O corpo em disputa: metaintermediação algorítmica e soberania perdida

Entre amor, desejo e sofrimento, o corpo tornou-se campo de disputa silenciosa sob o domínio das plataformas digitais

Por Reynaldo Aragon 

Este ensaio mergulha na carne viva da nossa existência: como aplicativos de saúde, namoro e produtividade transformam emoções e sinais vitais em mercadorias. Um convite à reflexão sobre a luta pela soberania do corpo em tempos de captura algorítmica.

O corpo como trincheira

Acordamos, todos os dias, cercados de números. O coração que pulsa em silêncio é traduzido em gráficos que medem desempenho. O sono, que antes era repouso, agora tem relatório que acusa falhas. O amor, que sempre foi encontro incerto, virou algoritmo de compatibilidade e rejeição gamificada. O corpo — essa matéria concreta da vida, essa força produtiva que sustenta a história — já não é apenas carne e energia, mas variável estatística, ativo financeiro, dado a ser explorado.

O capitalismo digital colonizou a pele, o pulso, o olhar. Transformou desejo em dado, ansiedade em gráfico, esperança em notificação. Não se trata apenas de vigiar: trata-se de modular comportamentos, reforçar docilidade, administrar emoções como quem administra estoques. A psicologia comportamental, antes instrumento para compreender e libertar, foi apropriada como técnica de comando suave. Badges, streaks, metas e recompensas intermitentes transformam a vida cotidiana em laboratório de obediência.

Mas o que significa viver assim? Que soberania resta quando até a respiração pode ser indexada por uma plataforma? Quando o direito ao erro, ao acaso, à contingência — aquilo que faz da vida vida — é suprimido em nome da otimização? A cada relatório de sono mal dormido, a cada match perdido, a cada passo não dado, somos atravessados por uma pedagogia de culpa e de insuficiência. A promessa de cuidado converte-se em disciplina; a promessa de saúde, em ansiedade; a promessa de felicidade, em solidão.

Este ensaio parte de uma certeza dura: o corpo é hoje a última trincheira da luta de classes. Se no passado o capital disputava nossas mãos nas fábricas e nossas horas de trabalho, agora disputa nossos batimentos cardíacos, nossos desejos mais íntimos, nossas cicatrizes emocionais. A batalha é silenciosa, mas visceral. E sua questão central é inescapável: seremos corpos otimizados para o lucro ou corpos soberanos para a vida?

O corpo no materialismo histórico-dialético

O corpo nunca foi neutro. Ele é o primeiro território da luta de classes, o fundamento de toda produção social. Desde os primórdios, o capital aprendeu a transformar músculos, nervos e energia vital em mercadoria. No chão das fábricas, as mãos foram cronometreadas; nos campos, o suor foi medido em colheitas; no fordismo, cada gesto foi reduzido a movimento repetido em nome da eficiência. O corpo, força produtiva histórica, foi moldado como engrenagem de uma máquina maior.

O materialismo histórico nos mostra que cada época traz novas formas de subordinação da vida ao capital. Se o século XIX domesticou braços e pernas sob o chicote e a disciplina fabril, o século XXI captura pulsações, respirações, desejos. Já não basta controlar a hora do trabalho: agora se disputa a hora do sono, a intensidade da respiração, a cadência da caminhada, a frequência do coração apaixonado. É a subsunção real da vida — quando não apenas o trabalho, mas a própria existência, é devorada pela lógica da exploração.

A dialética revela a contradição: aquilo que poderia ser libertação — tecnologia capaz de aliviar a fadiga, cuidar da saúde, ampliar o tempo livre — é apropriado como nova forma de opressão. Os algoritmos aparecem como “cuidadores”, mas operam como patrões invisíveis, modulando condutas, recompensando obediência, punindo desvios. Onde o trabalhador antes se via na máquina, hoje se vê no dashboard. Onde o corpo antes se dobrava ao ritmo da sirene, agora se curva ao ritmo da notificação.

O capital não se contenta mais em explorar nossas horas: ele coloniza nossos segundos. O corpo não é apenas o espaço do trabalho, é também o espaço da mercadoria, da estatística, do ativo financeiro. Cada batimento capturado, cada passo registrado, cada emoção quantificada — tudo se converte em mais-valor. A vida em si torna-se força produtiva em tempo integral.

Psicologia comportamental e a captura algorítmica

O capital aprendeu a falar a língua da psicologia comportamental. Não mais apenas chicote, relógio de ponto ou metas industriais: agora é o algoritmo quem administra prêmios, punições e reforços. As plataformas digitais são laboratórios de condicionamento operante em escala de massas.

Cada notificação é um estímulo; cada “like” é um reforço positivo; cada badge conquistado é uma recompensa simbólica que nos faz voltar no dia seguinte. Da mesma forma, cada falha registrada — uma noite mal dormida, uma meta de passos não alcançada, um match que não veio — atua como punição sutil, cultivando culpa e docilidade. O cotidiano é reorganizado em torno de uma pedagogia invisível: o sujeito não apenas age, mas aprende a se auto-regular para satisfazer os critérios de um sistema opaco.

Skinner mostrou que o reforço intermitente — aquele que não se sabe quando virá — é o mais poderoso. É exatamente essa lógica que sustenta os apps: a promessa de que o próximo match, a próxima recompensa, a próxima métrica verde virá a qualquer momento. E é por isso que voltamos, repetidamente, compulsivamente. O capital não se contenta em governar nossos atos: governa agora nossas expectativas.

Esse é o coração da captura algorítmica: transformar desejo em variável controlável, esperança em instrumento de docilização, sofrimento em engrenagem produtiva. O corpo, ao ser condicionado, aprende a dançar no ritmo do algoritmo — e cada passo que dá alimenta a mesma engrenagem que o aprisiona.

Sintomas e cicatrizes – a carne marcada pela métrica

O corpo não sai ileso da captura algorítmica. A cada métrica imposta, a cada dashboard iluminado, a cada gráfico que separa sucesso de fracasso, nascem sintomas e cicatrizes que não são apenas psicológicas, mas físicas, concretas, encarnadas. A colonização não é abstrata: ela se imprime na pele, no sono, no desejo, no estômago vazio de ansiedade.

No amor e no desejo, os algoritmos hierarquizam afetos, transformando encontros em estatística e rejeições em notificações silenciosas. O que antes era acaso, surpresa, paixão inesperada, hoje é filtro, ranking, escassez artificial. O desejo, força vital que sempre escapou à disciplina, é agora calibrado em “matches” e “likes”. Cicatriz: uma solidão amplificada, onde o corpo aprende que vale tanto quanto a relevância que um código lhe concede.

No sono e no repouso, a cama se converte em laboratório. A cada noite mal dormida, um relatório de fracasso; a cada insônia, uma curva vermelha que acusa. A promessa de cuidado transforma-se em ortossonia: obsessão em dormir “corretamente”, medo de não render. Cicatriz: a noite, que deveria ser refúgio, torna-se mais um espaço de ansiedade.

Na alimentação e no movimento, calorias são moedas e passos são metas. O prato deixa de ser prazer ou partilha: é dashboard. O corpo aprende que comer não é nutrir-se, mas evitar estar “fora da meta”. O caminhar não é mais liberdade, mas disciplina medida. Cicatriz: a vida cotidiana rebaixada a jogo de punições e recompensas.

Na alegria e na tristeza, a captura é ainda mais perversa. A dopamina, que deveria nascer do encontro com o mundo, é agora racionada por notificações. Cada sorriso diante da tela é reforço intermitente; cada decepção é punição invisível. Alegria fabricada, tristeza contabilizada, esperança sequestrada. Cicatriz: sentimentos autênticos dissolvidos em reforços artificiais.

O resultado é um corpo marcado. Insônia, ansiedade, distúrbios alimentares, solidão digital, depressão — sintomas que são ao mesmo tempo pessoais e coletivos. Cicatrizes que carregamos não apenas como indivíduos, mas como classe, como geração submetida a uma pedagogia de insuficiência.

Alienação deixa de ser conceito distante: ela pulsa no peito acelerado, na pele cansada, nos olhos que não fecham à noite. É a alienação tornada fisiologia. É a vida reduzida à métrica, à régua do capital.

Subsunção real da vida pelo capital algorítmico

No capitalismo digital, já não há fronteiras claras entre tempo de trabalho e tempo de vida. O que Marx chamou de subsunção real — quando o capital não apenas se apropria do produto do trabalho, mas reorganiza inteiramente o processo produtivo — alcança agora uma dimensão radical: a própria vida é integrada como engrenagem da produção.

O corpo não descansa: produz dados enquanto dorme. O coração que pulsa em silêncio é convertido em métrica de saúde para seguradoras, em variável estatística para investidores, em insumo para plataformas. O beijo apaixonado, a corrida solitária, o prato de comida, a insônia — tudo é transformado em fluxo de informação que alimenta algoritmos de predição e modelos de extração de valor.

Essa é a novidade brutal: já não vendemos apenas nossa força de trabalho por horas. Vendemos, mesmo sem saber, cada instante da existência. Cada respiração monitorada é um microtrabalho inconsciente que abastece a máquina de cálculo do capital. O corpo, alienado de si, se torna ativo financeiro: objeto de especulação, moeda para seguros, mercadoria nas mãos de quem controla as plataformas.

A promessa de emancipação tecnológica — a possibilidade de aliviar a fadiga, cuidar da saúde, ampliar a liberdade — é revertida em colonização. O mesmo dispositivo que poderia libertar o corpo do cansaço transforma-se em mecanismo de controle e disciplinamento. O algoritmo surge como “cuidador”, mas opera como supervisor invisível, determinando ritmos, recompensando comportamentos, punindo desvios.

Essa colonização total marca um salto histórico. O capital não apenas compra o tempo do trabalhador: ele captura a energia vital, a intimidade, o desejo, a própria substância da vida. O corpo, reduzido a dado, já não pertence ao sujeito que o habita. O que está em jogo não é apenas exploração econômica — é a perda da soberania sobre a carne, sobre os gestos, sobre o que ainda nos restava de humano.

Geopolítica do corpo

A disputa sobre nossos corpos não é apenas íntima, é planetária. O mesmo algoritmo que mede passos em São Paulo calcula também a fertilidade em Nairobi, o batimento cardíaco em Mumbai, o desejo em Buenos Aires. Os metaintermediários não conhecem fronteiras: operam como novos impérios invisíveis, administrando dados biométricos com a mesma lógica de pilhagem que marcou o colonialismo.

No Sul Global, essa colonização digital assume contornos ainda mais brutais. Nossos corpos tornam-se laboratórios, nossas emoções são matéria-prima barata, nossos dados circulam em mercados que não controlamos. Cada pulso, cada noite insone, cada gesto íntimo trafega por servidores situados nos centros do capital global. É uma nova forma de colonialismo: não mais o saque direto de minerais ou terras, mas a extração contínua de dados vitais.

O Brasil, com sua população jovem e hiperconectada, é visto como mina de ouro informacional. Empresas estrangeiras coletam sinais de saúde, padrões de sono, rotinas alimentares, desejos amorosos. Esses dados são processados fora do país, convertidos em mercadorias, revendidos a governos, corporações e seguradoras. Nossa carne, traduzida em código, serve para alimentar modelos de predição que reforçam a hegemonia das potências do Norte.

Aqui, a dialética se impõe com toda a sua força: a soberania do corpo está diretamente entrelaçada à soberania nacional. Quem controla os dados do corpo controla também a força produtiva de uma nação. Ao permitir que algoritmos estrangeiros ditem os ritmos da saúde, da sexualidade e do trabalho, abrimos mão de um pedaço fundamental de nossa autonomia histórica.

O corpo, portanto, é também campo de batalha geopolítico. Na era da metaintermediação algorítmica, lutar pela soberania corporal significa lutar contra a recolonização digital do Sul. É afirmar que nem nossos gestos, nem nossos desejos, nem nossas dores serão mais mercadorias a serviço de impérios invisíveis.

Horizontes de emancipação

Se o capital algorítmico transformou o corpo em ativo estatístico e mercadoria, cabe a nós recolocar a vida no centro. A luta pela soberania do corpo não é metáfora: é projeto político. Significa disputar os rumos da tecnologia, reverter a lógica da captura e afirmar que a respiração, o sono, o amor e a dor pertencem ao humano — não ao capital.

Soberania informacional é soberania do corpo. Não há separação. Cada dado produzido pelo corpo deve ser tratado como extensão da dignidade humana, e não como moeda de troca. Isso implica instituir direitos inegociáveis: o direito à opacidade, à privacidade, ao erro, ao acaso. A vida só é vida quando contém margem de contingência. Eliminar o imprevisível é eliminar a liberdade.

Um projeto socialista de tecnologia precisa nascer da urgência desse tempo. Não basta regular plataformas: é preciso criar infraestruturas públicas e coletivas que sirvam à emancipação, não à exploração. Apps de saúde voltados ao bem-estar coletivo, sem monetização de dados. Algoritmos transparentes, auditáveis, sob controle democrático. Redes digitais que incentivem solidariedade, não competição permanente.

 

  • Critérios materiais de soberania do corpo podem ser desenhados:

 

  • Finalidade pública: tecnologia orientada para necessidades sociais e não para lucro.

 

  • Minimização de dados: coletar apenas o estritamente necessário, nunca a vida inteira.

 

  • Transparência e verificabilidade: algoritmos auditáveis, sujeitos a controle popular.

 

  • Autonomia coletiva: infraestruturas de dados sob comando público e democrático.

Mas há ainda um horizonte mais profundo: o direito à própria experiência humana. O direito de dormir sem relatório, de amar sem filtro, de caminhar sem meta, de sentir tristeza sem ser convertido em métrica. O direito ao acaso, à falha, à imperfeição. Porque é na imperfeição que mora a liberdade, e é na contingência que floresce a vida.

Resistir à colonização algorítmica do corpo é afirmar que a carne não será subsumida ao cálculo. É declarar que nossos gestos não são estatística, que nossos afetos não são mercadoria, que nossos sonhos não cabem em dashboards. É, acima de tudo, recuperar a possibilidade de sermos soberanos sobre nós mesmos.

Conclusão – O corpo como última fronteira da luta de classes

Chegamos ao coração da contradição: o corpo, antes força de trabalho nas fábricas e nos campos, tornou-se agora o território mais íntimo da exploração. Cada batimento cardíaco, cada noite insone, cada gesto de afeto ou solidão é transformado em dado, e cada dado é convertido em valor. O capital não apenas disputa nossas horas: disputa a própria carne, os sentimentos, os sonhos.

É nesse ponto que o materialismo histórico-dialético nos dá clareza: a luta de classes não se limita ao chão de fábrica, mas se expande até a pulsação do corpo. A alienação já não se esconde na distância entre trabalhador e produto do trabalho — ela vibra na ansiedade de não cumprir metas de passos, na culpa de não dormir direito, na solidão gamificada de quem espera um match que nunca vem.

Mas é também aqui, nesse mesmo território de dor, que pode nascer a emancipação. A soberania do corpo é a trincheira final contra o colonialismo algorítmico. Resistir significa afirmar o direito ao acaso, ao erro, à imperfeição — a viver para além da métrica. Significa lutar por tecnologias a serviço da vida, sob controle democrático, orientadas pela dignidade humana e não pela extração de lucro.

O corpo é a última fronteira da luta de classes. Se deixarmos que seja totalmente colonizado, não restará sequer o abrigo íntimo do sono ou o calor inesperado do amor. Mas se defendermos essa trincheira, estaremos também defendendo a possibilidade de um futuro em que a técnica pertença ao povo, e não ao capital.

A escolha é nossa e o tempo é agora: seremos corpos otimizados para o lucro, ou corpos soberanos para a vida.

Ensaio publicado originalmente em <código aberto> 

Quando a emergência climática invade a crise civilizacional

A Tempestade sobre as Ruínas – O que acontece quando a emergência climática invade a crise civilizacional

Por Reynaldo Aragon

Quando o colapso ecológico encontra a falência moral e política de um mundo à beira do abismo, nasce uma tempestade perfeita. Este ensaio vasculha as profundezas dessa convergência, onde o futuro se decide entre a barbárie e a reinvenção.

E quando as mudanças climáticas se somarem à crise civilizacional? Talvez seja neste ponto, e não em outro, que o ser humano seja forçado a encarar o que sempre temeu nomear: que seu império sobre a Terra, forjado na sanha de extrair, explorar e subjugar, pode ruir não por falta de tecnologia, mas por excesso de arrogância. Pois não haverá algoritmo, satélite ou moeda forte capaz de conter a fúria de um planeta reconfigurado, quando a atmosfera se tornar ácida, os rios secarem, os ventos não respeitarem mais estações, e os ciclos de vida entrarem em convulsão.

Imagine um mundo onde a seca prolongada transforme grandes metrópoles em arquipélagos de sobrevivência, onde a água seja vigiada com metralhadoras, onde o alimento se converta em arma, e onde cada fronteira se torne trincheira contra a miséria migrante. Imagine as ondas de calor não mais como exceção, mas como ritual de morte cíclica, ceifando vidas ao ritmo de cifras que jamais irão aparecer nos telejornais. Imagine as chuvas tão intensas que dissolvam bairros inteiros em poucos minutos, rasgando encostas, pontes, cidades, memórias.

Este não é um delírio distópico. É uma projeção material, calculada, quantificada, medida — sustentada por todas as evidências da ciência planetária que se acumularam nas últimas quatro décadas. Mas ela se torna ainda mais sombria quando encosta, como fera faminta, na carcaça frágil de um mundo que já vem derretendo por dentro: democracias esgarçadas, povos colonizados, elites cada vez mais predatórias, valores comunitários transformados em pó pelo consumismo narcótico, e uma violência ideológica que nos acostuma a aceitar a desigualdade como destino.

Nada disso ocorrerá em um planeta socialmente estável e politicamente pacífico. Não haverá transição suave quando as colheitas falharem ao mesmo tempo, em que explodem golpes de Estado, guerras híbridas e redes de ódio projetadas por máquinas algorítmicas a serviço do lucro. A emergência climática chegará, e já chega, a um mundo fraturado, doente, sem compaixão — onde cada catástrofe física ecoará como catástrofe moral.

A cada grau de aquecimento que se soma, a cada estação perdida, a cada floresta transformada em fumaça, dilata-se também o abismo civilizacional que a humanidade cavou com as próprias mãos. E quando os sinais se tornarem impossíveis de ignorar — quando a floresta amazônica colapsar de vez, quando as monções errarem de endereço, quando as calotas polares se transformarem em mar aberto — não será apenas a temperatura que terá mudado. Terá mudado a própria gramática da vida, o tecido mínimo de solidariedade e confiança que sustenta qualquer civilização.

Este ensaio começa, portanto, num lugar incômodo: a interseção entre o planeta em colapso e a sociedade em vertigem. É nesta junção que se produz o ponto de ruptura histórico, onde a crise ecológica se torna crise civilizacional, e vice-versa. É neste ponto que devemos mirar, sem medo, pois dele depende não só o futuro do clima, mas a própria possibilidade de humanidade.

A urgência planetária e o colapso civilizacional.

Vivemos, de fato, o crepúsculo de uma civilização que, ao negar os limites do planeta, começou a corroer também os limites da própria dignidade humana. O colapso climático não pode ser lido como um acidente da natureza: ele é a consequência histórica de um projeto civilizatório que fez do crescimento sem fim um dogma sagrado, da mercantilização de tudo uma promessa de redenção, e da exploração sem escrúpulos a engrenagem fundamental do progresso. Por trás de cada grau extra na atmosfera, há séculos de pilhagem colonial, há impérios que se ergueram sobre corpos escravizados e florestas queimadas, há fronteiras forjadas a pólvora para garantir a circulação de mercadorias.

A Terra respondeu. Não por capricho, mas pela lógica inescapável das leis biofísicas que regem sistemas vivos. Aquilo que queimamos retorna, aquilo que destruímos cobra juros, e aquilo que desprezamos se revolta — não em termos morais, mas no rigor das reações químicas e físicas que mantêm a estabilidade do clima. A aceleração do aquecimento global, o colapso da biodiversidade, a acidificação dos oceanos e o envenenamento dos ciclos da água não são sinais isolados: são a sinfonia trágica de um sistema planetário ultrapassando os limites de resiliência, amplificada por um modelo econômico que transformou a própria natureza em cifra contábil.

Mas a crise não se restringe à ecologia. Ela se infiltra no coração do contrato social, pois se revela incapaz de manter vivos os laços comunitários mínimos. Quando o clima entra em ruptura, a sociedade se rasga: aumenta a competição por alimentos, água, refúgio; ressurgem fronteiras armadas; recrudescem racismos, misoginia e violência contra os mais pobres. O negacionismo que grassa pelo mundo não nasce apenas de ignorância — nasce de um medo ancestral de encarar que a engrenagem da qual muitos se beneficiam tornou-se um instrumento de morte. E ao negar o colapso, negamos também qualquer chance de transformá-lo.

É nesta combinação explosiva que reside a urgência histórica: não falamos de um evento natural, mas de uma convulsão civilizatória que já se manifesta nos corpos empobrecidos, nos territórios envenenados, nos refugiados empilhados em campos de exclusão, nas guerras silenciosas pelo controle da água. Não existe solução tecnocrática que isole a crise climática da crise social — elas são inseparáveis.

Por isso, a urgência não pode ser medida apenas em partes por milhão de CO₂, mas em pedaços de humanidade que estão sendo triturados agora, diante de nossos olhos. Cada segundo de atraso na transição ecológica se converte em vidas sacrificadas, e cada minuto de hesitação serve ao prolongamento de um poder que prefere morrer abraçado à sua riqueza do que repensar as bases de sua própria existência.

Este ensaio parte dessa premissa: não existe clima saudável num mundo socialmente apodrecido, e não existe sociedade justa num planeta biologicamente devastado. A urgência planetária é, pois, o grito simultâneo de todos os sistemas vivos — ecológicos, sociais, simbólicos — chamando pela reinvenção radical do modo de viver e do modo de nos relacionarmos. E talvez seja exatamente por isso que, embora muitos prefiram tapar os ouvidos, a voz do colapso soe cada dia mais alto, cada dia mais inegável, cada dia mais próximo.

Mudanças climáticas: a anatomia da catástrofe.

Há algo de terrivelmente simples no fenômeno das mudanças climáticas, embora sua complexidade assuste: basta acumular gases na atmosfera, e o equilíbrio térmico do planeta cede. Não é uma questão de crença, tampouco de opinião. É física elementar, mensurada, observada, replicada em laboratórios e em satélites. É ciência, e ciência da mais rigorosa. Desde que a revolução industrial elevou exponencialmente a concentração de dióxido de carbono, metano e óxidos nitrosos, a Terra entrou em um regime climático que jamais havia conhecido no Holoceno — a era de relativa estabilidade que permitiu a emergência de cidades, agricultura, cultura escrita e, em última instância, a própria civilização.

Hoje, a concentração de CO₂ atmosférico ultrapassa 420 partes por milhão — valor não registrado há pelo menos 3 milhões de anos, segundo testemunhos de gelo e análises de sedimentos. Essa cifra solitária carrega o prenúncio de um abalo: o sistema climático, interdependente e não-linear, responde a cada fração de grau com reações em cadeia. O degelo do Ártico libera metano preso no permafrost; o metano amplifica o efeito estufa; o aquecimento acelera a evaporação de oceanos, alterando correntes atmosféricas; essas correntes redistribuem a energia global de forma caótica, e assim se multiplicam secas extremas, chuvas diluvianas, ondas de calor mortais e furacões cada vez mais violentos.

Não se trata de um filme apocalíptico: trata-se do diagnóstico da comunidade científica internacional, expresso nos relatórios sucessivos do IPCC e confirmado pelas agências espaciais que vigiam a vitalidade do planeta. O aumento médio de 1,5 °C sobre os níveis pré-industriais, já praticamente alcançado, carrega em si a marca de irreversibilidades. Algumas geleiras jamais voltarão. Alguns recifes jamais se regenerarão. Alguns sistemas de monções já começaram a perder a previsibilidade que sustentava milhões de agricultores na Ásia e na África.

Entender a anatomia da catástrofe é perceber que ela não opera de forma linear, mas em saltos, do mesmo modo que um organismo doente não morre em câmara lenta, mas por falências múltiplas que se sobrepõem. O clima global funciona com pontos de inflexão — tipping points — que, uma vez ultrapassados, podem reconfigurar completamente as condições de habitabilidade do planeta. O colapso da Amazônia como sumidouro de carbono, a falha do sistema de correntes do Atlântico Norte, a fusão irreversível da calota da Groenlândia — cada um desses eventos representa não um drama regional, mas um golpe mortal na estabilidade climática planetária.

Por isso, falar em mudanças climáticas não é falar apenas de “aquecimento”, mas de uma transformação estrutural na base energética que mantém a Terra habitável. É uma anomalia que se expande como câncer, contaminando solos, mares, ventos, dinâmicas ecológicas. É também, em termos filosóficos, a revelação do nosso próprio erro civilizacional: acreditar que se poderia violentar as condições mínimas de vida sem colher o retorno brutal dessa violência.

Este não é um ponto de vista. É um laudo. E quem não quiser enxergar a anatomia desta catástrofe terá de lidar, em breve, com sua face mais brutal: a falência do mínimo necessário para a dignidade humana. Pois não existe civilização possível quando a temperatura rompe a tolerância fisiológica dos corpos, quando a água escasseia, quando a comida se torna inacessível e quando as doenças tropicais avançam para latitudes outrora temperadas. O clima é a moldura de tudo. Sem clima, não há cultura, não há economia, não há política — não há sequer vida em comum.

E é neste reconhecimento, tão simples quanto devastador, que devemos apoiar o resto de nossa reflexão. Porque se não entendermos a anatomia da catástrofe, não seremos capazes de sequer imaginar saídas reais.

O encontro explosivo: clima + crise civilizacional.

Talvez a maior falácia do nosso tempo seja imaginar que a mudança climática será um teste isolado, um acontecimento natural que ocorrerá num mundo calmo, governado por instituições sólidas e pactos sociais respeitados. Essa ilusão — herdada de um pensamento tecnocrático que insiste em separar “natureza” e “sociedade” — fracassa diante da evidência de que o colapso ambiental não chegará a um planeta estável, mas a uma civilização já lacerada, cansada, saturada de desigualdades e dominada por poderes cada vez mais autorreferentes.

O aquecimento global não se sobrepõe a um solo firme. Ele se infiltra num corpo social adoecido: marcado por democracias frágeis, populismos autoritários, desigualdades extremas, polarização violenta e redes digitais que amplificam ódio, medo e mentira com precisão algorítmica. Quando a emergência climática se combinar a este caldeirão de ressentimentos e disputas, estaremos diante de algo mais que uma crise ambiental: veremos um processo de desorganização civilizatória, uma implosão sistêmica onde cada catástrofe física ecoará como catástrofe moral e política.

Este é o ponto crucial, muitas vezes negligenciado pelas análises frias de relatórios internacionais: o risco de colapso composto. Um termo técnico, mas de implicações quase filosóficas. O colapso composto surge quando múltiplas crises — climáticas, econômicas, institucionais, informacionais — interagem, gerando efeitos cumulativos e sinérgicos. Por exemplo, uma seca extrema pode arruinar a produção agrícola de uma região, provocando fome; a fome se converte em conflito social; o conflito desorganiza o Estado; o vácuo de poder alimenta milícias ou grupos terroristas; e essa insegurança, por sua vez, impede políticas de adaptação ao clima, criando um círculo vicioso de autodestruição.

Seus contornos já podem ser vislumbrados. Veja o norte da África, onde a desertificação, aliada a governos frágeis e interesses neocoloniais, empurrou populações inteiras para rotas de migração desesperada, alimentando regimes xenófobos na Europa. Veja o sudeste asiático, onde tempestades cada vez mais violentas pressionam comunidades pesqueiras empobrecidas, aumentando a disputa por recursos e a tensão geopolítica entre superpotências. Veja a própria América Latina, onde inundações, secas e queimadas se somam a guerras informacionais e a ataques à democracia, alimentando um ressentimento profundo que nutre o fascismo tropical.

Para fundamentar essa visão, podemos recorrer a metodologias de cenarização integrada, como os Shared Socioeconomic Pathways (SSP) e os Representative Concentration Pathways (RCP), que projetam não só trajetórias de emissões, mas também trajetórias sociais. Esses modelos revelam que, num cenário de aquecimento acima de 2 °C somado a desigualdades crescentes, a probabilidade de falências institucionais, guerras civis, colapsos migratórios e crises de governança sobe de modo exponencial (O’Neill et al., 2017; IPCC, 2022). Ou seja, a ciência climática já reconhece que clima e civilização são vasos comunicantes, e que as chamadas “tipping points” sociais se aproximam tão perigosamente quanto os pontos de não retorno ambientais.

O encontro entre clima e crise civilizacional não é apenas um tema para conferências acadêmicas. É o campo de batalha real do século XXI, onde se decidirá se ainda podemos cultivar valores de solidariedade, equidade e autonomia, ou se assistiremos a uma era de neofeudalismo cibernético, onde corporações e elites armadas controlarão recursos vitais em ilhas de privilégio, enquanto a maioria se afoga — literal e metaforicamente — em mares de desesperança.

Não há neutralidade possível. O aquecimento global, ao encontrar sociedades fragilizadas e elites dispostas a tudo para manter seus privilégios, potencializa dinâmicas de dominação e violência, dissolvendo as últimas garantias de dignidade que nos restam. Por isso, falar em mudança climática não é — e nunca será — apenas falar de gases na atmosfera, mas de relações de poder, de controle, de guerra, de quem viverá e de quem morrerá.

E se não compreendermos esse encontro explosivo, seguiremos repetindo soluções parciais e técnicas, enquanto o mundo real se transforma num tabuleiro de ruínas, onde a própria ideia de civilização será colocada em xeque.

Os rostos do negacionismo: quem lucra com a dúvida.

Negar a mudança climática não é, em essência, um gesto ingênuo ou fruto de ignorância isolada. É, historicamente, um projeto político-econômico cuidadosamente arquitetado para proteger privilégios, retardar transformações estruturais e garantir a perpetuação de sistemas de poder baseados em combustíveis fósseis, concentração de renda e colonialismo ambiental. O negacionismo se tornou, nas últimas décadas, uma verdadeira indústria, operada por think tanks, grupos de lobby, partidos ultraconservadores e corporações que enxergam no colapso climático não uma ameaça, mas uma oportunidade para lucrar com a catástrofe.

Desde a virada dos anos 1980, documentos hoje tornados públicos revelam como gigantes do petróleo e do carvão financiaram campanhas de desinformação para semear dúvida e confusão. O método é sofisticado: não se trata de negar frontalmente a ciência, mas de relativizá-la, de diluir sua autoridade, de introduzir ruídos e teorias conspiratórias que tornem impossível, para o cidadão comum, distinguir fato de mentira. É o mesmo roteiro aplicado pela indústria do tabaco: gerar incerteza estratégica para atrasar regulações.

No Brasil e na América Latina, esse negacionismo encontrou terreno fértil ao se acoplar a projetos políticos autoritários, que identificaram no discurso antiecológico uma forma de mobilizar ressentimentos populares contra supostos “inimigos externos”: ONGs, ambientalistas, acadêmicos, povos indígenas. O discurso do negacionismo climático se articula, assim, com o ódio de classe e o racismo ambiental, ao rotular políticas de transição ecológica como “ameaças comunistas” ou “armadilhas globalistas”.

Os rostos desse negacionismo são conhecidos: consórcios fósseis, lideranças de extrema-direita, influencers digitais pagos para desacreditar dados, parlamentares financiados por agronegócios predatórios, e até supostos especialistas acadêmicos que vendem sua autoridade a serviço da dúvida. Eles aparecem travestidos de defensores da liberdade, mas na prática defendem apenas a liberdade de seguir lucrando, ainda que o preço seja a morte de milhões e o colapso de ecossistemas inteiros.

Essa rede de desinformação opera como verdadeira guerra psicológica, minando a confiança na ciência, destruindo pontes de diálogo e paralisando a ação coletiva. Há técnicas cuidadosamente estudadas para tal objetivo: apelar à liberdade individual, demonizar impostos sobre carbono, ridicularizar consensos científicos, ou fomentar teorias conspiratórias sobre “engenharia do clima” como forma de manipulação populacional. São discursos que penetram as redes sociais através de algoritmos que priorizam choque, indignação, polêmica — fertilizando a ignorância e a violência.

A quem interessa essa confusão? Às velhas oligarquias fósseis, claro, mas também aos novos autoritarismos digitais, que lucram com a fragmentação social. O negacionismo climático funciona, assim, como pilar de um projeto maior: manter o status quo de desigualdade e exploração, blindando elites contra qualquer reforma profunda que questione sua riqueza acumulada.

Por isso, é ilusório imaginar que o combate ao negacionismo será apenas um debate científico. Trata-se de uma batalha política, cultural e comunicacional, onde a verdade precisa disputar espaço com narrativas de ódio habilmente produzidas para paralisar consciências. A dúvida programada, neste caso, não é apenas estratégia de mercado — é instrumento de dominação.

Enfrentar essa arquitetura da dúvida exige coragem para nomear interesses, expor financiadores, revelar as tramas globais e locais que alimentam o ceticismo industrializado. E, sobretudo, exige devolver ao debate climático sua dimensão de justiça social, pois enquanto o discurso negacionista prosperar, os mais pobres e os territórios colonizados continuarão pagando, sozinhos, a conta do fim do mundo.

América Latina: laboratório da tragédia e da resistência.

Poucas regiões do mundo encarnam, com tanta clareza, a contradição entre riqueza ecológica e brutalidade histórica quanto a América Latina. Aqui, os biomas mais biodiversos do planeta coexistem com índices de desigualdade colonial ainda vivos, cicatrizes abertas por quinhentos anos de pilhagem, genocídio e violência territorial. E é precisamente nesse território que a mudança climática exerce sua força de modo mais cruel e simbólico: a floresta amazônica ameaçada de colapso, o Cerrado convertido em deserto químico de monoculturas, o Pantanal em chamas, as montanhas andinas perdendo suas geleiras ancestrais — enquanto populações inteiras seguem à margem do poder político e econômico, condenadas a arcar com o custo de um desastre que não provocaram.

A América Latina, nesse sentido, é um laboratório da tragédia. O aquecimento global não cria a desigualdade — mas a amplífica, a torna mais letal, a coloca em combustão. Os impactos climáticos chegam primeiro aos corpos mais vulneráveis: ribeirinhos expulsos pela seca, quilombolas desalojados por enchentes, indígenas envenenados por mercúrio em territórios invadidos, periferias urbanas assoladas por enchentes e deslizamentos. Cada evento extremo revela, como se fosse um raio-x, as veias abertas de uma América Latina que nunca se libertou plenamente das lógicas coloniais.

Mas este mesmo chão, regado a suor e memória de luta, também faz brotar resistências radicais. Comunidades tradicionais amazônicas que reinventam modos de vida agroflorestais; camponeses que apostam na agroecologia como insurreição contra o agronegócio predatório; redes de povos indígenas que conectam espiritualidade, política e ciência para defender territórios e modos de ser. Essa resistência não é apenas local: ela carrega lições para o mundo inteiro, pois sinaliza que não há salvação possível sem retomar o vínculo entre terra, comunidade e dignidade.

No plano político, a América Latina também é um palco de disputas cruciais. Por um lado, governos progressistas tentam reconstituir políticas de preservação, proteger biomas, garantir soberania alimentar e redesenhar o papel da região na geopolítica climática global. Por outro lado, forças conservadoras, aliadas a interesses fósseis e latifundiários, reativam discursos negacionistas e autoritários, transformando a destruição ambiental em bandeira de uma suposta “liberdade”. É aqui que a guerra cultural se soma à guerra ecológica, num jogo de poder que pode definir não apenas o destino latino-americano, mas o destino climático do planeta — pois a Amazônia, o Cerrado, a Patagônia e o Gran Chaco não pertencem a bolhas nacionais: eles são reguladores do clima global, zonas de estabilidade biogeoquímica sem as quais todo o planeta tremerá.

A América Latina, assim, não pode ser lida apenas como vítima: ela é também protagonista de alternativas civilizatórias. Aqui pulsa a possibilidade de um outro horizonte — baseado em solidariedade, em democracia real, em tecnologias de baixo impacto, em espiritualidades que reconhecem a natureza não como recurso, mas como matriz de vida. Negar a importância dessas experiências seria repetir, uma vez mais, o erro histórico do Norte global, que enxerga a região apenas como província de exportação ou território de sacrifício.

Se o mundo quiser sobreviver ao século XXI, terá de aprender com a América Latina — tanto no reconhecimento da violência histórica que se abateu sobre ela, quanto na admiração pela força de quem resiste e reinventa a dignidade coletiva em meio às chamas. Pois a maior tragédia da mudança climática não será apenas a perda de espécies ou de megatons de carbono. Será perder, junto, a sabedoria de povos inteiros que sabem como cuidar do planeta melhor do que qualquer diplomata de cúpula climática.

O horizonte da transformação: caminhos radicais.

Falar em transformação diante de um cenário tão brutal pode parecer ingênuo, ou até tolo. Mas não há alternativa mais realista do que encarar, com radicalidade, a necessidade de reconstruir as bases do nosso modo de existir. A palavra “radical” não é aqui um adorno retórico: ela vem de radix, raiz — e só transformações profundas, enraizadas na justiça, podem conter a força destrutiva do colapso climático e civilizacional.

O horizonte da mudança não pode se limitar a metas de carbono gerenciadas por fóruns multilaterais que se arrastam há décadas sem coragem de romper com o extrativismo. Não haverá futuro viável se a transição energética for apenas mais um mercado para as mesmas corporações que hoje destroem ecossistemas. É preciso reimaginar a economia a partir da regeneração, da redistribuição de poder e riqueza, da restauração da terra e da reconciliação com os ciclos vitais do planeta. Isso implica deslocar o centro de gravidade do debate climático: do Norte global para o Sul global, dos gabinetes corporativos para os movimentos comunitários, das métricas financeiras para os direitos territoriais, do lucro para o cuidado.

Energia renovável, agroecologia, transportes públicos de massa, reabilitação de solos, reflorestamentos dirigidos, proteção das águas — tudo isso já existe tecnicamente. Mas nada disso será sustentável se não for acompanhado por uma transformação social, cultural e simbólica que desarme a lógica da mercantilização absoluta, que devolva a noção de bem comum como princípio civilizatório. Pois de nada adianta trocar carvão por painéis solares se continuarmos consumindo territórios, corpos, culturas e subjetividades numa velocidade que ultrapassa qualquer capacidade regenerativa.

Aqui, é fundamental apontar, de forma metodologicamente transparente, que as projeções preditivas mais sólidas (baseadas em cenários do IPCC, nos Shared Socioeconomic Pathways) demonstram: sem redução de desigualdades, sem sistemas de governança democrática, sem redistribuição de renda, não há caminho de contenção climática realista. Ou seja, não é apenas a energia que precisa mudar — é a arquitetura inteira da convivência humana. Esta conclusão, por mais dura que soe, é respaldada por dezenas de estudos revisados por pares que mostram a inviabilidade de estabilizar o aquecimento global num contexto de desigualdade estrutural crescente.

Transformar radicalmente o horizonte significa aceitar que “ajustes” não bastam. Que não se trata de salvar o planeta, mas de salvar a própria humanidade de sua autossabotagem, de seu delírio colonial, de sua cegueira ecocida. O horizonte possível exige reconhecer que soluções reais não virão de quem lucra com o desastre, mas de quem ousa recriar outras formas de viver, plantadas nas margens, nos territórios, nas redes populares, nos saberes ancestrais.

É nesse ponto que a transformação deixa de ser apenas técnica e passa a ser ontológica — transformando, junto, o nosso modo de habitar, de consumir, de produzir sentido. E sem essa transformação no nível mais profundo da experiência, qualquer vitória tecnológica será apenas um paliativo, que adia o inevitável.

O horizonte está, portanto, aberto: ou seguimos a fábula suicida de progresso infinito, com data marcada para o colapso, ou elegemos, juntos, outra história — na qual a Terra não seja um palco de pilhagem, mas um laço que nos devolve a possibilidade de futuro. O tempo para escolher não é confortável, mas é agora.

Ou seja…

Talvez a tragédia maior não seja o colapso em si, mas a recusa coletiva em olhar para ele de frente. Pois há uma crueldade silenciosa em perceber que a humanidade não sucumbe por ignorância, mas por soberba — por insistir em negar os limites do mundo que a sustenta. Quando as mudanças climáticas se somarem, de maneira definitiva, à crise civilizacional, não teremos mais a chance de alegar surpresa. Porque tudo já estava escrito: nos dados, nas previsões, nos gritos sufocados dos que sempre souberam que a ferida colonial, o racismo estrutural, o patriarcado e o capitalismo predatório jamais ficariam sem resposta da própria Terra.

A civilização que celebra o lucro acima de qualquer sentido de pertencimento, que converteu rios em esgoto e florestas em mercadoria, que ergueu muralhas para defender privilégios enquanto esmagava corpos negros, indígenas e pobres — essa civilização não terá futuro se não refizer radicalmente sua relação com a vida. E quando a catástrofe climática bater à porta, não chegará sozinha: trará, junto, as ruínas do projeto moderno, as rachaduras de democracias capturadas pelo dinheiro, a falência de solidariedades, a derrocada de qualquer ética comum.

Ainda assim, há um lampejo de possibilidade. Pois dentro do mesmo colapso lateja a chance de reinvenção, de reaprender a viver em comunidade, de reatar alianças perdidas entre seres humanos e a Terra. Mas este lampejo exige coragem: coragem para romper com modelos de poder que prometem “adaptação” apenas para os ricos, coragem para enfrentar os donos do carbono e das armas, coragem para defender até o fim a ideia de que toda vida importa — não apenas a vida que gera dividendos.

Se não houver essa coragem, restará o pior: um mundo sitiado, brutalizado, onde cada gesto de cuidado será criminalizado, e cada gota d’água, transformada em ativo financeiro. Não há saída técnica para um colapso civilizacional se não houver, antes, um movimento profundo de reconstrução moral e política, capaz de reinventar a própria noção de civilização.

O tempo, esse tempo que corre e não perdoa, nos chama a escolher. Porque se a mudança climática se soma ao desmonte do tecido civilizacional, não será apenas o planeta que perderemos — será a própria ideia de futuro, de dignidade, de humanidade partilhada.

Este ensaio não pretende ser um epitáfio, mas um convite. Um convite a sentir na pele o tremor desta hora histórica, a rejeitar as anestesias do negacionismo e do fatalismo, e a cultivar, em cada gesto, a possibilidade de um outro mundo. Pois mesmo às vésperas do colapso, resta sempre a centelha de insurgência que faz a história dar voltas — e renascer.

Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global.

A ideologia da positividade e a destruição do dissenso: um ensaio dialético

A ideologia da positividade e a destruição do dissenso: um ensaio dialético

Por Reynaldo Aragon

Num tempo em que sorrir virou mandamento, a positividade compulsória se ergue como a mais sutil e devastadora arma do capitalismo: silencia a dor, dissolve o conflito, esteriliza a política. Este ensaio rasga o verniz brilhante do otimismo tóxico para devolver ao dissenso sua dignidade transformadora. Porque só quem ousa dizer não, pode reconstruir o nós.

Vivemos num tempo em que a positividade se ergueu como mandamento absoluto. Ser positivo, sorrir, motivar-se, ressignificar toda dor, converter todo fracasso em oportunidade: eis a cartilha moral da era digital, repetida como oração laica nos corredores corporativos, nas timelines luminosas, nas rodas de conversas empobrecidas pelo vocabulário do coaching. O imperativo da positividade não tolera a recusa, não admite o protesto, não suporta a crítica; é um dogma suave que se inscreve nos corpos e nas mentes como segundo instinto, e, ao mesmo tempo, dissolve o dissenso na espuma anestésica do otimismo.

“A crítica da religião se transforma na crítica do direito, a crítica do direito na crítica da política, e a crítica da política na crítica da economia política.” – Karl Mark

A cultura da positividade não é uma flor, espontânea, brotada do espírito humano contemporâneo: ela é, antes de tudo, um produto histórico, político e econômico. É a forma ideológica específica do capitalismo digital avançado para conter a potência do conflito, para domesticar a negação, para mutilar a imaginação política que ousa sonhar outro mundo. Seu sorriso não é inocente; sua leveza é brutal.

Byung-Chul Han descreveu com precisão a exaustão do sujeito contemporâneo, esmagado pela positividade compulsória. Mark Fisher denunciou a prisão mental do realismo capitalista, onde não cabe alternativa nem esperança. Wendy Brown desnudou a captura neoliberal da esfera pública, onde a cidadania se torna performance e a política vira gestão de si. Cada um desses autores, à sua maneira, apontou a ruína subjetiva e coletiva gerada por um sistema que exige entusiasmo mesmo no abismo.

Mas é ao olhar de Marx e da tradição materialista histórico-dialética que cabe rasgar o véu final: a positividade tóxica não paira sobre as pessoas como névoa moral, mas brota do ventre da exploração capitalista, que precisa impedir a negação radical, precisa sufocar a luta, a rebeldia, a crítica, para garantir a reprodução de sua ordem. Essa positividade é o cimento ideológico que preenche as rachaduras de um sistema podre, e, ao mesmo tempo, anestesia os corpos para aceitarem a dor sem transformá-la em levante.

Este ensaio quer mergulhar nesta engrenagem com a faca afiada do materialismo dialético. Quer rastrear, em cada canto, como a positividade compulsória se construiu como dispositivo hegemônico, servindo ao capital para neutralizar a política e suprimir o dissenso. Quer ouvir os ecos de Han, Fisher e Brown, mas reinscrevê-los na gramática da luta de classes, onde a negação não é doença, mas condição da liberdade.

Sigamos, então, sem medo do conflito porque só o conflito faz a história caminhar.

Marx: ideologia, alienação e a negação negada

No coração do pensamento marxista lateja uma verdade incômoda: toda sociedade de classes forja, ao lado de suas estruturas econômicas, as engrenagens ideológicas necessárias para naturalizar a dominação. Não basta explorar; é preciso convencer o explorado de que sua servidão é justa, inevitável ou até virtuosa. É nesse ponto que a ideologia deixa de ser mera ilusão e se converte em condição indispensável para a reprodução do capital.

Marx, ao desconstruir as engrenagens do capitalismo industrial, revelou que a ideologia não paira como uma nuvem de engano voluntário, mas se entranha na materialidade da vida social, moldando percepções, hábitos, linguagens, afetos. Ao formatar a consciência, a ideologia pacifica a luta, nega a negação, paralisa o potencial transformador que brota da contradição. E se há algo que a história ensina, na leitura dialética, é que a mudança nasce do choque, do antagonismo, do dissenso que se organiza.

A positividade tóxica, nesse sentido, é uma forma ideológica extraordinariamente eficiente. Ao prescrever o otimismo como única via aceitável, ela sequestra o dissenso antes mesmo que este floresça, transformando a dor em falha individual, o fracasso em prova de insuficiência pessoal, e a revolta em desequilíbrio psicológico. Como um anestésico administrado em doses diárias, a positividade bloqueia a percepção da exploração, impedindo que a negação, a recusa, a denúncia, a indignação se articule enquanto força histórica viva.

Alienação, para Marx, não é somente afastamento do produto do trabalho, mas estranhamento de si, do outro e do mundo. O trabalhador, alienado, não reconhece a própria força como força social transformadora. A positividade compulsória amplifica esse estranhamento, pois retira do indivíduo a possibilidade de identificar a raiz estrutural de sua dor, empurrando-o para soluções mágicas, motivacionais, atomizadas, incapazes de tocar na contradição de classe.

E aqui se revela sua função mais perversa: a positividade compulsória não apenas ilude, ela desarma. Porque se toda crítica se transforma em “negatividade”, resta ao indivíduo apenas dobrar-se ao sistema, ainda que este o sufoque. A negação, que seria a centelha da transformação, é rotulada como erro, como vício, como fracasso de caráter. E assim, o capital respira aliviado: sua paz se sustenta sobre a mutilação simbólica do conflito.

Este é o solo fértil onde a positividade germina como dispositivo histórico: não uma patologia espontânea, mas uma necessidade funcional à ordem burguesa. Em cada sorriso imposto, há uma máquina de silenciamento; em cada palavra de motivação, um gesto de legitimação da exploração. Por isso, resgatar Marx significa devolver ao dissenso sua dignidade, restituindo a negação ao seu lugar originário, o de motor da história.

Gramsci: hegemonia, senso comum e consentimento.

Antonio Gramsci nos ensina que o poder capitalista não se sustenta apenas sobre a coerção, mas sobre um pacto profundamente assimétrico de consentimento. Não basta dominar corpos; é preciso conquistar mentes e corações. Essa conquista se dá através da produção de um senso comum, tecido no cotidiano, capaz de fazer parecer natural aquilo que é, na verdade, imposição histórica.

Gramsci chama esse processo de hegemonia: a construção de uma direção cultural, moral e intelectual que legitima a ordem dominante e neutraliza a força potencial do conflito de classes. Ao capturar a imaginação popular, a hegemonia se apresenta como horizonte único, dissolvendo alternativas e marginalizando todo gesto de recusa.

A positividade tóxica é uma engrenagem essencial dessa hegemonia contemporânea. Ela molda sujeitos que internalizam a exploração como falha pessoal e, ao mesmo tempo, celebram a resiliência como virtude suprema. Sob o manto suave de “vencer desafios”, a positividade transforma derrotas coletivas em desafios individuais, e a solidariedade em performance de autoajuda. Assim, o senso comum se estrutura num código afetivo, onde a negação do sistema não cabe, pois o fracasso sempre será culpa de quem não foi suficientemente otimista.

Gramsci nos ajuda a perceber que esse senso comum não surge do nada: ele é trabalhado pacientemente pelos aparelhos privados de hegemonia (escolas, meios de comunicação, igrejas, redes digitais) que propagam valores, narrativas e afetos funcionalmente adaptados ao capital. O otimismo compulsório, nesse quadro, não é apenas um modismo motivacional, mas uma tecnologia política sofisticada para domesticar consciências.

A positividade, assim, reforça o consentimento. Consentimento para aceitar salários degradantes, jornadas extenuantes, vidas precárias, desde que se tenha força para “superar”, para “fazer acontecer”, para sorrir apesar da dor. Consentimento para abdicar da ação coletiva, pois a política se torna sinônimo de negatividade, e a negatividade é crime moral num mundo regido pelo imperativo do entusiasmo.

Gramsci nos oferece, portanto, a chave para decifrar essa positividade como hegemonia afetiva: uma forma de governo dos sentimentos, afinada à lógica neoliberal, que desarma a crítica e fragmenta a solidariedade. E nos lembra, acima de tudo, que somente a ruptura do senso comum, somente a contra-hegemonia forjada na prática política e no conflito organizado, poderá devolver à história a sua energia transformadora.

Byung-Chul Han: a positividade como performance neoliberal.

Byung-Chul Han, com a precisão cirúrgica de quem observa a alma de um tempo, nomeou a era atual como a era do desempenho. Não vivemos mais sob o signo da disciplina que moldava sujeitos obedientes, mas sob a tirania de uma liberdade aparente que exige, paradoxalmente, um desempenho ilimitado. A positividade, nessa ordem, não é apenas um adorno cultural: ela se torna motor da produtividade, uma engrenagem vital para manter o sujeito girando na roda do capital sem questionar a estrutura que o esmaga.

Han descreve o sujeito de desempenho como aquele que se explora voluntariamente, convencido de que toda falha é falta de esforço, toda dor é falta de entusiasmo. Esse sujeito internaliza a positividade como imperativo ético, tornando-se ao mesmo tempo, patrão e escravo de si mesmo. A positividade, nesse contexto, não é mero estado de espírito. É uma técnica de governo das almas.

Mas há um ponto onde Han recua: embora ilumine as patologias do excesso de positividade, depressão, burnout, cansaço crônico, ele não interroga de forma radical sua raiz material. O materialismo histórico-dialético pode avançar justamente onde Han para, ao revelar que o sujeito de desempenho não é produto do acaso, mas resultado de relações sociais e econômicas que exigem flexibilidade, docilidade, hiperdisponibilidade e autogestão. É o capital, em sua fase neoliberal, que precisa dissolver laços de classe, solidariedades históricas e projetos coletivos, substituindo-os por uma ética narcisista e isolada de superação pessoal.

A positividade compulsória, portanto, não brota da alma humana. Brota do capital, que para seguir acumulando, depende de corpos dóceis, mentes anestesiadas, afetos capturados. O não se torna um risco, pois pode travar a engrenagem. O dissenso se torna uma ameaça, pois pode romper o fluxo da mercadoria. Logo, a positividade vira antídoto preventivo contra qualquer embrião de negação.

Han nos oferece, assim, uma análise poderosa do adoecimento social, mas o marxismo nos obriga a ir além: a positividade não adoece apenas, ela explora, pois prolonga a alienação e transforma o sofrimento humano em ativo gerencial. Cada lágrima reprimida, cada medo silenciado, cada crítica anulada serve ao capital, garantindo sua reprodução sem fraturas visíveis.

Em última instância, a positividade neoliberal não é um capricho da subjetividade moderna, mas parte integral da estratégia de hegemonia de um sistema que transforma tudo, até os afetos, em mercadoria. A recusa, por isso, é o primeiro passo para retomar o sentido histórico do humano: resgatar a capacidade de dizer não e, a partir daí, reconstruir a possibilidade de dizer nós.

Mark Fisher: realismo capitalista e a colonização do imaginário.

Mark Fisher cravou na carne do nosso tempo a expressão realismo capitalista, essa sensação sufocante de que não existe alternativa, de que o capitalismo não apenas domina o presente, mas sequestra o futuro e torna impensável qualquer horizonte de transformação. No mundo moldado por esse realismo, a positividade compulsória cumpre um papel sinistro: ela opera como muleta ideológica para suportar um sistema sem sonhos, sem esperança, sem utopias.

A positividade, nesse cenário, não passa de um recurso narcotizante. Ao anestesiar o sofrimento e converter toda angústia em problema de gestão pessoal, ela paralisa a imaginação política, exilando o dissenso para a terra do impossível. Fisher apontou com clareza: a força do capitalismo tardio não está apenas na exploração econômica, mas na captura do imaginário, no bloqueio das alternativas, na destruição da capacidade de desejar outro mundo.

O imperativo do otimismo, disseminado como doutrina de autoajuda, alinha-se perfeitamente a esse projeto de colonização do pensamento. O realismo capitalista precisa que as pessoas se mantenham motivadas, mas jamais indignadas. Precisa que tolerem a precariedade, mas não que a transformem em luta. Precisa que convertam a crítica em fracasso individual, e o fracasso em lição de superação. Assim, a positividade se torna uma das colunas mestras do edifício ideológico que sustenta o “não há alternativa”.

Do ponto de vista marxista, a positividade compulsória serve para naturalizar a exploração, mascarando as contradições estruturais e interditando qualquer faísca de insubordinação. O dissenso é demonizado como negatividade, e a negatividade, por sua vez, como ameaça à própria estabilidade psíquica. Num mundo onde o otimismo vira obrigação, a revolta se converte em patologia, e a recusa em crime moral.

Fisher nos convida, então, a restituir ao imaginário sua potência revolucionária. E o materialismo histórico-dialético nos lembra que o imaginário não brota do nada, mas nasce das condições materiais concretas que o tornam possível. Precisamos recuperar a capacidade de desejar o impossível, pois só assim podemos enxergar que o impossível de hoje é a realidade transformada de amanhã. Romper com o realismo capitalista significa devolver ao dissenso seu lugar legítimo: o de gesto inaugural de um futuro emancipado.

Wendy Brown: vulnerabilidade, neoliberalismo e democracia esvaziada.

Wendy Brown, ao analisar as engrenagens do neoliberalismo, nos adverte sobre um processo ainda mais devastador do que a simples mercantilização da vida: a corrosão da própria ideia de política. Sob o neoliberalismo, a esfera pública vai sendo gradualmente esvaziada, transformada num simulacro de participação onde a cidadania se dissolve na lógica da gestão, e o comum se reduz a uma soma de empreendimentos individuais.

Nesse ambiente, a positividade compulsória ocupa lugar de destaque. Ela converte a vulnerabilidade, que poderia ser percebida como condição compartilhada, portanto, passível de ação coletiva e solidariedade, em falha moral. Cada sujeito, transformado em gestor de si mesmo, passa a carregar não apenas o peso de sobreviver, mas também o de justificar seus próprios tropeços como fraqueza de caráter. O espaço da política, lugar histórico de disputa e conflito, é convertido em vitrine de performances otimistas, onde qualquer expressão de dor se torna inconveniente e qualquer crítica soa como desajuste.

A positividade, ao negar a legitimidade do sofrimento coletivo, atua como operador de fragmentação social. Ela impede a percepção de pertencimento de classe, desfaz laços de solidariedade e bloqueia a construção de um nós capaz de intervir na realidade. Assim, o neoliberalismo se alimenta dessa fragmentação: indivíduos isolados, consumidos pela gestão de si, sem horizonte de transformação, tornam-se presas fáceis para a exploração e a manipulação política.

Wendy Brown nos oferece a chave para entender como esse processo corrói a democracia em sua raiz: sem conflito, sem antagonismo, sem capacidade de dizer não, a democracia se torna espetáculo vazio, ritual inofensivo, incapaz de enfrentar as desigualdades estruturais que a ameaçam. A positividade tóxica, nesse quadro, é aliada perfeita do neoliberalismo, pois transforma cidadãos em performers satisfeitos, sempre sorrindo, sempre resilientes, sempre inofensivos.

O materialismo histórico-dialético, por sua vez, devolve a esses fragmentos a possibilidade de se recompor em força histórica viva. Ele nos recorda que a vulnerabilidade, longe de ser vergonha, pode ser motor de solidariedade, porque expõe a dependência mútua que estrutura toda forma de vida humana. Resgatar a política significa, pois, resgatar o direito de sofrer coletivamente, de transformar essa dor em palavra pública, de erguê-la como bandeira para a ação e a organização.

No lugar da positividade obrigatória, ergue-se, então, a recusa como ato inaugural de reconstrução do comum. O dissenso não destrói a democracia. Ao contrário, a funda. E sem dissenso, resta apenas a solidão gerencial do neoliberalismo, onde cada um afunda em seu próprio sorriso, sem sequer ter a quem pedir socorro.

Articulação dialética: síntese e negação radical

Todas as vozes que ecoaram até aqui, Marx, Gramsci, Byung-Chul Han, Mark Fisher, Wendy Brown, nos ajudam a decifrar a positividade compulsória como uma engrenagem cuidadosamente forjada para proteger o capital de seu maior risco: o risco da negação.

No solo da exploração, a positividade nasce como ideologia funcional, pois impede que a dor se organize em discurso, que o discurso se organize em movimento, que o movimento se organize em práxis transformadora. Se toda angústia vira falha individual, se toda indignação vira negatividade patológica, então não há conflito, e sem conflito, não há história.

O materialismo histórico-dialético nos oferece o gesto mais profundo e corajoso: recusar a naturalização desta positividade como um dado eterno da condição humana. Ele nos obriga a olhar para a positividade não como escolha moral, mas como resultado de processos materiais, históricos e de classe. Nos obriga a perguntar: a quem serve a positividade? E a resposta emerge cristalina, ela serve ao capital, que precisa de corpos dóceis e mentes domesticadas, de afetos domesticáveis e sonhos colonizados.

É nesse ponto que a negação radical se impõe como urgência histórica. Porque negar não é sinônimo de destruição estéril; ao contrário, negar é afirmar a possibilidade de outro mundo. O dissenso é a fagulha que reacende a imaginação política, que resgata a solidariedade como forma de resistência, que restitui à dor coletiva sua dignidade e seu poder.

A positividade compulsória destrói a política ao extirpar o dissenso. Romper esse cerco significa devolver à política sua condição originária de conflito, de disputa, de antagonismo legítimo entre projetos de sociedade. O sorriso imposto pelo capital não é a paz — é a paz dos cemitérios, onde não há vozes, não há histórias, não há sonhos.

Cabe a quem ainda deseja emancipação erguer o não, mas um não dialético: aquele que se levanta não apenas contra, mas também para o comum, para a dignidade, para a liberdade, para a reconstrução de uma humanidade que se recusa a ser reduzida à performance de si.

Eis o desafio que nos resta: restaurar o dissenso como motor da democracia, devolver à negação seu lugar de honra na história, rasgar o véu anestésico da positividade tóxica e resgatar a potência viva do coletivo. Porque só na recusa nasce a possibilidade do novo. E porque, como nos ensinou Marx, a história avança não pela harmonia, mas pela força criadora do conflito.

Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global.