3I Atlas, mergulho cometário, a dialética do cosmos e a beleza da ciência

Uma jornada filosófica e científica pelos mergulhos cometários que iluminam o céu e desafiam nossos paradigmas

Por Reynaldo Aragon 

Em 2025, múltiplos cometas atravessam o Sistema Solar, trazendo consigo não apenas espetáculo celeste, mas também contradições, mistérios e novas perguntas. Este ensaio mergulha no diálogo entre astronomia e filosofia — de Marx a Engels, de Gramsci a Althusser, com a inspiração poética de Carl Sagan — para mostrar como a ciência, em sua beleza, é também filosofia, política e emancipação humana.

Introdução

Escrevo estas páginas como alguém que sempre caminhou no terreno das ciências humanas — pesquisador das formas políticas, dos comportamentos sociais, das tecnologias que modulam a vida. Nunca fui exímio em matemática; os números, para mim, sempre tiveram mais ares de muralha do que de estrada. Mas aprendi que a ciência não se reduz às equações que não sei resolver: ela pulsa também na perplexidade, na intuição, na capacidade de espanto.

É desse espanto que nasce este ensaio. Trago comigo um amor profundo por toda a ciência, mas a astronomia tem o poder de desarmar minhas defesas racionais e expor aquilo que há de mais vulnerável em mim: a emoção diante do cosmos. Não é a emoção fácil, do clichê ou da metáfora vazia. É a emoção que nasce do rigor, da consciência de que cada ponto de luz no céu carrega séculos de cálculo, séculos de erros e superações, séculos de luta entre paradigmas. É a emoção que reconhece, na trajetória de um cometa, a contradição entre conservação e destruição, entre permanência e dissolução, entre o arquivo do passado e a fagulha de futuro.

Ao escolher escrever sobre os cometas de 2025, não o faço como astrônomo, mas como alguém que se recusa a aceitar fronteiras rígidas entre ciência e filosofia, entre cálculo e poética. Sigo o farol do Materialismo Histórico-Dialético, aprendendo com ENGELS, MARX, GRAMSCI e ALTHUSSER que a natureza, como a história, é movimento dialético: contradições em processo, negações que se superam, sínteses que se refazem. E encontro em Carl Sagan — herói da ciência e da astrofísica — a prova de que o conhecimento, quando partilhado com ternura, pode ser também beleza e emancipação.

Escrevo, portanto, não para competir com a técnica dos astrônomos, mas para unir minhas ferramentas — a filosofia, a política, a crítica — ao espanto diante do céu. O que apresento aqui é um testemunho: de como a ciência, longe de ser neutralidade fria, pode ser também filosofia viva, poesia material e pedagogia popular. É um convite para que cada cometa seja visto não apenas como fenômeno celeste, mas como lição dialética: o universo nos ensinando, mais uma vez, que nada é absoluto, tudo é movimento.

Abertura — O céu como dialética viva

O céu nunca foi um quadro imóvel, ainda que os olhos humanos o tenham contemplado durante séculos como se fosse estático. Desde as primeiras cosmologias até a revolução copernicana, o firmamento foi interpretado como esfera de ordem, harmonia e permanência. Mas a astronomia, quando lida sob o farol do Materialismo Histórico-Dialético, revela outra verdade: o cosmos é contradição em movimento, síntese de processos que se afirmam e se negam sem cessar. É exatamente esse horizonte que 2025 nos apresenta, com a chegada quase simultânea de múltiplos cometas — mensageiros gelados, arquivos do passado primordial, mas também anunciadores da negação de nossas certezas.

Um cometa não é apenas poeira e gelo vagando ao acaso. Ele é a memória material de bilhões de anos condensada num núcleo que, ao se aproximar do Sol, entra em conflito com sua própria estrutura. O aquecimento solar é ao mesmo tempo força vital e força destrutiva: sublima o gelo, rasga a superfície, lança jatos de gás e plasma que criam a cauda. O que era sólido se dissolve, o que era invisível se torna espetáculo. Aqui a natureza confirma ENGELS: a dialética está inscrita na própria tessitura do real. A conservação é acompanhada da destruição, a ordem contém o germe do caos, e a beleza nasce justamente do embate entre contrários.

Mas essa contradição não é apenas natural; é também epistemológica. Cada mergulho cometário desafia os paradigmas astronômicos vigentes, força a ciência a revisar hipóteses, a recalibrar modelos, a se refazer no contato com o inesperado. Se o positivismo prometia leis definitivas, os cometas lembram que a astronomia é feita de incertezas férteis. MARX nos advertia que a verdade é sempre histórica; na astronomia, a verdade é sempre transitória, provisória, submetida ao julgamento dos fótons que chegam às lentes e dos rastros que queimam nas câmeras CCD. Não há ciência sem crise, e não há crise sem avanço.

Gramsci entenderia esses cometas como momentos de hegemonia cultural em disputa. Um céu riscado de luz não é apenas fenômeno físico: é também uma abertura simbólica, uma possibilidade de pedagogia popular. Quando o povo olha para cima e se pergunta “o que é isso?”, a ciência disputa sentidos, enfrenta o irracional, planta sementes de crítica e de encantamento. A astronomia é, nesse sentido, não só ciência natural, mas também ciência social: constrói narrativas, organiza o senso comum, disputa espaço na cultura. O brilho de um cometa é, ao mesmo tempo, cauda de poeira e trincheira cultural.

Sob esse prisma, o céu de 2025 é um laboratório dialético. De um lado, o visitante interestelar 3I/ATLAS nos lembra que não somos totalidade fechada: somos atravessados pelo outro, pelo imprevisto, pela alteridade cósmica. De outro, os cometas R2 (SWAN) e A6 (Lemmon) prometem um espetáculo acessível, democratizando o espanto científico em noites de outubro. No mesmo ano, G3 (ATLAS) se fragmentou, negando nossas previsões e oferecendo mais perguntas que respostas. O cosmos ensina: nada é absoluto, tudo é processo. A astronomia, nessa chave, não é um catálogo de leis, mas uma filosofia material da mudança.

É nessa encruzilhada entre ciência e filosofia, entre método e poética, que se ergue este ensaio. Uma ode à astronomia como prática dialética: nem dogma, nem superstição, mas caminho humano para compreender que a beleza está na contradição, e que a verdade, como os cometas, é sempre movimento.

Contradições do tempo e do espaço — o Outro cósmico

O céu de 2025 não nos oferece apenas belezas previsíveis. Entre os visitantes gelados que retornam cíclicos, há um intruso radical: 3I/ATLAS, o terceiro objeto interestelar a atravessar nosso sistema. Diferente dos filhos da Nuvem de Oort, sua órbita é hiperbólica: não se curva ao domínio do Sol, apenas o atravessa, segue adiante e some no escuro. É o signo da alteridade cósmica, o “Outro” que irrompe sem pedir licença, lembrando-nos que o Sistema Solar não é totalidade fechada, mas apenas recorte de um processo maior, aberto, incompleto.

Esse corpo estranho tensiona não só a gravidade, mas também a própria ciência. Por décadas, os manuais repetiram que a astronomia lidava com objetos conhecidos: planetas, asteroides, cometas de longo ou curto período. Mas em 2017, com ʻOumuamua, e em 2019, com Borisov, essa certeza foi negada. Agora, em 2025, a negação se repete. ALTHUSSER diria que vivemos um corte epistemológico: quando um objeto recusa ser explicado pelas categorias antigas, somos obrigados a produzir novas. A ciência não avança por acumulação linear de dados, mas por rupturas que desorganizam o pensamento e obrigam a reorganizar todo o edifício.

A trajetória de 3I/ATLAS é mais que uma curva em equações diferenciais. Ela é metáfora do tempo histórico. Se a órbita elíptica é o ciclo, a repetição, a volta que garante previsibilidade, a órbita hiperbólica é o evento, a irrupção que não retorna. MARX lembrava que a história se move em saltos, que o processo histórico não é mera sucessão cronológica, mas ruptura qualitativa. O cometa interestelar, ao atravessar nosso céu, materializa essa lógica: não vem para repetir, mas para negar, para romper, para deslocar o horizonte de normalidade.

Para a filosofia da ciência, cada aparição interestelar é um lembrete da insuficiência de nossos paradigmas. A estatística orbital previa raridade quase infinita desses encontros; a realidade, em menos de uma década, já nos apresentou três. O imprevisto exige teoria nova. É a negação do positivismo que ainda insiste em confundir ciência com certeza. A dialética ensina: a verdade não é imóvel, mas movimento. ENGELS, em A Dialética da Natureza, advertia que a ciência precisa aprender a lidar com o “absolutamente inesperado”, com a irrupção do novo que nega nossas leis provisórias. O 3I/ATLAS é justamente isso: um desmentido que ilumina.

Na mesma chave, GRAMSCI nos ajuda a pensar a dimensão cultural dessa aparição. O senso comum tende a transformar o desconhecido em superstição ou em espetáculo midiático. A hegemonia científica, por sua vez, tem a tarefa de disputar esse espaço simbólico: ensinar que o estranho não é ameaça, mas riqueza; que o inesperado não é sinal de desordem, mas motor da história natural. O cometa interestelar é, nesse sentido, trincheira cultural: pode ser apropriado pela pseudociência, mas também pode ser momento de pedagogia pública, em que a ciência revela sua grandeza filosófica.

Assim, 3I/ATLAS não é apenas um ponto fraco de luz nos telescópios. É uma contradição viva entre tempo e espaço, repetição e ruptura, ordem e caos. É a prova material de que o cosmos não cabe em nossos manuais, e que a ciência, se quiser ser verdadeira, deve aceitar o desafio de se reinventar. Aqui se revela a grande lição dialética: o universo não confirma nossas certezas, ele as nega — e é dessa negação que nasce o conhecimento.

O espetáculo do inesperado e a pedagogia do espanto

Há momentos em que o cosmos decide falar diretamente ao povo. Outubro de 2025 será um desses instantes raros: dois cometas, C/2025 R2 (SWAN) e C/2025 A6 (Lemmon), prometem cruzar o céu em magnitudes capazes de serem vistas a olho nu. Não se trata apenas de cálculo orbital ou de tabelas técnicas de magnitude. Trata-se de uma experiência coletiva: crianças, trabalhadores, velhos e jovens poderão erguer os olhos numa mesma noite e testemunhar uma dança luminosa que conecta a Terra ao infinito.

Esse encontro é, ao mesmo tempo, espetáculo e lição. O espetáculo reside na cauda que se acende, nos gases e poeiras que se desprendem do núcleo gelado para formar um rastro que desafia a escuridão. A lição está na dialética material: o brilho do cometa não é sinal de estabilidade, mas de crise. O que aparece no céu é a contradição entre conservação e destruição, entre arquivo e transformação. O núcleo, ao sublimar, dissolve-se. O espetáculo é, na verdade, a morte lenta do cometa. Mas é justamente nesse colapso que nasce sua beleza.

GRAMSCI falava da luta pela hegemonia cultural como a batalha para conquistar o senso comum. Os cometas de outubro são trincheiras nessa luta. O senso comum pode ver neles sinais, presságios, superstições. A ciência, se souber disputar esse momento, pode transformá-los em pedagogia do espanto. Não se trata de reduzir a beleza a fórmulas físicas, mas de mostrar que a explicação não elimina o encanto — pelo contrário, o amplia. O povo que entende que está vendo gelo de bilhões de anos sublimar diante do Sol não perde a poesia: ganha consciência.

E aqui reencontramos a dialética marxista: a beleza não está na suspensão da razão, mas na união entre razão e emoção. O espanto, quando mediado pela ciência, torna-se ferramenta de emancipação. Não há necessidade de escolher entre poesia e método; o cometa mostra que ambos podem coexistir. O brilho que deslumbra os olhos é o mesmo que alimenta gráficos fotométricos e debates acadêmicos. A mesma cauda que emociona uma criança pode redefinir modelos teóricos de sublimação. Eis a síntese dialética entre popular e erudito, entre experiência sensível e abstração científica.

Esse momento de outubro será, portanto, mais do que um evento astronômico: será uma oportunidade histórica de reencantar o mundo sem recorrer à superstição. Um céu riscado por dois cometas, sob a Lua Nova e as chuvas de meteoros Orionídeas, será assembleia cósmica e pedagógica. A ciência, aqui, torna-se hegemonia cultural no sentido gramsciano: ganha legitimidade ao tocar o coração do povo.

O fracasso como triunfo da ciência

Janeiro de 2025 trouxe um cometa que parecia destinado ao heroísmo: C/2024 G3 (ATLAS), um sungrazer que mergulhou a menos de 0,1 UA do Sol. Durante dias, astrônomos e curiosos esperaram um espetáculo, uma aurora cósmica digna dos livros. Mas o que se seguiu foi outro tipo de beleza: o núcleo não resistiu à proximidade solar e se fragmentou, deixando para trás rastros difusos, uma pluma desordenada, uma cauda de sódio e potássio que se dissipava em silêncio. O que muitos chamaram de fracasso foi, para a dialética da ciência, um triunfo.

Pois o que a observação mostrou não foi o vazio, mas a negação de nossas expectativas. O colapso expôs camadas internas, sugeriu fragilidade estrutural, revelou composições inesperadas. Cada pedaço desprendido, cada linha espectral captada, foi uma negação fértil que obrigou a comunidade científica a rever modelos sobre sublimação, resistência térmica e estatística de sobrevivência dos sungrazers. Em vez de espetáculo popular, tivemos revolução conceitual.

É aqui que o Materialismo Histórico-Dialético se mostra mais potente que qualquer epistemologia positivista. O positivismo lamenta: “o cometa falhou em produzir luz suficiente”. A dialética celebra: “o cometa negou nossas hipóteses e nos fez avançar”. ENGELS, ao falar da contradição como motor da natureza, já antevia essa pedagogia: só há progresso quando o real força a teoria a se refazer. MARX, ao dissecar as crises do capital, mostrou o mesmo princípio: o colapso não é fim, mas ponto de partida para nova forma. Assim também no céu: o desmoronamento de G3 foi crise geradora, superação em ato.

O olhar filosófico nos convida a ir além da astronomia descritiva. O cometa fragmentado é uma alegoria da própria ciência: construída em núcleos provisórios, desgastada pela proximidade com o real, obrigada a se romper para revelar novas camadas. A verdade científica não é bloco indestrutível, é processo de autonegação contínua. Cada previsão falha não destrói a ciência, mas a fortalece.

GRAMSCI diria que o fracasso de um cometa visível é também disputa cultural. As manchetes rápidas podem transformá-lo em desapontamento para o público, em espetáculo que não se cumpriu. Cabe à ciência, em sua função hegemônica, traduzir o “fracasso” em pedagogia: mostrar que a beleza não estava em ver um rastro brilhante, mas em compreender a natureza frágil dos blocos primordiais que nos contam sobre a formação do Sistema Solar. O espetáculo, afinal, não é só para os olhos: é para a razão crítica.

O caso de G3 (ATLAS) reafirma a maior das lições: o verdadeiro triunfo da ciência está em sua capacidade de aprender com a contradição, não em evitar o erro. O céu, aqui, é professor dialético.

Carl Sagan e a poética material do cosmos

Em meio à linguagem severa das órbitas e das equações diferenciais, há uma voz que ainda ecoa como música: a de Carl Sagan. Se Marx e Engels nos ensinaram a compreender o mundo em sua materialidade histórica, se Gramsci nos mostrou a batalha das ideias e Althusser nos lembrou das rupturas epistemológicas, Sagan fez algo igualmente revolucionário: mostrou que a ciência pode ser também ternura, poesia e esperança. Ele compreendeu que a astronomia não é só cálculo frio — é a narrativa de quem somos, de onde viemos e de como poderíamos ser melhores.

Sagan soube traduzir a física do cosmos em ética para a Terra. Ao lembrar que “somos feitos de poeira de estrelas”, não usava metáfora, mas constatação científica. E, no entanto, essa frase carregava mais que informação: era a síntese dialética entre objetividade e emoção, entre dados espectroscópicos e imaginação humana. Engels falava da dialética da natureza; Sagan a reencenou para milhões, fazendo da ciência uma pedagogia popular, uma hegemonia cultural capaz de disputar corações e mentes contra o obscurantismo.

O que Sagan nos deu foi uma ciência que não se furta ao espanto. Enquanto alguns tentam reduzir a astronomia a números e curvas, ele insistia na beleza como parte da verdade. Não se tratava de romantizar, mas de compreender que a beleza não é ornamento: é consequência do próprio real. O cometa que ilumina o céu não brilha para ser visto; mas, ao ser visto, nos ensina sobre nós mesmos. O espetáculo natural torna-se espelho da nossa pequenez e da nossa potência.

Aqui, a ponte com o Materialismo Histórico-Dialético é nítida. A ciência, quando reduzida a positivismo, morre em sua própria arrogância. Mas quando aceita o inesperado, o contraditório, o frágil e o poético, se torna emancipação. Marx dizia que o objetivo não é apenas interpretar o mundo, mas transformá-lo. Sagan aplicou esse princípio à cultura científica: não basta entender o cosmos, é preciso transformar o modo como o povo o percebe, romper com o senso comum alienado e substituí-lo por uma consciência cósmica.

Sagan, portanto, é herói da ciência e da astrofísica não por ter descoberto novos mundos, mas por ter feito do cosmos um patrimônio cultural da humanidade. Ele provou que a astronomia não é privilégio de especialistas, mas prática popular, política e poética. Ao lado de Marx, Engels, Gramsci e Althusser, seu nome compõe essa constelação de pensadores que lembram: a ciência, para ser plena, precisa ser também filosofia e beleza.

A astronomia como filosofia material

A história da astronomia não é apenas uma sequência de descobertas técnicas. Ela é, na verdade, um campo de batalha filosófico, uma arena onde se enfrentam concepções de mundo, paradigmas e hegemonias culturais. Cada revolução no olhar para o céu foi também uma revolução na maneira como o ser humano se compreende. Copérnico, Newton, Einstein, Vera Rubin — todos protagonizaram mais que avanços científicos: produziram rupturas históricas no tecido cultural e político da humanidade.

O Materialismo Histórico-Dialético nos ajuda a ler essa trajetória. Se a astronomia nasceu como contemplação metafísica dos astros, sua maturação só foi possível quando a observação se aliou ao cálculo e à crítica das velhas concepções. Copérnico, ao deslocar a Terra do centro do cosmos, não apenas reformou o sistema astronômico: abalou o edifício ideológico da Igreja e inaugurou uma luta por nova hegemonia cultural. Foi um momento de “guerra de manobra”, diria GRAMSCI — ruptura brusca que redistribuiu poder simbólico.

Depois, Newton ergueu a lei da gravitação universal como síntese que unificava os céus e a Terra. Não era mais um cosmos dividido entre “acima” e “abaixo”: tudo obedecia à mesma dialética da atração. Foi a construção de uma nova “trincheira” no senso comum científico. A ciência se tornava parte do projeto de modernidade, de desenvolvimento das forças produtivas, alimentando revoluções políticas e econômicas. A astronomia não era neutra; era fundamento da própria ordem burguesa nascente.

Mas a dialética não para. Einstein, ao reformular tempo e espaço, negou e superou a mecânica newtoniana. A relatividade mostrou que até o tecido do cosmos é contraditório: espaço e tempo não são absolutos, mas se curvam diante da matéria e da energia. Essa negação foi também uma revolução epistemológica, no sentido althusseriano: ruptura com os limites da ciência anterior. E a recepção popular dessas ideias mostrou que até os conceitos mais abstratos da física se tornam matéria de cultura, poesia, política.

No século XX, outra figura rompeu com os paradigmas ocultos: Vera Rubin, ao medir as curvas de rotação galáctica, revelou a presença da matéria escura. Mais uma vez, o cosmos negava nossas certezas. Rubin mostrou que a maior parte do universo não é visível — e que nossa teoria ainda é insuficiente. Aqui, a dialética se manifesta na contradição entre aparência e essência: o que vemos não é o todo; o essencial se esconde, e a ciência precisa cavar mais fundo.

Assim, a astronomia deve ser entendida como filosofia material em prática. Não é apenas coleção de dados, mas movimento histórico em que hipóteses são negadas, superadas e incorporadas em novas sínteses. É uma verdadeira “guerra de posições” no sentido gramsciano: não há vitória definitiva, mas avanços lentos, trincheira por trincheira, contra a ignorância e o obscurantismo. Cada telescópio lançado, cada cometa estudado, cada curva espectral analisada é uma posição conquistada na longa batalha da humanidade para compreender o real.

Por isso, a astronomia é mais do que ciência: é filosofia e política em ato. Ela desnaturaliza o dogma, questiona a ordem aparente, reconfigura nossa relação com o mundo. É, em última instância, prática de emancipação.

Conclusão — Ode à dialética cósmica

A travessia de cometas em 2025 não é mero registro astronômico. É uma metáfora material, uma alegoria viva do modo como a própria realidade se organiza: em movimento, em contradição, em negação e superação. Se o positivismo nos prometeu certezas definitivas, os cometas nos devolvem a dialética: o núcleo que se dissolve para brilhar, o visitante interestelar que recusa os manuais, a previsão que falha para nos ensinar de novo.

ENGELS, em sua Dialética da Natureza, já intuía que a ciência não podia ser compreendida como acúmulo linear de dados, mas como história de saltos e rupturas. MARX nos lembrava que não há verdade fora da história, que o real é processo. GRAMSCI via a batalha cultural como disputa por hegemonia — e os cometas, ao despertarem olhares coletivos, mostram que a ciência também disputa corações e mentes, que cada fenômeno celeste pode ser trincheira contra o obscurantismo. ALTHUSSER falaria aqui de cortes epistemológicos: objetos que rompem a continuidade e obrigam a ciência a se refazer. E Carl Sagan, em sua ternura cósmica, nos ensinou que a ciência é também poesia, que o método pode andar de mãos dadas com o espanto.

Os cometas de 2025 são arquivos do passado e ao mesmo tempo motores de revolução teórica. São conservadores e destruidores, arquivos e fogos de artifício, silêncio milenar e explosão súbita. Eles nos recordam que o cosmos não cabe em fórmulas fixas: exige humildade, exige coragem, exige imaginação. São uma lição de filosofia prática: o real não é estático, é dialético.

Por isso, contemplá-los é mais do que ver luzes no céu. É participar de um processo histórico maior, em que a humanidade aprende com o inesperado. É entender que a ciência não salva o mundo pelo acúmulo de certezas, mas pela capacidade de transformar o erro em caminho, a crise em avanço, a contradição em beleza. É aceitar que o conhecimento é provisório, mas a busca é infinita.

Assim, o céu de 2025 se eleva como manifesto: uma ode à dialética cósmica, à ciência que não teme o imprevisto, à filosofia que encontra poesia no real. Os cometas passam, mas a lição fica: a beleza do universo é que ele nunca confirma nossos dogmas — ele sempre os nega, e dessa negação nos faz mais humanos.

Ensaio publicado originalmente em <código aberto> 

A ideologia da positividade e a destruição do dissenso: um ensaio dialético

A ideologia da positividade e a destruição do dissenso: um ensaio dialético

Por Reynaldo Aragon

Num tempo em que sorrir virou mandamento, a positividade compulsória se ergue como a mais sutil e devastadora arma do capitalismo: silencia a dor, dissolve o conflito, esteriliza a política. Este ensaio rasga o verniz brilhante do otimismo tóxico para devolver ao dissenso sua dignidade transformadora. Porque só quem ousa dizer não, pode reconstruir o nós.

Vivemos num tempo em que a positividade se ergueu como mandamento absoluto. Ser positivo, sorrir, motivar-se, ressignificar toda dor, converter todo fracasso em oportunidade: eis a cartilha moral da era digital, repetida como oração laica nos corredores corporativos, nas timelines luminosas, nas rodas de conversas empobrecidas pelo vocabulário do coaching. O imperativo da positividade não tolera a recusa, não admite o protesto, não suporta a crítica; é um dogma suave que se inscreve nos corpos e nas mentes como segundo instinto, e, ao mesmo tempo, dissolve o dissenso na espuma anestésica do otimismo.

“A crítica da religião se transforma na crítica do direito, a crítica do direito na crítica da política, e a crítica da política na crítica da economia política.” – Karl Mark

A cultura da positividade não é uma flor, espontânea, brotada do espírito humano contemporâneo: ela é, antes de tudo, um produto histórico, político e econômico. É a forma ideológica específica do capitalismo digital avançado para conter a potência do conflito, para domesticar a negação, para mutilar a imaginação política que ousa sonhar outro mundo. Seu sorriso não é inocente; sua leveza é brutal.

Byung-Chul Han descreveu com precisão a exaustão do sujeito contemporâneo, esmagado pela positividade compulsória. Mark Fisher denunciou a prisão mental do realismo capitalista, onde não cabe alternativa nem esperança. Wendy Brown desnudou a captura neoliberal da esfera pública, onde a cidadania se torna performance e a política vira gestão de si. Cada um desses autores, à sua maneira, apontou a ruína subjetiva e coletiva gerada por um sistema que exige entusiasmo mesmo no abismo.

Mas é ao olhar de Marx e da tradição materialista histórico-dialética que cabe rasgar o véu final: a positividade tóxica não paira sobre as pessoas como névoa moral, mas brota do ventre da exploração capitalista, que precisa impedir a negação radical, precisa sufocar a luta, a rebeldia, a crítica, para garantir a reprodução de sua ordem. Essa positividade é o cimento ideológico que preenche as rachaduras de um sistema podre, e, ao mesmo tempo, anestesia os corpos para aceitarem a dor sem transformá-la em levante.

Este ensaio quer mergulhar nesta engrenagem com a faca afiada do materialismo dialético. Quer rastrear, em cada canto, como a positividade compulsória se construiu como dispositivo hegemônico, servindo ao capital para neutralizar a política e suprimir o dissenso. Quer ouvir os ecos de Han, Fisher e Brown, mas reinscrevê-los na gramática da luta de classes, onde a negação não é doença, mas condição da liberdade.

Sigamos, então, sem medo do conflito porque só o conflito faz a história caminhar.

Marx: ideologia, alienação e a negação negada

No coração do pensamento marxista lateja uma verdade incômoda: toda sociedade de classes forja, ao lado de suas estruturas econômicas, as engrenagens ideológicas necessárias para naturalizar a dominação. Não basta explorar; é preciso convencer o explorado de que sua servidão é justa, inevitável ou até virtuosa. É nesse ponto que a ideologia deixa de ser mera ilusão e se converte em condição indispensável para a reprodução do capital.

Marx, ao desconstruir as engrenagens do capitalismo industrial, revelou que a ideologia não paira como uma nuvem de engano voluntário, mas se entranha na materialidade da vida social, moldando percepções, hábitos, linguagens, afetos. Ao formatar a consciência, a ideologia pacifica a luta, nega a negação, paralisa o potencial transformador que brota da contradição. E se há algo que a história ensina, na leitura dialética, é que a mudança nasce do choque, do antagonismo, do dissenso que se organiza.

A positividade tóxica, nesse sentido, é uma forma ideológica extraordinariamente eficiente. Ao prescrever o otimismo como única via aceitável, ela sequestra o dissenso antes mesmo que este floresça, transformando a dor em falha individual, o fracasso em prova de insuficiência pessoal, e a revolta em desequilíbrio psicológico. Como um anestésico administrado em doses diárias, a positividade bloqueia a percepção da exploração, impedindo que a negação, a recusa, a denúncia, a indignação se articule enquanto força histórica viva.

Alienação, para Marx, não é somente afastamento do produto do trabalho, mas estranhamento de si, do outro e do mundo. O trabalhador, alienado, não reconhece a própria força como força social transformadora. A positividade compulsória amplifica esse estranhamento, pois retira do indivíduo a possibilidade de identificar a raiz estrutural de sua dor, empurrando-o para soluções mágicas, motivacionais, atomizadas, incapazes de tocar na contradição de classe.

E aqui se revela sua função mais perversa: a positividade compulsória não apenas ilude, ela desarma. Porque se toda crítica se transforma em “negatividade”, resta ao indivíduo apenas dobrar-se ao sistema, ainda que este o sufoque. A negação, que seria a centelha da transformação, é rotulada como erro, como vício, como fracasso de caráter. E assim, o capital respira aliviado: sua paz se sustenta sobre a mutilação simbólica do conflito.

Este é o solo fértil onde a positividade germina como dispositivo histórico: não uma patologia espontânea, mas uma necessidade funcional à ordem burguesa. Em cada sorriso imposto, há uma máquina de silenciamento; em cada palavra de motivação, um gesto de legitimação da exploração. Por isso, resgatar Marx significa devolver ao dissenso sua dignidade, restituindo a negação ao seu lugar originário, o de motor da história.

Gramsci: hegemonia, senso comum e consentimento.

Antonio Gramsci nos ensina que o poder capitalista não se sustenta apenas sobre a coerção, mas sobre um pacto profundamente assimétrico de consentimento. Não basta dominar corpos; é preciso conquistar mentes e corações. Essa conquista se dá através da produção de um senso comum, tecido no cotidiano, capaz de fazer parecer natural aquilo que é, na verdade, imposição histórica.

Gramsci chama esse processo de hegemonia: a construção de uma direção cultural, moral e intelectual que legitima a ordem dominante e neutraliza a força potencial do conflito de classes. Ao capturar a imaginação popular, a hegemonia se apresenta como horizonte único, dissolvendo alternativas e marginalizando todo gesto de recusa.

A positividade tóxica é uma engrenagem essencial dessa hegemonia contemporânea. Ela molda sujeitos que internalizam a exploração como falha pessoal e, ao mesmo tempo, celebram a resiliência como virtude suprema. Sob o manto suave de “vencer desafios”, a positividade transforma derrotas coletivas em desafios individuais, e a solidariedade em performance de autoajuda. Assim, o senso comum se estrutura num código afetivo, onde a negação do sistema não cabe, pois o fracasso sempre será culpa de quem não foi suficientemente otimista.

Gramsci nos ajuda a perceber que esse senso comum não surge do nada: ele é trabalhado pacientemente pelos aparelhos privados de hegemonia (escolas, meios de comunicação, igrejas, redes digitais) que propagam valores, narrativas e afetos funcionalmente adaptados ao capital. O otimismo compulsório, nesse quadro, não é apenas um modismo motivacional, mas uma tecnologia política sofisticada para domesticar consciências.

A positividade, assim, reforça o consentimento. Consentimento para aceitar salários degradantes, jornadas extenuantes, vidas precárias, desde que se tenha força para “superar”, para “fazer acontecer”, para sorrir apesar da dor. Consentimento para abdicar da ação coletiva, pois a política se torna sinônimo de negatividade, e a negatividade é crime moral num mundo regido pelo imperativo do entusiasmo.

Gramsci nos oferece, portanto, a chave para decifrar essa positividade como hegemonia afetiva: uma forma de governo dos sentimentos, afinada à lógica neoliberal, que desarma a crítica e fragmenta a solidariedade. E nos lembra, acima de tudo, que somente a ruptura do senso comum, somente a contra-hegemonia forjada na prática política e no conflito organizado, poderá devolver à história a sua energia transformadora.

Byung-Chul Han: a positividade como performance neoliberal.

Byung-Chul Han, com a precisão cirúrgica de quem observa a alma de um tempo, nomeou a era atual como a era do desempenho. Não vivemos mais sob o signo da disciplina que moldava sujeitos obedientes, mas sob a tirania de uma liberdade aparente que exige, paradoxalmente, um desempenho ilimitado. A positividade, nessa ordem, não é apenas um adorno cultural: ela se torna motor da produtividade, uma engrenagem vital para manter o sujeito girando na roda do capital sem questionar a estrutura que o esmaga.

Han descreve o sujeito de desempenho como aquele que se explora voluntariamente, convencido de que toda falha é falta de esforço, toda dor é falta de entusiasmo. Esse sujeito internaliza a positividade como imperativo ético, tornando-se ao mesmo tempo, patrão e escravo de si mesmo. A positividade, nesse contexto, não é mero estado de espírito. É uma técnica de governo das almas.

Mas há um ponto onde Han recua: embora ilumine as patologias do excesso de positividade, depressão, burnout, cansaço crônico, ele não interroga de forma radical sua raiz material. O materialismo histórico-dialético pode avançar justamente onde Han para, ao revelar que o sujeito de desempenho não é produto do acaso, mas resultado de relações sociais e econômicas que exigem flexibilidade, docilidade, hiperdisponibilidade e autogestão. É o capital, em sua fase neoliberal, que precisa dissolver laços de classe, solidariedades históricas e projetos coletivos, substituindo-os por uma ética narcisista e isolada de superação pessoal.

A positividade compulsória, portanto, não brota da alma humana. Brota do capital, que para seguir acumulando, depende de corpos dóceis, mentes anestesiadas, afetos capturados. O não se torna um risco, pois pode travar a engrenagem. O dissenso se torna uma ameaça, pois pode romper o fluxo da mercadoria. Logo, a positividade vira antídoto preventivo contra qualquer embrião de negação.

Han nos oferece, assim, uma análise poderosa do adoecimento social, mas o marxismo nos obriga a ir além: a positividade não adoece apenas, ela explora, pois prolonga a alienação e transforma o sofrimento humano em ativo gerencial. Cada lágrima reprimida, cada medo silenciado, cada crítica anulada serve ao capital, garantindo sua reprodução sem fraturas visíveis.

Em última instância, a positividade neoliberal não é um capricho da subjetividade moderna, mas parte integral da estratégia de hegemonia de um sistema que transforma tudo, até os afetos, em mercadoria. A recusa, por isso, é o primeiro passo para retomar o sentido histórico do humano: resgatar a capacidade de dizer não e, a partir daí, reconstruir a possibilidade de dizer nós.

Mark Fisher: realismo capitalista e a colonização do imaginário.

Mark Fisher cravou na carne do nosso tempo a expressão realismo capitalista, essa sensação sufocante de que não existe alternativa, de que o capitalismo não apenas domina o presente, mas sequestra o futuro e torna impensável qualquer horizonte de transformação. No mundo moldado por esse realismo, a positividade compulsória cumpre um papel sinistro: ela opera como muleta ideológica para suportar um sistema sem sonhos, sem esperança, sem utopias.

A positividade, nesse cenário, não passa de um recurso narcotizante. Ao anestesiar o sofrimento e converter toda angústia em problema de gestão pessoal, ela paralisa a imaginação política, exilando o dissenso para a terra do impossível. Fisher apontou com clareza: a força do capitalismo tardio não está apenas na exploração econômica, mas na captura do imaginário, no bloqueio das alternativas, na destruição da capacidade de desejar outro mundo.

O imperativo do otimismo, disseminado como doutrina de autoajuda, alinha-se perfeitamente a esse projeto de colonização do pensamento. O realismo capitalista precisa que as pessoas se mantenham motivadas, mas jamais indignadas. Precisa que tolerem a precariedade, mas não que a transformem em luta. Precisa que convertam a crítica em fracasso individual, e o fracasso em lição de superação. Assim, a positividade se torna uma das colunas mestras do edifício ideológico que sustenta o “não há alternativa”.

Do ponto de vista marxista, a positividade compulsória serve para naturalizar a exploração, mascarando as contradições estruturais e interditando qualquer faísca de insubordinação. O dissenso é demonizado como negatividade, e a negatividade, por sua vez, como ameaça à própria estabilidade psíquica. Num mundo onde o otimismo vira obrigação, a revolta se converte em patologia, e a recusa em crime moral.

Fisher nos convida, então, a restituir ao imaginário sua potência revolucionária. E o materialismo histórico-dialético nos lembra que o imaginário não brota do nada, mas nasce das condições materiais concretas que o tornam possível. Precisamos recuperar a capacidade de desejar o impossível, pois só assim podemos enxergar que o impossível de hoje é a realidade transformada de amanhã. Romper com o realismo capitalista significa devolver ao dissenso seu lugar legítimo: o de gesto inaugural de um futuro emancipado.

Wendy Brown: vulnerabilidade, neoliberalismo e democracia esvaziada.

Wendy Brown, ao analisar as engrenagens do neoliberalismo, nos adverte sobre um processo ainda mais devastador do que a simples mercantilização da vida: a corrosão da própria ideia de política. Sob o neoliberalismo, a esfera pública vai sendo gradualmente esvaziada, transformada num simulacro de participação onde a cidadania se dissolve na lógica da gestão, e o comum se reduz a uma soma de empreendimentos individuais.

Nesse ambiente, a positividade compulsória ocupa lugar de destaque. Ela converte a vulnerabilidade, que poderia ser percebida como condição compartilhada, portanto, passível de ação coletiva e solidariedade, em falha moral. Cada sujeito, transformado em gestor de si mesmo, passa a carregar não apenas o peso de sobreviver, mas também o de justificar seus próprios tropeços como fraqueza de caráter. O espaço da política, lugar histórico de disputa e conflito, é convertido em vitrine de performances otimistas, onde qualquer expressão de dor se torna inconveniente e qualquer crítica soa como desajuste.

A positividade, ao negar a legitimidade do sofrimento coletivo, atua como operador de fragmentação social. Ela impede a percepção de pertencimento de classe, desfaz laços de solidariedade e bloqueia a construção de um nós capaz de intervir na realidade. Assim, o neoliberalismo se alimenta dessa fragmentação: indivíduos isolados, consumidos pela gestão de si, sem horizonte de transformação, tornam-se presas fáceis para a exploração e a manipulação política.

Wendy Brown nos oferece a chave para entender como esse processo corrói a democracia em sua raiz: sem conflito, sem antagonismo, sem capacidade de dizer não, a democracia se torna espetáculo vazio, ritual inofensivo, incapaz de enfrentar as desigualdades estruturais que a ameaçam. A positividade tóxica, nesse quadro, é aliada perfeita do neoliberalismo, pois transforma cidadãos em performers satisfeitos, sempre sorrindo, sempre resilientes, sempre inofensivos.

O materialismo histórico-dialético, por sua vez, devolve a esses fragmentos a possibilidade de se recompor em força histórica viva. Ele nos recorda que a vulnerabilidade, longe de ser vergonha, pode ser motor de solidariedade, porque expõe a dependência mútua que estrutura toda forma de vida humana. Resgatar a política significa, pois, resgatar o direito de sofrer coletivamente, de transformar essa dor em palavra pública, de erguê-la como bandeira para a ação e a organização.

No lugar da positividade obrigatória, ergue-se, então, a recusa como ato inaugural de reconstrução do comum. O dissenso não destrói a democracia. Ao contrário, a funda. E sem dissenso, resta apenas a solidão gerencial do neoliberalismo, onde cada um afunda em seu próprio sorriso, sem sequer ter a quem pedir socorro.

Articulação dialética: síntese e negação radical

Todas as vozes que ecoaram até aqui, Marx, Gramsci, Byung-Chul Han, Mark Fisher, Wendy Brown, nos ajudam a decifrar a positividade compulsória como uma engrenagem cuidadosamente forjada para proteger o capital de seu maior risco: o risco da negação.

No solo da exploração, a positividade nasce como ideologia funcional, pois impede que a dor se organize em discurso, que o discurso se organize em movimento, que o movimento se organize em práxis transformadora. Se toda angústia vira falha individual, se toda indignação vira negatividade patológica, então não há conflito, e sem conflito, não há história.

O materialismo histórico-dialético nos oferece o gesto mais profundo e corajoso: recusar a naturalização desta positividade como um dado eterno da condição humana. Ele nos obriga a olhar para a positividade não como escolha moral, mas como resultado de processos materiais, históricos e de classe. Nos obriga a perguntar: a quem serve a positividade? E a resposta emerge cristalina, ela serve ao capital, que precisa de corpos dóceis e mentes domesticadas, de afetos domesticáveis e sonhos colonizados.

É nesse ponto que a negação radical se impõe como urgência histórica. Porque negar não é sinônimo de destruição estéril; ao contrário, negar é afirmar a possibilidade de outro mundo. O dissenso é a fagulha que reacende a imaginação política, que resgata a solidariedade como forma de resistência, que restitui à dor coletiva sua dignidade e seu poder.

A positividade compulsória destrói a política ao extirpar o dissenso. Romper esse cerco significa devolver à política sua condição originária de conflito, de disputa, de antagonismo legítimo entre projetos de sociedade. O sorriso imposto pelo capital não é a paz — é a paz dos cemitérios, onde não há vozes, não há histórias, não há sonhos.

Cabe a quem ainda deseja emancipação erguer o não, mas um não dialético: aquele que se levanta não apenas contra, mas também para o comum, para a dignidade, para a liberdade, para a reconstrução de uma humanidade que se recusa a ser reduzida à performance de si.

Eis o desafio que nos resta: restaurar o dissenso como motor da democracia, devolver à negação seu lugar de honra na história, rasgar o véu anestésico da positividade tóxica e resgatar a potência viva do coletivo. Porque só na recusa nasce a possibilidade do novo. E porque, como nos ensinou Marx, a história avança não pela harmonia, mas pela força criadora do conflito.

Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global.