O corpo em disputa: metaintermediação algorítmica e soberania perdida

Entre amor, desejo e sofrimento, o corpo tornou-se campo de disputa silenciosa sob o domínio das plataformas digitais

Por Reynaldo Aragon 

Este ensaio mergulha na carne viva da nossa existência: como aplicativos de saúde, namoro e produtividade transformam emoções e sinais vitais em mercadorias. Um convite à reflexão sobre a luta pela soberania do corpo em tempos de captura algorítmica.

O corpo como trincheira

Acordamos, todos os dias, cercados de números. O coração que pulsa em silêncio é traduzido em gráficos que medem desempenho. O sono, que antes era repouso, agora tem relatório que acusa falhas. O amor, que sempre foi encontro incerto, virou algoritmo de compatibilidade e rejeição gamificada. O corpo — essa matéria concreta da vida, essa força produtiva que sustenta a história — já não é apenas carne e energia, mas variável estatística, ativo financeiro, dado a ser explorado.

O capitalismo digital colonizou a pele, o pulso, o olhar. Transformou desejo em dado, ansiedade em gráfico, esperança em notificação. Não se trata apenas de vigiar: trata-se de modular comportamentos, reforçar docilidade, administrar emoções como quem administra estoques. A psicologia comportamental, antes instrumento para compreender e libertar, foi apropriada como técnica de comando suave. Badges, streaks, metas e recompensas intermitentes transformam a vida cotidiana em laboratório de obediência.

Mas o que significa viver assim? Que soberania resta quando até a respiração pode ser indexada por uma plataforma? Quando o direito ao erro, ao acaso, à contingência — aquilo que faz da vida vida — é suprimido em nome da otimização? A cada relatório de sono mal dormido, a cada match perdido, a cada passo não dado, somos atravessados por uma pedagogia de culpa e de insuficiência. A promessa de cuidado converte-se em disciplina; a promessa de saúde, em ansiedade; a promessa de felicidade, em solidão.

Este ensaio parte de uma certeza dura: o corpo é hoje a última trincheira da luta de classes. Se no passado o capital disputava nossas mãos nas fábricas e nossas horas de trabalho, agora disputa nossos batimentos cardíacos, nossos desejos mais íntimos, nossas cicatrizes emocionais. A batalha é silenciosa, mas visceral. E sua questão central é inescapável: seremos corpos otimizados para o lucro ou corpos soberanos para a vida?

O corpo no materialismo histórico-dialético

O corpo nunca foi neutro. Ele é o primeiro território da luta de classes, o fundamento de toda produção social. Desde os primórdios, o capital aprendeu a transformar músculos, nervos e energia vital em mercadoria. No chão das fábricas, as mãos foram cronometreadas; nos campos, o suor foi medido em colheitas; no fordismo, cada gesto foi reduzido a movimento repetido em nome da eficiência. O corpo, força produtiva histórica, foi moldado como engrenagem de uma máquina maior.

O materialismo histórico nos mostra que cada época traz novas formas de subordinação da vida ao capital. Se o século XIX domesticou braços e pernas sob o chicote e a disciplina fabril, o século XXI captura pulsações, respirações, desejos. Já não basta controlar a hora do trabalho: agora se disputa a hora do sono, a intensidade da respiração, a cadência da caminhada, a frequência do coração apaixonado. É a subsunção real da vida — quando não apenas o trabalho, mas a própria existência, é devorada pela lógica da exploração.

A dialética revela a contradição: aquilo que poderia ser libertação — tecnologia capaz de aliviar a fadiga, cuidar da saúde, ampliar o tempo livre — é apropriado como nova forma de opressão. Os algoritmos aparecem como “cuidadores”, mas operam como patrões invisíveis, modulando condutas, recompensando obediência, punindo desvios. Onde o trabalhador antes se via na máquina, hoje se vê no dashboard. Onde o corpo antes se dobrava ao ritmo da sirene, agora se curva ao ritmo da notificação.

O capital não se contenta mais em explorar nossas horas: ele coloniza nossos segundos. O corpo não é apenas o espaço do trabalho, é também o espaço da mercadoria, da estatística, do ativo financeiro. Cada batimento capturado, cada passo registrado, cada emoção quantificada — tudo se converte em mais-valor. A vida em si torna-se força produtiva em tempo integral.

Psicologia comportamental e a captura algorítmica

O capital aprendeu a falar a língua da psicologia comportamental. Não mais apenas chicote, relógio de ponto ou metas industriais: agora é o algoritmo quem administra prêmios, punições e reforços. As plataformas digitais são laboratórios de condicionamento operante em escala de massas.

Cada notificação é um estímulo; cada “like” é um reforço positivo; cada badge conquistado é uma recompensa simbólica que nos faz voltar no dia seguinte. Da mesma forma, cada falha registrada — uma noite mal dormida, uma meta de passos não alcançada, um match que não veio — atua como punição sutil, cultivando culpa e docilidade. O cotidiano é reorganizado em torno de uma pedagogia invisível: o sujeito não apenas age, mas aprende a se auto-regular para satisfazer os critérios de um sistema opaco.

Skinner mostrou que o reforço intermitente — aquele que não se sabe quando virá — é o mais poderoso. É exatamente essa lógica que sustenta os apps: a promessa de que o próximo match, a próxima recompensa, a próxima métrica verde virá a qualquer momento. E é por isso que voltamos, repetidamente, compulsivamente. O capital não se contenta em governar nossos atos: governa agora nossas expectativas.

Esse é o coração da captura algorítmica: transformar desejo em variável controlável, esperança em instrumento de docilização, sofrimento em engrenagem produtiva. O corpo, ao ser condicionado, aprende a dançar no ritmo do algoritmo — e cada passo que dá alimenta a mesma engrenagem que o aprisiona.

Sintomas e cicatrizes – a carne marcada pela métrica

O corpo não sai ileso da captura algorítmica. A cada métrica imposta, a cada dashboard iluminado, a cada gráfico que separa sucesso de fracasso, nascem sintomas e cicatrizes que não são apenas psicológicas, mas físicas, concretas, encarnadas. A colonização não é abstrata: ela se imprime na pele, no sono, no desejo, no estômago vazio de ansiedade.

No amor e no desejo, os algoritmos hierarquizam afetos, transformando encontros em estatística e rejeições em notificações silenciosas. O que antes era acaso, surpresa, paixão inesperada, hoje é filtro, ranking, escassez artificial. O desejo, força vital que sempre escapou à disciplina, é agora calibrado em “matches” e “likes”. Cicatriz: uma solidão amplificada, onde o corpo aprende que vale tanto quanto a relevância que um código lhe concede.

No sono e no repouso, a cama se converte em laboratório. A cada noite mal dormida, um relatório de fracasso; a cada insônia, uma curva vermelha que acusa. A promessa de cuidado transforma-se em ortossonia: obsessão em dormir “corretamente”, medo de não render. Cicatriz: a noite, que deveria ser refúgio, torna-se mais um espaço de ansiedade.

Na alimentação e no movimento, calorias são moedas e passos são metas. O prato deixa de ser prazer ou partilha: é dashboard. O corpo aprende que comer não é nutrir-se, mas evitar estar “fora da meta”. O caminhar não é mais liberdade, mas disciplina medida. Cicatriz: a vida cotidiana rebaixada a jogo de punições e recompensas.

Na alegria e na tristeza, a captura é ainda mais perversa. A dopamina, que deveria nascer do encontro com o mundo, é agora racionada por notificações. Cada sorriso diante da tela é reforço intermitente; cada decepção é punição invisível. Alegria fabricada, tristeza contabilizada, esperança sequestrada. Cicatriz: sentimentos autênticos dissolvidos em reforços artificiais.

O resultado é um corpo marcado. Insônia, ansiedade, distúrbios alimentares, solidão digital, depressão — sintomas que são ao mesmo tempo pessoais e coletivos. Cicatrizes que carregamos não apenas como indivíduos, mas como classe, como geração submetida a uma pedagogia de insuficiência.

Alienação deixa de ser conceito distante: ela pulsa no peito acelerado, na pele cansada, nos olhos que não fecham à noite. É a alienação tornada fisiologia. É a vida reduzida à métrica, à régua do capital.

Subsunção real da vida pelo capital algorítmico

No capitalismo digital, já não há fronteiras claras entre tempo de trabalho e tempo de vida. O que Marx chamou de subsunção real — quando o capital não apenas se apropria do produto do trabalho, mas reorganiza inteiramente o processo produtivo — alcança agora uma dimensão radical: a própria vida é integrada como engrenagem da produção.

O corpo não descansa: produz dados enquanto dorme. O coração que pulsa em silêncio é convertido em métrica de saúde para seguradoras, em variável estatística para investidores, em insumo para plataformas. O beijo apaixonado, a corrida solitária, o prato de comida, a insônia — tudo é transformado em fluxo de informação que alimenta algoritmos de predição e modelos de extração de valor.

Essa é a novidade brutal: já não vendemos apenas nossa força de trabalho por horas. Vendemos, mesmo sem saber, cada instante da existência. Cada respiração monitorada é um microtrabalho inconsciente que abastece a máquina de cálculo do capital. O corpo, alienado de si, se torna ativo financeiro: objeto de especulação, moeda para seguros, mercadoria nas mãos de quem controla as plataformas.

A promessa de emancipação tecnológica — a possibilidade de aliviar a fadiga, cuidar da saúde, ampliar a liberdade — é revertida em colonização. O mesmo dispositivo que poderia libertar o corpo do cansaço transforma-se em mecanismo de controle e disciplinamento. O algoritmo surge como “cuidador”, mas opera como supervisor invisível, determinando ritmos, recompensando comportamentos, punindo desvios.

Essa colonização total marca um salto histórico. O capital não apenas compra o tempo do trabalhador: ele captura a energia vital, a intimidade, o desejo, a própria substância da vida. O corpo, reduzido a dado, já não pertence ao sujeito que o habita. O que está em jogo não é apenas exploração econômica — é a perda da soberania sobre a carne, sobre os gestos, sobre o que ainda nos restava de humano.

Geopolítica do corpo

A disputa sobre nossos corpos não é apenas íntima, é planetária. O mesmo algoritmo que mede passos em São Paulo calcula também a fertilidade em Nairobi, o batimento cardíaco em Mumbai, o desejo em Buenos Aires. Os metaintermediários não conhecem fronteiras: operam como novos impérios invisíveis, administrando dados biométricos com a mesma lógica de pilhagem que marcou o colonialismo.

No Sul Global, essa colonização digital assume contornos ainda mais brutais. Nossos corpos tornam-se laboratórios, nossas emoções são matéria-prima barata, nossos dados circulam em mercados que não controlamos. Cada pulso, cada noite insone, cada gesto íntimo trafega por servidores situados nos centros do capital global. É uma nova forma de colonialismo: não mais o saque direto de minerais ou terras, mas a extração contínua de dados vitais.

O Brasil, com sua população jovem e hiperconectada, é visto como mina de ouro informacional. Empresas estrangeiras coletam sinais de saúde, padrões de sono, rotinas alimentares, desejos amorosos. Esses dados são processados fora do país, convertidos em mercadorias, revendidos a governos, corporações e seguradoras. Nossa carne, traduzida em código, serve para alimentar modelos de predição que reforçam a hegemonia das potências do Norte.

Aqui, a dialética se impõe com toda a sua força: a soberania do corpo está diretamente entrelaçada à soberania nacional. Quem controla os dados do corpo controla também a força produtiva de uma nação. Ao permitir que algoritmos estrangeiros ditem os ritmos da saúde, da sexualidade e do trabalho, abrimos mão de um pedaço fundamental de nossa autonomia histórica.

O corpo, portanto, é também campo de batalha geopolítico. Na era da metaintermediação algorítmica, lutar pela soberania corporal significa lutar contra a recolonização digital do Sul. É afirmar que nem nossos gestos, nem nossos desejos, nem nossas dores serão mais mercadorias a serviço de impérios invisíveis.

Horizontes de emancipação

Se o capital algorítmico transformou o corpo em ativo estatístico e mercadoria, cabe a nós recolocar a vida no centro. A luta pela soberania do corpo não é metáfora: é projeto político. Significa disputar os rumos da tecnologia, reverter a lógica da captura e afirmar que a respiração, o sono, o amor e a dor pertencem ao humano — não ao capital.

Soberania informacional é soberania do corpo. Não há separação. Cada dado produzido pelo corpo deve ser tratado como extensão da dignidade humana, e não como moeda de troca. Isso implica instituir direitos inegociáveis: o direito à opacidade, à privacidade, ao erro, ao acaso. A vida só é vida quando contém margem de contingência. Eliminar o imprevisível é eliminar a liberdade.

Um projeto socialista de tecnologia precisa nascer da urgência desse tempo. Não basta regular plataformas: é preciso criar infraestruturas públicas e coletivas que sirvam à emancipação, não à exploração. Apps de saúde voltados ao bem-estar coletivo, sem monetização de dados. Algoritmos transparentes, auditáveis, sob controle democrático. Redes digitais que incentivem solidariedade, não competição permanente.

 

  • Critérios materiais de soberania do corpo podem ser desenhados:

 

  • Finalidade pública: tecnologia orientada para necessidades sociais e não para lucro.

 

  • Minimização de dados: coletar apenas o estritamente necessário, nunca a vida inteira.

 

  • Transparência e verificabilidade: algoritmos auditáveis, sujeitos a controle popular.

 

  • Autonomia coletiva: infraestruturas de dados sob comando público e democrático.

Mas há ainda um horizonte mais profundo: o direito à própria experiência humana. O direito de dormir sem relatório, de amar sem filtro, de caminhar sem meta, de sentir tristeza sem ser convertido em métrica. O direito ao acaso, à falha, à imperfeição. Porque é na imperfeição que mora a liberdade, e é na contingência que floresce a vida.

Resistir à colonização algorítmica do corpo é afirmar que a carne não será subsumida ao cálculo. É declarar que nossos gestos não são estatística, que nossos afetos não são mercadoria, que nossos sonhos não cabem em dashboards. É, acima de tudo, recuperar a possibilidade de sermos soberanos sobre nós mesmos.

Conclusão – O corpo como última fronteira da luta de classes

Chegamos ao coração da contradição: o corpo, antes força de trabalho nas fábricas e nos campos, tornou-se agora o território mais íntimo da exploração. Cada batimento cardíaco, cada noite insone, cada gesto de afeto ou solidão é transformado em dado, e cada dado é convertido em valor. O capital não apenas disputa nossas horas: disputa a própria carne, os sentimentos, os sonhos.

É nesse ponto que o materialismo histórico-dialético nos dá clareza: a luta de classes não se limita ao chão de fábrica, mas se expande até a pulsação do corpo. A alienação já não se esconde na distância entre trabalhador e produto do trabalho — ela vibra na ansiedade de não cumprir metas de passos, na culpa de não dormir direito, na solidão gamificada de quem espera um match que nunca vem.

Mas é também aqui, nesse mesmo território de dor, que pode nascer a emancipação. A soberania do corpo é a trincheira final contra o colonialismo algorítmico. Resistir significa afirmar o direito ao acaso, ao erro, à imperfeição — a viver para além da métrica. Significa lutar por tecnologias a serviço da vida, sob controle democrático, orientadas pela dignidade humana e não pela extração de lucro.

O corpo é a última fronteira da luta de classes. Se deixarmos que seja totalmente colonizado, não restará sequer o abrigo íntimo do sono ou o calor inesperado do amor. Mas se defendermos essa trincheira, estaremos também defendendo a possibilidade de um futuro em que a técnica pertença ao povo, e não ao capital.

A escolha é nossa e o tempo é agora: seremos corpos otimizados para o lucro, ou corpos soberanos para a vida.

Ensaio publicado originalmente em <código aberto> 

A ideologia da positividade e a destruição do dissenso: um ensaio dialético

A ideologia da positividade e a destruição do dissenso: um ensaio dialético

Por Reynaldo Aragon

Num tempo em que sorrir virou mandamento, a positividade compulsória se ergue como a mais sutil e devastadora arma do capitalismo: silencia a dor, dissolve o conflito, esteriliza a política. Este ensaio rasga o verniz brilhante do otimismo tóxico para devolver ao dissenso sua dignidade transformadora. Porque só quem ousa dizer não, pode reconstruir o nós.

Vivemos num tempo em que a positividade se ergueu como mandamento absoluto. Ser positivo, sorrir, motivar-se, ressignificar toda dor, converter todo fracasso em oportunidade: eis a cartilha moral da era digital, repetida como oração laica nos corredores corporativos, nas timelines luminosas, nas rodas de conversas empobrecidas pelo vocabulário do coaching. O imperativo da positividade não tolera a recusa, não admite o protesto, não suporta a crítica; é um dogma suave que se inscreve nos corpos e nas mentes como segundo instinto, e, ao mesmo tempo, dissolve o dissenso na espuma anestésica do otimismo.

“A crítica da religião se transforma na crítica do direito, a crítica do direito na crítica da política, e a crítica da política na crítica da economia política.” – Karl Mark

A cultura da positividade não é uma flor, espontânea, brotada do espírito humano contemporâneo: ela é, antes de tudo, um produto histórico, político e econômico. É a forma ideológica específica do capitalismo digital avançado para conter a potência do conflito, para domesticar a negação, para mutilar a imaginação política que ousa sonhar outro mundo. Seu sorriso não é inocente; sua leveza é brutal.

Byung-Chul Han descreveu com precisão a exaustão do sujeito contemporâneo, esmagado pela positividade compulsória. Mark Fisher denunciou a prisão mental do realismo capitalista, onde não cabe alternativa nem esperança. Wendy Brown desnudou a captura neoliberal da esfera pública, onde a cidadania se torna performance e a política vira gestão de si. Cada um desses autores, à sua maneira, apontou a ruína subjetiva e coletiva gerada por um sistema que exige entusiasmo mesmo no abismo.

Mas é ao olhar de Marx e da tradição materialista histórico-dialética que cabe rasgar o véu final: a positividade tóxica não paira sobre as pessoas como névoa moral, mas brota do ventre da exploração capitalista, que precisa impedir a negação radical, precisa sufocar a luta, a rebeldia, a crítica, para garantir a reprodução de sua ordem. Essa positividade é o cimento ideológico que preenche as rachaduras de um sistema podre, e, ao mesmo tempo, anestesia os corpos para aceitarem a dor sem transformá-la em levante.

Este ensaio quer mergulhar nesta engrenagem com a faca afiada do materialismo dialético. Quer rastrear, em cada canto, como a positividade compulsória se construiu como dispositivo hegemônico, servindo ao capital para neutralizar a política e suprimir o dissenso. Quer ouvir os ecos de Han, Fisher e Brown, mas reinscrevê-los na gramática da luta de classes, onde a negação não é doença, mas condição da liberdade.

Sigamos, então, sem medo do conflito porque só o conflito faz a história caminhar.

Marx: ideologia, alienação e a negação negada

No coração do pensamento marxista lateja uma verdade incômoda: toda sociedade de classes forja, ao lado de suas estruturas econômicas, as engrenagens ideológicas necessárias para naturalizar a dominação. Não basta explorar; é preciso convencer o explorado de que sua servidão é justa, inevitável ou até virtuosa. É nesse ponto que a ideologia deixa de ser mera ilusão e se converte em condição indispensável para a reprodução do capital.

Marx, ao desconstruir as engrenagens do capitalismo industrial, revelou que a ideologia não paira como uma nuvem de engano voluntário, mas se entranha na materialidade da vida social, moldando percepções, hábitos, linguagens, afetos. Ao formatar a consciência, a ideologia pacifica a luta, nega a negação, paralisa o potencial transformador que brota da contradição. E se há algo que a história ensina, na leitura dialética, é que a mudança nasce do choque, do antagonismo, do dissenso que se organiza.

A positividade tóxica, nesse sentido, é uma forma ideológica extraordinariamente eficiente. Ao prescrever o otimismo como única via aceitável, ela sequestra o dissenso antes mesmo que este floresça, transformando a dor em falha individual, o fracasso em prova de insuficiência pessoal, e a revolta em desequilíbrio psicológico. Como um anestésico administrado em doses diárias, a positividade bloqueia a percepção da exploração, impedindo que a negação, a recusa, a denúncia, a indignação se articule enquanto força histórica viva.

Alienação, para Marx, não é somente afastamento do produto do trabalho, mas estranhamento de si, do outro e do mundo. O trabalhador, alienado, não reconhece a própria força como força social transformadora. A positividade compulsória amplifica esse estranhamento, pois retira do indivíduo a possibilidade de identificar a raiz estrutural de sua dor, empurrando-o para soluções mágicas, motivacionais, atomizadas, incapazes de tocar na contradição de classe.

E aqui se revela sua função mais perversa: a positividade compulsória não apenas ilude, ela desarma. Porque se toda crítica se transforma em “negatividade”, resta ao indivíduo apenas dobrar-se ao sistema, ainda que este o sufoque. A negação, que seria a centelha da transformação, é rotulada como erro, como vício, como fracasso de caráter. E assim, o capital respira aliviado: sua paz se sustenta sobre a mutilação simbólica do conflito.

Este é o solo fértil onde a positividade germina como dispositivo histórico: não uma patologia espontânea, mas uma necessidade funcional à ordem burguesa. Em cada sorriso imposto, há uma máquina de silenciamento; em cada palavra de motivação, um gesto de legitimação da exploração. Por isso, resgatar Marx significa devolver ao dissenso sua dignidade, restituindo a negação ao seu lugar originário, o de motor da história.

Gramsci: hegemonia, senso comum e consentimento.

Antonio Gramsci nos ensina que o poder capitalista não se sustenta apenas sobre a coerção, mas sobre um pacto profundamente assimétrico de consentimento. Não basta dominar corpos; é preciso conquistar mentes e corações. Essa conquista se dá através da produção de um senso comum, tecido no cotidiano, capaz de fazer parecer natural aquilo que é, na verdade, imposição histórica.

Gramsci chama esse processo de hegemonia: a construção de uma direção cultural, moral e intelectual que legitima a ordem dominante e neutraliza a força potencial do conflito de classes. Ao capturar a imaginação popular, a hegemonia se apresenta como horizonte único, dissolvendo alternativas e marginalizando todo gesto de recusa.

A positividade tóxica é uma engrenagem essencial dessa hegemonia contemporânea. Ela molda sujeitos que internalizam a exploração como falha pessoal e, ao mesmo tempo, celebram a resiliência como virtude suprema. Sob o manto suave de “vencer desafios”, a positividade transforma derrotas coletivas em desafios individuais, e a solidariedade em performance de autoajuda. Assim, o senso comum se estrutura num código afetivo, onde a negação do sistema não cabe, pois o fracasso sempre será culpa de quem não foi suficientemente otimista.

Gramsci nos ajuda a perceber que esse senso comum não surge do nada: ele é trabalhado pacientemente pelos aparelhos privados de hegemonia (escolas, meios de comunicação, igrejas, redes digitais) que propagam valores, narrativas e afetos funcionalmente adaptados ao capital. O otimismo compulsório, nesse quadro, não é apenas um modismo motivacional, mas uma tecnologia política sofisticada para domesticar consciências.

A positividade, assim, reforça o consentimento. Consentimento para aceitar salários degradantes, jornadas extenuantes, vidas precárias, desde que se tenha força para “superar”, para “fazer acontecer”, para sorrir apesar da dor. Consentimento para abdicar da ação coletiva, pois a política se torna sinônimo de negatividade, e a negatividade é crime moral num mundo regido pelo imperativo do entusiasmo.

Gramsci nos oferece, portanto, a chave para decifrar essa positividade como hegemonia afetiva: uma forma de governo dos sentimentos, afinada à lógica neoliberal, que desarma a crítica e fragmenta a solidariedade. E nos lembra, acima de tudo, que somente a ruptura do senso comum, somente a contra-hegemonia forjada na prática política e no conflito organizado, poderá devolver à história a sua energia transformadora.

Byung-Chul Han: a positividade como performance neoliberal.

Byung-Chul Han, com a precisão cirúrgica de quem observa a alma de um tempo, nomeou a era atual como a era do desempenho. Não vivemos mais sob o signo da disciplina que moldava sujeitos obedientes, mas sob a tirania de uma liberdade aparente que exige, paradoxalmente, um desempenho ilimitado. A positividade, nessa ordem, não é apenas um adorno cultural: ela se torna motor da produtividade, uma engrenagem vital para manter o sujeito girando na roda do capital sem questionar a estrutura que o esmaga.

Han descreve o sujeito de desempenho como aquele que se explora voluntariamente, convencido de que toda falha é falta de esforço, toda dor é falta de entusiasmo. Esse sujeito internaliza a positividade como imperativo ético, tornando-se ao mesmo tempo, patrão e escravo de si mesmo. A positividade, nesse contexto, não é mero estado de espírito. É uma técnica de governo das almas.

Mas há um ponto onde Han recua: embora ilumine as patologias do excesso de positividade, depressão, burnout, cansaço crônico, ele não interroga de forma radical sua raiz material. O materialismo histórico-dialético pode avançar justamente onde Han para, ao revelar que o sujeito de desempenho não é produto do acaso, mas resultado de relações sociais e econômicas que exigem flexibilidade, docilidade, hiperdisponibilidade e autogestão. É o capital, em sua fase neoliberal, que precisa dissolver laços de classe, solidariedades históricas e projetos coletivos, substituindo-os por uma ética narcisista e isolada de superação pessoal.

A positividade compulsória, portanto, não brota da alma humana. Brota do capital, que para seguir acumulando, depende de corpos dóceis, mentes anestesiadas, afetos capturados. O não se torna um risco, pois pode travar a engrenagem. O dissenso se torna uma ameaça, pois pode romper o fluxo da mercadoria. Logo, a positividade vira antídoto preventivo contra qualquer embrião de negação.

Han nos oferece, assim, uma análise poderosa do adoecimento social, mas o marxismo nos obriga a ir além: a positividade não adoece apenas, ela explora, pois prolonga a alienação e transforma o sofrimento humano em ativo gerencial. Cada lágrima reprimida, cada medo silenciado, cada crítica anulada serve ao capital, garantindo sua reprodução sem fraturas visíveis.

Em última instância, a positividade neoliberal não é um capricho da subjetividade moderna, mas parte integral da estratégia de hegemonia de um sistema que transforma tudo, até os afetos, em mercadoria. A recusa, por isso, é o primeiro passo para retomar o sentido histórico do humano: resgatar a capacidade de dizer não e, a partir daí, reconstruir a possibilidade de dizer nós.

Mark Fisher: realismo capitalista e a colonização do imaginário.

Mark Fisher cravou na carne do nosso tempo a expressão realismo capitalista, essa sensação sufocante de que não existe alternativa, de que o capitalismo não apenas domina o presente, mas sequestra o futuro e torna impensável qualquer horizonte de transformação. No mundo moldado por esse realismo, a positividade compulsória cumpre um papel sinistro: ela opera como muleta ideológica para suportar um sistema sem sonhos, sem esperança, sem utopias.

A positividade, nesse cenário, não passa de um recurso narcotizante. Ao anestesiar o sofrimento e converter toda angústia em problema de gestão pessoal, ela paralisa a imaginação política, exilando o dissenso para a terra do impossível. Fisher apontou com clareza: a força do capitalismo tardio não está apenas na exploração econômica, mas na captura do imaginário, no bloqueio das alternativas, na destruição da capacidade de desejar outro mundo.

O imperativo do otimismo, disseminado como doutrina de autoajuda, alinha-se perfeitamente a esse projeto de colonização do pensamento. O realismo capitalista precisa que as pessoas se mantenham motivadas, mas jamais indignadas. Precisa que tolerem a precariedade, mas não que a transformem em luta. Precisa que convertam a crítica em fracasso individual, e o fracasso em lição de superação. Assim, a positividade se torna uma das colunas mestras do edifício ideológico que sustenta o “não há alternativa”.

Do ponto de vista marxista, a positividade compulsória serve para naturalizar a exploração, mascarando as contradições estruturais e interditando qualquer faísca de insubordinação. O dissenso é demonizado como negatividade, e a negatividade, por sua vez, como ameaça à própria estabilidade psíquica. Num mundo onde o otimismo vira obrigação, a revolta se converte em patologia, e a recusa em crime moral.

Fisher nos convida, então, a restituir ao imaginário sua potência revolucionária. E o materialismo histórico-dialético nos lembra que o imaginário não brota do nada, mas nasce das condições materiais concretas que o tornam possível. Precisamos recuperar a capacidade de desejar o impossível, pois só assim podemos enxergar que o impossível de hoje é a realidade transformada de amanhã. Romper com o realismo capitalista significa devolver ao dissenso seu lugar legítimo: o de gesto inaugural de um futuro emancipado.

Wendy Brown: vulnerabilidade, neoliberalismo e democracia esvaziada.

Wendy Brown, ao analisar as engrenagens do neoliberalismo, nos adverte sobre um processo ainda mais devastador do que a simples mercantilização da vida: a corrosão da própria ideia de política. Sob o neoliberalismo, a esfera pública vai sendo gradualmente esvaziada, transformada num simulacro de participação onde a cidadania se dissolve na lógica da gestão, e o comum se reduz a uma soma de empreendimentos individuais.

Nesse ambiente, a positividade compulsória ocupa lugar de destaque. Ela converte a vulnerabilidade, que poderia ser percebida como condição compartilhada, portanto, passível de ação coletiva e solidariedade, em falha moral. Cada sujeito, transformado em gestor de si mesmo, passa a carregar não apenas o peso de sobreviver, mas também o de justificar seus próprios tropeços como fraqueza de caráter. O espaço da política, lugar histórico de disputa e conflito, é convertido em vitrine de performances otimistas, onde qualquer expressão de dor se torna inconveniente e qualquer crítica soa como desajuste.

A positividade, ao negar a legitimidade do sofrimento coletivo, atua como operador de fragmentação social. Ela impede a percepção de pertencimento de classe, desfaz laços de solidariedade e bloqueia a construção de um nós capaz de intervir na realidade. Assim, o neoliberalismo se alimenta dessa fragmentação: indivíduos isolados, consumidos pela gestão de si, sem horizonte de transformação, tornam-se presas fáceis para a exploração e a manipulação política.

Wendy Brown nos oferece a chave para entender como esse processo corrói a democracia em sua raiz: sem conflito, sem antagonismo, sem capacidade de dizer não, a democracia se torna espetáculo vazio, ritual inofensivo, incapaz de enfrentar as desigualdades estruturais que a ameaçam. A positividade tóxica, nesse quadro, é aliada perfeita do neoliberalismo, pois transforma cidadãos em performers satisfeitos, sempre sorrindo, sempre resilientes, sempre inofensivos.

O materialismo histórico-dialético, por sua vez, devolve a esses fragmentos a possibilidade de se recompor em força histórica viva. Ele nos recorda que a vulnerabilidade, longe de ser vergonha, pode ser motor de solidariedade, porque expõe a dependência mútua que estrutura toda forma de vida humana. Resgatar a política significa, pois, resgatar o direito de sofrer coletivamente, de transformar essa dor em palavra pública, de erguê-la como bandeira para a ação e a organização.

No lugar da positividade obrigatória, ergue-se, então, a recusa como ato inaugural de reconstrução do comum. O dissenso não destrói a democracia. Ao contrário, a funda. E sem dissenso, resta apenas a solidão gerencial do neoliberalismo, onde cada um afunda em seu próprio sorriso, sem sequer ter a quem pedir socorro.

Articulação dialética: síntese e negação radical

Todas as vozes que ecoaram até aqui, Marx, Gramsci, Byung-Chul Han, Mark Fisher, Wendy Brown, nos ajudam a decifrar a positividade compulsória como uma engrenagem cuidadosamente forjada para proteger o capital de seu maior risco: o risco da negação.

No solo da exploração, a positividade nasce como ideologia funcional, pois impede que a dor se organize em discurso, que o discurso se organize em movimento, que o movimento se organize em práxis transformadora. Se toda angústia vira falha individual, se toda indignação vira negatividade patológica, então não há conflito, e sem conflito, não há história.

O materialismo histórico-dialético nos oferece o gesto mais profundo e corajoso: recusar a naturalização desta positividade como um dado eterno da condição humana. Ele nos obriga a olhar para a positividade não como escolha moral, mas como resultado de processos materiais, históricos e de classe. Nos obriga a perguntar: a quem serve a positividade? E a resposta emerge cristalina, ela serve ao capital, que precisa de corpos dóceis e mentes domesticadas, de afetos domesticáveis e sonhos colonizados.

É nesse ponto que a negação radical se impõe como urgência histórica. Porque negar não é sinônimo de destruição estéril; ao contrário, negar é afirmar a possibilidade de outro mundo. O dissenso é a fagulha que reacende a imaginação política, que resgata a solidariedade como forma de resistência, que restitui à dor coletiva sua dignidade e seu poder.

A positividade compulsória destrói a política ao extirpar o dissenso. Romper esse cerco significa devolver à política sua condição originária de conflito, de disputa, de antagonismo legítimo entre projetos de sociedade. O sorriso imposto pelo capital não é a paz — é a paz dos cemitérios, onde não há vozes, não há histórias, não há sonhos.

Cabe a quem ainda deseja emancipação erguer o não, mas um não dialético: aquele que se levanta não apenas contra, mas também para o comum, para a dignidade, para a liberdade, para a reconstrução de uma humanidade que se recusa a ser reduzida à performance de si.

Eis o desafio que nos resta: restaurar o dissenso como motor da democracia, devolver à negação seu lugar de honra na história, rasgar o véu anestésico da positividade tóxica e resgatar a potência viva do coletivo. Porque só na recusa nasce a possibilidade do novo. E porque, como nos ensinou Marx, a história avança não pela harmonia, mas pela força criadora do conflito.

Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global.