Qual o impacto das Big Techs na pressão econômica de Trump no Brasil

O tarifaço de Donald Trump foi uma tática de pressão econômica utilizada para proteger os interesses das Big Techs contra tentativas de regulamentação e responsabilização no Brasil, demonstrando a influência dessas empresas na política externa dos EUA.

A afirmação é da pesquisadora Isabela Rocha, mestre em ciência política e uma das autoras do estudo Contratos, Códigos e Controle: A Influência das Big Techs no Estado Brasileiro, assinado em parceria com pesquisadores da USP e da Universidade de Brasília (UnB) e disponível aqui no acervo do Projeto Brasil.

Publicado em julho deste ano, o estudo calculou que o Brasil, em todas as suas esferas (federal, estadual e municipal), pagou, ao menos, R$ 23 bilhões em licenças de software, nuvem e tecnologia digital para as Big Techs norte-americanas, nos últimos 10 anos.

Em entrevista a Luís Nassif e economistas do Projeto Brasil, Rocha expôs que o tarifaço desta semana de Trump teve uma relação direta com as Big Techs, funcionando como uma forma de pressão em favor dos interesses dessas grandes empresas de tecnologia.

“Esse tarifaço ele veio em uma tentativa de ameaçar, de fato, o Brasil, para que a gente ‘desse para trás’ e não acontecesse a responsabilização e, principalmente, a regulação das plataformas digitais”, afirmou.

“A gente fez um mapeamento de todos os gastos do governo brasileiro com as Big tech e a gente chegou no montante de R$ 23 bilhões, e 10 bilhões só no ano passado, esses gastos não são irrisórios e considerando o interesse econômico que as Big Tech têm no Brasil, é impossível a gente tirar o tarifaço desse contexto”, continuou.

A pesquisadora apresentou um dos dados alarmantes dessa tentativa de influência no Brasil pelos gigantes da tecnologia: A Meta vem demonstrando “grande interesse no Brasil”, com um membro do governo de Donald Trump chegando a declarar interesses no excedente energético de Itaipu para a construção de Data Centers, o que, segundo a pesquisadora, está ligado ao projeto da Meta de construir tais estruturas no país.

A participação de Isabela Rocha no programa desta semana do Projeto Brasil no Youtube inaugura a nova parceria da plataforma com a equipe de economistas e especialistas do programa Nova Economia da TV GGN, que agora somarão seus conhecimentos à esta iniciativa.

Confira a íntegra da entrevista que foi ao ar nesta quinta (31):

E leia outros artigos e o Fórum Soberania Digital, criado especialmente para debater esta temática no Projeto Brasil:

Setor público gasta bilhões com Big Techs ao invés de ciência nacional, mostra estudo

O ousado plano de soberania digital do governo brasileiro

Soberania Digital

Taxação dos EUA e Política Monetária Internacional

Setor público gasta bilhões com Big Techs ao invés de ciência nacional, mostra estudo

Texto dos pesquisadores adaptado para o Jornal da USP

O setor público brasileiro, nas esferas federal, estadual e municipal, contratou pelo menos R$ 23 bilhões em licenças de software, nuvem, segurança digital e softwares de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) entre 2014 e 2025 – valor superior ao orçamento de diversos Ministérios federais. A estatística é revelada pelo estudo Contratos, Códigos e Controle: A Influência das Big Techs no Estado Brasileiro (leia no Acervo do Projeto Brasil), realizado por pesquisadores da USP e da Universidade de Brasília (UnB). Apenas entre junho de 2024 e junho de 2025, o gasto com produtos tecnológicos internacionais superou R$ 10,35 bilhões, valor que cobriria por um ano o pagamento de bolsas a todos os 350 mil mestrandos e doutorandos do País.

“A escolha revela uma inversão de prioridades que compromete o futuro do País. Não faz sentido o Brasil gastar bilhões de reais em contratos com fornecedores estrangeiros de tecnologia enquanto nossas universidades e centros de pesquisa operam com orçamentos apertados há décadas”, afirma Ergon Cugler, coordenador do estudo, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV) de São Paulo e integrante do Grupo de Estudos em Tecnologia e Inovações na Gestão Pública (Getip) da USP.

 

“Estamos enviando dinheiro público para sustentar a inovação em outros países, quando poderíamos investir esse mesmo valor aqui, fortalecendo a capacidade científica nacional, gerando empregos qualificados e desenvolvendo soluções tecnológicas próprias.”

O setor público brasileiro contratou pelo menos R$ 23 bilhões em TIC entre 2014 e 2025, sem contar sobreposições nem dados não padronizados, sendo R$ 10,35 bilhões apenas no último ano. A análise das bases ComprasNet e Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP) permitiu estimar esse valor piso, revelando a dimensão dos investimentos em tecnologia estrangeira, ainda que o número real possa ser significativamente maior devido à fragmentação das bases da União e inconsistência dos dados. O trabalho mostra que com a quantia já destinada à aquisição de tecnologia estrangeira, nos últimos dez anos, seria possível construir e inaugurar pelo menos 86 data centers de alto padrão no Brasil.

A pesquisa também estima que o valor de R$ 10,35 bilhões é suficiente para pagar bolsas a todos os 350 mil pós-graduandos do País durante um ano inteiro, considerando 100 mil doutorandos a R$ 3.300 mensais e 250 mil mestrandos a R$ 2.100 por mês, segundo os valores da Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Em outra comparação feita no estudo, esse mesmo valor manteria o funcionamento da UnB, com todos os custos operacionais, de corpo docente e demais previsões no orçamento, por até quatro anos e meio.

Demanda pública como motor de desenvolvimento

No recorte do atual mandato, entre janeiro de 2023 e junho de 2025, as três esferas do setor público brasileiro contrataram R$ 5,97 bilhões em licenças de software, R$ 9 bilhões em soluções de nuvem e R$ 1,91 bilhão em segurança digital. O estudo mostra que quatro grandes empresas lideram as contratações públicas federais de tecnologia, com Microsoft, Oracle, Google e Red Hat concentrando volumes bilionários. A Microsoft sozinha aparece com R$ 3,27 bilhões no ComprasNet, sendo R$ 1,65 bilhão apenas no primeiro semestre de 2025. No PNCP, Oracle (R$ 1,02 bilhão), Google (R$ 938 milhões) e Red Hat (R$ 909 milhões) dominam os contratos desde 2022. Licenças de softwares da Microsoft foram negociadas a R$ 3,27 bilhões nas três esferas, sendo R$ 1,65 bilhão só no primeiro semestre de 2025. Serviços de nuvem da Oracle somaram R$ 1,02 bilhão, seguido do Google, com serviços vendidos a R$ 938 milhões, e Red Hat, com R$ 909 milhões em serviços vendidos.

Os pesquisadores ressaltam que esses serviços, licenças e softwares, em boa parte, são negociados por CNPJs de terceiros, o que demonstra a existência de um mercado especializado em intermediação de licenças de software para o setor público. “Cada contrato fechado com uma multinacional é uma porta fechada para startups brasileiras, institutos públicos e redes de universidades que já têm competência técnica para entregar soluções de ponta”, aponta Cugler. “Estamos perdendo a chance de transformar demanda pública em motor de desenvolvimento. A tecnologia comprada de fora não volta em forma de emprego, renda ou autonomia. A tecnologia feita aqui dentro, sim.”

Imagem: Reprodução do artigo

Para ele, o que está em jogo não é só o valor dos contratos, mas o tipo de país que queremos construir. “O Brasil tem infraestrutura, cérebros e rede pública qualificada para oferecer alternativas robustas”, enfatiza. “Mas, para isso acontecer, é preciso uma decisão estratégica: investir no que é nosso. Com os mesmos recursos, que hoje sustentam big techs, poderíamos financiar datacenters nacionais, ciência aberta, segurança digital sob jurisdição própria e gerar milhares de empregos qualificados. É uma escolha que pode mudar nossa ciência.”

A pesquisa foi realizada pelo Getip, vinculado ao Observatório Interdisciplinar de Políticas Públicas Prof. Dr. José Renato de Campos Araújo (OIPP), coordenado pelo professor José Carlos Vaz da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, e o Grupo de Trabalho Estratégia, Dados e Soberania do Grupo de Estudos e Pesquisas em Segurança Internacional (Gepsi Data) do Instituto de Relações Internacionais da UnB. O trabalho, assinado por Ergon Cugler, Isabela Rocha, José Carlos Vaz, Camila Modanez e Julia Veneziani está disponível também na versão completa.

 

Uso da tecnologia de informação para acabar com o anonimato das emendas parlamentares

Luis Nassif

Mais uma contribuição do Projeto Brasil para as políticas públicas.

Um sistema baseado em blockchain poderia revolucionar a transparência das emendas parlamentares no Brasil ao garantir rastreabilidade, imutabilidade, acesso público e auditabilidade automática. A dica me foi passada por Daniel Baracho, especialista em TI e militante progressista.

→ Confira e participe do Fórum de discussão dos rumos das inteligência artificial no país.

Vamos desenvolver melhor a proposta:

O problema atual das emendas parlamentares

  • Falta de rastreabilidade clara: Emendas de relator (como o “orçamento secreto”) dificultam o rastreamento de quem indicou recursos.
  • Favorecimento político opaco: Alocação de verbas pode ser usada como moeda de troca sem visibilidade pública.
  • Baixa fiscalização da execução: É difícil acompanhar se o recurso chegou ao destino, foi bem aplicado e gerou impacto real.

Aí entram as características da blockchain

O blockchain (ou “cadeia de blocos”, em português) é uma tecnologia de registro digital descentralizado, segura e transparente, que permite armazenar dados em blocos encadeados de forma imutável e auditável. Ele ficou conhecido inicialmente por ser a base do funcionamento do Bitcoin, mas hoje tem aplicações muito mais amplas.

Como funciona o blockchain?

1. Blocos de dados:

Cada bloco contém:

    • um conjunto de transações ou registros,
    • um carimbo de tempo (timestamp),
    • um hash (identificador único do bloco),
    • e o hash do bloco anterior, criando a “cadeia”.

    2. Imutabilidade e segurança:

      Uma vez que um bloco é adicionado, não pode ser alterado sem invalidar toda a cadeia posterior, o que exigiria alterar todas as cópias distribuídas da rede — algo virtualmente impossível sem controle da maioria.

      3. Consenso:

      A rede precisa concordar com cada novo bloco. Existem mecanismos como:

      • Prova de Trabalho (Proof of Work) – usado no Bitcoin,
      • Prova de Participação (Proof of Stake) – mais eficiente energeticamente.

      Os ganhos com o blockchain

      1. Rastreabilidade total

        • Cada etapa da proposta, aprovação, liberação e execução da emenda seria registrada em blocos públicos e cronológicos.
        • Permite saber:
          • Quem indicou a emenda
          • Para qual entidade
          • Qual valor foi empenhado, pago e executado
          • Qual contrato ou licitação foi associado

        2. Imutabilidade e segurança

        • Uma vez registrada, a informação não pode ser alterada sem consenso da rede.
        • Evita fraudes, manipulação ou adulteração de dados.

        3. Acesso público automatizado

          • Qualquer cidadão, jornalista ou tribunal pode consultar em tempo real:
            • O histórico completo da emenda
            • Os documentos (em PDF, XML etc.) vinculados
            • Dados de CNPJs, municípios, contratos e fornecedores

          4. Auditoria em tempo real

            • Órgãos como TCU, CGU e MPF poderiam usar smart contracts para monitorar automaticamente:
              • Pagamentos fora de padrão
              • Emendas fracionadas para fugir de licitação
              • Indicação cruzada para empresas ligadas a políticos

            Exemplo prático de funcionamento

            EtapaBlockchain registra…
            Indicação da emendaNome do parlamentar, valor, município, órgão de destino
            Análise e aprovaçãoDecisões técnicas, pareceres e data de liberação
            Liberação dos recursosNúmero do empenho, data, valor e conta de destino
            Execução contratualDados do contrato, licitação, empresa contratada, entregáveis
            Prestação de contasRelatórios, fotos de obras, notas fiscais, medições técnicas

            Benefícios concretos

            BenefícioImpacto prático
            Fim do anonimato políticoIdentifica todos os autores de emendas, inclusive de relator (RP9)
            Combate à corrupçãoDificulta fraudes e desvios em obras fantasmas ou entidades de fachada
            Controle social realCidadãos e imprensa podem investigar diretamente
            Auditoria inteligenteAlgoritmos de alerta automático para indícios de irregularidades
            Transparência federativaEstados e municípios também podem aderir, integrando portais locais

            Sistema de informações para emendas

            Telas principais do dashboard:

            1. Página inicial

            • Busca por: parlamentar, município, CNPJ, número da emenda
            • Filtros: ano, partido, estado, status (empenhada, executada, paga)
            • Gráfico de distribuição de emendas por região e por partido

            2. Visualização de uma emenda

            CampoExemplo
            ID3021
            ParlamentarMaria Silva (PSB-SP)
            ValorR$ 500.000
            FinalidadeAquisição de ambulância para UBS local
            DestinoPrefeitura de Itapecerica da Serra
            Data de aprovação21/03/2024
            Status atualPaga
            Última atualização12/05/2024
            Link para contrato[PDF do contrato]
            Hash do bloco0x4f7a…b329 (com link no Etherscan)

            3. Mapa interativo

            • Cada município com bolhas proporcionais ao volume de recursos recebidos
            • Cores indicam status (vermelho = pendente, verde = executado)

            4. Ranking e alertas

            • Top 10 parlamentares por volume
            • Top 10 municípios por emendas recebidas
            • Alertas automáticos:
              • Execução zero após 12 meses
              • Empresas contratadas com histórico de fraude
              • Fragmentação de contratos

            5. Consulta por empresa (CNPJ)

            • Mostra contratos vinculados a emendas
            • Quantas vezes a empresa foi contratada via emenda
            • Indício de favorecimento político?

            Integrações futuras sugeridas

            SistemaFunção
            Portal da Transparência (CGU)Dados de pagamentos e convênios federais
            Siconv (Plataforma +Brasil)Prestação de contas e etapas da execução
            Receita Federal (via API)Consulta de dados de empresas contratadas
            TCU/CGUAuditores com acesso a alertas automatizados
            Blockchain Explorer (Etherscan)Verificação pública dos blocos de dados

            Exemplo de dashboard

            O caso GPS e a soberania digital

            Luis Nassif

            As investidas de Donald Trump sobre o Brasil colocam na cena política-diplomática um cenário cruel: as novas formas de guerra digital.

            De início, recorreu ao instrumento das tarifas comerciais. Mas sua bomba atômica são o controle norte-americano sobre os instrumentos digitais. E a possibilidade de apertar o gatilho expõe, de maneira cruel, a pouca prioridade que o país deu ao tema da soberania digital.

            → Confira aqui e participe do Fórum criado para discutir a soberania digital brasileira

            O GPS

            O projeto GPS (Global Positioning System) foi iniciado oficialmente pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos, unificando três programas militares anteriores: o Transit (Marinha), Timation (Marinha) e 621B (Força Aérea). Sua função era ser um sistema de navegação preciso, capaz de operar em qualquer lugar do mundo.

            Para tal, o modelo consistia no lançamento de satélites que cobrissem o planeta. Em 1995 passou a contar com 24 satélites ativos, garantindo a cobertura global por 24 horas por dia.

            Inicialmente foi aberto ao público civil com a chamada precisão degradada (Selectiv Availability). Em 2000, o presidente Bill Clinton autorizou o uso total para civis.

            Hoje em dia são mais de 30 satélites em operação, em órbitas médias de 20.200 km. Cada satélite tem sinais, como hora precisa (usando relógios atômicos) e posição orbital. O receptor GPS no solo calcula sua posição com base no tempo que o sinal leva para chegar de pelo menos 4 satélites. A partir daí, consegue identificar o alvo com precisão.

            O sistema é controlado pelo US Space Force.

            Sem GPS

            Se os EUA cortassem o acesso brasileiro ao GPS, haveria as seguintes consequências:

            • Agricultura de precisão: processo em expansão especialmente no centro-oeste. Tratores e drones perderiam orientação centimétrica.
            • Logística, aviação, transporte marítimo – rotas, rastreamento e pousos ficariam comprometidos.
            • Energia e telecomunicações – falhas na sincronização de redes e relógios atômicos.
            • Defesa e segurança – afetaria armas, mísseis, radares e vigilância.
            • Satélites nacionais – perda de referência para dados de órbita e calibração.

            Sistemas alternativos

            O GPS não é o único sistema existente no mundo.

            Segundo o Chat GPT, há os seguintes sistemas alternativos em operação. Dispositivos modernos já aceitam múltiplos sistemas GNSS:

            SistemaPaís de origemSituação
            GLONASS🇷🇺 RússiaJá amplamente usado em Androids e receptores agrícolas no Brasil
            Galileo🇪🇺 União EuropeiaMais preciso que o GPS (modo civil), gratuito e confiável
            BeiDou🇨🇳 ChinaCobertura global desde 2020; já integrado em celulares Xiaomi etc.
            NavIC🇮🇳 ÍndiaRegional, mas pode ser útil em cooperação

            Segundo o Gemini, o GPS (EUA), Glonass (Rússia), Galileo (União Europeia) e BeiDou (China) têm cobertura global. O Glonass tem melhor desempenho na Rússia. O Galileo e o BelDou tem cobertura global e tornaram-se totalmente operacionais desde 2020.

            O GPS tem liderança de mercado na América do Norte e no seu quintal, ao sul. Na Ásia-Pacifico há rápido crescimento do BeiDou e NavIC, e o Galileo domina na Europa.

            O Brasil poderá aderir a outros sistemas. O INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) já mantém cooperação com a CBERS e poderá montar outros com a ESA.

            O CBERS (China-Brazil Earth Resources Satellite) é um programa de cooperação espacial entre a China e o Brasil, focado no desenvolvimento e lançamento de satélites de observação da Terra. O objetivo principal é gerar imagens da superfície terrestre para diversas aplicações, como monitoramento ambiental (desmatamento, queimadas), agricultura, recursos hídricos, geologia, entre outros. A ESA é a Agência Espacial Europeia.

            País / BlocoSistema GNSSGrau de AberturaPossibilidade para o Brasil
            🇺🇸 EUAGPSControlado militarmenteUso irrestrito, mas pode ser cortado
            🇷🇺 RússiaGLONASSAcesso amploUsado em tratores e celulares no Brasil
            🇪🇺 União EuropeiaGalileoAcordos civis e PRSBrasil pode integrar via ESA/INPE
            🇨🇳 ChinaBeiDouAcesso aberto e crescenteCooperação com CBERS/INPE já existente
            🇮🇳 ÍndiaNavICRegional e cooperativoPotencial via BRICS ou acordos bilaterais
            🌎 América do SulN/AProposta de sistema regional sul-americano

            Como mudar de sistema

            A maioria dos smartphones, receptores agrícolas e rastreadores modernos já são multi-GNSS, ou seja, compatíveis com GPS + Galileo + GLONASS + BeiDou.

            No Brasil, muitas marcas de tratores, celulares (Samsung, Xiaomi, Apple) e equipamentos industriais já integram Galileo por padrão.

            Mas há os chamados sistemas legados, em trens, aeronaves e drones militaraes) com hardware compatível apenas com o GPS. No caso da defesa, os dispositivos criptográficos e softwares militares integram GPS embarcados com fimware fechado.

            O caminho é adaptar os softwares para aceitar múltiplos formatos de efemérides (dados orbitais), tempo e correções.

            Segundo o ChatGPT, a mudança para o Galileo traria os seguintes desafios.

            ⚙️ 1. Compatibilidade de hardware

            ✅ Situação atual:

            • A maioria dos smartphones, receptores agrícolas e rastreadores modernos já são multi-GNSS, ou seja, compatíveis com GPS + Galileo + GLONASS + BeiDou.
            • No Brasil, muitas marcas de tratores, celulares (Samsung, Xiaomi, Apple) e equipamentos industriais já integram Galileo por padrão.
            • Mas há os chamados sistemas legados, em trens, aeronaves e drones militaraes) com hardware compatível apenas com o GPS. No caso da defesa, os dispositivos criptográficos e softwares militares integram GPS embarcados com fimware fechado.
            • O caminho é adaptar os softwares para aceitar múltiplos formatos de efemérides (dados orbitais), tempo e correções.

            🔧 Dificuldades:

            ÁreaProblema técnico
            Equipamentos legadosSistemas antigos (trens, aeronaves, drones militares) têm hardware compatível apenas com GPS
            Agricultura de precisãoRTK (correção centimétrica) e bases GNSS muitas vezes são otimizadas só para GPS + GLONASS
            Defesa e segurançaDispositivos criptográficos e softwares militares integram módulos GPS embarcados com firmware fechado

            📌 Solução: substituição gradual de hardware ou atualização de firmware com suporte ao Galileo.

            🧠 2. Sistemas de software e algoritmos de navegação

            Problemas comuns:

            • Softwares de georreferenciamento, cartografia, controle de tráfego e GIS costumam usar modelos otimizados para sinais GPS (L1/L2).
            • Galileo usa frequências similares, mas diferentes formatos de dados e níveis de precisão.
            • Integrações com o sistema de tempo do GPS (baseado em relógio do DoD) podem gerar erros de sincronização ao alternar para o tempo Galileo.

            📌 Solução: adaptar os softwares para aceitar múltiplos formatos de efemérides (dados orbitais), tempo e correções.

            🔒 3. Acesso ao serviço criptografado (PRS)

            • Em qualidade e precisão, o serviço PRS (Public Regulated Service) do Galileo é equivalente ao serviço militar do GPS.
            • Ele oferece maior resistência a interferências, spoofing, bloqueio e é destinado a forças armadas e autoridades públicas da UE.

            Dificuldade:

            • Países fora da UE não têm acesso automático ao PRS — é preciso acordo bilateral de alto nível.

            📌 Solução institucional: o Brasil teria que firmar acordo com a União Europeia via ESA ou Comissão Europeia, com garantias de confidencialidade, alinhamento político e compromisso de uso pacífico.

            📡 4. Infraestrutura terrestre de apoio (EGNOS)

            • O sistema Galileo é complementado pelo EGNOS, uma rede de estações terrestres para correções diferenciais (como o WAAS nos EUA).
            • O EGNOS não cobre totalmente a América do Sul.

            Dificuldade:

            • Sem infraestrutura regional (receptores EGNOS, estações GNSS de referência), a precisão bruta do Galileo será limitada (~1 a 5m).

            📌 Solução: construir estações GNSS permanentes no Brasil e na América do Sul e conectar ao sistema europeu.

            🌐 5. Geopolítica e certificação internacional

            • Para uso em aviação civil, ferrovias, marinha mercante e serviços críticos, é necessário que o sistema esteja certificado por autoridades brasileiras (ANAC, ANATEL, DECEA etc.) e compatível com padrões da ICAO e ITU.

            📌 Solução: harmonização de normas e reconhecimento mútuo de certificações com UE, além de atualizações normativas locais.

            Os ganhos geopolíticos

            Segundo o Chat GPT, a transição do GPS (EUA) para o Galileo (UE) reduz significativamente a dependência geopolítica de sistemas estratégicos controlados por potências militares. Abaixo está uma avaliação dessa redução em quatro dimensões principais:

            🧭 1. Autonomia Estratégica

            AspectoCom GPS (EUA)Com Galileo (UE)
            Controle operacionalForças Armadas dos EUA (US Space Force)Comissão Europeia (uso civil)
            Prioridade em crisesPode ser desligado ou degradado para usuários civis e estrangeirosSem degradação intencional prevista
            Acesso soberanoLimitado por decisões políticas dos EUASoberania tecnológica europeia
            Risco de sanções geopolíticasAlto em caso de tensões com EUAReduzido

            🌐 2. Interoperabilidade e Redundância

            • Adoção do Galileo não elimina o uso do GPS, mas diversifica as fontes de sinal.
            • Sistemas podem operar em conjunto para maior precisão e confiabilidade.
            • Estratégia recomendada: uso de receptores multiconstelação (GPS + Galileo + BeiDou + GLONASS).

            🛡️ 3. Segurança Cibernética e Militar

            RiscoCom GPS (único)Com Galileo (híbrido)
            Ataques de spoofing/jammingMaior impacto se únicoRedução do risco
            Bloqueio ou interferênciaVulnerável a decisões externasMais resiliência
            Backup em caso de falhaNenhum alternativoGalileo serve como backup

            📉 4. Indicador de Redução de Dependência (simulado)

            DimensãoPeso (%)Dependência com GPS (%)Dependência com Galileo (%)
            Controle soberano40%100%0%
            Risco de uso geopolítico30%80%10%
            Vulnerabilidade a cortes20%100%20%
            Capacidade de auditoria pública10%30%90%

            Dependência média ponderada:

            • Com GPS exclusivo: 91%
            • Com Galileo predominante: 26%

            🟢 Redução estimada da dependência geopolítica: cerca de 65%

            A revolução industrial das externalidades: o caso do biometano

            Por Marcelo Mitheroff *

            Resumo por Inteligência Artificial

            1. Introdução

            O documento aborda a revolução industrial atual, que busca a descarbonização e a redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE), destacando a importância das externalidades econômicas. A necessidade de internalizar custos e benefícios, como os impactos de projetos de transporte coletivo, é enfatizada. O Brasil, com sua matriz energética diversificada, é apresentado como um exemplo positivo nesse contexto .

            2. Contexto Energético do Brasil

            Em 2023, 49% da matriz energética brasileira era proveniente de fontes renováveis, com um perfil de emissões diferente da média global. O desmatamento e a agropecuária são os principais responsáveis pelas emissões de GEE no Brasil. O cumprimento das metas de redução do desmatamento é crucial para que o país se torne neutro em carbono .

            3. O Potencial do Biometano

            O biometano, gerado a partir do biogás, representa uma oportunidade significativa para a transição energética do Brasil. Embora o país tenha um grande potencial de produção de biometano, atualmente produz menos de 1% desse potencial. O documento destaca que o biometano pode substituir completamente o consumo nacional de gás natural e contribuir para a geração de energia renovável .

            4. Desafios e Oportunidades

            Apesar do potencial, existem desafios regulatórios e de financiamento que limitam a expansão da produção de biometano no Brasil. A dificuldade em gerenciar resíduos sólidos urbanos (RSU) representa uma barreira, mas também uma oportunidade, já que o RSU é uma fonte promissora para a geração de biogás e biometano. O aproveitamento do biogás para a geração de energia elétrica é sugerido como uma solução viável para melhorar o manejo do lixo .

            5. Conclusão

            A transição para uma economia mais limpa é complexa e requer coordenação entre os países. No caso do biometano e do biogás, o Brasil tem a oportunidade de liderar, mas precisa priorizar o financiamento e políticas públicas que incentivem essa transição. A produção de biogás a partir de resíduos pode ser uma solução eficaz para os problemas de resíduos e emissões .

            * Economista do BNDES

            Colonialismo científico

            O Colonialismo Científico e a Fetichização do Conhecimento no Capitalismo de Plataforma

            Por Reynaldo Aragon 

            A ciência virou mercadoria. O pensamento crítico foi domesticado. E as ideias do Sul global seguem sequestradas por uma indústria editorial bilionária que lucra com a produção intelectual de quem menos pode publicar. Neste artigo, uma análise visceral sobre o colonialismo científico contemporâneo, o domínio das big techs e a sabotagem teórica que travou o desenvolvimento do pensamento estratégico no Sul. Um mergulho profundo na fetichização do conhecimento, na alienação acadêmica e nas vanguardas que desafiam o império da validação. Do Brasil ao mundo, a revolta dos que pensam começou.

            O escândalo invisível.

            Era madrugada. No quarto apertado de um pesquisador bolsista no interior do Brasil, as luzes de uma tela azulada refletiam no rosto exausto de quem, há dez horas seguidas, revisava um artigo científico para uma revista que jamais lhe pagaria um centavo. O texto precisava estar pronto antes do prazo — não por vaidade, mas por sobrevivência. Era preciso publicar para existir. Era preciso engajar para ser lembrado. Era preciso vencer o jogo sem saber as regras, sem possuir o tabuleiro. E, mesmo após aceito, o artigo deixaria de ser seu: pertenceria à editora, ao Qualis, ao DOI, ao índice de impacto. O pesquisador, esse seria deletado da equação como se fosse uma variável descartável da engrenagem.

            Esta é a cena cotidiana da elite científica do Sul global. Invisível. Exausta. Sofisticadamente explorada.

            O escândalo não está nos porões de uma universidade corrupta, nem nos exageros de um sistema falido — mas sim na estrutura elegante, bilíngue e globalizada de uma indústria editorial que transforma conhecimento em commodity, pesquisadores em freelancers não-remunerados e saberes em ativos de especulação cognitiva. Tudo isso com o selo da ciência, da meritocracia, da inovação. Nada mais parecido com o colonialismo do que esse sistema que devora inteligências locais e as regurgita como produtos do Norte.

            O que era para ser a mais alta expressão do bem comum — o conhecimento — virou um luxo cercado por algoritmos, métricas e paywalls. Nos países periféricos, cientistas lutam para ter acesso aos próprios textos que escreveram. E quando conseguem publicar, o fazem em inglês, para atender uma comunidade que raramente se interessa pelos problemas de suas terras, suas gentes, seus contextos. O pesquisador vira uma marca. O paper vira uma moeda. E a ciência vira uma vitrine onde o Sul exibe suas ideias para serem compradas por olhos que jamais as verão com autonomia.

            Vivemos a era da fetichização do conhecimento como mercadoria. E como toda mercadoria no capitalismo, ele carrega em si o rastro do sangue, do tempo e da alienação de quem o produziu.

            Não há chicotes, nem grilhões, nem feitorias visíveis. Mas há um regime sofisticado de vigilância epistêmica: métricas, indexadores, revisores anônimos, barreiras linguísticas, rankings, fatores H, editoras multinacionais, plataformas de autopromoção científica. Tudo isso criando uma arquitetura global onde o pensamento periférico só é validado se falar a língua do centro, seguir sua agenda e performar dentro de sua lógica mercantil.

            E no centro do palco está o cientista do Sul — publicando de graça, revisando de graça, traduzindo de graça, jogando um jogo onde não há vitória possível sem submissão simbólica.

            O escândalo é esse: o colonialismo científico não só sobreviveu ao século XX — ele se refinou, se digitalizou e se travestiu de excelência acadêmica.

            Do colonialismo das caravelas ao colonialismo dos papers.

            O colonialismo nunca se contentou em dominar territórios. Ele precisava dominar as ideias. Não bastava extrair ouro, açúcar, pau-brasil — era preciso também extrair narrativas, epistemologias, modos de ver e dizer o mundo. O que as caravelas abriram com pólvora, as universidades metropolitanas fecharam com indexadores. O que os colonizadores impuseram com cruz e espada, o sistema editorial global perpetua com métricas, revistas e rankings.

            Se no século XVI o indígena era visto como ignorante porque não rezava em latim, hoje o pesquisador do Sul é visto como irrelevante porque não publica em inglês. Se antes os saberes originários foram queimados como heresia, hoje os saberes locais são ignorados como “não indexados”. Mudaram os instrumentos. A lógica é a mesma.

            Essa é a engrenagem do que chamamos de colonialismo científico: um sistema de produção, validação e difusão de conhecimento que concentra poder nos países centrais, impõe padrões universais baseados em sua cultura e economia, e subalterniza todo saber que nasce fora do eixo euro-americano. É uma continuidade da dominação colonial clássica, agora transmutada em política editorial, imperialismo linguístico e controle informacional.

            E o Brasil, como sempre, ocupa o lugar emblemático nessa arquitetura: rico em intelectuais, pobre em soberania epistemológica. Nosso território foi laboratório da medicina tropical, da antropologia exotizante, da psicologia comportamental importada e, mais recentemente, da ciência de dados aplicada à manipulação política. Sempre objeto, quase nunca sujeito. Sempre citado, quase nunca ouvido.

            A geopolítica do conhecimento tem sua cartografia própria. E nela, as universidades de Harvard, Oxford, Stanford, Cambridge, MIT e similares ocupam o papel das antigas metrópoles. São elas que definem o que é ciência de ponta, o que é “relevante”, o que deve ser financiado, o que deve ser lido. Suas editoras controlam a maior parte das revistas de alto impacto. Seus algoritmos de ranqueamento regem a visibilidade de tudo que circula na academia. Suas línguas, seus métodos, suas ontologias colonizam subjetividades ao redor do mundo — inclusive as dos mais críticos.

            O colonialismo do saber é ainda mais perverso porque não se impõe pela força, mas pela sedução: ele faz com que os pesquisadores da periferia desejem ser aceitos pelas metrópoles acadêmicas, se moldem a seus critérios, escrevam como eles, citem os seus autores, ignorem os próprios territórios. É um processo de autos subalternização incentivada, onde o prestígio vem pela via da negação de si.

            Essa lógica está tão naturalizada que se tornou até mesmo critério de avaliação institucional. Programas de pós-graduação no Brasil são ranqueados conforme a quantidade de artigos publicados em periódicos internacionais, geralmente em inglês, frequentemente controlados por editoras do Norte. A CAPES, o CNPq e as agências de fomento acabaram por reproduzir, muitas vezes sem querer, os mesmos filtros coloniais que um dia serviram à catequese e à assimilação cultural.

            Estamos diante de um novo tipo de pilhagem: a pilhagem epistêmica. Nossos dados, nossas histórias, nossas questões, nossas doenças, nossas soluções — tudo é capturado, processado e devolvido em papers assinados por pesquisadores de centros estrangeiros, com verbas internacionais, publicados em revistas que sequer estão disponíveis nas bibliotecas públicas das universidades brasileiras. O saque continua. Só mudou de capa.

            A produção científica do Sul global é muitas vezes tratada como matéria-prima bruta, a ser processada pelas instituições centrais. Somos os fornecedores de dados, de corpos, de experimentos. A autoria? Fica com quem detém o poder editorial.

            Se antes nossa terra era considerada vazia para justificar a colonização, hoje nosso pensamento é considerado “não referenciado”, “pouco citado”, “não confiável” — para justificar a negação de nossa autoridade intelectual.

            A epistemologia colonial tem mil faces, mas um único objetivo: garantir que o centro continue a ser o centro. E para isso, é preciso manter o Sul no papel de satélite cognitivo.

            A boa notícia é que cada vez mais vozes se levantam contra esse ciclo. A má notícia é que ainda estamos no início da ruptura.

            O fetiche do conhecimento e a indústria dos invisíveis.

            Há uma nova religião silenciosa no mundo acadêmico: a dos indicadores. H-Index, Impact Factor, Altmetrics, número de citações, número de visualizações, número de seguidores nas plataformas acadêmicas. O templo? O sistema editorial científico internacional. Os deuses? As grandes editoras. Os fiéis? Milhões de pesquisadores ao redor do mundo que oferecem suas descobertas, seu tempo, seu esforço, seu pensamento — tudo de graça — em troca da promessa de visibilidade, prestígio e permanência no jogo.

            Estamos vivendo a era da fetichização do conhecimento como mercadoria. Um saber que não vale por sua potência de transformação, mas por sua capacidade de performar em métricas. Um artigo que não é medido por seu impacto social, mas por quantas vezes foi citado por outros artigos que também tentam sobreviver ao mesmo jogo. Um ciclo fechado, autossuficiente e, acima de tudo, alienado da realidade concreta.

            É aqui que o fetiche se revela: o conhecimento, transformado em coisa, esconde o trabalho, o contexto, a história e a luta que o produziu. Esconde o pesquisador que passou noites em claro, a estudante que levantou dados num território vulnerável, o professor precarizado que escreveu entre aulas mal pagas. Esconde, sobretudo, que essa produção é oferecida de graça a empresas que lucram bilhões com ela.

            A Elsevier, por exemplo, teve uma margem de lucro superior à da Apple em 2023. A Springer Nature, a Taylor & Francis e a Wiley formam com ela um verdadeiro oligopólio editorial que controla a maior parte da produção científica de alto impacto no mundo. Essas editoras não financiam as pesquisas. Não contratam os revisores. Não remuneram os autores. Elas vendem um conteúdo que não produziram — e fazem isso com um poder de cartel que estrangularia qualquer outro setor da economia. E ainda assim, gozam do respeito irrestrito de agências de fomento, universidades e governos.

            É a maior extração de mais-valia do século XXI: o pesquisador entrega seu saber gratuitamente, abre mão dos direitos autorais, revisa os trabalhos dos colegas também de forma gratuita, e depois precisa pagar para acessar aquilo que ele mesmo escreveu — ou, pior, para tornar acessível o que ele mesmo produziu.

            Essa lógica supera a mais-valia tradicional. Aqui não há salário. O cientista do Sul global não é nem proletário — é um servidor voluntário da indústria do conhecimento, que opera movido pela promessa de reconhecimento simbólico: uma citação, um convite para um congresso, uma posição numa universidade pública ameaçada por cortes orçamentários.

            E o que é mais perverso: ele sabe disso. Ele vê a engrenagem. Mas não pode parar de girá-la. Porque o sistema o prende por dentro — como reputação, como currículo Lattes, como pressão por produtividade, como medo de ser esquecido.

            A essa lógica, chamamos de playlabor científico: o jogo do engajamento acadêmico, onde se misturam trabalho, performance, autopromoção e desejo de reconhecimento. Um jogo com regras claras, onde vencer significa publicar mais, ser citado mais, ser visto mais. Um jogo onde o pesquisador se transforma em marca, e o saber em moeda. Um jogo violento, silencioso e solitário, onde todos fingem não estar jogando — enquanto disputam cada milímetro de visibilidade.

            É nesse ambiente que emergem as plataformas como ResearchGate, Academia.edu, Google Scholar e tantas outras. Não são apenas ferramentas de divulgação — são mecanismos de vigilância, competição e reforço da lógica mercantil. Elas premiam quem compartilha mais, quem é mais visualizado, quem atrai mais tráfego. Elas transformam o tempo de pesquisa em tempo de exposição. O cientista, aqui, é também produtor de conteúdo. Influencer acadêmico. Engajado e engajável.

            E quem comanda tudo isso? Os mesmos conglomerados de tecnologia que hoje controlam os dados, os algoritmos e a infraestrutura digital do planeta. As Big Techs já entenderam que o conhecimento é o novo ouro. E estão explorando as minas com ferramentas que parecem neutras, mas são profundamente colonizadoras.

            O resultado é uma nova classe de trabalhadores invisíveis — os cientistas do Sul global — que alimentam a máquina sem receber por isso, e ainda assim são cobrados por resultados, métricas e desempenho. São autores que não têm propriedade sobre seus textos. São intelectuais tratados como mão de obra bruta. São pensadores condenados a performar para sobreviver.

            A indústria científica global não quer ciência. Quer papers. Não quer transformação. Quer indexação. Não quer crítica. Quer conformidade estilística.

            E quando o pensamento se transforma em produto, a crítica se transforma em risco. E pensar fora das regras se torna um ato de insubordinação.

            O império do inglês e as plataformas como metrópoles.

            No novo mapa-múndi da ciência, não basta ter algo a dizer. É preciso dizer em inglês, com as palavras certas, no formato certo, para o público certo. Não aquele que precisa da pesquisa, mas aquele que pode validá-la.

            O inglês, que já foi a língua da diplomacia, tornou-se a língua da autoridade epistêmica. Mais do que idioma, virou protocolo. Quem não fala a língua do império, não entra no templo. Mesmo que esteja curando doenças tropicais, propondo novas ontologias, ou desenvolvendo tecnologias sociais enraizadas em seu território. Se não fala inglês, não é “científico”. E se fala inglês mal, é “exótico”.

            Esse é o primeiro filtro invisível do novo colonialismo: a língua como barreira de classe, território e saber. Não se trata apenas de comunicação — trata-se de poder. Porque quem define o que é publicável, o que é relevante, o que é “bom inglês”, são os editores do Norte global, quase todos brancos, quase todos formados por universidades coloniais, quase todos alheios às realidades sobre as quais autorizam ou silenciam.

            O segundo filtro é algorítmico: as plataformas acadêmicas, que hoje medem a performance de um pesquisador como se fosse uma empresa. ResearchGate, Academia.edu, Google Scholar, Scopus, Web of Science — todos operam como os novos portos do saber, onde é preciso pagar pedágio em engajamento para ter direito à travessia. Mais downloads, mais visualizações, mais interações, mais palavras-chave, mais produtividade. Menos profundidade. Menos tempo. Menos crítica.

            Essas plataformas não apenas hospedam o conteúdo — elas moldam a forma como o conteúdo é produzido. Elas induzem comportamentos, impõem tendências, retroalimentam algoritmos. Os temas que viralizam se tornam mais citados. Os que são mais citados recebem mais financiamento. Os que recebem mais financiamento se tornam mais publicáveis. O ciclo fecha. A dominação se automatiza.

            E quem está por trás dessa arquitetura? As Big Techs, é claro. Empresas que já controlam o fluxo da informação, a infraestrutura da nuvem, o mercado de dados e, agora, o capital cognitivo. Google, Microsoft, Elsevier (sim, Elsevier é Big Tech), Springer, Amazon Web Services — todas conectadas em uma teia onde a ciência virou só mais um ramo da economia da vigilância.

            Essas plataformas funcionam como as novas métropoles epistêmicas. Os centros onde o saber é processado, ranqueado, distribuído. E onde os saberes do Sul só têm valor se forem traduzidos, higienizados e entregues nos moldes exigidos. Não é mais apenas a escravidão do corpo — é a escravidão da linguagem, do formato, da reputação.

            O pesquisador periférico hoje precisa escrever como um anglo-saxão, pensar como um estruturalista europeu e citar como um progressista neoliberal. Precisa calibrar seu vocabulário, enxugar suas insurgências, esconder seus territórios. Precisa ser universal — desde que esse universal seja a versão iluminada do Norte.

            Mesmo os periódicos “alternativos” muitas vezes reproduzem essa lógica. Porque também querem indexação. Também querem prestígio. Também querem ser lidos — ainda que para isso precisem renunciar a sua linguagem original, sua episteme própria, sua alma de território.

            E o mais cruel: os pesquisadores sabem disso. E jogam esse jogo porque precisam sobreviver. Porque o sistema de avaliação das universidades exige isso. Porque os editais cobram isso. Porque os pares valorizam isso. É uma lógica perversa de autocolonização meritocrática, onde o cientista se molda para agradar, e depois se convence de que foi por escolha.

            O império do inglês não é apenas uma questão de idioma — é uma geopolítica da fala autorizada. E as plataformas não são apenas ferramentas — são dispositivos de domesticação epistêmica.

            É preciso ter clareza: o saber virou ativo, e as plataformas são as novas bolsas de valores da ciência. Cada artigo é um investimento. Cada citação, uma valorização. Cada pesquisador, uma startup de si mesmo.

            E nessa bolsa, o Sul continua sendo matéria-prima. Ainda que agora travestido de autor indexado.

            Brasil: laboratório e trincheira.

            O Brasil não foi apenas vítima do colonialismo científico. Foi — e ainda é — um dos seus principais laboratórios.

            Durante as últimas duas décadas, nossas universidades públicas viveram um paradoxo brutal: enquanto formavam gerações de mestres e doutores como nunca antes na história, viam suas estruturas financeiras, epistemológicas e simbólicas serem moldadas a um padrão que não dialogava com as urgências do povo, mas com os imperativos de um mercado editorial e cognitivo global que jamais se interessou pelas favelas, pelas florestas ou pelos terreiros.

            O processo se intensificou a partir da reconfiguração geopolítica do país: saímos da ALCA, buscamos protagonismo no Sul global, ampliamos o investimento público em ciência, e ousamos pensar com nossas próprias cabeças. O castigo veio rápido. E violento.

            O golpe de 2016 não foi apenas jurídico-parlamentar. Foi epistêmico. Foi um ataque sistemático à soberania do pensamento brasileiro. Asfixiaram as universidades, cortaram bolsas, extinguiram ministérios, fecharam institutos, humilharam pesquisadores em rede nacional. Transformaram o cientista em suspeito. A ciência, em privilégio. O saber, em ameaça.

            O que estava em jogo não era só orçamento. Era hegemonia cognitiva. O que estava em disputa não era só a produção de conhecimento — mas o direito de nomear o real a partir de outro lugar que não o Norte global.

            E o Brasil, por sua potência, por sua dimensão continental, por sua tradição intelectual insurgente, precisava ser exemplarmente disciplinado. A operação foi bem-sucedida. Por um tempo.

            Mas ainda assim, não conseguiram nos apagar.

            Mesmo nos anos mais duros, a universidade pública brasileira continuou sendo o principal espaço de produção científica do país. E mais: continuou sendo a trincheira crítica, o lugar onde resistiram o pensamento marxista, a pesquisa militante, os estudos decoloniais, a epistemologia feminista, a ciência engajada com os territórios, as sabedorias indígenas e periféricas.

            Esse é o paradoxo brasileiro: fomos laboratório da colonização cognitiva, mas também somos hoje um dos maiores celeiros de resistência epistemológica do Sul global.

            E isso incomoda.

            Incomoda que mesmo sem financiamento, continuamos produzindo. Incomoda que mesmo com a plataforma nos empurrando para o inglês, ainda escrevemos em português e lemos Paulo Freire, Abdias do Nascimento, Sueli Carneiro, Milton Santos, Heleieth Saffioti, Aníbal Quijano, Carolina de Jesus. Incomoda que mesmo com a lógica da competição, seguimos fazendo extensão, formando base, acolhendo quebrada, reconstruindo o pensamento a partir do chão.

            Incomoda que mesmo esmagados pela lógica editorial, ainda inventamos, resistimos, compartilhamos. Incomoda que o Brasil pense.

            E por isso querem nos silenciar.

            O mercado editorial científico sabe que aqui existe uma potência que não cabe nas categorias do Norte. Um modo de pensar o mundo que desafia a colonialidade. Uma ciência que não serve ao capital, mas à vida.

            Sabem que se nos deixarem pensar, pensaremos o impensável: que outro modo de produzir conhecimento é possível — e necessário.

            Por isso, cada corte no CNPq não é apenas ajuste fiscal — é um ataque à soberania cognitiva. Cada extinção de instituto não é apenas burocracia — é limpeza epistêmica. Cada taxação injusta sobre livros, cada boicote à língua portuguesa, cada deslegitimação das ciências humanas é uma tentativa de amputar nosso futuro.

            Mas também por isso, a universidade pública brasileira é hoje uma trincheira estratégica da luta global por outro modo de saber e de viver.

            Ela é contraditória? Sim. Está cheia de colonialismos internos? Sim. Reproduz estruturas racistas e patriarcais? Sim. Mas também é o lugar onde a insurgência ainda respira, ainda pensa, ainda escreve, ainda publica — mesmo que a duras penas.

            É dessa trincheira que nascerão os caminhos para uma ciência soberana, popular, radicalmente comprometida com a transformação da vida.

            O que querem de nós é silêncio. O que daremos é pensamento.

            O empurrão pós-moderno: a sabotagem teórica.

            Nos disseram que não havia mais estrutura. Que não havia mais sujeito. Que não havia mais verdade. Nos ensinaram a desconfiar de totalidades, de narrativas unificadas, de projetos históricos. Disseram que tudo era discurso, linguagem, performance. Que o real era uma construção. Que a realidade era relativa.

            Enquanto isso, do outro lado do mundo, laboratórios de psicologia comportamental, centros de pesquisa militar e think tanks bilionários desenvolviam métodos científicos altamente estruturados para modular comportamento, mapear desejos, prever ações e controlar sociedades inteiras.

            O Sul global foi afogado numa avalanche de teorias pós-modernas que diziam: “Não tente mudar o mundo, ele não existe.”

            Enquanto isso, o Norte aplicava modelos estruturalistas rígidos para reorganizar o mundo segundo sua lógica algorítmica, financeira e informacional.

            A ironia é insuportável.

            Foi nos anos 1980 e 1990 — auge da euforia neoliberal e do fim da história — que essa inflexão se consolidou. As teorias críticas do Sul começaram a ser substituídas por discursos importados que pareciam radicais, mas, na prática, neutralizavam a ação política. Enquanto Foucault e Derrida eram entronizados nos currículos de pós-graduação do Brasil, os EUA financiavam massivamente pesquisas em neurociência, big data, linguística computacional, psicometria, Machine Learning e guerra cognitiva.

            Não é coincidência.

            A indústria do pensamento do Norte sabia o que fazia: era preciso manter o Sul teorizando o fragmento, enquanto o centro desenhava sistemas. Era preciso que os povos colonizados se tornassem hiperconscientes da linguagem — e completamente desarmados diante da engenharia.

            A avalanche pós-estruturalista teve seu valor crítico em muitos momentos, é verdade. Mas o modo como ela foi transplantada para o Sul não foi emancipador. Foi funcional à manutenção da dependência. Ela nos ensinou a desconfiar de qualquer projeto coletivo — exatamente quando mais precisávamos de projeto.

            Transformaram a crítica em exercício estético. O pensamento radical em nicho editorial. A militância em tese de mestrado.

            E não por acaso, os mesmos grupos editoriais que dominam o circuito científico também lucraram com a internacionalização dessas teorias. É um ciclo perfeito: produzem as categorias, ditam os modismos, vendem os livros, dominam as revistas, controlam os currículos, e ainda ganham prestígio por “internacionalizar o debate”.

            Enquanto isso, na realidade concreta dos territórios do Sul, as políticas públicas foram sendo desmontadas, as universidades esvaziadas, os movimentos sociais criminalizados, a juventude negra assassinada. Mas nas bancas de qualificação, discutia-se o “fim do sujeito”, a “morte da política”, a “desconstrução do real”.

            Era a nova forma de censura: não mais silenciar, mas hiperteorizar até a paralisia.

            E essa sabotagem teórica não foi só uma moda. Foi um projeto político de neutralização do pensamento crítico radical. Um ataque à imaginação estratégica. Uma forma de esvaziar os conteúdos da luta e substituí-los por formas elegantes de ceticismo inofensivo.

            Enquanto nos ensinavam a desconstruir tudo, eles estavam construindo o futuro: redes neurais, sistemas de vigilância, manipulação algorítmica de comportamento, plataformas de metaintermediação. E para isso, usaram estruturalismo pesado, lógica formal, estatística, cibernética, neurociência aplicada.

            Quem acreditou que a estrutura tinha morrido, perdeu o bonde da história.

            Porque a estrutura voltou — mas não como projeto de esquerda. Voltou como máquina de captura comportamental, como interface de vigilância, como plataforma de modulação afetiva, como dispositivo de poder técnico.

            E hoje ela está em toda parte: nos sistemas de recomendação, nos algoritmos de ranqueamento, nos modelos preditivos, nas plataformas acadêmicas que organizam nosso trabalho e nossas emoções em torno de métricas, pontos, níveis de engajamento e produtividade.

            A teoria que nos prometeram como libertadora virou cárcere. E enquanto a elite acadêmica do Norte global seguia investindo bilhões em ciência dura, nos contentávamos em desconstruir a gramática da nossa própria insurreição.

            É hora de virar esse jogo.

            Não se trata de jogar fora a crítica ao poder discursivo. Ela é necessária. Mas é preciso retomar o direito de construir teoria estratégica, materialista, totalizante, insurgente. O direito de pensar o mundo em sua totalidade contraditória. O direito de elaborar um projeto coletivo de ruptura com a colonialidade.

            Enquanto estivermos apenas debruçados sobre a superfície do discurso, seremos operários da distração teórica.

            Chegou a hora de voltar à raiz — e erguer um pensamento do Sul global que não tema o conflito, que abrace a estrutura, que confronte a dominação e que rompa com a lógica da auto-submissão intelectual.

            Pensar, aqui, não pode mais ser um luxo. Precisa ser arma.

            A reação global: vanguardas contra o império editorial.

            Nem todo o Sul está ajoelhado. Nem todo o Norte está alinhado. E nem toda ciência está capturada.

            Apesar da hegemonia das grandes editoras, das plataformas algorítmicas, do imperialismo linguístico e das estruturas de gamificação acadêmica, a resistência existe — e cresce. Nos subterrâneos do sistema, nas bordas das universidades, nas redes de cooperação desobediente, há um movimento planetário em curso: a luta pela soberania epistêmica.

            A primeira linha de frente é o movimento de acesso aberto (open access) — que surgiu como resposta ao sequestro da ciência por editoras bilionárias. Iniciativas como a SciELO, RedALyC, AmeliCA e o DOAJ (Directory of Open Access Journals) não apenas romperam com os paywalls, mas passaram a oferecer infraestrutura pública de circulação do conhecimento, especialmente no Sul global.

            A SciELO Brasil, criada em 1997 com apoio da FAPESP, é hoje uma das maiores bibliotecas científicas de acesso aberto do mundo, com milhares de artigos publicados em português, espanhol e inglês. Não apenas democratizou o acesso, mas rompeu com a centralidade das línguas coloniais, valorizando a ciência escrita desde os territórios. É trincheira e exemplo.

            A RedALyC (Rede de Revistas Científicas da América Latina, Caribe, Espanha e Portugal), criada no México, é outro farol. Seu objetivo declarado: romper com a dependência da América Latina em relação aos sistemas de indexação do Norte. Criaram inclusive a AmeliCA, um ecossistema completo de ciência aberta, baseado em colaboração, solidariedade e não comercialização.

            Mas não é só na América Latina. Na África, surgem plataformas como o African Journals Online (AJOL), que abriga centenas de periódicos locais, muitos deles em línguas nativas. Na Ásia, a Índia lidera movimentos de ciência aberta financiada publicamente, com sistemas de publicação próprios e alternativas às revistas comerciais.

            E há ainda iniciativas como o Plan S, na Europa, que exige que pesquisas financiadas com recursos públicos sejam publicadas apenas em acesso aberto — uma tentativa de desacelerar o oligopólio da Elsevier, Springer e Wiley. É um embate ainda moderado, mas que revela a insatisfação crescente até mesmo dentro do Norte.

            No campo digital, hackers do saber como Alexandra Elbakyan, criadora do Sci-Hub, abriram as portas dos cofres da ciência. Com milhões de artigos liberados para acesso gratuito, o Sci-Hub virou símbolo de um novo tipo de desobediência epistêmica: aquela que entende que o saber, sequestrado, precisa ser libertado — ainda que pela quebra direta da legalidade capitalista.

            Nos BRICS, sobretudo na China, o movimento é ainda mais estratégico. O país tem investido bilhões de dólares em ciência e tecnologia, não para agradar ao império editorial, mas para superá-lo. Criou seu próprio sistema de indexação, periódicos de alta performance, plataformas estatais de publicação e avaliação. E o mais importante: investiu em ciência aplicada, com finalidades nacionais, com base em planos de longo prazo.

            A China entendeu cedo que não se conquista soberania tecnológica sem soberania epistêmica. Enquanto isso, o Brasil, que já foi referência na política de ciência e tecnologia durante os anos 2003-2014, sofreu um brutal retrocesso a partir do golpe de 2016. Mas agora, com o novo ciclo democrático, há uma janela de reconstrução. E ela precisa ser estratégica.

            Para isso, não basta financiar ciência. É preciso financiar soberania.

            Criar plataformas nacionais de publicação. Reforçar os periódicos públicos. Desvincular a avaliação da produtividade das lógicas editoriais do Norte. Promover políticas de incentivo à escrita em português. Criar bancos de dados nacionais. Valorizar as epistemologias indígenas, negras, periféricas, quilombolas, feministas. Ensinar ciência com base no território.

            É hora de compreender que ciência não é só laboratório. É também projeto civilizatório.

            Essa virada exige coragem. Porque o sistema vai reagir. Vai acusar de anticiência, de provincianismo, de “ideologia”. Mas essa acusação é o sintoma da perda de controle. A hegemonia do Norte global já não é total. E isso os assusta.

            Estamos diante de uma disputa mundial pela forma de pensar o mundo. E ela não será vencida apenas com papers — será vencida com imaginação histórica, estrutura pública e coragem política.

            A ciência que queremos não pode ser uma reprodução técnica da colonialidade. Ela precisa ser a trincheira da emancipação. E para isso, precisamos romper com a lógica editorial como forma de legitimação — e construir outras formas de validarmos a nossa produção, os nossos saberes, as nossas verdades.

            As vanguardas já começaram. Agora é nossa vez.

            Conclusão: a revolta dos que pensam.

            Toda dominação começa pela cabeça. Antes de ocupar terras, é preciso ocupar sentidos. Antes de capturar corpos, é preciso capturar símbolos. Antes de colonizar o solo, é preciso colonizar o saber.

            Foi assim que construíram impérios.

            Foi assim que forjaram a ideia de superioridade do Norte.

            Foi assim que fizeram da ciência um trono — e de nós, súditos da validação alheia.

            Mas os tempos mudam.

            Hoje, em cada universidade pública do Sul global, há um fogo subterrâneo. Ele arde nas entrelinhas de uma dissertação que resiste ao inglês obrigatório. Ele pulsa no artigo recusado por não se encaixar nas “métricas internacionais”. Ele vibra nas rodas de leitura onde o povo pensa, onde a ciência escuta, onde o saber se reapropria de sua função original: servir à vida.

            A revolta dos que pensam não é feita de tiros.

            É feita de perguntas.

            Ela explode quando um estudante indígena questiona a lógica da propriedade privada. Quando uma mulher negra denuncia a ausência de sua história no currículo. Quando um pesquisador da favela recusa ser apenas “objeto de estudo”. Quando uma professora escreve em português e desafia a estética fria da ciência colonial.

            Essa revolta não precisa de permissão.

            Ela acontece nas margens do sistema, nas frestas da universidade, nas redes subterrâneas de saber compartilhado, nos quilombos epistêmicos, nos arquivos digitais insurgentes, nos laboratórios autônomos, nos coletivos de ciência popular, nas ocupações de escola, nas lives, nas rádios livres, nas rodas de conversa, nos córregos, nas aldeias, nas ruas.

            Porque pensar, no Sul global, é um ato de guerra.

            E é essa guerra que está em curso: a guerra entre uma ciência que serve ao lucro e uma ciência que serve à emancipação. Entre uma produção de conhecimento que transforma tudo em mercadoria — e outra, que transforma o conhecimento em alavanca de libertação.

            O colonialismo científico está vivo. Mas também está ferido. E mais: está cercado.

            Cercado por uma geração que não aceita mais escrever para agradar índice. Que não quer mais ser escrava de editoras milionárias. Que se recusa a produzir ciência que não transforme o mundo. Uma geração que exige soberania — inclusive epistêmica.

            O futuro do pensamento não está nas universidades de Harvard ou Oxford. Está nas quebradas do Capão Redondo, nas salas lotadas da UFRJ, nos encontros de saberes da UFBA, nos assentamentos do MST, nas aldeias do Xingu, nos quilombos da Chapada, nos grupos de estudo das redes populares de educação.

            Está em quem pensa para curar.

            Em quem pensa para alimentar.

            Em quem pensa para libertar.

            O colonialismo pode até ter sequestrado nossas prateleiras.

            Mas nunca dominará nosso chão.

            Porque aqui, a ciência ainda dança com o povo.

            Aqui, o pensamento é corpo. É território. É projeto.

            E o tempo do silêncio acabou.

            Chegou a hora da palavra insubmissa.

            Chegou a hora da revolta dos que pensam.

            Ensaio publicado originalmente em <código aberto>

            Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global.

            O ousado plano de soberania digital do governo brasileiro

            Patricia Faermann

            Em entrevista exclusiva a Luis Nassif, a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovações do Brasil, Luciana Santos, apresentou as iniciativas do governo para o Brasil atingir a soberania digital, como um dos pilares de desenvolvimento do país.

            Entre as estratégias, Luciana destacou o papel do BRICS na Ciência e na Tecnologia, citando projetos de pesquisa conjuntos e a prioridade dada à inteligência artificial, mencionou os acordos bilaterais com o Vietnã e a China no desenvolvimento de semicondutores e satélites, a criação de centros de competência em Inteligência Artificial, e a importância de uma nuvem soberana de dados para o Brasil, com a construção, por exemplo, do cabo submarino Sul-Sul.

            Você também pode participar deste debate junto ao Projeto Brasil no Fórum Especializado “Soberania Digital”, acesse aqui.

            Ciência e Tecnologia no centro do BRICs e de acordos bilaterais

            “Há 10 anos atrás foi feito o primeiro memorando do BRICs na parte de Ciência, Tecnologia e Inovação. Nesse período todo, para além do interesse e das convergências, nós temos atitudes concretas: temos, conjuntamente, financiados 157 projetos, chamadas públicas, que possibilitaram que 6.000 pesquisadores e pesquisadoras fizessem pesquisa em rede”, citou Luciana.

            Segundo a ministra, as áreas de cooperação do BRICs incluem ciências oceânicas, fotônica, desastres naturais e inteligência artificial (IA), que foi eleita como pauta prioritária este ano, com propostas, por exemplo, de levar a digitalização para sociedades mais pobres.

            O satélite geoestacionário que irá ranquear o Brasil entre 10 países do mundo

            Além disso, a ministra falou sobre outros dois acordos firmados pelo presidente Lula com parceiros internacionais: com o Vietnã, um acordo para desenvolver áreas de semicondutores e inteligência artificial, visando compartilhar expertise e diminuir a curva de aprendizado do Brasil, como na formação de engenheiros de software; e com a China, um grande acordo que prevê a criação de um centro binacional de transferência tecnológica de inteligência artificial e o desenvolvimento do satélite CBERS 5.

            “Não é compra tecnológica, não é transferência, é desenvolvimento comum. O CBERS 5 é o primeiro satélite brasileiro geoestacionário que vai ter um papel muito importante para a gente vai partilhar dados, e a gente disponibilizou para os países do BRICs, e isso vai otimizar a curácia da previsão de tempo, de política urbana, de agropecuária e vai nos colocar entre os 10 países do mundo, do seleto grupo de países que dominam essa tecnologia.”

            A busca pela soberania digital

            Ao tratar das iniciativas e capacidades atuais do Brasil de se atingir a soberania digital, Luciana Santos lembrou que há 11 centros de competência em IA espalhados pelo país, com especialidades em saúde, clima, segurança cibernética, entre outras. Ela citou projetos, em andamento, para a criação de modelos de linguagem próprios de IA no Brasil.

            Segundo a ministra, o presidente Lula efende a necessidade de o Brasil ter seu próprio centro de dados e ampliar a capacidade de armazenamento de dados governamentais (como os do SERPRO e DataPrev).

            O objetivo é evitar que as grandes empresas de tecnologia (Big Techs) lucrem com o uso de dados brasileiros e reduzir a dependência de infraestruturas de nuvem estrangeiras.

            Entre os projetos em andamento, a ministra citou o LNCC (Laboratório Nacional de Computação Científica), com seu supercomputador Santos Dumont, recebeu um investimento de R$ 125 milhões, passando a figurar entre os 100 mais potentes do mundo, e o desenvolvimento de microrreatores nucleares para futuramente alimentar data centers no Brasil.

            O ousado projeto de conexão Sul global por cabos de rede

            Luciana também disse que há um esforço contínuo para promover o uso de software livre no setor público, visando maior autonomia e soberania, e os estudos para a construção de um cabo submarino de fibra ótica que ligará o sudeste do Brasil, passando pela África, até a Ásia, o chamado Cabo Submarino Sul-Sul.

            Atualmente, a rede de cabos submarinos é concentrada no hemisfério norte, com 17 cabos desembarcando em Fortaleza. De acordo com a ministra, esse projeto foi proposto pela Rede Nacional de Pesquisa (RNP) e aprovado pelos ministros, para criar uma conexão de dados do sul global. “É algo estruturante, ousado e factível, e a gente vai fazer um estudo de viabilidade econômica”, pontuou.

            Além disso, o projeto caminha com a expansão da rede nacional de fibra ótica, a RNP, dedicada à Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), que está sendo ampliada pelo PAC com 19 enfvias estaduais e 40.000 km de fibra, o que, segundo a ministra, representa uma “volta ao mundo” em infraestrutura de rede.

            Confira a íntegra da entrevista abaixo:

            Redução do déficit nominal brasileiro pela redução dos juros reais, por Claudio Abreu

            Claudio Braga de Abreu

            Aposentado da BNDESPAR e presidente da AFBNDESPAR, Claudio Braga de Abreu e Silva é engenheiro civil e mestre em Administração de Empresas.

            Há trinta e um anos, o Brasil enfrentava uma inflação inercial persistente, mesmo após quatro tentativas fracassadas de estabilização econômica baseadas em congelamento de preços e salários feitas por medidas provisórias. Em junho de 1994, a inflação atingiu 47% ao mês. O Plano Real conseguiu reduzi-la para cerca de 5% ao ano. No entanto, ela permanece inercial em bases anuais, pois os preços, salários e orçamentos públicos continuam a ser reajustados todos os anos.

            Desde julho de 1994, tem-se recorrido a juros elevados e à apreciação cambial para manter a inflação sob controle. Essa estratégia, no entanto, gerou um expressivo aumento da dívida pública líquida, que passou de cerca de 25% do PIB em 1995 para 76,1% em 2024. Projeções do Instituto Fiscal Independente (IFI), do Senado Federal, indicam que esse índice pode chegar a 125% do PIB em 2035.

            Em 1999, foi instituído o chamado Tripé Econômico – resultado primário, câmbio flutuante e meta de inflação. Esse modelo adota como meta o resultado primário (que exclui os juros), ignorando o resultado nominal (que os inclui). O câmbio flutuante, por sua vez, gera maior volatilidade nas cotações e estimula operações excessivas no mercado futuro, aumentando o risco tanto nas transações externas quanto nas internas. Já a meta de inflação – atualmente fixada em 3% ao ano – é de difícil cumprimento, pois a inflação futura tende a ser a inflação atual (5,20% ao ano em maio/2025), perpetuada por mecanismos de indexação.

            O juro de uma operação financeira resulta da soma do juro desejado adicionado de juro para compensar os seus riscos. Assim, se reduzirmos os riscos, também reduziremos o juro da operação. Hoje, a maior parte das operações de curto prazo são prefixadas (inclusive a Selic, apesar de ser flutuante), cujos juros contêm o risco referente à inflação.

            Acredito que se as operações pré-fixadas fossem substituídas por operações pós-fixadas, haveria uma redução do risco, pois o relativo à inflação não seria mais considerado. Isto permitiria que o juro real fosse conhecido no momento da contratação. Para tanto proponho transformar a Selic, indexador financeiro fundamental, em uma operação pós-fixada, com determinação mensal, o que faria, com o tempo, que todo o mercado financeiro passasse a ser regido por operações pós-fixadas.

            Adicionalmente, a adoção de uma política cambial com bandas reduziria a volatilidade das cotações e o risco cambial das operações externas e, também, das operações internas, na medida que tal risco faz parte da determinação dos juros reais internos.

            Para viabilizar essas mudanças, proponho a criação de dois novos indexadores a serem usados nas operações financeiras internas e externas, de forma a considerar o fato de que vivemos numa economia com inflação inercial anual:

            • URF – Unidade Real Financeira
            • URC – Unidade Real Cambial

            Após a implantação e consolidação das medidas acima propostas, com o objetivo de reduzir a inflação inercial, dos atuais 5% a.a. para cerca de 1% a.a., proponho a implantação de um Plano Real II, com a criação de nova moeda e manutenção dos dois indexadores.

            Em 31/08/1993, finalizei meu trabalho chamado de “A Indexação Diária Negociada”, com o subtítulo “Contra o veneno da cobra só o próprio veneno da cobra”, onde propus uma solução inovadora para combater a nossa inflação inercial e que se tornou a grande inovação do exitoso Plano Real: a criação de um indexador atrelado ao câmbio que depois se transformaria na nova moeda forte nacional, tudo isso sendo feito de forma transparente e anunciada. Meu trabalho foi enviado para o então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, e membros da sua equipe econômica e para o então presidente Itamar Franco. Denominei o indexador de Cruzeiro Cambial (Cc$), mas ele acabou sendo denominado de Unidade Real de Valor (URV). Infelizmente, nunca tive o meu mérito reconhecido neste episódio. (Vide mais detalhes no Anexo, no final do texto em PDF, cujo link segue abaixo).

            Em 2024, publiquei um livro, denominado “O ovo de Colombo do Plano Real”, onde conto essa história de forma detalhada e documentada. Ele pode ser acessado gratuitamente na Biblioteca do Projeto Brasil.

            Por essa razão, sinto-me à vontade para apresentar novamente propostas inovadoras para enfrentar um dos nossos principais problemas atuais: o desequilíbrio das nossas contas públicas, causado principalmente pelos juros reais mais altos do mundo e insustentáveis no longo prazo, e que responderam por 95,2% do nosso déficit nominal em 2024, sendo os demais 4,8% referentes ao superávit primário.

            Embora o aumento das receitas e a redução das despesas primárias também possam contribuir para a melhoria do resultado nominal, não serão tratados neste trabalho, que segue na íntegra abaixo:

            Tarifas dos EUA são “afronta inaceitável à soberania nacional”, afirmam SBPC e ABC

            “Uma afronta inaceitável à soberania nacional, à democracia brasileira e à
            estabilidade das relações internacionais”, afirmaram a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), duas renomadas instituições brasileiras, expressam sua profunda preocupação e repúdio às ações do governo dos Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump.

            A manifestação expressando “profunda preocupação e repúdio” foi publicada em meio à 77ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que ocorre entre os dias 13 e 19 de julho.

            O texto destaca ameaças de tarifas e barreiras comerciais, que prejudicam a economia brasileira e violam princípios de comércio justo. Além disso, as entidades denunciam tentativas de ingerência em decisões internas do Brasil, o que afronta a soberania nacional e a autodeterminação.

            “Além dos danos econômicos, as entidades signatárias denunciam com veemência a tentativa de ingerência em decisões internas do Estado brasileiro, incluindo pressões políticas que atentam contra a autodeterminação dos povos — um princípio fundamental do direito internacional e da convivência entre nações soberanas.”

            Você também pode participar deste debate junto ao Projeto Brasil no Fórum Livre: Taxação dos EUA e Política Monetária Internacional

            Leia a íntegra da manifestação, assinada por Renato Janine, presidente da SBPC e conselheiro do Projeto Brasil, e por Helena Nader, presidente da ABC:

            Celso Furtado e a doença holandesa, por André Nassif

            Luís Nassif

            O artigo Underdevelopment, development, and the Dutch disease: the seminal and still relevant theory of Celso Furtado, de André Nassif, publicado na Revista de Economia Política (2025), apresenta diversas contribuições.

            → Acesse a íntegra do artigo no Acervo do Projeto Brasil, aqui.

            Abaixo, o resumo e pontos em destaque do artigo de André Nassif sobre Celso Furtado, por Inteligência Artificial:

            🧠 1. A teoria furtadiana do subdesenvolvimento

            André Nassif defende que Celso Furtado não apenas seguiu a tradição cepalina, mas formulou uma teoria original do subdesenvolvimento, que leva em conta fatores:
            • Históricos
            • Sociais
            • Estruturais

            Segundo Furtado:
            • O subdesenvolvimento não é uma etapa transitória, mas sim um processo autônomo e historicamente condicionado.
            • A formação de mercados internos e a industrialização nos países periféricos dependem da superação de dualidades estruturais, como:
            • Agricultura moderna vs. arcaica
            • Consumo de massas vs. consumo restrito às elites
            • Industrialização com geração de empregos vs. industrialização excludente

            Furtado atribui o subdesenvolvimento brasileiro à colonização predatória, à estrutura fundiária desigual e à incorporação subordinada ao capitalismo internacional.

            ⛽ 2. Furtado foi pioneiro na análise da “doença holandesa”

            O artigo demonstra que Celso Furtado foi o primeiro economista a elaborar uma teoria sobre o fenômeno conhecido como “doença holandesa”, antes da Holanda vivenciar o problema e antes da famosa formulação de Corden e Neary (1982).

            Ele observou isso ao analisar a Venezuela, nos anos 1950:
            • A abundância de petróleo provocou valorização cambial, perda de competitividade industrial e estagnação do setor produtivo.
            • O efeito foi de desindustrialização prematura, concentração de renda e manutenção da estrutura agrária retrógrada.

            Furtado, porém, não via a abundância de recursos como uma maldição inevitável (como sugeriram Sachs e Warner em 1995), mas sim como uma oportunidade desperdiçada, caso não houvesse:
            • Políticas públicas ativas
            • Diversificação produtiva
            • Formação de capital humano

            🧩 Conclusão do artigo

            O texto conclui que:
            • As teses de Furtado continuam altamente relevantes, sobretudo para países periféricos com abundância de recursos naturais, como o Brasil.
            • A superação do subdesenvolvimento exige integração do mercado interno, redução das desigualdades, e o uso estratégico dos recursos naturais via política industrial e social ativa.

            Parques e áreas verdes como commodities ambientais: protestos e movimentos sociais no Brasil

            Igor Vitorino da Silva*

            O Brasil vive a onda da privatização verde. Em todo o país, prefeitos, governadores e gestores públicos têm sido seduzidos pela ideia da concessão pública de parques e áreas verdes como possibilidade de ganhos fiscais com as potencialidades do turismo, do lazer e de variados usos ambientais. Assim, muitas vezes atropelando o debate público e desqualificando contraposições de ONGs, instituições e funcionários públicos, seguem na transferência dos bens públicos para o controle e uso privados, transformando-os em bases da acumulação rentista e neoextrativista brasileira.  

            Sob o discurso da modernização e dos investimentos, da gestão eficiente e aumento da arrecadação, com apelos ao desenvolvimento do ecoturismo e do setor imobiliário, governos e iniciativa privada celebram entusiasmadamente o processo de concessão de parques e áreas verdes públicas. Seguem ignorando os argumentos em defesa do acesso gratuito, da qualidade dos serviços e do controle público.

            Da mesma forma, minimizam as vozes que denunciam a perda da identidade local desses espaços, na medida em que as áreas verdes e parques concedidos deixam de ser espaços de preservação, conservação, educação ambiental e lazer para constituírem território de extração de investimento e de capital. As concessionárias da iniciativa privada precisam, antes e acima de tudo, gerar lucros para seus investidores, atropelando, com apoio dos governos e da mídia, o interesse público e a sustentabilidade ambiental.

            Sob argumentos de ineficiência administrativa, abandono e depredação social, renuncia-se ao uso comum e coletivo desses espaços, por parte de toda a sociedade, para o uso restrito e seletivo do ganho capitalista. Em São Paulo, a voz de Ana Beatriz Nestlehner protestando contra a concessão do Parque da Água Branca (na Zona Oeste de São Paulo) à iniciativa privada realça o processo político acima descrito: “Não existem estudos consistentes de impactos sociais e econômicos. A população não foi incluída nesse processo de concessão. E um bem público tem que servir à sua função pública, que é garantir os direitos constitucionais da população e o bem-estar da população” (G1 SP, 19/03/2022, 13h10).

            Em Salvador, os movimentos de resistência (@seremosresistencia, @movimentosalvaverde) ao processo de concessão de parques e áreas verdes vêm travando uma batalha desigual contra a coalização política entre mercado e governos, tentando sensibilizar parlamentares, cidadãos e sujeitos proeminentes na opinião pública soteropolitana. Nesse sentido, tiveram o apoio de Anitta, Regina Casé e Daniela Mercury, que se posicionaram nas redes sociais. Regina Casé, dessa forma, comentou: “A gente não pode deixar derrubar nenhuma área verde, temos que cuidar de todas as áreas verdes que existem em Salvador” (G1BA, 16/05/2025). Também Daniela Mercury desabafou: “Por que vender áreas de proteção ambiental em plena crise climática? Salvador já está sofrendo com temperaturas muito altas, a gente não pode perder a pouca vegetação que tem.”

             

            Enfim, não se trata apenas de um processo de transferência da execução e/ou gerenciamento de algum serviço público, mas de um processo evidente de exclusão das populações não solventes e que não podem participar da cidadania do consumo. Essa situação é afirmada e reforçada quando consideramos a desigualdade socioeconômica do país e as tentativas regulares de vários setores econômicos e sociais de desregulamentar a legislação ambiental e exercer livremente seus interesses especulativos e rentistas (turismo e mercado imobiliário).

            Apesar de todos os protestos e movimentos sociais em todos os cantos do país, o processo de comodificação (ou mercadorização, mercantilização) por meio da concessão, alimentado pelo discurso econômico de futuros ganhos verdes, tais como os créditos de carbono ou certificados de energia renovável – RECs, segue sequestrando e pilhando, de fato, os bens públicos. 

            Essa prática é apoiada na ideia política liberal de que os governos devem focar suas ações em planos de manejo, ordenamento territorial e regularização fundiária, enquanto a iniciativa privada, com apoio logístico e econômico do BNDES Parques e Florestas, Ernst & Young Global Limited (assessorias) e Programa de Parcerias de Investimentos/PPI (ICMBio), deve se aproveitar das vantagens e potencialidades possíveis dos parques e áreas verdes. 

            No final, como descrevemos acima, estamos diante de uma conversão mercantil dos bens públicos, que passam a ser submetidos à lógica de “tudo tem um preço”.  Contra essa lógica econômica os movimentos sociais protestam, proclamando à mídia e aos governantes: “O Estado tem condições de proteger a biodiversidade e o direito da população ao contato com a natureza e ao meio ambiente ecologicamente equilibrado” (discurso do militante Darí Lourenço Marchesini, do Comitê Popular de Luta e da Comissão em Defesa do Meio Ambiente de Vila Velha) (SD, 28/12/2024).  É um grande processo de desapropriação/despossessão da natureza, do meio ambiente e da terra no Brasil, e o povo segue em processo de cercamento social, econômico e ambiental, resultante da desigualdade e racismo ambientais. 

             

            *Professor e Mestre em História pelo PPHIS/UFPR

            Pesquisador Associado Externo do LHIPI – UFES

            Pesquisador Associado Externo do LHIPU – IFES 

            Política de Transição Energéitca

            Projeto Brasil: o plano de transição energética

            Luís Nassif

            Um dos pontos centrais do Projeto Brasil – a ser lançado pelo Jornal GGN – será a discussão de transição energética. → Confira aqui o Fórum criado na plataforma para discutir esse tema!

            O país tem dois diferenciais relevantes.

            O primeiro, é seu saldo ambiental, especialmente junto ao mercado de crédito de carbono. O segundo é o potencial de energia verde, que tem feito muitas indústrias da China e da Europa estudarem a transferência de produção para cá.

            Com o auxílio da Inteligência Artificial, vamos levantar os principais pontos de uma política de transição energética.

            Ela visa substituir gradualmente fontes de energia intensivas em carbono (como petróleo, gás natural e carvão) por fontes renováveis e sustentáveis (como solar, eólica, biomassa e hidrogênio verde), de forma a garantir segurança energética, desenvolvimento econômico e proteção ambiental. A seguir, detalho os principais objetivos e os pontos críticos dessa política:

            Objetivos da política de transição energética no Brasil

            1. Descarbonização da matriz energética
              • Reduzir emissões de gases de efeito estufa (GEE), alinhando o Brasil ao Acordo de Paris.
              • Promover uma economia de baixo carbono até 2050.
            2. Aproveitamento do potencial renovável
              • Expandir a geração solar e eólica, onde o Brasil tem vantagens naturais.
              • Valorizar o papel da bioenergia e do etanol, setores nos quais o país é líder global.
            3. Segurança e soberania energética
              • Diminuir a dependência de combustíveis fósseis importados.
              • Tornar o país menos vulnerável a crises externas de energia.
            4. Inclusão social e geração de empregos verdes
              • Criar empregos na indústria de energias renováveis.
              • Estimular o desenvolvimento regional em áreas com potencial solar e eólico.
            5. Inovação tecnológica e industrialização
              • Estimular a cadeia produtiva nacional de equipamentos e sistemas energéticos.
              • Atrair investimentos em tecnologias como hidrogênio verde e baterias.
            6. Justiça climática e transição justa
              • Garantir que trabalhadores e comunidades impactadas pela transição (ex.: regiões carboníferas) tenham alternativas sustentáveis e suporte governamental.

            ⚠️ Pontos críticos e desafios da transição energética no Brasil

            1. Inércia política e falta de planejamento de longo prazo
              • Ausência de um marco regulatório integrado e consistente.
              • Falta de coordenação entre os entes federativos e os setores público/privado.
            2. Interesses de setores fósseis
              • Forte lobby das indústrias de petróleo, gás e carvão.
              • Subsídios ainda existentes para combustíveis fósseis.
            3. Desigualdades regionais e sociais
              • Risco de aprofundamento de desigualdades se a transição não for planejada com equidade.
              • Falta de acesso à energia limpa em comunidades remotas ou pobres.
            4. Infraestrutura limitada
              • Linhas de transmissão insuficientes para integrar novas fontes (especialmente eólicas no Nordeste e solares no Centro-Oeste/Norte).
              • Dificuldade de armazenamento de energia e gerenciamento da intermitência.
            5. Financiamento e investimentos
              • Falta de mecanismos estáveis de financiamento verde.
              • Risco regulatório pode afastar investidores internacionais.
            6. Dependência do agronegócio e bioenergia
              • Concorrência por terra entre produção de alimentos, bioenergia e conservação ambiental.
              • Desmatamento pode comprometer a imagem e sustentabilidade da bioenergia.
            7. Tecnologia e capacitação
              • Baixo investimento público em pesquisa e desenvolvimento.
              • Falta de formação técnica para empregos na nova economia verde.

            🌍 Modelos internacionais inspiradores

            🇩🇪 Alemanha (Energiewende)

            • Política de Estado iniciada nos anos 2000.
            • Grandes investimentos em solar e eólica, com metas ambiciosas de neutralidade de carbono até 2045.
            • Participação cidadã em cooperativas de energia renovável.
            • Exemplo positivo, embora enfrente desafios com segurança energética.

            🇺🇾 Uruguai

            • Conseguiu transformar sua matriz elétrica em mais de 95% renovável em menos de 15 anos.
            • Investimentos públicos e parcerias privadas em eólica, solar e biomassa.
            • Modelo de coordenação estatal eficaz.

            🇨🇱 Chile

            • Política agressiva de expansão da energia solar no deserto do Atacama.
            • Leilões públicos bem estruturados, atraindo investimentos internacionais.
            • Plano nacional de hidrogênio verde como prioridade estratégica.

            🇨🇳 China

            • Maior investidor global em energia renovável.
            • Liderança industrial em painéis solares e baterias.
            • Estratégia coordenada de longo prazo, com forte presença do Estado.

            🇮🇳 Índia

            • Programa ambicioso de energia solar para zonas rurais.
            • Parcerias internacionais para capacitação e transferência de tecnologia.

            🧾 1. Quadro comparativo: Brasil x outros países na transição energética

            Critério 🇧🇷 Brasil 🇩🇪 Alemanha 🇺🇾 Uruguai 🇨🇱 Chile 🇨🇳 China
            % de eletricidade renovável ~85% (muito hidrelétrica) ~50% (principalmente solar/eólica) ~95% ~50% ~35%
            Fonte renovável dominante Hidrelétrica, seguida por biomassa e solar Solar e eólica Eólica e biomassa Solar (deserto do Atacama) Solar, eólica, hidro
            Plano estratégico Incompleto e fragmentado Energiewende (ambicioso) Políticas públicas eficazes Estratégia nacional clara Planos quinquenais com metas
            Participação cidadã Baixa Alta (cooperativas) Média Média Baixa
            Investimento público Limitado Alto Moderado Moderado Muito alto
            Indústria verde nacional Em desenvolvimento Forte Limitada Crescendo Potência global
            Transporte sustentável Foco em biocombustíveis Veículos elétricos Pouco desenvolvido Começando a eletrificação Trens e veículos elétricos
            Descarbonização da indústria Lenta Em andamento N/A Começando Em rápida evolução

            Propostas concretas para o Brasil

            1. Plano Nacional de Transição Energética Justa
            • Criar um plano integrado (interministerial e federativo), com metas claras até 2050.
            • Garantir mecanismos de consulta e participação social, especialmente de comunidades impactadas (trabalhadores do setor fóssil, povos indígenas, quilombolas etc.).
            1. Reforma dos subsídios energéticos
            • Reduzir gradualmente os subsídios aos combustíveis fósseis.
            • Redirecionar esses recursos para energias renováveis, eficiência energética e formação profissional.
            1. Fomento à energia solar distribuída
            • Ampliar o acesso de residências, comércios e cooperativas à geração solar, com financiamento popular (inclusive via Caixa ou BNDES).
            • Criar programas específicos para instalar painéis solares em escolas, hospitais e prédios públicos.
            1. Expansão e modernização da infraestrutura elétrica
            • Investir em linhas de transmissão para integrar regiões com alto potencial renovável (Nordeste, Norte).
            • Estimular o uso de baterias e sistemas de armazenamento.
            1. Incentivo à industrialização verde
            • Criar zonas econômicas especiais para a cadeia produtiva do hidrogênio verde, eólica offshore, veículos elétricos etc.
            • Garantir conteúdo local na fabricação de turbinas, painéis, eletrolisadores etc.
            1. Transporte sustentável
            • Ampliar a eletrificação do transporte público (ônibus elétricos) e do transporte de carga ferroviário.
            • Estimular o uso de biocombustíveis avançados (como etanol de segunda geração e biodiesel de resíduos).
            1. Capacitação e inclusão no mercado de trabalho verde
            • Criar programas nacionais de requalificação para trabalhadores do setor fóssil.
            • Integrar a pauta energética à educação técnica e profissionalizante (SENAI, universidades federais, IFs).

            O que é preciso para o desenvolvimento real no Brasil

            “A agenda de desenvolvimento deve ser voltada para a superação dos grandes problemas brasileiros”

            Patricia Faermann

            Jornal GGN

            Com o governo brasileiro em meio a uma crise da esquerda, da divulgação das políticas bem-sucedidas, da busca pelo protagonismo econômico, e alvo de uma das mais importantes pressões dos EUA, dois grandes economistas – Luiz Gonzaga Belluzzo e Carlos Gadelha – defendem a reorganização, enfrentando os desafios e com uma nova perspectiva para o desenvolvimento nacional.

            Na abertura do lançamento do Projeto Brasil, Celso Gadelha ressaltou a relevância da iniciativa no cenário atual e a necessidade de um projeto de desenvolvimento nacional.

            Ele expressou a honra de participar do projeto, fazendo lembrar a sua vida dedicada à perspectiva do desenvolvimento do Brasil e a trajetória de retomar o pensamento desenvolvimentista brasileiro, deixado por inspirações como Celso Furtado, em novas bases.

            Para isso, destacou a necessidade de se colocar a equidade e a desigualdade no centro da estratégia de governo, e superar a ideia de que questões sociais, ambientais e a própria desigualdade são elementos “naturais ou herdados” e que teríamos que “nos conformar”.

            “É ao contrário, a grande agenda que o Brasil deve ao Brasil, que a classe política, as universidades, o pensamento estratégico devem ao Brasil é uma agenda de desenvolvimento voltada para a superação dos grandes problemas brasileiros.”

            Gadelha apresentou dados comparativos chocantes: o Brasil, mesmo com um sistema de saúde universal, o SUS, financia menos de 50% do gasto em saúde com recursos públicos, enquanto a saúde, frequentemente vista como gasto, é uma das áreas que mais geram empregos.

            “Nos Estados Unidos, 10% do emprego hoje gerado está no campo da saúde. Se eu somar saúde, educação e mobilidade urbana, como nós estamos conversando aqui, a gente está caminhando de uma visão que foi muito arraigada no campo da saúde para uma visão mais ampla. A chave para o desenvolvimento é superar essa iniquidade terrível que a gente tem no Brasil, e colocar a área social e a área ambiental como os novos grandes vetores de uma estratégia de reindustrialização e de inovação.”

            O especialista comparou os gastos em saúde, educação e ciência/tecnologia/inovação, que são cerca de R$ 420 bilhões anuais, ao gasto de R$ 946 bilhões em juros no ano anterior, enfatizando a necessidade de inverter esse modelo.

            “Não apenas em um modelo – eu comecei aqui mostrando Celso Furtado – de a gente retomar o desenvolvimento, mas dialogar intrinsecamente com a aposta de um novo país. A gente precisa entregar um país digno da nossa própria população.”

            Por fim, Gadelha propôs “radicalizar, generalizar e ampliar a experiência bem-sucedida da saúde”, onde o Sistema Único de Saúde (SUS), a inovação e a produção industrial foram combinados. O objetivo é pensar em um projeto de país e uma “política de desenvolvimento, industrial e de inovação que dialogue com as demandas da sociedade brasileira”.

            Em participação especial no evento, o Professor Luiz Gonzaga Belluzzo também trouxe diversas reflexões importantes, conectando-as à história econômica e social do país, e ao cenário internacional.

            Entre as propostas apresentadas por Belluzzo, ele destacou o financiamento das atividades de pesquisa e desenvolvimento, criticando a “grande ignorância” a respeito de como o gasto do governo deve ser executado. Ele refutou a ideia de que a dívida pública seja um problema intrínseco, explicando que os títulos da dívida pública são instrumentos constitutivos dos mercados financeiros, e expressou preocupação com discursos que distorcem essa realidade.

            O economista defendeu a criação de um sistema de financiamento “eficaz”, tomando como exemplo a trajetória bem-sucedida da China nos últimos 30-40 anos, com a articulação entre o Banco Central, os bancos públicos (que detêm 80% do crédito), os bancos privados e as empresas públicas na China, que subsidiam o setor privado e promovem um grande avanço do empreendedorismo. Ele lamentou que essas questões não sejam debatidas no Brasil.

            “Como é que você não articula essas instituições econômicas e sociais, à semelhança [do que é feito na China]? Eu diria que até o Brasil já teve alguns momentos em que fez essa articulação”, disse, mencionando o papel decisivo que bancos públicos como o BNDES tiveram na industrialização do país, em 1952. Ele defendeu que o Ministério do Planejamento e o Ministério da Fazenda deveriam promover essa articulação para dar possibilidade de crescimento à economia.

            Em meio aos recentes ataques de Donald Trump com a taxação ao Brasil e aos BRICs, Belluzzo também afirmou a necessidade de manter as relações internacionais como eixo central do desenvolvimento nacional.

            O economista criticou um “nacionalismo um pouco tosco” que ignora a importância das relações internacionais. Ele afirmou que o capitalismo sempre foi internacional e que um projeto de desenvolvimento não pode se realizar sem levar em conta as relações internacionais, sejam elas financeiras, produtivas, etc. E citou o exemplo do governo Juscelino Kubitschek, que soube aproveitar a recuperação europeia para atrair investimento estrangeiro e empresas importantes, como as automobilísticas.

            “Nós temos a oportunidade de reproduzir isso de outra forma, diante da aproximação com os países dos BRICs, e no centro desse desse sistema está a segunda maior economia do mundo [a China], interessada não só em preservar as suas conquistas, mas também de ter uma participação internacional muito mais pródiga, muito mais interessante”, completou.

            Belluzzo elogiou a iniciativa do Projeto Brasil, como uma ferramenta de reordenamento do sistema de conhecimento e articulação entre as Universidades e de mobilização social. Ele observou que as universidades brasileiras estão “muito desarticuladas” e que essa articulação não acontecerá espontaneamente, mas exige um programa que contemple pesquisa e avanços tecnológicos. Belluzzo usou como exemplo propostas do governo como a “Nova Indústria Brasil”, que não avançarão sem essa articulação e construção social.

            Veja estas e outras participações no evento de lançamento do Projeto Brasil, na TVGGN no Youtube:

            O papel da engenharia no desenvolvimento econômico e tecnológico do país

            Camila Bezerra

            Jornal GGN

            A live de lançamento do Projeto Brasil, realizada na última quarta-feira (9), contou ainda com a participação do ex-ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação Sergio Rezende, e do presidente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), Fernando Rizzo, que falaram sobre os desafios que o Brasil enfrenta na área de inovação.

            Organizador da 5ª Conferência 5ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (5ª CNCTI), Rezende elencou algumas das conclusões do evento sobre as diretrizes que o país deve tomar para avançar na área.

            As conclusões foram divididas em quatro eixos. No primeiro deles, o ex-ministro destacou a importância da recuperação do sistema nacional de tecnologia, especialmente tendo em vista que o investimento público nas áreas de educação, ciência e tecnologia transformou a China em uma das maiores economias do mundo.

            Assim, Rezende observa que ficou acordado na 5ª CNCTI o compromisso de aumentar o investimento na área, a fim de que sejam investidos 1,6% do Produto Interno Bruto (PIB) do país até 2028 e 2,5% até 2035.

            No eixo 3, que se refere ao programa de estratégias nacionais, congressistas chegaram à conclusão de que o Brasil deve investir nos setores de microeletrônica, nanotecnologia, biotecnologia e biodiversidade, saúde, biomas brasileiros, mudanças climáticas, energias renováveis, minerais estratégicos, entre outros.

            Já no eixo 4, o ex-ministro destacou a importância de políticas públicas voltadas para o desenvolvimento social da população.

            Neoindustrialização

            Fernando Rizzo também deu sua contribuição ao explicar os pilares que devem nortear o desenvolvimento do eixo 2 de atuação estratégica do país, voltado para a neoindustrialização.

            Um dos principais pontos abordados foi o papel fundamental da engenharia nacional na modernização da indústria brasileira. De acordo com o presidente do CGEE, presente em todas as reuniões preparatórias da conferência, a engenharia foi citada de forma recorrente como essencial para o avanço tecnológico e para a implementação de tecnologias limpas e sustentáveis.

            A contribuição da engenharia também é vista como decisiva em experiências internacionais de transição industrial, como as ocorridas na China, Coreia do Sul e até mesmo na antiga União Soviética.

            O convidado ressaltou ainda que, apesar das boas iniciativas, há fragilidade na conexão entre academia e setor produtivo, cuja integração é historicamente limitada no Brasil, reflexo de uma indústria que se baseou por muito tempo em processos de cópia e que, em grande parte, foi adquirida por empresas estrangeiras.

            Isso gera uma dependência tecnológica de matrizes no exterior e compromete o desenvolvimento de soluções próprias.

            O caso da indústria automobilística foi citado como exemplo: após um período promissor, o setor voltou a ser dominado por multinacionais, enquanto países asiáticos como Japão, Coreia e China avançaram com estratégias industriais consistentes.

            Outro tema recorrente foi a falta de continuidade nas políticas públicas. Embora o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) disponha de recursos, há preocupação constante com a ameaça de contingenciamento e redirecionamento dos fundos. “Programas muito bons começam, mas são descontinuados por diferentes razões”, afirmou o Rizzo, ressaltando a importância de um apoio estrutural e de longo prazo para pesquisa, inovação e infraestrutura.

            A modernização de laboratórios, centros de pesquisa e unidades de produção também foi destacada como pontes cruciais para a inovação industrial.

            A descarbonização e a transição energética surgiram como eixos estratégicos para esse novo momento da indústria, alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

            A discussão se estendeu ao contexto internacional, com reflexões sobre o atual cenário do Brics e as tensões geopolíticas envolvendo o bloco. Houve menção a um evento previsto para outubro no CGEE, voltado para análise de tendências futuras.

            Rizzo alertou ainda para um fenômeno global: o ataque à ciência, o aumento do ceticismo e o surgimento de artigos científicos produzidos com o auxílio indevido da inteligência artificial, levantando questões sobre a credibilidade e os rumos da produção científica.

            Nesse contexto, enfatizou-se a necessidade de aproximar cada vez mais a ciência da sociedade, por meio de esforços de interdisciplinaridade e transdisciplinaridade. A medicina translacional foi citada como exemplo bem-sucedido dessa ponte, levando rapidamente os resultados da pesquisa para a prática clínica.

            Como mensagem final, Fernando Rizzo defendeu o fortalecimento da ciência aplicada, com foco nos impactos sociais da pesquisa. Segundo ele, o CEGEP pretende realizar ainda este ano um evento específico para tratar de formas de aproximar a ciência dos resultados concretos para a população.

            “A universidade precisa cada vez mais construir essa ponte entre o conhecimento e os benefícios sociais. É uma responsabilidade que só cresce.”

            Os três livros sobre as conclusões da 5ª CNCTI estão disponíveis no aqui no Projeto Brasil.

            A revolução financeira do BRICS, por Luís Nassif

            Luís Nassif

            A cobertura das reuniões do Novo Banco do BRICS limitou-se às reuniões e discursos públicos. A parte mais relevante, no entanto, foram os relatórios com as conclusões.

            Um dos temas centrais foram as formas de fugir ao domínio do dólar. Não se falou em moeda única, mas em maneiras de reduzir a influência do dólar e proceder a uma desdolarização progressiva.

            Há grandes avanços sobre as propostas anteriores.

            Em vez de insistir numa “moeda única”, o BRICS está montando modelos permitindo a convivência entre as diversas moedas do grupo, além da criação de instrumentos financeiros e de seguros para fortalecer os investimentos prioritários.

            Os organismos centrais em construção são:

            1. Novo Banco de Desenvolvimento (NBD).
              Já em operação. Uma das declarações conjuntas, no encontro no NBD no Rio de Janeiro,  foi o apoio à liderança de Dilma Rousseff. É atribuída à sua gestão a expansão dos membros do BRICS e do NBD. A  prioridade será a expansão do financiamento em moeda local e sua consolidação como instituição global de desenvolvimento.
            2. Plataforma Multilateral de Garantias (BMG)
              Projeto piloto, incubado no NDB, para reduzir riscos e atrair investimentos privados em infraestrutura e sustentabilidade.
            3. Nova Plataforma de Investimentos (NIP)
              Ainda em discussão, com foco na cooperação entre Ministérios da Fazenda e Bancos Centrais.

            São mudanças significativas em relação às propostas anteriores.

            Abrimos esta discussão no Projeto Brasil, em Fórum onde você encontra esta e as últimas informações sobre o BRICs. Leia e participe:

            Entre Contingências e Códigos

            Da utopia skinneriana ao tecno-behaviorismo algorítmico no capitalismo da fricção zero

            Por Reynaldo Aragon e Wagner de Lara Machado

            Numa época em que algoritmos preveem nossos passos antes que sequer ousamos caminhar, este ensaio percorre a distância entre a utopia de uma engenharia comportamental democrática e a captura silenciosa de nossas vontades pelo tecno-behaviorismo global. Entre contingências vivas e códigos preditivos, ergue-se o maior desafio de nosso tempo: resgatar a práxis, a hesitação e o conflito como trincheiras da liberdade, antes que nos tornemos apenas dados obedientes de uma máquina sem rosto.

            Introdução.

            A ideia corrente de um controle comportamental ao nível macrossocial não é algo novo, que surge com a popularização da internet e, principalmente, das redes e mídias sociais. Em 1948, pouco após o fim da II Guerra Mundial, Skinner publica seu romance utópico Walden Two, no qual descreve uma sociedade baseada na engenharia comportamental. Para entendermos o contexto e a relevância desta obra, alguma introdução se faz necessária. 

            Skinner foi professor de Harvard e um dos mais brilhantes nomes da Psicologia e das ciências comportamentais. Seus postulados sobre a análise do comportamento estão presentes em diversas áreas, desde a psicologia clínica até as neurociências comportamentais. De forma muito abreviada, sua teoria propunha que os comportamentos são definidos (condicionados)    por suas consequências. Comportamentos que resultam em consequências negativas (punições diretas ou remoção de estímulos prazerosos/agradáveis) tendiam a extinção, ao passo que comportamentos com consequências positivas (reforço direto ou remoção de estímulo aversivo/negativo) teriam maior probabilidade de ocorrência. Do ponto de vista neuropsicológico, a via mesolímbica (que integra a área tegmental ventral e o sistema límbico) é responsável por essa aprendizagem associativa, isto é, a relação entre prazer, reforço e motivação (para repetir o comportamento). Quando algo prazeroso ocorre (consequência positiva do comportamento) a dopamina (neurotransmissor) é liberada pela área tegmental ventral, chegando aos receptores no sistema límbico (especialmente o núcleo accumbens), essas duas estruturas interagem com o córtex pré-frontal (este, responsável pela tomada de decisão, engajamento, regulação emocional e motivação). Todo esse circuito cerebral também é chamado de “sistema de recompensa”. Cabe aqui uma pequena digressão: é justamente este circuito que têm sido bastante estudado na relação de como o conteúdo e o desenho (interface do usuário) de redes e mídias sociais condicionam nosso comportamento.

            Skinner sempre alertou que o controle aversivo do comportamento (baseado em punições ou coerções) deveria ser evitado, pois gerava efeitos contraproducentes como o alto nível de estresse e emoções negativas, o uso da mentira para evitar consequências negativas e a supressão temporária do comportamento. Em seu romance (Walden Two) Skinner idealizou uma sociedade regida pelo reforço positivo aos comportamentos socialmente desejáveis, pró-sociais e alinhados aos valores comunitários. Sua proposta era que a tecnologia comportamental assumiria o papel hoje delegado à ação política e regulação do Estado. Sua idéia era que este modelo levaria a sociedade a maximizar o bem-estar, manter a harmonia social e a distribuir o trabalho e ganhos de forma equitativa. Skinner propôs um modelo no qual as práticas sociais seriam testadas, avaliadas e corrigidas à luz de objetivos compartilhados, submetidas a processos éticos e continuamente reavaliadas. Como se pode imaginar, a obra (e modelo) de Skinner foi alvo de críticas na academia e no público em geral. Questionamentos sobre a falta de liberdade, escolhas individuais e sobre a legitimidade de quem faria o “planejamento social” logo foram estabelecidos. A utopia (muito bem intencionada – opinião do autor) de Skinner logo foi rotulada de distopia. É compreensível, já que naquela época eram rádios, jornais e revistas os principais “meios de comunicação de massa”. A internet seria criada dez anos mais tarde para fins militares. Hoje, sabe-se que o conteúdo e o desenho de interface do usuário de redes e mídias sociais está intrinsecamente alinhado aos conhecimentos do condicionamento comportamental, desde os princípios da análise comportamental de Skinner até os recentes avanços nas neurociências comportamentais. 

            Em Walden II, B. F. Skinner ousou vislumbrar uma sociedade capaz de transformar a engenharia comportamental em projeto emancipador. Sua utopia experimental apostava na possibilidade de que a ação humana, deliberada e supervisionada, pudesse reconstruir a vida coletiva por meio de contingências culturais projetadas conscientemente. Em vez de confiar ao acaso, à tradição ou ao mercado a regulação da conduta, Skinner concebeu um modelo em que as práticas sociais passariam por experimentação, análise e ajustes orientados por metas coletivas, sendo submetidas a formas moderadas de escrutínio ético e revisadas de modo contínuo. Dentro dessa perspectiva, a liberdade não significaria a eliminação de todos os condicionamentos, mas sim a elaboração de contingências sociais capazes de ampliar a autonomia funcional. Assim, os indivíduos poderiam agir alinhados aos propósitos comuns, livres de imposições arbitrárias.

            Setenta anos depois da publicação de Walden II, a promessa de uma engenharia comportamental deliberada se converteu em seu avesso. A revolução algorítmica, sustentada pela ideologia da fricção zero, reconfigurou a gestão da ação e da experiência em direção a um automatismo tecnicamente gerido, intransparente e não deliberativo. Os chamados metaintermediários algorítmicos (inteligências preditivas capazes de antecipar, modular e automatizar comportamentos) se tornaram os novos engenheiros de nossa subjetividade, erguendo uma forma superior de controle comportamental, muito mais difusa e silenciosa que qualquer panóptico tradicional. Não se trata mais de supervisionar práticas por meio de um coletivo crítico, mas de dissolver o espaço da deliberação, substituindo a práxis pela fluidez operacional, esvaziando o erro, o conflito e a mediação, que são, paradoxalmente, as condições para a autonomia.

            Este ensaio se propõe a investigar, com rigor e sem concessões retóricas, a passagem histórica e técnica que nos trouxe de Walden II ao capitalismo informacional da fricção zero. Nosso argumento parte de uma hipótese central: a proposta de Skinner consistia em uma engenharia comportamental democrática, baseada em metacontingências deliberadas e supervisionadas, enquanto a ideologia da fricção zero converte essa engenharia num modelo automatizado de controle, alienando a própria experiência humana por meio de ciclos de reforçamento tecnicamente geridos, e amputando a possibilidade de ação consciente. Em outras palavras, se Walden II representou uma aposta na experimentação coletiva, os metaintermediários algorítmicos representam a captura dessa mesma experimentação pela lógica de mercado, transformando a liberdade funcional em aderência passiva, a supervisão comunitária em vigilância algorítmica, e a deliberação política em um fluxo de comandos preditivos.

            A escolha de examinar este contraste a partir do materialismo histórico-dialético não é casual. Só esta abordagem permite desnudar a relação entre técnica e poder como síntese contraditória de forças históricas, situando o controle algorítmico dentro da totalidade social dominada pela racionalidade do valor. A ideologia da fricção zero não nasce de uma fatalidade técnica, mas de um projeto político-tecnológico que reorganiza a mediação entre sujeito e mundo, dissolvendo toda hesitação, todo espaço de crítica, toda possibilidade de práxis, para melhor moldar a experiência humana ao imperativo da eficiência e da previsibilidade. Nesse sentido, a crítica aqui desenvolvida recusa a visão ingênua de que a inteligência artificial e seus metaintermediários seriam meros instrumentos neutros, pois opera a partir do princípio de que a técnica é sempre, ao mesmo tempo, mediação e dominação, campo de disputa e de captura.

            Nosso itinerário percorrerá, portanto, quatro movimentos principais: primeiro, reconstruir a utopia de Skinner e suas bases conceituais; segundo, analisar os fundamentos técnicos e ideológicos da fricção zero; terceiro, comparar criticamente esses dois paradigmas de engenharia comportamental; e, por fim, propor uma reconstrução dialética da mediação, capaz de restituir a agência e a deliberação enquanto horizontes políticos irredutíveis à automação. Em cada etapa, buscaremos revelar não apenas as continuidades históricas entre o behaviorismo e o tecno-behaviorismo algorítmico, mas também as rupturas radicais que inauguram, na sociedade da informação, uma forma inédita de alienação de segunda ordem, aquela que não apenas modela a ação, mas redefine a própria ontologia do agir.

            Entre Walden II e o capitalismo da fricção zero ergue-se, enfim, um campo de batalha conceitual, no qual a luta pela soberania cognitiva se tornou uma exigência civilizatória. É nesse terreno que o presente ensaio se inscreve, não para oferecer respostas fáceis, mas para iluminar as contradições e interrogações que precisam ser trazidas à tona, se ainda quisermos recuperar o sentido crítico de nossa humanidade.

            Walden II: a utopia da engenharia comportamental deliberada

            Walden II emerge como uma das mais radicais experiências literárias de imaginar a engenharia comportamental não como aparato de dominação, mas como possibilidade de emancipação social. Publicado em 1948, o romance de B. F. Skinner inscreve-se na tradição das utopias modernas, mas desloca seu eixo normativo da política para a técnica, propondo uma comunidade regida por contingências cuidadosamente planejadas, testadas e reajustadas em função do bem-estar coletivo. Ali, a liberdade deixa de ser entendida como livre-arbítrio incondicional e passa a ser concebida como liberdade funcional: a capacidade de agir sem coerções arbitrárias, dentro de arranjos culturais projetados para promover comportamentos socialmente desejáveis.

            o cerne de Walden II está a noção de metacontingências, ainda não formalizada à época, mas presente em estado germinal na visão skinneriana de cultura como rede de contingências que molda padrões de interação. Diferentemente das contingências individuais, que mantêm o comportamento pela relação entre estímulos antecedentes, respostas e consequências, as metacontingências operam no plano supra-individual, preservando ou transformando práticas culturais pela retroalimentação de consequências agregadas. Em Walden II, esse princípio se manifesta na forma de normas comunitárias ajustadas de modo contínuo, evitando a cristalização de tradições autoritárias. Skinner propõe, assim, uma espécie de democracia experimental, onde os arranjos institucionais não são imunes à crítica, mas ao contrário, vivem sob constante escrutínio dos próprios participantes, uma arquitetura de deliberação permanente.

            Ainda que Skinner tenha sonhado com uma engenharia comportamental ética, sustentada por sanções brandas e pelo consentimento dos membros da comunidade, seu projeto revela tensões não resolvidas. A primeira diz respeito ao risco de transformar a liberdade funcional em mera adaptação: ao condicionar os indivíduos para agir “livremente” dentro de contingências pré-configuradas, a comunidade corre o risco de substituir a liberdade política substantiva por um simulacro de autonomia, ainda que sob vigilância benevolente. Essa contradição reflete um ponto sensível do behaviorismo radical: a dificuldade de lidar com a historicidade do conflito, do dissenso e do antagonismo social. Ao reduzir o erro e a contradição a falhas do arranjo contingencial, Walden II se aproxima perigosamente de uma utopia sem negatividade, onde a mudança se dá apenas pelo reajuste técnico de práticas, e não pelo embate político entre projetos de mundo inconciliáveis.

            Apesar dessas ambiguidades, a proposta skinneriana oferece uma provocação ainda atual. Ao apostar na possibilidade de que o comportamento coletivo pode ser transformado racionalmente, sem apelos místicos ou fatalismos de mercado, Skinner resgata a noção de que a cultura é obra humana, passível de crítica, experimentação e reconstrução. Ele antecipa, de certo modo, a luta contemporânea contra as formas opacas e automáticas de modulação social que se instalam no capitalismo digital. Ao recusar o espontaneísmo e defender uma supervisão coletiva deliberada das contingências culturais, Skinner pavimenta um caminho que, mesmo marcado por limites, aponta para a importância de restituir a práxis como dimensão inegociável da organização social.

            Em síntese, Walden II encarna uma utopia tecnológica orientada pela supervisão humana, na qual o controle do comportamento não exclui o debate, mas o incorpora como eixo da governança cultural. Sua promessa radical, no entanto, reside justamente naquilo que a atual racionalidade algorítmica obliterou: a crença de que as contingências podem ser continuamente redesenhadas pelos próprios agentes, e não automatizadas por sistemas externos e opacos. Se Skinner pode ser criticado por seu tecnicismo, não se pode ignorar sua lição: a transformação cultural é, antes de tudo, uma questão política, e não uma fatalidade imposta pelo progresso técnico.

            Metaintermediários algorítmicos e a ideologia da fricção zero

            Se Walden II imaginava uma engenharia comportamental deliberada, ancorada em supervisão ética e no reajuste coletivo de normas, a contemporaneidade nos entrega uma versão automatizada e maquinal desse sonho: a ideologia da fricção zero. Essa racionalidade técnico-política, consolidada no interior do capitalismo informacional, opera a partir de uma promessa de eficiência total, suprimindo hesitações, conflitos e mediações em nome de uma experiência contínua, previsível e otimizada. Seu horizonte não é a emancipação consciente, mas a adesão passiva, um tipo de obediência tornada invisível, porque programada no nível pré-reflexivo do agir.

            No coração dessa ideologia se erguem os metaintermediários algorítmicos, arquiteturas digitais que transcendem a velha mediação técnica baseada na interação explícita. Diferentemente das interfaces gráficas ou dos motores de busca de primeira geração, os metaintermediários assumem funções proativas, interpretando sinais, antecipando demandas e tomando decisões antes que o sujeito sequer formule uma intenção consciente. É uma mediação que não media, mas antecipa; que não negocia, mas prediz. O resultado é a dissolução da práxis: o espaço de ação, de escolha, de conflito e de reinvenção passa a ser recodificado como ruído, falha ou desperdício de tempo. O algoritmo, ao capturar padrões comportamentais e projetar reforçamentos em tempo real, transforma a experiência vivida em um fluxo de respostas automáticas, esvaziando a deliberação e colonizando a subjetividade pela lógica da fluidez.

            Essa operação não é neutra, nem apenas técnica. Ela expressa a consolidação de uma forma superior de alienação, alienação de segunda ordem, em que não apenas a atividade produtiva ou comunicacional do sujeito é subsumida ao capital, mas a própria ontologia do desejo, da percepção e da linguagem se torna terreno de gestão preditiva. Ao antecipar e modular emoções, preferências e expectativas, os metaintermediários convertem o campo da experiência humana em matéria-prima de um projeto de dominação algorítmica, onde a liberdade funcional dá lugar à adaptação automatizada, e a autonomia cede espaço à adesão maquinal.

            O capitalismo da fricção zero, assim, leva às últimas consequências a noção behaviorista de reforçamento: não se contenta em condicionar comportamentos pontuais, mas reprograma a própria infraestrutura da cognição, transformando a hesitação, essência da liberdade, em falha sistêmica. Se Skinner acreditava que as contingências deviam ser continuamente ajustadas pela coletividade, aqui elas são definidas a priori, inscritas no código, imunes ao escrutínio democrático. É a vitória da engenharia comportamental sem sujeitos, onde a deliberação desaparece porque se torna supérflua.

            Sob o prisma do materialismo histórico-dialético, a ideologia da fricção zero revela-se como uma racionalidade de captura total: ela naturaliza a tecnologia enquanto destino, oculta as relações de poder embutidas no código e transforma a mediação técnica em campo de normalização, esvaziando a negatividade crítica. Trata-se de um projeto político-tecnológico sofisticado, que desloca o conflito para a infraestrutura e pacifica a rebeldia pela eficiência. Ao tornar a práxis redundante, instaura-se uma nova forma de hegemonia, em que a espontaneidade se confunde com a servidão e a fluidez com a liberdade.

            Por isso, entender a ascensão dos metaintermediários algorítmicos não é apenas descrever sua arquitetura técnica, mas historicizá-los enquanto parte de uma estratégia global de governamentalidade automatizada, na qual a gestão do comportamento humano se articula à extração de valor, ao colonialismo cognitivo e ao esvaziamento do dissenso. É nesse ponto que se torna imprescindível retomar a lição de Skinner: nenhuma engenharia comportamental pode prescindir da crítica, da supervisão coletiva e da abertura ao conflito. O tecno-behaviorismo da fricção zero, ao contrário, se constrói justamente negando essas dimensões, instaurando uma forma de controle que não apenas organiza as ações, mas captura a própria potência de agir.

            Conexões, analogias e rupturas: Skinner e o tecno-behaviorismo

            O encontro conceitual entre Walden II e o capitalismo da fricção zero não se esgota na analogia superficial de ambos mobilizarem técnicas de engenharia comportamental. Ao contrário, revela um campo de tensões e contradições que ilumina o percurso histórico do controle social: do condicionamento supervisionado ao condicionamento automatizado; da metacontingência coletiva ao metaintermediário algorítmico. A hipótese que atravessa este ensaio é que, embora compartilhem a ambição de modelar comportamentos, Skinner e o tecno-behaviorismo contemporâneo partem de premissas políticas e epistemológicas radicalmente distintas e, por isso, produzem efeitos antagônicos na constituição da subjetividade.

            Em Walden II, a experimentação comportamental surge como projeto democrático, orientado pela deliberação comunitária, no qual a supervisão ética e a crítica coletiva preservam a plasticidade das contingências. É a comunidade, enquanto sujeito histórico, que decide como regular seus padrões de interação, sempre aberta à revisão e ao erro. A práxis, nesse contexto, é inseparável da engenharia comportamental: agir é testar, corrigir, remodelar, num movimento dialético de retroalimentação entre cultura e comportamento. O erro não é falha a ser extirpada, mas elemento essencial da aprendizagem coletiva.

            O tecno-behaviorismo da fricção zero, por sua vez, sequestra essa racionalidade experimental e a converte num sistema automatizado de captura. Aqui, a mediação desaparece enquanto campo de negociação simbólica e se transmuta em processo de predição algorítmica, onde o conflito, a dúvida e a hesitação passam a ser interpretados como ruídos. Os metaintermediários não toleram a negatividade; dissolvem-na em fluxos de reforçamento automático, pré-programados, otimizados para a adesão instantânea. O sujeito já não experimenta, mas é continuamente interpretado e conduzido, sem margem real de deliberação. O espaço político se transforma, assim, em um circuito fechado de modulação comportamental, no qual a agência é substituída por microajustes invisíveis.

            Essa ruptura tem implicações profundas. Skinner, ainda que criticável por seu tecnicismo, preservava a dimensão comunitária e política da regulação comportamental. Sua utopia admitia a mudança, a crítica e a pluralidade, ainda que subordinadas a um horizonte de eficiência cultural. O tecno-behaviorismo algorítmico, ao contrário, anula a política pela técnica, suprimindo a contingência viva em favor de um determinismo cibernético, programado para manter a previsibilidade a qualquer custo. O que Skinner concebia como processo coletivo e ético se converte, na racionalidade dos metaintermediários, numa dominação silenciosa, que não demanda consentimento explícito porque opera abaixo da consciência, no nível da pré-ação.

            Nessa passagem, vemos delinear-se uma mudança de paradigma na história do controle social. Se o behaviorismo clássico ainda requeria sujeitos participantes, capazes de refletir, mesmo que sob contingências planejadas, o tecno-behaviorismo contemporâneo transforma o sujeito em variável de ajuste, apagando a dialética entre indivíduo e coletivo. Não se trata mais de educar para a autonomia funcional, mas de produzir aderência maquinal, administrada como fluxo de dados. O resultado é a consolidação de uma alienação ontotecnológica, na qual o campo da experiência se torna terreno de gestão preditiva, e a linguagem, antes espaço de mediação e crítica, converte-se em interface funcional para comandos.

            Por isso, mais do que comparar Walden II e a ideologia da fricção zero, é preciso explicitar sua clivagem estrutural. A proposta de Skinner, embora limitada e por vezes autoritária, ainda reconhecia a potência transformadora do conflito, do erro e da revisão cultural. Já os metaintermediários algorítmicos instauram uma nova forma de governamentalidade, na qual a gestão técnica suprime qualquer abertura para o dissenso, naturalizando a servidão como se fosse liberdade. Essa clivagem marca a passagem de um projeto ético de engenharia comportamental para um projeto de alienação integral, que captura não apenas o que fazemos, mas o que somos, antes mesmo que possamos querer sê-lo.

            Guerra informacional, colonialismo cognitivo e tecno-behaviorismo global

            A radicalização do tecno-behaviorismo, expressa nos metaintermediários algorítmicos, não pode ser dissociada de um contexto geopolítico mais amplo. O capitalismo da fricção zero não apenas reorganiza subjetividades em escala individual, mas integra uma arquitetura global de poder, na qual a informação se tornou arma estratégica de captura. Vivemos sob o signo de uma guerra informacional permanente, em que a disputa pelo controle da atenção, do desejo e da linguagem se articula a projetos de dominação transnacional, capazes de operar sem tanques nem exércitos, mas com a mesma capacidade de devastação social e política.

            Nessa guerra, o metaintermediário algorítmico emerge como soldado silencioso: ele recolhe dados, antecipa padrões, modula afetos e filtra percepções, intervindo diretamente na formação de valores, atitudes e crenças. Seu poder não se limita a otimizar escolhas de consumo; estende-se à moldagem de narrativas, à normalização de comportamentos e à legitimação de estruturas de poder. É a própria formação do sentido, tradicionalmente alicerçada em processos coletivos, que passa a ser gerida como serviço técnico, terceirizado a plataformas de alcance planetário. O resultado é uma mutação civilizatória que desloca a mediação política para a infraestrutura tecnológica, instaurando um colonialismo cognitivo: as linguagens, os afetos, os saberes e as memórias de populações inteiras passam a ser extraídos, monetizados e reprogramados segundo a lógica de acumulação do capital informacional.

            No Sul Global, essa dinâmica assume contornos ainda mais perversos. Sociedades marcadas por desigualdades históricas, dependência tecnológica e frágil soberania informacional tornam-se laboratórios privilegiados para a experimentação de modelos de modulação comportamental. O tecno-behaviorismo algorítmico, nessa chave, funciona como prolongamento de antigas formas de colonialismo, atualizando-as para a era da automação preditiva. A dependência de plataformas estrangeiras, a captura de dados sensíveis e a internalização de racionalidades técnicas alienígenas conformam um novo imperialismo, mais difícil de perceber porque se infiltra no cotidiano, na linguagem, nos hábitos e até nos sonhos.

            Do ponto de vista materialista histórico-dialético, este processo revela sua natureza de classe: a automação da mediação não é um simples avanço técnico, mas um projeto político de reconfiguração do trabalho, do consumo e da própria subjetividade. Ao transformar a ação humana em fluxo de dados, os metaintermediários despolitizam a experiência, deslocando o conflito social para algoritmos imunes à crítica. Essa alienação de segunda ordem não apenas administra comportamentos, mas bloqueia a própria capacidade de questionar, transformando a práxis em performance, a deliberação em adesão e a linguagem em interface.

            Frente a esse cenário, a guerra informacional não pode ser compreendida apenas como disputa de narrativas, mas como um embate pela ontologia do agir. O colonialismo cognitivo contemporâneo avança justamente porque substitui a construção coletiva do sentido por sistemas opacos, programados para moldar desejos sem mediação. É nesse ponto que a comparação com Walden II se torna ainda mais reveladora: Skinner sonhava com uma engenharia cultural que ampliasse a autonomia funcional de sujeitos conscientes, enquanto o tecno-behaviorismo global suprime essa autonomia pela captura integral da cognição. O que poderia ser experimentação deliberativa converte-se em submissão automatizada, esterilizando a imaginação e neutralizando toda potência de resistência.

            Portanto, a luta contra o tecno-behaviorismo algorítmico não é apenas técnica ou regulatória. É uma luta civilizatória, que demanda recolocar a mediação no centro da experiência social, resgatando a política, a linguagem e o dissenso como trincheiras indispensáveis diante do avanço do colonialismo informacional. Só assim será possível reabrir o espaço do erro, da hesitação e do conflito, sem os quais não existe verdadeira liberdade.

            Perspectivas críticas e reconstrução dialética da mediação

            Diante da captura tecnocêntrica promovida pelos metaintermediários algorítmicos, pensar alternativas implica retomar radicalmente a noção de mediação como campo político, ético e cultural. O desaparecimento da práxis, substituída por processos automatizados de antecipação e reforçamento, não é um detalhe técnico: representa uma regressão civilizatória, na qual a condição humana se rebaixa ao estatuto de variável operacional, domesticada para aderir, consumir e repetir. Se Walden II nos ensinou que a cultura pode ser conscientemente projetada e supervisionada, a crítica contemporânea deve avançar ainda mais, situando essa supervisão no terreno da deliberação democrática e da tecnodiversidade.

            Reconstituir a mediação significa resgatar a linguagem como espaço de conflito e invenção, rompendo a lógica do fluxo contínuo que naturaliza a adesão e dissolve a hesitação. Significa defender o erro, o tempo lento, a negatividade, como dimensões constitutivas de toda experiência autêntica. Nenhum algoritmo, por mais sofisticado que seja, pode substituir o ato humano de interpretar, hesitar, deliberar. Ao contrário: a reconstrução de um horizonte emancipatório depende de devolver à linguagem seu poder de recusa, à política seu poder de invenção, e à coletividade seu poder de negociação, que são, em última instância, as garantias mínimas de liberdade.

            Essa reconstrução crítica demanda, por consequência, a formulação de diretrizes normativas claras. Uma delas é a ética da fricção: reconhecer que a fricção, longe de ser um defeito, é condição de autonomia, pois nela habita o espaço de discordância, de crítica e de reinvenção. Outra é a tecnodiversidade: romper com a uniformização das plataformas e estimular ecossistemas tecnológicos pluralistas, abertos ao controle social e à experimentação democrática. E, finalmente, a soberania cognitiva: reivindicar que dados, linguagens e afetos não sejam transformados em matéria-prima de algoritmos alienígenas, mas permaneçam sob governança coletiva e transparente.

             materialismo histórico-dialético nos ajuda a enxergar que a técnica, por si só, jamais será neutra. Enquanto expressão histórica de relações sociais, ela carrega as marcas do capital e das disputas de poder. Por isso, não basta sonhar com regulações protocolares ou códigos de ética de gabinete: a transformação efetiva supõe reconstruir as condições políticas de apropriação da técnica, reposicionando a mediação no centro da luta social. É nessa arena que a crítica de Skinner, ainda que ingênua em certos aspectos, dialoga com as urgências do presente. Ao insistir na possibilidade de controlar as contingências culturais de forma coletiva e consciente, Skinner abriu uma fresta para pensar a técnica como espaço de experimentação democrática. Essa fresta não deve ser fechada, mas radicalizada, para impedir que a história da engenharia comportamental seja sequestrada em favor de um automatismo predador e anti-humano.

            Reconstruir a mediação, portanto, não é nostalgia de uma era perdida: é projeto de futuro. Um futuro onde a linguagem não seja apenas interface, mas território de disputa; onde a deliberação não seja simulada, mas vivida; onde a subjetividade não seja programada, mas construída, negada, refeita, num movimento dialético constante. Recuperar a potência política da mediação é, em última instância, resgatar a dignidade da experiência humana contra a redução comportamentalista extrema, seja ela administrada por psicólogos iluminados ou por algoritmos que pretendem ser deuses silenciosos.

            Conclusão

            Entre Walden II e a ideologia da fricção zero, ergue-se um abismo histórico que revela mais do que uma diferença de técnicas: denuncia uma mudança profunda na ontologia do agir. Skinner, com todas as ambiguidades de seu behaviorismo radical, ainda acreditava na plasticidade da cultura, na potência transformadora da crítica coletiva, na possibilidade de redesenhar contingências sob supervisão ética e democrática. Sua utopia comportamental podia ser tecnicista, mas não era cega ao valor da deliberação e da experimentação humana. Via no erro, na revisão e na negociação a base para reinventar a liberdade, mesmo que esta fosse funcional, mesmo que fosse limitada.

            O tecno-behaviorismo contemporâneo, sob o signo da fricção zero, perverte essa ambição. Ao deslocar a engenharia do comportamento para plataformas algorítmicas opacas, elimina o espaço do dissenso, esteriliza a dúvida, neutraliza o erro. Converte a práxis em fluxo programado, subtraindo do sujeito até a chance de desejar livremente. É a culminação de uma alienação de segunda ordem: não apenas nos condiciona, mas nos reprograma, reorganizando nossos afetos, nossa linguagem, nossos próprios modos de existir. Sob a aparência de liberdade total, constrói-se uma servidão maquinal, polida e silenciosa, a antítese perfeita do projeto skinneriano, que ao menos exigia que a comunidade participasse de sua própria modelagem.

            A hipótese que sustenta este ensaio, portanto, se confirma: vivemos a passagem de uma engenharia comportamental democrática, fundada em metacontingências deliberadas, para um modelo de controle automatizado, administrado pelos algoritmos de um capitalismo que transforma a experiência em dado e a autonomia em obediência previsível. A fricção, que outrora representava hesitação, reflexão e reinvenção, foi recodificada como falha a ser eliminada, e com ela se extingue também a dimensão trágica, imprevisível e potente da ação humana.

            O que está em jogo não é apenas uma tecnologia. É a própria possibilidade de nos constituirmos enquanto sujeitos históricos. Por isso, retomar a crítica dialética da mediação, defender a ética da fricção, apostar na tecnodiversidade e resgatar a soberania cognitiva não são tarefas acessórias, mas atos fundamentais de resistência civilizatória. Não se trata de rejeitar a técnica, mas de politizá-la radicalmente, impedindo que ela se converta em forma suprema de colonização do espírito.

            Walden II nos lembra que toda engenharia social deve permanecer aberta ao conflito, ao erro, à reinvenção, pois é no inacabamento que se preserva a dignidade do humano. A ideologia da fricção zero, ao negar essa abertura, ergue uma nova prisão, mais perigosa que qualquer disciplina autoritária do passado, porque dissolve as grades na suavidade de suas interfaces e nos faz esquecer que ainda podemos escolher.

            Se há uma lição final a extrair deste contraste, é que a luta pelo direito de hesitar, de pensar, de agir contra a corrente, por mínima que seja, tornou-se hoje o ato mais revolucionário que podemos sonhar. Pois nesse direito habita a possibilidade de reconstruir a liberdade, não como fluidez automática, mas como conquista sempre inacabada, sempre crítica, sempre humana.

            Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global.

            Wagner de Lara Machado. Psicólogo, Doutor em Psicologia. Pesquisador Bolsista Produtividade do CNPq. Pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia – Disputas e Soberania Informacional (INCT – DSI). Coordenador do grupo de pesquisa Avaliação em Bem-estar e Saúde Mental (ABES) e professor nos níveis de graduação e pós-graduação na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Tem atuado nas áreas de estatística e machine learning, desenvolvimento de intervenções e medidas em contextos clínicos, educacionais, laborais e da saúde.

            Quando a emergência climática invade a crise civilizacional

            A Tempestade sobre as Ruínas – O que acontece quando a emergência climática invade a crise civilizacional

            Por Reynaldo Aragon

            Quando o colapso ecológico encontra a falência moral e política de um mundo à beira do abismo, nasce uma tempestade perfeita. Este ensaio vasculha as profundezas dessa convergência, onde o futuro se decide entre a barbárie e a reinvenção.

            E quando as mudanças climáticas se somarem à crise civilizacional? Talvez seja neste ponto, e não em outro, que o ser humano seja forçado a encarar o que sempre temeu nomear: que seu império sobre a Terra, forjado na sanha de extrair, explorar e subjugar, pode ruir não por falta de tecnologia, mas por excesso de arrogância. Pois não haverá algoritmo, satélite ou moeda forte capaz de conter a fúria de um planeta reconfigurado, quando a atmosfera se tornar ácida, os rios secarem, os ventos não respeitarem mais estações, e os ciclos de vida entrarem em convulsão.

            Imagine um mundo onde a seca prolongada transforme grandes metrópoles em arquipélagos de sobrevivência, onde a água seja vigiada com metralhadoras, onde o alimento se converta em arma, e onde cada fronteira se torne trincheira contra a miséria migrante. Imagine as ondas de calor não mais como exceção, mas como ritual de morte cíclica, ceifando vidas ao ritmo de cifras que jamais irão aparecer nos telejornais. Imagine as chuvas tão intensas que dissolvam bairros inteiros em poucos minutos, rasgando encostas, pontes, cidades, memórias.

            Este não é um delírio distópico. É uma projeção material, calculada, quantificada, medida — sustentada por todas as evidências da ciência planetária que se acumularam nas últimas quatro décadas. Mas ela se torna ainda mais sombria quando encosta, como fera faminta, na carcaça frágil de um mundo que já vem derretendo por dentro: democracias esgarçadas, povos colonizados, elites cada vez mais predatórias, valores comunitários transformados em pó pelo consumismo narcótico, e uma violência ideológica que nos acostuma a aceitar a desigualdade como destino.

            Nada disso ocorrerá em um planeta socialmente estável e politicamente pacífico. Não haverá transição suave quando as colheitas falharem ao mesmo tempo, em que explodem golpes de Estado, guerras híbridas e redes de ódio projetadas por máquinas algorítmicas a serviço do lucro. A emergência climática chegará, e já chega, a um mundo fraturado, doente, sem compaixão — onde cada catástrofe física ecoará como catástrofe moral.

            A cada grau de aquecimento que se soma, a cada estação perdida, a cada floresta transformada em fumaça, dilata-se também o abismo civilizacional que a humanidade cavou com as próprias mãos. E quando os sinais se tornarem impossíveis de ignorar — quando a floresta amazônica colapsar de vez, quando as monções errarem de endereço, quando as calotas polares se transformarem em mar aberto — não será apenas a temperatura que terá mudado. Terá mudado a própria gramática da vida, o tecido mínimo de solidariedade e confiança que sustenta qualquer civilização.

            Este ensaio começa, portanto, num lugar incômodo: a interseção entre o planeta em colapso e a sociedade em vertigem. É nesta junção que se produz o ponto de ruptura histórico, onde a crise ecológica se torna crise civilizacional, e vice-versa. É neste ponto que devemos mirar, sem medo, pois dele depende não só o futuro do clima, mas a própria possibilidade de humanidade.

            A urgência planetária e o colapso civilizacional.

            Vivemos, de fato, o crepúsculo de uma civilização que, ao negar os limites do planeta, começou a corroer também os limites da própria dignidade humana. O colapso climático não pode ser lido como um acidente da natureza: ele é a consequência histórica de um projeto civilizatório que fez do crescimento sem fim um dogma sagrado, da mercantilização de tudo uma promessa de redenção, e da exploração sem escrúpulos a engrenagem fundamental do progresso. Por trás de cada grau extra na atmosfera, há séculos de pilhagem colonial, há impérios que se ergueram sobre corpos escravizados e florestas queimadas, há fronteiras forjadas a pólvora para garantir a circulação de mercadorias.

            A Terra respondeu. Não por capricho, mas pela lógica inescapável das leis biofísicas que regem sistemas vivos. Aquilo que queimamos retorna, aquilo que destruímos cobra juros, e aquilo que desprezamos se revolta — não em termos morais, mas no rigor das reações químicas e físicas que mantêm a estabilidade do clima. A aceleração do aquecimento global, o colapso da biodiversidade, a acidificação dos oceanos e o envenenamento dos ciclos da água não são sinais isolados: são a sinfonia trágica de um sistema planetário ultrapassando os limites de resiliência, amplificada por um modelo econômico que transformou a própria natureza em cifra contábil.

            Mas a crise não se restringe à ecologia. Ela se infiltra no coração do contrato social, pois se revela incapaz de manter vivos os laços comunitários mínimos. Quando o clima entra em ruptura, a sociedade se rasga: aumenta a competição por alimentos, água, refúgio; ressurgem fronteiras armadas; recrudescem racismos, misoginia e violência contra os mais pobres. O negacionismo que grassa pelo mundo não nasce apenas de ignorância — nasce de um medo ancestral de encarar que a engrenagem da qual muitos se beneficiam tornou-se um instrumento de morte. E ao negar o colapso, negamos também qualquer chance de transformá-lo.

            É nesta combinação explosiva que reside a urgência histórica: não falamos de um evento natural, mas de uma convulsão civilizatória que já se manifesta nos corpos empobrecidos, nos territórios envenenados, nos refugiados empilhados em campos de exclusão, nas guerras silenciosas pelo controle da água. Não existe solução tecnocrática que isole a crise climática da crise social — elas são inseparáveis.

            Por isso, a urgência não pode ser medida apenas em partes por milhão de CO₂, mas em pedaços de humanidade que estão sendo triturados agora, diante de nossos olhos. Cada segundo de atraso na transição ecológica se converte em vidas sacrificadas, e cada minuto de hesitação serve ao prolongamento de um poder que prefere morrer abraçado à sua riqueza do que repensar as bases de sua própria existência.

            Este ensaio parte dessa premissa: não existe clima saudável num mundo socialmente apodrecido, e não existe sociedade justa num planeta biologicamente devastado. A urgência planetária é, pois, o grito simultâneo de todos os sistemas vivos — ecológicos, sociais, simbólicos — chamando pela reinvenção radical do modo de viver e do modo de nos relacionarmos. E talvez seja exatamente por isso que, embora muitos prefiram tapar os ouvidos, a voz do colapso soe cada dia mais alto, cada dia mais inegável, cada dia mais próximo.

            Mudanças climáticas: a anatomia da catástrofe.

            Há algo de terrivelmente simples no fenômeno das mudanças climáticas, embora sua complexidade assuste: basta acumular gases na atmosfera, e o equilíbrio térmico do planeta cede. Não é uma questão de crença, tampouco de opinião. É física elementar, mensurada, observada, replicada em laboratórios e em satélites. É ciência, e ciência da mais rigorosa. Desde que a revolução industrial elevou exponencialmente a concentração de dióxido de carbono, metano e óxidos nitrosos, a Terra entrou em um regime climático que jamais havia conhecido no Holoceno — a era de relativa estabilidade que permitiu a emergência de cidades, agricultura, cultura escrita e, em última instância, a própria civilização.

            Hoje, a concentração de CO₂ atmosférico ultrapassa 420 partes por milhão — valor não registrado há pelo menos 3 milhões de anos, segundo testemunhos de gelo e análises de sedimentos. Essa cifra solitária carrega o prenúncio de um abalo: o sistema climático, interdependente e não-linear, responde a cada fração de grau com reações em cadeia. O degelo do Ártico libera metano preso no permafrost; o metano amplifica o efeito estufa; o aquecimento acelera a evaporação de oceanos, alterando correntes atmosféricas; essas correntes redistribuem a energia global de forma caótica, e assim se multiplicam secas extremas, chuvas diluvianas, ondas de calor mortais e furacões cada vez mais violentos.

            Não se trata de um filme apocalíptico: trata-se do diagnóstico da comunidade científica internacional, expresso nos relatórios sucessivos do IPCC e confirmado pelas agências espaciais que vigiam a vitalidade do planeta. O aumento médio de 1,5 °C sobre os níveis pré-industriais, já praticamente alcançado, carrega em si a marca de irreversibilidades. Algumas geleiras jamais voltarão. Alguns recifes jamais se regenerarão. Alguns sistemas de monções já começaram a perder a previsibilidade que sustentava milhões de agricultores na Ásia e na África.

            Entender a anatomia da catástrofe é perceber que ela não opera de forma linear, mas em saltos, do mesmo modo que um organismo doente não morre em câmara lenta, mas por falências múltiplas que se sobrepõem. O clima global funciona com pontos de inflexão — tipping points — que, uma vez ultrapassados, podem reconfigurar completamente as condições de habitabilidade do planeta. O colapso da Amazônia como sumidouro de carbono, a falha do sistema de correntes do Atlântico Norte, a fusão irreversível da calota da Groenlândia — cada um desses eventos representa não um drama regional, mas um golpe mortal na estabilidade climática planetária.

            Por isso, falar em mudanças climáticas não é falar apenas de “aquecimento”, mas de uma transformação estrutural na base energética que mantém a Terra habitável. É uma anomalia que se expande como câncer, contaminando solos, mares, ventos, dinâmicas ecológicas. É também, em termos filosóficos, a revelação do nosso próprio erro civilizacional: acreditar que se poderia violentar as condições mínimas de vida sem colher o retorno brutal dessa violência.

            Este não é um ponto de vista. É um laudo. E quem não quiser enxergar a anatomia desta catástrofe terá de lidar, em breve, com sua face mais brutal: a falência do mínimo necessário para a dignidade humana. Pois não existe civilização possível quando a temperatura rompe a tolerância fisiológica dos corpos, quando a água escasseia, quando a comida se torna inacessível e quando as doenças tropicais avançam para latitudes outrora temperadas. O clima é a moldura de tudo. Sem clima, não há cultura, não há economia, não há política — não há sequer vida em comum.

            E é neste reconhecimento, tão simples quanto devastador, que devemos apoiar o resto de nossa reflexão. Porque se não entendermos a anatomia da catástrofe, não seremos capazes de sequer imaginar saídas reais.

            O encontro explosivo: clima + crise civilizacional.

            Talvez a maior falácia do nosso tempo seja imaginar que a mudança climática será um teste isolado, um acontecimento natural que ocorrerá num mundo calmo, governado por instituições sólidas e pactos sociais respeitados. Essa ilusão — herdada de um pensamento tecnocrático que insiste em separar “natureza” e “sociedade” — fracassa diante da evidência de que o colapso ambiental não chegará a um planeta estável, mas a uma civilização já lacerada, cansada, saturada de desigualdades e dominada por poderes cada vez mais autorreferentes.

            O aquecimento global não se sobrepõe a um solo firme. Ele se infiltra num corpo social adoecido: marcado por democracias frágeis, populismos autoritários, desigualdades extremas, polarização violenta e redes digitais que amplificam ódio, medo e mentira com precisão algorítmica. Quando a emergência climática se combinar a este caldeirão de ressentimentos e disputas, estaremos diante de algo mais que uma crise ambiental: veremos um processo de desorganização civilizatória, uma implosão sistêmica onde cada catástrofe física ecoará como catástrofe moral e política.

            Este é o ponto crucial, muitas vezes negligenciado pelas análises frias de relatórios internacionais: o risco de colapso composto. Um termo técnico, mas de implicações quase filosóficas. O colapso composto surge quando múltiplas crises — climáticas, econômicas, institucionais, informacionais — interagem, gerando efeitos cumulativos e sinérgicos. Por exemplo, uma seca extrema pode arruinar a produção agrícola de uma região, provocando fome; a fome se converte em conflito social; o conflito desorganiza o Estado; o vácuo de poder alimenta milícias ou grupos terroristas; e essa insegurança, por sua vez, impede políticas de adaptação ao clima, criando um círculo vicioso de autodestruição.

            Seus contornos já podem ser vislumbrados. Veja o norte da África, onde a desertificação, aliada a governos frágeis e interesses neocoloniais, empurrou populações inteiras para rotas de migração desesperada, alimentando regimes xenófobos na Europa. Veja o sudeste asiático, onde tempestades cada vez mais violentas pressionam comunidades pesqueiras empobrecidas, aumentando a disputa por recursos e a tensão geopolítica entre superpotências. Veja a própria América Latina, onde inundações, secas e queimadas se somam a guerras informacionais e a ataques à democracia, alimentando um ressentimento profundo que nutre o fascismo tropical.

            Para fundamentar essa visão, podemos recorrer a metodologias de cenarização integrada, como os Shared Socioeconomic Pathways (SSP) e os Representative Concentration Pathways (RCP), que projetam não só trajetórias de emissões, mas também trajetórias sociais. Esses modelos revelam que, num cenário de aquecimento acima de 2 °C somado a desigualdades crescentes, a probabilidade de falências institucionais, guerras civis, colapsos migratórios e crises de governança sobe de modo exponencial (O’Neill et al., 2017; IPCC, 2022). Ou seja, a ciência climática já reconhece que clima e civilização são vasos comunicantes, e que as chamadas “tipping points” sociais se aproximam tão perigosamente quanto os pontos de não retorno ambientais.

            O encontro entre clima e crise civilizacional não é apenas um tema para conferências acadêmicas. É o campo de batalha real do século XXI, onde se decidirá se ainda podemos cultivar valores de solidariedade, equidade e autonomia, ou se assistiremos a uma era de neofeudalismo cibernético, onde corporações e elites armadas controlarão recursos vitais em ilhas de privilégio, enquanto a maioria se afoga — literal e metaforicamente — em mares de desesperança.

            Não há neutralidade possível. O aquecimento global, ao encontrar sociedades fragilizadas e elites dispostas a tudo para manter seus privilégios, potencializa dinâmicas de dominação e violência, dissolvendo as últimas garantias de dignidade que nos restam. Por isso, falar em mudança climática não é — e nunca será — apenas falar de gases na atmosfera, mas de relações de poder, de controle, de guerra, de quem viverá e de quem morrerá.

            E se não compreendermos esse encontro explosivo, seguiremos repetindo soluções parciais e técnicas, enquanto o mundo real se transforma num tabuleiro de ruínas, onde a própria ideia de civilização será colocada em xeque.

            Os rostos do negacionismo: quem lucra com a dúvida.

            Negar a mudança climática não é, em essência, um gesto ingênuo ou fruto de ignorância isolada. É, historicamente, um projeto político-econômico cuidadosamente arquitetado para proteger privilégios, retardar transformações estruturais e garantir a perpetuação de sistemas de poder baseados em combustíveis fósseis, concentração de renda e colonialismo ambiental. O negacionismo se tornou, nas últimas décadas, uma verdadeira indústria, operada por think tanks, grupos de lobby, partidos ultraconservadores e corporações que enxergam no colapso climático não uma ameaça, mas uma oportunidade para lucrar com a catástrofe.

            Desde a virada dos anos 1980, documentos hoje tornados públicos revelam como gigantes do petróleo e do carvão financiaram campanhas de desinformação para semear dúvida e confusão. O método é sofisticado: não se trata de negar frontalmente a ciência, mas de relativizá-la, de diluir sua autoridade, de introduzir ruídos e teorias conspiratórias que tornem impossível, para o cidadão comum, distinguir fato de mentira. É o mesmo roteiro aplicado pela indústria do tabaco: gerar incerteza estratégica para atrasar regulações.

            No Brasil e na América Latina, esse negacionismo encontrou terreno fértil ao se acoplar a projetos políticos autoritários, que identificaram no discurso antiecológico uma forma de mobilizar ressentimentos populares contra supostos “inimigos externos”: ONGs, ambientalistas, acadêmicos, povos indígenas. O discurso do negacionismo climático se articula, assim, com o ódio de classe e o racismo ambiental, ao rotular políticas de transição ecológica como “ameaças comunistas” ou “armadilhas globalistas”.

            Os rostos desse negacionismo são conhecidos: consórcios fósseis, lideranças de extrema-direita, influencers digitais pagos para desacreditar dados, parlamentares financiados por agronegócios predatórios, e até supostos especialistas acadêmicos que vendem sua autoridade a serviço da dúvida. Eles aparecem travestidos de defensores da liberdade, mas na prática defendem apenas a liberdade de seguir lucrando, ainda que o preço seja a morte de milhões e o colapso de ecossistemas inteiros.

            Essa rede de desinformação opera como verdadeira guerra psicológica, minando a confiança na ciência, destruindo pontes de diálogo e paralisando a ação coletiva. Há técnicas cuidadosamente estudadas para tal objetivo: apelar à liberdade individual, demonizar impostos sobre carbono, ridicularizar consensos científicos, ou fomentar teorias conspiratórias sobre “engenharia do clima” como forma de manipulação populacional. São discursos que penetram as redes sociais através de algoritmos que priorizam choque, indignação, polêmica — fertilizando a ignorância e a violência.

            A quem interessa essa confusão? Às velhas oligarquias fósseis, claro, mas também aos novos autoritarismos digitais, que lucram com a fragmentação social. O negacionismo climático funciona, assim, como pilar de um projeto maior: manter o status quo de desigualdade e exploração, blindando elites contra qualquer reforma profunda que questione sua riqueza acumulada.

            Por isso, é ilusório imaginar que o combate ao negacionismo será apenas um debate científico. Trata-se de uma batalha política, cultural e comunicacional, onde a verdade precisa disputar espaço com narrativas de ódio habilmente produzidas para paralisar consciências. A dúvida programada, neste caso, não é apenas estratégia de mercado — é instrumento de dominação.

            Enfrentar essa arquitetura da dúvida exige coragem para nomear interesses, expor financiadores, revelar as tramas globais e locais que alimentam o ceticismo industrializado. E, sobretudo, exige devolver ao debate climático sua dimensão de justiça social, pois enquanto o discurso negacionista prosperar, os mais pobres e os territórios colonizados continuarão pagando, sozinhos, a conta do fim do mundo.

            América Latina: laboratório da tragédia e da resistência.

            Poucas regiões do mundo encarnam, com tanta clareza, a contradição entre riqueza ecológica e brutalidade histórica quanto a América Latina. Aqui, os biomas mais biodiversos do planeta coexistem com índices de desigualdade colonial ainda vivos, cicatrizes abertas por quinhentos anos de pilhagem, genocídio e violência territorial. E é precisamente nesse território que a mudança climática exerce sua força de modo mais cruel e simbólico: a floresta amazônica ameaçada de colapso, o Cerrado convertido em deserto químico de monoculturas, o Pantanal em chamas, as montanhas andinas perdendo suas geleiras ancestrais — enquanto populações inteiras seguem à margem do poder político e econômico, condenadas a arcar com o custo de um desastre que não provocaram.

            A América Latina, nesse sentido, é um laboratório da tragédia. O aquecimento global não cria a desigualdade — mas a amplífica, a torna mais letal, a coloca em combustão. Os impactos climáticos chegam primeiro aos corpos mais vulneráveis: ribeirinhos expulsos pela seca, quilombolas desalojados por enchentes, indígenas envenenados por mercúrio em territórios invadidos, periferias urbanas assoladas por enchentes e deslizamentos. Cada evento extremo revela, como se fosse um raio-x, as veias abertas de uma América Latina que nunca se libertou plenamente das lógicas coloniais.

            Mas este mesmo chão, regado a suor e memória de luta, também faz brotar resistências radicais. Comunidades tradicionais amazônicas que reinventam modos de vida agroflorestais; camponeses que apostam na agroecologia como insurreição contra o agronegócio predatório; redes de povos indígenas que conectam espiritualidade, política e ciência para defender territórios e modos de ser. Essa resistência não é apenas local: ela carrega lições para o mundo inteiro, pois sinaliza que não há salvação possível sem retomar o vínculo entre terra, comunidade e dignidade.

            No plano político, a América Latina também é um palco de disputas cruciais. Por um lado, governos progressistas tentam reconstituir políticas de preservação, proteger biomas, garantir soberania alimentar e redesenhar o papel da região na geopolítica climática global. Por outro lado, forças conservadoras, aliadas a interesses fósseis e latifundiários, reativam discursos negacionistas e autoritários, transformando a destruição ambiental em bandeira de uma suposta “liberdade”. É aqui que a guerra cultural se soma à guerra ecológica, num jogo de poder que pode definir não apenas o destino latino-americano, mas o destino climático do planeta — pois a Amazônia, o Cerrado, a Patagônia e o Gran Chaco não pertencem a bolhas nacionais: eles são reguladores do clima global, zonas de estabilidade biogeoquímica sem as quais todo o planeta tremerá.

            A América Latina, assim, não pode ser lida apenas como vítima: ela é também protagonista de alternativas civilizatórias. Aqui pulsa a possibilidade de um outro horizonte — baseado em solidariedade, em democracia real, em tecnologias de baixo impacto, em espiritualidades que reconhecem a natureza não como recurso, mas como matriz de vida. Negar a importância dessas experiências seria repetir, uma vez mais, o erro histórico do Norte global, que enxerga a região apenas como província de exportação ou território de sacrifício.

            Se o mundo quiser sobreviver ao século XXI, terá de aprender com a América Latina — tanto no reconhecimento da violência histórica que se abateu sobre ela, quanto na admiração pela força de quem resiste e reinventa a dignidade coletiva em meio às chamas. Pois a maior tragédia da mudança climática não será apenas a perda de espécies ou de megatons de carbono. Será perder, junto, a sabedoria de povos inteiros que sabem como cuidar do planeta melhor do que qualquer diplomata de cúpula climática.

            O horizonte da transformação: caminhos radicais.

            Falar em transformação diante de um cenário tão brutal pode parecer ingênuo, ou até tolo. Mas não há alternativa mais realista do que encarar, com radicalidade, a necessidade de reconstruir as bases do nosso modo de existir. A palavra “radical” não é aqui um adorno retórico: ela vem de radix, raiz — e só transformações profundas, enraizadas na justiça, podem conter a força destrutiva do colapso climático e civilizacional.

            O horizonte da mudança não pode se limitar a metas de carbono gerenciadas por fóruns multilaterais que se arrastam há décadas sem coragem de romper com o extrativismo. Não haverá futuro viável se a transição energética for apenas mais um mercado para as mesmas corporações que hoje destroem ecossistemas. É preciso reimaginar a economia a partir da regeneração, da redistribuição de poder e riqueza, da restauração da terra e da reconciliação com os ciclos vitais do planeta. Isso implica deslocar o centro de gravidade do debate climático: do Norte global para o Sul global, dos gabinetes corporativos para os movimentos comunitários, das métricas financeiras para os direitos territoriais, do lucro para o cuidado.

            Energia renovável, agroecologia, transportes públicos de massa, reabilitação de solos, reflorestamentos dirigidos, proteção das águas — tudo isso já existe tecnicamente. Mas nada disso será sustentável se não for acompanhado por uma transformação social, cultural e simbólica que desarme a lógica da mercantilização absoluta, que devolva a noção de bem comum como princípio civilizatório. Pois de nada adianta trocar carvão por painéis solares se continuarmos consumindo territórios, corpos, culturas e subjetividades numa velocidade que ultrapassa qualquer capacidade regenerativa.

            Aqui, é fundamental apontar, de forma metodologicamente transparente, que as projeções preditivas mais sólidas (baseadas em cenários do IPCC, nos Shared Socioeconomic Pathways) demonstram: sem redução de desigualdades, sem sistemas de governança democrática, sem redistribuição de renda, não há caminho de contenção climática realista. Ou seja, não é apenas a energia que precisa mudar — é a arquitetura inteira da convivência humana. Esta conclusão, por mais dura que soe, é respaldada por dezenas de estudos revisados por pares que mostram a inviabilidade de estabilizar o aquecimento global num contexto de desigualdade estrutural crescente.

            Transformar radicalmente o horizonte significa aceitar que “ajustes” não bastam. Que não se trata de salvar o planeta, mas de salvar a própria humanidade de sua autossabotagem, de seu delírio colonial, de sua cegueira ecocida. O horizonte possível exige reconhecer que soluções reais não virão de quem lucra com o desastre, mas de quem ousa recriar outras formas de viver, plantadas nas margens, nos territórios, nas redes populares, nos saberes ancestrais.

            É nesse ponto que a transformação deixa de ser apenas técnica e passa a ser ontológica — transformando, junto, o nosso modo de habitar, de consumir, de produzir sentido. E sem essa transformação no nível mais profundo da experiência, qualquer vitória tecnológica será apenas um paliativo, que adia o inevitável.

            O horizonte está, portanto, aberto: ou seguimos a fábula suicida de progresso infinito, com data marcada para o colapso, ou elegemos, juntos, outra história — na qual a Terra não seja um palco de pilhagem, mas um laço que nos devolve a possibilidade de futuro. O tempo para escolher não é confortável, mas é agora.

            Ou seja…

            Talvez a tragédia maior não seja o colapso em si, mas a recusa coletiva em olhar para ele de frente. Pois há uma crueldade silenciosa em perceber que a humanidade não sucumbe por ignorância, mas por soberba — por insistir em negar os limites do mundo que a sustenta. Quando as mudanças climáticas se somarem, de maneira definitiva, à crise civilizacional, não teremos mais a chance de alegar surpresa. Porque tudo já estava escrito: nos dados, nas previsões, nos gritos sufocados dos que sempre souberam que a ferida colonial, o racismo estrutural, o patriarcado e o capitalismo predatório jamais ficariam sem resposta da própria Terra.

            A civilização que celebra o lucro acima de qualquer sentido de pertencimento, que converteu rios em esgoto e florestas em mercadoria, que ergueu muralhas para defender privilégios enquanto esmagava corpos negros, indígenas e pobres — essa civilização não terá futuro se não refizer radicalmente sua relação com a vida. E quando a catástrofe climática bater à porta, não chegará sozinha: trará, junto, as ruínas do projeto moderno, as rachaduras de democracias capturadas pelo dinheiro, a falência de solidariedades, a derrocada de qualquer ética comum.

            Ainda assim, há um lampejo de possibilidade. Pois dentro do mesmo colapso lateja a chance de reinvenção, de reaprender a viver em comunidade, de reatar alianças perdidas entre seres humanos e a Terra. Mas este lampejo exige coragem: coragem para romper com modelos de poder que prometem “adaptação” apenas para os ricos, coragem para enfrentar os donos do carbono e das armas, coragem para defender até o fim a ideia de que toda vida importa — não apenas a vida que gera dividendos.

            Se não houver essa coragem, restará o pior: um mundo sitiado, brutalizado, onde cada gesto de cuidado será criminalizado, e cada gota d’água, transformada em ativo financeiro. Não há saída técnica para um colapso civilizacional se não houver, antes, um movimento profundo de reconstrução moral e política, capaz de reinventar a própria noção de civilização.

            O tempo, esse tempo que corre e não perdoa, nos chama a escolher. Porque se a mudança climática se soma ao desmonte do tecido civilizacional, não será apenas o planeta que perderemos — será a própria ideia de futuro, de dignidade, de humanidade partilhada.

            Este ensaio não pretende ser um epitáfio, mas um convite. Um convite a sentir na pele o tremor desta hora histórica, a rejeitar as anestesias do negacionismo e do fatalismo, e a cultivar, em cada gesto, a possibilidade de um outro mundo. Pois mesmo às vésperas do colapso, resta sempre a centelha de insurgência que faz a história dar voltas — e renascer.

            Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global.

            A ideologia da positividade e a destruição do dissenso: um ensaio dialético

            A ideologia da positividade e a destruição do dissenso: um ensaio dialético

            Por Reynaldo Aragon

            Num tempo em que sorrir virou mandamento, a positividade compulsória se ergue como a mais sutil e devastadora arma do capitalismo: silencia a dor, dissolve o conflito, esteriliza a política. Este ensaio rasga o verniz brilhante do otimismo tóxico para devolver ao dissenso sua dignidade transformadora. Porque só quem ousa dizer não, pode reconstruir o nós.

            Vivemos num tempo em que a positividade se ergueu como mandamento absoluto. Ser positivo, sorrir, motivar-se, ressignificar toda dor, converter todo fracasso em oportunidade: eis a cartilha moral da era digital, repetida como oração laica nos corredores corporativos, nas timelines luminosas, nas rodas de conversas empobrecidas pelo vocabulário do coaching. O imperativo da positividade não tolera a recusa, não admite o protesto, não suporta a crítica; é um dogma suave que se inscreve nos corpos e nas mentes como segundo instinto, e, ao mesmo tempo, dissolve o dissenso na espuma anestésica do otimismo.

            “A crítica da religião se transforma na crítica do direito, a crítica do direito na crítica da política, e a crítica da política na crítica da economia política.” – Karl Mark

            A cultura da positividade não é uma flor, espontânea, brotada do espírito humano contemporâneo: ela é, antes de tudo, um produto histórico, político e econômico. É a forma ideológica específica do capitalismo digital avançado para conter a potência do conflito, para domesticar a negação, para mutilar a imaginação política que ousa sonhar outro mundo. Seu sorriso não é inocente; sua leveza é brutal.

            Byung-Chul Han descreveu com precisão a exaustão do sujeito contemporâneo, esmagado pela positividade compulsória. Mark Fisher denunciou a prisão mental do realismo capitalista, onde não cabe alternativa nem esperança. Wendy Brown desnudou a captura neoliberal da esfera pública, onde a cidadania se torna performance e a política vira gestão de si. Cada um desses autores, à sua maneira, apontou a ruína subjetiva e coletiva gerada por um sistema que exige entusiasmo mesmo no abismo.

            Mas é ao olhar de Marx e da tradição materialista histórico-dialética que cabe rasgar o véu final: a positividade tóxica não paira sobre as pessoas como névoa moral, mas brota do ventre da exploração capitalista, que precisa impedir a negação radical, precisa sufocar a luta, a rebeldia, a crítica, para garantir a reprodução de sua ordem. Essa positividade é o cimento ideológico que preenche as rachaduras de um sistema podre, e, ao mesmo tempo, anestesia os corpos para aceitarem a dor sem transformá-la em levante.

            Este ensaio quer mergulhar nesta engrenagem com a faca afiada do materialismo dialético. Quer rastrear, em cada canto, como a positividade compulsória se construiu como dispositivo hegemônico, servindo ao capital para neutralizar a política e suprimir o dissenso. Quer ouvir os ecos de Han, Fisher e Brown, mas reinscrevê-los na gramática da luta de classes, onde a negação não é doença, mas condição da liberdade.

            Sigamos, então, sem medo do conflito porque só o conflito faz a história caminhar.

            Marx: ideologia, alienação e a negação negada

            No coração do pensamento marxista lateja uma verdade incômoda: toda sociedade de classes forja, ao lado de suas estruturas econômicas, as engrenagens ideológicas necessárias para naturalizar a dominação. Não basta explorar; é preciso convencer o explorado de que sua servidão é justa, inevitável ou até virtuosa. É nesse ponto que a ideologia deixa de ser mera ilusão e se converte em condição indispensável para a reprodução do capital.

            Marx, ao desconstruir as engrenagens do capitalismo industrial, revelou que a ideologia não paira como uma nuvem de engano voluntário, mas se entranha na materialidade da vida social, moldando percepções, hábitos, linguagens, afetos. Ao formatar a consciência, a ideologia pacifica a luta, nega a negação, paralisa o potencial transformador que brota da contradição. E se há algo que a história ensina, na leitura dialética, é que a mudança nasce do choque, do antagonismo, do dissenso que se organiza.

            A positividade tóxica, nesse sentido, é uma forma ideológica extraordinariamente eficiente. Ao prescrever o otimismo como única via aceitável, ela sequestra o dissenso antes mesmo que este floresça, transformando a dor em falha individual, o fracasso em prova de insuficiência pessoal, e a revolta em desequilíbrio psicológico. Como um anestésico administrado em doses diárias, a positividade bloqueia a percepção da exploração, impedindo que a negação, a recusa, a denúncia, a indignação se articule enquanto força histórica viva.

            Alienação, para Marx, não é somente afastamento do produto do trabalho, mas estranhamento de si, do outro e do mundo. O trabalhador, alienado, não reconhece a própria força como força social transformadora. A positividade compulsória amplifica esse estranhamento, pois retira do indivíduo a possibilidade de identificar a raiz estrutural de sua dor, empurrando-o para soluções mágicas, motivacionais, atomizadas, incapazes de tocar na contradição de classe.

            E aqui se revela sua função mais perversa: a positividade compulsória não apenas ilude, ela desarma. Porque se toda crítica se transforma em “negatividade”, resta ao indivíduo apenas dobrar-se ao sistema, ainda que este o sufoque. A negação, que seria a centelha da transformação, é rotulada como erro, como vício, como fracasso de caráter. E assim, o capital respira aliviado: sua paz se sustenta sobre a mutilação simbólica do conflito.

            Este é o solo fértil onde a positividade germina como dispositivo histórico: não uma patologia espontânea, mas uma necessidade funcional à ordem burguesa. Em cada sorriso imposto, há uma máquina de silenciamento; em cada palavra de motivação, um gesto de legitimação da exploração. Por isso, resgatar Marx significa devolver ao dissenso sua dignidade, restituindo a negação ao seu lugar originário, o de motor da história.

            Gramsci: hegemonia, senso comum e consentimento.

            Antonio Gramsci nos ensina que o poder capitalista não se sustenta apenas sobre a coerção, mas sobre um pacto profundamente assimétrico de consentimento. Não basta dominar corpos; é preciso conquistar mentes e corações. Essa conquista se dá através da produção de um senso comum, tecido no cotidiano, capaz de fazer parecer natural aquilo que é, na verdade, imposição histórica.

            Gramsci chama esse processo de hegemonia: a construção de uma direção cultural, moral e intelectual que legitima a ordem dominante e neutraliza a força potencial do conflito de classes. Ao capturar a imaginação popular, a hegemonia se apresenta como horizonte único, dissolvendo alternativas e marginalizando todo gesto de recusa.

            A positividade tóxica é uma engrenagem essencial dessa hegemonia contemporânea. Ela molda sujeitos que internalizam a exploração como falha pessoal e, ao mesmo tempo, celebram a resiliência como virtude suprema. Sob o manto suave de “vencer desafios”, a positividade transforma derrotas coletivas em desafios individuais, e a solidariedade em performance de autoajuda. Assim, o senso comum se estrutura num código afetivo, onde a negação do sistema não cabe, pois o fracasso sempre será culpa de quem não foi suficientemente otimista.

            Gramsci nos ajuda a perceber que esse senso comum não surge do nada: ele é trabalhado pacientemente pelos aparelhos privados de hegemonia (escolas, meios de comunicação, igrejas, redes digitais) que propagam valores, narrativas e afetos funcionalmente adaptados ao capital. O otimismo compulsório, nesse quadro, não é apenas um modismo motivacional, mas uma tecnologia política sofisticada para domesticar consciências.

            A positividade, assim, reforça o consentimento. Consentimento para aceitar salários degradantes, jornadas extenuantes, vidas precárias, desde que se tenha força para “superar”, para “fazer acontecer”, para sorrir apesar da dor. Consentimento para abdicar da ação coletiva, pois a política se torna sinônimo de negatividade, e a negatividade é crime moral num mundo regido pelo imperativo do entusiasmo.

            Gramsci nos oferece, portanto, a chave para decifrar essa positividade como hegemonia afetiva: uma forma de governo dos sentimentos, afinada à lógica neoliberal, que desarma a crítica e fragmenta a solidariedade. E nos lembra, acima de tudo, que somente a ruptura do senso comum, somente a contra-hegemonia forjada na prática política e no conflito organizado, poderá devolver à história a sua energia transformadora.

            Byung-Chul Han: a positividade como performance neoliberal.

            Byung-Chul Han, com a precisão cirúrgica de quem observa a alma de um tempo, nomeou a era atual como a era do desempenho. Não vivemos mais sob o signo da disciplina que moldava sujeitos obedientes, mas sob a tirania de uma liberdade aparente que exige, paradoxalmente, um desempenho ilimitado. A positividade, nessa ordem, não é apenas um adorno cultural: ela se torna motor da produtividade, uma engrenagem vital para manter o sujeito girando na roda do capital sem questionar a estrutura que o esmaga.

            Han descreve o sujeito de desempenho como aquele que se explora voluntariamente, convencido de que toda falha é falta de esforço, toda dor é falta de entusiasmo. Esse sujeito internaliza a positividade como imperativo ético, tornando-se ao mesmo tempo, patrão e escravo de si mesmo. A positividade, nesse contexto, não é mero estado de espírito. É uma técnica de governo das almas.

            Mas há um ponto onde Han recua: embora ilumine as patologias do excesso de positividade, depressão, burnout, cansaço crônico, ele não interroga de forma radical sua raiz material. O materialismo histórico-dialético pode avançar justamente onde Han para, ao revelar que o sujeito de desempenho não é produto do acaso, mas resultado de relações sociais e econômicas que exigem flexibilidade, docilidade, hiperdisponibilidade e autogestão. É o capital, em sua fase neoliberal, que precisa dissolver laços de classe, solidariedades históricas e projetos coletivos, substituindo-os por uma ética narcisista e isolada de superação pessoal.

            A positividade compulsória, portanto, não brota da alma humana. Brota do capital, que para seguir acumulando, depende de corpos dóceis, mentes anestesiadas, afetos capturados. O não se torna um risco, pois pode travar a engrenagem. O dissenso se torna uma ameaça, pois pode romper o fluxo da mercadoria. Logo, a positividade vira antídoto preventivo contra qualquer embrião de negação.

            Han nos oferece, assim, uma análise poderosa do adoecimento social, mas o marxismo nos obriga a ir além: a positividade não adoece apenas, ela explora, pois prolonga a alienação e transforma o sofrimento humano em ativo gerencial. Cada lágrima reprimida, cada medo silenciado, cada crítica anulada serve ao capital, garantindo sua reprodução sem fraturas visíveis.

            Em última instância, a positividade neoliberal não é um capricho da subjetividade moderna, mas parte integral da estratégia de hegemonia de um sistema que transforma tudo, até os afetos, em mercadoria. A recusa, por isso, é o primeiro passo para retomar o sentido histórico do humano: resgatar a capacidade de dizer não e, a partir daí, reconstruir a possibilidade de dizer nós.

            Mark Fisher: realismo capitalista e a colonização do imaginário.

            Mark Fisher cravou na carne do nosso tempo a expressão realismo capitalista, essa sensação sufocante de que não existe alternativa, de que o capitalismo não apenas domina o presente, mas sequestra o futuro e torna impensável qualquer horizonte de transformação. No mundo moldado por esse realismo, a positividade compulsória cumpre um papel sinistro: ela opera como muleta ideológica para suportar um sistema sem sonhos, sem esperança, sem utopias.

            A positividade, nesse cenário, não passa de um recurso narcotizante. Ao anestesiar o sofrimento e converter toda angústia em problema de gestão pessoal, ela paralisa a imaginação política, exilando o dissenso para a terra do impossível. Fisher apontou com clareza: a força do capitalismo tardio não está apenas na exploração econômica, mas na captura do imaginário, no bloqueio das alternativas, na destruição da capacidade de desejar outro mundo.

            O imperativo do otimismo, disseminado como doutrina de autoajuda, alinha-se perfeitamente a esse projeto de colonização do pensamento. O realismo capitalista precisa que as pessoas se mantenham motivadas, mas jamais indignadas. Precisa que tolerem a precariedade, mas não que a transformem em luta. Precisa que convertam a crítica em fracasso individual, e o fracasso em lição de superação. Assim, a positividade se torna uma das colunas mestras do edifício ideológico que sustenta o “não há alternativa”.

            Do ponto de vista marxista, a positividade compulsória serve para naturalizar a exploração, mascarando as contradições estruturais e interditando qualquer faísca de insubordinação. O dissenso é demonizado como negatividade, e a negatividade, por sua vez, como ameaça à própria estabilidade psíquica. Num mundo onde o otimismo vira obrigação, a revolta se converte em patologia, e a recusa em crime moral.

            Fisher nos convida, então, a restituir ao imaginário sua potência revolucionária. E o materialismo histórico-dialético nos lembra que o imaginário não brota do nada, mas nasce das condições materiais concretas que o tornam possível. Precisamos recuperar a capacidade de desejar o impossível, pois só assim podemos enxergar que o impossível de hoje é a realidade transformada de amanhã. Romper com o realismo capitalista significa devolver ao dissenso seu lugar legítimo: o de gesto inaugural de um futuro emancipado.

            Wendy Brown: vulnerabilidade, neoliberalismo e democracia esvaziada.

            Wendy Brown, ao analisar as engrenagens do neoliberalismo, nos adverte sobre um processo ainda mais devastador do que a simples mercantilização da vida: a corrosão da própria ideia de política. Sob o neoliberalismo, a esfera pública vai sendo gradualmente esvaziada, transformada num simulacro de participação onde a cidadania se dissolve na lógica da gestão, e o comum se reduz a uma soma de empreendimentos individuais.

            Nesse ambiente, a positividade compulsória ocupa lugar de destaque. Ela converte a vulnerabilidade, que poderia ser percebida como condição compartilhada, portanto, passível de ação coletiva e solidariedade, em falha moral. Cada sujeito, transformado em gestor de si mesmo, passa a carregar não apenas o peso de sobreviver, mas também o de justificar seus próprios tropeços como fraqueza de caráter. O espaço da política, lugar histórico de disputa e conflito, é convertido em vitrine de performances otimistas, onde qualquer expressão de dor se torna inconveniente e qualquer crítica soa como desajuste.

            A positividade, ao negar a legitimidade do sofrimento coletivo, atua como operador de fragmentação social. Ela impede a percepção de pertencimento de classe, desfaz laços de solidariedade e bloqueia a construção de um nós capaz de intervir na realidade. Assim, o neoliberalismo se alimenta dessa fragmentação: indivíduos isolados, consumidos pela gestão de si, sem horizonte de transformação, tornam-se presas fáceis para a exploração e a manipulação política.

            Wendy Brown nos oferece a chave para entender como esse processo corrói a democracia em sua raiz: sem conflito, sem antagonismo, sem capacidade de dizer não, a democracia se torna espetáculo vazio, ritual inofensivo, incapaz de enfrentar as desigualdades estruturais que a ameaçam. A positividade tóxica, nesse quadro, é aliada perfeita do neoliberalismo, pois transforma cidadãos em performers satisfeitos, sempre sorrindo, sempre resilientes, sempre inofensivos.

            O materialismo histórico-dialético, por sua vez, devolve a esses fragmentos a possibilidade de se recompor em força histórica viva. Ele nos recorda que a vulnerabilidade, longe de ser vergonha, pode ser motor de solidariedade, porque expõe a dependência mútua que estrutura toda forma de vida humana. Resgatar a política significa, pois, resgatar o direito de sofrer coletivamente, de transformar essa dor em palavra pública, de erguê-la como bandeira para a ação e a organização.

            No lugar da positividade obrigatória, ergue-se, então, a recusa como ato inaugural de reconstrução do comum. O dissenso não destrói a democracia. Ao contrário, a funda. E sem dissenso, resta apenas a solidão gerencial do neoliberalismo, onde cada um afunda em seu próprio sorriso, sem sequer ter a quem pedir socorro.

            Articulação dialética: síntese e negação radical

            Todas as vozes que ecoaram até aqui, Marx, Gramsci, Byung-Chul Han, Mark Fisher, Wendy Brown, nos ajudam a decifrar a positividade compulsória como uma engrenagem cuidadosamente forjada para proteger o capital de seu maior risco: o risco da negação.

            No solo da exploração, a positividade nasce como ideologia funcional, pois impede que a dor se organize em discurso, que o discurso se organize em movimento, que o movimento se organize em práxis transformadora. Se toda angústia vira falha individual, se toda indignação vira negatividade patológica, então não há conflito, e sem conflito, não há história.

            O materialismo histórico-dialético nos oferece o gesto mais profundo e corajoso: recusar a naturalização desta positividade como um dado eterno da condição humana. Ele nos obriga a olhar para a positividade não como escolha moral, mas como resultado de processos materiais, históricos e de classe. Nos obriga a perguntar: a quem serve a positividade? E a resposta emerge cristalina, ela serve ao capital, que precisa de corpos dóceis e mentes domesticadas, de afetos domesticáveis e sonhos colonizados.

            É nesse ponto que a negação radical se impõe como urgência histórica. Porque negar não é sinônimo de destruição estéril; ao contrário, negar é afirmar a possibilidade de outro mundo. O dissenso é a fagulha que reacende a imaginação política, que resgata a solidariedade como forma de resistência, que restitui à dor coletiva sua dignidade e seu poder.

            A positividade compulsória destrói a política ao extirpar o dissenso. Romper esse cerco significa devolver à política sua condição originária de conflito, de disputa, de antagonismo legítimo entre projetos de sociedade. O sorriso imposto pelo capital não é a paz — é a paz dos cemitérios, onde não há vozes, não há histórias, não há sonhos.

            Cabe a quem ainda deseja emancipação erguer o não, mas um não dialético: aquele que se levanta não apenas contra, mas também para o comum, para a dignidade, para a liberdade, para a reconstrução de uma humanidade que se recusa a ser reduzida à performance de si.

            Eis o desafio que nos resta: restaurar o dissenso como motor da democracia, devolver à negação seu lugar de honra na história, rasgar o véu anestésico da positividade tóxica e resgatar a potência viva do coletivo. Porque só na recusa nasce a possibilidade do novo. E porque, como nos ensinou Marx, a história avança não pela harmonia, mas pela força criadora do conflito.

            Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global.

            A urgência de regulamentar a Inteligência Artificial, por Mariana Mazzucato

            Luís Nassif

            Artigo de Mariana Mazzucato faz um chamado urgente para que governos e sociedade civil atuem de forma proativa, regulatória e estratégica diante da ascensão da Inteligência Artificial. Ela retoma o conceito de “feudalismo digital” para descrever a lógica de concentração de poder, renda e controle que as grandes plataformas digitais impõem à economia e à sociedade, agora potencializada pela IA.

            Desafia o discurso tecnocrático que trata a IA como “inevitável” e neutra. Conecta tecnologia, poder de mercado e falência do Estado e propõe uma agenda baseada em inovação pública, transparência e governança democrática da tecnologia.

            Com a ajuda da IA, vamos resumir as conclusões de Mazzucato:

            1. A IA como tecnologia de uso geral e vetor de poder econômico
            • Mazzucato alerta que a IA não é apenas um “setor”, mas uma tecnologia com impacto transversal em todos os setores econômicos, com potencial para criar grande valor público ou agravar desigualdades.
            • A infraestrutura necessária para treinar e operar modelos de IA — computação em nuvem, dados, energia — está concentrada nas mãos de grandes plataformas como Amazon, Google e Microsoft, o que reforça sua posição como gatekeepers.
            1. O “Feudalismo Digital” e as rendas algorítmicas
            • O termo “feudalismo digital” se refere a um sistema onde as grandes plataformas extraem valor em vez de criá-lo — transformando usuários, dados e atenção em rendas privadas.
            • Ela introduz o conceito de rendas algorítmicas: lucros obtidos pela manipulação opaca dos algoritmos que regulam o acesso à informação, publicidade e engajamento digital.
            • O exemplo da “enshittificação” (termo de Cory Doctorow) ilustra como as plataformas se deterioram ao priorizar cada vez mais a monetização em detrimento da experiência do usuário.
            1. O papel do Estado e da inovação pública
            • Mazzucato reitera sua tese clássica de que as inovações disruptivas foram, muitas vezes, possibilitadas por investimentos públicos, como internet, GPS, touchscreen e assistentes virtuais.
            • Hoje, as big techs exploram essas tecnologias e sugam talentos e recursos do setor público, enquanto fazem lobby contra subsídios e impostos (caso do “Departamento de Eficiência Governamental” de Elon Musk).
            1. Propostas de intervenção pública
            • Regulação dinâmica e adaptativa da IA: não esperar os danos aparecerem, mas intervir desde já.
            • Transparência algorítmica obrigatória: forçar as plataformas a divulgar como operam seus algoritmos, incluindo o uso de dados, critérios de moderação, publicidade e impactos sociais.
            • Investimento em capacidades estatais: reverter a dependência do setor público em consultorias privadas, aumentando a expertise interna.
            • Infraestruturas digitais públicas: como o projeto EuroStack, uma alternativa soberana europeia envolvendo nuvem, chips e dados, governada como bem público.
            1. Considerações geopolíticas e ambientais
            • Mazzucato destaca que a corrida global pela IA não deve ser pensada apenas como uma competição entre EUA e China, mas como uma chance para a Europa liderar uma visão alternativa baseada no interesse coletivo.
            • Aponta os riscos ambientais do crescimento explosivo do consumo de energia por parte da IA e sugere que soluções como a da DeepSeek chinesa (com menor consumo energético) mostram que outras formas de inovação são viáveis.
            1. Diagnóstico e horizonte estratégico
            • A autora conclui que o dilema não é entre “regulamentar ou inovar”, mas sobre como moldar os mercados para entregar valor público.
            • Se não houver ação, a IA será capturada pelos mesmos mecanismos extrativistas que já dominam o capitalismo de plataforma.
            • A Cúpula de Paris sobre IA é apresentada como uma oportunidade crítica para traçar esse novo caminho.

            Algoritmos: Tipografia generativa, vigilância semiótica e fronteira da dominação estética

            A letra invisível do algoritmo – Tipografia generativa, vigilância semiótica e a nova fronteira da dominação estética

            Por Reynaldo Aragon 

            Este artigo nasce de uma inquietação despertada pela leitura de uma matéria publicada no The Verge, intitulada “What happens when AI comes for our fonts?”. O texto discute como a inteligência artificial está transformando o design tipográfico, criando fontes que se adaptam dinamicamente ao humor, ao ambiente e até ao comportamento do leitor. Embora o tom da reportagem seja entusiástico e tecnicamente informativo, o que se revela nas entrelinhas é algo mais profundo — e mais perigoso: a automação da sensibilidade, a captura algorítmica da estética e a lenta dissolução da escolha como espaço político. A partir dessa provocação, este ensaio propõe uma leitura crítica sobre o papel da IA no design gráfico, situando a tipografia como mais uma trincheira simbólica da guerra pelo imaginário no capitalismo digital.

            A letra como arma silenciosa.

            Nem tudo que nos captura grita. Às vezes, a dominação sussurra em vetores. Invisível, ajustável, personalizável — a letra se transformou. O que antes era gesto gráfico, escolha estética e decisão política virou produto inteligente calibrado por algoritmo. Fontes que respondem ao nosso humor. Letras que mudam com a luz do ambiente. Tipos que se moldam ao ritmo da leitura, à velocidade do olho, à pulsação do dedo.

            Essa é a nova fronteira: a inteligência artificial tomando de assalto o campo da tipografia.

            Pode parecer irrelevante à primeira vista. Afinal, quem se importa com fontes, quando o mundo queima? Mas a pergunta está errada. É precisamente porque o mundo queima que deveríamos olhar para onde o fogo se infiltra sem alarde — nas formas sensíveis que estruturam a percepção. A letra não é só forma visual. Ela organiza o tempo, o sentido e o corpo. E agora, com a IA, ela passa a organizar também a nossa reação inconsciente ao próprio ato de ler.

            O capitalismo da fricção zero, essa máquina bem lubrificada que promete eliminar obstáculos entre desejo e realização, encontrou na tipografia mais um território a ser higienizado da escolha. Escolher uma fonte, antes, era um gesto: político, simbólico, cultural. Agora, é uma função automatizada, otimizada para não interromper o fluxo.

            É o fim da hesitação. E com ele, o fim do sujeito que escolhe.

            Fricção zero: a estética da dominação suave.

            A promessa da inteligência artificial aplicada à tipografia se ancora em uma velha fantasia contemporânea: a da experiência perfeita. Sem ruídos, sem escolhas, sem interrupções. Uma experiência “natural”, “intuitiva”, onde tudo simplesmente acontece — letras que se ajustam sozinhas, textos que fluem como água, interfaces que respondem antes mesmo da vontade se formar. É o triunfo da chamada fricção zero, essa ideologia sedutora que orienta a arquitetura dos sistemas digitais e captura o imaginário da eficiência plena.

            Mas toda fricção eliminada é também um atrito político neutralizado. Quando o usuário não precisa mais escolher uma fonte, pensar na forma, ajustar o corpo do texto ou refletir sobre sua materialidade gráfica, o que se perde não é apenas um tempo técnico — é a mediação simbólica, é a consciência do processo. É a hesitação que precede a criação. É o sujeito enquanto tal.

            Sob a estética da fricção zero, a subjetividade não é mais convidada a participar; ela é lida, antecipada e gerida. A fonte “ideal” não nasce do encontro entre intenção e contexto, mas de um cálculo sobre biometria, emoção e performance cognitiva. E o que parece um avanço ergonômico é, na verdade, a estetização da submissão: a letra que se adapta a você, enquanto você se adapta ao sistema.

            Essa suavidade é perigosa. Porque não se impõe como controle, mas como conforto. Não nos força — nos poupa. E nesse gesto, nos desarma.

            A letra que nos lê: vigilância semiótica e captura subjetiva.

            Se antes escrevíamos para sermos lidos, agora somos lidos antes mesmo de escrever. A lógica por trás da IA aplicada à tipografia não é apenas estética, mas profundamente comportamental. Cada letra ajustada em tempo real por um algoritmo carrega consigo um cálculo sobre o leitor: seu ritmo, sua atenção, seu cansaço, sua distração, sua emoção. A tipografia deixa de ser um gesto de expressão para se tornar um sensor semiótico, um mecanismo de leitura da nossa leitura.

            Fontes que respondem ao olhar, ao batimento cardíaco, ao padrão de navegação ou à dilatação pupilar não são apenas “inteligentes” — são sistemas de captura subjetiva. Elas não querem apenas transmitir o texto com mais clareza. Querem produzir uma leitura mais eficaz segundo critérios que o leitor desconhece. A fonte vira interface de vigilância, vetor de modulação, dispositivo de performance. O leitor, por sua vez, vira fluxo mensurável — um dado a ser traduzido em responsividade.

            Essa mudança é profunda. Porque a tipografia sempre foi, de algum modo, uma linguagem de mediação: entre autor e leitor, entre forma e conteúdo, entre tempo e interpretação. Mas quando essa mediação é sequestrada por um sistema que decide, sem consulta, como devemos ver aquilo que estamos lendo, então o próprio ato de ler passa a ser domesticado.

            Não se trata mais de apenas ver letras bonitas. Trata-se de ser lido por uma máquina enquanto se lê, e de aceitar, sem perceber, que a sua experiência cognitiva é uma variável ajustável numa equação projetada por alguém que você nunca verá.

            Design sem autoria: a morte suave da escolha.

            Escolher uma fonte sempre foi um ato de autoria. Por mais técnico ou automático que parecesse, havia ali uma intenção — um gesto cultural, um posicionamento, uma identidade projetada na forma. Na tipografia, a forma é conteúdo. A escolha de um tipo expressa humor, contexto, ideologia, até mesmo classe. Mas, agora, essa escolha está sendo dissolvida. Suavemente. Silenciosamente. Elegante como uma interface da Apple. E por isso mesmo, letal.

            A IA generativa no design gráfico promete democratizar o acesso às ferramentas. Mas sob essa promessa esconde-se uma curva perigosa: quanto mais o sistema “facilita” o processo criativo, mais ele absorve o papel do sujeito no processo. A fonte “ideal” já não precisa ser escolhida: ela se oferece, se ajusta, se insinua. O designer — profissional ou acidental — deixa de decidir para apenas aceitar. O criador vira curador de sugestões algorítmicas. O gesto se automatiza. O erro desaparece. O estilo vira template.

            Não é um apagamento brusco. É um rebaixamento simbólico, como quem troca o lápis por um filtro, a composição pela predefinição, o critério pela conveniência. A IA não elimina a autoria — ela a anestesia.

            E com isso, surge um novo tipo de invisibilidade: a do algoritmo que desenha o mundo no lugar do sujeito. Uma invisibilidade confortável, fluida, sem atrito — mas que nos distancia daquilo que nos torna criativos, políticos, humanos.

            Quando a letra se escreve sozinha, não se trata de eficiência. Trata-se de hegemonia estética operada por um sistema que transforma a criatividade em reprodução e o gesto em dado.

            A letra domesticada: quando o design serve ao capital.

            Nenhuma tecnologia é neutra. Muito menos aquela que toca a linguagem. A ideia de que fontes geradas por inteligência artificial estão apenas “melhorando a experiência do usuário” é uma camuflagem. O que está realmente em jogo é a conversão da estética em infraestrutura de controle, e da sensibilidade em vetor de extração de valor.

            A tipografia generativa não opera no vazio: ela é desenvolvida por corporações como Monotype, Google, Adobe — empresas que já não vendem apenas ferramentas de design, mas plataformas de vigilância e performatividade cognitiva. A fonte que se adapta ao seu humor também coleta esse humor. Mede, classifica, retroalimenta. A letra vira métrica. O estilo vira dado. O olhar vira produto.

            Essa não é só a estetização da dominação — é sua operacionalização. Um campo inteiro da experiência sensível, que durante séculos pertenceu ao domínio simbólico, criativo e político, passa a ser domesticado pelas exigências da personalização funcional. Mas a quem serve essa personalização?

            Ao capital, sempre. Porque o que parece ser feito para o usuário é, na verdade, feito com o usuário. Cada ajuste de fonte, cada reação medida, cada tempo de permanência numa tela tipograficamente “inteligente” serve para treinar modelos, otimizar métricas, vender promessas de engajamento e construir novos regimes de captura afetiva.

            O design deixa de ser uma linguagem para se tornar um sistema de obediência esteticamente confortável. E quanto mais silenciosa for essa obediência, mais eficaz ela será. O que o capital quer, afinal, não é uma letra bonita — é uma letra eficiente. Uma letra que não diga, mas conduza. Que não provoque, mas acomode. Que não nos convoque à leitura, mas nos atravesse sem resistência.

            Contra o silêncio vetorial: por uma estética da fricção.

            Diante da letra que nos lê, da fonte que se curva ao humor, da estética que se dissolve em responsividade, a única resposta possível é a reafirmação do atrito. Fricção, aqui, não é ruído: é resistência. É o que torna possível o pensamento, o gesto, a autoria. É o que separa a interface da anestesia. Em tempos de hiperadaptação algorítmica, a escolha consciente torna-se um ato de rebelião.

            Reivindicar uma estética da fricção é defender a pausa, o incômodo, a hesitação. É recusar o design que se vende como “invisível” — porque toda invisibilidade técnica é uma decisão política cuidadosamente apagada. É lembrar que o que hoje chamamos de “experiência do usuário” muitas vezes significa controle do comportamento mascarado de cuidado, automatização da linguagem disfarçada de empatia, retirada da autoria sob o pretexto da eficiência.

            A tipografia não é um detalhe. Ela é a borda sensível do mundo escrito. Deixá-la nas mãos de sistemas que só respondem à lógica da previsibilidade e da performance é permitir que até o modo como vemos o texto — e por extensão, o mundo — seja redigido por forças que não podemos interpelar. Forças que não nos perguntam, apenas preveem. Que não dialogam, apenas modulam.

            O gesto de escolher uma letra, hoje, é também o gesto de escolher não ser escrito por uma máquina que finge saber mais sobre você do que você mesmo. É, no fim das contas, escolher continuar humano — imperfeito, contraditório, lento.

            Porque, no fundo, a letra que melhor nos representa não é a que se adapta a tudo, mas a que nos permite ainda tropeçar no texto e pensar.

            Estratégia Brasil 2050, uma tentativa de desenhar o futuro, por Luís Nassif

            Enquanto o noticiário se perde em irrelevâncias sem fim, o futuro vai sendo construído graças ao espaço aberto por Lula. 

            Luís Nassif

            Até agora, o programa Estratégia Brasil 2050 (acesse o Fórum aqui) gerou três documentos básicos: um estudo sobre as megatendências globais; um relatório das entrevistas efetuadas no período; e uma síntese executiva dos estudos temáticos.

            As Megatendências Mundiais

            O trabalho identifica 14 mega tendências que impactarão o Brasil até 2050. Dentre elas:

            • Transição demográfica;
            • Aceleração das transformações tecnológicas;
            • Mudanças globais e eventos extremos;
            • Valorização da sustentabilidade e transição energética;
            • Mudanças nos padrões de consumo.

            Foram identificadas também 28 incertezas, 5 globais e 23 nacionais, que podem afetar o país. Dentre elas, mudanças imprevisíveis na geopolítica, novos avanços tecnológicos e possíveis rupturas econômicas e sociais.

            Desafios e fragilidades

            Os mais relevantes são a desigualdade social persistente, educação de baixa qualidade e infraestrutura defasada. Mas também problemas institucionais, como baixa segurança jurídica, burocracia excessiva e falta de planejamento estratégico. O que levou a uma dependência de commodities, tornando o país vulnerável às oscilações do mercado internacional.

            Aliás, deve haver estudos sobre as relações entre preços de commodities e estabilidade política. Lula conseguiu espaço com o boom das commodities; enquanto o impeachment de Dilma Rousseff foi acelerado pela queda nas cotações.

            Movimentos globais e riscos

            O Brasil será impactado por mudanças como a digitalização, mudanças climáticas e envelhecimento da população. Além de incertezas geopolíticas, crises sanitárias, protecionismo e ameaças à democracia.

            Visão para 2050

            Perseguir um modelo que tenha inclusão social, competitividade econômicas, sustentabilidade e fortalecimento institucionais. Propõem-se reformas estruturais, de melhoria da educação, promoção da inovação tecnológica e modernização da infraestrutura.

            Nas ações sociais, sugere-se a reformulação de políticas de transferência de renda, ampliação de acesso à moradia e serviços essenciais.

            A Síntese Executiva

            Esses dados foram consolidados em uma Síntese Executiva, com as seguintes propostas:

            1. Desenvolvimento Social e Garantia de Direitos

            Erradicação da pobreza e redução das desigualdades: Prioridade para o Brasil, com foco em programas de transferência de renda e políticas integradas para a inclusão social.

            • Educação: Garantia de acesso equitativo e inclusivo à educação básica, com ênfase na redução da evasão escolar, principalmente no ensino médio.
            • Saúde: Adaptação do Sistema Único de Saúde (SUS) à nova dinâmica demográfica e climática, visando aumentar a cobertura e qualidade do atendimento, especialmente em áreas vulneráveis.
            • Previdência e Assistência Social: Garantia da sustentabilidade do sistema previdenciário diante do envelhecimento populacional e novas modalidades de trabalho.
            • Cultura e Diversidade: Valorização da cultura como fator de inclusão e identidade nacional, promovendo o acesso equitativo à cultura, especialmente nas periferias.

            2. Desenvolvimento Econômico e Sustentabilidade Socioambiental e Climática

            • Cidades sustentáveis e resilientes: Adoção de soluções que integrem sustentabilidade e urbanização, visando a melhoria da infraestrutura e da qualidade de vida.
            • Descarbonização da economia: Planejamento para a transição para uma economia de baixo carbono.
            • Transição energética: Modernização da matriz energética para aumentar a produção e consumo de fontes limpas, como solar e eólica.
            • Transformação digital e inovação: Desenvolvimento de um ecossistema digital competitivo, com foco em inteligência artificial, segurança cibernética e inovação tecnológica.
            • Sustentabilidade hídrica e biodiversidade: Garantia do uso sustentável dos recursos naturais e da preservação ambiental, especialmente da biodiversidade.

            3. Fortalecimento das Instituições Democráticas e da Soberania Nacional

            • Fortalecimento da democracia e das instituições: Desenvolvimento de um Estado mais eficiente e transparente, com foco na redução das desigualdades e na promoção da justiça social.
            • Segurança pública: Modernização da segurança pública com tecnologias avançadas, buscando a redução da criminalidade e maior proteção à vida.
            • Soberania nacional: Expansão do papel do Brasil na ordem mundial, com ênfase na integração regional e fortalecimento da posição geopolítica do país.
            • Defesa e soberania: Reforço das capacidades de defesa nacional, com foco na proteção das fronteiras e na modernização das forças armadas.

            As ameaças

            Não se deve esquecer (e agora as observações são minhas) que virando a esquina haverá um Bolsonaro, um Tarcísio ou a malícia política de um Michel Temer. E uma mídia que ainda não entendeu o conceito de políticas estruturantes com continuidade.

            O lançamento do Projeto Brasil

            Luís Nassif

            Hoje em dia, há pelo menos quatro grandes políticas em andamento no governo federal: a Transição Energética, de Fernando Haddad; o Brasil 2050 e as Rotas Transoceânicas, de Simone Tebet; a Nova Indústria Brasil, de Geraldo Alckmin; e a política científico-tecnológica do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, prestes a sair.

            Um dos temas preferenciais serão as políticas setoriais, baseadas na receita criada pelo Programa de Desenvolvimento Produtivo, no qual técnicos da Fiocruz planejaram a nova indústria da saúde.

            Tratou-se do mais bem sucedido programa de política industrial.

            Primeiro, o governo se valeu do poder de compra do Sistema Único de Saúde (SUS). Selecionou os principais medicamentos. O laboratório multinacional, dono da patente, teria que dar, como contrapartida às compras do SUS, a transferência de tecnologia a um laboratório público.

            Depois, o laboratório licenciaria a fórmula para laboratórios privados nacionais. A intermediação do laboratório público foi essencial. Primeiro, porque atuaram para analisar as condições dos laboratórios nacionais candidatos às patentes. Depois, porque se a patente fosse transferida para um laboratório privado, no momento seguinte seria adquirido por alguma multinacional.

            O principal formulador do complexo industrial da saúde, Carlos Gadelha, vai trabalhar em uma missão relevante: estudar de que maneira o aprendizado do PDP poderá se estender a outros setores da economia.

            O Projeto Brasil discutirá também políticas sociais, infraestrutura, modelos de avaliação das políticas públicas, formas de organizar as pequenas e médias empresas e as políticas ambientais.

            A fase inicial do Projeto será um piloto com a Universidade de Brasília (UnB). Depois, a ideia será estendê-lo às demais universidades, institutos federais e aos principais think tanks do Estado brasileiro, como o IPEA, a Finep, o BNDES.

            Como a mudança neoliberal dos EUA alimentou a ascensão da China

            The Diplomat

            A grande aproximação entre a China e os Estados Unidos na década de 1970 foi impulsionada por cálculos geopolíticos: a aposta da administração Nixon para formar uma frente unida com a China de Mao contra a União Soviética. Mas, a longo prazo, o maior resultado pode ter sido económico. A reabertura das linhas comerciais China-EUA acabaria por reestruturar toda a economia global, transformando a China na “fábrica do mundo”, ao mesmo tempo que esvaziaria o emprego na indústria transformadora nos Estados Unidos.

            Elizabeth O’Brien Ingleson investiga esta transformação sísmica no seu novo livro, “ Made in China: When US-China Interests Converged to Transform Global Trade ”. Nesta entrevista ao The Diplomat, Ingleson, professor assistente de história internacional na London School of Economics, explora como a mudança para o capitalismo neoliberal nas décadas de 1970 e 1980 reescreveu a dinâmica do comércio China-EUA – e, em última análise, das relações China-EUA.

            “Para que a China convergisse com o capitalismo global, os Estados Unidos – o maior e mais poderoso interveniente no sistema capitalista – precisavam de acomodar as necessidades da China”, explicou ela. E essa é a história que se desenrolou em salas de reuniões e fábricas em ambos os lados do Oceano Pacífico.

            As visões gerais da relação comercial China-EUA centram-se frequentemente nas mudanças na política económica da China, particularmente na abordagem de “reforma e abertura” introduzida em 1978. Mas você argumenta que “a transformação na economia dos EUA foi crítica para a eventual convergência da China com o capitalismo global. ” Como é que as mudanças económicas que ocorreram em ambos os países se reforçaram mutuamente?

            Uma das grandes questões com que os estudiosos da China moderna se debatem é como e porquê o país convergiu com o sistema capitalista global. Um debate anterior entre académicos procurou compreender o que Kenneth Pomeranz descreveu de forma memorável como a “grande divergência” na industrialização entre o Noroeste da Europa e o Leste Asiático desde meados do século XVIII. Mais recentemente, um grupo de economistas apresentou a noção de “convergência” como forma de compreender a relação da China com o capitalismo global na última parte do século XX.

            Penso que este é um quadro útil para compreender a transformação da China; o que poderia ser melhor rotulado como a “grande convergência” com o capitalismo global. A reforma e a abertura anunciadas por Deng no final de 1978 têm grande importância nestas contas – e por boas razões. As mudanças pós-1978 foram de facto cruciais para este processo. Mas os académicos cujo foco principal está na China tendem a prestar menos atenção ao sistema capitalista com o qual a China começou a envolver-se. Para que a China convergisse com o capitalismo global, os Estados Unidos – o maior e mais poderoso interveniente no sistema capitalista – precisavam de acomodar as necessidades da China. 

            Portanto, o meu interesse era juntar estas duas dinâmicas: as mudanças que acontecem dentro da China, bem como as que acontecem dentro do capitalismo dos EUA. E descobri que, mesmo antes das reformas de Deng, os reformadores chineses começaram a experimentar formas de integrar os objectivos de desenvolvimento da própria China com processos que estavam em curso nos Estados Unidos e em aceleração na década de 1970: a internacionalização da indústria transformadora através de mão-de-obra offshore barata e cadeias de abastecimento emergentes. 

            Os empresários americanos já tinham começado a internacionalizar lentamente a sua produção antes da reabertura do comércio com a China. Nas décadas de 1950 e 1960, recorreram a fontes não-comunistas como o Japão e Taiwan. Na década de 1970, os líderes da China começaram a adaptar-se a estas dinâmicas emergentes e, no processo, transcenderam lentamente as divisões da Guerra Fria que durante tanto tempo dividiram a China e os Estados Unidos. 

            Na maior parte do mundo, a Guerra Fria terminou no final da década de 1980, quando a União Soviética começou a entrar em colapso e a visão do capitalismo neoliberal liderada pelos EUA tornou-se o princípio organizador chave para o desenvolvimento social. Mas no caso das relações EUA-China, a Guerra Fria terminou sem colapso sistémico em nenhuma das nações. Em vez disso, as divisões da Guerra Fria entre estas duas nações desapareceram durante a década de 1970 através de uma convergência gradual de interesses entre o capitalismo norte-americano e o comunismo chinês.

            A história que conto não pode ser contada sem explorar as decisões e ações que acontecem em ambos os países. Não fui capaz de compreender as mudanças que estavam a acontecer entre a comunidade empresarial dos EUA que negociava com a China sem olhar profundamente e com a devida consideração ao que estava a acontecer na China. E o inverso também é verdadeiro. As formas como os pragmáticos chineses começaram a integrar-se no sistema capitalista exigiram uma compreensão das mudanças que estavam a acontecer nos Estados Unidos pós-Bretton Woods. Nesse sentido, é uma história transnacional – que teve um impacto de amplo alcance no capitalismo e no comércio globais. 

            Um dos temas centrais do seu livro é a importância da mudança na forma como a China foi imaginada pelas empresas e economistas dos EUA: de um mercado potencial para produtos norte-americanos para uma fonte de mão-de-obra barata. Como é que essa mudança nas percepções empresariais dos EUA se combinou com os objectivos do Estado chinês na altura?

            Sim, durante séculos, os empresários viram na China a promessa de um enorme mercado consumidor, aquilo que um empresário norte-americano descreveu na década de 1930 como “400 milhões de clientes”. Para eles, o comércio com a China significava expandir as exportações. Na década de 1970, os comerciantes norte-americanos e chineses reformularam em conjunto o significado do mercado chinês. Eles começaram a nutrir uma nova promessa de produção terceirizada – os proverbiais 800 milhões de trabalhadores. 

            À medida que os pragmáticos chineses debatiam formas de acelerar a industrialização da China, experimentavam cada vez mais a utilização do dinheiro gerado pelas vendas de exportações para financiar os seus esforços de desenvolvimento. Ao vender têxteis e matérias-primas, esperavam comprar fábricas, aviões, etc. A enorme força de trabalho da China oferecia o potencial para criar bens manufacturados baratos que poderiam ser vendidos aos Estados Unidos e a outros países, gerando por sua vez o dinheiro necessário para comprar a infra-estrutura necessária para acelerar a industrialização da China. 

            A “malha” aconteceu na fabricação. À medida que as empresas americanas internacionalizaram as operações de produção para outras partes do mundo, começaram a ver a China como oferecendo potencial para se juntar – e ajudar – neste processo. Durante a maior parte da década, a China não permitiu o investimento directo estrangeiro, mas ofereceu mão-de-obra barata. Assim, os interesses dos pragmáticos chineses e dos capitalistas norte-americanos começaram a alinhar-se. A consequência deste alinhamento foi uma reconfiguração fundamental do que significava falar de “comércio EUA-China” – não mais um mercado chinês de 400 milhões de clientes, mas sim um mercado de trabalhadores.

            É importante sublinhar, contudo, que estes esforços encontraram forte oposição. A década de 1970 foi um período de imensa convulsão social e política na China, ofuscada pela doença de Mao e pela eventual morte em 1976. Não havia certeza de que estes esforços hesitantes na década de 1970 iriam continuar. Penso que é fácil, na perspectiva actual, considerar a convergência da China com o capitalismo global como um processo natural ou inevitável de crescimento e desenvolvimento económico. Mas a oposição à relação comercial e os problemas que a sustentam são precisamente a razão pela qual não era inevitável: o comércio era difícil e o lucro estava longe de ser certo.

            Você observa que nos primeiros dias do reengajamento China-EUA, “os líderes de ambas as nações compreenderam e usaram o comércio como uma ferramenta de diplomacia, mas de maneiras muito diferentes”. Quais foram as principais diferenças nas suas abordagens, e isso ainda é verdade hoje?

            Os primeiros anos do comércio EUA-China desenvolveram-se no estranho período do limbo da reaproximação. Apesar do dramático encontro entre o Presidente Nixon e o Presidente Mao em Pequim, em 1972, foi necessário que dois novos líderes chegassem ao poder – Jimmy Carter e Deng Xiaoping – para que os dois países finalmente restabelecessem as relações diplomáticas, o que anunciaram em Dezembro de 1978. Ao longo deste processo, Durante esse período, os líderes tanto dos Estados Unidos como da China trataram o comércio como um incentivo – mas um incentivo a ser oferecido em diferentes pontos do processo de negociação. Os Estados Unidos utilizaram-no como um incentivo antes da normalização diplomática total, como uma indicação do seu compromisso com o processo de reaproximação. A China utilizou o comércio como um incentivo a ser fornecido após melhorias nas negociações geopolíticas. 

            Estas atitudes divergentes complementaram-se de forma surpreendente: as exportações chinesas para os Estados Unidos assumiram importância diplomática. Um dos principais problemas económicos que surgiram na década de 1970 foi um desequilíbrio comercial a favor dos Estados Unidos. O valor total das importações da China era superior às suas exportações para os Estados Unidos e, especialmente quando a diplomacia começou a estagnar em meados da década, as autoridades chinesas queriam que esta situação fosse corrigida. Em resposta, os líderes diplomáticos e empresariais americanos trabalharam para aumentar as importações de produtos chineses pelos EUA. Fizeram-no precisamente devido aos seus próprios pressupostos de que boas relações comerciais eram importantes para apoiar os esforços diplomáticos paralelos. Mas isto alinhou – e ajudou a desenvolver – a malha entre os capitalistas norte-americanos e o Estado chinês. 

            Hoje a dinâmica é mais complicada, justamente pelas mudanças ocorridas ao longo da década de 1970. A internacionalização da indústria transformadora mudou fundamentalmente a relação entre o comércio e o Estado-nação. Na nossa era pós-COVID, todos estamos familiarizados com a centralidade das cadeias de abastecimento para a produção e o comércio globais. Mas a política comercial continua notavelmente vinculada ao Estado-nação. Se “Made in China” representa uma ameaça à indústria transformadora americana, então “Made in America” sugere que os seus efeitos também podem ser combatidos pelo Estado-nação. 

            A longa história de receios do “perigo amarelo”, combinada com o orgulho nacional gerado pela melhoria do “Made in America”, tem sido há muito tempo uma combinação vencedora na política americana. É por isso que a primeira ordem executiva aprovada pelo presidente Biden no início de 2021 foi apelidada de “Made in America”. Pediu que mais agências federais usassem produtos produzidos nos Estados Unidos. No entanto, as letras miúdas da ordem executiva de Biden revelam a confusão por trás dos rótulos de país de origem hoje. O padrão para o seu plano Made in America seria alcançado se apenas 55% dos componentes fossem fabricados nos Estados Unidos.

            Assim, a abordagem dos anos 70 de utilizar o comércio como uma ferramenta política – no contexto actual, isso muitas vezes significa a aplicação de tarifas – não tem o impacto na China da forma que teria há 50 anos. Apesar das tarifas actuais, os semicondutores fabricados na China estão a entrar nos Estados Unidos em número crescente através do México, por exemplo. O que esta história revela é que, para corrigir os problemas reais que os trabalhadores americanos enfrentam, precisamos de nos concentrar nos factores que nos levaram até onde estamos hoje. Mais particularmente: uma política que priorizava os interesses do capital sobre o trabalho.

            O comércio tem sido fundamental para as relações China-EUA desde o início do processo de normalização. Hoje, porém, o comércio é cada vez mais visto através das lentes da segurança nacional em Washington; “reduzir o risco” está na ordem do dia. Existiram preocupações semelhantes na década de 1970, quando os pilares das relações comerciais China-EUA estavam a ser construídos?

            Na década de 1970, as preocupações com a segurança nacional permaneceram certamente em certas áreas de Washington, particularmente no Pentágono no que diz respeito às vendas de tecnologia que poderia ter aplicação militar. Mas estas foram preocupações que se tornaram cada vez mais uma voz minoritária, em vez dos medos crescentes que ouvimos hoje. Nesse sentido, podemos ver como a Guerra Fria terminou para as relações EUA-China na década de 1970: como um lento desaparecimento das tensões. 

            Vista a partir de 2024, esta história de interesses convergentes entre os Estados Unidos e a China parece cada vez mais uma história de um passado distante. Mas quando comecei esta investigação, no início da década de 2010, ainda havia esperanças de que a relação comercial interdependente pudesse ajudar a criar relações geopolíticas positivas. No espaço de uma década muita coisa mudou. Mas viver este período enquanto pesquisava e escrevia sobre uma década diferente realmente me fez perceber o quanto pode mudar num período de tempo relativamente curto devido a decisões – e visões partilhadas – daqueles com mais poder político e económico do que outros.

            Os grupos trabalhistas estiveram entre os poucos que previram com precisão o impacto do envolvimento económico China-EUA na economia americana. Até que ponto os grupos laborais estavam especificamente preocupados com a China, em comparação com uma preocupação mais geral com a tendência da indústria transformadora se deslocar para o exterior, independentemente do destino?

            A China mantinha uma preocupação específica no sentido de que o tamanho da sua população amplificava dramaticamente as tendências mais amplas que aconteciam no sector industrial dos EUA. Não havia forma de saber na década de 1970 que a China se tornaria de facto uma fonte tão significativa de mão-de-obra. A China era extremamente pobre, com uma base industrial fraca – outra razão importante pela qual a sua convergência com o capitalismo global não era inevitável. Mas estavam certamente a surgir sinais de que as coisas poderiam estar a mudar na China. E isto ocorreu precisamente no momento em que a indústria transformadora dos EUA se voltava para fontes estrangeiras de mão-de-obra barata.

            Foi a indústria têxtil dos EUA quem mais expressou os receios em relação à China. Esta era uma indústria cuja força de trabalho era quase inteiramente composta por mulheres negras, uma razão importante pela qual não recebiam a atenção que exigiam. Não eram os homens que usavam capacetes das indústrias automobilística e siderúrgica que desempenharam um papel proeminente na política dos EUA na década de 1970. Mas ainda mais importante, muitos dos líderes masculinos brancos da indústria têxtil que procuravam – em nome destas mulheres negras – restrições ao comércio com a China apelavam à ordem do mercado em vez de reformas fundamentais que protegeriam os trabalhadores norte-americanos. 

            A ideia de recorrer a mão-de-obra barata no estrangeiro não foi um problema em si para muitos membros da indústria têxtil. Em vez disso, procuravam uma transição para a produção externalizada que se desenvolvesse de forma constante, dando aos gestores tempo para ajustarem as suas linhas de produção à mão-de-obra barata estrangeira. A sua preocupação era especificamente com a China porque as suas estruturas estatais comunistas tornavam mais fácil para a China reduzir os custos laborais e despejar produtos baratos. O dumping foi perturbador; tornou mais difícil para os gestores têxteis dos EUA migrarem lenta e continuamente para mão-de-obra estrangeira.

            Em última análise, a capacidade dos líderes chineses de tirarem a sua população da pobreza ocorreu à custa dos trabalhadores têxteis não sindicalizados que recebiam o salário mínimo nos Estados Unidos e, mais tarde, também noutras indústrias. Mas esse impacto sobre os trabalhadores norte-americanos foi fundamentalmente possibilitado pelas decisões dos líderes industriais e dos executivos das empresas norte-americanas, auxiliados pela legislação em Washington. As empresas e os empresários dos EUA foram, portanto, pilares cruciais tanto na industrialização da China como na desindustrialização dos Estados Unidos 

            Nos Estados Unidos, isto foi uma desindustrialização do trabalho. Entre o final da década de 1940 e o início da década de 2020, a indústria transformadora nos Estados Unidos permaneceu relativamente estável em proporção do PIB real. Os Estados Unidos continuam a produzir bens. Na verdade, até 2010 foi o maior país industrial do mundo, depois do qual permaneceu atrás apenas da China. Não foi a indústria transformadora que entrou em declínio nos Estados Unidos na década de 1970, mas o seu emprego: um resultado, em grande parte, das novas tecnologias utilizadas no processo de produção, da produção de novos tipos de bens de alta tecnologia e do movimento da mão-de-obra. indústrias intensivas para fábricas no exterior. 

            O foco contínuo em Washington hoje na ameaça do “Made in China” propaga o mito de que os Estados Unidos já não são uma nação industrial e, no processo, elimina a responsabilidade das decisões empresariais que perseguem salários baixos acima de tudo o resto. O problema hoje no centro da política industrial dos EUA não é a China. É uma política que possibilita essas ações ao priorizar o capital em detrimento do trabalho.

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