra contábil.

Mas a crise não se restringe à ecologia. Ela se infiltra no coração do contrato social, pois se revela incapaz de manter vivos os laços comunitários mínimos. Quando o clima entra em ruptura, a sociedade se rasga: aumenta a competição por alimentos, água, refúgio; ressurgem fronteiras armadas; recrudescem racismos, misoginia e violência contra os mais pobres. O negacionismo que grassa pelo mundo não nasce apenas de ignorância — nasce de um medo ancestral de encarar que a engrenagem da qual muitos se beneficiam tornou-se um instrumento de morte. E ao negar o colapso, negamos também qualquer chance de transformá-lo.

É nesta combinação explosiva que reside a urgência histórica: não falamos de um evento natural, mas de uma convulsão civilizatória que já se manifesta nos corpos empobrecidos, nos territórios envenenados, nos refugiados empilhados em campos de exclusão, nas guerras silenciosas pelo controle da água. Não existe solução tecnocrática que isole a crise climática da crise social — elas são inseparáveis.

Por isso, a urgência não pode ser medida apenas em partes por milhão de CO₂, mas em pedaços de humanidade que estão sendo triturados agora, diante de nossos olhos. Cada segundo de atraso na transição ecológica se converte em vidas sacrificadas, e cada minuto de hesitação serve ao prolongamento de um poder que prefere morrer abraçado à sua riqueza do que repensar as bases de sua própria existência.

Este ensaio parte dessa premissa: não existe clima saudável num mundo socialmente apodrecido, e não existe sociedade justa num planeta biologicamente devastado. A urgência planetária é, pois, o grito simultâneo de todos os sistemas vivos — ecológicos, sociais, simbólicos — chamando pela reinvenção radical do modo de viver e do modo de nos relacionarmos. E talvez seja exatamente por isso que, embora muitos prefiram tapar os ouvidos, a voz do colapso soe cada dia mais alto, cada dia mais inegável, cada dia mais próximo.

Mudanças climáticas: a anatomia da catástrofe.

Há algo de terrivelmente simples no fenômeno das mudanças climáticas, embora sua complexidade assuste: basta acumular gases na atmosfera, e o equilíbrio térmico do planeta cede. Não é uma questão de crença, tampouco de opinião. É física elementar, mensurada, observada, replicada em laboratórios e em satélites. É ciência, e ciência da mais rigorosa. Desde que a revolução industrial elevou exponencialmente a concentração de dióxido de carbono, metano e óxidos nitrosos, a Terra entrou em um regime climático que jamais havia conhecido no Holoceno — a era de relativa estabilidade que permitiu a emergência de cidades, agricultura, cultura escrita e, em última instância, a própria civilização.

Hoje, a concentração de CO₂ atmosférico ultrapassa 420 partes por milhão — valor não registrado há pelo menos 3 milhões de anos, segundo testemunhos de gelo e análises de sedimentos. Essa cifra solitária carrega o prenúncio de um abalo: o sistema climático, interdependente e não-linear, responde a cada fração de grau com reações em cadeia. O degelo do Ártico libera metano preso no permafrost; o metano amplifica o efeito estufa; o aquecimento acelera a evaporação de oceanos, alterando correntes atmosféricas; essas correntes redistribuem a energia global de forma caótica, e assim se multiplicam secas extremas, chuvas diluvianas, ondas de calor mortais e furacões cada vez mais violentos.

Não se trata de um filme apocalíptico: trata-se do diagnóstico da comunidade científica internacional, expresso nos relatórios sucessivos do IPCC e confirmado pelas agências espaciais que vigiam a vitalidade do planeta. O aumento médio de 1,5 °C sobre os níveis pré-industriais, já praticamente alcançado, carrega em si a marca de irreversibilidades. Algumas geleiras jamais voltarão. Alguns recifes jamais se regenerarão. Alguns sistemas de monções já começaram a perder a previsibilidade que sustentava milhões de agricultores na Ásia e na África.

Entender a anatomia da catástrofe é perceber que ela não opera de forma linear, mas em saltos, do mesmo modo que um organismo doente não morre em câmara lenta, mas por falências múltiplas que se sobrepõem. O clima global funciona com pontos de inflexão — tipping points — que, uma vez ultrapassados, podem reconfigurar completamente as condições de habitabilidade do planeta. O colapso da Amazônia como sumidouro de carbono, a falha do sistema de correntes do Atlântico Norte, a fusão irreversível da calota da Groenlândia — cada um desses eventos representa não um drama regional, mas um golpe mortal na estabilidade climática planetária.

Por isso, falar em mudanças climáticas não é falar apenas de “aquecimento”, mas de uma transformação estrutural na base energética que mantém a Terra habitável. É uma anomalia que se expande como câncer, contaminando solos, mares, ventos, dinâmicas ecológicas. É também, em termos filosóficos, a revelação do nosso próprio erro civilizacional: acreditar que se poderia violentar as condições mínimas de vida sem colher o retorno brutal dessa violência.

Este não é um ponto de vista. É um laudo. E quem não quiser enxergar a anatomia desta catástrofe terá de lidar, em breve, com sua face mais brutal: a falência do mínimo necessário para a dignidade humana. Pois não existe civilização possível quando a temperatura rompe a tolerância fisiológica dos corpos, quando a água escasseia, quando a comida se torna inacessível e quando as doenças tropicais avançam para latitudes outrora temperadas. O clima é a moldura de tudo. Sem clima, não há cultura, não há economia, não há política — não há sequer vida em comum.

E é neste reconhecimento, tão simples quanto devastador, que devemos apoiar o resto de nossa reflexão. Porque se não entendermos a anatomia da catástrofe, não seremos capazes de sequer imaginar saídas reais.

O encontro explosivo: clima + crise civilizacional.

Talvez a maior falácia do nosso tempo seja imaginar que a mudança climática será um teste isolado, um acontecimento natural que ocorrerá num mundo calmo, governado por instituições sólidas e pactos sociais respeitados. Essa ilusão — herdada de um pensamento tecnocrático que insiste em separar “natureza” e “sociedade” — fracassa diante da evidência de que o colapso ambiental não chegará a um planeta estável, mas a uma civilização já lacerada, cansada, saturada de desigualdades e dominada por poderes cada vez mais autorreferentes.

O aquecimento global não se sobrepõe a um solo firme. Ele se infiltra num corpo social adoecido: marcado por democracias frágeis, populismos autoritários, desigualdades extremas, polarização violenta e redes digitais que amplificam ódio, medo e mentira com precisão algorítmica. Quando a emergência climática se combinar a este caldeirão de ressentimentos e disputas, estaremos diante de algo mais que uma crise ambiental: veremos um processo de desorganização civilizatória, uma implosão sistêmica onde cada catástrofe física ecoará como catástrofe moral e política.

Este é o ponto crucial, muitas vezes negligenciado pelas análises frias de relatórios internacionais: o risco de colapso composto. Um termo técnico, mas de implicações quase filosóficas. O colapso composto surge quando múltiplas crises — climáticas, econômicas, institucionais, informacionais — interagem, gerando efeitos cumulativos e sinérgicos. Por exemplo, uma seca extrema pode arruinar a produção agrícola de uma região, provocando fome; a fome se converte em conflito social; o conflito desorganiza o Estado; o vácuo de poder alimenta milícias ou grupos terroristas; e essa insegurança, por sua vez, impede políticas de adaptação ao clima, criando um círculo vicioso de autodestruição.

Seus contornos já podem ser vislumbrados. Veja o norte da África, onde a desertificação, aliada a governos frágeis e interesses neocoloniais, empurrou populações inteiras para rotas de migração desesperada, alimentando regimes xenófobos na Europa. Veja o sudeste asiático, onde tempestades cada vez mais violentas pressionam comunidades pesqueiras empobrecidas, aumentando a disputa por recursos e a tensão geopolítica entre superpotências. Veja a própria América Latina, onde inundações, secas e queimadas se somam a guerras informacionais e a ataques à democracia, alimentando um ressentimento profundo que nutre o fascismo tropical.

Para fundamentar essa visão, podemos recorrer a metodologias de cenarização integrada, como os Shared Socioeconomic Pathways (SSP) e os Representative Concentration Pathways (RCP), que projetam não só trajetórias de emissões, mas também trajetórias sociais. Esses modelos revelam que, num cenário de aquecimento acima de 2 °C somado a desigualdades crescentes, a probabilidade de falências institucionais, guerras civis, colapsos migratórios e crises de governança sobe de modo exponencial (O’Neill et al., 2017; IPCC, 2022). Ou seja, a ciência climática já reconhece que clima e civilização são vasos comunicantes, e que as chamadas “tipping points” sociais se aproximam tão perigosamente quanto os pontos de não retorno ambientais.

O encontro entre clima e crise civilizacional não é apenas um tema para conferências acadêmicas. É o campo de batalha real do século XXI, onde se decidirá se ainda podemos cultivar valores de solidariedade, equidade e autonomia, ou se assistiremos a uma era de neofeudalismo cibernético, onde corporações e elites armadas controlarão recursos vitais em ilhas de privilégio, enquanto a maioria se afoga — literal e metaforicamente — em mares de desesperança.

Não há neutralidade possível. O aquecimento global, ao encontrar sociedades fragilizadas e elites dispostas a tudo para manter seus privilégios, potencializa dinâmicas de dominação e violência, dissolvendo as últimas garantias de dignidade que nos restam. Por isso, falar em mudança climática não é — e nunca será — apenas falar de gases na atmosfera, mas de relações de poder, de controle, de guerra, de quem viverá e de quem morrerá.

E se não compreendermos esse encontro explosivo, seguiremos repetindo soluções parciais e técnicas, enquanto o mundo real se transforma num tabuleiro de ruínas, onde a própria ideia de civilização será colocada em xeque.

Os rostos do negacionismo: quem lucra com a dúvida.

Negar a mudança climática não é, em essência, um gesto ingênuo ou fruto de ignorância isolada. É, historicamente, um projeto político-econômico cuidadosamente arquitetado para proteger privilégios, retardar transformações estruturais e garantir a perpetuação de sistemas de poder baseados em combustíveis fósseis, concentração de renda e colonialismo ambiental. O negacionismo se tornou, nas últimas décadas, uma verdadeira indústria, operada por think tanks, grupos de lobby, partidos ultraconservadores e corporações que enxergam no colapso climático não uma ameaça, mas uma oportunidade para lucrar com a catástrofe.

Desde a virada dos anos 1980, documentos hoje tornados públicos revelam como gigantes do petróleo e do carvão financiaram campanhas de desinformação para semear dúvida e confusão. O método é sofisticado: não se trata de negar frontalmente a ciência, mas de relativizá-la, de diluir sua autoridade, de introduzir ruídos e teorias conspiratórias que tornem impossível, para o cidadão comum, distinguir fato de mentira. É o mesmo roteiro aplicado pela indústria do tabaco: gerar incerteza estratégica para atrasar regulações.

No Brasil e na América Latina, esse negacionismo encontrou terreno fértil ao se acoplar a projetos políticos autoritários, que identificaram no discurso antiecológico uma forma de mobilizar ressentimentos populares contra supostos “inimigos externos”: ONGs, ambientalistas, acadêmicos, povos indígenas. O discurso do negacionismo climático se articula, assim, com o ódio de classe e o racismo ambiental, ao rotular políticas de transição ecológica como “ameaças comunistas” ou “armadilhas globalistas”.

Os rostos desse negacionismo são conhecidos: consórcios fósseis, lideranças de extrema-direita, influencers digitais pagos para desacreditar dados, parlamentares financiados por agronegócios predatórios, e até supostos especialistas acadêmicos que vendem sua autoridade a serviço da dúvida. Eles aparecem travestidos de defensores da liberdade, mas na prática defendem apenas a liberdade de seguir lucrando, ainda que o preço seja a morte de milhões e o colapso de ecossistemas inteiros.

Essa rede de desinformação opera como verdadeira guerra psicológica, minando a confiança na ciência, destruindo pontes de diálogo e paralisando a ação coletiva. Há técnicas cuidadosamente estudadas para tal objetivo: apelar à liberdade individual, demonizar impostos sobre carbono, ridicularizar consensos científicos, ou fomentar teorias conspiratórias sobre “engenharia do clima” como forma de manipulação populacional. São discursos que penetram as redes sociais através de algoritmos que priorizam choque, indignação, polêmica — fertilizando a ignorância e a violência.

A quem interessa essa confusão? Às velhas oligarquias fósseis, claro, mas também aos novos autoritarismos digitais, que lucram com a fragmentação social. O negacionismo climático funciona, assim, como pilar de um projeto maior: manter o status quo de desigualdade e exploração, blindando elites contra qualquer reforma profunda que questione sua riqueza acumulada.

Por isso, é ilusório imaginar que o combate ao negacionismo será apenas um debate científico. Trata-se de uma batalha política, cultural e comunicacional, onde a verdade precisa disputar espaço com narrativas de ódio habilmente produzidas para paralisar consciências. A dúvida programada, neste caso, não é apenas estratégia de mercado — é instrumento de dominação.

Enfrentar essa arquitetura da dúvida exige coragem para nomear interesses, expor financiadores, revelar as tramas globais e locais que alimentam o ceticismo industrializado. E, sobretudo, exige devolver ao debate climático sua dimensão de justiça social, pois enquanto o discurso negacionista prosperar, os mais pobres e os territórios colonizados continuarão pagando, sozinhos, a conta do fim do mundo.

América Latina: laboratório da tragédia e da resistência.

Poucas regiões do mundo encarnam, com tanta clareza, a contradição entre riqueza ecológica e brutalidade histórica quanto a América Latina. Aqui, os biomas mais biodiversos do planeta coexistem com índices de desigualdade colonial ainda vivos, cicatrizes abertas por quinhentos anos de pilhagem, genocídio e violência territorial. E é precisamente nesse território que a mudança climática exerce sua força de modo mais cruel e simbólico: a floresta amazônica ameaçada de colapso, o Cerrado convertido em deserto químico de monoculturas, o Pantanal em chamas, as montanhas andinas perdendo suas geleiras ancestrais — enquanto populações inteiras seguem à margem do poder político e econômico, condenadas a arcar com o custo de um desastre que não provocaram.

A América Latina, nesse sentido, é um laboratório da tragédia. O aquecimento global não cria a desigualdade — mas a amplífica, a torna mais letal, a coloca em combustão. Os impactos climáticos chegam primeiro aos corpos mais vulneráveis: ribeirinhos expulsos pela seca, quilombolas desalojados por enchentes, indígenas envenenados por mercúrio em territórios invadidos, periferias urbanas assoladas por enchentes e deslizamentos. Cada evento extremo revela, como se fosse um raio-x, as veias abertas de uma América Latina que nunca se libertou plenamente das lógicas coloniais.

Mas este mesmo chão, regado a suor e memória de luta, também faz brotar resistências radicais. Comunidades tradicionais amazônicas que reinventam modos de vida agroflorestais; camponeses que apostam na agroecologia como insurreição contra o agronegócio predatório; redes de povos indígenas que conectam espiritualidade, política e ciência para defender territórios e modos de ser. Essa resistência não é apenas local: ela carrega lições para o mundo inteiro, pois sinaliza que não há salvação possível sem retomar o vínculo entre terra, comunidade e dignidade.

No plano político, a América Latina também é um palco de disputas cruciais. Por um lado, governos progressistas tentam reconstituir políticas de preservação, proteger biomas, garantir soberania alimentar e redesenhar o papel da região na geopolítica climática global. Por outro lado, forças conservadoras, aliadas a interesses fósseis e latifundiários, reativam discursos negacionistas e autoritários, transformando a destruição ambiental em bandeira de uma suposta “liberdade”. É aqui que a guerra cultural se soma à guerra ecológica, num jogo de poder que pode definir não apenas o destino latino-americano, mas o destino climático do planeta — pois a Amazônia, o Cerrado, a Patagônia e o Gran Chaco não pertencem a bolhas nacionais: eles são reguladores do clima global, zonas de estabilidade biogeoquímica sem as quais todo o planeta tremerá.

A América Latina, assim, não pode ser lida apenas como vítima: ela é também protagonista de alternativas civilizatórias. Aqui pulsa a possibilidade de um outro horizonte — baseado em solidariedade, em democracia real, em tecnologias de baixo impacto, em espiritualidades que reconhecem a natureza não como recurso, mas como matriz de vida. Negar a importância dessas experiências seria repetir, uma vez mais, o erro histórico do Norte global, que enxerga a região apenas como província de exportação ou território de sacrifício.

Se o mundo quiser sobreviver ao século XXI, terá de aprender com a América Latina — tanto no reconhecimento da violência histórica que se abateu sobre ela, quanto na admiração pela força de quem resiste e reinventa a dignidade coletiva em meio às chamas. Pois a maior tragédia da mudança climática não será apenas a perda de espécies ou de megatons de carbono. Será perder, junto, a sabedoria de povos inteiros que sabem como cuidar do planeta melhor do que qualquer diplomata de cúpula climática.

O horizonte da transformação: caminhos radicais.

Falar em transformação diante de um cenário tão brutal pode parecer ingênuo, ou até tolo. Mas não há alternativa mais realista do que encarar, com radicalidade, a necessidade de reconstruir as bases do nosso modo de existir. A palavra “radical” não é aqui um adorno retórico: ela vem de radix, raiz — e só transformações profundas, enraizadas na justiça, podem conter a força destrutiva do colapso climático e civilizacional.

O horizonte da mudança não pode se limitar a metas de carbono gerenciadas por fóruns multilaterais que se arrastam há décadas sem coragem de romper com o extrativismo. Não haverá futuro viável se a transição energética for apenas mais um mercado para as mesmas corporações que hoje destroem ecossistemas. É preciso reimaginar a economia a partir da regeneração, da redistribuição de poder e riqueza, da restauração da terra e da reconciliação com os ciclos vitais do planeta. Isso implica deslocar o centro de gravidade do debate climático: do Norte global para o Sul global, dos gabinetes corporativos para os movimentos comunitários, das métricas financeiras para os direitos territoriais, do lucro para o cuidado.

Energia renovável, agroecologia, transportes públicos de massa, reabilitação de solos, reflorestamentos dirigidos, proteção das águas — tudo isso já existe tecnicamente. Mas nada disso será sustentável se não for acompanhado por uma transformação social, cultural e simbólica que desarme a lógica da mercantilização absoluta, que devolva a noção de bem comum como princípio civilizatório. Pois de nada adianta trocar carvão por painéis solares se continuarmos consumindo territórios, corpos, culturas e subjetividades numa velocidade que ultrapassa qualquer capacidade regenerativa.

Aqui, é fundamental apontar, de forma metodologicamente transparente, que as projeções preditivas mais sólidas (baseadas em cenários do IPCC, nos Shared Socioeconomic Pathways) demonstram: sem redução de desigualdades, sem sistemas de governança democrática, sem redistribuição de renda, não há caminho de contenção climática realista. Ou seja, não é apenas a energia que precisa mudar — é a arquitetura inteira da convivência humana. Esta conclusão, por mais dura que soe, é respaldada por dezenas de estudos revisados por pares que mostram a inviabilidade de estabilizar o aquecimento global num contexto de desigualdade estrutural crescente.

Transformar radicalmente o horizonte significa aceitar que “ajustes” não bastam. Que não se trata de salvar o planeta, mas de salvar a própria humanidade de sua autossabotagem, de seu delírio colonial, de sua cegueira ecocida. O horizonte possível exige reconhecer que soluções reais não virão de quem lucra com o desastre, mas de quem ousa recriar outras formas de viver, plantadas nas margens, nos territórios, nas redes populares, nos saberes ancestrais.

É nesse ponto que a transformação deixa de ser apenas técnica e passa a ser ontológica — transformando, junto, o nosso modo de habitar, de consumir, de produzir sentido. E sem essa transformação no nível mais profundo da experiência, qualquer vitória tecnológica será apenas um paliativo, que adia o inevitável.

O horizonte está, portanto, aberto: ou seguimos a fábula suicida de progresso infinito, com data marcada para o colapso, ou elegemos, juntos, outra história — na qual a Terra não seja um palco de pilhagem, mas um laço que nos devolve a possibilidade de futuro. O tempo para escolher não é confortável, mas é agora.

Ou seja…

Talvez a tragédia maior não seja o colapso em si, mas a recusa coletiva em olhar para ele de frente. Pois há uma crueldade silenciosa em perceber que a humanidade não sucumbe por ignorância, mas por soberba — por insistir em negar os limites do mundo que a sustenta. Quando as mudanças climáticas se somarem, de maneira definitiva, à crise civilizacional, não teremos mais a chance de alegar surpresa. Porque tudo já estava escrito: nos dados, nas previsões, nos gritos sufocados dos que sempre souberam que a ferida colonial, o racismo estrutural, o patriarcado e o capitalismo predatório jamais ficariam sem resposta da própria Terra.

A civilização que celebra o lucro acima de qualquer sentido de pertencimento, que converteu rios em esgoto e florestas em mercadoria, que ergueu muralhas para defender privilégios enquanto esmagava corpos negros, indígenas e pobres — essa civilização não terá futuro se não refizer radicalmente sua relação com a vida. E quando a catástrofe climática bater à porta, não chegará sozinha: trará, junto, as ruínas do projeto moderno, as rachaduras de democracias capturadas pelo dinheiro, a falência de solidariedades, a derrocada de qualquer ética comum.

Ainda assim, há um lampejo de possibilidade. Pois dentro do mesmo colapso lateja a chance de reinvenção, de reaprender a viver em comunidade, de reatar alianças perdidas entre seres humanos e a Terra. Mas este lampejo exige coragem: coragem para romper com modelos de poder que prometem “adaptação” apenas para os ricos, coragem para enfrentar os donos do carbono e das armas, coragem para defender até o fim a ideia de que toda vida importa — não apenas a vida que gera dividendos.

Se não houver essa coragem, restará o pior: um mundo sitiado, brutalizado, onde cada gesto de cuidado será criminalizado, e cada gota d’água, transformada em ativo financeiro. Não há saída técnica para um colapso civilizacional se não houver, antes, um movimento profundo de reconstrução moral e política, capaz de reinventar a própria noção de civilização.

O tempo, esse tempo que corre e não perdoa, nos chama a escolher. Porque se a mudança climática se soma ao desmonte do tecido civilizacional, não será apenas o planeta que perderemos — será a própria ideia de futuro, de dignidade, de humanidade partilhada.

Este ensaio não pretende ser um epitáfio, mas um convite. Um convite a sentir na pele o tremor desta hora histórica, a rejeitar as anestesias do negacionismo e do fatalismo, e a cultivar, em cada gesto, a possibilidade de um outro mundo. Pois mesmo às vésperas do colapso, resta sempre a centelha de insurgência que faz a história dar voltas — e renascer.

Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global.

A ideologia da positividade e a destruição do dissenso: um ensaio dialético

A ideologia da positividade e a destruição do dissenso: um ensaio dialético

Por Reynaldo Aragon

Num tempo em que sorrir virou mandamento, a positividade compulsória se ergue como a mais sutil e devastadora arma do capitalismo: silencia a dor, dissolve o conflito, esteriliza a política. Este ensaio rasga o verniz brilhante do otimismo tóxico para devolver ao dissenso sua dignidade transformadora. Porque só quem ousa dizer não, pode reconstruir o nós.

Vivemos num tempo em que a positividade se ergueu como mandamento absoluto. Ser positivo, sorrir, motivar-se, ressignificar toda dor, converter todo fracasso em oportunidade: eis a cartilha moral da era digital, repetida como oração laica nos corredores corporativos, nas timelines luminosas, nas rodas de conversas empobrecidas pelo vocabulário do coaching. O imperativo da positividade não tolera a recusa, não admite o protesto, não suporta a crítica; é um dogma suave que se inscreve nos corpos e nas mentes como segundo instinto, e, ao mesmo tempo, dissolve o dissenso na espuma anestésica do otimismo.

“A crítica da religião se transforma na crítica do direito, a crítica do direito na crítica da política, e a crítica da política na crítica da economia política.” – Karl Mark

A cultura da positividade não é uma flor, espontânea, brotada do espírito humano contemporâneo: ela é, antes de tudo, um produto histórico, político e econômico. É a forma ideológica específica do capitalismo digital avançado para conter a potência do conflito, para domesticar a negação, para mutilar a imaginação política que ousa sonhar outro mundo. Seu sorriso não é inocente; sua leveza é brutal.

Byung-Chul Han descreveu com precisão a exaustão do sujeito contemporâneo, esmagado pela positividade compulsória. Mark Fisher denunciou a prisão mental do realismo capitalista, onde não cabe alternativa nem esperança. Wendy Brown desnudou a captura neoliberal da esfera pública, onde a cidadania se torna performance e a política vira gestão de si. Cada um desses autores, à sua maneira, apontou a ruína subjetiva e coletiva gerada por um sistema que exige entusiasmo mesmo no abismo.

Mas é ao olhar de Marx e da tradição materialista histórico-dialética que cabe rasgar o véu final: a positividade tóxica não paira sobre as pessoas como névoa moral, mas brota do ventre da exploração capitalista, que precisa impedir a negação radical, precisa sufocar a luta, a rebeldia, a crítica, para garantir a reprodução de sua ordem. Essa positividade é o cimento ideológico que preenche as rachaduras de um sistema podre, e, ao mesmo tempo, anestesia os corpos para aceitarem a dor sem transformá-la em levante.

Este ensaio quer mergulhar nesta engrenagem com a faca afiada do materialismo dialético. Quer rastrear, em cada canto, como a positividade compulsória se construiu como dispositivo hegemônico, servindo ao capital para neutralizar a política e suprimir o dissenso. Quer ouvir os ecos de Han, Fisher e Brown, mas reinscrevê-los na gramática da luta de classes, onde a negação não é doença, mas condição da liberdade.

Sigamos, então, sem medo do conflito porque só o conflito faz a história caminhar.

Marx: ideologia, alienação e a negação negada

No coração do pensamento marxista lateja uma verdade incômoda: toda sociedade de classes forja, ao lado de suas estruturas econômicas, as engrenagens ideológicas necessárias para naturalizar a dominação. Não basta explorar; é preciso convencer o explorado de que sua servidão é justa, inevitável ou até virtuosa. É nesse ponto que a ideologia deixa de ser mera ilusão e se converte em condição indispensável para a reprodução do capital.

Marx, ao desconstruir as engrenagens do capitalismo industrial, revelou que a ideologia não paira como uma nuvem de engano voluntário, mas se entranha na materialidade da vida social, moldando percepções, hábitos, linguagens, afetos. Ao formatar a consciência, a ideologia pacifica a luta, nega a negação, paralisa o potencial transformador que brota da contradição. E se há algo que a história ensina, na leitura dialética, é que a mudança nasce do choque, do antagonismo, do dissenso que se organiza.

A positividade tóxica, nesse sentido, é uma forma ideológica extraordinariamente eficiente. Ao prescrever o otimismo como única via aceitável, ela sequestra o dissenso antes mesmo que este floresça, transformando a dor em falha individual, o fracasso em prova de insuficiência pessoal, e a revolta em desequilíbrio psicológico. Como um anestésico administrado em doses diárias, a positividade bloqueia a percepção da exploração, impedindo que a negação, a recusa, a denúncia, a indignação se articule enquanto força histórica viva.

Alienação, para Marx, não é somente afastamento do produto do trabalho, mas estranhamento de si, do outro e do mundo. O trabalhador, alienado, não reconhece a própria força como força social transformadora. A positividade compulsória amplifica esse estranhamento, pois retira do indivíduo a possibilidade de identificar a raiz estrutural de sua dor, empurrando-o para soluções mágicas, motivacionais, atomizadas, incapazes de tocar na contradição de classe.

E aqui se revela sua função mais perversa: a positividade compulsória não apenas ilude, ela desarma. Porque se toda crítica se transforma em “negatividade”, resta ao indivíduo apenas dobrar-se ao sistema, ainda que este o sufoque. A negação, que seria a centelha da transformação, é rotulada como erro, como vício, como fracasso de caráter. E assim, o capital respira aliviado: sua paz se sustenta sobre a mutilação simbólica do conflito.

Este é o solo fértil onde a positividade germina como dispositivo histórico: não uma patologia espontânea, mas uma necessidade funcional à ordem burguesa. Em cada sorriso imposto, há uma máquina de silenciamento; em cada palavra de motivação, um gesto de legitimação da exploração. Por isso, resgatar Marx significa devolver ao dissenso sua dignidade, restituindo a negação ao seu lugar originário, o de motor da história.

Gramsci: hegemonia, senso comum e consentimento.

Antonio Gramsci nos ensina que o poder capitalista não se sustenta apenas sobre a coerção, mas sobre um pacto profundamente assimétrico de consentimento. Não basta dominar corpos; é preciso conquistar mentes e corações. Essa conquista se dá através da produção de um senso comum, tecido no cotidiano, capaz de fazer parecer natural aquilo que é, na verdade, imposição histórica.

Gramsci chama esse processo de hegemonia: a construção de uma direção cultural, moral e intelectual que legitima a ordem dominante e neutraliza a força potencial do conflito de classes. Ao capturar a imaginação popular, a hegemonia se apresenta como horizonte único, dissolvendo alternativas e marginalizando todo gesto de recusa.

A positividade tóxica é uma engrenagem essencial dessa hegemonia contemporânea. Ela molda sujeitos que internalizam a exploração como falha pessoal e, ao mesmo tempo, celebram a resiliência como virtude suprema. Sob o manto suave de “vencer desafios”, a positividade transforma derrotas coletivas em desafios individuais, e a solidariedade em performance de autoajuda. Assim, o senso comum se estrutura num código afetivo, onde a negação do sistema não cabe, pois o fracasso sempre será culpa de quem não foi suficientemente otimista.

Gramsci nos ajuda a perceber que esse senso comum não surge do nada: ele é trabalhado pacientemente pelos aparelhos privados de hegemonia (escolas, meios de comunicação, igrejas, redes digitais) que propagam valores, narrativas e afetos funcionalmente adaptados ao capital. O otimismo compulsório, nesse quadro, não é apenas um modismo motivacional, mas uma tecnologia política sofisticada para domesticar consciências.

A positividade, assim, reforça o consentimento. Consentimento para aceitar salários degradantes, jornadas extenuantes, vidas precárias, desde que se tenha força para “superar”, para “fazer acontecer”, para sorrir apesar da dor. Consentimento para abdicar da ação coletiva, pois a política se torna sinônimo de negatividade, e a negatividade é crime moral num mundo regido pelo imperativo do entusiasmo.

Gramsci nos oferece, portanto, a chave para decifrar essa positividade como hegemonia afetiva: uma forma de governo dos sentimentos, afinada à lógica neoliberal, que desarma a crítica e fragmenta a solidariedade. E nos lembra, acima de tudo, que somente a ruptura do senso comum, somente a contra-hegemonia forjada na prática política e no conflito organizado, poderá devolver à história a sua energia transformadora.

Byung-Chul Han: a positividade como performance neoliberal.

Byung-Chul Han, com a precisão cirúrgica de quem observa a alma de um tempo, nomeou a era atual como a era do desempenho. Não vivemos mais sob o signo da disciplina que moldava sujeitos obedientes, mas sob a tirania de uma liberdade aparente que exige, paradoxalmente, um desempenho ilimitado. A positividade, nessa ordem, não é apenas um adorno cultural: ela se torna motor da produtividade, uma engrenagem vital para manter o sujeito girando na roda do capital sem questionar a estrutura que o esmaga.

Han descreve o sujeito de desempenho como aquele que se explora voluntariamente, convencido de que toda falha é falta de esforço, toda dor é falta de entusiasmo. Esse sujeito internaliza a positividade como imperativo ético, tornando-se ao mesmo tempo, patrão e escravo de si mesmo. A positividade, nesse contexto, não é mero estado de espírito. É uma técnica de governo das almas.

Mas há um ponto onde Han recua: embora ilumine as patologias do excesso de positividade, depressão, burnout, cansaço crônico, ele não interroga de forma radical sua raiz material. O materialismo histórico-dialético pode avançar justamente onde Han para, ao revelar que o sujeito de desempenho não é produto do acaso, mas resultado de relações sociais e econômicas que exigem flexibilidade, docilidade, hiperdisponibilidade e autogestão. É o capital, em sua fase neoliberal, que precisa dissolver laços de classe, solidariedades históricas e projetos coletivos, substituindo-os por uma ética narcisista e isolada de superação pessoal.

A positividade compulsória, portanto, não brota da alma humana. Brota do capital, que para seguir acumulando, depende de corpos dóceis, mentes anestesiadas, afetos capturados. O não se torna um risco, pois pode travar a engrenagem. O dissenso se torna uma ameaça, pois pode romper o fluxo da mercadoria. Logo, a positividade vira antídoto preventivo contra qualquer embrião de negação.

Han nos oferece, assim, uma análise poderosa do adoecimento social, mas o marxismo nos obriga a ir além: a positividade não adoece apenas, ela explora, pois prolonga a alienação e transforma o sofrimento humano em ativo gerencial. Cada lágrima reprimida, cada medo silenciado, cada crítica anulada serve ao capital, garantindo sua reprodução sem fraturas visíveis.

Em última instância, a positividade neoliberal não é um capricho da subjetividade moderna, mas parte integral da estratégia de hegemonia de um sistema que transforma tudo, até os afetos, em mercadoria. A recusa, por isso, é o primeiro passo para retomar o sentido histórico do humano: resgatar a capacidade de dizer não e, a partir daí, reconstruir a possibilidade de dizer nós.

Mark Fisher: realismo capitalista e a colonização do imaginário.

Mark Fisher cravou na carne do nosso tempo a expressão realismo capitalista, essa sensação sufocante de que não existe alternativa, de que o capitalismo não apenas domina o presente, mas sequestra o futuro e torna impensável qualquer horizonte de transformação. No mundo moldado por esse realismo, a positividade compulsória cumpre um papel sinistro: ela opera como muleta ideológica para suportar um sistema sem sonhos, sem esperança, sem utopias.

A positividade, nesse cenário, não passa de um recurso narcotizante. Ao anestesiar o sofrimento e converter toda angústia em problema de gestão pessoal, ela paralisa a imaginação política, exilando o dissenso para a terra do impossível. Fisher apontou com clareza: a força do capitalismo tardio não está apenas na exploração econômica, mas na captura do imaginário, no bloqueio das alternativas, na destruição da capacidade de desejar outro mundo.

O imperativo do otimismo, disseminado como doutrina de autoajuda, alinha-se perfeitamente a esse projeto de colonização do pensamento. O realismo capitalista precisa que as pessoas se mantenham motivadas, mas jamais indignadas. Precisa que tolerem a precariedade, mas não que a transformem em luta. Precisa que convertam a crítica em fracasso individual, e o fracasso em lição de superação. Assim, a positividade se torna uma das colunas mestras do edifício ideológico que sustenta o “não há alternativa”.

Do ponto de vista marxista, a positividade compulsória serve para naturalizar a exploração, mascarando as contradições estruturais e interditando qualquer faísca de insubordinação. O dissenso é demonizado como negatividade, e a negatividade, por sua vez, como ameaça à própria estabilidade psíquica. Num mundo onde o otimismo vira obrigação, a revolta se converte em patologia, e a recusa em crime moral.

Fisher nos convida, então, a restituir ao imaginário sua potência revolucionária. E o materialismo histórico-dialético nos lembra que o imaginário não brota do nada, mas nasce das condições materiais concretas que o tornam possível. Precisamos recuperar a capacidade de desejar o impossível, pois só assim podemos enxergar que o impossível de hoje é a realidade transformada de amanhã. Romper com o realismo capitalista significa devolver ao dissenso seu lugar legítimo: o de gesto inaugural de um futuro emancipado.

Wendy Brown: vulnerabilidade, neoliberalismo e democracia esvaziada.

Wendy Brown, ao analisar as engrenagens do neoliberalismo, nos adverte sobre um processo ainda mais devastador do que a simples mercantilização da vida: a corrosão da própria ideia de política. Sob o neoliberalismo, a esfera pública vai sendo gradualmente esvaziada, transformada num simulacro de participação onde a cidadania se dissolve na lógica da gestão, e o comum se reduz a uma soma de empreendimentos individuais.

Nesse ambiente, a positividade compulsória ocupa lugar de destaque. Ela converte a vulnerabilidade, que poderia ser percebida como condição compartilhada, portanto, passível de ação coletiva e solidariedade, em falha moral. Cada sujeito, transformado em gestor de si mesmo, passa a carregar não apenas o peso de sobreviver, mas também o de justificar seus próprios tropeços como fraqueza de caráter. O espaço da política, lugar histórico de disputa e conflito, é convertido em vitrine de performances otimistas, onde qualquer expressão de dor se torna inconveniente e qualquer crítica soa como desajuste.

A positividade, ao negar a legitimidade do sofrimento coletivo, atua como operador de fragmentação social. Ela impede a percepção de pertencimento de classe, desfaz laços de solidariedade e bloqueia a construção de um nós capaz de intervir na realidade. Assim, o neoliberalismo se alimenta dessa fragmentação: indivíduos isolados, consumidos pela gestão de si, sem horizonte de transformação, tornam-se presas fáceis para a exploração e a manipulação política.

Wendy Brown nos oferece a chave para entender como esse processo corrói a democracia em sua raiz: sem conflito, sem antagonismo, sem capacidade de dizer não, a democracia se torna espetáculo vazio, ritual inofensivo, incapaz de enfrentar as desigualdades estruturais que a ameaçam. A positividade tóxica, nesse quadro, é aliada perfeita do neoliberalismo, pois transforma cidadãos em performers satisfeitos, sempre sorrindo, sempre resilientes, sempre inofensivos.

O materialismo histórico-dialético, por sua vez, devolve a esses fragmentos a possibilidade de se recompor em força histórica viva. Ele nos recorda que a vulnerabilidade, longe de ser vergonha, pode ser motor de solidariedade, porque expõe a dependência mútua que estrutura toda forma de vida humana. Resgatar a política significa, pois, resgatar o direito de sofrer coletivamente, de transformar essa dor em palavra pública, de erguê-la como bandeira para a ação e a organização.

No lugar da positividade obrigatória, ergue-se, então, a recusa como ato inaugural de reconstrução do comum. O dissenso não destrói a democracia. Ao contrário, a funda. E sem dissenso, resta apenas a solidão gerencial do neoliberalismo, onde cada um afunda em seu próprio sorriso, sem sequer ter a quem pedir socorro.

Articulação dialética: síntese e negação radical

Todas as vozes que ecoaram até aqui, Marx, Gramsci, Byung-Chul Han, Mark Fisher, Wendy Brown, nos ajudam a decifrar a positividade compulsória como uma engrenagem cuidadosamente forjada para proteger o capital de seu maior risco: o risco da negação.

No solo da exploração, a positividade nasce como ideologia funcional, pois impede que a dor se organize em discurso, que o discurso se organize em movimento, que o movimento se organize em práxis transformadora. Se toda angústia vira falha individual, se toda indignação vira negatividade patológica, então não há conflito, e sem conflito, não há história.

O materialismo histórico-dialético nos oferece o gesto mais profundo e corajoso: recusar a naturalização desta positividade como um dado eterno da condição humana. Ele nos obriga a olhar para a positividade não como escolha moral, mas como resultado de processos materiais, históricos e de classe. Nos obriga a perguntar: a quem serve a positividade? E a resposta emerge cristalina, ela serve ao capital, que precisa de corpos dóceis e mentes domesticadas, de afetos domesticáveis e sonhos colonizados.

É nesse ponto que a negação radical se impõe como urgência histórica. Porque negar não é sinônimo de destruição estéril; ao contrário, negar é afirmar a possibilidade de outro mundo. O dissenso é a fagulha que reacende a imaginação política, que resgata a solidariedade como forma de resistência, que restitui à dor coletiva sua dignidade e seu poder.

A positividade compulsória destrói a política ao extirpar o dissenso. Romper esse cerco significa devolver à política sua condição originária de conflito, de disputa, de antagonismo legítimo entre projetos de sociedade. O sorriso imposto pelo capital não é a paz — é a paz dos cemitérios, onde não há vozes, não há histórias, não há sonhos.

Cabe a quem ainda deseja emancipação erguer o não, mas um não dialético: aquele que se levanta não apenas contra, mas também para o comum, para a dignidade, para a liberdade, para a reconstrução de uma humanidade que se recusa a ser reduzida à performance de si.

Eis o desafio que nos resta: restaurar o dissenso como motor da democracia, devolver à negação seu lugar de honra na história, rasgar o véu anestésico da positividade tóxica e resgatar a potência viva do coletivo. Porque só na recusa nasce a possibilidade do novo. E porque, como nos ensinou Marx, a história avança não pela harmonia, mas pela força criadora do conflito.

Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global.

A urgência de regulamentar a Inteligência Artificial, por Mariana Mazzucato

Luís Nassif

Artigo de Mariana Mazzucato faz um chamado urgente para que governos e sociedade civil atuem de forma proativa, regulatória e estratégica diante da ascensão da Inteligência Artificial. Ela retoma o conceito de “feudalismo digital” para descrever a lógica de concentração de poder, renda e controle que as grandes plataformas digitais impõem à economia e à sociedade, agora potencializada pela IA.

Desafia o discurso tecnocrático que trata a IA como “inevitável” e neutra. Conecta tecnologia, poder de mercado e falência do Estado e propõe uma agenda baseada em inovação pública, transparência e governança democrática da tecnologia.

Com a ajuda da IA, vamos resumir as conclusões de Mazzucato:

  1. A IA como tecnologia de uso geral e vetor de poder econômico
  • Mazzucato alerta que a IA não é apenas um “setor”, mas uma tecnologia com impacto transversal em todos os setores econômicos, com potencial para criar grande valor público ou agravar desigualdades.
  • A infraestrutura necessária para treinar e operar modelos de IA — computação em nuvem, dados, energia — está concentrada nas mãos de grandes plataformas como Amazon, Google e Microsoft, o que reforça sua posição como gatekeepers.
  1. O “Feudalismo Digital” e as rendas algorítmicas
  • O termo “feudalismo digital” se refere a um sistema onde as grandes plataformas extraem valor em vez de criá-lo — transformando usuários, dados e atenção em rendas privadas.
  • Ela introduz o conceito de rendas algorítmicas: lucros obtidos pela manipulação opaca dos algoritmos que regulam o acesso à informação, publicidade e engajamento digital.
  • O exemplo da “enshittificação” (termo de Cory Doctorow) ilustra como as plataformas se deterioram ao priorizar cada vez mais a monetização em detrimento da experiência do usuário.
  1. O papel do Estado e da inovação pública
  • Mazzucato reitera sua tese clássica de que as inovações disruptivas foram, muitas vezes, possibilitadas por investimentos públicos, como internet, GPS, touchscreen e assistentes virtuais.
  • Hoje, as big techs exploram essas tecnologias e sugam talentos e recursos do setor público, enquanto fazem lobby contra subsídios e impostos (caso do “Departamento de Eficiência Governamental” de Elon Musk).
  1. Propostas de intervenção pública
  • Regulação dinâmica e adaptativa da IA: não esperar os danos aparecerem, mas intervir desde já.
  • Transparência algorítmica obrigatória: forçar as plataformas a divulgar como operam seus algoritmos, incluindo o uso de dados, critérios de moderação, publicidade e impactos sociais.
  • Investimento em capacidades estatais: reverter a dependência do setor público em consultorias privadas, aumentando a expertise interna.
  • Infraestruturas digitais públicas: como o projeto EuroStack, uma alternativa soberana europeia envolvendo nuvem, chips e dados, governada como bem público.
  1. Considerações geopolíticas e ambientais
  • Mazzucato destaca que a corrida global pela IA não deve ser pensada apenas como uma competição entre EUA e China, mas como uma chance para a Europa liderar uma visão alternativa baseada no interesse coletivo.
  • Aponta os riscos ambientais do crescimento explosivo do consumo de energia por parte da IA e sugere que soluções como a da DeepSeek chinesa (com menor consumo energético) mostram que outras formas de inovação são viáveis.
  1. Diagnóstico e horizonte estratégico
  • A autora conclui que o dilema não é entre “regulamentar ou inovar”, mas sobre como moldar os mercados para entregar valor público.
  • Se não houver ação, a IA será capturada pelos mesmos mecanismos extrativistas que já dominam o capitalismo de plataforma.
  • A Cúpula de Paris sobre IA é apresentada como uma oportunidade crítica para traçar esse novo caminho.

Algoritmos: Tipografia generativa, vigilância semiótica e fronteira da dominação estética

A letra invisível do algoritmo – Tipografia generativa, vigilância semiótica e a nova fronteira da dominação estética

Por Reynaldo Aragon 

Este artigo nasce de uma inquietação despertada pela leitura de uma matéria publicada no The Verge, intitulada “What happens when AI comes for our fonts?”. O texto discute como a inteligência artificial está transformando o design tipográfico, criando fontes que se adaptam dinamicamente ao humor, ao ambiente e até ao comportamento do leitor. Embora o tom da reportagem seja entusiástico e tecnicamente informativo, o que se revela nas entrelinhas é algo mais profundo — e mais perigoso: a automação da sensibilidade, a captura algorítmica da estética e a lenta dissolução da escolha como espaço político. A partir dessa provocação, este ensaio propõe uma leitura crítica sobre o papel da IA no design gráfico, situando a tipografia como mais uma trincheira simbólica da guerra pelo imaginário no capitalismo digital.

A letra como arma silenciosa.

Nem tudo que nos captura grita. Às vezes, a dominação sussurra em vetores. Invisível, ajustável, personalizável — a letra se transformou. O que antes era gesto gráfico, escolha estética e decisão política virou produto inteligente calibrado por algoritmo. Fontes que respondem ao nosso humor. Letras que mudam com a luz do ambiente. Tipos que se moldam ao ritmo da leitura, à velocidade do olho, à pulsação do dedo.

Essa é a nova fronteira: a inteligência artificial tomando de assalto o campo da tipografia.

Pode parecer irrelevante à primeira vista. Afinal, quem se importa com fontes, quando o mundo queima? Mas a pergunta está errada. É precisamente porque o mundo queima que deveríamos olhar para onde o fogo se infiltra sem alarde — nas formas sensíveis que estruturam a percepção. A letra não é só forma visual. Ela organiza o tempo, o sentido e o corpo. E agora, com a IA, ela passa a organizar também a nossa reação inconsciente ao próprio ato de ler.

O capitalismo da fricção zero, essa máquina bem lubrificada que promete eliminar obstáculos entre desejo e realização, encontrou na tipografia mais um território a ser higienizado da escolha. Escolher uma fonte, antes, era um gesto: político, simbólico, cultural. Agora, é uma função automatizada, otimizada para não interromper o fluxo.

É o fim da hesitação. E com ele, o fim do sujeito que escolhe.

Fricção zero: a estética da dominação suave.

A promessa da inteligência artificial aplicada à tipografia se ancora em uma velha fantasia contemporânea: a da experiência perfeita. Sem ruídos, sem escolhas, sem interrupções. Uma experiência “natural”, “intuitiva”, onde tudo simplesmente acontece — letras que se ajustam sozinhas, textos que fluem como água, interfaces que respondem antes mesmo da vontade se formar. É o triunfo da chamada fricção zero, essa ideologia sedutora que orienta a arquitetura dos sistemas digitais e captura o imaginário da eficiência plena.

Mas toda fricção eliminada é também um atrito político neutralizado. Quando o usuário não precisa mais escolher uma fonte, pensar na forma, ajustar o corpo do texto ou refletir sobre sua materialidade gráfica, o que se perde não é apenas um tempo técnico — é a mediação simbólica, é a consciência do processo. É a hesitação que precede a criação. É o sujeito enquanto tal.

Sob a estética da fricção zero, a subjetividade não é mais convidada a participar; ela é lida, antecipada e gerida. A fonte “ideal” não nasce do encontro entre intenção e contexto, mas de um cálculo sobre biometria, emoção e performance cognitiva. E o que parece um avanço ergonômico é, na verdade, a estetização da submissão: a letra que se adapta a você, enquanto você se adapta ao sistema.

Essa suavidade é perigosa. Porque não se impõe como controle, mas como conforto. Não nos força — nos poupa. E nesse gesto, nos desarma.

A letra que nos lê: vigilância semiótica e captura subjetiva.

Se antes escrevíamos para sermos lidos, agora somos lidos antes mesmo de escrever. A lógica por trás da IA aplicada à tipografia não é apenas estética, mas profundamente comportamental. Cada letra ajustada em tempo real por um algoritmo carrega consigo um cálculo sobre o leitor: seu ritmo, sua atenção, seu cansaço, sua distração, sua emoção. A tipografia deixa de ser um gesto de expressão para se tornar um sensor semiótico, um mecanismo de leitura da nossa leitura.

Fontes que respondem ao olhar, ao batimento cardíaco, ao padrão de navegação ou à dilatação pupilar não são apenas “inteligentes” — são sistemas de captura subjetiva. Elas não querem apenas transmitir o texto com mais clareza. Querem produzir uma leitura mais eficaz segundo critérios que o leitor desconhece. A fonte vira interface de vigilância, vetor de modulação, dispositivo de performance. O leitor, por sua vez, vira fluxo mensurável — um dado a ser traduzido em responsividade.

Essa mudança é profunda. Porque a tipografia sempre foi, de algum modo, uma linguagem de mediação: entre autor e leitor, entre forma e conteúdo, entre tempo e interpretação. Mas quando essa mediação é sequestrada por um sistema que decide, sem consulta, como devemos ver aquilo que estamos lendo, então o próprio ato de ler passa a ser domesticado.

Não se trata mais de apenas ver letras bonitas. Trata-se de ser lido por uma máquina enquanto se lê, e de aceitar, sem perceber, que a sua experiência cognitiva é uma variável ajustável numa equação projetada por alguém que você nunca verá.

Design sem autoria: a morte suave da escolha.

Escolher uma fonte sempre foi um ato de autoria. Por mais técnico ou automático que parecesse, havia ali uma intenção — um gesto cultural, um posicionamento, uma identidade projetada na forma. Na tipografia, a forma é conteúdo. A escolha de um tipo expressa humor, contexto, ideologia, até mesmo classe. Mas, agora, essa escolha está sendo dissolvida. Suavemente. Silenciosamente. Elegante como uma interface da Apple. E por isso mesmo, letal.

A IA generativa no design gráfico promete democratizar o acesso às ferramentas. Mas sob essa promessa esconde-se uma curva perigosa: quanto mais o sistema “facilita” o processo criativo, mais ele absorve o papel do sujeito no processo. A fonte “ideal” já não precisa ser escolhida: ela se oferece, se ajusta, se insinua. O designer — profissional ou acidental — deixa de decidir para apenas aceitar. O criador vira curador de sugestões algorítmicas. O gesto se automatiza. O erro desaparece. O estilo vira template.

Não é um apagamento brusco. É um rebaixamento simbólico, como quem troca o lápis por um filtro, a composição pela predefinição, o critério pela conveniência. A IA não elimina a autoria — ela a anestesia.

E com isso, surge um novo tipo de invisibilidade: a do algoritmo que desenha o mundo no lugar do sujeito. Uma invisibilidade confortável, fluida, sem atrito — mas que nos distancia daquilo que nos torna criativos, políticos, humanos.

Quando a letra se escreve sozinha, não se trata de eficiência. Trata-se de hegemonia estética operada por um sistema que transforma a criatividade em reprodução e o gesto em dado.

A letra domesticada: quando o design serve ao capital.

Nenhuma tecnologia é neutra. Muito menos aquela que toca a linguagem. A ideia de que fontes geradas por inteligência artificial estão apenas “melhorando a experiência do usuário” é uma camuflagem. O que está realmente em jogo é a conversão da estética em infraestrutura de controle, e da sensibilidade em vetor de extração de valor.

A tipografia generativa não opera no vazio: ela é desenvolvida por corporações como Monotype, Google, Adobe — empresas que já não vendem apenas ferramentas de design, mas plataformas de vigilância e performatividade cognitiva. A fonte que se adapta ao seu humor também coleta esse humor. Mede, classifica, retroalimenta. A letra vira métrica. O estilo vira dado. O olhar vira produto.

Essa não é só a estetização da dominação — é sua operacionalização. Um campo inteiro da experiência sensível, que durante séculos pertenceu ao domínio simbólico, criativo e político, passa a ser domesticado pelas exigências da personalização funcional. Mas a quem serve essa personalização?

Ao capital, sempre. Porque o que parece ser feito para o usuário é, na verdade, feito com o usuário. Cada ajuste de fonte, cada reação medida, cada tempo de permanência numa tela tipograficamente “inteligente” serve para treinar modelos, otimizar métricas, vender promessas de engajamento e construir novos regimes de captura afetiva.

O design deixa de ser uma linguagem para se tornar um sistema de obediência esteticamente confortável. E quanto mais silenciosa for essa obediência, mais eficaz ela será. O que o capital quer, afinal, não é uma letra bonita — é uma letra eficiente. Uma letra que não diga, mas conduza. Que não provoque, mas acomode. Que não nos convoque à leitura, mas nos atravesse sem resistência.

Contra o silêncio vetorial: por uma estética da fricção.

Diante da letra que nos lê, da fonte que se curva ao humor, da estética que se dissolve em responsividade, a única resposta possível é a reafirmação do atrito. Fricção, aqui, não é ruído: é resistência. É o que torna possível o pensamento, o gesto, a autoria. É o que separa a interface da anestesia. Em tempos de hiperadaptação algorítmica, a escolha consciente torna-se um ato de rebelião.

Reivindicar uma estética da fricção é defender a pausa, o incômodo, a hesitação. É recusar o design que se vende como “invisível” — porque toda invisibilidade técnica é uma decisão política cuidadosamente apagada. É lembrar que o que hoje chamamos de “experiência do usuário” muitas vezes significa controle do comportamento mascarado de cuidado, automatização da linguagem disfarçada de empatia, retirada da autoria sob o pretexto da eficiência.

A tipografia não é um detalhe. Ela é a borda sensível do mundo escrito. Deixá-la nas mãos de sistemas que só respondem à lógica da previsibilidade e da performance é permitir que até o modo como vemos o texto — e por extensão, o mundo — seja redigido por forças que não podemos interpelar. Forças que não nos perguntam, apenas preveem. Que não dialogam, apenas modulam.

O gesto de escolher uma letra, hoje, é também o gesto de escolher não ser escrito por uma máquina que finge saber mais sobre você do que você mesmo. É, no fim das contas, escolher continuar humano — imperfeito, contraditório, lento.

Porque, no fundo, a letra que melhor nos representa não é a que se adapta a tudo, mas a que nos permite ainda tropeçar no texto e pensar.

Estratégia Brasil 2050, uma tentativa de desenhar o futuro, por Luís Nassif

Enquanto o noticiário se perde em irrelevâncias sem fim, o futuro vai sendo construído graças ao espaço aberto por Lula. 

Luís Nassif

Até agora, o programa Estratégia Brasil 2050 (acesse o Fórum aqui) gerou três documentos básicos: um estudo sobre as megatendências globais; um relatório das entrevistas efetuadas no período; e uma síntese executiva dos estudos temáticos.

As Megatendências Mundiais

O trabalho identifica 14 mega tendências que impactarão o Brasil até 2050. Dentre elas:

  • Transição demográfica;
  • Aceleração das transformações tecnológicas;
  • Mudanças globais e eventos extremos;
  • Valorização da sustentabilidade e transição energética;
  • Mudanças nos padrões de consumo.

Foram identificadas também 28 incertezas, 5 globais e 23 nacionais, que podem afetar o país. Dentre elas, mudanças imprevisíveis na geopolítica, novos avanços tecnológicos e possíveis rupturas econômicas e sociais.

Desafios e fragilidades

Os mais relevantes são a desigualdade social persistente, educação de baixa qualidade e infraestrutura defasada. Mas também problemas institucionais, como baixa segurança jurídica, burocracia excessiva e falta de planejamento estratégico. O que levou a uma dependência de commodities, tornando o país vulnerável às oscilações do mercado internacional.

Aliás, deve haver estudos sobre as relações entre preços de commodities e estabilidade política. Lula conseguiu espaço com o boom das commodities; enquanto o impeachment de Dilma Rousseff foi acelerado pela queda nas cotações.

Movimentos globais e riscos

O Brasil será impactado por mudanças como a digitalização, mudanças climáticas e envelhecimento da população. Além de incertezas geopolíticas, crises sanitárias, protecionismo e ameaças à democracia.

Visão para 2050

Perseguir um modelo que tenha inclusão social, competitividade econômicas, sustentabilidade e fortalecimento institucionais. Propõem-se reformas estruturais, de melhoria da educação, promoção da inovação tecnológica e modernização da infraestrutura.

Nas ações sociais, sugere-se a reformulação de políticas de transferência de renda, ampliação de acesso à moradia e serviços essenciais.

A Síntese Executiva

Esses dados foram consolidados em uma Síntese Executiva, com as seguintes propostas:

1. Desenvolvimento Social e Garantia de Direitos

Erradicação da pobreza e redução das desigualdades: Prioridade para o Brasil, com foco em programas de transferência de renda e políticas integradas para a inclusão social.

  • Educação: Garantia de acesso equitativo e inclusivo à educação básica, com ênfase na redução da evasão escolar, principalmente no ensino médio.
  • Saúde: Adaptação do Sistema Único de Saúde (SUS) à nova dinâmica demográfica e climática, visando aumentar a cobertura e qualidade do atendimento, especialmente em áreas vulneráveis.
  • Previdência e Assistência Social: Garantia da sustentabilidade do sistema previdenciário diante do envelhecimento populacional e novas modalidades de trabalho.
  • Cultura e Diversidade: Valorização da cultura como fator de inclusão e identidade nacional, promovendo o acesso equitativo à cultura, especialmente nas periferias.

2. Desenvolvimento Econômico e Sustentabilidade Socioambiental e Climática

  • Cidades sustentáveis e resilientes: Adoção de soluções que integrem sustentabilidade e urbanização, visando a melhoria da infraestrutura e da qualidade de vida.
  • Descarbonização da economia: Planejamento para a transição para uma economia de baixo carbono.
  • Transição energética: Modernização da matriz energética para aumentar a produção e consumo de fontes limpas, como solar e eólica.
  • Transformação digital e inovação: Desenvolvimento de um ecossistema digital competitivo, com foco em inteligência artificial, segurança cibernética e inovação tecnológica.
  • Sustentabilidade hídrica e biodiversidade: Garantia do uso sustentável dos recursos naturais e da preservação ambiental, especialmente da biodiversidade.

3. Fortalecimento das Instituições Democráticas e da Soberania Nacional

  • Fortalecimento da democracia e das instituições: Desenvolvimento de um Estado mais eficiente e transparente, com foco na redução das desigualdades e na promoção da justiça social.
  • Segurança pública: Modernização da segurança pública com tecnologias avançadas, buscando a redução da criminalidade e maior proteção à vida.
  • Soberania nacional: Expansão do papel do Brasil na ordem mundial, com ênfase na integração regional e fortalecimento da posição geopolítica do país.
  • Defesa e soberania: Reforço das capacidades de defesa nacional, com foco na proteção das fronteiras e na modernização das forças armadas.

As ameaças

Não se deve esquecer (e agora as observações são minhas) que virando a esquina haverá um Bolsonaro, um Tarcísio ou a malícia política de um Michel Temer. E uma mídia que ainda não entendeu o conceito de políticas estruturantes com continuidade.

O lançamento do Projeto Brasil

Luís Nassif

Hoje em dia, há pelo menos quatro grandes políticas em andamento no governo federal: a Transição Energética, de Fernando Haddad; o Brasil 2050 e as Rotas Transoceânicas, de Simone Tebet; a Nova Indústria Brasil, de Geraldo Alckmin; e a política científico-tecnológica do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, prestes a sair.

Um dos temas preferenciais serão as políticas setoriais, baseadas na receita criada pelo Programa de Desenvolvimento Produtivo, no qual técnicos da Fiocruz planejaram a nova indústria da saúde.

Tratou-se do mais bem sucedido programa de política industrial.

Primeiro, o governo se valeu do poder de compra do Sistema Único de Saúde (SUS). Selecionou os principais medicamentos. O laboratório multinacional, dono da patente, teria que dar, como contrapartida às compras do SUS, a transferência de tecnologia a um laboratório público.

Depois, o laboratório licenciaria a fórmula para laboratórios privados nacionais. A intermediação do laboratório público foi essencial. Primeiro, porque atuaram para analisar as condições dos laboratórios nacionais candidatos às patentes. Depois, porque se a patente fosse transferida para um laboratório privado, no momento seguinte seria adquirido por alguma multinacional.

O principal formulador do complexo industrial da saúde, Carlos Gadelha, vai trabalhar em uma missão relevante: estudar de que maneira o aprendizado do PDP poderá se estender a outros setores da economia.

O Projeto Brasil discutirá também políticas sociais, infraestrutura, modelos de avaliação das políticas públicas, formas de organizar as pequenas e médias empresas e as políticas ambientais.

A fase inicial do Projeto será um piloto com a Universidade de Brasília (UnB). Depois, a ideia será estendê-lo às demais universidades, institutos federais e aos principais think tanks do Estado brasileiro, como o IPEA, a Finep, o BNDES.

Como a mudança neoliberal dos EUA alimentou a ascensão da China

The Diplomat

A grande aproximação entre a China e os Estados Unidos na década de 1970 foi impulsionada por cálculos geopolíticos: a aposta da administração Nixon para formar uma frente unida com a China de Mao contra a União Soviética. Mas, a longo prazo, o maior resultado pode ter sido económico. A reabertura das linhas comerciais China-EUA acabaria por reestruturar toda a economia global, transformando a China na “fábrica do mundo”, ao mesmo tempo que esvaziaria o emprego na indústria transformadora nos Estados Unidos.

Elizabeth O’Brien Ingleson investiga esta transformação sísmica no seu novo livro, “ Made in China: When US-China Interests Converged to Transform Global Trade ”. Nesta entrevista ao The Diplomat, Ingleson, professor assistente de história internacional na London School of Economics, explora como a mudança para o capitalismo neoliberal nas décadas de 1970 e 1980 reescreveu a dinâmica do comércio China-EUA – e, em última análise, das relações China-EUA.

“Para que a China convergisse com o capitalismo global, os Estados Unidos – o maior e mais poderoso interveniente no sistema capitalista – precisavam de acomodar as necessidades da China”, explicou ela. E essa é a história que se desenrolou em salas de reuniões e fábricas em ambos os lados do Oceano Pacífico.

As visões gerais da relação comercial China-EUA centram-se frequentemente nas mudanças na política económica da China, particularmente na abordagem de “reforma e abertura” introduzida em 1978. Mas você argumenta que “a transformação na economia dos EUA foi crítica para a eventual convergência da China com o capitalismo global. ” Como é que as mudanças económicas que ocorreram em ambos os países se reforçaram mutuamente?

Uma das grandes questões com que os estudiosos da China moderna se debatem é como e porquê o país convergiu com o sistema capitalista global. Um debate anterior entre académicos procurou compreender o que Kenneth Pomeranz descreveu de forma memorável como a “grande divergência” na industrialização entre o Noroeste da Europa e o Leste Asiático desde meados do século XVIII. Mais recentemente, um grupo de economistas apresentou a noção de “convergência” como forma de compreender a relação da China com o capitalismo global na última parte do século XX.

Penso que este é um quadro útil para compreender a transformação da China; o que poderia ser melhor rotulado como a “grande convergência” com o capitalismo global. A reforma e a abertura anunciadas por Deng no final de 1978 têm grande importância nestas contas – e por boas razões. As mudanças pós-1978 foram de facto cruciais para este processo. Mas os académicos cujo foco principal está na China tendem a prestar menos atenção ao sistema capitalista com o qual a China começou a envolver-se. Para que a China convergisse com o capitalismo global, os Estados Unidos – o maior e mais poderoso interveniente no sistema capitalista – precisavam de acomodar as necessidades da China. 

Portanto, o meu interesse era juntar estas duas dinâmicas: as mudanças que acontecem dentro da China, bem como as que acontecem dentro do capitalismo dos EUA. E descobri que, mesmo antes das reformas de Deng, os reformadores chineses começaram a experimentar formas de integrar os objectivos de desenvolvimento da própria China com processos que estavam em curso nos Estados Unidos e em aceleração na década de 1970: a internacionalização da indústria transformadora através de mão-de-obra offshore barata e cadeias de abastecimento emergentes. 

Os empresários americanos já tinham começado a internacionalizar lentamente a sua produção antes da reabertura do comércio com a China. Nas décadas de 1950 e 1960, recorreram a fontes não-comunistas como o Japão e Taiwan. Na década de 1970, os líderes da China começaram a adaptar-se a estas dinâmicas emergentes e, no processo, transcenderam lentamente as divisões da Guerra Fria que durante tanto tempo dividiram a China e os Estados Unidos. 

Na maior parte do mundo, a Guerra Fria terminou no final da década de 1980, quando a União Soviética começou a entrar em colapso e a visão do capitalismo neoliberal liderada pelos EUA tornou-se o princípio organizador chave para o desenvolvimento social. Mas no caso das relações EUA-China, a Guerra Fria terminou sem colapso sistémico em nenhuma das nações. Em vez disso, as divisões da Guerra Fria entre estas duas nações desapareceram durante a década de 1970 através de uma convergência gradual de interesses entre o capitalismo norte-americano e o comunismo chinês.

A história que conto não pode ser contada sem explorar as decisões e ações que acontecem em ambos os países. Não fui capaz de compreender as mudanças que estavam a acontecer entre a comunidade empresarial dos EUA que negociava com a China sem olhar profundamente e com a devida consideração ao que estava a acontecer na China. E o inverso também é verdadeiro. As formas como os pragmáticos chineses começaram a integrar-se no sistema capitalista exigiram uma compreensão das mudanças que estavam a acontecer nos Estados Unidos pós-Bretton Woods. Nesse sentido, é uma história transnacional – que teve um impacto de amplo alcance no capitalismo e no comércio globais. 

Um dos temas centrais do seu livro é a importância da mudança na forma como a China foi imaginada pelas empresas e economistas dos EUA: de um mercado potencial para produtos norte-americanos para uma fonte de mão-de-obra barata. Como é que essa mudança nas percepções empresariais dos EUA se combinou com os objectivos do Estado chinês na altura?

Sim, durante séculos, os empresários viram na China a promessa de um enorme mercado consumidor, aquilo que um empresário norte-americano descreveu na década de 1930 como “400 milhões de clientes”. Para eles, o comércio com a China significava expandir as exportações. Na década de 1970, os comerciantes norte-americanos e chineses reformularam em conjunto o significado do mercado chinês. Eles começaram a nutrir uma nova promessa de produção terceirizada – os proverbiais 800 milhões de trabalhadores. 

À medida que os pragmáticos chineses debatiam formas de acelerar a industrialização da China, experimentavam cada vez mais a utilização do dinheiro gerado pelas vendas de exportações para financiar os seus esforços de desenvolvimento. Ao vender têxteis e matérias-primas, esperavam comprar fábricas, aviões, etc. A enorme força de trabalho da China oferecia o potencial para criar bens manufacturados baratos que poderiam ser vendidos aos Estados Unidos e a outros países, gerando por sua vez o dinheiro necessário para comprar a infra-estrutura necessária para acelerar a industrialização da China. 

A “malha” aconteceu na fabricação. À medida que as empresas americanas internacionalizaram as operações de produção para outras partes do mundo, começaram a ver a China como oferecendo potencial para se juntar – e ajudar – neste processo. Durante a maior parte da década, a China não permitiu o investimento directo estrangeiro, mas ofereceu mão-de-obra barata. Assim, os interesses dos pragmáticos chineses e dos capitalistas norte-americanos começaram a alinhar-se. A consequência deste alinhamento foi uma reconfiguração fundamental do que significava falar de “comércio EUA-China” – não mais um mercado chinês de 400 milhões de clientes, mas sim um mercado de trabalhadores.

É importante sublinhar, contudo, que estes esforços encontraram forte oposição. A década de 1970 foi um período de imensa convulsão social e política na China, ofuscada pela doença de Mao e pela eventual morte em 1976. Não havia certeza de que estes esforços hesitantes na década de 1970 iriam continuar. Penso que é fácil, na perspectiva actual, considerar a convergência da China com o capitalismo global como um processo natural ou inevitável de crescimento e desenvolvimento económico. Mas a oposição à relação comercial e os problemas que a sustentam são precisamente a razão pela qual não era inevitável: o comércio era difícil e o lucro estava longe de ser certo.

Você observa que nos primeiros dias do reengajamento China-EUA, “os líderes de ambas as nações compreenderam e usaram o comércio como uma ferramenta de diplomacia, mas de maneiras muito diferentes”. Quais foram as principais diferenças nas suas abordagens, e isso ainda é verdade hoje?

Os primeiros anos do comércio EUA-China desenvolveram-se no estranho período do limbo da reaproximação. Apesar do dramático encontro entre o Presidente Nixon e o Presidente Mao em Pequim, em 1972, foi necessário que dois novos líderes chegassem ao poder – Jimmy Carter e Deng Xiaoping – para que os dois países finalmente restabelecessem as relações diplomáticas, o que anunciaram em Dezembro de 1978. Ao longo deste processo, Durante esse período, os líderes tanto dos Estados Unidos como da China trataram o comércio como um incentivo – mas um incentivo a ser oferecido em diferentes pontos do processo de negociação. Os Estados Unidos utilizaram-no como um incentivo antes da normalização diplomática total, como uma indicação do seu compromisso com o processo de reaproximação. A China utilizou o comércio como um incentivo a ser fornecido após melhorias nas negociações geopolíticas. 

Estas atitudes divergentes complementaram-se de forma surpreendente: as exportações chinesas para os Estados Unidos assumiram importância diplomática. Um dos principais problemas económicos que surgiram na década de 1970 foi um desequilíbrio comercial a favor dos Estados Unidos. O valor total das importações da China era superior às suas exportações para os Estados Unidos e, especialmente quando a diplomacia começou a estagnar em meados da década, as autoridades chinesas queriam que esta situação fosse corrigida. Em resposta, os líderes diplomáticos e empresariais americanos trabalharam para aumentar as importações de produtos chineses pelos EUA. Fizeram-no precisamente devido aos seus próprios pressupostos de que boas relações comerciais eram importantes para apoiar os esforços diplomáticos paralelos. Mas isto alinhou – e ajudou a desenvolver – a malha entre os capitalistas norte-americanos e o Estado chinês. 

Hoje a dinâmica é mais complicada, justamente pelas mudanças ocorridas ao longo da década de 1970. A internacionalização da indústria transformadora mudou fundamentalmente a relação entre o comércio e o Estado-nação. Na nossa era pós-COVID, todos estamos familiarizados com a centralidade das cadeias de abastecimento para a produção e o comércio globais. Mas a política comercial continua notavelmente vinculada ao Estado-nação. Se “Made in China” representa uma ameaça à indústria transformadora americana, então “Made in America” sugere que os seus efeitos também podem ser combatidos pelo Estado-nação. 

A longa história de receios do “perigo amarelo”, combinada com o orgulho nacional gerado pela melhoria do “Made in America”, tem sido há muito tempo uma combinação vencedora na política americana. É por isso que a primeira ordem executiva aprovada pelo presidente Biden no início de 2021 foi apelidada de “Made in America”. Pediu que mais agências federais usassem produtos produzidos nos Estados Unidos. No entanto, as letras miúdas da ordem executiva de Biden revelam a confusão por trás dos rótulos de país de origem hoje. O padrão para o seu plano Made in America seria alcançado se apenas 55% dos componentes fossem fabricados nos Estados Unidos.

Assim, a abordagem dos anos 70 de utilizar o comércio como uma ferramenta política – no contexto actual, isso muitas vezes significa a aplicação de tarifas – não tem o impacto na China da forma que teria há 50 anos. Apesar das tarifas actuais, os semicondutores fabricados na China estão a entrar nos Estados Unidos em número crescente através do México, por exemplo. O que esta história revela é que, para corrigir os problemas reais que os trabalhadores americanos enfrentam, precisamos de nos concentrar nos factores que nos levaram até onde estamos hoje. Mais particularmente: uma política que priorizava os interesses do capital sobre o trabalho.

O comércio tem sido fundamental para as relações China-EUA desde o início do processo de normalização. Hoje, porém, o comércio é cada vez mais visto através das lentes da segurança nacional em Washington; “reduzir o risco” está na ordem do dia. Existiram preocupações semelhantes na década de 1970, quando os pilares das relações comerciais China-EUA estavam a ser construídos?

Na década de 1970, as preocupações com a segurança nacional permaneceram certamente em certas áreas de Washington, particularmente no Pentágono no que diz respeito às vendas de tecnologia que poderia ter aplicação militar. Mas estas foram preocupações que se tornaram cada vez mais uma voz minoritária, em vez dos medos crescentes que ouvimos hoje. Nesse sentido, podemos ver como a Guerra Fria terminou para as relações EUA-China na década de 1970: como um lento desaparecimento das tensões. 

Vista a partir de 2024, esta história de interesses convergentes entre os Estados Unidos e a China parece cada vez mais uma história de um passado distante. Mas quando comecei esta investigação, no início da década de 2010, ainda havia esperanças de que a relação comercial interdependente pudesse ajudar a criar relações geopolíticas positivas. No espaço de uma década muita coisa mudou. Mas viver este período enquanto pesquisava e escrevia sobre uma década diferente realmente me fez perceber o quanto pode mudar num período de tempo relativamente curto devido a decisões – e visões partilhadas – daqueles com mais poder político e económico do que outros.

Os grupos trabalhistas estiveram entre os poucos que previram com precisão o impacto do envolvimento económico China-EUA na economia americana. Até que ponto os grupos laborais estavam especificamente preocupados com a China, em comparação com uma preocupação mais geral com a tendência da indústria transformadora se deslocar para o exterior, independentemente do destino?

A China mantinha uma preocupação específica no sentido de que o tamanho da sua população amplificava dramaticamente as tendências mais amplas que aconteciam no sector industrial dos EUA. Não havia forma de saber na década de 1970 que a China se tornaria de facto uma fonte tão significativa de mão-de-obra. A China era extremamente pobre, com uma base industrial fraca – outra razão importante pela qual a sua convergência com o capitalismo global não era inevitável. Mas estavam certamente a surgir sinais de que as coisas poderiam estar a mudar na China. E isto ocorreu precisamente no momento em que a indústria transformadora dos EUA se voltava para fontes estrangeiras de mão-de-obra barata.

Foi a indústria têxtil dos EUA quem mais expressou os receios em relação à China. Esta era uma indústria cuja força de trabalho era quase inteiramente composta por mulheres negras, uma razão importante pela qual não recebiam a atenção que exigiam. Não eram os homens que usavam capacetes das indústrias automobilística e siderúrgica que desempenharam um papel proeminente na política dos EUA na década de 1970. Mas ainda mais importante, muitos dos líderes masculinos brancos da indústria têxtil que procuravam – em nome destas mulheres negras – restrições ao comércio com a China apelavam à ordem do mercado em vez de reformas fundamentais que protegeriam os trabalhadores norte-americanos. 

A ideia de recorrer a mão-de-obra barata no estrangeiro não foi um problema em si para muitos membros da indústria têxtil. Em vez disso, procuravam uma transição para a produção externalizada que se desenvolvesse de forma constante, dando aos gestores tempo para ajustarem as suas linhas de produção à mão-de-obra barata estrangeira. A sua preocupação era especificamente com a China porque as suas estruturas estatais comunistas tornavam mais fácil para a China reduzir os custos laborais e despejar produtos baratos. O dumping foi perturbador; tornou mais difícil para os gestores têxteis dos EUA migrarem lenta e continuamente para mão-de-obra estrangeira.

Em última análise, a capacidade dos líderes chineses de tirarem a sua população da pobreza ocorreu à custa dos trabalhadores têxteis não sindicalizados que recebiam o salário mínimo nos Estados Unidos e, mais tarde, também noutras indústrias. Mas esse impacto sobre os trabalhadores norte-americanos foi fundamentalmente possibilitado pelas decisões dos líderes industriais e dos executivos das empresas norte-americanas, auxiliados pela legislação em Washington. As empresas e os empresários dos EUA foram, portanto, pilares cruciais tanto na industrialização da China como na desindustrialização dos Estados Unidos 

Nos Estados Unidos, isto foi uma desindustrialização do trabalho. Entre o final da década de 1940 e o início da década de 2020, a indústria transformadora nos Estados Unidos permaneceu relativamente estável em proporção do PIB real. Os Estados Unidos continuam a produzir bens. Na verdade, até 2010 foi o maior país industrial do mundo, depois do qual permaneceu atrás apenas da China. Não foi a indústria transformadora que entrou em declínio nos Estados Unidos na década de 1970, mas o seu emprego: um resultado, em grande parte, das novas tecnologias utilizadas no processo de produção, da produção de novos tipos de bens de alta tecnologia e do movimento da mão-de-obra. indústrias intensivas para fábricas no exterior. 

O foco contínuo em Washington hoje na ameaça do “Made in China” propaga o mito de que os Estados Unidos já não são uma nação industrial e, no processo, elimina a responsabilidade das decisões empresariais que perseguem salários baixos acima de tudo o resto. O problema hoje no centro da política industrial dos EUA não é a China. É uma política que possibilita essas ações ao priorizar o capital em detrimento do trabalho.

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