A ciência da guerra e a soberania em risco: lições de Bousquet para o Brasil e a América Latina

Em The Scientific Way of Warfare, Antoine Bousquet mostra como cada regime científico moldou a guerra moderna — da mecânica ao caos das redes — e revela chaves para compreender os ataques dos EUA à soberania latino-americana

Mais do que um estudo sobre história militar, o livro de Bousquet é um guia estratégico para entender o presente. Da pressão econômica às sanções seletivas, dos navios de guerra no Caribe às operações digitais contra o Brasil, o “regime chaoplexic” da guerra em rede evidencia que a América Latina continua sendo um laboratório de intervenções e disputas pela ordem global.

Preambulo

Há livros que atravessam a nossa trajetória de forma silenciosa, e há outros que, ao serem encontrados, transformam radicalmente a maneira como enxergamos o mundo. The Scientific Way of Warfare, de Antoine Bousquet, pertence a essa segunda categoria. Conheci a obra por indicação de um amigo querido, Eden Cardim, que, em meio a uma conversa sobre política, tecnologia e poder, me disse que esse livro poderia ser um divisor de águas nas minhas pesquisas. Ele estava certo.

A cada página, compreendi melhor não apenas o passado das guerras, mas sobretudo o presente — esse presente convulsionado, marcado por guerras híbridas, redes digitais e operações de desinformação. Bousquet me ofereceu uma chave que faltava: entender que a guerra sempre se reinventa a partir dos paradigmas científicos e tecnológicos dominantes, e que hoje, na era do caos e da complexidade, estamos vivendo uma forma de conflito que atravessa nossas democracias, nossas economias e até nossas subjetividades.

Resolvi escrever este texto não como uma resenha acadêmica, mas como um artigo estratégico, pensado para jornalistas, pesquisadores, militantes, lideranças políticas e qualquer cidadão que queira compreender a engrenagem invisível que move os ataques contra as soberanias nacionais. Mais do que comentar o livro, quero compartilhar a urgência de sua leitura: porque sem compreender os regimes científicos da guerra descritos por Bousquet, corremos o risco de não reconhecer os sinais do presente — e, consequentemente, de não ter ferramentas para enfrentá-los.

Introdução — O Livro como Chave de Leitura do Presente

Quando Antoine Bousquet publicou The Scientific Way of Warfare: Order and Chaos on the Battlefields of Modernity, em 2009, poucos poderiam prever que, mais de uma década depois, o livro seria não apenas uma referência acadêmica, mas uma ferramenta indispensável para entender o presente. A obra, parte da coleção Critical War Studies, rompe com o formalismo das análises militares tradicionais e mergulha naquilo que realmente define a guerra contemporânea: a íntima relação entre ciência, tecnologia e poder. Para Bousquet, cada paradigma científico que emergiu na modernidade deu origem a um novo regime de guerra — do mecanicismo newtoniano ao caos das redes — e é essa chave que permite compreender os conflitos atuais, em especial os ataques híbridos que hoje atingem a América Latina e o Brasil.

Ao mostrar como o “modo científico de fazer a guerra” sempre esteve associado às metáforas tecnológicas dominantes, Bousquet nos oferece um mapa para decifrar a crise global. Se no século XVIII os exércitos funcionavam como relógios disciplinados, e no século XX a destruição termodinâmica das guerras industriais deu lugar à obsessão cibernética da Guerra Fria, hoje vivemos sob o regime chaoplexic, marcado por redes, complexidade e caos. Essa é a gramática invisível que rege não apenas os drones e os algoritmos militares, mas também as sanções econômicas, o lawfare, as campanhas de desinformação e as pressões diplomáticas que se abatem sobre o Brasil e seus vizinhos.

No mundo atual, em que navios de guerra norte-americanos patrulham o Caribe enquanto ministros brasileiros sofrem sanções pessoais, a leitura de Bousquet ganha contornos quase proféticos. Ele mostra que a guerra não é apenas um fenômeno bélico restrito aos campos de batalha, mas um processo difuso que atravessa sociedades, economias e consciências. Essa perspectiva é fundamental para entender por que a América Latina permanece como um laboratório de intervenções: a lógica não é mais apenas ocupar territórios com tanques, mas sim manipular fluxos de informação, sufocar economias e corroer instituições por dentro. O livro de Bousquet nos alerta: a guerra hoje se manifesta na fronteira difusa entre ordem e caos, e é nessa fronteira que o destino das soberanias nacionais está sendo decidido.

Os Quatro Regimes Científicos da Guerra

A originalidade de Antoine Bousquet está em mostrar que a guerra nunca foi apenas técnica ou tática, mas sempre esteve moldada pelas metáforas científicas dominantes de cada época. Ele identifica quatro regimes fundamentais que não apenas explicam o passado, mas também ajudam a decifrar o presente.

O regime mecanicista, nascido com o Iluminismo e a física newtoniana, via os exércitos como relógios de engrenagens. Soldados eram peças de uma máquina que se movia de acordo com a disciplina rígida e a ordem centralizada dos monarcas ilustrados. Esse modelo foi encarnado pelos exércitos de Frederico, o Grande, e deixou marcas profundas na ideia de que a guerra podia ser organizada como um sistema previsível.

Com a Revolução Industrial, surgiu o regime termodinâmico: a guerra como motor a vapor, como liberação de energia em escala destrutiva. As batalhas da Primeira e da Segunda Guerra Mundial, com artilharia pesada, tanques, bombardeios aéreos e, no limite, a bomba atômica, expressam essa lógica. Aqui, a vitória não dependia apenas de disciplina, mas da capacidade de mobilizar recursos, indústria e energia em proporções colossais.

O regime cibernético, típico da Guerra Fria, introduziu a lógica do controle e da retroalimentação. Inspirada nos computadores e nos sistemas de comunicação, a guerra passou a ser pensada em termos de informação, comando e monitoramento. O Vietnã mostrou os limites desse paradigma, mas também consolidou a visão de que exércitos modernos precisavam ser geridos como sistemas complexos de dados, sensores e decisões centralizadas.

Por fim, chegamos ao regime chaoplexic, marcado pela teoria do caos e das redes. Aqui a guerra é descentralizada, organizada em enxames, dinâmica, fluida. Guerrilhas, terrorismo em rede, operações digitais e manipulação informacional encarnam esse novo modelo. O poder não está mais apenas em tanques ou mísseis, mas na capacidade de gerar instabilidade, manipular narrativas, controlar fluxos de informação e explorar vulnerabilidades sociais. É nesse regime que se encaixam os ataques híbridos contemporâneos contra o Brasil e a América Latina.

Do Caos à Rede: A Guerra Chaoplexic

Se os regimes mecanicista, termodinâmico e cibernético ajudaram a estruturar a guerra entre os séculos XVII e XX, é no chaoplexic warfare que encontramos a chave para compreender os conflitos atuais. Inspirado pelas ciências do caos e da complexidade, esse paradigma rompe com a ideia de hierarquia rígida e aposta na descentralização, na auto-organização e na fluidez. O campo de batalha deixa de ser um espaço delimitado por fronteiras e trincheiras para se transformar em rede: múltiplos atores, conectados de maneira horizontal, disputam narrativas, dados e percepções tanto quanto territórios físicos.

Bousquet mostra que conceitos como “enxame” e “auto-sincronização” são centrais nesse novo regime. Exércitos já não dependem apenas de comando centralizado: insurgências, milícias digitais e até campanhas de desinformação operam em lógica distribuída, adaptando-se rapidamente ao ambiente. O exemplo mais citado é o do ciclo OODA, de John Boyd, no qual a velocidade de observar, orientar-se, decidir e agir se torna decisiva. No século XXI, essa aceleração se traduz em drones autônomos, ataques cibernéticos coordenados e enxames de perfis falsos nas redes sociais, todos capazes de saturar o inimigo antes que ele consiga responder.

O mais relevante, porém, é perceber como a guerra chaoplexic transcende o campo militar. O que antes se limitava ao fronte físico hoje invade a política, a economia e a cultura. Uma sanção econômica pode paralisar um setor produtivo inteiro tão eficazmente quanto uma bomba; um processo judicial midiático pode derrubar um governo com mais impacto do que um golpe militar; uma campanha massiva de desinformação pode destruir reputações, dividir sociedades e corroer democracias. Esse é o terreno em que o Brasil e a América Latina se encontram: laboratórios onde a guerra híbrida se manifesta em sua forma mais pura, transformando a disputa geopolítica em disputa cognitiva.

América Latina: Laboratório da Guerra Híbrida

Poucas regiões do mundo ilustram tão bem a aplicação prática das teorias de Antoine Bousquet quanto a América Latina. Desde o século XIX, quando a Doutrina Monroe proclamou que o continente era “esfera de influência natural” dos Estados Unidos, nossos países foram submetidos a sucessivos experimentos de guerra — ora convencionais, ora híbridos. O que Bousquet chama de regimes científicos da guerra aqui se traduziu em golpes, invasões, sanções e operações clandestinas, cada qual adequado ao paradigma dominante da época.

No regime mecanicista, vimos os EUA moldarem exércitos latino-americanos como engrenagens dóceis, treinados em academias militares subordinadas à lógica da disciplina centralizada. No regime termodinâmico, a industrialização da violência se fez sentir em intervenções como a invasão de Granada (1983) ou do Panamá (1989), quando a mobilização de poder de fogo avassalador garantiu vitórias rápidas, mas deixou cicatrizes profundas. O regime cibernético encontrou seu auge na Guerra Fria, quando a lógica de comando e controle se traduziu na Operação Condor: redes de inteligência interligadas, bancos de dados de opositores, tortura sistemática e assassinatos coordenados em escala continental — uma espécie de “network-centric warfare” antes mesmo do termo.

Hoje, no regime chaoplexic, a América Latina volta a ser laboratório. As guerras não se dão mais apenas em selvas ou cidades, mas em redes digitais, tribunais e fluxos econômicos. A Venezuela sofre bloqueios e sanções que corroem sua economia e geram caos social. Cuba permanece sob cerco econômico enquanto é alvo de campanhas de desinformação. A Nicarágua é bombardeada por operações psicológicas e diplomáticas. E o Brasil, maior país da região, tornou-se epicentro desse novo regime: da Lava Jato, que funcionou como uma operação de lawfare transnacional, às atuais sanções contra ministros do Supremo Tribunal Federal e tarifas comerciais impostas em meio a disputas diplomáticas, o país é alvo direto da guerra híbrida estadunidense.

Essas estratégias, longe de incidentes isolados, expressam exatamente o que Bousquet descreve: a guerra como um processo difuso, caótico, descentralizado, onde redes substituem quartéis e algoritmos valem mais do que divisões blindadas. A América Latina, mais uma vez, não é apenas palco — é campo de teste, onde Washington experimenta as técnicas que depois exporta para o resto do mundo.

O Brasil na Linha de Fogo

Se a América Latina como um todo é um laboratório de guerra híbrida, o Brasil ocupa o centro desse experimento. Nenhum outro país da região reúne, ao mesmo tempo, dimensão continental, população massiva, peso econômico, biodiversidade estratégica e protagonismo geopolítico. Justamente por isso, tornou-se alvo privilegiado das pressões estadunidenses, que operam de maneira exemplar sob o regime chaoplexic descrito por Bousquet: uma guerra difusa, travada em múltiplas frentes, combinando sanções, tarifas, lawfare, desinformação e operações psicológicas.

Os exemplos recentes são eloquentes. O governo Trump retomou a escalada de medidas contra Brasília: sanções direcionadas à esposa de um ministro do Supremo Tribunal Federal, restrições de visto a autoridades e ameaças veladas no campo diplomático. Em paralelo, tarifas comerciais sobre produtos brasileiros reaparecem como instrumento de pressão, reeditando a lógica do “porrete econômico” que historicamente moldou a relação entre Washington e seus vizinhos. Ao mesmo tempo, navios de guerra dos EUA no Caribe são percebidos em Brasília como recados indiretos: gestos militares simbólicos que funcionam mais como demonstração de força e intimidação do que como preparação bélica direta.

Mas a dimensão mais sofisticada da guerra contra o Brasil se dá na esfera informacional e jurídica. A Operação Lava Jato, montada em articulação com o Departamento de Justiça dos EUA, funcionou como uma operação de lawfare exemplar: desestruturou setores estratégicos da economia, criminalizou a política desenvolvimentista e abriu espaço para interesses estrangeiros sobre o petróleo do pré-sal. Hoje, a mesma lógica ressurge em novas roupagens — processos seletivos, campanhas de difamação digital, uso de think tanks e fundações estrangeiras para pautar a opinião pública, e uma máquina de desinformação que opera de forma enxameada, saturando o ambiente cognitivo com narrativas corrosivas.

Nesse sentido, o Brasil é a expressão viva da guerra chaoplexic de Bousquet: o inimigo não está em trincheiras visíveis, mas disperso em fluxos de dados, em sanções financeiras, em algoritmos de redes sociais que privilegiam o discurso de ódio, em decisões judiciais que se transformam em armas políticas. O país enfrenta, simultaneamente, o peso de um intervencionismo externo e a corrosão interna promovida por elites locais alinhadas ao projeto hegemônico norte-americano. É um campo de batalha invisível, mas não menos devastador — e, ao mesmo tempo, um espelho do que pode se tornar o futuro da guerra em escala global.

A Ordem e o Caos nas Relações Globais

A chave de leitura de Bousquet — a tensão permanente entre ordem e caos — revela-se decisiva quando olhamos para o cenário internacional. Os Estados Unidos insistem em projetar-se como força ordenadora do sistema global, mas suas próprias estratégias geram instabilidade crônica. A tentativa de impor “ordem” por meio de sanções, tarifas, bloqueios diplomáticos e demonstrações militares tem o efeito paradoxal de alimentar o caos que pretendem controlar. É o dilema central do regime chaoplexic: quanto mais se busca centralizar e disciplinar, mais se abre espaço para resistências descentralizadas e para a emergência de novos polos de poder.

No caso brasileiro, isso se torna evidente. As tarifas de Trump, as sanções contra membros do Judiciário e a pressão sobre a economia nacional buscam enquadrar o país em uma lógica subordinada. Mas, em vez de isolamento, esses movimentos aceleram o realinhamento de Brasília com China, Rússia e os BRICS. Cada ataque norte-americano reforça a percepção de que o Brasil precisa ampliar suas parcerias estratégicas, consolidar a soberania informacional e fortalecer redes regionais de defesa. O que para Washington seria uma demonstração de ordem, acaba funcionando como catalisador de novas alianças e de maior autonomia.

Esse mesmo paradoxo se repete em escala global. As pressões contra a Venezuela alimentam a aproximação de Caracas com Moscou e Pequim. O bloqueio a Cuba só fortalece sua posição simbólica de resistência no Sul Global. E o uso cada vez mais frequente de instrumentos jurídicos, como designações de terrorismo ou programas de sanções extraterritoriais, mina a legitimidade dos EUA junto a organismos multilaterais. O resultado é uma erosão lenta, porém contínua, da hegemonia americana — enquanto cresce o espaço para alternativas multipolares.

Nesse jogo, a América Latina se encontra em um ponto crítico: pode ser apenas campo de manobra, reproduzindo ciclos de dependência e instabilidade, ou pode assumir um papel de protagonista na disputa global. Para isso, precisa reconhecer que o terreno em disputa não é apenas militar ou econômico, mas cognitivo e informacional. Como ensina Bousquet, a guerra chaoplexic se trava em redes, fluxos e percepções. Quem dominar essas camadas terá mais poder do que quem controlar apenas tanques ou bases militares.

Conclusão — Um Livro para o Nosso Tempo

The Scientific Way of Warfare não é apenas uma obra acadêmica sobre a história da guerra. É, antes de tudo, um guia intelectual para compreender o presente — e, em grande medida, antecipar o futuro. Ao mostrar que cada paradigma científico molda não apenas as batalhas, mas também as formas de organização política e social, Antoine Bousquet nos lembra que a guerra nunca está restrita aos quartéis: ela infiltra-se nas instituições, nos tribunais, nas economias e, hoje, sobretudo nas redes digitais.

Para o Brasil e a América Latina, a lição é incontornável. O continente, mais uma vez, se encontra no olho do furacão de um regime bélico global, agora marcado pela lógica chaoplexic. Os EUA aplicam sanções seletivas, tarifas comerciais, campanhas de desinformação e operações psicológicas não para conquistar territórios, mas para moldar subjetividades, corroer instituições e manter a região em posição subordinada. Ao mesmo tempo, novos polos de poder exploram as fissuras criadas por esse intervencionismo, oferecendo alternativas e abrindo espaço para uma multipolaridade em gestação.

Exaltar o livro de Bousquet, neste contexto, é exaltar um instrumento de lucidez. Ele nos ajuda a ver que o caos não é acidente, mas método; que as redes não são apenas canais de comunicação, mas armas de guerra; que a soberania não pode mais ser pensada apenas em termos militares, mas sobretudo informacionais e cognitivos. É nessa arena invisível que o Brasil joga seu destino — e é nela que precisa construir defesas e estratégias próprias.

Em última instância, a leitura de Bousquet é um chamado à vigilância. Um alerta de que a guerra mudou de forma, mas não de objetivo: continua sendo a luta pelo poder e pela hegemonia. Se a América Latina quiser deixar de ser laboratório e se afirmar como protagonista, terá de compreender que a batalha decisiva não se trava apenas nos mares ou nas fronteiras, mas no campo fluido e incerto das redes, onde ordem e caos disputam cada segundo.

Artigo publicado originalmente em <código aberto>

Quando o “milagre” neoliberal desmorona: derrotas de Milei expõem a crise na Argentina

A derrota de Javier Milei nas eleições legislativas da província de Buenos Aires, em 7 de setembro, expôs os limites do projeto neoliberal radical que vinha sendo propagandeado como solução definitiva para a crise argentina. A maior província do país, responsável por cerca de 40% do eleitorado nacional, enviou uma mensagem inequívoca: o “milagre argentino”, exaltado pela mídia ocidental e por investidores, não convenceu a população que sofre os efeitos diretos da austeridade.

O tema foi analisado no programa especial do Projeto Brasil, exibido pela TV GGN. Os jornalistas Luis Nassif e Sergio Leo conversaram com o correspondente da TeleSUR, Nacho Lemus, e a economista Margarita Olivera, professora da UFRJ, para compreender as consequências políticas e sociais da derrota. O consenso entre os convidados é claro: a votação funcionou como um plebiscito contra o governo Milei.

A distância entre promessa e realidade

Durante meses, o discurso oficial insistiu em vender a Argentina como um país a caminho da estabilidade, com a inflação sob controle e os mercados recompensando a disciplina fiscal. Mas, como destacou Nacho Lemus, a cena nas ruas era outra: famílias inteiras sem moradia, pessoas buscando comida no lixo e um consumo interno em colapso.

A reação dos mercados à derrota foi imediata: o dólar disparou, os bônus argentinos despencaram e investidores aceleraram a fuga de capitais. Para Margarita Olivera, o episódio expôs a fragilidade de um modelo que depende da corrosão inflacionária sobre gastos sociais para manter o equilíbrio fiscal. 

O peronismo fortalecido

A derrota de Milei também reposicionou a oposição. Axel Kicillof, governador de Buenos Aires, desponta como figura capaz de unificar as diversas alas do peronismo. Segundo Lemus, ele representa a vertente mais à esquerda do movimento, mas com respaldo popular e histórico de gestão. “O peronismo é muitas coisas, mas sempre foi a força que chegou quando a sociedade não aguentava mais”, observou o jornalista.

Com um discurso de justiça social e defesa de direitos conquistados historicamente, o peronismo retoma protagonismo e mira as eleições nacionais de outubro. Para os especialistas, o desafio será consolidar essa força em um campo hoje fragmentado.

Fragilidade no Congresso e na sociedade

Se nas ruas Milei enfrenta protestos crescentes, no Congresso sua base de apoio também mostra fissuras. Nas últimas semanas, parlamentares derrubaram vetos presidenciais em pautas sensíveis, como financiamento de universidades e programas de saúde infantil. O episódio evidenciou que, sem articulação política, o governo não consegue sustentar medidas de austeridade que penalizam diretamente a população.

Além disso, denúncias de corrupção envolvendo figuras próximas, como sua irmã Karina Milei, aumentam o desgaste da imagem presidencial, que já vinha sendo arranhada por promessas não cumpridas e cortes sociais impopulares.

O fim de um paradigma

Para Nassif, todo este resultado simboliza “o fim do sonho visionário maluco de Milei”. Olivera, por sua vez, destacou que ficou evidente que o presidente “não entendeu o resultado das urnas” ao insistir em aprofundar a linha neoliberal mesmo depois da derrota. Já Lemus resume: “o que tínhamos era uma promessa de milagre, mas nas ruas vimos apenas uma bomba-relógio social”.

A derrota em Buenos Aires não é um episódio isolado. É um sinal de que, sem resposta ao sofrimento da maioria, nenhum governo se sustenta apenas em planilhas fiscais. O modelo de Milei tropeçou na realidade.

Assista à íntegra da entrevista ao Projeto Brasil:

Dívida e endividamento: o novo normal das famílias brasileiras

“Antes, eu era pobre. Agora, sou pobre e endividado.”

Frase anônima brasileira.

Lena Lavinas[1]

Maria Paula Bertran[2]

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Este é o primeiro texto de uma série de três, originalmente publicados no blog Boletim Lua Nova. O artigo abaixo descreve como o comprometimento da renda com dívidas se transformou na rotina das famílias brasileiras. O segundo artigo vai abordar o papel do Governo Federal para aprofundamento deste ambíguo processo, em que políticas públicas paradoxais reforçam o rentismo e a desigualdade. Por fim, o último artigo da série vai apresentar possibilidades e alternativas.

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Quem lê a grande mídia nacional ou acompanha noticiários na televisão tem se familiarizado com matérias cada vez mais frequentes sobre inclusão e educação financeira, bancarização, temas que são igualmente abordados nas redes dos milhares de influenciadores que diariamente dão dicas sobre gestão financeira. Levantamento recente da  FInfluence, realizado pela ANBIMA (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) identificou 741 “finfluenciadores” digitais ativos, sendo a grande maioria, 576, pessoas físicas. O número de perfis corporativos monitorados soma 165. Não apenas essa categoria de influenciadores engrossa a cada dia (+ 30% em um ano), como eles registram, a cada nova publicação, uma média de quase  3.000 interações do público.

O que buscam seus seguidores? Pistas para investir, acompanhar o mercado, mas também orientações de como sair do vermelho. Isso porque a dívida das famílias junto ao setor financeiro é hoje preocupação no topo das angústias de cada dia. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio (CNC), metodologicamente embasada na autodeclaração de entrevistados, indica a percepção de que 78,2% das famílias brasileiras estavam endividadas em maio de 2025. Desse grupo, 29,5% das famílias tinham contas em atraso no mesmo mês, maior nível desde outubro de 2023. Ainda, 12,5% das famílias declararam não ter condições de pagar dívidas vencidas, o que as fará permanecer inadimplentes.

Os dados mais recentes do Banco Central do Brasil, por sua vez, que não capta endividamentos de fora do sistema financeiro, tais como crediário de lojas ou dívidas de luz e água, indicam que o nível de endividamento das famílias brasileiras atingiu 48,7% da renda disponível acumulada nos últimos doze meses em janeiro de 2025, um dos maiores patamares da série histórica. Além disso, o comprometimento da renda familiar com o pagamento de dívidas subiu para 27,3% em janeiro de 2025 (ou 25,1% sem considerar crédito imobiliário), também segundo o Banco Central.

O percentual de endividamento das famílias brasileiras em relação ao PIB está atualmente em torno de 30%, conforme os dados mais recentes disponíveis para o quarto trimestre de 2024, segundo dados da Trading Economics consultoria. Esse índice representa a razão entre o estoque de dívidas das famílias e o Produto Interno Bruto do país, um patamar considerado baixo quando comparado a outras economias. Países como Alemanha, Japão e Estados Unidos indicam percentuais em torno de 70% do PIB.

O argumento é recorrentemente citado para sugerir que existe espaço para aumento do endividamento das famílias brasileiras. Contudo, pelo menos dois fatores diferenciam o Brasil e os países normalmente citados em relação ao percentual de endividamento: o motivo pelo qual as famílias se endividam e a desigualdade local. Enquanto os países desenvolvidos se endividam principalmente para aquisição da casa própria e financiamento estudantil – no caso dos americanos, também as dívidas com despesas de saúde –, os brasileiros se endividam por comida e remédios, pelas estratégias maliciosas dos piores agentes do sistema financeiro, pelo ciclo de endividamento gerado pelos altos juros dos endividamentos pretéritos. São clientes do crédito de consumo não direcionado, de fácil acesso agora. Em um contexto de famílias empobrecidas, estas se endividam para financiar a vida diária, chegam ao final do mês e passam a viver com frações do que poderiam ter, mesmo no ambiente de baixa renda.

A relativa facilidade de acesso ao crédito, especialmente pelo uso do cartão de crédito, mas também pelo empréstimo consignado, aliada a altas taxas de juros – spreads bancários astronômicos, mesmo quando há garantias de colateral, como no caso dos empréstimos consignados –, contribuiu para a rápida escalada do endividamento. Segundo a Serasa, 69% das compras feitas no cartão de crédito são destinadas a supermercados, seguidas por roupas, eletrodomésticos e medicamentos. Isso evidencia que o endividamento, em muitos casos, é uma estratégia de sobrevivência diante da insuficiência de renda.

O endividamento é mais acentuado entre famílias de renda mais baixa — 81% das famílias com até três salários-mínimos possuem dívidas, enquanto o índice cai para 69,8% entre aquelas com renda acima de dez salários mínimos.

“Troca com troco”

Teoricamente, uma dívida é feita para a obtenção de recursos com um propósito específico. A quitação integral da dívida é a expectativa contratual clássica de um contrato de crédito. Isso não acontece no Brasil. O processo de endividamento das famílias brasileiras, especialmente com o protagonismo do crédito consignado, mas também do cartão de crédito, se estrutura, na prática, sobre a perpetuidade e sobre o comprometimento permanente da renda dos indivíduos.

A expressão “troca com troco”, utilizada por Ione Amorim, por muitos anos economista do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), descreve a situação em que o consumidor substitui uma dívida por outra e recebe a diferença em dinheiro — o chamado “troco”.

No contexto do crédito consignado, a “troca com troco” ocorre quando o aposentado(a) ou pensionista, ou ainda o beneficiário de uma transferência monetária pelo Estado e, desde 2025, também o trabalhador da iniciativa privada, quita um empréstimo consignado antigo com um novo, de valor maior, e recebe a diferença em espécie. Ou seja, ao renovar o empréstimo, parte do valor é usada para pagar a dívida anterior e o restante é liberado como mais dinheiro ao consumidor e uma forma de torná-lo cativo do endividamento. Segundo Ione Amorim, essa prática é frequentemente incentivada pelos bancos, especialmente quando há reajuste salarial, perpetuando o ciclo de endividamento, pois o consumidor acaba assumindo uma nova dívida para quitar outra, muitas vezes com juros acumulados e sem clareza das consequências dessa mudança.

Ilícito lucrativo

O fenômeno do ilícito lucrativo no setor de crédito brasileiro representa uma das faces mais sofisticadas das práticas abusivas nas relações de consumo. Grandes instituições financeiras calculam que a manutenção de condutas ilícitas é mais vantajosa economicamente do que o cumprimento rigoroso da legislação consumerista. Trata-se de um comportamento sistemático, no qual a infração deixa de ser um risco e passa a ser incorporada como parte do modelo de negócios, dada a baixa expectativa de fiscalização efetiva e de sanções suficientemente dissuasórias.

No setor de crédito, o ilícito lucrativo manifesta-se por meio de cobrança indevida de tarifas e encargos não previstos ou não informados adequadamente ao consumidor; retenção de valores e demora proposital na devolução de quantias devidas; venda casada de produtos e serviços financeiros; falta de transparência na apresentação de contratos e extratos, dificultando o acesso do consumidor à informação clara e precisa sobre suas obrigações e direitos e até mesmo empréstimos jamais solicitados.

Essas práticas são facilitadas por fatores estruturais, como a vulnerabilidade dos consumidores brasileiros, a assimetria de informação entre bancos e consumidores e a timidez judicial e administrativa em sancionar condutas ilícitas, o que torna as infrações economicamente racionais para as instituições financeiras.

Potencialmente, para além dos problemas econômicos do endividamento da população, a sociedade brasileira é desproporcionalmente onerada pela expectativa extremamente provável de, a partir do momento do primeiro empréstimo, ser vítima de um conjunto de abusos e práticas ilícitas que dificultam e até mesmo impedem a possibilidade de quitação plena de suas dívidas.

Como chegamos a isso?

De maneira relativamente superficial, indicamos que dois fenômenos sociais marcantes caracterizam o primeiro quarto do século XXI e criaram a condição para o grave cenário acima.

De um lado, observa-se um processo de bancarização em massa das classes populares e de “inclusão financeira” levado a cabo nos países do Sul Global, promovendo o acesso ao sistema de crédito e ao sistema financeiro em geral. Com isso, centenas de milhões de pessoas, antes consideradas de alto risco (por não disporem nem de garantia para as dívidas, o colateral, nem de rendimentos regulares), passaram a ser titulares de contas bancárias, fenômeno facilitado pela digitalização e pela telefonia celular.

As fintechs (acrônimo das palavras tecnologia e financeira) permitiram reduzir custos para o setor financeiro (eliminação de unidades de atendimento, novos instrumentos de avaliação de credit score em tempo real, novas linhas de crédito focalizadas em determinados grupos, entre outros). As fintechs permitiram também que bancos tradicionais criassem ou investissem em novos formatos, com mais capilaridade, sem ligação direta com a marca central do conglomerado financeiro e, portanto, sem prejuízos reputacionais para a marca central.

De outro, a consequência imediata, vinda em crescendo incessante, foi o forte aumento do grau de endividamento das famílias. Endividamento para consumo não-direcionado e livre, ou seja, para aquisição de bens comuns, mas não a casa própria, ou o financiamento agrícola ou do empreendedor. Esse crédito torna-se rapidamente indispensável à sua reprodução social, sendo agora complemento inegociável da renda familiar e individual.

A “inclusão financeira” não significou autonomia. A “inclusão financeira” significou a transformação do crédito em complemento indispensável da renda familiar. O crédito deixou de ser um instrumento de alavancagem social para se tornar um meio de paradoxal sobrevivência, no qual a dívida das famílias lhes compra a subsistência imediata e aniquila a capacidade de subsistência a longo prazo. O endividamento contínuo compromete parcela crescente do orçamento familiar com o pagamento de dívidas e juros, perpetuando a dependência das famílias em relação ao sistema financeiro.

Como não poderia deixar de ser, aumento do endividamento significa também explosão da inadimplência. Relacionado com a bancarização, mas com consequências dramáticas para quem declara default. A situação envolve perda de direitos, novos riscos, violência, exclusão. A elevação da inadimplência é vista como ameaça de risco sistêmico ao setor financeiro, reduzindo sua rentabilidade e freando a expansão da oferta de crédito, o que faz encolher o mercado mundial de dívidas.

Quaisquer que sejam as cifras e os montantes estimados, claro está que se tornou urgente formular alternativas para dirimir o bloqueio que tal realidade traz ao reaquecimento do mercado doméstico, ao inibir o consumo das famílias trabalhadoras. Nesse contexto, o Governo Federal lançou, em julho de 2023, o Desenrola Brasil, cuja finalidade consistiu, teoricamente, em oferecer condições para que as pessoas negativadas pudessem renegociar suas dívidas. Assim, reduziriam seus graus de vulnerabilidade financeira, restabelecendo a capacidade de endividamento necessária à retomada de um novo ciclo de expansão financeira. Afinal, o próprio Banco Central (2023) reconheceu que a elevada alavancagem das famílias e as perdas crescentes que tal alavancagem impôs ao setor financeiro provocaram a retração da oferta de crédito às famílias e colocaram em xeque a rentabilidade dos bancos.

O Banco Central, em seu Relatório de Economia Bancária de 2022, fez três observações determinantes da rentabilidade dos bancos naquele ano:

i) o fator predominante nas carteiras de crédito dos bancos é o crédito destinado às famílias (65% do estoque de crédito em 2022, proporção dominante desde 2016);

ii) os tomadores individuais continuam respondendo pela maior parte da receita com juros de empréstimos, ou seja, 73%;

iii) 76% da receita com juros proveniente desses tomadores tem origem no crédito ao consumo (e não no crédito imobiliário ou no crédito direcionado).

Portanto, fica claro que são as famílias na cauda inferior da distribuição que asseguram a alta rentabilidade dos bancos privados brasileiros às custas de uma vida pendurada em dívidas.

Contudo, a escala e a rapidez com que esse fenômeno de bancarização se alastra foram possíveis através da “colateralização da política social” (Lavinas 2020), isto é, mediante a intervenção do Estado que, ao assegurar transferências monetárias de renda regulares a famílias pobres e vulneráveis, torna-se o fiador do colateral que faltava a essas famílias para ingressarem no sistema financeiro.

Esse é o segundo fenômeno que explica a explosão do endividamento das famílias: a colateralização da política social foi a força motriz que garantiu que pessoas sem histórico de crédito e com renda instável, em razão de sua inserção precária no mercado de trabalho, tivessem acesso à chamada “cidadania financeira”, isto é, a incorporação das classes trabalhadoras à marcha da financeirização.

Mas a cidadania financeira não impede a explosão da inadimplência, muito pelo contrário.  Elas se retroalimentam e acabam por colocar em xeque a regra de ouro da acumulação financeira — a expansão da dívida e, portanto, a reprodução do capital portador de juros. Cidadania financeira e níveis crescentes de inadimplência andam juntos, embora impactem distintamente o sistema financeiro. Logo, assim como o Estado garantiu a colateralização da política social quando o objetivo era ampliar o mercado de crédito e consolidar a lógica rentista, ele assume agora o papel de evitar o colapso da dependência da classe trabalhadora em relação ao sistema financeiro devido à inadimplência, desenvolvendo mecanismos de gestão da dívida, para resolver o nó da inadimplência.

Se o gasto social que garante as condições de reprodução está comprimido pela prevalência da austeridade e se o financiamento da sobrevivência via endividamento é estrangulado, como evitar o desastre? Se antes era necessário flexibilizar as regras de acesso ao mercado de crédito pelas massas, com apoio do Estado, agora trata-se de flexibilizar as regras que negam sua permanência. É por isso que o Estado passou a assumir a gestão do endividamento crônico como forma de enfrentar as contradições que a própria acumulação rentista engendra, criando o Desenrola.

3I Atlas, mergulho cometário, a dialética do cosmos e a beleza da ciência

Uma jornada filosófica e científica pelos mergulhos cometários que iluminam o céu e desafiam nossos paradigmas

Por Reynaldo Aragon 

Em 2025, múltiplos cometas atravessam o Sistema Solar, trazendo consigo não apenas espetáculo celeste, mas também contradições, mistérios e novas perguntas. Este ensaio mergulha no diálogo entre astronomia e filosofia — de Marx a Engels, de Gramsci a Althusser, com a inspiração poética de Carl Sagan — para mostrar como a ciência, em sua beleza, é também filosofia, política e emancipação humana.

Introdução

Escrevo estas páginas como alguém que sempre caminhou no terreno das ciências humanas — pesquisador das formas políticas, dos comportamentos sociais, das tecnologias que modulam a vida. Nunca fui exímio em matemática; os números, para mim, sempre tiveram mais ares de muralha do que de estrada. Mas aprendi que a ciência não se reduz às equações que não sei resolver: ela pulsa também na perplexidade, na intuição, na capacidade de espanto.

É desse espanto que nasce este ensaio. Trago comigo um amor profundo por toda a ciência, mas a astronomia tem o poder de desarmar minhas defesas racionais e expor aquilo que há de mais vulnerável em mim: a emoção diante do cosmos. Não é a emoção fácil, do clichê ou da metáfora vazia. É a emoção que nasce do rigor, da consciência de que cada ponto de luz no céu carrega séculos de cálculo, séculos de erros e superações, séculos de luta entre paradigmas. É a emoção que reconhece, na trajetória de um cometa, a contradição entre conservação e destruição, entre permanência e dissolução, entre o arquivo do passado e a fagulha de futuro.

Ao escolher escrever sobre os cometas de 2025, não o faço como astrônomo, mas como alguém que se recusa a aceitar fronteiras rígidas entre ciência e filosofia, entre cálculo e poética. Sigo o farol do Materialismo Histórico-Dialético, aprendendo com ENGELS, MARX, GRAMSCI e ALTHUSSER que a natureza, como a história, é movimento dialético: contradições em processo, negações que se superam, sínteses que se refazem. E encontro em Carl Sagan — herói da ciência e da astrofísica — a prova de que o conhecimento, quando partilhado com ternura, pode ser também beleza e emancipação.

Escrevo, portanto, não para competir com a técnica dos astrônomos, mas para unir minhas ferramentas — a filosofia, a política, a crítica — ao espanto diante do céu. O que apresento aqui é um testemunho: de como a ciência, longe de ser neutralidade fria, pode ser também filosofia viva, poesia material e pedagogia popular. É um convite para que cada cometa seja visto não apenas como fenômeno celeste, mas como lição dialética: o universo nos ensinando, mais uma vez, que nada é absoluto, tudo é movimento.

Abertura — O céu como dialética viva

O céu nunca foi um quadro imóvel, ainda que os olhos humanos o tenham contemplado durante séculos como se fosse estático. Desde as primeiras cosmologias até a revolução copernicana, o firmamento foi interpretado como esfera de ordem, harmonia e permanência. Mas a astronomia, quando lida sob o farol do Materialismo Histórico-Dialético, revela outra verdade: o cosmos é contradição em movimento, síntese de processos que se afirmam e se negam sem cessar. É exatamente esse horizonte que 2025 nos apresenta, com a chegada quase simultânea de múltiplos cometas — mensageiros gelados, arquivos do passado primordial, mas também anunciadores da negação de nossas certezas.

Um cometa não é apenas poeira e gelo vagando ao acaso. Ele é a memória material de bilhões de anos condensada num núcleo que, ao se aproximar do Sol, entra em conflito com sua própria estrutura. O aquecimento solar é ao mesmo tempo força vital e força destrutiva: sublima o gelo, rasga a superfície, lança jatos de gás e plasma que criam a cauda. O que era sólido se dissolve, o que era invisível se torna espetáculo. Aqui a natureza confirma ENGELS: a dialética está inscrita na própria tessitura do real. A conservação é acompanhada da destruição, a ordem contém o germe do caos, e a beleza nasce justamente do embate entre contrários.

Mas essa contradição não é apenas natural; é também epistemológica. Cada mergulho cometário desafia os paradigmas astronômicos vigentes, força a ciência a revisar hipóteses, a recalibrar modelos, a se refazer no contato com o inesperado. Se o positivismo prometia leis definitivas, os cometas lembram que a astronomia é feita de incertezas férteis. MARX nos advertia que a verdade é sempre histórica; na astronomia, a verdade é sempre transitória, provisória, submetida ao julgamento dos fótons que chegam às lentes e dos rastros que queimam nas câmeras CCD. Não há ciência sem crise, e não há crise sem avanço.

Gramsci entenderia esses cometas como momentos de hegemonia cultural em disputa. Um céu riscado de luz não é apenas fenômeno físico: é também uma abertura simbólica, uma possibilidade de pedagogia popular. Quando o povo olha para cima e se pergunta “o que é isso?”, a ciência disputa sentidos, enfrenta o irracional, planta sementes de crítica e de encantamento. A astronomia é, nesse sentido, não só ciência natural, mas também ciência social: constrói narrativas, organiza o senso comum, disputa espaço na cultura. O brilho de um cometa é, ao mesmo tempo, cauda de poeira e trincheira cultural.

Sob esse prisma, o céu de 2025 é um laboratório dialético. De um lado, o visitante interestelar 3I/ATLAS nos lembra que não somos totalidade fechada: somos atravessados pelo outro, pelo imprevisto, pela alteridade cósmica. De outro, os cometas R2 (SWAN) e A6 (Lemmon) prometem um espetáculo acessível, democratizando o espanto científico em noites de outubro. No mesmo ano, G3 (ATLAS) se fragmentou, negando nossas previsões e oferecendo mais perguntas que respostas. O cosmos ensina: nada é absoluto, tudo é processo. A astronomia, nessa chave, não é um catálogo de leis, mas uma filosofia material da mudança.

É nessa encruzilhada entre ciência e filosofia, entre método e poética, que se ergue este ensaio. Uma ode à astronomia como prática dialética: nem dogma, nem superstição, mas caminho humano para compreender que a beleza está na contradição, e que a verdade, como os cometas, é sempre movimento.

Contradições do tempo e do espaço — o Outro cósmico

O céu de 2025 não nos oferece apenas belezas previsíveis. Entre os visitantes gelados que retornam cíclicos, há um intruso radical: 3I/ATLAS, o terceiro objeto interestelar a atravessar nosso sistema. Diferente dos filhos da Nuvem de Oort, sua órbita é hiperbólica: não se curva ao domínio do Sol, apenas o atravessa, segue adiante e some no escuro. É o signo da alteridade cósmica, o “Outro” que irrompe sem pedir licença, lembrando-nos que o Sistema Solar não é totalidade fechada, mas apenas recorte de um processo maior, aberto, incompleto.

Esse corpo estranho tensiona não só a gravidade, mas também a própria ciência. Por décadas, os manuais repetiram que a astronomia lidava com objetos conhecidos: planetas, asteroides, cometas de longo ou curto período. Mas em 2017, com ʻOumuamua, e em 2019, com Borisov, essa certeza foi negada. Agora, em 2025, a negação se repete. ALTHUSSER diria que vivemos um corte epistemológico: quando um objeto recusa ser explicado pelas categorias antigas, somos obrigados a produzir novas. A ciência não avança por acumulação linear de dados, mas por rupturas que desorganizam o pensamento e obrigam a reorganizar todo o edifício.

A trajetória de 3I/ATLAS é mais que uma curva em equações diferenciais. Ela é metáfora do tempo histórico. Se a órbita elíptica é o ciclo, a repetição, a volta que garante previsibilidade, a órbita hiperbólica é o evento, a irrupção que não retorna. MARX lembrava que a história se move em saltos, que o processo histórico não é mera sucessão cronológica, mas ruptura qualitativa. O cometa interestelar, ao atravessar nosso céu, materializa essa lógica: não vem para repetir, mas para negar, para romper, para deslocar o horizonte de normalidade.

Para a filosofia da ciência, cada aparição interestelar é um lembrete da insuficiência de nossos paradigmas. A estatística orbital previa raridade quase infinita desses encontros; a realidade, em menos de uma década, já nos apresentou três. O imprevisto exige teoria nova. É a negação do positivismo que ainda insiste em confundir ciência com certeza. A dialética ensina: a verdade não é imóvel, mas movimento. ENGELS, em A Dialética da Natureza, advertia que a ciência precisa aprender a lidar com o “absolutamente inesperado”, com a irrupção do novo que nega nossas leis provisórias. O 3I/ATLAS é justamente isso: um desmentido que ilumina.

Na mesma chave, GRAMSCI nos ajuda a pensar a dimensão cultural dessa aparição. O senso comum tende a transformar o desconhecido em superstição ou em espetáculo midiático. A hegemonia científica, por sua vez, tem a tarefa de disputar esse espaço simbólico: ensinar que o estranho não é ameaça, mas riqueza; que o inesperado não é sinal de desordem, mas motor da história natural. O cometa interestelar é, nesse sentido, trincheira cultural: pode ser apropriado pela pseudociência, mas também pode ser momento de pedagogia pública, em que a ciência revela sua grandeza filosófica.

Assim, 3I/ATLAS não é apenas um ponto fraco de luz nos telescópios. É uma contradição viva entre tempo e espaço, repetição e ruptura, ordem e caos. É a prova material de que o cosmos não cabe em nossos manuais, e que a ciência, se quiser ser verdadeira, deve aceitar o desafio de se reinventar. Aqui se revela a grande lição dialética: o universo não confirma nossas certezas, ele as nega — e é dessa negação que nasce o conhecimento.

O espetáculo do inesperado e a pedagogia do espanto

Há momentos em que o cosmos decide falar diretamente ao povo. Outubro de 2025 será um desses instantes raros: dois cometas, C/2025 R2 (SWAN) e C/2025 A6 (Lemmon), prometem cruzar o céu em magnitudes capazes de serem vistas a olho nu. Não se trata apenas de cálculo orbital ou de tabelas técnicas de magnitude. Trata-se de uma experiência coletiva: crianças, trabalhadores, velhos e jovens poderão erguer os olhos numa mesma noite e testemunhar uma dança luminosa que conecta a Terra ao infinito.

Esse encontro é, ao mesmo tempo, espetáculo e lição. O espetáculo reside na cauda que se acende, nos gases e poeiras que se desprendem do núcleo gelado para formar um rastro que desafia a escuridão. A lição está na dialética material: o brilho do cometa não é sinal de estabilidade, mas de crise. O que aparece no céu é a contradição entre conservação e destruição, entre arquivo e transformação. O núcleo, ao sublimar, dissolve-se. O espetáculo é, na verdade, a morte lenta do cometa. Mas é justamente nesse colapso que nasce sua beleza.

GRAMSCI falava da luta pela hegemonia cultural como a batalha para conquistar o senso comum. Os cometas de outubro são trincheiras nessa luta. O senso comum pode ver neles sinais, presságios, superstições. A ciência, se souber disputar esse momento, pode transformá-los em pedagogia do espanto. Não se trata de reduzir a beleza a fórmulas físicas, mas de mostrar que a explicação não elimina o encanto — pelo contrário, o amplia. O povo que entende que está vendo gelo de bilhões de anos sublimar diante do Sol não perde a poesia: ganha consciência.

E aqui reencontramos a dialética marxista: a beleza não está na suspensão da razão, mas na união entre razão e emoção. O espanto, quando mediado pela ciência, torna-se ferramenta de emancipação. Não há necessidade de escolher entre poesia e método; o cometa mostra que ambos podem coexistir. O brilho que deslumbra os olhos é o mesmo que alimenta gráficos fotométricos e debates acadêmicos. A mesma cauda que emociona uma criança pode redefinir modelos teóricos de sublimação. Eis a síntese dialética entre popular e erudito, entre experiência sensível e abstração científica.

Esse momento de outubro será, portanto, mais do que um evento astronômico: será uma oportunidade histórica de reencantar o mundo sem recorrer à superstição. Um céu riscado por dois cometas, sob a Lua Nova e as chuvas de meteoros Orionídeas, será assembleia cósmica e pedagógica. A ciência, aqui, torna-se hegemonia cultural no sentido gramsciano: ganha legitimidade ao tocar o coração do povo.

O fracasso como triunfo da ciência

Janeiro de 2025 trouxe um cometa que parecia destinado ao heroísmo: C/2024 G3 (ATLAS), um sungrazer que mergulhou a menos de 0,1 UA do Sol. Durante dias, astrônomos e curiosos esperaram um espetáculo, uma aurora cósmica digna dos livros. Mas o que se seguiu foi outro tipo de beleza: o núcleo não resistiu à proximidade solar e se fragmentou, deixando para trás rastros difusos, uma pluma desordenada, uma cauda de sódio e potássio que se dissipava em silêncio. O que muitos chamaram de fracasso foi, para a dialética da ciência, um triunfo.

Pois o que a observação mostrou não foi o vazio, mas a negação de nossas expectativas. O colapso expôs camadas internas, sugeriu fragilidade estrutural, revelou composições inesperadas. Cada pedaço desprendido, cada linha espectral captada, foi uma negação fértil que obrigou a comunidade científica a rever modelos sobre sublimação, resistência térmica e estatística de sobrevivência dos sungrazers. Em vez de espetáculo popular, tivemos revolução conceitual.

É aqui que o Materialismo Histórico-Dialético se mostra mais potente que qualquer epistemologia positivista. O positivismo lamenta: “o cometa falhou em produzir luz suficiente”. A dialética celebra: “o cometa negou nossas hipóteses e nos fez avançar”. ENGELS, ao falar da contradição como motor da natureza, já antevia essa pedagogia: só há progresso quando o real força a teoria a se refazer. MARX, ao dissecar as crises do capital, mostrou o mesmo princípio: o colapso não é fim, mas ponto de partida para nova forma. Assim também no céu: o desmoronamento de G3 foi crise geradora, superação em ato.

O olhar filosófico nos convida a ir além da astronomia descritiva. O cometa fragmentado é uma alegoria da própria ciência: construída em núcleos provisórios, desgastada pela proximidade com o real, obrigada a se romper para revelar novas camadas. A verdade científica não é bloco indestrutível, é processo de autonegação contínua. Cada previsão falha não destrói a ciência, mas a fortalece.

GRAMSCI diria que o fracasso de um cometa visível é também disputa cultural. As manchetes rápidas podem transformá-lo em desapontamento para o público, em espetáculo que não se cumpriu. Cabe à ciência, em sua função hegemônica, traduzir o “fracasso” em pedagogia: mostrar que a beleza não estava em ver um rastro brilhante, mas em compreender a natureza frágil dos blocos primordiais que nos contam sobre a formação do Sistema Solar. O espetáculo, afinal, não é só para os olhos: é para a razão crítica.

O caso de G3 (ATLAS) reafirma a maior das lições: o verdadeiro triunfo da ciência está em sua capacidade de aprender com a contradição, não em evitar o erro. O céu, aqui, é professor dialético.

Carl Sagan e a poética material do cosmos

Em meio à linguagem severa das órbitas e das equações diferenciais, há uma voz que ainda ecoa como música: a de Carl Sagan. Se Marx e Engels nos ensinaram a compreender o mundo em sua materialidade histórica, se Gramsci nos mostrou a batalha das ideias e Althusser nos lembrou das rupturas epistemológicas, Sagan fez algo igualmente revolucionário: mostrou que a ciência pode ser também ternura, poesia e esperança. Ele compreendeu que a astronomia não é só cálculo frio — é a narrativa de quem somos, de onde viemos e de como poderíamos ser melhores.

Sagan soube traduzir a física do cosmos em ética para a Terra. Ao lembrar que “somos feitos de poeira de estrelas”, não usava metáfora, mas constatação científica. E, no entanto, essa frase carregava mais que informação: era a síntese dialética entre objetividade e emoção, entre dados espectroscópicos e imaginação humana. Engels falava da dialética da natureza; Sagan a reencenou para milhões, fazendo da ciência uma pedagogia popular, uma hegemonia cultural capaz de disputar corações e mentes contra o obscurantismo.

O que Sagan nos deu foi uma ciência que não se furta ao espanto. Enquanto alguns tentam reduzir a astronomia a números e curvas, ele insistia na beleza como parte da verdade. Não se tratava de romantizar, mas de compreender que a beleza não é ornamento: é consequência do próprio real. O cometa que ilumina o céu não brilha para ser visto; mas, ao ser visto, nos ensina sobre nós mesmos. O espetáculo natural torna-se espelho da nossa pequenez e da nossa potência.

Aqui, a ponte com o Materialismo Histórico-Dialético é nítida. A ciência, quando reduzida a positivismo, morre em sua própria arrogância. Mas quando aceita o inesperado, o contraditório, o frágil e o poético, se torna emancipação. Marx dizia que o objetivo não é apenas interpretar o mundo, mas transformá-lo. Sagan aplicou esse princípio à cultura científica: não basta entender o cosmos, é preciso transformar o modo como o povo o percebe, romper com o senso comum alienado e substituí-lo por uma consciência cósmica.

Sagan, portanto, é herói da ciência e da astrofísica não por ter descoberto novos mundos, mas por ter feito do cosmos um patrimônio cultural da humanidade. Ele provou que a astronomia não é privilégio de especialistas, mas prática popular, política e poética. Ao lado de Marx, Engels, Gramsci e Althusser, seu nome compõe essa constelação de pensadores que lembram: a ciência, para ser plena, precisa ser também filosofia e beleza.

A astronomia como filosofia material

A história da astronomia não é apenas uma sequência de descobertas técnicas. Ela é, na verdade, um campo de batalha filosófico, uma arena onde se enfrentam concepções de mundo, paradigmas e hegemonias culturais. Cada revolução no olhar para o céu foi também uma revolução na maneira como o ser humano se compreende. Copérnico, Newton, Einstein, Vera Rubin — todos protagonizaram mais que avanços científicos: produziram rupturas históricas no tecido cultural e político da humanidade.

O Materialismo Histórico-Dialético nos ajuda a ler essa trajetória. Se a astronomia nasceu como contemplação metafísica dos astros, sua maturação só foi possível quando a observação se aliou ao cálculo e à crítica das velhas concepções. Copérnico, ao deslocar a Terra do centro do cosmos, não apenas reformou o sistema astronômico: abalou o edifício ideológico da Igreja e inaugurou uma luta por nova hegemonia cultural. Foi um momento de “guerra de manobra”, diria GRAMSCI — ruptura brusca que redistribuiu poder simbólico.

Depois, Newton ergueu a lei da gravitação universal como síntese que unificava os céus e a Terra. Não era mais um cosmos dividido entre “acima” e “abaixo”: tudo obedecia à mesma dialética da atração. Foi a construção de uma nova “trincheira” no senso comum científico. A ciência se tornava parte do projeto de modernidade, de desenvolvimento das forças produtivas, alimentando revoluções políticas e econômicas. A astronomia não era neutra; era fundamento da própria ordem burguesa nascente.

Mas a dialética não para. Einstein, ao reformular tempo e espaço, negou e superou a mecânica newtoniana. A relatividade mostrou que até o tecido do cosmos é contraditório: espaço e tempo não são absolutos, mas se curvam diante da matéria e da energia. Essa negação foi também uma revolução epistemológica, no sentido althusseriano: ruptura com os limites da ciência anterior. E a recepção popular dessas ideias mostrou que até os conceitos mais abstratos da física se tornam matéria de cultura, poesia, política.

No século XX, outra figura rompeu com os paradigmas ocultos: Vera Rubin, ao medir as curvas de rotação galáctica, revelou a presença da matéria escura. Mais uma vez, o cosmos negava nossas certezas. Rubin mostrou que a maior parte do universo não é visível — e que nossa teoria ainda é insuficiente. Aqui, a dialética se manifesta na contradição entre aparência e essência: o que vemos não é o todo; o essencial se esconde, e a ciência precisa cavar mais fundo.

Assim, a astronomia deve ser entendida como filosofia material em prática. Não é apenas coleção de dados, mas movimento histórico em que hipóteses são negadas, superadas e incorporadas em novas sínteses. É uma verdadeira “guerra de posições” no sentido gramsciano: não há vitória definitiva, mas avanços lentos, trincheira por trincheira, contra a ignorância e o obscurantismo. Cada telescópio lançado, cada cometa estudado, cada curva espectral analisada é uma posição conquistada na longa batalha da humanidade para compreender o real.

Por isso, a astronomia é mais do que ciência: é filosofia e política em ato. Ela desnaturaliza o dogma, questiona a ordem aparente, reconfigura nossa relação com o mundo. É, em última instância, prática de emancipação.

Conclusão — Ode à dialética cósmica

A travessia de cometas em 2025 não é mero registro astronômico. É uma metáfora material, uma alegoria viva do modo como a própria realidade se organiza: em movimento, em contradição, em negação e superação. Se o positivismo nos prometeu certezas definitivas, os cometas nos devolvem a dialética: o núcleo que se dissolve para brilhar, o visitante interestelar que recusa os manuais, a previsão que falha para nos ensinar de novo.

ENGELS, em sua Dialética da Natureza, já intuía que a ciência não podia ser compreendida como acúmulo linear de dados, mas como história de saltos e rupturas. MARX nos lembrava que não há verdade fora da história, que o real é processo. GRAMSCI via a batalha cultural como disputa por hegemonia — e os cometas, ao despertarem olhares coletivos, mostram que a ciência também disputa corações e mentes, que cada fenômeno celeste pode ser trincheira contra o obscurantismo. ALTHUSSER falaria aqui de cortes epistemológicos: objetos que rompem a continuidade e obrigam a ciência a se refazer. E Carl Sagan, em sua ternura cósmica, nos ensinou que a ciência é também poesia, que o método pode andar de mãos dadas com o espanto.

Os cometas de 2025 são arquivos do passado e ao mesmo tempo motores de revolução teórica. São conservadores e destruidores, arquivos e fogos de artifício, silêncio milenar e explosão súbita. Eles nos recordam que o cosmos não cabe em fórmulas fixas: exige humildade, exige coragem, exige imaginação. São uma lição de filosofia prática: o real não é estático, é dialético.

Por isso, contemplá-los é mais do que ver luzes no céu. É participar de um processo histórico maior, em que a humanidade aprende com o inesperado. É entender que a ciência não salva o mundo pelo acúmulo de certezas, mas pela capacidade de transformar o erro em caminho, a crise em avanço, a contradição em beleza. É aceitar que o conhecimento é provisório, mas a busca é infinita.

Assim, o céu de 2025 se eleva como manifesto: uma ode à dialética cósmica, à ciência que não teme o imprevisto, à filosofia que encontra poesia no real. Os cometas passam, mas a lição fica: a beleza do universo é que ele nunca confirma nossos dogmas — ele sempre os nega, e dessa negação nos faz mais humanos.

Ensaio publicado originalmente em <código aberto> 

O que esperar do Brasil, segundo Fernando Haddad

Luis Nassif

Fernando Haddad sempre foi um homem público preocupado com as implementações estruturantes, as que ficam para sempre e cujos frutos nem sempre são colhidos de imediato. Foi assim com a expansão da rede de universidades e institutos federais de ensino, quando Ministro da Educação. Ou as políticas urbanas, que mudaram a cara de São Paulo, apesar da mais relevante delas, a nova Lei do Zoneamento, ter sido torpedeada pela especulação imobiliária.

Como Ministro da Fazenda, Haddad sai das situações fim, de entregas, para as situações meio, de preparação do terreno para colheitas futuras.

Aqui, um resumo dos temas abordadas na entrevista concedida no sábado, ao Projeto Brasil do Jornal GGN.

 Resumo da Entrevista com Fernando Haddad

1. Contexto Político

  • Diferença entre 2002 e 2022:
    • Em 2002, Lula herdou um país institucionalmente estável, com oposição republicana (PSDB) disposta a negociar.
    • Em 2022, Lula encontrou um ambiente mais tóxico, com oposição bolsonarista cujo objetivo é travar a agenda nacional.
  • O Congresso atual, apesar de entraves, aprovou pautas importantes como a reforma tributária.

2. Avanços Econômicos Recentes

  • Reforma Tributária: considerada a maior já feita no Brasil.
  • Combate às renúncias fiscais: redução de 6% do PIB para patamares menores, com transparência CNPJ por CNPJ. Em São Paulo e Minas Gerais, por exemplo, os governos estaduais ampliaram as isenções fiscais e mantém em sigilo as empresas beneficiadas.
  • Ajuste fiscal: feito sem aumentar impostos, mas reduzindo privilégios e isenções.

3. Desigualdade e Justiça Social

  • Nova agenda: ir além do combate à miséria e fome, enfrentando desigualdade estrutural. Trata-se de um desafio totalmente distinto do combate à fome.
  • Reforma da renda + tributação mais justa como instrumentos centrais.
  • Crédito abusivo: governo estuda medidas contra juros excessivos cobrados de trabalhadores, mesmo em consignados. Considera que um dos grandes fatores de desigualdades são os spreads dos empréstimos bancários.

4. Vantagens Competitivas e Desenvolvimento Sustentável

  • Brasil tem condições únicas na transformação ecológica: vento, sol, biocombustíveis, grandes reservas de terras raras e minerais críticos.
  • Estratégia: agregar valor localmente → empregos de qualidade, transferência tecnológica e reindustrialização. Mas admite que essa tarefa, essencial, cabe ao Ministério de Minas e Energia.
  • Compras governamentais como instrumento de política industrial (não aceitação da cláusula da UE que proibia isso).
  • Defesa de joint ventures tecnológicas para absorver ciência e tecnologia.

5. Inteligência Artificial e Soberania Digital

  • 60% dos dados brasileiros são processados fora do país → risco à soberania.
  • Governo articula com capital nacional e estatal a criação de infraestrutura própria de data centers e plataformas de IA.
  • Integração entre transição ecológica e mundo digital (IA demanda energia limpa e minerais críticos).

6. Política Internacional e Geopolítica

  • Terras raras: Brasil e Vietnã como grandes detentores, EUA com reservas muito limitadas.
  • Interesse norte-americano em governos entreguistas na América Latina para acesso a minerais estratégicos.
  • China como referência: só concede acesso ao mercado mediante transferência de tecnologia e joint ventures.
  • Defesa de acordos soberanos, evitando repetir modelo de exploração sem valor agregado.

7. Outras Políticas Estruturantes

  • Educação e ciência: recomposição dos orçamentos do MEC, SUS e FNDCT após o sucateamento do governo Bolsonaro.
  • Mercado de carbono e taxonomia verde: criação de regras para precificar emissões e valorizar produtos sustentáveis.
  • Energia: necessidade de socializar os custos da energia renovável, barateando para todos, não apenas para quem instala painéis solares.
  • Aeroespacial: Brasil tem iniciativas em satélites, mas distante de China e EUA. Estratégico não depender de monopólios internacionais.

8. Previdência e Trabalho

  • Reconhecimento da necessidade de reformas futuras devido ao envelhecimento populacional.
  • Proposta: aposentadoria mais tardia, mas com jornadas semanais mais curtas, distribuindo melhor o trabalho ao longo da vida.
  • Defesa de justiça no financiamento da Previdência, incluindo reforma dos militares (travada no Congresso).

 

Conclusão

Haddad articula uma visão de desenvolvimento estratégico e sustentável, que combina:

  • Justiça social (enfrentamento da desigualdade).
  • Reindustrialização verde (bioeconomia, minerais críticos, energias renováveis).
  • Soberania digital (IA e dados processados no Brasil).
  • Política fiscal justa (redução de renúncias e privilégios).
  • Política internacional assertiva (parcerias com contrapartidas, à moda chinesa).
  • Fernando Haddad chamou atenção, também – mas sem entrar em detalhes – para o trabalho que vem sendo realizado pelo Banco Central em 2024. Segundo ele, entrará futuramente para a história.

O corpo em disputa: metaintermediação algorítmica e soberania perdida

Entre amor, desejo e sofrimento, o corpo tornou-se campo de disputa silenciosa sob o domínio das plataformas digitais

Por Reynaldo Aragon 

Este ensaio mergulha na carne viva da nossa existência: como aplicativos de saúde, namoro e produtividade transformam emoções e sinais vitais em mercadorias. Um convite à reflexão sobre a luta pela soberania do corpo em tempos de captura algorítmica.

O corpo como trincheira

Acordamos, todos os dias, cercados de números. O coração que pulsa em silêncio é traduzido em gráficos que medem desempenho. O sono, que antes era repouso, agora tem relatório que acusa falhas. O amor, que sempre foi encontro incerto, virou algoritmo de compatibilidade e rejeição gamificada. O corpo — essa matéria concreta da vida, essa força produtiva que sustenta a história — já não é apenas carne e energia, mas variável estatística, ativo financeiro, dado a ser explorado.

O capitalismo digital colonizou a pele, o pulso, o olhar. Transformou desejo em dado, ansiedade em gráfico, esperança em notificação. Não se trata apenas de vigiar: trata-se de modular comportamentos, reforçar docilidade, administrar emoções como quem administra estoques. A psicologia comportamental, antes instrumento para compreender e libertar, foi apropriada como técnica de comando suave. Badges, streaks, metas e recompensas intermitentes transformam a vida cotidiana em laboratório de obediência.

Mas o que significa viver assim? Que soberania resta quando até a respiração pode ser indexada por uma plataforma? Quando o direito ao erro, ao acaso, à contingência — aquilo que faz da vida vida — é suprimido em nome da otimização? A cada relatório de sono mal dormido, a cada match perdido, a cada passo não dado, somos atravessados por uma pedagogia de culpa e de insuficiência. A promessa de cuidado converte-se em disciplina; a promessa de saúde, em ansiedade; a promessa de felicidade, em solidão.

Este ensaio parte de uma certeza dura: o corpo é hoje a última trincheira da luta de classes. Se no passado o capital disputava nossas mãos nas fábricas e nossas horas de trabalho, agora disputa nossos batimentos cardíacos, nossos desejos mais íntimos, nossas cicatrizes emocionais. A batalha é silenciosa, mas visceral. E sua questão central é inescapável: seremos corpos otimizados para o lucro ou corpos soberanos para a vida?

O corpo no materialismo histórico-dialético

O corpo nunca foi neutro. Ele é o primeiro território da luta de classes, o fundamento de toda produção social. Desde os primórdios, o capital aprendeu a transformar músculos, nervos e energia vital em mercadoria. No chão das fábricas, as mãos foram cronometreadas; nos campos, o suor foi medido em colheitas; no fordismo, cada gesto foi reduzido a movimento repetido em nome da eficiência. O corpo, força produtiva histórica, foi moldado como engrenagem de uma máquina maior.

O materialismo histórico nos mostra que cada época traz novas formas de subordinação da vida ao capital. Se o século XIX domesticou braços e pernas sob o chicote e a disciplina fabril, o século XXI captura pulsações, respirações, desejos. Já não basta controlar a hora do trabalho: agora se disputa a hora do sono, a intensidade da respiração, a cadência da caminhada, a frequência do coração apaixonado. É a subsunção real da vida — quando não apenas o trabalho, mas a própria existência, é devorada pela lógica da exploração.

A dialética revela a contradição: aquilo que poderia ser libertação — tecnologia capaz de aliviar a fadiga, cuidar da saúde, ampliar o tempo livre — é apropriado como nova forma de opressão. Os algoritmos aparecem como “cuidadores”, mas operam como patrões invisíveis, modulando condutas, recompensando obediência, punindo desvios. Onde o trabalhador antes se via na máquina, hoje se vê no dashboard. Onde o corpo antes se dobrava ao ritmo da sirene, agora se curva ao ritmo da notificação.

O capital não se contenta mais em explorar nossas horas: ele coloniza nossos segundos. O corpo não é apenas o espaço do trabalho, é também o espaço da mercadoria, da estatística, do ativo financeiro. Cada batimento capturado, cada passo registrado, cada emoção quantificada — tudo se converte em mais-valor. A vida em si torna-se força produtiva em tempo integral.

Psicologia comportamental e a captura algorítmica

O capital aprendeu a falar a língua da psicologia comportamental. Não mais apenas chicote, relógio de ponto ou metas industriais: agora é o algoritmo quem administra prêmios, punições e reforços. As plataformas digitais são laboratórios de condicionamento operante em escala de massas.

Cada notificação é um estímulo; cada “like” é um reforço positivo; cada badge conquistado é uma recompensa simbólica que nos faz voltar no dia seguinte. Da mesma forma, cada falha registrada — uma noite mal dormida, uma meta de passos não alcançada, um match que não veio — atua como punição sutil, cultivando culpa e docilidade. O cotidiano é reorganizado em torno de uma pedagogia invisível: o sujeito não apenas age, mas aprende a se auto-regular para satisfazer os critérios de um sistema opaco.

Skinner mostrou que o reforço intermitente — aquele que não se sabe quando virá — é o mais poderoso. É exatamente essa lógica que sustenta os apps: a promessa de que o próximo match, a próxima recompensa, a próxima métrica verde virá a qualquer momento. E é por isso que voltamos, repetidamente, compulsivamente. O capital não se contenta em governar nossos atos: governa agora nossas expectativas.

Esse é o coração da captura algorítmica: transformar desejo em variável controlável, esperança em instrumento de docilização, sofrimento em engrenagem produtiva. O corpo, ao ser condicionado, aprende a dançar no ritmo do algoritmo — e cada passo que dá alimenta a mesma engrenagem que o aprisiona.

Sintomas e cicatrizes – a carne marcada pela métrica

O corpo não sai ileso da captura algorítmica. A cada métrica imposta, a cada dashboard iluminado, a cada gráfico que separa sucesso de fracasso, nascem sintomas e cicatrizes que não são apenas psicológicas, mas físicas, concretas, encarnadas. A colonização não é abstrata: ela se imprime na pele, no sono, no desejo, no estômago vazio de ansiedade.

No amor e no desejo, os algoritmos hierarquizam afetos, transformando encontros em estatística e rejeições em notificações silenciosas. O que antes era acaso, surpresa, paixão inesperada, hoje é filtro, ranking, escassez artificial. O desejo, força vital que sempre escapou à disciplina, é agora calibrado em “matches” e “likes”. Cicatriz: uma solidão amplificada, onde o corpo aprende que vale tanto quanto a relevância que um código lhe concede.

No sono e no repouso, a cama se converte em laboratório. A cada noite mal dormida, um relatório de fracasso; a cada insônia, uma curva vermelha que acusa. A promessa de cuidado transforma-se em ortossonia: obsessão em dormir “corretamente”, medo de não render. Cicatriz: a noite, que deveria ser refúgio, torna-se mais um espaço de ansiedade.

Na alimentação e no movimento, calorias são moedas e passos são metas. O prato deixa de ser prazer ou partilha: é dashboard. O corpo aprende que comer não é nutrir-se, mas evitar estar “fora da meta”. O caminhar não é mais liberdade, mas disciplina medida. Cicatriz: a vida cotidiana rebaixada a jogo de punições e recompensas.

Na alegria e na tristeza, a captura é ainda mais perversa. A dopamina, que deveria nascer do encontro com o mundo, é agora racionada por notificações. Cada sorriso diante da tela é reforço intermitente; cada decepção é punição invisível. Alegria fabricada, tristeza contabilizada, esperança sequestrada. Cicatriz: sentimentos autênticos dissolvidos em reforços artificiais.

O resultado é um corpo marcado. Insônia, ansiedade, distúrbios alimentares, solidão digital, depressão — sintomas que são ao mesmo tempo pessoais e coletivos. Cicatrizes que carregamos não apenas como indivíduos, mas como classe, como geração submetida a uma pedagogia de insuficiência.

Alienação deixa de ser conceito distante: ela pulsa no peito acelerado, na pele cansada, nos olhos que não fecham à noite. É a alienação tornada fisiologia. É a vida reduzida à métrica, à régua do capital.

Subsunção real da vida pelo capital algorítmico

No capitalismo digital, já não há fronteiras claras entre tempo de trabalho e tempo de vida. O que Marx chamou de subsunção real — quando o capital não apenas se apropria do produto do trabalho, mas reorganiza inteiramente o processo produtivo — alcança agora uma dimensão radical: a própria vida é integrada como engrenagem da produção.

O corpo não descansa: produz dados enquanto dorme. O coração que pulsa em silêncio é convertido em métrica de saúde para seguradoras, em variável estatística para investidores, em insumo para plataformas. O beijo apaixonado, a corrida solitária, o prato de comida, a insônia — tudo é transformado em fluxo de informação que alimenta algoritmos de predição e modelos de extração de valor.

Essa é a novidade brutal: já não vendemos apenas nossa força de trabalho por horas. Vendemos, mesmo sem saber, cada instante da existência. Cada respiração monitorada é um microtrabalho inconsciente que abastece a máquina de cálculo do capital. O corpo, alienado de si, se torna ativo financeiro: objeto de especulação, moeda para seguros, mercadoria nas mãos de quem controla as plataformas.

A promessa de emancipação tecnológica — a possibilidade de aliviar a fadiga, cuidar da saúde, ampliar a liberdade — é revertida em colonização. O mesmo dispositivo que poderia libertar o corpo do cansaço transforma-se em mecanismo de controle e disciplinamento. O algoritmo surge como “cuidador”, mas opera como supervisor invisível, determinando ritmos, recompensando comportamentos, punindo desvios.

Essa colonização total marca um salto histórico. O capital não apenas compra o tempo do trabalhador: ele captura a energia vital, a intimidade, o desejo, a própria substância da vida. O corpo, reduzido a dado, já não pertence ao sujeito que o habita. O que está em jogo não é apenas exploração econômica — é a perda da soberania sobre a carne, sobre os gestos, sobre o que ainda nos restava de humano.

Geopolítica do corpo

A disputa sobre nossos corpos não é apenas íntima, é planetária. O mesmo algoritmo que mede passos em São Paulo calcula também a fertilidade em Nairobi, o batimento cardíaco em Mumbai, o desejo em Buenos Aires. Os metaintermediários não conhecem fronteiras: operam como novos impérios invisíveis, administrando dados biométricos com a mesma lógica de pilhagem que marcou o colonialismo.

No Sul Global, essa colonização digital assume contornos ainda mais brutais. Nossos corpos tornam-se laboratórios, nossas emoções são matéria-prima barata, nossos dados circulam em mercados que não controlamos. Cada pulso, cada noite insone, cada gesto íntimo trafega por servidores situados nos centros do capital global. É uma nova forma de colonialismo: não mais o saque direto de minerais ou terras, mas a extração contínua de dados vitais.

O Brasil, com sua população jovem e hiperconectada, é visto como mina de ouro informacional. Empresas estrangeiras coletam sinais de saúde, padrões de sono, rotinas alimentares, desejos amorosos. Esses dados são processados fora do país, convertidos em mercadorias, revendidos a governos, corporações e seguradoras. Nossa carne, traduzida em código, serve para alimentar modelos de predição que reforçam a hegemonia das potências do Norte.

Aqui, a dialética se impõe com toda a sua força: a soberania do corpo está diretamente entrelaçada à soberania nacional. Quem controla os dados do corpo controla também a força produtiva de uma nação. Ao permitir que algoritmos estrangeiros ditem os ritmos da saúde, da sexualidade e do trabalho, abrimos mão de um pedaço fundamental de nossa autonomia histórica.

O corpo, portanto, é também campo de batalha geopolítico. Na era da metaintermediação algorítmica, lutar pela soberania corporal significa lutar contra a recolonização digital do Sul. É afirmar que nem nossos gestos, nem nossos desejos, nem nossas dores serão mais mercadorias a serviço de impérios invisíveis.

Horizontes de emancipação

Se o capital algorítmico transformou o corpo em ativo estatístico e mercadoria, cabe a nós recolocar a vida no centro. A luta pela soberania do corpo não é metáfora: é projeto político. Significa disputar os rumos da tecnologia, reverter a lógica da captura e afirmar que a respiração, o sono, o amor e a dor pertencem ao humano — não ao capital.

Soberania informacional é soberania do corpo. Não há separação. Cada dado produzido pelo corpo deve ser tratado como extensão da dignidade humana, e não como moeda de troca. Isso implica instituir direitos inegociáveis: o direito à opacidade, à privacidade, ao erro, ao acaso. A vida só é vida quando contém margem de contingência. Eliminar o imprevisível é eliminar a liberdade.

Um projeto socialista de tecnologia precisa nascer da urgência desse tempo. Não basta regular plataformas: é preciso criar infraestruturas públicas e coletivas que sirvam à emancipação, não à exploração. Apps de saúde voltados ao bem-estar coletivo, sem monetização de dados. Algoritmos transparentes, auditáveis, sob controle democrático. Redes digitais que incentivem solidariedade, não competição permanente.

 

  • Critérios materiais de soberania do corpo podem ser desenhados:

 

  • Finalidade pública: tecnologia orientada para necessidades sociais e não para lucro.

 

  • Minimização de dados: coletar apenas o estritamente necessário, nunca a vida inteira.

 

  • Transparência e verificabilidade: algoritmos auditáveis, sujeitos a controle popular.

 

  • Autonomia coletiva: infraestruturas de dados sob comando público e democrático.

Mas há ainda um horizonte mais profundo: o direito à própria experiência humana. O direito de dormir sem relatório, de amar sem filtro, de caminhar sem meta, de sentir tristeza sem ser convertido em métrica. O direito ao acaso, à falha, à imperfeição. Porque é na imperfeição que mora a liberdade, e é na contingência que floresce a vida.

Resistir à colonização algorítmica do corpo é afirmar que a carne não será subsumida ao cálculo. É declarar que nossos gestos não são estatística, que nossos afetos não são mercadoria, que nossos sonhos não cabem em dashboards. É, acima de tudo, recuperar a possibilidade de sermos soberanos sobre nós mesmos.

Conclusão – O corpo como última fronteira da luta de classes

Chegamos ao coração da contradição: o corpo, antes força de trabalho nas fábricas e nos campos, tornou-se agora o território mais íntimo da exploração. Cada batimento cardíaco, cada noite insone, cada gesto de afeto ou solidão é transformado em dado, e cada dado é convertido em valor. O capital não apenas disputa nossas horas: disputa a própria carne, os sentimentos, os sonhos.

É nesse ponto que o materialismo histórico-dialético nos dá clareza: a luta de classes não se limita ao chão de fábrica, mas se expande até a pulsação do corpo. A alienação já não se esconde na distância entre trabalhador e produto do trabalho — ela vibra na ansiedade de não cumprir metas de passos, na culpa de não dormir direito, na solidão gamificada de quem espera um match que nunca vem.

Mas é também aqui, nesse mesmo território de dor, que pode nascer a emancipação. A soberania do corpo é a trincheira final contra o colonialismo algorítmico. Resistir significa afirmar o direito ao acaso, ao erro, à imperfeição — a viver para além da métrica. Significa lutar por tecnologias a serviço da vida, sob controle democrático, orientadas pela dignidade humana e não pela extração de lucro.

O corpo é a última fronteira da luta de classes. Se deixarmos que seja totalmente colonizado, não restará sequer o abrigo íntimo do sono ou o calor inesperado do amor. Mas se defendermos essa trincheira, estaremos também defendendo a possibilidade de um futuro em que a técnica pertença ao povo, e não ao capital.

A escolha é nossa e o tempo é agora: seremos corpos otimizados para o lucro, ou corpos soberanos para a vida.

Ensaio publicado originalmente em <código aberto> 

Tempos e Contratempos da Política Econômica, um ensaio sobre o Brasil

Nathan Caixeta

Introdução

Leio na coluna de Pedro Cafardo, jornalista de conhecida competência no debate econômico, a sugestão de que o debate sobre os juros no Brasil não deveria ser ofuscado pelas discussões acerca do tarifaço de Trump.

De fato, as últimas ações do Banco Central na condução da política de juros não têm estado no farol dos especialistas como deveriam. Ou pelo menos, as questões cruciais e terríveis que deveriam suscitar maior energia no debate público têm sido obstadas não (só) pelo tarifaço, mas falta de criatividade de economistas, jornalistas e agentes do mercado que, por vício, desgosto ou predileção, costumam se debruçar sobre os problemas dos juros altos, da inflação, da institucionalidade da política monetária e do elevado custo fiscal do serviço da dívida pública.

O artigo chama a atenção para as propostas que José Luis Oreiro ofereceu quando convocado pela Comissão de Debates e Estudos Estratégicos da Câmara dos Deputados (cujo texto integral o autor fez a gentileza de disponibilizar).

Cafardo convocou dois comentaristas para lançar luzes e breves considerações sobre o texto do Dr. Oreiro: Luiz Gonzaga Belluzzo, a quem devo, em amizade, muito mais do que minha formação intelectual, e Felipe Adaime, ex-VP do Banco de Chicago.

Belluzzo cuidou de destacar os aspectos estruturais e históricos que levaram à desindustrialização brasileira e ao ciclo vicioso entre juros altos e câmbio volátil e sobrevalorizado que submeteu o país à estagnação do investimento, da renda e da produtividade nos últimos 40 anos. 

A trinca formada pela globalização financeira, pelo acelerado avanço do desemprego estrutural na indústria, motivado em parte pela avalanche tecnológica 4.0, e pelos desequilíbrios crescentes do sistema monetário financeiro nucleado pelo dólar, tem embalado os ritos e ritmos contemporâneos do capitalismo, ou do Regime do Capital, como preferiria Karl Marx. Esses fenômenos nem de longe alteram o modo de ser desse sistema econômico-político-social, senão manifestam sua saga realizadora: mudar para permanecer igual.

Os leitores deste distinto jornal, agraciados pela variedade de pontos de vista que lhes são oferecidos diariamente, certamente sabem que esses fatores estruturais não respeitam graus ou etapas de desenvolvimento entre diferentes espaços nacionais. Atinge a todos, mas não da mesma maneira.

Na periferia, como diziam os antigos mestres cepalinos, mutações do capitalismo se fazem sentir com especial ferocidade. 

A cada ciclo de inovações tecnológicas os chamados países em desenvolvimento (com exceção da China e da Índia), são atravessados pela intensa desconfiguração de seus (ainda existentes) sistemas industriais e pela desvalorização da mão de obra, sempre excedente e destinada às novas e velhas “alternativas”: o bico, a viração, as ocupações sem carteira assinada, o trabalho dominado pelos algoritmos das plataformas digitais.

De forma análoga, os ciclos de expansão e retração dos fluxos de capitais que, tem pouca ou nenhuma aderência ao malfalado e imaginário risco-fiscal, seguem o ritmo dos novos e velhos estratagemas especulativos-alocativos dos grandes investidores institucionais, bancos multinacionais, shadow-banks e outros concorrentes pelo domínio dos instrumentos que permitem a centralização do capital á nível global. Por aqui, desde o afamado Plano Real, somos campeões na arte de ofertar aos convivas estrangeiros um paraíso de rentabilidade num mundo (quase sempre) em crise. Executamos essa nobre tarefa oferecendo os prazeres tropicais e paradisíacos de juros altos, dividendos não-tributáveis, privatizações, fusões e aquisições e outras traquitanas.

Sob alvo dos devaneios de Donald Trump, o domínio do dólar como moeda-reserva e os (des)arranjos vigentes do sistema monetário-financeiro global tem acenado para a mesma espiral de descredibilidade que afetou a libra-esterlina, da metade do século XIX ao período entreguerras. 

Para sintetizar, a detenção por um único país do privilégio exorbitante (como definiu Charles De Gaulle), de emitir a moeda aceita universalmente para o encerramento de transações comerciais e financeiras, provoca sistematicamente ciclos de expansão e contração da liquidez internacional, inflando bolhas financeiras aqui e acolá, determinando crises estruturais no balanço de pagamento de países externamente deficitários (caso do Brasil nos anos 1980 e da Argentina desde então) e concentrando a responsabilidade no país-emissor (no presente, os EUA), de recepcionar os desequilíbrios entre países deficitários e superavitários em seu (ilimitado?) estoque de dívida pública.

Fato é que o movimento recente dos BRICS+, através da construção em curso de institucionalidades que operam fora do sistema dólar, tem turbado os fiéis que deitam suas oferendas ao poder hegemônico do dólar. Aos devotos, o Presidente dos EUA ofereceu o tarifaço e as demais arbitrariedades que só o dono da moeda-reserva pode executar.

Sem levar em conta esses fatores de ordem estrutural e global, é impossível travar qualquer debate honesto sobre os juros no Brasil. Apesar dos que pensam o país como Banana-Republique, é imperativo alertar que existe algo além entre o céu e a terra do que supõe a vã filosofia mecanicista-positivista que atribui os juros elevados à desconfiança dos investidores forâneos em relação aos fundamentos fiscais do país.

Feitos da Economia dos Práticos-inertes

Feitas essas considerações, ocuparei as linhas que me sobram com os comentários deploráveis de Felipe Adaime. Deixarei minhas observações completas (e discordantes) ao texto de Oreiro suspensas por ora, por considerar que exigem maior atenção do que os caracteres disponíveis me permitem.

Disparou o “especialista de mercado”: o colunista [Cafardo] deveria ser “mais cauteloso” na escolha de “especialistas” de esquerda e “mesclá-los” com vozes do mercado. E em seguida, admite o mesmo: foi aluno de Maria da Conceição Tavares na UFRJ, mas diz não se orgulhar disso, porque ela lhe teria ensinado “um monte de porcarias”.

Ao que parece Adaime sugere a existência de dois mundos distintos: aquele habitado pelos economistas de esquerda, eivado dos vícios da política e da teoria social; e o ilustrado reino de onde ecoam as vozes do mercado. 

O primeiro está sempre pronto a solucionar os problemas do país com ideias vindas fora da caixinha da teoria convencional, que guia as mentes dos agentes de mercado e seus economistas. O segundo, por outro lado, é lúcido e prático, com conhecimento de causa sobre as dificuldades que obrigam o país a ostentar as maiores taxas de juros reais do mundo.

Os práticos e lúcidos apreendem a realidade em seu cotidiano operando nos mercados. Os outros, se encastelam na academia e conspiram a favor da dialética, o que os impede de enxergar o mundo em cores duplas, como fazem os especialistas de mercado.

Isso me trouxe à lembrança as considerações de Jean-Paul Sartre (que não, não jogou pela seleção francesa de futebol, caro Adaime), sobre os sujeitos aos quais denominava de práticos-inertes, sujeitos prontos, não a negar a dialética, mas a operá-la ao avesso. Diz o francês: 

“Assim, o movimento da objetividade define sua necessidade dialética como a atividade orgânica superada e conservada pela inércia na medida em que ele se apresenta, para o próprio agente individual e na apodicticidade da experiência, como superação da individualidade, nesse agente e em todos, por um estado suportado e original de sociabilidade reificante”. (Crítica da Razão Dialética, p. 422)

Tomo a liberdade de imaginar que Felipe, locutor do mercado, não tenha escalado muito o andaime (ou “monte de porcarias”) do marxismo, por isso, peço licença para expor brevemente as virtudes práticas dos seres inertes.

Os seres práticos e lúcidos, muitos que habitam o ambiente dos negócios e das finanças, o mundo falante do mercado, carregados pela razão instrumental e pela herança mecanicista e positivista trazida das navegações inconscientes pelos mares da doutrina liberal, reservam para si uma dialética peculiar, negada e afirmada a todo tempo por sua objetividade esclarecida. 

Essa dialética pendula entre a dinâmica dos indicadores econômicos que tem, quase sempre, três estados possíveis – acima, abaixo ou em linha com seus atributos neutros (ou naturais) – para, enfim, fixar-se no equilíbrio, retornando ao ponto de inércia. Este ponto, em coordenadas cartesianas, satisfaz as condições do crescimento exponencial das crenças e certezas e do decaimento logarítmico da capacidade de observar algo além das duas cores (verdes, de alta, e vermelhas, de baixa) exibidas nos gráficos tipo candlesticks.

O andaime intelectual do especialista Adaime funciona bem em sua função de subir e descer identificando cores e tendências, mas está sempre preso ao movimento pendular implícito na teoria neoclássica da taxa de juros. Vejamos uma amostra:

“O Brasil não caiu em armadilha alguma dos juros e do câmbio – foi levado à situação atual porque a esquerda acha que resolve todos os problemas emitindo moeda e tomando dívida. Se fosse simples assim, não haveria pobreza no mundo. Não dá certo porque o crescimento tem que estar associado à produtividade, à tecnologia e, mais que tudo, ao capital. Também precisa ter estoque de mão de obra, território e recursos naturais. O Brasil tem quase tudo isso, mas é pobre, sem capital. Essa é uma das razões para os juros altos. Como a demanda por capital excede sua oferta, impacta o preço do capital – os juros.”

Os juros no Brasil, permanecem no degrau mais alto do andaime, porque a demanda de capital supera sua oferta. Caso, esse descasamento fosse superado, poderíamos reduzir os juros até o nível neutro ou natural.

Se a praticidade do comentarista já não tivesse disparatado o suficiente, o mesmo se mete a implicar a emissão de dívida pública à escassez de capital. Convém recorrer aqui a uma das quatro operações elementares da aritmética, neste caso, a soma: se o governo emite dívida para financiar gastos, esse estoque de riqueza se converte necessariamente em capital na mão do tomador do título, somando-se ao universo de ativos líquidos, ou quase líquidos em posse do público.

Em seguida, Adaime relaciona os juros altos ao tamanho da dívida pública, que aumenta conforme se acumulam déficits nominais (resultado primário do governo mais juros da dívida). É de bom alvitre recordar, que exceto no período da pandemia, o resultado primário negativo (déficit) nunca ultrapassou 20% do resultado nominal, desde novembro de 2014.

Aliás, vale notar que entre 2003 e 2010, na primeira era da temível esquerda gastadora, os sucessivos e crescentes superávits primários fizeram com que dívida pública em relação ao PIB recuasse 22,67% (ou 17,5 p.p.) em termos brutos e quase 35% (ou 20,4 p.p) em termos líquidos. 

Do ponto mais baixo da série histórica, em abril/2014, ainda sob a batuta de Dilma, para cá, a dívida líquida dobrou e a dívida bruta cresceu quase 60% (ainda em proporção do PIB) e em ambas as óticas se elevaram em mais de 30 p.p. Vale a pergunta: se o primário contribuiu em média, neste período, com 13,67% do resultado nominal (que registra a variação da dívida líquida), é possível outro motivo para a bola de neve do endividamento público senão os juros sistematicamente elevados?

Nas cabeças de planilha dos denunciantes do risco-fiscal, para usar o termo do amigo Luis Nassif, o resultado primário tem por finalidade exclusiva de pagar a dívida pública, devolvendo ao possuidor dos títulos o valor inicialmente aportado mais juros (fixados ou indexados, seja a Selic, ao IPCA e outros índices). Ledo engano. 

Diante da necessidade de financiamento, acusada pelo déficit nominal, o Estado opera a rolagem da dívida velha para frente, emitindo dívida nova, desvalorizando o estoque de títulos de curto prazo e oferecendo como recompensa fluxos de renda futuros na forma de juros que são incorporados no montante da dívida pública. Essa não é uma peculiaridade brasileira, mas a forma moderna de conciliação monetária e fiscal praticada Urbi et Orbi por todos os bancos centrais do mundo.

A peculiaridade da Ilha de Vera Cruz, atual Brasil, é o elevado patamar das taxas de juros praticadas pelo Banco Central, sobretudo, quando consideradas em termos reais. Aqui vamos ao centro do baile cujo ritmo fez o senhor “ex-VP” do Banco de Chicago derrapar no passo e cair de seu andaime.

Juros, expectativas e o Sistema de Metas

As várias interpretações sobre os juros altos no Brasil são possíveis de vender em uma feira, atendendo a todos os gostos e amealhar cada trocado dos visitantes curiosos.

A visão mais difundida, quase que uníssona entre mercadistas e seus economistas de bolso, é que os juros são altos porque o país gasta muito e gasta mal, gerando inseguranças aos investidores sobre os rumos da dívida pública e sobre a resiliência da inflação acima da meta.

A inércia criativa desses praticantes da boa e velha “ciência econômica” os faz retornar, sem querer querendo, ou querendo por querer, aos postulados do sistema de metas: se os preços dos ativos financeiros negociados nos mercados secundários de riqueza informam a todo tempo a trajetória provável da “economia real” cujo desempenho é refletido pelo comportamento de cada ativo especifico, seria razoável presumir que as expectativas dos participantes e negociantes desses ativos servissem como farol aos bancos centrais sobre as tendências da economia como um todo e, em especial, da inflação.

Esse farol funciona bem ou mal, a depender da disposição dos bancos centrais em manejar a taxa de juros para a direção apontada por esses especialistas engajados na predição do futuro com base no aprendizado sobre o passado. 

Além da direção, os bancos centrais devem acertar na medida, reagindo às expectativas com precisão e se mostrando preparados para coibir excessos vindos da “economia real”, tais como: empresários investindo demasiadamente, gente demais trabalhando, recebendo salários, gastando e perturbando o equilíbrio de curto prazo entre oferta e demanda. Se não forem capazes de coibir excessos diretamente, os bancos centrais podem alertar gentilmente os governos sobre a necessidade de ajustar as contas públicas para reorientar as expectativas e conter pressões sobre a demanda e a dívida pública.

Em última instância, as vozes do mercado se juntam à poderosa retórica dos bancos centrais para dizer aos políticos gastões: “se continuarem a gastar, o aumento dos juros vem aí, até que a desaceleração da economia jogue a inflação para baixo, trazendo consigo o desemprego e a impopularidade”. Não muito tempo atrás, a Presidente Dilma se viu nessa posição. Cedeu aos desejos da turma do andaime e o resto virou história.

O economista suíço Christian Marazzi sugere em seus trabalhos mais recentes que as relações dos bancos centrais e dos tesouros nacionais com o mercado e a sociedade se estabelecem por meio de um diálogo perpétuo no qual os entes públicos estão submetidos ao dever do convencimento. 

Ao mercado, bancos centrais e governos devem atestar credibilidade técnica nas decisões acerca do controle da inflação e da contenção de despesas; à sociedade, devem esclarecimentos sobre a dinâmica do emprego, da renda e da distribuição de renda. Tarefa hercúlea nestes tempos em que as palavras perderam seu referente concreto e o diálogo político-social foi invadido pelos signos sem significado. Um exemplo muito fortuito pode ser encontrado na última Ata do Comitê de Política Monetária do BACEN, divulgada em 05/08/2025:

“7. A conjuntura de atividade econômica doméstica tem indicado certa moderação no crescimento e, ao mesmo tempo, apresentado dados mistos entre os setores e indicadores.

  1. De modo geral, observa-se uma certa moderação de crescimento, corroborando o cenário delineado pelo Comitê. Tal moderação, necessária para a abertura de hiato e a convergência da inflação à meta, se coaduna com uma política monetária contracionista. As pesquisas setoriais mensais e os dados mais tempestivos de consumo corroboram uma redução gradual de crescimento.
  2. Em momentos de inflexão no ciclo econômico, é natural que se observem sinais mistos advindos de indicadores econômicos, alguns antecedentes, outros defasados, como também de comparações entre mercados, por exemplo, os mercados de crédito e de trabalho.
  3. O mercado de crédito, mais sensível às condições financeiras, tem apresentado uma moderação mais nítida. Observa-se um recuo nas concessões de crédito livre e elevação nas taxas de juros e de inadimplência. Além disso, no crédito às pessoas físicas, há um aumento do comprometimento da renda familiar com o serviço das dívidas e um aprofundamento do fluxo de crédito negativo, ou seja, maior pagamento do que contratação de dívida por parte das pessoas físicas. Ressaltou-se, no debate, que algumas medidas recentes, como o consignado privado, têm tido menor impacto do que era esperado por muitos participantes do mercado. Tendo em vista o calendário de implementação nesta linha de crédito, bem como o efeito em outras modalidades da introdução e retirada de impostos, o Comitê avalia que deve acompanhar atentamente as próximas divulgações dos dados de crédito.
  4. Em contraposição ao mercado de crédito, o mercado de trabalho segue dinâmico. Tanto do ponto de vista de renda, com ganhos reais consistentemente acima da produtividade, como do emprego, com redução expressiva da taxa de desemprego para níveis historicamente baixos, o mercado de trabalho tem dado bastante suporte ao consumo e à renda.
  5. Desse modo, o Comitê avalia que os sinais advindos da demanda e da atividade econômica até aqui sugerem que o cenário se desenrola conforme esperado e compatível com a política monetária em curso. O Comitê reforça que o arrefecimento da demanda agregada é um elemento essencial do processo de reequilíbrio entre oferta e demanda da economia e convergência da inflação à meta.”

O ilustre colegiado composto pelo Presidente e pelos Diretores do BACEN neste trecho da Ata, que registra ao final a decisão unânime pela manutenção da taxa básica de juros em 15% a.a., informa, em tom sóbrio e com a linguagem carregada das tecnicidades habituais, que a persistente elevação do emprego e da renda tem criado obstáculos à tentativa, até então frustrada, de conduzir a inflação ao centro da meta, hoje fixada em 3% ao ano, com tolerância de 1,5 p.p. para cima e para baixo. 

No mesmo passo, o COPOM carrega esperanças de que o elevado patamar da taxa de juros comprima o ritmo de crescimento da economia, jogando a favor da tal “ancoragem das expectativas”. Quais expectativas? Aquelas formadas pelos operadores de mercado, que formam os preços dos ativos. 

A crença do BC de que acertou na medida tanto no ritmo, como na magnitude das seguidas elevações da taxa de juros desde outubro de 2024, despejará nas botijas dos formadores de preços um modesto rendimento entre 7 a 9% acima da inflação esperada para os próximos 12 meses. Na contramão, a esperança dos guardiões da moeda é que o arrefecimento da atividade econômica (leia-se aumento do desemprego), equilibre oferta e demanda.

O Presidente do BC, Gabriel Galípolo, revelou que, em conversa amistosa com o genial Caetano Veloso, o músico baiano o perguntou sobre ‘forward guidance’, as sinalizações ofertadas pelo BC ao mercado sobre a trajetória futura dos juros. Galípolo respondeu:

“E eu comecei a falar para ele como é que são as escolhas das palavras. Ele falou: ‘então é que nem fazer poesia’. Eu falei que tenho certeza que as pessoas não tem o mesmo prazer lendo suas poesias do que a ata do Copom. Mas tem uma arte por trás de escolher as palavras ali”.

A arte de escolher as palavras dirigidas ao mercado e à sociedade não é, de fato, distante da poesia. Nos dois casos, a linguagem traz à tona o elemento simbólico que pretende produzir no interlocutor uma reação afetiva, isto é, que ultrapassa a casca racional e atinge as camadas sutis da consciência. A diferença reside no artifício linguístico. 

A linguagem poética, ensina Franco Berardi, “é a ocupação do espaço de comunicação por palavras que escapam do plano das trocas… é o espaço da singularidade, da significação corporal, da criação sensorial”. 

A linguagem da finança, que ocupa as linhas e entrelinhas da comunicação dos bancos centrais e governos com o mercado e a sociedade, é perfomativa: busca produzir efeitos a partir de sinais que não carregam ou aludem à referentes concretos, mas que reforçam a necessidade de realização dos efeitos sinalizados. 

Essa forma supera a casca da razão prática no momento em que o referente, que deveria oferecer à consciência algum significado real, é superado pela autorrealização do ato linguístico, que entrega o símbolo em virtude do convencimento. Marazzi exemplifica com clareza os dons da comunicação monetário-financeira:

“Quando, por exemplo, o Tesouro dos EUA escreve em uma nota de US $ 20 “Esta nota tem curso legal para todas as dívidas públicas e privadas”, não está apenas descrevendo um fato, mas na verdade criando um. É um enunciado performativo em que dizer algo torna isso algo verdadeiro”.

A linguagem técnica dos responsáveis pela salvaguarda das finanças públicas e do poder de compra, que preserva distância tétrica da política, encarna imediatamente um ato de troca: o governo e o banco central oferecem credibilidade na condução das políticas econômicas recomendadas pela velha ciência e o mercado e a sociedade retribuem reiterando a soberania monetária, isto é, a autonomia na emissão e gestão da riqueza criada a partir da emissão de dívida pública e selada pela propriedade do dinheiro em atuar como reserva de valor.

Esse ato dialógico ocorre cotidianamente, na forma de uma convenção que reitera a cada instante a possibilidade de acionamento do performativo absoluto, isto é, da sinalização para qual não é possível nenhuma resistência material ou ideal: a confiança dos participantes da vida social e econômica de que o dinheiro emitido pelo Estado captura em seu valor de uso, todos valores de troca da riqueza existente, refletida nas expectativas acerca dos fluxos de renda futuros. 

Neste momento, a dinheiro torna-se o único caminho possível entre o presente e o futuro e a preferência pela liquidez torna-se imperativa na consciência dos homens e mulheres que, como disse um certo filósofo inglês, buscam a lua e se contentam com queijo suíço, ou melhor, buscam preservar seu estoque de riqueza na forma líquida e se contentam no abrigo do Tesouro público.

Sobre o Tempo e a Incerteza

Essas digressões pelos aspectos substantivos da forma-dinheiro foram necessárias para o avanço sobre o perigoso terreno das expectativas, que já aprisionou mentes como a de Robert Lucas na casamata de considerar a incerteza em relação ao futuro como caso particular das propriedades racionais dos seres econômicos.

É prudente recorrer, brevemente a dois conceitos de incerteza, a Incerteza Radical de Keynes, exposta já nos textos preparatórios de sua Teoria Geral de 1936, e a de Werner Heisenberg que elaborou sua Teoria da Incerteza no campo da Mecânica Quântica poucos anos antes de Keynes, em 1927.

A Incerteza de Heisenberg garante que, em um sistema quântico, a variação simultânea da posição e da velocidade de partículas em movimento conduz à indeterminação sobre a precisão das medidas. A eliminação dessa indeterminação depende da subjetividade do observador em fixar a posição correspondente à velocidade da partícula para uma determinada força de aceleração. Igualmente, a posição só pode ser obtida tomando uma velocidade já conhecida.

A hipótese da Incerteza Radical de Keynes estabelece que a precariedade do conhecimento humano impede a formação de considerações precisas sobre o futuro. Por isso, os agentes se apegam à opinião da maioria, na esperança de minimizar os erros de suas previsões. Essa é uma ação racional que dedica os esforços do indivíduo esclarecido em assumir como verdadeiras determinadas hipóteses que não podem ser provadas à priori. Entretanto, essa ação racional pode ser dirigida por suposições inteiramente equivocadas que, igualmente, só se mostram falsas no futuro.

As duas teorias da incerteza indicam que não existem critérios objetivos pelos quais se obtém um conhecimento objetivo. Ao contrário, o conhecimento objetivo parte de uma base de escolhas subjetivas que não podem ser validadas ou impugnadas objetivamente.

A Teoria das Expectativas que domina os modelos mais reputados da macroeconomia moderna postula o contrário acerca da incerteza. Em síntese, informam seus realizadores (dentre os quais alguns keynesianos bastardos) que a incerteza pode ser mitigada pela expansão e qualificação das informações que baseiam a decisão racional dos agentes econômicos. 

A capacidade de aprendizado obtida no passado imuniza os agentes em relação à incerteza sobre o futuro, transformando as decisões econômicas que antes eram objetivamente indetermináveis pelas vias racionais em variáveis de um modelo probabilístico ajustado por um certo erro entre as previsões passadas e a realidade anterior observada. As expectativas refletem, portanto, as probabilidades de determinados eventos futuros.

A amplitude de informações que correm pelas veias das mídias digitais para dentro do circuito financeiro, capacitam os analistas de mercado a formarem os preços dos ativos com cada vez mais precisão, que é assegurada pela significância estatística de seus modelos de probabilidade.

Essa alquimia, operada pela teoria econômica convencional para driblar as inconsistências do conhecimento humano e da capacidade de decidir sobre o futuro baseando-se no passado, mora no coração da operacionalidade do sistema de metas de inflação.

Nas funções de reação dos bancos centrais, inspirados na charmosa Regra de Taylor, com suas diferenças e peculiaridades pontuais, estão abrigadas nos supostos de que os agentes de mercado são capazes de prever com razoável segurança os riscos associados à evolução da inflação. 

Na hipótese de não existirem pressões inflacionárias de demanda (hiato de produto próximo a zero) e de calibragem correta do diferencial de juros entre os juros internos e os juros praticados internacionalmente (garantindo a cobertura da paridade cambial no médio-longo prazo), a decisão do banco central fixa-se tão somente na diferença entre a meta de inflação e as expectativas informadas pelos agentes via precificação dos títulos de dívida.

Espremendo ao limite, o sistema de metas se resume a convencer o mercado de que o banco central fará tudo possível para convergir a inflação em direção à meta, que é definida, no caso brasileiro, pelo Conselho Monetário Nacional. 

Quanto mais desconfiado o mercado em relação à capacidade do banco central de manejar os juros, com direção e precisão necessárias, para realizar seu objetivo dentro de um determinado prazo, mais longos e intensos os ciclos de alta de juros, e mais curtos e moderados os ciclos de baixa, como a experiência pós-pandemia tem demonstrado.

Vale considerar, portanto, as relações entre as expectativas e a meta de inflação. Na função de reação do BC, na qual já mostramos que, em condições ideais, procura-se tão somente encurtar a distância entre as expectativas dos agentes econômicos, denunciadas nos preços dos ativos, e a meta de inflação perseguida, considera-se uma determinada sensibilidade entre o nível de ancoragem das expectativas e a dose necessária de ajuste na taxa de juros que cumprirá o objetivo de mover o crédito e a demanda, impactando a inflação corrente.

Este componente de sensibilidade, calculado via estimação bayesiana, cumpre a função de averiguar a distância entre a taxa de juros praticada pelo Banco Central e a taxa neutra de juros reais (aquela que equilibra oferta e demanda de crédito, anulando pressões inflacionárias de demanda). A diferença entre as expectativas e a meta oferece a direção e, fixada a taxa neutra, obtém-se a precisão requerida para a o ajuste na taxa de juros.

Como já discutimos, as expectativas individuais dos agentes econômicas acerca do futuro são formadas com base em seu imperfeito conhecimento do passado e de suas avaliações subjetivas sobre o comportamento futuro da dinâmica da economia, ou melhor, das variáveis que cada agente imagina impactar, com maior ou menor grau, a dinâmica futura da economia como um todo e de cada mercado em particular. Tais avaliações são elaboradas em condições de incerteza radical, o que exige do observador o amparo de alguma convenção que estabilize seu horizonte de decisão. 

Este amparo é encontrado na opinião da maioria e no grau de confiança que cada agente individual deposita na opinião dos demais. Este procedimento, bem documentado pelos estudos sobre a psicologia das massas, pretende objetificar o processo de avaliação sobre a dinâmica futura da economia e, portanto, sobre as condições de preservação e valorização do estoque de riqueza existente. 

Muito embora os agentes possam confiar cegamente na opinião dos demais, a objetificação da avaliação sobre as condições de preservação e valorização da riqueza revela, na verdade, um grau de subjetividade extremo que está justamente na escolha consciente, ou não, em depositar sua crença nas expectativas exaradas pela coletividade a cada movimento do preço dos ativos. 

Isto equivale à experimentação nos sistemas quânticos, em que ao fixar as variáveis que controlam as condições iniciais do sistema, o observador admite um grau de autodeterminação ex-ante ao experimento. Michael Epperson ao perscrutar os procedimentos dos Quanta à luz da filosofia de Alfred North Whitehead, escreveu:

“Embora a mecânica quântica utilize fatos os fatos constitutivos daquilo que está sendo medido, por exemplo, e os fatos constitutivos do resultado da medição , a mecânica quântica não pode explicar esses fatos. A mecânica produz somente probabilidades. Quando usada para prever e, portanto, descrever uma interação de medição, a mecânica quântica utiliza fatos estipulados como existentes antes da interação de medição fatos que explicam o que deve ser medido, bem como o aparato que realizará a medição. Esses fatos são, segundo o formalismo quântico que descreve a interação de medição, causalmente produtivos de uma matriz de probabilidades mutuamente exclusivas e exaustivas probabilidades referentes a um resultado único e factual. Embora esse resultado único seja antecipado pela mecânica, ele não é explicado pela mecânica, e aí reside a chave para o conflito entre várias interpretações concorrentes da teoria quântica. John Bell explica essa dificuldade da seguinte forma: quando se diz que algo é “medido”, é difícil não pensar no resultado como se referindo a alguma propriedade pré-existente do objeto em questão.”

As dificuldades de elaboração dos Quanta acerca da consistência de seus modelos de previsão sugerem uma avaliação cuidadosa dos mecanismos de transmissão das expectativas dos agentes aos preços dos ativos. 

Se os modelos que baseiam a predição do comportamento futuro da economia têm que, necessariamente, instituir parâmetros iniciais que condicionam seus resultados, as decisões de alocação de riqueza baseadas nesses modelos, portanto, são pré-conduzidas a replicarem a autodeterminação presente nos modelos.

As decisões sobre a riqueza, ensinou Keynes, seguem uma hierarquia intuitiva que leva em conta a preferência dos agentes em preservar sua riqueza na forma líquida, isto é, em dinheiro. A alternativa ao dinheiro, a abstinência da liquidez, é o endereçamento da riqueza para a aquisição de bens, quer sejam bens de consumo, quer sejam bens de investimento engajados no aumento da capacidade de produção e do nível de emprego, quer sejam ativos financeiros que carregam em seus preços as expectativas dos fluxos de renda futuros, subjacentes ao desempenho ou fixados nos valores de face desses ativos.

Como mostrou Hyman Minsky, explorando o circuito Finance-Funding, sugerido por Keynes nos textos posteriores à Teoria Geral, as expectativas sobre o comportamento futuro dos ativos financeiros estão contaminadas pela subestimação do risco-sistêmico, espalhado por toda economia, através das interrelações das posições passivas (de endividamento) e ativas (de investimento) que são compartilhadas pelos portadores dos títulos de propriedade sobre o direito a uma renda futura.

A fixação das condições iniciais nos modelos de predição disponíveis aos alocadores de recursos, que carregam para suas decisões um importante grau de autodeterminação, são responsáveis pelo partilhamento do risco-sistêmico, ocultado na oscilação dos preços dos ativos.

O movimento concreto da dinâmica capitalista surpreende os espíritos confiantes na autonomia de suas decisões, disparando, ao sabor das convenientes tendências à concentração e centralização do capital, sinais de turbulência sistêmica, impossíveis de serem capturados pelos modelos de predição. 

Não por menos, as crises financeiras registram momentos de exuberante (e irracional) confiança na capacidade preditiva dos mercados e de seus agentes, seguidos de súbita desconfiança, revelando aos olhos nus dos homens de carne e osso, a miséria do conhecimento humano sobre o passado, a inconsistente percepção sobre o presente e a ilusória crença acerca do futuro. Estes momentos, de relevante frequência na história do capitalismo, advertem os orgulhosos construtores da hipótese dos mercados eficientes a respeito da visita, inesperada e indesejável, do sorriso da volatilidade.

A propósito de investigar as perigosas relações da ciência com o tempo, Carlo Rovelli demonstra os descaminhos da percepção humana sobre a existência e a passagem do tempo, que surgem de uma visão necessariamente desfocada da realidade. Apoiando-se no trabalho do austríaco Ludwig Boltzmann, ensina o italiano Rovelli:

“Boltzmann mostrou que a entropia existe porque descrevemos o mundo de maneira desfocada. Demonstrou que a entropia é precisamente a quantidade de disposições diversas que a nossa visão desfocada não diferencia. […]

A entropia do mundo não depende apenas da configuração do mundo; depende também de como estamos desfocando o mundo, o que, por sua vez, depende de quais são as variáveis do mundo com as quais nós interagimos, ou seja, a parte do mundo a que pertencemos.”

Como consequência, arremata Rovelli:

“Observamos o universo a partir de dentro, interagindo com uma minúscula porção das incontáveis variáveis do cosmos. Vemos uma imagem desfocada dele. Esse desfocamento implica que a dinâmica do universo com que interagimos é governada pela entropia, que, por sua vez, mede a magnitude do desfocamento. Mede algo que diz respeito mais a nós que ao cosmos. Estamos nos aproximando perigosamente de nós mesmos.”

O desfocamento, medido pelo grau de entropia, pela própria passagem do tempo, é a implicação elementar da incerteza sobre as condições essenciais que permitem a existência e a dinâmica dos sistemas em movimento. Hegel, ao tratar do tempo, denomina esse misterioso atributo, transportado da filosofia ao calculo diferencial, como variabilidade absoluta, que turba e desfoca as percepções apressadas dos seres viventes sobre o espaço e suas dimensões.

Breve quadro sobre as condições políticas e sociais do debate sobre as políticas econômicas

Ao tratarmos das relações humanas é invariável a incapacidade da mente humana em conceber a quantidade e o grau de interrelações entre as varias dimensões que governam a vida social. A coleção de indícios da qual dispõe a teoria social é tão insuficiente que os filhos do iluminismo foram obrigados a recuar até as ousadias da dialética de Aristóteles para encontrar algum caminho de confrontação entre o real e o ideal.

Marx, na introdução aos Grundrisse, a proposito da crítica à ontologia mecanicista esposada pela economia política clássica, estabelece os critérios elementares para a representação ideal do movimento real do objeto. Abro aspas para o filósofo nascido em Tréveris:

“Como em geral em toda ciência histórica e social, no curso das categorias econômicas é preciso ter presente que o sujeito, aqui a moderna sociedade burguesa, é dado tanto na realidade como na cabeça, e que, por conseguinte, as categorias expressam formas de ser, determinações de existência, com frequência somente aspectos singulares, dessa sociedade determinada, desse sujeito, e que, por isso, a sociedade, também do ponto de vista científico, de modo algum só começa ali onde o discurso é sobre ela enquanto tal.”

O trabalho de retirar as cortinas que revestem a representação ideal acerca dos fenômenos reais requer, antes de tudo, a consideração acerca das categorias responsáveis por estruturar as formas de aparecer da dita realidade.

Neste mérito, antes e agora, o discurso que predomina nos corredores da finança e, de forma consigna, nos andares e elevadores dos poderes políticos constituídos e postos a operar a máquina das instituições públicas, é empurrado à reprodução das formas elementares e abstratas de representação da dinâmica econômica e social, pelas forças concretas e avançadas que movem essa mesma dinâmica.

Os esforços teóricos que embalaram a criação da institucionalidade contemporânea dos tesouros nacionais e bancos centrais no bordo do mundo atingido pelos conselhos e consensos de Washington, pretenderam reificar os supostos da naturalidade, da racionalidade e do individualismo que suportaram as construções clássicas da doutrina do equilíbrio.

O novo monolito da ciência econômica acabou por preservar as vigas mestras da teoria do equilíbrio, trocando sua roupagem arquitetônica e sofisticando os mecanismos de imposição da razão econômica na moldura das instituições criadas com o propósito de regular as práticas dos agentes privados e proteger os interesses públicos.

Não surpreende, que sob a atuação dos ventos da globalização financeira, a proa do navio neoliberal tenha sido blindada pela negação do controle de capitais, o regime de metas de inflação e o regime de regras que pregam a neutralidade da política fiscal.

Concordando ou não com as bases teóricas do sistema de metas, fato é, que este instrumento se encrustou profundamente na estrutura das políticas econômicas dos países submetidos à governança neoliberal, ou seja: todos os países, com exceção da China e de exemplares que lutam contra o domínio ocidental, como a Rússia.

Alterar este quadro é uma missão política para gerações, não bastando political will dos governantes e congressistas que, com bravura, tem lutado contra os retrocessos nas políticas sociais e do investimento público, aqui e lá fora.

A ingenuidade dos companheiros da Nova Esquerda, na qual incluo minha geração e a anterior, tem levado o debate sobre a política econômica até o paroxismo moralista, que se propõe a etiquetar tudo quanto existe fora de seus (ou dos nossos) ideais como fruto do neoliberalismo e do financismo. Não podemos, a proposito do combate político, cedermos ao imediatismo ou a esperança de que o jogo de poderes se trata da próxima eleição.

A construção do Brasil como uma, vá lá, potência econômica, que inspirou olhares admirados do mundo desenvolvido, levou 50 anos, de Getúlio aos militares, com avenças e desavenças de nossa história, até hoje atravessada pelas ousadias da caserna pintada de verde-oliva. Foram, portanto, três gerações de brasileiros e brasileiras empenhados na construção do País do Futuro, como profetizou Stefan Zweig.

Com a crise da dívida e a explosão inflacionária vindas da mudança de rota da hegemonia americana pós 1979, a obsessão pela estabilização nos desviou do caminho do desenvolvimento econômico, embora tenhamos, diante das complexidades e contradições da história, conseguido com sucesso (e muitos percalços) a redemocratização e a Constituição de 1988, a mais avançada do mundo nos temas sociais até hoje.

De 1980 até o presente, o país vive um longo e profundo processo de regressão estrutural que se estende das esferas econômica, social e política até a moral e a cultura nacional. A estruturação da política econômica, que amarra qualquer um que tente algo além de um crescimento pífio e alguma melhora na distribuição da renda e da riqueza, faz parte desse movimento regressivo, que se aprofundou após a queda de Dilma e os adventos de Temer-Bolsonaro. 

Foram necessárias, portanto, duas gerações de políticos e burocratas compromissados com a doutrina neoliberal para destruir o país. Nossa Nova Esquerda acha que isso será revertido sem o trabalho de duas ou mais gerações, podendo ultrapassar, inclusive, a existência individual de seus participantes? Dúvidas que persistem…

Retorno ao debate dos juros e das metas de inflação

De volta aos constrangimentos do regime de metas de inflação, é recomendável considerar suas inconsistências com o processo de formação de preços em economias abertas com elevado grau de volatilidade cambial e sensibilidade às variações nos preços internacionais dos chamados bens tradebles.

No limite, repetimos, o sistema de metas visa adequar a trajetória das expectativas de mercado apontadas pelos preços dos ativos à meta a ser perseguida pelos bancos centrais. Não custa rimar a repetição, com a lembrança de as expectativas de mercado estão atreladas ao grau de convencimento adquirido no diálogo entre as instituições públicas e os operadores privados de títulos públicos e demais instrumentos financeiros, e refletem em seus aparatos probabilísticos os pressupostos que autodeterminam o processo de formação de preços dos ativos.

Ao tomarmos ipsis litteris os supostos do Regime de Metas verificamos, sem dificuldades, pouca ou nenhuma atenção ao processo de indexação de preços e contratos, que ocorre, sobretudo, em mercados oligopólicos sensíveis à inflação e à volatilidade da taxa de câmbio e dos preços internacionais de commodities.

Ancoradas as expectativas de mercado à meta de inflação estabelecida, a indexação de qualquer preço é um abuso que se supõe geralmente estimulado por deficiências regulatórias ou incentivos indevidos do governo. Na ausência de choques de oferta e de pressões inflacionárias que fogem da capacidade de reação dos bancos centrais, a teoria informa que as economias submetidas ao regime de metas operam contratos celebrados sempre em termos nominais.

Mesmo na ocasião de choques ou de pressões inflacionárias que escapem dos modelos de previsão e da função de reação dos bancos centrais, a indexação é temporária e deverá ser eliminada tão logo os agentes incorporem, no futuro, os fenômenos que perturbaram a formação de preços no passado. No limite, a indexação não deveria existir e se, porventura, ocorrer temporariamente, as forças do equilíbrio intertemporal se encarregam de eliminá-la.

O desafio da estabilização de preços no Brasil, mesmo antes da explosão inflacionária ocorrida nos anos 1980, foi alvo de grande interesse dos economistas, de Furtado a Rangel, depois, já sob a escalada inflacionária, Pérsio Arida e Lara Resende em seu Larida, ortodoxos, heterodoxos, gregos e troianos. A respeito da inflação, suas causas e peculiaridades no contexto brasileiro, o volume e a variedade de teses que foram produzidas, especialmente nos anos 1980 e 1990, são gigantescos.

No curso de evolução do problema inflacionário, sobretudo a partir de 1980, os economistas ortodoxos foram aos poucos abandonando a defesa de uma estabilização clássica, ou seja, elevação da taxa de juros e corte de gastos. Evidentemente, alguns resistiram na defesa da velha magia, enquanto outros admitiam os entraves impostos pela indexação e pela fragilidade externa do país. 

O consenso era difícil e os fracassos dos seguidos planos de estabilização (Cruzado, Bresser, Verão, Collor I e Collor II) embora tenham deixado claro as raízes do problema inflacionário, pouco sugeriam em termos de sua resolução.

Os problemas elementares, cada qual com sua explicação dentre os economistas que se debruçaram sobre o tema da inflação, eram: o desarranjo fiscal gerado pela própria aceleração inflacionária; a restrição externa imposta pelo elevado endividamento e a dificuldade em atrair reservas cambiais, ambos agravados pela tardia moratória; e a indexação de preços e contratos que, progressivamente, se concentrou na correção ofertada pelo instrumento do overnight.

Em 19 de maio de 1993, o mineiro Itamar Franco, Presidente em exercício após a queda de Fernando Collor, convocou o então Ministro das Relações Exteriores, Fernando Henrique Cardoso, o Sociólogo, para assumir o cargo de Ministro da Fazenda, já havia sido ocupado por outros três ministros, dois políticos e um economista. FHC, por sua vez, convocou a equipe econômica que já trabalhava para um plano de estabilização a ser proposto no pleito eleitoral de 1994. Era o Plano Real, que em primeira vista, parecia ficção.

O Plano consistia na tentativa de atacar, de uma vez, as três grandes causas da aceleração inflacionária: o déficit público, a restrição externa e a hiperindexação. 

Encontramos as pegadas intelectuais do Real em dois trabalhos, o paper de Pérsio Arida e André Lara Resende, de 1985, Inertial Inflation and Monetary Reform in Brazil, apelidado de Larida, e a Tese de Doutoramento de Gustavo Franco, Hyperinflations: The experience of the 1920s reconsidered, de 1989.

Com suas semelhanças e divergências sobre o caráter da inflação brasileira, os dois trabalhos tem uma inspiração comum: as experiências clássicas de estabilização durante o período entreguerras que tem, em comum, a restrição externa como grande entrave para qualquer reforma monetária e o processo de indexação como defesa dos agentes econômicos em relação às incertezas acerca do poder de compra da moeda.

O Larida propõe uma reforma monetária absolutamente incomum ao que até então estava disponível na prateleira dos planos de estabilização: a geração de uma hiperindexação em uma unidade de conta estável de tal modo, que, a indexação em moeda corrente fosse transferida para um indexador comum e administrável. Com isso, na medida em que os preços e contratos fossem, progressivamente, denominados no indexador comum, a função da moeda como reserva de valor, que é a primeira a desaparecer com a aceleração da inflação, retornaria e traria consigo as funções de meio de pagamento e meio de troca.

A grande questão, de enorme incomodo aos autores do Larida, e que praticamente derrotou todos os planos de estabilização anteriores ao Real, era a restrição externa. Nenhum indexador resistiria ao enorme passivo externo, que chegava a representar quase 4 vezes as exportações brasileiras. 

***Esta é uma versão preliminar. O artigo completo será publicado em breve.

Economistas apontam o fim da hegemonia americana na economia

A economia mundial presencia o “declínio da hegemonia americana” e a busca por alternativas para um Novo Sistema Monetário Global, apontam os economistas e professores Luís Gonzaga de Melo Belluzzo e Manfred Beck, em entrevista especial ao Projeto Brasil.

Na conversa com os jornalistas Luís Nassif e Sergio Leo, os especialistas destacaram a descentralização do poder monetário global, impulsionada pelo declínio da hegemonia do dólar e a ascensão de outras moedas e sistemas de pagamento, especialmente da China.

Segundo eles, as ações do ex-presidente Trump, visando reindustrializar os Estados Unidos e enfraquecer o dólar, ironicamente impulsionaram a busca por alternativas e o fortalecimento de blocos como os BRICS, do qual a China e o Brasil formam parte.

Entre os fatores que contribuem para o fim desta hegemonia norte-americana, está a política de Donald Trump de congelar ativos russos e as leis como a Magnitsky, que negam o uso do dólar a certas pessoas, expõem o dólar como um instrumento de poder e geram desconfiança internacional.

Isso tem levado países como a China a buscar relações monetárias bilaterais, desenvolver sistemas de pagamento próprios (como um concorrente do SWIFT, que é mais rápido) e acumular ouro.

Ainda, embora os EUA tentem adiar a “morte” do dólar através de iniciativas como os stablecoins (criptomoedas estáveis lastreadas em dólar ou títulos públicos americanos, porém com controle centralizado), a transformação do sistema monetário financeiro é vista pelos economistas como “inexorável”.

Ao mesmo tempo, o avanço das moedas digitais de bancos centrais (CBDCs), com a China liderando o desenvolvimento e 150 bancos centrais no mundo explorando a ideia, aponta para uma era em que a moeda digital se tornará a realização do conceito de moeda no capitalismo.

Luís Gonzaga Belluzzo e Manfred Beck também criticaram o regime de metas inflacionárias, considerando-o uma armadilha que aprisiona a economia brasileira e ignoram outras variáveis importantes. Por fim, exploram-se as implicações da digitalização da moeda e a necessidade de uma maior vigilância sobre o sistema financeiro liberalizado diante do avanço do crime organizado e da especulação.

Para eles, a economia brasileira está inserida em um ambiente onde a taxa de juros e o câmbio são produtos de forças globais complexas, incluindo o carry trade e o volume expressivo dos mercados futuros. As limitações do Banco Central para intervir e o debate sobre a eficácia do regime de metas de inflação somam-se a um cenário internacional de transição na hegemonia monetária, tornando a gestão dessas variáveis um desafio constante para o desenvolvimento econômico do país.

Assista à íntegra da entrevista ao Projeto Brasil:

Um homem contra a pseudociência

Lucas Romano López

Como primeira postagem no Projeto Brasil do GGN, pensei em homenagear um dos maiores cientistas da América Latina do século XX (que faria aniversário em 21 de setembro, se estivesse vivo):

Mário Bunge (1919-2020) foi um físico e filósofo argentino influenciado em grande medida por Bertrand Russell, criou uma versão atualizada e robusta do Problema da Demarcação, que em termos simples, visa dividir o que é ciência do que não é (aqui, a lógica binária de ciência e “não ciência” faz sentido porque a ciência deve se basear em pressupostos comuns e diretivos para suas respectivas áreas). Tal tarefa é muito mais difícil do que parece, porém, o autor nos ajuda a pensar no problema de maneira didática e sistemática, oferecendo 10 condições para que um campo cognitivo seja considerado científico, a saber:

Visão de mundo, base formal, domínio, base específica, problemática, fundo de conhecimento, objetivos, métodos, atualização e integração. Tais características estão presentes em todos os campos científicos e podem ser considerados a base da “boa ciência”. A pseudociência para Bunge falha em satisfazer uma ou mais condições citadas acima. Bunge é um dos críticos mais ferrenhos da psicanálise, sem entrar na discussão acerca do Complexo de Édipo e do conservadorismo na abordagem freudiana. A crítica de Bunge à psicanálise é direta, mas pesada: os pressupostos básicos da psicanálise não se baseiam em questões passíveis de teste empírico e, portanto, não poderia ser capaz de fazer previsões testáveis. Bunge critica fortemente a noção freudiana de inconsciente e diz que esta não encontra lastro na Neurociência de sua época, o conceito de inconsciente para ele não serve nem como “entidade metafísica”.

Todo texto (ainda que de opinião) sobre Filosofia da Ciência obrigatoriamente deve fazer menção à Thomas Kuhn, por diversos motivos: sua visão sobre as revoluções científicas e o progresso da ciência pode ser considerada basilar para entendermos como a ciência funciona, porém, nem Kuhn escapou das críticas de Bunge. Em que pese, a crítica de Bunge à Kuhn é mais light se comparada à Popper, porque o autor argentino enfatiza a possibilidade de as revoluções científicas serem parciais e não aparentemente totais como em Kuhn. Veja, Bunge não nega a existência das revoluções científicas, mas propõe um olhar mais sóbrio para elas e enfatiza que mesmo as revoluções científicas não são capazes de destruir o conhecimento anterior (como fica a impressão em Kuhn).

O rigor de Bunge acerca da ciência pode ser contestado, porém, não se pode negar que o autor argentino apresentou, durante toda sua carreira, uma visão crítica do fazer ciência e a busca por uma unidade pode ser considerado uma virtude, visto que há de se ter critérios claros, coerentes e confiáveis para separar a ciência da pseudociência. Este tema é tão relevante atualmente quanto foi na época em que o filósofo escreveu, as aulas de ciências nas escolas poderiam começar com a pergunta: o que é ciência afinal? (como diria Chalmers). As escolas poderiam pensar em oficinas práticas de investigação científica para os alunos, pegar um tema como Democracia, Direitos Humanos ou Tolerância e incentivar os alunos a fazerem um debate apresentando argumentos verificáveis e referenciados (com referências públicas para que todos possam acessar e sem cópias), obviamente que exigiria algum grau de engajamento por parte dos estudantes e comunidade escolar, mas poderia despertar o interesse pela ciência nos jovens.

O questionamento é o que rege a ciência, porém, não qualquer tipo de questionamento: até para questionar você precisa de base, se não houver base, o questionamento pode se tornar raso e ad hoc, como o questionamento da eficácia das vacinas, por exemplo (não faz sentido nenhum, é baseado em achismos e pior, pode matar!). O estudo das bases da ciência, aliado ao estudo dos clássicos de uma determinada área pode ser produtivo para despertar questionamentos mais refinados e coerentes. Existem cientistas que são expoentes de uma ou mais áreas do conhecimento como por exemplo, Max Weber, que é expoente da sociologia, da filosofia e da política. O bom trabalho científico transita entre áreas e não fica limitado à uma “caixinha”. A interdisciplinariedade ou a conexão com outras áreas do conhecimento pode ser extremamente benéfica para a pesquisa científica, visto que, pode refinar os argumentos, incentivar a leitura de outras fontes de conhecimento e resolver problemas de maneira inovadora.

Brasil tem todos os pilares para ser protagonista da revolução tecnológica, afirma Marcelo Zuffo

O Brasil possui uma variedade significativa de recursos que o posicionam de forma vantajosa na indústria de semicondutores e na revolução tecnológica. Mas é preciso “arregaçar as mangas”, pontua o professor Marcelo Zuffo, doutor em Engenharia Elétrica e diretor do Centro de Inovação da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista ao Projeto Brasil.

Filho do pioneiro João Antonio Zuffo, engenheiro eletricista que participou dos primórdios da computação no Brasil e foi o primeiro a produzir um chip no país, Marcelo seguiu os passos do pai e vem desenvolvendo projetos estratégicos na USP.

Na entrevista, ele examina a história e o potencial do Brasil na indústria de semicondutores, destacando o pioneirismo do país na fabricação de chips na década de 1970. A discussão explora a complexidade da cadeia produtiva, desde matérias-primas abundantes como o silício e terras raras, até a formação de recursos humanos altamente qualificados, que, infelizmente, resultam na exportação de talentos.

O especialista defende a a necessidade de políticas públicas integradas que impulsionem a demanda interna e a produção local, visando a soberania tecnológica e econômica do Brasil e aborda os desafios globais atuais, como a “Guerra Fria 2.0”, que, paradoxalmente, criam oportunidades para o Brasil desenvolver uma indústria de chips limpa e sustentável.

Ele elenca como o Brasil possui uma variedade significativa de recursos que o posicionam de forma vantajosa na indústria de semicondutores e na revolução tecnológica, desde recursos minerais essenciais, engenheiros especializados e talentos brasileiros e, para além de recursos naturais e infraestrutura, também a demanda interna.

Assista à íntegra da entrevista no especialista no Projeto Brasil no Youtube:

Brasil pode barrar o domínio digital com o BRICS, apontam pesquisadoras

Somente o multilateralismo do Brasil com os países do Sul Global e os BRICS é capaz de fazer frente ao poderio das Big Techs norte-americanas e sua tentativa de dominação transnacional, que coloca em risco as soberanias destes países.

Essa é a interpretação de Laura Ludovico, advogada especialista em Direito Internacional, diretora de projetos e pesquisas do Fórum para Tecnologia Estratégica do BRICS e diretora de pesquisa do Fórum para Tecnologia Estratégica dos BRICS+.

Ela é a convidada da especialista em dados e soberania tecnológica Isabela Rocha, no segundo episódio da série especial Soberania Digital, do Projeto Brasil:

Nesta aula, as pesquisadores apontam como o Brasil pode se constrastar a hegemonia tradicional do Norte Global e que a colaboração entre nações é vital para garantir o controle dos dados e o desenvolvimento tecnológico dos países.

Rocha e Ludovico também exploram como países como China, Rússia e Índia têm construído sua autossuficiência tecnológica e como o Brasil pode seguir um caminho similar, investindo em pesquisa e desenvolvimento, em vez de depender exclusivamente de soluções estrangeiras.

Segundo a advogada, as vulnerabilidades das grandes potências globais impulsionam a transição para um novo arranjo internacional porque o cenário de dominação hegemônico “já deu o que tinha que dar” e não possui mais uma capacidade frutífera.

Elas explicam que “vivemos um período de transição”, que pode ser descrito como o “interregno” de Gramsci, onde o velho sistema já esgotou suas possibilidades, mas o novo ainda não está plenamente estabelecido, em referência aos Cadernos do Cárcere (1947) de Antonio Gramsci.

“Quando a gente pensa nesse processo de transição que estamos passando, desse momento mais hegemônico e dominador para esse momento mais multilateral, a gente precisa verificar as vulnerabilidades. Quais são as principais vulnerabilidades dessas macroeconomias, dessas grandes ‘potências’? O que causa essa vulnerabilidade? É um fator interno ou é um fator externo?”, questiona Laura Ludovico.

“Voltando à guerra russa-craniana, a gente percebe que a Europa entrou numa crise energética, econômica e política. Ela era muito dependente da Rússia. Então essa vulnerabilidade é deles com a Rússia. Já a Rússia, que é um grande nesse cenário, não sofreu com as sanções. Basicamente, está lá com 1 bilhão de sanções na lista e nada acontece.”

“O que a política externa de cada país faz sobre essas vulnerabilidades? A de Trump faz o tarifaço para não depender das pessoas. O Brasil faz cooperação com outros países justamente para ampliar esse rol de cooperação. E o mais denunciador disso é questionar quais alianças suprem essa vulnerabilidade. A vulnerabilidade da China é suprida com o BRICS. A vulnerabilidade da Índia é suprida com o BRICS. A mesma coisa acontece com o Brasil, com o Irã. E como a vulnerabilidade dos Estados Unidos é suprida? Com tarifaço, com sanções, com esse comportamento realmente imperialista. Então fica essa reflexão para o mundo”, traz a pesquisadora.

O episódio com de Isabela Rocha com Laura Ludovico está disponível no canal da TV GGN no Youtube.

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Violência nas redes, sexualização e violação aos direitos das crianças e adolescentes, discursos de ódio formando adolescentes. E mais: letramento digital, tentativa de domínio do Norte Global, alianças com o BRICS, tecnologia militar e espacial, e precarização do trabalho humano por trás da Inteligência Artificial. Todos estes fenômenos atuais passam, necessariamente, por uma grande discussão: a regulação das plataformas e do espaço digital.

Pensando nisso, o Projeto Brasil decidiu embarcar nesta discussão e convidou a especialista Isabela Rocha para comandar uma série especial de conversas com pesquisadores de peso para aprofundar este tema tão caro ao momento.

A série “Soberania Digital” está disponível no canal da TV GGN no Youtube, e traz em cada um dos episódios um ou mais convidados especiais para aprofundar as problemáticas, desafios e necessidades do Brasil como nação se posicionar de maneira soberana, e, assim, garantir os direitos já consolidados no país em meio à disputa de poder de grandes multinacionais digitais, as Big Techs.

Isabela Rocha, a convidada para mediar esta série de encontros e aulas, é presidente do Fórum para Tecnologia Estratégia dos BRICS+, mestre e doutoranda em Ciência Política pela UnB e coordenadora do Grupo de Trabalho em Estratégia, Dados e Soberania do Grupo de Estudos de Segurança Internacional da UnB.

Confira os episódios:

ADULTIZAÇÃO: Regulação das Redes para a Proteção de Crianças

No primeiro espisódio, Isabela Rocha conversa com Ergon Cugler, pesquisador do CNPq, conselheiro da Presidência da República no Conselhar e autor do livro “IA-Cracia – Como Enfrentar a Ditadura das Big Techs”.

 

ALIANÇAS: A potência dos BRICS na guerra digital contra os EUA

Neste episódio, Laura Ludovico, diretora de projetos e pesquisas do Fórum para Tecnologia Estratégica do BRICS, aponta como o Brasil pode se constrastar a hegemonia tradicional do Norte Global, a exemplo de países como China, Rússia e Índia, que têm construído sua autossuficiência tecnológica.

 

LETRAMENTO DIGITAL E CONTEXTO BRASILEIRO: O que o Brasil precisa para superar dependência tecnológica

O docente e pesquisador Cássius Chai é o convidado para abordar como o Brasil pode deixar de depender 80% de capacidade tecnológica avançada de outros países. Ele fala da natureza multidimensional da soberania, que vai além das capacidades militares, e discute a universalização do acesso digital, o desenvolvimento de capacidades domésticas e a importância da educação e do letramento digital.

 

DESMISTIFICANDO A IA: A realidade humana por trás da IA e desafios para a soberania digital brasileira

Os especialistas Nahema Falleiros e Pedro Kritski, juntamente com Isabela Rocha, discutem a natureza da IA, desmistificando-a como um mero modelo matemático e estatístico, e não como uma inteligência genuína. Eles abordam a origem militar da IA, a precarização do trabalho de classificação de dados no Sul Global e a necessidade de investimento em pesquisa de base e infraestrutura para que o Brasil desenvolva sua própria tecnologia.

 

Data centers: impactos ambientais, geopolítica e interesse dos EUA 

No último episódio da série especial “Soberania Digital”, do Projeto Brasil, a engenheira mecânica e pesquisadora Camila Modanez, do GEPS, explica que os data centers são infraestruturas físicas essenciais para o processamento e armazenamento de dados digitais, aponta a importância para o Brasil e os massivos efeitos ambientais e interesses geopolíticos por trás dessas estruturas, principalmente dos Estados Unidos, em jogo.

 

 

A denúncia de Felca, Adultização, e Big Techs: o contexto da sexualização infantil no Brasil

Um documentário que viralizou nas redes escancarou como as maiores empresas de tecnologia do mundo lucram com a exploração sexual infantil. A investigação mostra que seus algoritmos recomendam, monetizam e amplificam conteúdos abusivos, transformando a violência contra crianças em um negócio bilionário protegido pela impunidade

Sara Goes

Ensaio “Como as big techs lucram com a pedofilia” publicado, originalmente, em Código Aberto

Todas as imagens deste ensaio são pinturas de Edward Atkinson Hornel

Ponto de partida

Lançado em 8 de agosto de 2025 no YouTube, o documentário Adultização provocou forte repercussão ao revelar como as redes sociais e seus algoritmos alimentam e lucram com a exposição e sexualização de crianças. Produzido pelo youtuber Felipe Bressanim Pereira, mais conhecido como Felca, o vídeo de quase uma hora marcou uma virada em sua trajetória, até então centrada no humor, e apresentou casos concretos como o do influenciador Hytalo Santos, acusado de explorar menores para gerar engajamento. Hytalo, que acumulava mais de 17 milhões de seguidores, teria usado adolescentes em conteúdos com conotação sexual, incluindo a influenciadora mirim Kamylinha, que foi emancipada aos 16 anos para colocar próteses de silicone, transformando a cirurgia em material de entretenimento. Com dados, trechos de vídeos e a análise de uma psicóloga especializada, Felca apontou que criadores de conteúdo monetizam cada visualização, comentário ou compartilhamento, mesmo quando isso significa lucrar com a violência.

O documentário pode ser visto aqui:

1. A denúncia que rompeu o silêncio conveniente

O documentário de 50 minutos que serve de ponto de partida para este ensaio apresenta um conjunto articulado de denúncias sobre a exploração da imagem de crianças e adolescentes em redes sociais, com ênfase no papel das plataformas digitais na formação e sustentação desse mercado. Produzido por um criador de conteúdo brasileiro, o vídeo mostra de forma prática como o algoritmo do YouTube recomenda conteúdos potencialmente atrativos para pedófilos, além de trazer a entrevista de uma psicóloga especializada que discute os riscos dessa exposição para a saúde mental e o desenvolvimento infantil. Ao reunir provas, contextos e explicações, a obra rompe com a abordagem fragmentada e episódica que costuma marcar a cobertura do tema.

O alcance da denúncia feita por Felca foi tão expressivo que o criador de conteúdo anunciou ter movido ações judiciais contra mais de 200 pessoas por difamação, declarando que todo o montante obtido será destinado a organizações beneficentes. Como alternativa para encerrar as disputas judiciais, propôs que cada acusado contribua com R$ 250 para as entidades indicadas e faça um pedido público de desculpas. A repercussão foi tão intensa que atraiu até grandes perfis, como o do deputado Nikolas Ferreira, que publicou: “Felca mexeu no vespeiro. Na época da ilha do Marajó fiz um vídeo, arrecadamos muito pra ajudar e a mídia ficou literalmente calada sobre. Que Deus abençoe ele nessa jornada. Não será fácil.”

O caso citado por Nikolas, o chamado “escândalo de Marajó”, foi, na realidade, um dos maiores exemplos de pânico moral fabricado por fake news da extrema direita no Brasil. Em 2022, a ex-ministra Damares Alves e aliados políticos divulgaram vídeos e discursos alarmistas sobre uma suposta exploração sexual infantil generalizada na ilha. O tom das falas, carregado de imagens fortes e frases de efeito, sugeria que toda a população local estava imersa em um cenário quase apocalíptico. Nada disso foi sustentado por levantamentos oficiais ou estudos. A narrativa ignorou causas estruturais como pobreza, ausência de políticas públicas e vulnerabilidade social, substituindo a complexidade por um enredo simplista, ideal para mobilizar indignação e capital político.

Essa estratégia ilustra o que especialistas chamam de pânico moral: a criação midiática e política de uma ameaça urgente e generalizada, frequentemente exagerada ou fabricada, usada para justificar ações e fortalecer grupos específicos. Em Marajó, ela teve efeitos duplamente nocivos, pois desinformou a população e estigmatizou injustamente seus moradores, desviando o foco das soluções reais. A diferença é que, enquanto Nikolas e Damares exploraram o tema de forma genérica e politicamente conveniente, Felca apresentou nomes, dados e contextos, prestando, mesmo sem cargo público, um serviço mais relevante à verdade do que muitos parlamentares que usam a causa apenas como palanque.

A partir desse contraste, torna-se possível compreender por que o documentário gerou tanta reação. Ele não apenas expôs casos concretos, mas também sugeriu, ainda que implicitamente, que o problema é sistêmico e atravessa a própria lógica de funcionamento das plataformas digitais. É essa dimensão estrutural, e não apenas a denúncia pontual, que será aprofundada nos capítulos seguintes.

2. A formação de vulnerabilidades no ambiente digital

A exposição digital precoce de crianças e adolescentes não é apenas um fenômeno sociocultural, mas um processo que atua diretamente sobre a formação de circuitos cerebrais relacionados à recompensa, à regulação emocional e à construção da autoestima. Estudos de neurociência apontam que comentários positivos, curtidas e outras formas de validação social acionam o sistema dopaminérgico, criando um padrão de dependência de estímulos externos para a sensação de valor pessoal. Essa retroalimentação artificial, quando iniciada antes do amadurecimento neuropsicológico, pode consolidar vulnerabilidades emocionais duradouras, tornando a criança mais suscetível a manipulações e reforços negativos.  Piaget descreve a ausência de maturidade cognitiva impede que a criança compreenda plenamente a intenção por trás de determinados estímulos, tornando-a mais vulnerável a reforços artificiais. Nesse sentido, a mediação proposta por Lev Vygotsky reforça que a interação social é decisiva na formação psíquica, o que, no contexto digital, significa que o algoritmo atua como um “outro” socialmente presente e influente. Eis o perigo.

No contexto das plataformas digitais, esses impactos são amplificados pela lógica de engajamento contínuo. A interação constante com desconhecidos, mediada por métricas visíveis e algoritmos de recomendação, gera um ambiente em que a aprovação, real ou simulada, se torna parâmetro de autoavaliação. Pesquisas presentes no material analisado demonstram que esse mecanismo pode distorcer a percepção de limites pessoais e de privacidade, reduzindo a capacidade de identificar situações de risco.

Ao mesmo tempo, a arquitetura técnica dessas plataformas revela um problema que vai além da negligência: a manutenção deliberada de brechas que favorecem práticas abusivas. Entre elas, está a ausência de marcação adequada de conteúdo como infantil, o que permitiria restringir ou desativar interações potencialmente nocivas, como seções de comentários. Ao não sinalizar corretamente esses vídeos, as empresas possibilitam que adultos enviem mensagens a crianças e adolescentes, criando um canal aberto para o grooming, estratégia de aproximação gradual usada por abusadores para conquistar a confiança da vítima.

Essas falhas, longe de serem meramente técnicas, se inserem na lógica de maximização do tempo de permanência e da circulação de dados, pilares do modelo de negócios das big techs. Cada comentário, mesmo abusivo, é contabilizado como engajamento, aumentando o alcance do conteúdo e, portanto, seu potencial de monetização. Isso significa que a própria dinâmica de mercado das plataformas transforma riscos à integridade física e psicológica de crianças em ativos econômicos.

Ao se compreender a engrenagem que liga a busca incessante por engajamento aos mecanismos de vulnerabilização neuropsicológica, torna-se evidente que a proteção da infância no ambiente digital não pode se limitar a iniciativas individuais de denúncia ou bloqueio. É necessário intervir no desenho do sistema, reorientando algoritmos e políticas internas para que deixem de privilegiar interações potencialmente abusivas em nome do lucro.

3. E o Lula, hein?

As narrativas sobre o governo Lula são moldadas como armas de uma guerra híbrida, em que a disputa não se dá apenas no campo político, mas também no terreno simbólico e informacional. O objetivo é produzir impacto emocional imediato, explorar fragilidades cognitivas e desviar a atenção do debate sobre políticas públicas concretas. Nesse ambiente, a extrema direita encontrou nas big techs um aliado estrutural, não por alinhamento formal, mas porque a arquitetura algorítmica dessas plataformas transforma sofrimento e indignação em capital político, midiático e financeiro.

O episódio da Ilha de Marajó, em 2023, é exemplo emblemático. Uma rede coordenada por líderes da extrema direita construiu um pânico moral sobre suposta exploração sexual infantil generalizada, sem apresentar provas robustas. As imagens e discursos alarmistas inundaram as redes, enquanto a pobreza, o isolamento e a ausência de políticas públicas na região eram deliberadamente apagados do enquadramento narrativo. Ao se apropriar de uma pauta sensível, a operação converteu a dor e o medo em recurso político e em ativo digital de alto engajamento, retroalimentado pelo algoritmo que premia conteúdo sensacionalista.

Dinâmica semelhante ocorreu nas falsas acusações de corte no Benefício de Prestação Continuada e na polêmica em torno da pensão para crianças com hidrocefalia. As distorções circularam em velocidade exponencial, alcançando milhões de pessoas antes que o governo pudesse apresentar dados e explicações. O custo de reagir, nesse tipo de guerra, é sempre maior que o de atacar: cada tentativa de esclarecimento enfrenta não só a desconfiança cultivada pelo adversário, mas também a lógica de distribuição das plataformas, que privilegia conteúdos polarizadores em detrimento de informações técnicas.

Até mesmo quando a primeira-dama Janja colocou em pauta, diante do presidente da China, a necessidade de enfrentar a exploração infantil no TikTok, a operação de desinformação agiu para deslocar o foco. Em vez de discutir a urgência da regulação das plataformas, o debate público foi direcionado para questionar o papel e a influência da primeira-dama. O conteúdo estratégico da pauta foi eclipsado por uma guerra de percepções cuidadosamente estimulada por influenciadores e amplificada por sistemas de recomendação que lucram com o conflito.

O impacto dessas mentiras não é apenas reputacional. Elas corroem a capacidade do governo de conduzir agendas estruturais, drenam energia política para o terreno da reação e consolidam um ciclo perverso. A extrema direita gera narrativas de choque, as big techs distribuem e monetizam o conteúdo, a base radicalizada converte indignação em mobilização, e o governo se vê preso na defensiva, incapaz de competir na mesma escala de velocidade e alcance. No centro desse ciclo, a exploração do sofrimento infantil é instrumentalizada como recurso de guerra, transformando direitos humanos em moeda de troca no mercado da atenção.

Romper esse ciclo exige mais do que respostas pontuais a ataques coordenados. É uma disputa estratégica por soberania informacional, capaz de reconfigurar a arquitetura pela qual a atenção pública é capturada e explorada. A soberania não se limita a garantir infraestrutura tecnológica nacional ou criar legislação de proteção de dados. Ela precisa incorporar mecanismos para impedir que pautas sensíveis, como a proteção da infância, sejam sequestradas por operações de guerra híbrida. Isso significa estabelecer marcos regulatórios que responsabilizem plataformas pela monetização de conteúdos que exploram sofrimento e violência, criar protocolos de resposta rápida para desinformação massiva e investir em sistemas públicos de comunicação digital que não dependam da lógica de engajamento predatório.

A luta pela soberania também exige a integração entre política externa e política de comunicação. Sem coordenação com outros países que enfrentam problemas semelhantes, a regulação local tende a ser contornada por corporações transnacionais. Por isso, o fortalecimento de alianças no Sul Global e a participação ativa em fóruns internacionais são essenciais para reduzir a assimetria de poder normativo que permite que big techs operem com padrões distintos em mercados periféricos.

Mais do que uma medida técnica, essa é uma escolha política e civilizatória. Ao retirar a infância da lógica de acumulação de dados e engajamento, o Estado não apenas protege um grupo vulnerável, mas desafia o próprio modelo econômico que sustenta a simbiose entre extrema direita e plataformas digitais. É nessa fronteira que se define se a agenda de proteção à infância será mais uma ferramenta de guerra simbólica ou se se tornará um pilar real de soberania nacional.

4. A adultização que veste uniforme de trabalho

A sexualização infantil costuma provocar comoção pública imediata, pois expõe de forma crua a engrenagem obscura que alimenta redes de pedofilia e exploração sexual. Já o trabalho infantil, embora igualmente destrutivo, raramente desperta a mesma reação coletiva. Muitas vezes é percebido com indulgência ou até romantizado, como se carregar peso, trabalhar em lavouras ou vender nas ruas fosse apenas uma etapa natural da vida de crianças pobres. Essa diferença de percepção revela o quanto a adultização, em suas múltiplas formas, é seletivamente reconhecida e denunciada, permitindo que uma de suas faces mais brutais, a que veste uniforme de trabalho, siga invisibilizada e normalizada.

Essa realidade é sustentada por um arranjo ideológico que combina neoliberalismo, teologia da prosperidade, campanhas de desinformação contra direitos trabalhistas e sociais, articulação das bancadas conservadoras e lobby empresarial.

Segundo dados do Ministério do Trabalho, de 2023 a abril de 2025 foram resgatadas cerca de 6.372 crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil no Brasil. Esse número, que representa apenas os casos identificados, expõe uma face visível de um problema que permanece naturalizado. O discurso neoliberal insiste em apresentar o trabalho precoce como ferramenta de responsabilização e formação de caráter, reforçado por lideranças religiosas que transformam o sacrifício em virtude moral. Essa narrativa é funcional a uma elite econômica que lucra com a precarização e resiste a qualquer avanço na fiscalização e na proteção social.

A situação é ainda mais dramática na República Democrática do Congo, onde cerca de 40 mil crianças trabalham em minas de cobalto, algumas por até 14 horas diárias, em condições insalubres e perigosas. Esse mineral é essencial para baterias recarregáveis usadas em smartphones, computadores e veículos elétricos. Multinacionais como Apple, Microsoft, Tesla e Google já foram apontadas em investigações internacionais como beneficiárias diretas dessa exploração, operando cadeias de fornecimento estruturadas sobre a violação sistemática de direitos humanos.

O elo entre exploração física e exploração simbólica é evidente. As big techs não apenas integram cadeias produtivas que se alimentam do trabalho infantil, como também administram plataformas digitais que normalizam ou romantizam o trabalho precoce. Vídeos que mostram crianças vendendo nas ruas ou trabalhando em atividades domésticas para ajudar a família são convertidos em conteúdo monetizado, viralizando em função da lógica de engajamento. O algoritmo, indiferente à violação de direitos, recompensa o que gera cliques, transformando vulnerabilidade em mercadoria.

A adultização pelo trabalho infantil, seja no sertão brasileiro ou nas minas africanas, revela uma engrenagem global que captura a infância como recurso. É um sistema sustentado por conivências políticas e empresariais, que se fortalece na ausência de soberania informacional e econômica. Romper esse ciclo exige uma disputa direta contra as narrativas que justificam o trabalho precoce, o fortalecimento da fiscalização, a responsabilização de corporações em toda a cadeia de valor e a criação de alternativas econômicas que não dependam da exploração da infância. Só assim será possível retirar crianças da condição de força de trabalho barata e devolvê-las ao lugar que lhes pertence, o da proteção, da educação e do tempo livre como direitos inegociáveis.

5. O lucro com a violência contra crianças e o papel do algoritmo como coautor

O documentário mostra, com dados e experimentos práticos, que a exploração sexual infantil online não é um acidente isolado, mas um segmento lucrativo do modelo de negócios das plataformas. As interações (visualizações, comentários, compartilhamentos e até denúncias) alimentam o sistema de recomendação e geram receita.

Esse ponto encontra respaldo no trabalho de Danielle Dutra Soares, que enfatiza que “o ambiente virtual tornou-se propício para a exploração sexual infantil” e que a “busca por cliques, curtidas e seguidores leva à naturalização da exposição sexualizada” das crianças. A autora acrescenta que, ao não alterar os mecanismos de monetização, as plataformas acabam “perpetuando a violação dos direitos infantojuvenis”.

O estudo publicado na revista Lepidus reforça que, no ecossistema digital, “o corpo infantil, especialmente o feminino, é transformado em mercadoria, sendo exposto para consumo visual e simbólico”. Esse consumo visual é lucrativo não só para influenciadores, mas para toda a cadeia publicitária que opera sobre os dados gerados.

Relatórios sobre ética digital incluídos no material que você enviou indicam que essa dinâmica decorre da “estrutura algorítmica voltada para a maximização do engajamento, mesmo que isso implique a circulação de conteúdo nocivo”. Isso significa que a lógica que impulsiona a recomendação de vídeos é a mesma que sustenta nichos predatórios, como o de pedófilos.

Nesse ecossistema digita, o algoritmo ocupa uma posição que ultrapassa a função de organizador neutro de conteúdos. Ele é mediador ativo de interações, capaz de induzir comportamentos, estabelecer associações e moldar circuitos inteiros de atenção. Essa arquitetura técnica, apresentada frequentemente como inovação inevitável, constitui na prática um mecanismo de seleção e priorização que interfere diretamente nas relações sociais e culturais. Quando aplicada à infância, essa mediação molda padrões de comportamento e expectativas que não correspondem ao estágio de desenvolvimento das crianças, deslocando-as para papéis que antecipam responsabilidades e sexualizam precocemente sua imagem. Winnicott argumenta que o ambiente deve ser suficientemente bom para permitir que a criança se desenvolva de forma segura. Nas redes, o “ambiente” projetado pela arquitetura algorítmica compromete essa função protetiva, pois prioriza o engajamento mesmo quando este resulta de conteúdos prejudiciais.

O resultado desse processo não é acidental. Estudos demonstram que o lucro e a visibilidade se sobrepõem à segurança e ao bem-estar infantis, o que torna previsível que sistemas de recomendação priorizem conteúdos que, mesmo prejudiciais, aumentem o engajamento. Assim, vídeos que expõem crianças em contextos ambíguos ou sexualizados encontram terreno fértil para sua difusão, pois respondem a uma lógica econômica que recompensa a atenção obtida, independentemente de seu caráter ilícito ou danoso.

As reflexões de Reynaldo Aragon sobre a lógica do capitalismo de fricção zero ajudam a compreender essa engrenagem. Em sua análise da guerra informacional e do controle algorítmico, o autor descreve o algoritmo como um comando invisível que reorganiza disputas políticas e econômicas sem a necessidade de uma mediação humana explícita. Essa capacidade de operar sob a aparência de neutralidade técnica é o que permite sua inserção em múltiplos mercados, inclusive aqueles cuja existência depende de violar direitos fundamentais. Ao lado das campanhas eleitorais e da manipulação simbólica de massas, a exploração sexual infantil online insere-se no mesmo mecanismo de rentabilização de dados e interações, convertendo a própria violência em mercadoria.

A previsibilidade do dano, associada à inação sistemática das empresas em modificar a arquitetura de recomendação, aproxima o algoritmo de uma autoria compartilhada. Não se trata apenas de falha de monitoramento ou omissão regulatória, mas de um projeto técnico-econômico no qual a manutenção de nichos predatórios é funcional à lógica de acumulação. Nesse sentido, o algoritmo, longe de ser um instrumento passivo, participa como engrenagem indispensável de uma cadeia de valor que extrai lucro da degradação da infância.

6. Legislações, lacunas e a geopolítica da proteção infantil

A proteção da infância no ambiente digital encontra-se diante de um paradoxo jurídico e político. De um lado, marcos legais como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a Lei Brasileira de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) reconhecem a vulnerabilidade das crianças e estabelecem princípios de prioridade absoluta, consentimento qualificado e uso restrito de dados. De outro, o ambiente real das plataformas digitais opera em um espaço híbrido no qual a aplicação dessas normas se torna difusa, sujeita à interpretação fragmentada de autoridades nacionais e à resistência de empresas transnacionais que controlam a infraestrutura e os fluxos de informação.

A experiência internacional revela tentativas de fechar essas brechas. Nos Estados Unidos, o Children’s Online Privacy Protection Act (COPPA) estabelece limites para a coleta de dados de menores de 13 anos, embora seja amplamente criticado pela incapacidade de conter práticas indiretas de rastreamento e pela fragilidade na aplicação das sanções. A União Europeia, com o Regulamento Geral de Proteção de Dados (GDPR), adota a idade mínima de 16 anos para consentimento no tratamento de dados, delegando aos Estados-membros a possibilidade de reduzi-la para 13. O Reino Unido, com o Age Appropriate Design Code, introduziu obrigações específicas para que o design das plataformas seja compatível com a proteção da infância, impondo padrões mais rigorosos para coleta, uso e compartilhamento de informações.

Apesar dessas iniciativas, persiste uma zona cinzenta no que diz respeito à responsabilização das plataformas pelo conteúdo que impulsionam. O estudo de Danielle Dutra Soares destaca que “a ausência de regulamentação efetiva e fiscalização das plataformas” é fator determinante para a manutenção de práticas de exposição sexualizada e adultização. No Brasil, mesmo com o Marco Civil da Internet e a LGPD, o desenho regulatório ainda se concentra na responsabilização do emissor direto do conteúdo, deixando em segundo plano a cadeia de monetização e o papel ativo do algoritmo. Essa omissão conecta-se à análise de Lawrence Lessig sobre como o código, aqui entendido como a arquitetura algorítmica, funciona como lei de fato, regulando comportamentos e práticas mais efetivamente do que normas jurídicas formais.

A dimensão geopolítica dessa lacuna é inescapável. As empresas que concentram o mercado global de redes sociais têm sede em países centrais e operam com padrões distintos de adequação às leis locais. Em mercados periféricos, como o Brasil, a assimetria de poder normativo permite que mecanismos predatórios de recomendação e monetização permaneçam praticamente intactos. A análise de Reynaldo Aragon sobre a dependência tecnológica e informacional da periferia global ilustra como essa assimetria é parte de um projeto mais amplo, no qual a soberania digital é sistematicamente enfraquecida para preservar a hegemonia das potências detentoras da infraestrutura e do capital de dados.

Essa arquitetura jurídica fragmentada, aliada à resistência corporativa e à falta de enforcement internacional, perpetua um cenário em que a exploração sexual infantil online continua sendo não apenas tolerada, mas lucrativa. Enquanto a responsabilização das plataformas não for tratada como questão de soberania informacional e proteção estratégica da infância, qualquer avanço legislativo corre o risco de se reduzir a um gesto declaratório, incapaz de alterar a lógica que converte a violência em ativo econômico.

7. Por uma regulação soberana e centrada na proteção da infância

A persistência da exploração sexual infantil no ambiente digital exige um enfrentamento que vá além das denúncias episódicas e das ações judiciais pontuais. Trata-se de reconfigurar o próprio campo de atuação das plataformas, deslocando a discussão da responsabilidade individual de usuários para a corresponsabilidade estrutural das empresas que projetam, operam e lucram com sistemas de recomendação que favorecem a circulação desse conteúdo.

Uma regulação soberana precisa estabelecer, no mínimo, cinco eixos estruturantes. Primeiro, a responsabilização objetiva das plataformas por todo conteúdo que, comprovadamente, tenha sido monetizado ou impulsionado por seus algoritmos, independentemente de remoção posterior. Segundo, a obrigatoriedade de auditorias independentes e periódicas nos sistemas de recomendação, com foco na detecção de padrões de circulação de imagens e vídeos envolvendo crianças. Terceiro, a criação de mecanismos de bloqueio proativo, que não dependam exclusivamente de denúncias de usuários, mas utilizem tecnologia de detecção associada a protocolos transparentes de exclusão e preservação de provas. Quarto, a vinculação das autorizações de operação das plataformas a políticas de compliance específicas para proteção infantil, com sanções que incluam a suspensão de atividades em caso de reincidência. Quinto, a inclusão das cadeias publicitárias e anunciantes na responsabilidade solidária, impondo restrições e multas proporcionais ao faturamento global.

A base para essas medidas encontra respaldo tanto na legislação nacional quanto em experiências internacionais. O ECA e a LGPD já oferecem fundamentos jurídicos para a proteção integral da criança, mas sua aplicação à realidade algorítmica exige atualização legislativa e fortalecimento dos órgãos reguladores. O pensamento de Stefano Rodotà ajuda a reforçar que a proteção de dados, especialmente de crianças, deve ser vista como um direito fundamental, inseparável da própria dignidade humana. Nesse sentido, as reflexões de Danilo Doneda sobre a LGPD demonstram que já há base legal para responsabilizar plataformas pelo tratamento indevido de dados infantis, faltando apenas aplicação rigorosa e adaptação às especificidades do ambiente algorítmico.

Modelos como o Age Appropriate Design Code britânico demonstram que é possível estabelecer padrões obrigatórios de arquitetura digital voltados à segurança infantil. No entanto, sua efetividade depende de integração com políticas públicas mais amplas de educação digital, fiscalização e soberania informacional.

A perspectiva soberanista, como analisada por Reynaldo Aragon, é decisiva para evitar que as regras nacionais sejam neutralizadas pela arquitetura global de poder digital. Isso significa adotar medidas técnicas e jurídicas que dificultem a externalização de dados e o esvaziamento da autoridade regulatória brasileira, fortalecendo parcerias Sul-Sul e organismos internacionais comprometidos com a proteção da infância.

Sem esse reposicionamento estratégico, qualquer tentativa de enfrentamento permanecerá subordinada à lógica de mercado das grandes corporações digitais, que operam com a certeza de que a degradação da infância pode ser contabilizada como um custo aceitável para manter o fluxo de capital e dados. A regulação, nesse contexto, não é apenas uma ferramenta jurídica, mas um ato político de afirmação de soberania e defesa da dignidade humana contra a mercantilização da vida.

8. Da denúncia à transformação estrutural

O documentário que motivou este ensaio é, antes de tudo, uma prova audiovisual de que a exploração sexual infantil nas plataformas digitais não é exceção, nem acidente, é uma consequência previsível de um modelo de negócios que transforma atenção em lucro, mesmo quando essa atenção se ancora na violação mais grave dos direitos humanos. Ao expor a engrenagem que liga influenciadores, algoritmos e mercados de pedofilia, o vídeo rompe a barreira do que costuma ser tratado como “casos isolados” e revela a dimensão sistêmica do problema.

No entanto, a potência dessa denúncia não está apenas na capacidade de gerar indignação. Ela reside na possibilidade de catalisar um debate político sobre a responsabilidade das plataformas e sobre a necessidade de reverter a lógica de mercantilização da infância. É aqui que a narrativa individual se converte em pauta pública: a mesma arquitetura algorítmica que distribui conteúdos de ódio e manipula processos democráticos é aquela que lucra com a sexualização e a exposição precoce de crianças.

Shoshana Zuboff denomina “capitalismo de vigilância”, no qual cada interação é convertida em dado para monetização, independentemente de seu caráter ético ou lícito. Ao mesmo tempo, como adverte Safiya Umoja Noble, algoritmos não são neutros e tendem a reproduzir, amplificar e lucrar com preconceitos e estruturas de opressão já existentes.

Esse elo entre a economia da atenção e a exploração infantil evidencia que a disputa não se limita ao campo jurídico ou moral. Trata-se de uma questão de soberania informacional e de autodeterminação tecnológica, na qual o Brasil e outros países periféricos precisam romper com a dependência estrutural das corporações que controlam o fluxo global de dados. Como aponta Reynaldo Aragon, a assimetria entre centro e periferia no capitalismo de fricção zero não é apenas econômica, mas também epistêmica: quem define as regras do jogo digital determina quais vidas serão protegidas e quais poderão ser exploradas.

A urgência, portanto, não é apenas punir os responsáveis diretos, mas desmantelar a cadeia de valor que sustenta esse nicho criminoso. Isso implica responsabilizar anunciantes, alterar radicalmente o design de recomendação e impor restrições concretas à extração e circulação de dados de crianças. Significa, também, que qualquer regulação deve ser concebida como parte de um projeto mais amplo de defesa da infância e reconstrução da mediação pública no espaço digital.

Enquanto a violência sexual contra crianças puder ser monetizada e distribuída globalmente em frações de segundo, nenhuma lei ou denúncia isolada será suficiente. O desafio é político, técnico e civilizatório: fazer com que a infância deixe de ser uma variável de ajuste nos cálculos do capital e passe a ser, de fato, prioridade absoluta, como prometem as legislações, mas raramente cumprem.

9. Referências

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O que levou o Brasil a sair do Mapa da Fome e os permanentes desafios da insegurança alimentar

O governo de Michel Temer e Jair Bolsonaro representaram um desmonte das políticas de proteção social e, consequentemente, uma piora do número de brasileiros passando fome – chegando a 33 milhões em 2021, ou 14% da população em insegurança alimentar grave.

A notícia da saída do Brasil do Mapa da Fome, que é a condição de subnutrição, deve ser comemorada. Mas ainda há um grande caminho: o indicador de insegurança alimentar grave continua elevado – 3,4% da população – e é bastante preocupante. A avaliação é do economista Walter Belik.

Em entrevista ao Projeto Brasil, o professor titular aposentado de Economia Agrícola do Instituto de Economia da Unicamp discutiu a segurança alimentar no Brasil, analisando os progressos e desafios do país em relação à fome e à desnutrição.

Ele lembrou como o programa Fome Zero e o Bolsa Família retiraram o Brasil do Mapa da Fome em 2014, e a posterior reversão dessa situação, com cenários acentuados durante o governo Bolsonaro.

“A gente ficou muito satisfeito com esse anúncio de que o Brasil saiu do Mapa da Fome, não se esperava que isso acontecesse tão rapidamente, logo após essa mudança de política a partir do Lula, mas, ao mesmo tempo, nós estávamos com uma expectativa de que agora, de forma definitiva, a gente pudesse consolidar uma política de segurança alimentar no Brasil”, manifestou.

Segundo Belik, os dados da última década mostram que embora o Brasil tenha saído do mapa da fome (medido pela subnutrição, que caiu abaixo de 2,5%), o indicador de insegurança alimentar grave continua elevado e aumentou de 0,7% para 3,4% da população, indicando que a fome piorou.

Além disso, a melhoria na desnutrição veio acompanhada de um aumento preocupante da obesidade, que praticamente dobrou em 10 anos, um fenômeno chamado de “efeito gangorra”, que indica que as pessoas estão comendo mais, mas comendo mal. Isso está relacionado ao aumento do preço dos alimentos saudáveis, que se tornaram inacessíveis para parte da população, levando ao consumo maior de alimentos ultraprocessados, que são mais baratos.

Walter Belik explicou como as políticas públicas de alimentação e o mercado de trabalho desempenharam um papel fundamental na superação da fome e na melhoria da qualidade de vida no Brasil, desde programas como o Bolsa Família, o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) – considerado o maior programa universal do mundo, atendendo diariamente 40 milhões de crianças e adolescentes em escolas públicas gratuitamente -, a Lei Orgânica de Segurança Alimentar (LOZAN) de 2006 e o Conselho Nacional de Segurança Alimentar (CONSEA), que atuam para supervisionar e dar assistência à população.

Conforme expôs o economista, o cenário econômico do país, a melhoria no mercado de trabalho, a retomada do crescimento econômico e do emprego a partir do governo Lula e o reajuste real do salário mínimo foram fatores fundamentais para a saída do Mapa da Fome.

Leia também aqui no Projeto Brasil:

Maria da Penha sob ataque: como desinformação e discurso de ódio alimentam a misoginia

Julie Ricard e Ergon Cugler

Nesta semana comemoramos mais um aniversário da Lei Maria da Penha, marco histórico na luta contra a violência de gênero no Brasil. Reconhecida internacionalmente como uma das legislações mais avançadas no enfrentamento à violência contra as mulheres, ela continua sendo alvo de uma campanha persistente de desinformação na machosfera; e não por acaso.

Mas por que essa lei, símbolo da luta contra a violência de gênero, tem sido sistematicamente atacada em canais de desinformação e ódio online? A resposta está menos nas fake news em si e mais nas estruturas de poder que se sentem ameaçadas.

Em investigações que temos conduzido no Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas (DesinfoPop) da FGV, encontramos uma combinação perigosa de desinformação e discurso de ódio em comunidades do Telegram. O que vemos nesses espaços é um retrato assustador de como falsas narrativas alimentam e justificam a misoginia, abrindo caminho para a legitimação da violência contra as mulheres.

Essas campanhas misóginas não ganham tração sozinhas. Elas prosperam em plataformas digitais que lucram com o engajamento do ódio e que pouco fazem para conter a propagação de mentiras que colocam vidas em risco.

A construção dessa retórica segue um roteiro perturbadoramente simples. A base é desacreditar a vítima que deu origem à lei: Maria da Penha. Mensagens sensacionalistas como “A lei Maria da Penha sendo desmascarada” ou “Vocês sabem da real história da Maria da Penha?! Eu tbm nunca tinha ouvido falar sobre o outro lado da história”, buscam semear dúvida sobre um caso que passou por várias instâncias de julgamento no Brasil, e até chegar à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (CIDH/OEA). A fonte que utilizam para tal afirmação? Uma suposta “investigação” publicada na plataforma “Brasil Paralelo”, que inclusive foi processada pela AGU por disseminar essa desinformação.

Em outras palavras: as narrativas buscam esvaziar de credibilidade a própria base moral e histórica da legislação. Uma vez criada a dúvida inicial, a retórica avança alegando que a lei é utilizada para perseguir injustamente os homens. Assim, mulheres fariam em sua maioria falsas acusações e os homens seriam vítimas indefesas de um sistema que supostamente não exige provas. Uma mensagem ilustra bem esse mecanismo: “Às mulheres BASTA FALAR que foi agr3ssão, ao rapaz resta se desdobrar para mostrar que é mentira”. Em outra afirmação falsa que não cita nenhuma fonte, afirmam que “80% das acusações da Lei Maria da Penha são falsas”.

Se você assistiu à série “Adolescência”, que bombou nas redes há alguns meses, vai lembrar de uma característica marcante dos grupos masculinistas da chamada “machosfera”: a síndrome de perseguição. E é exatamente o que observamos nesses conteúdos: a ideia delirante de que existe uma conspiração misândrica orquestrada contra os homens. Esse backlash ilustra a sensação dos homens que estão sendo questionados e perdendo privilégios, frente aos avanços impulsionados pelos movimentos feministas e políticas públicas de igualdade de gênero. Eles não entendem essas mudanças como uma busca por igualdade, entendem como um ataque pessoal contra eles: “Vivemos numa sociedade ginocêntrica, misândrica, anti-masculina e infanticida, governada tiranicamente pelo feminismo”, diz uma mensagem.

Algumas mensagens chegam a conectar essa síndrome de perseguição ao universo conspiratório mais amplo, alegando supostos “planos globais de redução populacional”, narrativas comumente associadas aos “globalistas” e a chamada “nova ordem mundial”: “Se relacionar hoje em dia ficou quase impossível. Isso favorece o quê? O que os globalistas sempre sonharam: redução da população mundial”, diz outra mensagem. 

Uma vez estabelecida a suposta conspiração, o próximo passo eleva a retórica ao ódio, com mensagens que fazem parte de uma engrenagem de ódio cuja meta é apagar a humanidade feminina e reconfigurar a mulher como alvo legítimo de violência. Uma mensagem perturbadora sintetiza essa escalada: “O homem tem que abandonar casamento e filhos e começar a ver mulher não como ser humano, mas como vaginas que falam, que só servem pra ser depósito de esperma”.

Esses conteúdos não podem ser naturalizados, porque eles formam opinião, moldam percepções e, sobretudo, legitimam a violência. A Lei Maria da Penha incomoda porque ela toca exatamente onde precisa: no poder patriarcal que, por séculos, naturalizou o silêncio das mulheres frente à violência doméstica. É por isso que enfrentar a desinformação não é só uma questão de corrigir informação, é sobretudo enfrentar as normas sociais e estruturas de ódio que são acionadas através da mentira. 

Neste 7 de agosto, não basta celebrar as (muitas) conquistas da Lei Maria da Penha. Infelizmente, ainda precisamos defendê-la, inclusive nas trincheiras digitais onde o ódio tem se organizado. Combater essas narrativas é essencial para garantir os direitos das mulheres em uma sociedade cada vez mais intoxicada por conspirações e ódio. Defender a Lei Maria da Penha é também defender um projeto de país onde a verdade e a justiça prevaleçam sobre o ódio e a mentira. É escolher o lado da vida, da dignidade e da igualdade em uma disputa cada vez mais visceral pelo futuro do Brasil.

Julie Ricard é doutoranda em Administração Pública e Governo na Fundação Getulio Vargas (FGV), onde integra o Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas (DesinfoPop/CEAPG/FGV). Mestre em Relações Internacionais pelo Sciences Po (França) e em Estudos de Gênero pela Université Paris 7, foi pesquisadora para a Iniciativa Humanitária de Harvard e o Shorenstein Center. Atuou como consultora da UNESCO, apoiando os esforços de enfrentamento à desinformação sobre saúde pública da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República e Diretora do programa Tecnologia e Democracia na Data-Pop Alliance.

Ergon Cugler atua como pesquisador CNPq no Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas (DesinfoPop/CEAPG/FGV). É graduado em gestão de políticas públicas pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-graduado em Data Science & Analytics também pela USP, possui mestrado em Administração Pública em Governo pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e especialização em ciência de dados pela Universitat de Barcelona. É Conselheiro da Presidência da República no Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CDESS), o Conselhão do Governo Federal.

Créditos da imagem: Maria da Penha, homenageada com o título de Doutora Honoris Causa – Fotomontagem: Flickr/UFCD, Pixabay e Jornal da USP

A fome não se discute, por Belluzzo, Santos, Caixeta e Tambasco

Luiz Gonzaga Belluzzo*, André Luiz Passos Santos, Nathan Caixeta e Murilo Tambasco

Em meio ao colapso econômico que assolou os Estados Unidos na década de 1930, o presidente Franklin Delano Roosevelt protagonizou uma notável articulação política. Determinado a restaurar a rentabilidade da economia e devolver poder de compra às famílias, o democrata foi perspicaz o bastante para construir uma ampla coalizão progressista, reunindo setores sociais heterogêneos para enfrentar a Grande Depressão com coragem e determinação.

A coordenação e união de forças viabilizou a criação de programas emergenciais de assistência social, voltados a garantir uma renda mínima aos mais de 12 milhões de desempregados da época. O New Deal foi uma emblemática resposta de enfrentamento à maior crise da história do capitalismo até então, marcada por um esforço governamental intenso para conter o avanço da miséria e restabelecer a dignidade da população.

Um dos marcos desse período foi a criação, em 1935, da Work Projects Administration (WPA), iniciativa destinada à realização de obras públicas como forma de reabsorção do desemprego. À frente desse ambicioso projeto, Harry Hopkins, o principal auxiliar de Roosevelt, expressou seu pragmatismo humanitário através da máxima: “a fome não se discute: as pessoas não comem no longo prazo, elas comem todos os dias”.

A frase de magnífica sensibilidade e beleza, parece ter recuperado uma parcela de sua popularidade no Brasil, depois de um tempo escondida nas masmorras. Pela segunda vez neste século, nosso país sai do mapa da fome, que aponta os países onde mais de 2,5% da população enfrenta grave insegurança alimentar crônica, em que os indivíduos consomem menos calorias do que o necessário para uma vida saudável.

Em 2002, mais de 10% da população brasileira vivia em condições de subnutrição, um resultado que refletia as consequências  de mais de duas décadas de crise econômica. Em contraste à ausência de assistência social,  a fome passou a protagonizar o centro do debate político com a adoção dos programas Bolsa Família e Fome Zero, fazendo da comida que chegava à mesa de mais de 14 milhões de famílias brasileiras uma vitrine ao mundo, que admirava nossos avanços sociais.

Foram as políticas e programas articulados à instituições multilaterais, alinhadas ao investimento público, que levaram o Brasil a sair do mapa da fome em 2014.  De acordo com ONU, o país apresentou uma redução de 82,1% do número de pessoas em situação de subalimentação, adotando um conjunto de “boas práticas” a serem seguidas por outros países do sul global.

No entanto, com a eclosão da depressão econômica e, sobretudo, a partir adoção de políticas de cunho contracionistas, a exemplo do Teto de Gastos (2016) –  que  fixou um limite à despesa primária dos poderes executivo, legislativo e judiciário, equivalente a correção pelo IPCA da despesa primária realizada no ano imediatamente anterior – o ciclo de superação da fome e da pobreza não foi apenas interrompido, como apresentou sinais de retrocesso, sendo gravemente atingido pelo sucateamento das políticas públicas e o debate sobre a diminuição imperativa do papel do Estado na economia.

A opção pela austeridade fiscal deferiu um golpe mortal às camadas mais carentes e vulneráveis da população brasileira, que observaram o desmonte da rede de proteção social e o aumento nos índices de pobreza. Com o abalo da pandemia da COVID-19, a situação foi ainda mais agravada e o país retornou ao mapa da fome no triênio 2018-2020. De acordo com os dados do Inquérito Alimentar no Contexto da Pandemia da COVID-19, em 2020, 55,2% dos domicílios brasileiros conviviam com insegurança alimentar, o que em números absolutos correspondiam a 116,8 milhões de pessoas sem acesso pleno e permanente a alimentos na qualidade e quantidade necessárias.

A tormenta pôde apenas ser superada com uma mudança de rota nas relações institucionais entre o Estado e o povo em 2023. A “re”adoção de políticas sociais robustas, combinadas com os estímulos à geração de emprego e renda, apoio à agricultura familiar, fortalecimento da alimentação escolar e acesso à alimentação saudável. O sentimento era de que havia chegado a hora de uma reaproximação entre os setores do governo e esta figura tão abstrata, chamada de cidadão brasileiro.

Em 2023, a pobreza extrema foi reduzida ao mínimo histórico de 4,4% da população, o que significou a retirada de quase 10 milhões de pessoas dessa condição em relação a 2021. Com o mercado de trabalho dinamizado, a recuperação gradual do emprego, o aumento da formalização e a volta da política de valorização real do salário-mínimo fizeram com que um milhão de famílias superassem a pobreza e deixassem de necessitar do benefício do Bolsa Família em julho deste ano.

Este movimento foi a potência que nos levou a sair novamente do mapa da fome em 2025, sustentado por políticas públicas que consideram, adicionalmente, o caráter anticíclico da economia e que, assim como explicado por Keynes, reconhecem a necessidade de estruturação das condições de criação de renda como motor para a melhoria das condições socioeconômicas da população.

Quem dera o Brasil jamais esquecesse as palavras de Harry Hopkins. Ou melhor, quem dera o Brasil mantivesse, de forma permanente, seu compromisso de erradicar a fome, caetaneando: “gente é pra brilhar, não pra morrer de fome”.

Luiz Gonzaga Belluzzo – Forma o Conselho Consultivo do Projeto Brasil. Sócio-diretor da BPCT Consultoria Econômica. Professor emérito da UNICAMP. Foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e secretário de Ciência e Tecnologia de São Paulo. Em 2001, foi incluído entre 100 maiores economistas heterodoxos do século XX no Biographical Dictionary of Dissenting Economists.

André Luiz Passos Santos – Sócio-diretor da BPCT Consultoria Econômica. Doutorando em Desenvolvimento Econômico pelo IE-UNICAMP. Pesquisador do CECON-UNICAMP

Nathan Caixeta – Sócio-diretor da BPCT Consultoria Econômica. Mestre em Desenvolvimento Econômico pelo IE-UNICAMP. Pesquisador associado do NEC-FACAMP.

Murilo Tambasco – Sócio-diretor da BPCT Consultoria Econômica. Mestrando em Economia pela PUC-SP. Pesquisador da FIPE e do NEC-FACAMP.

O Fim do Tempo da Justiça

O tempo da justiça na era da hiperconectividade

Por Reynaldo Aragon

Este ensaio é uma reflexão sobre como o tempo da justiça, lento e ritualístico, entrou em choque com a velocidade da informação e da política na era da hiperconectividade. Um convite à consciência sobre os riscos de uma sociedade que julga em segundos e esquece em minutos.

O colapso dos tempos.

O século XXI é o século do colapso dos tempos. Vivemos em uma era em que os acontecimentos se atropelam, em que o instante engole o processo e em que a percepção de justiça se constrói muito antes de qualquer sentença. Enquanto os tribunais ainda se movem na cadência lenta do século XIX, com prazos rituais, carimbos e intermináveis carretas de papéis digitais, a informação corre na velocidade do pulso elétrico. Cada segundo perdido na engrenagem da justiça é uma eternidade na lógica hiperconectada. Cada hesitação judicial é interpretada, instantaneamente, como falha ou conivência.

A política aprendeu a se mover nesse novo ritmo. Ela dança ao compasso dos ciclos de notícias e dos algoritmos. O que antes se media em semanas ou meses, agora se mede em horas de trending topics. O parlamentar que discursa hoje, amanhã já é esquecido; o escândalo da manhã é soterrado pelo escândalo da noite. O cálculo estratégico da política contemporânea já não respeita o tempo da deliberação ou da prudência — ele é refém do clique, da curtida, do compartilhamento em massa. A política, em tempos de hiperconectividade, tornou-se espetáculo contínuo e ansioso, incapaz de esperar que a justiça faça o seu curso.

E a informação, soberana, já não é apenas veloz: ela é total. Ela não corre; ela se antecipa. Ela chega antes do fato, molda expectativas e fabrica realidades. O tribunal da opinião pública não precisa de provas formais ou de audiências: basta um vídeo editado, uma manchete sensacionalista ou um post viralizado para selar reputações e definir narrativas. É o tempo dos metaintermediários algorítmicos, essas camadas invisíveis que filtram e organizam o mundo para nós, decidindo o que vemos, quando vemos e como sentimos. Eles controlam o presente e, por isso, controlam a percepção da verdade.

Neste choque de tempos, a justiça parece imóvel. O que foi concebido para ser prudente e sólido se torna, aos olhos do cidadão hiperconectado, lento, frágil e desconectado da realidade. A lentidão, que outrora era virtude, hoje é percebida como cumplicidade ou impotência. O intervalo necessário para a prova, a análise e a decisão — a fricção essencial da prudência jurídica — é interpretado como falha em um mundo que não tolera o atrito. O efeito psicológico é devastador: se a justiça não responde na velocidade da informação, a sociedade conclui, por reflexo, que justiça não há.

Vivemos, portanto, uma era em que o tempo virou campo de batalha. A verdade, a reputação e a história passaram a ser decididas no intervalo entre uma notificação e outra, no tempo líquido dos feeds e das hashtags. A justiça, que só existe enquanto processo, enfrenta agora um adversário invisível: a sociedade não quer mais processos; ela quer sentenças instantâneas. E quem fornece essas sentenças não é o tribunal de toga, mas o tribunal do algoritmo.

O descompasso dos tempos: justiça, política e informação

A história sempre foi feita de ritmos, e cada instituição move-se em um compasso próprio. A justiça tem o seu, a política tem o dela e, hoje, a informação dita um compasso completamente novo. O drama do nosso tempo é que esses ritmos já não se encontram. Eles colidem, se anulam e, no choque, produzem crises de legitimidade e narrativas instantâneas que moldam a percepção social antes mesmo que qualquer fato amadureça.

O tempo da justiça ainda é o tempo da prudência. Ele é lento, ritualístico, quase cerimonial. Cada ato processual carrega a marca da história: prazos, recursos, audiências, perícias, formalidades que traduzem a ideia de que justiça só existe quando amadurece com cautela. Mas, na era da hiperconectividade, essa virtude virou fraqueza percebida. Para o olhar social treinado pela velocidade do feed, a justiça que tarda soa cúmplice, omissa, impotente. O tempo jurídico, que antes garantia segurança, hoje se tornou tempo morto aos olhos do algoritmo.

Enquanto isso, o tempo da política tornou-se líquido, ansioso, performático. Ele é o tempo do espetáculo, condicionado pela cadência da comunicação digital. Não se governa mais apenas para gabinetes ou parlamentos; governa-se para hashtags e trending topics. A política não espera, reage. A cada rumor ou escândalo viralizado, adapta seu discurso à lógica da urgência. Nesse ambiente, o cálculo estratégico de longo prazo cede lugar à reação imediata, e processos judiciais tornam-se armas narrativas — o terreno fértil do lawfare.

Mas o ritmo que realmente domina nossa era é o tempo da informação. Ele não é apenas rápido, ele é imediato, total e preditivo. A informação não espera o fato; ela antecipa e molda o fato. Vivemos sob o comando de metaintermediários algorítmicos, camadas invisíveis que decidem o que vemos, quando vemos e como sentimos. É nesse espaço que uma acusação basta para destruir uma biografia, porque o tribunal do algoritmo funciona em tempo real: a denúncia viraliza, a manchete sela a reputação e a absolvição, anos depois, não corrige o estrago.

Esse descompasso estrutural entre justiça, política e informação é a contradição central do nosso tempo. A justiça precisa do tempo para existir, mas o mundo não lhe concede esse tempo. A política surfa no tempo da informação, mas também é engolida por ele. E a informação, soberana, fabrica o presente e o transforma em narrativa antes mesmo que a história possa ser escrita. É por isso que tribunais são percebidos como inoperantes, reputações são liquidadas em minutos e a sensação de impunidade cresce mesmo diante de processos em curso. No choque de tempos, quem define o real já não é a sentença final; é o frame algorítmico que viraliza primeiro.

Estamos, assim, diante de uma guerra pelo tempo. Uma guerra silenciosa, em que a velocidade da informação captura o imaginário social antes que a justiça possa atuar. No centro desse conflito emerge a lógica que veremos no próximo movimento deste ensaio: a ideologia da fricção zero, a promessa de que tudo precisa fluir sem atrito, inclusive a própria percepção de justiça.

A ideologia da fricção zero e a ditadura do imediato

Vivemos sob o império da fluidez. A sociedade hiperconectada aprendeu a desejar que tudo aconteça sem obstáculos, sem esperas, sem hesitação. É essa lógica que estrutura a ideologia da fricção zero: a promessa de que qualquer atrito — seja ele físico, emocional, cognitivo ou institucional — deve ser eliminado em nome da eficiência e do conforto. A fricção, que historicamente foi o espaço da dúvida, da deliberação e do conflito, é tratada hoje como falha, como erro de sistema. E no capitalismo digital, essa ideologia transcende a esfera da tecnologia: ela se transforma em ontologia política da conveniência, em norma invisível que define como vivemos, como percebemos e até como julgamos o mundo.

Quando aplicada à percepção da justiça, essa ideologia é devastadora. A sociedade, habituada à lógica do clique, da notificação e da resposta imediata, já não tolera os ritos do devido processo. A paciência histórica necessária para que provas sejam colhidas, argumentos confrontados e sentenças amadurecidas cede lugar à ansiedade do feed. Cada intervalo processual é interpretado como impunidade; cada recurso legítimo, como manobra escusa; cada silêncio institucional, como conivência. A justiça, que sobrevive da fricção — da espera, da análise, do contraditório —, é percebida como falha em uma era que glorifica o fluxo contínuo e invisível das decisões instantâneas.

 

A ideologia da fricção zero, no entanto, não opera sozinha. Ela se materializa na ação silenciosa dos metaintermediários algorítmicos, essas camadas técnicas que organizam o tempo e a percepção social. São eles que decidem quais narrativas emergem, quais acusações viralizam e quais reputações são destruídas antes mesmo que a primeira audiência seja aberta. Nessa lógica, a fricção é um inimigo a ser extinto: qualquer espera é substituída por uma resposta preditiva, qualquer dúvida por uma certeza provisória, qualquer processo por uma narrativa. É o triunfo da antecipação sobre a prudência, do frame algorítmico sobre o tempo histórico da justiça.

Sob essa hegemonia, o que está em jogo não é apenas a velocidade da comunicação, mas a própria estrutura da subjetividade social diante da justiça. A opinião pública já não se forma no espaço do debate ou da argumentação; ela é moldada por fluxos contínuos que naturalizam a eliminação do tempo deliberativo. No tribunal do algoritmo, a hesitação é fraqueza, o silêncio é culpa e a espera é inadmissível. O mundo se habituou a viver sem fricção, e a justiça, que existe porque hesita, passa a ser rejeitada pelo simples fato de ser lenta.

Essa transformação não é apenas tecnológica, mas histórica e dialética. Ela revela a contradição entre o modo de produção informacional e a temporalidade das instituições. O capitalismo digital não tolera lentidão, porque a lentidão não gera engajamento nem captura de dados. Cada segundo sem resposta é uma oportunidade de atenção perdida. A justiça, ao insistir em sua temporalidade própria, colide com uma sociedade que internalizou a velocidade como valor e que aprendeu a chamar de justiça qualquer veredito instantâneo que apareça em uma tela. É nesse choque que nascem as crises de legitimidade, os linchamentos virtuais e a corrosão silenciosa do Estado de Direito.

A ditadura do imediato não é neutra. Ela não apenas acelera a vida; ela redefine o que é real. O que não flui desaparece. O que não viraliza, não existe. A justiça que não responde em tempo real é percebida como injustiça, e essa percepção se torna mais poderosa do que qualquer sentença. É nesse terreno que o lawfare prospera, que reputações são liquidadas em minutos e que absolvições tardias se tornam irrelevantes. O tempo histórico da justiça, para sobreviver, precisa enfrentar o tempo do algoritmo — e essa batalha não se vence com carimbos ou despachos, mas com uma nova consciência do tempo na era da hiperconectividade.

Metaintermediação algorítmica e o novo poder sobre o tempo

A percepção social do mundo já não se organiza no tempo humano, mas no tempo do algoritmo. No coração dessa transformação estão os metaintermediários algorítmicos, camadas técnicas invisíveis que observam, interpretam e decidem antes que possamos pensar ou reagir. Eles são mais que ferramentas; são instâncias de poder silencioso, que modulam nossa percepção do real. Ao filtrar o que vemos, quando vemos e como interpretamos, eles controlam o fluxo de atenção e, com ele, o próprio tempo social. No mundo hiperconectado, quem controla o tempo controla a narrativa — e quem controla a narrativa controla a história.

O impacto desse novo poder sobre a justiça é brutal. O tempo processual, que antes era a única referência legítima para a construção da verdade jurídica, torna-se irrelevante diante da velocidade informacional. Um processo que se arrasta por meses ou anos perde qualquer capacidade de determinar a percepção pública, porque o julgamento social já aconteceu na primeira hora de viralização. O cidadão médio não acompanha os autos; ele acompanha o feed. O veredito que importa não é o da sentença final, mas o que emerge da timeline, estruturado por tendências, memes e manchetes instantâneas. Essa substituição do tempo da justiça pelo tempo algorítmico produz um fenômeno que podemos chamar de alienação de segunda ordem: a sociedade delega ao algoritmo a função de decidir, por reflexo, o que é verdadeiro, o que é falso, quem é inocente e quem já deve ser descartado.

Essa alienação não é fruto do acaso. Ela é projetada e operada como tecnologia de poder. As plataformas digitais foram desenhadas para eliminar o atrito da escolha e da reflexão, transformando o fluxo de informação em uma sequência contínua e confortável. O usuário não precisa buscar; ele é servido. Não precisa comparar; ele consome o que já foi filtrado para confirmar suas expectativas. Essa dinâmica é alimentada por heurísticas cognitivas — atalhos mentais que economizam energia e, ao mesmo tempo, tornam a mente vulnerável à captura. Viés de confirmação, heurística da disponibilidade, confiança delegada: todos se combinam para criar uma adesão quase automática às narrativas que circulam. O cidadão não espera a justiça; ele aceita o veredito do algoritmo como fato consumado.

A consequência política dessa transformação é profunda. A justiça, ao manter sua cadência histórica, perde a disputa simbólica antes mesmo de começar. A política, que já opera no ciclo das redes, aprende a instrumentalizar essa dinâmica: vaza documentos seletivos, cria narrativas parciais, aposta em escândalos fabricados que duram dias, porque sabe que a percepção vale mais do que o processo. O lawfare e as estratégias de guerra híbrida florescem nesse ambiente, em que a verdade jurídica é sempre tardia e a narrativa digital é imediata, viral e quase irrecorrível.

A metaintermediação algorítmica, portanto, não é apenas uma nova forma técnica de distribuir informação. Ela é uma tecnologia de tempo, capaz de reorganizar a experiência histórica da sociedade. O instante se torna soberano, e o processo se torna obsoleto. O tribunal do algoritmo opera em tempo real, enquanto o tribunal da justiça opera em tempo morto. Essa discrepância abre um vácuo que corrói instituições e legitima linchamentos virtuais, condenações sociais e execuções simbólicas antes mesmo que a primeira audiência seja concluída.

Nesse ambiente, a justiça não disputa apenas sentenças; disputa sobrevivência temporal. E essa disputa exige consciência estratégica: ou o sistema jurídico aprende a se comunicar e se proteger no tempo da hiperconectividade, ou continuará sendo esmagado pela velocidade do algoritmo. O controle do tempo deixou de ser atributo do relógio ou do calendário; ele passou a ser um instrumento de poder algorítmico. No século XXI, quem comanda o tempo comanda o imaginário, e quem comanda o imaginário decide o destino de pessoas, governos e instituições antes mesmo que qualquer juiz possa proferir a sua palavra.

A justiça no olho do furacão: entre o lawfare e a guerra híbrida

A justiça, em nosso tempo, não é apenas uma instituição jurídica; ela se tornou um território de disputa estratégica. No epicentro da hiperconectividade, tribunais, investigações e decisões judiciais passaram a ser peças de um tabuleiro mais amplo: o da guerra híbrida, em que economia, política, informação e tecnologia se articulam para desestabilizar adversários e moldar percepções globais. Nesse cenário, o tempo da justiça é uma arma de dois gumes: lento demais para o mundo digital, rápido o suficiente para ser explorado como ferramenta de destruição narrativa.

O lawfare é o mecanismo mais evidente dessa exploração. Ele se apoia na lentidão do processo judicial para criar efeitos políticos imediatos, valendo-se da lógica da informação instantânea para construir narrativas irreversíveis. Uma denúncia, uma operação espetacular, um vazamento seletivo — todos esses elementos circulam nas redes com força viral e constroem a percepção de culpa antes mesmo que qualquer prova seja avaliada. Quando a absolvição chega, anos depois, ela não tem o mesmo peso; a reputação já foi demolida e a função política da acusação já cumprida. Nesse ciclo, a justiça é transformada em arma simbólica, e o devido processo legal torna-se pano de fundo para batalhas informacionais de curto prazo.

Essa dinâmica não é restrita ao plano interno. Na era da hiperconectividade e da interdependência digital, o tempo da justiça nacional pode ser manipulado por vetores transnacionais, que integram narrativas de deslegitimação e pressão geopolítica. O lawfare deixa de ser apenas doméstico e se converte em lawfare transnacional, articulado com plataformas digitais, mídia global e mecanismos jurídicos estrangeiros. No caso do Brasil, vimos como processos de alto impacto — de operações anticorrupção a acusações internacionais — foram amplificados por uma arquitetura de guerra híbrida, onde cada ato judicial era convertido em munição narrativa para enfraquecer lideranças políticas, corroer a confiança na democracia e abrir caminho para interesses externos.

A guerra híbrida contemporânea opera em três tempos simultâneos: o tempo jurídico, o tempo político e o tempo informacional. O jurídico, lento, formal e exigente, sustenta a aparência de legalidade. O político, ágil e oportunista, usa cada fase processual como espetáculo. E o informacional, instantâneo e algorítmico, traduz qualquer ato em narrativa global antes mesmo que o papel chegue à mesa do juiz. Essa sincronia manipulada permite que adversários políticos, agentes econômicos ou potências estrangeiras capturem a percepção social, imponham agendas e destruam reputações como quem dispara um meme. O tribunal de toga perde para o tribunal do feed.

No contexto internacional, essa lógica ganhou força nos últimos anos. Processos judiciais passaram a ser sincronizados com ondas de desinformação, campanhas midiáticas e pressões econômicas, criando cenários em que a justiça de um país serve a um roteiro de desestabilização maior. Sanções seletivas, extraterritorialidade de leis estrangeiras e campanhas globais de difamação transformam tribunais nacionais em pontos de apoio para operações psicológicas transnacionais. O efeito prático é claro: o Estado de Direito é corroído por dentro, enquanto a narrativa internacional pinta o país como instável, corrupto ou autoritário.

Para a justiça, esse é o olho do furacão. Se ela se mantém no seu ritmo histórico, corre o risco de perder legitimidade e ser percebida como cúmplice da impunidade. Se acelera, sucumbe à lógica do espetáculo e da instrumentalização política. E, em qualquer dos cenários, o que está em jogo não é apenas a reputação de indivíduos ou governos, mas a própria soberania jurídica e informacional de um país. A justiça nacional se vê cercada, pressionada por ciclos que não controla, enquanto metaintermediários, plataformas e potências externas dominam o campo de batalha do tempo e da percepção.

É por isso que compreender a relação entre tempo, justiça e hiperconectividade deixou de ser apenas um exercício acadêmico: tornou-se uma questão de sobrevivência histórica. Em um mundo em que reputações são liquidadas em minutos e sentenças levam anos, a justiça não disputa apenas processos; ela disputa a própria capacidade de existir como referência de verdade. E essa disputa se dá em meio à tempestade perfeita de lawfare e guerra híbrida, em que o tempo virou a mais letal das armas.

Para onde vamos: o tempo da justiça na era da hiperconectividade

O século XXI nos colocou diante de uma verdade desconfortável: a justiça não é mais apenas um conjunto de ritos e processos, mas uma disputa pelo controle do tempo e da narrativa. O mundo hiperconectado não espera. Ele não tolera hesitação, silêncio ou prudência. A lógica algorítmica transformou a percepção social em fluxo contínuo, e nesse fluxo, reputações podem ser destruídas em minutos, enquanto a verdade formal leva anos para emergir. Se a justiça não aprender a lidar com esse novo ecossistema temporal, corre o risco de perder não apenas legitimidade, mas função histórica.

O caminho para enfrentar esse desafio não está em abandonar o devido processo ou sacrificar garantias em nome da velocidade. O que está em jogo é reconstruir a interface entre justiça, política e informação. É preciso que tribunais, magistrados e instituições compreendam que a batalha não é apenas jurídica, mas também cognitiva e informacional. A justiça precisa aprender a respirar no tempo da hiperconectividade sem abrir mão da sua essência, e isso implica três frentes estratégicas.

A primeira é comunicação institucional inteligente. Não basta decidir; é preciso fazer com que a sociedade compreenda o processo e perceba o sentido das decisões antes que narrativas tóxicas preencham o vácuo. Silêncio absoluto, em tempos de guerra informacional, é ruído que favorece o inimigo. Uma justiça que se comunica de forma pedagógica e tempestiva cria anticorpos contra linchamentos virtuais e contra a captura da percepção pública.

A segunda é integração cognitiva e informacional. O sistema de justiça precisa se proteger da velocidade que o ameaça. Isso exige estratégias de monitoramento de narrativas, inteligência de dados e capacidade de resposta informacional coordenada. Não se trata de militarizar tribunais ou transformá-los em atores políticos, mas de reconhecer que o campo de batalha da percepção já existe, e ignorá-lo é ceder espaço para o lawfare e para a guerra híbrida.

A terceira é educação social e soberania informacional. Nenhuma instituição será capaz de resistir sozinha à ditadura do imediato se a sociedade continuar refém do algoritmo. É preciso formar cidadãos capazes de compreender a diferença entre narrativa viral e justiça real, reconstruindo o vínculo entre processo, prova e percepção. Isso passa por políticas públicas, letramento midiático e defesa da soberania cognitiva, para que a mente coletiva do país não seja moldada apenas por interesses externos e fluxos de dados invisíveis.

No fundo, o que está em disputa é o tempo histórico da justiça. Ele só sobreviverá se souber dialogar com o tempo líquido da informação e resistir à pressão da ideologia da fricção zero. A justiça não pode se tornar refém do algoritmo, mas também não pode se isolar dele. O desafio é imenso: manter a fricção necessária para garantir direitos, enquanto se aprende a atuar em um mundo que exige respostas instantâneas.

Se falharmos nessa adaptação histórica, o destino será uma justiça irrelevante, substituída pela percepção fabricada em feeds, hashtags e sentenças algorítmicas. Mas se compreendermos que a disputa do século XXI é uma disputa pelo tempo, será possível reconstruir a legitimidade institucional e proteger a democracia do espetáculo e da manipulação. No fim, essa é a lição que a era da hiperconectividade nos impõe: quem não disputa o tempo, perde a história.

Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global.

Ensaio publicado originalmente em <código aberto> 

 

Qual o impacto das Big Techs na pressão econômica de Trump no Brasil

O tarifaço de Donald Trump foi uma tática de pressão econômica utilizada para proteger os interesses das Big Techs contra tentativas de regulamentação e responsabilização no Brasil, demonstrando a influência dessas empresas na política externa dos EUA.

A afirmação é da pesquisadora Isabela Rocha, mestre em ciência política e uma das autoras do estudo Contratos, Códigos e Controle: A Influência das Big Techs no Estado Brasileiro, assinado em parceria com pesquisadores da USP e da Universidade de Brasília (UnB) e disponível aqui no acervo do Projeto Brasil.

Publicado em julho deste ano, o estudo calculou que o Brasil, em todas as suas esferas (federal, estadual e municipal), pagou, ao menos, R$ 23 bilhões em licenças de software, nuvem e tecnologia digital para as Big Techs norte-americanas, nos últimos 10 anos.

Em entrevista a Luís Nassif e economistas do Projeto Brasil, Rocha expôs que o tarifaço desta semana de Trump teve uma relação direta com as Big Techs, funcionando como uma forma de pressão em favor dos interesses dessas grandes empresas de tecnologia.

“Esse tarifaço ele veio em uma tentativa de ameaçar, de fato, o Brasil, para que a gente ‘desse para trás’ e não acontecesse a responsabilização e, principalmente, a regulação das plataformas digitais”, afirmou.

“A gente fez um mapeamento de todos os gastos do governo brasileiro com as Big tech e a gente chegou no montante de R$ 23 bilhões, e 10 bilhões só no ano passado, esses gastos não são irrisórios e considerando o interesse econômico que as Big Tech têm no Brasil, é impossível a gente tirar o tarifaço desse contexto”, continuou.

A pesquisadora apresentou um dos dados alarmantes dessa tentativa de influência no Brasil pelos gigantes da tecnologia: A Meta vem demonstrando “grande interesse no Brasil”, com um membro do governo de Donald Trump chegando a declarar interesses no excedente energético de Itaipu para a construção de Data Centers, o que, segundo a pesquisadora, está ligado ao projeto da Meta de construir tais estruturas no país.

A participação de Isabela Rocha no programa desta semana do Projeto Brasil no Youtube inaugura a nova parceria da plataforma com a equipe de economistas e especialistas do programa Nova Economia da TV GGN, que agora somarão seus conhecimentos à esta iniciativa.

Confira a íntegra da entrevista que foi ao ar nesta quinta (31):

E leia outros artigos e o Fórum Soberania Digital, criado especialmente para debater esta temática no Projeto Brasil:

Setor público gasta bilhões com Big Techs ao invés de ciência nacional, mostra estudo

O ousado plano de soberania digital do governo brasileiro

Soberania Digital

Taxação dos EUA e Política Monetária Internacional

Setor público gasta bilhões com Big Techs ao invés de ciência nacional, mostra estudo

Texto dos pesquisadores adaptado para o Jornal da USP

O setor público brasileiro, nas esferas federal, estadual e municipal, contratou pelo menos R$ 23 bilhões em licenças de software, nuvem, segurança digital e softwares de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) entre 2014 e 2025 – valor superior ao orçamento de diversos Ministérios federais. A estatística é revelada pelo estudo Contratos, Códigos e Controle: A Influência das Big Techs no Estado Brasileiro (leia no Acervo do Projeto Brasil), realizado por pesquisadores da USP e da Universidade de Brasília (UnB). Apenas entre junho de 2024 e junho de 2025, o gasto com produtos tecnológicos internacionais superou R$ 10,35 bilhões, valor que cobriria por um ano o pagamento de bolsas a todos os 350 mil mestrandos e doutorandos do País.

“A escolha revela uma inversão de prioridades que compromete o futuro do País. Não faz sentido o Brasil gastar bilhões de reais em contratos com fornecedores estrangeiros de tecnologia enquanto nossas universidades e centros de pesquisa operam com orçamentos apertados há décadas”, afirma Ergon Cugler, coordenador do estudo, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV) de São Paulo e integrante do Grupo de Estudos em Tecnologia e Inovações na Gestão Pública (Getip) da USP.

 

“Estamos enviando dinheiro público para sustentar a inovação em outros países, quando poderíamos investir esse mesmo valor aqui, fortalecendo a capacidade científica nacional, gerando empregos qualificados e desenvolvendo soluções tecnológicas próprias.”

O setor público brasileiro contratou pelo menos R$ 23 bilhões em TIC entre 2014 e 2025, sem contar sobreposições nem dados não padronizados, sendo R$ 10,35 bilhões apenas no último ano. A análise das bases ComprasNet e Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP) permitiu estimar esse valor piso, revelando a dimensão dos investimentos em tecnologia estrangeira, ainda que o número real possa ser significativamente maior devido à fragmentação das bases da União e inconsistência dos dados. O trabalho mostra que com a quantia já destinada à aquisição de tecnologia estrangeira, nos últimos dez anos, seria possível construir e inaugurar pelo menos 86 data centers de alto padrão no Brasil.

A pesquisa também estima que o valor de R$ 10,35 bilhões é suficiente para pagar bolsas a todos os 350 mil pós-graduandos do País durante um ano inteiro, considerando 100 mil doutorandos a R$ 3.300 mensais e 250 mil mestrandos a R$ 2.100 por mês, segundo os valores da Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Em outra comparação feita no estudo, esse mesmo valor manteria o funcionamento da UnB, com todos os custos operacionais, de corpo docente e demais previsões no orçamento, por até quatro anos e meio.

Demanda pública como motor de desenvolvimento

No recorte do atual mandato, entre janeiro de 2023 e junho de 2025, as três esferas do setor público brasileiro contrataram R$ 5,97 bilhões em licenças de software, R$ 9 bilhões em soluções de nuvem e R$ 1,91 bilhão em segurança digital. O estudo mostra que quatro grandes empresas lideram as contratações públicas federais de tecnologia, com Microsoft, Oracle, Google e Red Hat concentrando volumes bilionários. A Microsoft sozinha aparece com R$ 3,27 bilhões no ComprasNet, sendo R$ 1,65 bilhão apenas no primeiro semestre de 2025. No PNCP, Oracle (R$ 1,02 bilhão), Google (R$ 938 milhões) e Red Hat (R$ 909 milhões) dominam os contratos desde 2022. Licenças de softwares da Microsoft foram negociadas a R$ 3,27 bilhões nas três esferas, sendo R$ 1,65 bilhão só no primeiro semestre de 2025. Serviços de nuvem da Oracle somaram R$ 1,02 bilhão, seguido do Google, com serviços vendidos a R$ 938 milhões, e Red Hat, com R$ 909 milhões em serviços vendidos.

Os pesquisadores ressaltam que esses serviços, licenças e softwares, em boa parte, são negociados por CNPJs de terceiros, o que demonstra a existência de um mercado especializado em intermediação de licenças de software para o setor público. “Cada contrato fechado com uma multinacional é uma porta fechada para startups brasileiras, institutos públicos e redes de universidades que já têm competência técnica para entregar soluções de ponta”, aponta Cugler. “Estamos perdendo a chance de transformar demanda pública em motor de desenvolvimento. A tecnologia comprada de fora não volta em forma de emprego, renda ou autonomia. A tecnologia feita aqui dentro, sim.”

Imagem: Reprodução do artigo

Para ele, o que está em jogo não é só o valor dos contratos, mas o tipo de país que queremos construir. “O Brasil tem infraestrutura, cérebros e rede pública qualificada para oferecer alternativas robustas”, enfatiza. “Mas, para isso acontecer, é preciso uma decisão estratégica: investir no que é nosso. Com os mesmos recursos, que hoje sustentam big techs, poderíamos financiar datacenters nacionais, ciência aberta, segurança digital sob jurisdição própria e gerar milhares de empregos qualificados. É uma escolha que pode mudar nossa ciência.”

A pesquisa foi realizada pelo Getip, vinculado ao Observatório Interdisciplinar de Políticas Públicas Prof. Dr. José Renato de Campos Araújo (OIPP), coordenado pelo professor José Carlos Vaz da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, e o Grupo de Trabalho Estratégia, Dados e Soberania do Grupo de Estudos e Pesquisas em Segurança Internacional (Gepsi Data) do Instituto de Relações Internacionais da UnB. O trabalho, assinado por Ergon Cugler, Isabela Rocha, José Carlos Vaz, Camila Modanez e Julia Veneziani está disponível também na versão completa.

 

Uso da tecnologia de informação para acabar com o anonimato das emendas parlamentares

Luis Nassif

Mais uma contribuição do Projeto Brasil para as políticas públicas.

Um sistema baseado em blockchain poderia revolucionar a transparência das emendas parlamentares no Brasil ao garantir rastreabilidade, imutabilidade, acesso público e auditabilidade automática. A dica me foi passada por Daniel Baracho, especialista em TI e militante progressista.

→ Confira e participe do Fórum de discussão dos rumos das inteligência artificial no país.

Vamos desenvolver melhor a proposta:

O problema atual das emendas parlamentares

  • Falta de rastreabilidade clara: Emendas de relator (como o “orçamento secreto”) dificultam o rastreamento de quem indicou recursos.
  • Favorecimento político opaco: Alocação de verbas pode ser usada como moeda de troca sem visibilidade pública.
  • Baixa fiscalização da execução: É difícil acompanhar se o recurso chegou ao destino, foi bem aplicado e gerou impacto real.

Aí entram as características da blockchain

O blockchain (ou “cadeia de blocos”, em português) é uma tecnologia de registro digital descentralizado, segura e transparente, que permite armazenar dados em blocos encadeados de forma imutável e auditável. Ele ficou conhecido inicialmente por ser a base do funcionamento do Bitcoin, mas hoje tem aplicações muito mais amplas.

Como funciona o blockchain?

1. Blocos de dados:

Cada bloco contém:

    • um conjunto de transações ou registros,
    • um carimbo de tempo (timestamp),
    • um hash (identificador único do bloco),
    • e o hash do bloco anterior, criando a “cadeia”.

    2. Imutabilidade e segurança:

      Uma vez que um bloco é adicionado, não pode ser alterado sem invalidar toda a cadeia posterior, o que exigiria alterar todas as cópias distribuídas da rede — algo virtualmente impossível sem controle da maioria.

      3. Consenso:

      A rede precisa concordar com cada novo bloco. Existem mecanismos como:

      • Prova de Trabalho (Proof of Work) – usado no Bitcoin,
      • Prova de Participação (Proof of Stake) – mais eficiente energeticamente.

      Os ganhos com o blockchain

      1. Rastreabilidade total

        • Cada etapa da proposta, aprovação, liberação e execução da emenda seria registrada em blocos públicos e cronológicos.
        • Permite saber:
          • Quem indicou a emenda
          • Para qual entidade
          • Qual valor foi empenhado, pago e executado
          • Qual contrato ou licitação foi associado

        2. Imutabilidade e segurança

        • Uma vez registrada, a informação não pode ser alterada sem consenso da rede.
        • Evita fraudes, manipulação ou adulteração de dados.

        3. Acesso público automatizado

          • Qualquer cidadão, jornalista ou tribunal pode consultar em tempo real:
            • O histórico completo da emenda
            • Os documentos (em PDF, XML etc.) vinculados
            • Dados de CNPJs, municípios, contratos e fornecedores

          4. Auditoria em tempo real

            • Órgãos como TCU, CGU e MPF poderiam usar smart contracts para monitorar automaticamente:
              • Pagamentos fora de padrão
              • Emendas fracionadas para fugir de licitação
              • Indicação cruzada para empresas ligadas a políticos

            Exemplo prático de funcionamento

            EtapaBlockchain registra…
            Indicação da emendaNome do parlamentar, valor, município, órgão de destino
            Análise e aprovaçãoDecisões técnicas, pareceres e data de liberação
            Liberação dos recursosNúmero do empenho, data, valor e conta de destino
            Execução contratualDados do contrato, licitação, empresa contratada, entregáveis
            Prestação de contasRelatórios, fotos de obras, notas fiscais, medições técnicas

            Benefícios concretos

            BenefícioImpacto prático
            Fim do anonimato políticoIdentifica todos os autores de emendas, inclusive de relator (RP9)
            Combate à corrupçãoDificulta fraudes e desvios em obras fantasmas ou entidades de fachada
            Controle social realCidadãos e imprensa podem investigar diretamente
            Auditoria inteligenteAlgoritmos de alerta automático para indícios de irregularidades
            Transparência federativaEstados e municípios também podem aderir, integrando portais locais

            Sistema de informações para emendas

            Telas principais do dashboard:

            1. Página inicial

            • Busca por: parlamentar, município, CNPJ, número da emenda
            • Filtros: ano, partido, estado, status (empenhada, executada, paga)
            • Gráfico de distribuição de emendas por região e por partido

            2. Visualização de uma emenda

            CampoExemplo
            ID3021
            ParlamentarMaria Silva (PSB-SP)
            ValorR$ 500.000
            FinalidadeAquisição de ambulância para UBS local
            DestinoPrefeitura de Itapecerica da Serra
            Data de aprovação21/03/2024
            Status atualPaga
            Última atualização12/05/2024
            Link para contrato[PDF do contrato]
            Hash do bloco0x4f7a…b329 (com link no Etherscan)

            3. Mapa interativo

            • Cada município com bolhas proporcionais ao volume de recursos recebidos
            • Cores indicam status (vermelho = pendente, verde = executado)

            4. Ranking e alertas

            • Top 10 parlamentares por volume
            • Top 10 municípios por emendas recebidas
            • Alertas automáticos:
              • Execução zero após 12 meses
              • Empresas contratadas com histórico de fraude
              • Fragmentação de contratos

            5. Consulta por empresa (CNPJ)

            • Mostra contratos vinculados a emendas
            • Quantas vezes a empresa foi contratada via emenda
            • Indício de favorecimento político?

            Integrações futuras sugeridas

            SistemaFunção
            Portal da Transparência (CGU)Dados de pagamentos e convênios federais
            Siconv (Plataforma +Brasil)Prestação de contas e etapas da execução
            Receita Federal (via API)Consulta de dados de empresas contratadas
            TCU/CGUAuditores com acesso a alertas automatizados
            Blockchain Explorer (Etherscan)Verificação pública dos blocos de dados

            Exemplo de dashboard

            O caso GPS e a soberania digital

            Luis Nassif

            As investidas de Donald Trump sobre o Brasil colocam na cena política-diplomática um cenário cruel: as novas formas de guerra digital.

            De início, recorreu ao instrumento das tarifas comerciais. Mas sua bomba atômica são o controle norte-americano sobre os instrumentos digitais. E a possibilidade de apertar o gatilho expõe, de maneira cruel, a pouca prioridade que o país deu ao tema da soberania digital.

            → Confira aqui e participe do Fórum criado para discutir a soberania digital brasileira

            O GPS

            O projeto GPS (Global Positioning System) foi iniciado oficialmente pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos, unificando três programas militares anteriores: o Transit (Marinha), Timation (Marinha) e 621B (Força Aérea). Sua função era ser um sistema de navegação preciso, capaz de operar em qualquer lugar do mundo.

            Para tal, o modelo consistia no lançamento de satélites que cobrissem o planeta. Em 1995 passou a contar com 24 satélites ativos, garantindo a cobertura global por 24 horas por dia.

            Inicialmente foi aberto ao público civil com a chamada precisão degradada (Selectiv Availability). Em 2000, o presidente Bill Clinton autorizou o uso total para civis.

            Hoje em dia são mais de 30 satélites em operação, em órbitas médias de 20.200 km. Cada satélite tem sinais, como hora precisa (usando relógios atômicos) e posição orbital. O receptor GPS no solo calcula sua posição com base no tempo que o sinal leva para chegar de pelo menos 4 satélites. A partir daí, consegue identificar o alvo com precisão.

            O sistema é controlado pelo US Space Force.

            Sem GPS

            Se os EUA cortassem o acesso brasileiro ao GPS, haveria as seguintes consequências:

            • Agricultura de precisão: processo em expansão especialmente no centro-oeste. Tratores e drones perderiam orientação centimétrica.
            • Logística, aviação, transporte marítimo – rotas, rastreamento e pousos ficariam comprometidos.
            • Energia e telecomunicações – falhas na sincronização de redes e relógios atômicos.
            • Defesa e segurança – afetaria armas, mísseis, radares e vigilância.
            • Satélites nacionais – perda de referência para dados de órbita e calibração.

            Sistemas alternativos

            O GPS não é o único sistema existente no mundo.

            Segundo o Chat GPT, há os seguintes sistemas alternativos em operação. Dispositivos modernos já aceitam múltiplos sistemas GNSS:

            SistemaPaís de origemSituação
            GLONASS🇷🇺 RússiaJá amplamente usado em Androids e receptores agrícolas no Brasil
            Galileo🇪🇺 União EuropeiaMais preciso que o GPS (modo civil), gratuito e confiável
            BeiDou🇨🇳 ChinaCobertura global desde 2020; já integrado em celulares Xiaomi etc.
            NavIC🇮🇳 ÍndiaRegional, mas pode ser útil em cooperação

            Segundo o Gemini, o GPS (EUA), Glonass (Rússia), Galileo (União Europeia) e BeiDou (China) têm cobertura global. O Glonass tem melhor desempenho na Rússia. O Galileo e o BelDou tem cobertura global e tornaram-se totalmente operacionais desde 2020.

            O GPS tem liderança de mercado na América do Norte e no seu quintal, ao sul. Na Ásia-Pacifico há rápido crescimento do BeiDou e NavIC, e o Galileo domina na Europa.

            O Brasil poderá aderir a outros sistemas. O INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) já mantém cooperação com a CBERS e poderá montar outros com a ESA.

            O CBERS (China-Brazil Earth Resources Satellite) é um programa de cooperação espacial entre a China e o Brasil, focado no desenvolvimento e lançamento de satélites de observação da Terra. O objetivo principal é gerar imagens da superfície terrestre para diversas aplicações, como monitoramento ambiental (desmatamento, queimadas), agricultura, recursos hídricos, geologia, entre outros. A ESA é a Agência Espacial Europeia.

            País / BlocoSistema GNSSGrau de AberturaPossibilidade para o Brasil
            🇺🇸 EUAGPSControlado militarmenteUso irrestrito, mas pode ser cortado
            🇷🇺 RússiaGLONASSAcesso amploUsado em tratores e celulares no Brasil
            🇪🇺 União EuropeiaGalileoAcordos civis e PRSBrasil pode integrar via ESA/INPE
            🇨🇳 ChinaBeiDouAcesso aberto e crescenteCooperação com CBERS/INPE já existente
            🇮🇳 ÍndiaNavICRegional e cooperativoPotencial via BRICS ou acordos bilaterais
            🌎 América do SulN/AProposta de sistema regional sul-americano

            Como mudar de sistema

            A maioria dos smartphones, receptores agrícolas e rastreadores modernos já são multi-GNSS, ou seja, compatíveis com GPS + Galileo + GLONASS + BeiDou.

            No Brasil, muitas marcas de tratores, celulares (Samsung, Xiaomi, Apple) e equipamentos industriais já integram Galileo por padrão.

            Mas há os chamados sistemas legados, em trens, aeronaves e drones militaraes) com hardware compatível apenas com o GPS. No caso da defesa, os dispositivos criptográficos e softwares militares integram GPS embarcados com fimware fechado.

            O caminho é adaptar os softwares para aceitar múltiplos formatos de efemérides (dados orbitais), tempo e correções.

            Segundo o ChatGPT, a mudança para o Galileo traria os seguintes desafios.

            ⚙️ 1. Compatibilidade de hardware

            ✅ Situação atual:

            • A maioria dos smartphones, receptores agrícolas e rastreadores modernos já são multi-GNSS, ou seja, compatíveis com GPS + Galileo + GLONASS + BeiDou.
            • No Brasil, muitas marcas de tratores, celulares (Samsung, Xiaomi, Apple) e equipamentos industriais já integram Galileo por padrão.
            • Mas há os chamados sistemas legados, em trens, aeronaves e drones militaraes) com hardware compatível apenas com o GPS. No caso da defesa, os dispositivos criptográficos e softwares militares integram GPS embarcados com fimware fechado.
            • O caminho é adaptar os softwares para aceitar múltiplos formatos de efemérides (dados orbitais), tempo e correções.

            🔧 Dificuldades:

            ÁreaProblema técnico
            Equipamentos legadosSistemas antigos (trens, aeronaves, drones militares) têm hardware compatível apenas com GPS
            Agricultura de precisãoRTK (correção centimétrica) e bases GNSS muitas vezes são otimizadas só para GPS + GLONASS
            Defesa e segurançaDispositivos criptográficos e softwares militares integram módulos GPS embarcados com firmware fechado

            📌 Solução: substituição gradual de hardware ou atualização de firmware com suporte ao Galileo.

            🧠 2. Sistemas de software e algoritmos de navegação

            Problemas comuns:

            • Softwares de georreferenciamento, cartografia, controle de tráfego e GIS costumam usar modelos otimizados para sinais GPS (L1/L2).
            • Galileo usa frequências similares, mas diferentes formatos de dados e níveis de precisão.
            • Integrações com o sistema de tempo do GPS (baseado em relógio do DoD) podem gerar erros de sincronização ao alternar para o tempo Galileo.

            📌 Solução: adaptar os softwares para aceitar múltiplos formatos de efemérides (dados orbitais), tempo e correções.

            🔒 3. Acesso ao serviço criptografado (PRS)

            • Em qualidade e precisão, o serviço PRS (Public Regulated Service) do Galileo é equivalente ao serviço militar do GPS.
            • Ele oferece maior resistência a interferências, spoofing, bloqueio e é destinado a forças armadas e autoridades públicas da UE.

            Dificuldade:

            • Países fora da UE não têm acesso automático ao PRS — é preciso acordo bilateral de alto nível.

            📌 Solução institucional: o Brasil teria que firmar acordo com a União Europeia via ESA ou Comissão Europeia, com garantias de confidencialidade, alinhamento político e compromisso de uso pacífico.

            📡 4. Infraestrutura terrestre de apoio (EGNOS)

            • O sistema Galileo é complementado pelo EGNOS, uma rede de estações terrestres para correções diferenciais (como o WAAS nos EUA).
            • O EGNOS não cobre totalmente a América do Sul.

            Dificuldade:

            • Sem infraestrutura regional (receptores EGNOS, estações GNSS de referência), a precisão bruta do Galileo será limitada (~1 a 5m).

            📌 Solução: construir estações GNSS permanentes no Brasil e na América do Sul e conectar ao sistema europeu.

            🌐 5. Geopolítica e certificação internacional

            • Para uso em aviação civil, ferrovias, marinha mercante e serviços críticos, é necessário que o sistema esteja certificado por autoridades brasileiras (ANAC, ANATEL, DECEA etc.) e compatível com padrões da ICAO e ITU.

            📌 Solução: harmonização de normas e reconhecimento mútuo de certificações com UE, além de atualizações normativas locais.

            Os ganhos geopolíticos

            Segundo o Chat GPT, a transição do GPS (EUA) para o Galileo (UE) reduz significativamente a dependência geopolítica de sistemas estratégicos controlados por potências militares. Abaixo está uma avaliação dessa redução em quatro dimensões principais:

            🧭 1. Autonomia Estratégica

            AspectoCom GPS (EUA)Com Galileo (UE)
            Controle operacionalForças Armadas dos EUA (US Space Force)Comissão Europeia (uso civil)
            Prioridade em crisesPode ser desligado ou degradado para usuários civis e estrangeirosSem degradação intencional prevista
            Acesso soberanoLimitado por decisões políticas dos EUASoberania tecnológica europeia
            Risco de sanções geopolíticasAlto em caso de tensões com EUAReduzido

            🌐 2. Interoperabilidade e Redundância

            • Adoção do Galileo não elimina o uso do GPS, mas diversifica as fontes de sinal.
            • Sistemas podem operar em conjunto para maior precisão e confiabilidade.
            • Estratégia recomendada: uso de receptores multiconstelação (GPS + Galileo + BeiDou + GLONASS).

            🛡️ 3. Segurança Cibernética e Militar

            RiscoCom GPS (único)Com Galileo (híbrido)
            Ataques de spoofing/jammingMaior impacto se únicoRedução do risco
            Bloqueio ou interferênciaVulnerável a decisões externasMais resiliência
            Backup em caso de falhaNenhum alternativoGalileo serve como backup

            📉 4. Indicador de Redução de Dependência (simulado)

            DimensãoPeso (%)Dependência com GPS (%)Dependência com Galileo (%)
            Controle soberano40%100%0%
            Risco de uso geopolítico30%80%10%
            Vulnerabilidade a cortes20%100%20%
            Capacidade de auditoria pública10%30%90%

            Dependência média ponderada:

            • Com GPS exclusivo: 91%
            • Com Galileo predominante: 26%

            🟢 Redução estimada da dependência geopolítica: cerca de 65%

            A revolução industrial das externalidades: o caso do biometano

            Por Marcelo Mitheroff *

            Resumo por Inteligência Artificial

            1. Introdução

            O documento aborda a revolução industrial atual, que busca a descarbonização e a redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE), destacando a importância das externalidades econômicas. A necessidade de internalizar custos e benefícios, como os impactos de projetos de transporte coletivo, é enfatizada. O Brasil, com sua matriz energética diversificada, é apresentado como um exemplo positivo nesse contexto .

            2. Contexto Energético do Brasil

            Em 2023, 49% da matriz energética brasileira era proveniente de fontes renováveis, com um perfil de emissões diferente da média global. O desmatamento e a agropecuária são os principais responsáveis pelas emissões de GEE no Brasil. O cumprimento das metas de redução do desmatamento é crucial para que o país se torne neutro em carbono .

            3. O Potencial do Biometano

            O biometano, gerado a partir do biogás, representa uma oportunidade significativa para a transição energética do Brasil. Embora o país tenha um grande potencial de produção de biometano, atualmente produz menos de 1% desse potencial. O documento destaca que o biometano pode substituir completamente o consumo nacional de gás natural e contribuir para a geração de energia renovável .

            4. Desafios e Oportunidades

            Apesar do potencial, existem desafios regulatórios e de financiamento que limitam a expansão da produção de biometano no Brasil. A dificuldade em gerenciar resíduos sólidos urbanos (RSU) representa uma barreira, mas também uma oportunidade, já que o RSU é uma fonte promissora para a geração de biogás e biometano. O aproveitamento do biogás para a geração de energia elétrica é sugerido como uma solução viável para melhorar o manejo do lixo .

            5. Conclusão

            A transição para uma economia mais limpa é complexa e requer coordenação entre os países. No caso do biometano e do biogás, o Brasil tem a oportunidade de liderar, mas precisa priorizar o financiamento e políticas públicas que incentivem essa transição. A produção de biogás a partir de resíduos pode ser uma solução eficaz para os problemas de resíduos e emissões .

            * Economista do BNDES

            Colonialismo científico

            O Colonialismo Científico e a Fetichização do Conhecimento no Capitalismo de Plataforma

            Por Reynaldo Aragon 

            A ciência virou mercadoria. O pensamento crítico foi domesticado. E as ideias do Sul global seguem sequestradas por uma indústria editorial bilionária que lucra com a produção intelectual de quem menos pode publicar. Neste artigo, uma análise visceral sobre o colonialismo científico contemporâneo, o domínio das big techs e a sabotagem teórica que travou o desenvolvimento do pensamento estratégico no Sul. Um mergulho profundo na fetichização do conhecimento, na alienação acadêmica e nas vanguardas que desafiam o império da validação. Do Brasil ao mundo, a revolta dos que pensam começou.

            O escândalo invisível.

            Era madrugada. No quarto apertado de um pesquisador bolsista no interior do Brasil, as luzes de uma tela azulada refletiam no rosto exausto de quem, há dez horas seguidas, revisava um artigo científico para uma revista que jamais lhe pagaria um centavo. O texto precisava estar pronto antes do prazo — não por vaidade, mas por sobrevivência. Era preciso publicar para existir. Era preciso engajar para ser lembrado. Era preciso vencer o jogo sem saber as regras, sem possuir o tabuleiro. E, mesmo após aceito, o artigo deixaria de ser seu: pertenceria à editora, ao Qualis, ao DOI, ao índice de impacto. O pesquisador, esse seria deletado da equação como se fosse uma variável descartável da engrenagem.

            Esta é a cena cotidiana da elite científica do Sul global. Invisível. Exausta. Sofisticadamente explorada.

            O escândalo não está nos porões de uma universidade corrupta, nem nos exageros de um sistema falido — mas sim na estrutura elegante, bilíngue e globalizada de uma indústria editorial que transforma conhecimento em commodity, pesquisadores em freelancers não-remunerados e saberes em ativos de especulação cognitiva. Tudo isso com o selo da ciência, da meritocracia, da inovação. Nada mais parecido com o colonialismo do que esse sistema que devora inteligências locais e as regurgita como produtos do Norte.

            O que era para ser a mais alta expressão do bem comum — o conhecimento — virou um luxo cercado por algoritmos, métricas e paywalls. Nos países periféricos, cientistas lutam para ter acesso aos próprios textos que escreveram. E quando conseguem publicar, o fazem em inglês, para atender uma comunidade que raramente se interessa pelos problemas de suas terras, suas gentes, seus contextos. O pesquisador vira uma marca. O paper vira uma moeda. E a ciência vira uma vitrine onde o Sul exibe suas ideias para serem compradas por olhos que jamais as verão com autonomia.

            Vivemos a era da fetichização do conhecimento como mercadoria. E como toda mercadoria no capitalismo, ele carrega em si o rastro do sangue, do tempo e da alienação de quem o produziu.

            Não há chicotes, nem grilhões, nem feitorias visíveis. Mas há um regime sofisticado de vigilância epistêmica: métricas, indexadores, revisores anônimos, barreiras linguísticas, rankings, fatores H, editoras multinacionais, plataformas de autopromoção científica. Tudo isso criando uma arquitetura global onde o pensamento periférico só é validado se falar a língua do centro, seguir sua agenda e performar dentro de sua lógica mercantil.

            E no centro do palco está o cientista do Sul — publicando de graça, revisando de graça, traduzindo de graça, jogando um jogo onde não há vitória possível sem submissão simbólica.

            O escândalo é esse: o colonialismo científico não só sobreviveu ao século XX — ele se refinou, se digitalizou e se travestiu de excelência acadêmica.

            Do colonialismo das caravelas ao colonialismo dos papers.

            O colonialismo nunca se contentou em dominar territórios. Ele precisava dominar as ideias. Não bastava extrair ouro, açúcar, pau-brasil — era preciso também extrair narrativas, epistemologias, modos de ver e dizer o mundo. O que as caravelas abriram com pólvora, as universidades metropolitanas fecharam com indexadores. O que os colonizadores impuseram com cruz e espada, o sistema editorial global perpetua com métricas, revistas e rankings.

            Se no século XVI o indígena era visto como ignorante porque não rezava em latim, hoje o pesquisador do Sul é visto como irrelevante porque não publica em inglês. Se antes os saberes originários foram queimados como heresia, hoje os saberes locais são ignorados como “não indexados”. Mudaram os instrumentos. A lógica é a mesma.

            Essa é a engrenagem do que chamamos de colonialismo científico: um sistema de produção, validação e difusão de conhecimento que concentra poder nos países centrais, impõe padrões universais baseados em sua cultura e economia, e subalterniza todo saber que nasce fora do eixo euro-americano. É uma continuidade da dominação colonial clássica, agora transmutada em política editorial, imperialismo linguístico e controle informacional.

            E o Brasil, como sempre, ocupa o lugar emblemático nessa arquitetura: rico em intelectuais, pobre em soberania epistemológica. Nosso território foi laboratório da medicina tropical, da antropologia exotizante, da psicologia comportamental importada e, mais recentemente, da ciência de dados aplicada à manipulação política. Sempre objeto, quase nunca sujeito. Sempre citado, quase nunca ouvido.

            A geopolítica do conhecimento tem sua cartografia própria. E nela, as universidades de Harvard, Oxford, Stanford, Cambridge, MIT e similares ocupam o papel das antigas metrópoles. São elas que definem o que é ciência de ponta, o que é “relevante”, o que deve ser financiado, o que deve ser lido. Suas editoras controlam a maior parte das revistas de alto impacto. Seus algoritmos de ranqueamento regem a visibilidade de tudo que circula na academia. Suas línguas, seus métodos, suas ontologias colonizam subjetividades ao redor do mundo — inclusive as dos mais críticos.

            O colonialismo do saber é ainda mais perverso porque não se impõe pela força, mas pela sedução: ele faz com que os pesquisadores da periferia desejem ser aceitos pelas metrópoles acadêmicas, se moldem a seus critérios, escrevam como eles, citem os seus autores, ignorem os próprios territórios. É um processo de autos subalternização incentivada, onde o prestígio vem pela via da negação de si.

            Essa lógica está tão naturalizada que se tornou até mesmo critério de avaliação institucional. Programas de pós-graduação no Brasil são ranqueados conforme a quantidade de artigos publicados em periódicos internacionais, geralmente em inglês, frequentemente controlados por editoras do Norte. A CAPES, o CNPq e as agências de fomento acabaram por reproduzir, muitas vezes sem querer, os mesmos filtros coloniais que um dia serviram à catequese e à assimilação cultural.

            Estamos diante de um novo tipo de pilhagem: a pilhagem epistêmica. Nossos dados, nossas histórias, nossas questões, nossas doenças, nossas soluções — tudo é capturado, processado e devolvido em papers assinados por pesquisadores de centros estrangeiros, com verbas internacionais, publicados em revistas que sequer estão disponíveis nas bibliotecas públicas das universidades brasileiras. O saque continua. Só mudou de capa.

            A produção científica do Sul global é muitas vezes tratada como matéria-prima bruta, a ser processada pelas instituições centrais. Somos os fornecedores de dados, de corpos, de experimentos. A autoria? Fica com quem detém o poder editorial.

            Se antes nossa terra era considerada vazia para justificar a colonização, hoje nosso pensamento é considerado “não referenciado”, “pouco citado”, “não confiável” — para justificar a negação de nossa autoridade intelectual.

            A epistemologia colonial tem mil faces, mas um único objetivo: garantir que o centro continue a ser o centro. E para isso, é preciso manter o Sul no papel de satélite cognitivo.

            A boa notícia é que cada vez mais vozes se levantam contra esse ciclo. A má notícia é que ainda estamos no início da ruptura.

            O fetiche do conhecimento e a indústria dos invisíveis.

            Há uma nova religião silenciosa no mundo acadêmico: a dos indicadores. H-Index, Impact Factor, Altmetrics, número de citações, número de visualizações, número de seguidores nas plataformas acadêmicas. O templo? O sistema editorial científico internacional. Os deuses? As grandes editoras. Os fiéis? Milhões de pesquisadores ao redor do mundo que oferecem suas descobertas, seu tempo, seu esforço, seu pensamento — tudo de graça — em troca da promessa de visibilidade, prestígio e permanência no jogo.

            Estamos vivendo a era da fetichização do conhecimento como mercadoria. Um saber que não vale por sua potência de transformação, mas por sua capacidade de performar em métricas. Um artigo que não é medido por seu impacto social, mas por quantas vezes foi citado por outros artigos que também tentam sobreviver ao mesmo jogo. Um ciclo fechado, autossuficiente e, acima de tudo, alienado da realidade concreta.

            É aqui que o fetiche se revela: o conhecimento, transformado em coisa, esconde o trabalho, o contexto, a história e a luta que o produziu. Esconde o pesquisador que passou noites em claro, a estudante que levantou dados num território vulnerável, o professor precarizado que escreveu entre aulas mal pagas. Esconde, sobretudo, que essa produção é oferecida de graça a empresas que lucram bilhões com ela.

            A Elsevier, por exemplo, teve uma margem de lucro superior à da Apple em 2023. A Springer Nature, a Taylor & Francis e a Wiley formam com ela um verdadeiro oligopólio editorial que controla a maior parte da produção científica de alto impacto no mundo. Essas editoras não financiam as pesquisas. Não contratam os revisores. Não remuneram os autores. Elas vendem um conteúdo que não produziram — e fazem isso com um poder de cartel que estrangularia qualquer outro setor da economia. E ainda assim, gozam do respeito irrestrito de agências de fomento, universidades e governos.

            É a maior extração de mais-valia do século XXI: o pesquisador entrega seu saber gratuitamente, abre mão dos direitos autorais, revisa os trabalhos dos colegas também de forma gratuita, e depois precisa pagar para acessar aquilo que ele mesmo escreveu — ou, pior, para tornar acessível o que ele mesmo produziu.

            Essa lógica supera a mais-valia tradicional. Aqui não há salário. O cientista do Sul global não é nem proletário — é um servidor voluntário da indústria do conhecimento, que opera movido pela promessa de reconhecimento simbólico: uma citação, um convite para um congresso, uma posição numa universidade pública ameaçada por cortes orçamentários.

            E o que é mais perverso: ele sabe disso. Ele vê a engrenagem. Mas não pode parar de girá-la. Porque o sistema o prende por dentro — como reputação, como currículo Lattes, como pressão por produtividade, como medo de ser esquecido.

            A essa lógica, chamamos de playlabor científico: o jogo do engajamento acadêmico, onde se misturam trabalho, performance, autopromoção e desejo de reconhecimento. Um jogo com regras claras, onde vencer significa publicar mais, ser citado mais, ser visto mais. Um jogo onde o pesquisador se transforma em marca, e o saber em moeda. Um jogo violento, silencioso e solitário, onde todos fingem não estar jogando — enquanto disputam cada milímetro de visibilidade.

            É nesse ambiente que emergem as plataformas como ResearchGate, Academia.edu, Google Scholar e tantas outras. Não são apenas ferramentas de divulgação — são mecanismos de vigilância, competição e reforço da lógica mercantil. Elas premiam quem compartilha mais, quem é mais visualizado, quem atrai mais tráfego. Elas transformam o tempo de pesquisa em tempo de exposição. O cientista, aqui, é também produtor de conteúdo. Influencer acadêmico. Engajado e engajável.

            E quem comanda tudo isso? Os mesmos conglomerados de tecnologia que hoje controlam os dados, os algoritmos e a infraestrutura digital do planeta. As Big Techs já entenderam que o conhecimento é o novo ouro. E estão explorando as minas com ferramentas que parecem neutras, mas são profundamente colonizadoras.

            O resultado é uma nova classe de trabalhadores invisíveis — os cientistas do Sul global — que alimentam a máquina sem receber por isso, e ainda assim são cobrados por resultados, métricas e desempenho. São autores que não têm propriedade sobre seus textos. São intelectuais tratados como mão de obra bruta. São pensadores condenados a performar para sobreviver.

            A indústria científica global não quer ciência. Quer papers. Não quer transformação. Quer indexação. Não quer crítica. Quer conformidade estilística.

            E quando o pensamento se transforma em produto, a crítica se transforma em risco. E pensar fora das regras se torna um ato de insubordinação.

            O império do inglês e as plataformas como metrópoles.

            No novo mapa-múndi da ciência, não basta ter algo a dizer. É preciso dizer em inglês, com as palavras certas, no formato certo, para o público certo. Não aquele que precisa da pesquisa, mas aquele que pode validá-la.

            O inglês, que já foi a língua da diplomacia, tornou-se a língua da autoridade epistêmica. Mais do que idioma, virou protocolo. Quem não fala a língua do império, não entra no templo. Mesmo que esteja curando doenças tropicais, propondo novas ontologias, ou desenvolvendo tecnologias sociais enraizadas em seu território. Se não fala inglês, não é “científico”. E se fala inglês mal, é “exótico”.

            Esse é o primeiro filtro invisível do novo colonialismo: a língua como barreira de classe, território e saber. Não se trata apenas de comunicação — trata-se de poder. Porque quem define o que é publicável, o que é relevante, o que é “bom inglês”, são os editores do Norte global, quase todos brancos, quase todos formados por universidades coloniais, quase todos alheios às realidades sobre as quais autorizam ou silenciam.

            O segundo filtro é algorítmico: as plataformas acadêmicas, que hoje medem a performance de um pesquisador como se fosse uma empresa. ResearchGate, Academia.edu, Google Scholar, Scopus, Web of Science — todos operam como os novos portos do saber, onde é preciso pagar pedágio em engajamento para ter direito à travessia. Mais downloads, mais visualizações, mais interações, mais palavras-chave, mais produtividade. Menos profundidade. Menos tempo. Menos crítica.

            Essas plataformas não apenas hospedam o conteúdo — elas moldam a forma como o conteúdo é produzido. Elas induzem comportamentos, impõem tendências, retroalimentam algoritmos. Os temas que viralizam se tornam mais citados. Os que são mais citados recebem mais financiamento. Os que recebem mais financiamento se tornam mais publicáveis. O ciclo fecha. A dominação se automatiza.

            E quem está por trás dessa arquitetura? As Big Techs, é claro. Empresas que já controlam o fluxo da informação, a infraestrutura da nuvem, o mercado de dados e, agora, o capital cognitivo. Google, Microsoft, Elsevier (sim, Elsevier é Big Tech), Springer, Amazon Web Services — todas conectadas em uma teia onde a ciência virou só mais um ramo da economia da vigilância.

            Essas plataformas funcionam como as novas métropoles epistêmicas. Os centros onde o saber é processado, ranqueado, distribuído. E onde os saberes do Sul só têm valor se forem traduzidos, higienizados e entregues nos moldes exigidos. Não é mais apenas a escravidão do corpo — é a escravidão da linguagem, do formato, da reputação.

            O pesquisador periférico hoje precisa escrever como um anglo-saxão, pensar como um estruturalista europeu e citar como um progressista neoliberal. Precisa calibrar seu vocabulário, enxugar suas insurgências, esconder seus territórios. Precisa ser universal — desde que esse universal seja a versão iluminada do Norte.

            Mesmo os periódicos “alternativos” muitas vezes reproduzem essa lógica. Porque também querem indexação. Também querem prestígio. Também querem ser lidos — ainda que para isso precisem renunciar a sua linguagem original, sua episteme própria, sua alma de território.

            E o mais cruel: os pesquisadores sabem disso. E jogam esse jogo porque precisam sobreviver. Porque o sistema de avaliação das universidades exige isso. Porque os editais cobram isso. Porque os pares valorizam isso. É uma lógica perversa de autocolonização meritocrática, onde o cientista se molda para agradar, e depois se convence de que foi por escolha.

            O império do inglês não é apenas uma questão de idioma — é uma geopolítica da fala autorizada. E as plataformas não são apenas ferramentas — são dispositivos de domesticação epistêmica.

            É preciso ter clareza: o saber virou ativo, e as plataformas são as novas bolsas de valores da ciência. Cada artigo é um investimento. Cada citação, uma valorização. Cada pesquisador, uma startup de si mesmo.

            E nessa bolsa, o Sul continua sendo matéria-prima. Ainda que agora travestido de autor indexado.

            Brasil: laboratório e trincheira.

            O Brasil não foi apenas vítima do colonialismo científico. Foi — e ainda é — um dos seus principais laboratórios.

            Durante as últimas duas décadas, nossas universidades públicas viveram um paradoxo brutal: enquanto formavam gerações de mestres e doutores como nunca antes na história, viam suas estruturas financeiras, epistemológicas e simbólicas serem moldadas a um padrão que não dialogava com as urgências do povo, mas com os imperativos de um mercado editorial e cognitivo global que jamais se interessou pelas favelas, pelas florestas ou pelos terreiros.

            O processo se intensificou a partir da reconfiguração geopolítica do país: saímos da ALCA, buscamos protagonismo no Sul global, ampliamos o investimento público em ciência, e ousamos pensar com nossas próprias cabeças. O castigo veio rápido. E violento.

            O golpe de 2016 não foi apenas jurídico-parlamentar. Foi epistêmico. Foi um ataque sistemático à soberania do pensamento brasileiro. Asfixiaram as universidades, cortaram bolsas, extinguiram ministérios, fecharam institutos, humilharam pesquisadores em rede nacional. Transformaram o cientista em suspeito. A ciência, em privilégio. O saber, em ameaça.

            O que estava em jogo não era só orçamento. Era hegemonia cognitiva. O que estava em disputa não era só a produção de conhecimento — mas o direito de nomear o real a partir de outro lugar que não o Norte global.

            E o Brasil, por sua potência, por sua dimensão continental, por sua tradição intelectual insurgente, precisava ser exemplarmente disciplinado. A operação foi bem-sucedida. Por um tempo.

            Mas ainda assim, não conseguiram nos apagar.

            Mesmo nos anos mais duros, a universidade pública brasileira continuou sendo o principal espaço de produção científica do país. E mais: continuou sendo a trincheira crítica, o lugar onde resistiram o pensamento marxista, a pesquisa militante, os estudos decoloniais, a epistemologia feminista, a ciência engajada com os territórios, as sabedorias indígenas e periféricas.

            Esse é o paradoxo brasileiro: fomos laboratório da colonização cognitiva, mas também somos hoje um dos maiores celeiros de resistência epistemológica do Sul global.

            E isso incomoda.

            Incomoda que mesmo sem financiamento, continuamos produzindo. Incomoda que mesmo com a plataforma nos empurrando para o inglês, ainda escrevemos em português e lemos Paulo Freire, Abdias do Nascimento, Sueli Carneiro, Milton Santos, Heleieth Saffioti, Aníbal Quijano, Carolina de Jesus. Incomoda que mesmo com a lógica da competição, seguimos fazendo extensão, formando base, acolhendo quebrada, reconstruindo o pensamento a partir do chão.

            Incomoda que mesmo esmagados pela lógica editorial, ainda inventamos, resistimos, compartilhamos. Incomoda que o Brasil pense.

            E por isso querem nos silenciar.

            O mercado editorial científico sabe que aqui existe uma potência que não cabe nas categorias do Norte. Um modo de pensar o mundo que desafia a colonialidade. Uma ciência que não serve ao capital, mas à vida.

            Sabem que se nos deixarem pensar, pensaremos o impensável: que outro modo de produzir conhecimento é possível — e necessário.

            Por isso, cada corte no CNPq não é apenas ajuste fiscal — é um ataque à soberania cognitiva. Cada extinção de instituto não é apenas burocracia — é limpeza epistêmica. Cada taxação injusta sobre livros, cada boicote à língua portuguesa, cada deslegitimação das ciências humanas é uma tentativa de amputar nosso futuro.

            Mas também por isso, a universidade pública brasileira é hoje uma trincheira estratégica da luta global por outro modo de saber e de viver.

            Ela é contraditória? Sim. Está cheia de colonialismos internos? Sim. Reproduz estruturas racistas e patriarcais? Sim. Mas também é o lugar onde a insurgência ainda respira, ainda pensa, ainda escreve, ainda publica — mesmo que a duras penas.

            É dessa trincheira que nascerão os caminhos para uma ciência soberana, popular, radicalmente comprometida com a transformação da vida.

            O que querem de nós é silêncio. O que daremos é pensamento.

            O empurrão pós-moderno: a sabotagem teórica.

            Nos disseram que não havia mais estrutura. Que não havia mais sujeito. Que não havia mais verdade. Nos ensinaram a desconfiar de totalidades, de narrativas unificadas, de projetos históricos. Disseram que tudo era discurso, linguagem, performance. Que o real era uma construção. Que a realidade era relativa.

            Enquanto isso, do outro lado do mundo, laboratórios de psicologia comportamental, centros de pesquisa militar e think tanks bilionários desenvolviam métodos científicos altamente estruturados para modular comportamento, mapear desejos, prever ações e controlar sociedades inteiras.

            O Sul global foi afogado numa avalanche de teorias pós-modernas que diziam: “Não tente mudar o mundo, ele não existe.”

            Enquanto isso, o Norte aplicava modelos estruturalistas rígidos para reorganizar o mundo segundo sua lógica algorítmica, financeira e informacional.

            A ironia é insuportável.

            Foi nos anos 1980 e 1990 — auge da euforia neoliberal e do fim da história — que essa inflexão se consolidou. As teorias críticas do Sul começaram a ser substituídas por discursos importados que pareciam radicais, mas, na prática, neutralizavam a ação política. Enquanto Foucault e Derrida eram entronizados nos currículos de pós-graduação do Brasil, os EUA financiavam massivamente pesquisas em neurociência, big data, linguística computacional, psicometria, Machine Learning e guerra cognitiva.

            Não é coincidência.

            A indústria do pensamento do Norte sabia o que fazia: era preciso manter o Sul teorizando o fragmento, enquanto o centro desenhava sistemas. Era preciso que os povos colonizados se tornassem hiperconscientes da linguagem — e completamente desarmados diante da engenharia.

            A avalanche pós-estruturalista teve seu valor crítico em muitos momentos, é verdade. Mas o modo como ela foi transplantada para o Sul não foi emancipador. Foi funcional à manutenção da dependência. Ela nos ensinou a desconfiar de qualquer projeto coletivo — exatamente quando mais precisávamos de projeto.

            Transformaram a crítica em exercício estético. O pensamento radical em nicho editorial. A militância em tese de mestrado.

            E não por acaso, os mesmos grupos editoriais que dominam o circuito científico também lucraram com a internacionalização dessas teorias. É um ciclo perfeito: produzem as categorias, ditam os modismos, vendem os livros, dominam as revistas, controlam os currículos, e ainda ganham prestígio por “internacionalizar o debate”.

            Enquanto isso, na realidade concreta dos territórios do Sul, as políticas públicas foram sendo desmontadas, as universidades esvaziadas, os movimentos sociais criminalizados, a juventude negra assassinada. Mas nas bancas de qualificação, discutia-se o “fim do sujeito”, a “morte da política”, a “desconstrução do real”.

            Era a nova forma de censura: não mais silenciar, mas hiperteorizar até a paralisia.

            E essa sabotagem teórica não foi só uma moda. Foi um projeto político de neutralização do pensamento crítico radical. Um ataque à imaginação estratégica. Uma forma de esvaziar os conteúdos da luta e substituí-los por formas elegantes de ceticismo inofensivo.

            Enquanto nos ensinavam a desconstruir tudo, eles estavam construindo o futuro: redes neurais, sistemas de vigilância, manipulação algorítmica de comportamento, plataformas de metaintermediação. E para isso, usaram estruturalismo pesado, lógica formal, estatística, cibernética, neurociência aplicada.

            Quem acreditou que a estrutura tinha morrido, perdeu o bonde da história.

            Porque a estrutura voltou — mas não como projeto de esquerda. Voltou como máquina de captura comportamental, como interface de vigilância, como plataforma de modulação afetiva, como dispositivo de poder técnico.

            E hoje ela está em toda parte: nos sistemas de recomendação, nos algoritmos de ranqueamento, nos modelos preditivos, nas plataformas acadêmicas que organizam nosso trabalho e nossas emoções em torno de métricas, pontos, níveis de engajamento e produtividade.

            A teoria que nos prometeram como libertadora virou cárcere. E enquanto a elite acadêmica do Norte global seguia investindo bilhões em ciência dura, nos contentávamos em desconstruir a gramática da nossa própria insurreição.

            É hora de virar esse jogo.

            Não se trata de jogar fora a crítica ao poder discursivo. Ela é necessária. Mas é preciso retomar o direito de construir teoria estratégica, materialista, totalizante, insurgente. O direito de pensar o mundo em sua totalidade contraditória. O direito de elaborar um projeto coletivo de ruptura com a colonialidade.

            Enquanto estivermos apenas debruçados sobre a superfície do discurso, seremos operários da distração teórica.

            Chegou a hora de voltar à raiz — e erguer um pensamento do Sul global que não tema o conflito, que abrace a estrutura, que confronte a dominação e que rompa com a lógica da auto-submissão intelectual.

            Pensar, aqui, não pode mais ser um luxo. Precisa ser arma.

            A reação global: vanguardas contra o império editorial.

            Nem todo o Sul está ajoelhado. Nem todo o Norte está alinhado. E nem toda ciência está capturada.

            Apesar da hegemonia das grandes editoras, das plataformas algorítmicas, do imperialismo linguístico e das estruturas de gamificação acadêmica, a resistência existe — e cresce. Nos subterrâneos do sistema, nas bordas das universidades, nas redes de cooperação desobediente, há um movimento planetário em curso: a luta pela soberania epistêmica.

            A primeira linha de frente é o movimento de acesso aberto (open access) — que surgiu como resposta ao sequestro da ciência por editoras bilionárias. Iniciativas como a SciELO, RedALyC, AmeliCA e o DOAJ (Directory of Open Access Journals) não apenas romperam com os paywalls, mas passaram a oferecer infraestrutura pública de circulação do conhecimento, especialmente no Sul global.

            A SciELO Brasil, criada em 1997 com apoio da FAPESP, é hoje uma das maiores bibliotecas científicas de acesso aberto do mundo, com milhares de artigos publicados em português, espanhol e inglês. Não apenas democratizou o acesso, mas rompeu com a centralidade das línguas coloniais, valorizando a ciência escrita desde os territórios. É trincheira e exemplo.

            A RedALyC (Rede de Revistas Científicas da América Latina, Caribe, Espanha e Portugal), criada no México, é outro farol. Seu objetivo declarado: romper com a dependência da América Latina em relação aos sistemas de indexação do Norte. Criaram inclusive a AmeliCA, um ecossistema completo de ciência aberta, baseado em colaboração, solidariedade e não comercialização.

            Mas não é só na América Latina. Na África, surgem plataformas como o African Journals Online (AJOL), que abriga centenas de periódicos locais, muitos deles em línguas nativas. Na Ásia, a Índia lidera movimentos de ciência aberta financiada publicamente, com sistemas de publicação próprios e alternativas às revistas comerciais.

            E há ainda iniciativas como o Plan S, na Europa, que exige que pesquisas financiadas com recursos públicos sejam publicadas apenas em acesso aberto — uma tentativa de desacelerar o oligopólio da Elsevier, Springer e Wiley. É um embate ainda moderado, mas que revela a insatisfação crescente até mesmo dentro do Norte.

            No campo digital, hackers do saber como Alexandra Elbakyan, criadora do Sci-Hub, abriram as portas dos cofres da ciência. Com milhões de artigos liberados para acesso gratuito, o Sci-Hub virou símbolo de um novo tipo de desobediência epistêmica: aquela que entende que o saber, sequestrado, precisa ser libertado — ainda que pela quebra direta da legalidade capitalista.

            Nos BRICS, sobretudo na China, o movimento é ainda mais estratégico. O país tem investido bilhões de dólares em ciência e tecnologia, não para agradar ao império editorial, mas para superá-lo. Criou seu próprio sistema de indexação, periódicos de alta performance, plataformas estatais de publicação e avaliação. E o mais importante: investiu em ciência aplicada, com finalidades nacionais, com base em planos de longo prazo.

            A China entendeu cedo que não se conquista soberania tecnológica sem soberania epistêmica. Enquanto isso, o Brasil, que já foi referência na política de ciência e tecnologia durante os anos 2003-2014, sofreu um brutal retrocesso a partir do golpe de 2016. Mas agora, com o novo ciclo democrático, há uma janela de reconstrução. E ela precisa ser estratégica.

            Para isso, não basta financiar ciência. É preciso financiar soberania.

            Criar plataformas nacionais de publicação. Reforçar os periódicos públicos. Desvincular a avaliação da produtividade das lógicas editoriais do Norte. Promover políticas de incentivo à escrita em português. Criar bancos de dados nacionais. Valorizar as epistemologias indígenas, negras, periféricas, quilombolas, feministas. Ensinar ciência com base no território.

            É hora de compreender que ciência não é só laboratório. É também projeto civilizatório.

            Essa virada exige coragem. Porque o sistema vai reagir. Vai acusar de anticiência, de provincianismo, de “ideologia”. Mas essa acusação é o sintoma da perda de controle. A hegemonia do Norte global já não é total. E isso os assusta.

            Estamos diante de uma disputa mundial pela forma de pensar o mundo. E ela não será vencida apenas com papers — será vencida com imaginação histórica, estrutura pública e coragem política.

            A ciência que queremos não pode ser uma reprodução técnica da colonialidade. Ela precisa ser a trincheira da emancipação. E para isso, precisamos romper com a lógica editorial como forma de legitimação — e construir outras formas de validarmos a nossa produção, os nossos saberes, as nossas verdades.

            As vanguardas já começaram. Agora é nossa vez.

            Conclusão: a revolta dos que pensam.

            Toda dominação começa pela cabeça. Antes de ocupar terras, é preciso ocupar sentidos. Antes de capturar corpos, é preciso capturar símbolos. Antes de colonizar o solo, é preciso colonizar o saber.

            Foi assim que construíram impérios.

            Foi assim que forjaram a ideia de superioridade do Norte.

            Foi assim que fizeram da ciência um trono — e de nós, súditos da validação alheia.

            Mas os tempos mudam.

            Hoje, em cada universidade pública do Sul global, há um fogo subterrâneo. Ele arde nas entrelinhas de uma dissertação que resiste ao inglês obrigatório. Ele pulsa no artigo recusado por não se encaixar nas “métricas internacionais”. Ele vibra nas rodas de leitura onde o povo pensa, onde a ciência escuta, onde o saber se reapropria de sua função original: servir à vida.

            A revolta dos que pensam não é feita de tiros.

            É feita de perguntas.

            Ela explode quando um estudante indígena questiona a lógica da propriedade privada. Quando uma mulher negra denuncia a ausência de sua história no currículo. Quando um pesquisador da favela recusa ser apenas “objeto de estudo”. Quando uma professora escreve em português e desafia a estética fria da ciência colonial.

            Essa revolta não precisa de permissão.

            Ela acontece nas margens do sistema, nas frestas da universidade, nas redes subterrâneas de saber compartilhado, nos quilombos epistêmicos, nos arquivos digitais insurgentes, nos laboratórios autônomos, nos coletivos de ciência popular, nas ocupações de escola, nas lives, nas rádios livres, nas rodas de conversa, nos córregos, nas aldeias, nas ruas.

            Porque pensar, no Sul global, é um ato de guerra.

            E é essa guerra que está em curso: a guerra entre uma ciência que serve ao lucro e uma ciência que serve à emancipação. Entre uma produção de conhecimento que transforma tudo em mercadoria — e outra, que transforma o conhecimento em alavanca de libertação.

            O colonialismo científico está vivo. Mas também está ferido. E mais: está cercado.

            Cercado por uma geração que não aceita mais escrever para agradar índice. Que não quer mais ser escrava de editoras milionárias. Que se recusa a produzir ciência que não transforme o mundo. Uma geração que exige soberania — inclusive epistêmica.

            O futuro do pensamento não está nas universidades de Harvard ou Oxford. Está nas quebradas do Capão Redondo, nas salas lotadas da UFRJ, nos encontros de saberes da UFBA, nos assentamentos do MST, nas aldeias do Xingu, nos quilombos da Chapada, nos grupos de estudo das redes populares de educação.

            Está em quem pensa para curar.

            Em quem pensa para alimentar.

            Em quem pensa para libertar.

            O colonialismo pode até ter sequestrado nossas prateleiras.

            Mas nunca dominará nosso chão.

            Porque aqui, a ciência ainda dança com o povo.

            Aqui, o pensamento é corpo. É território. É projeto.

            E o tempo do silêncio acabou.

            Chegou a hora da palavra insubmissa.

            Chegou a hora da revolta dos que pensam.

            Ensaio publicado originalmente em <código aberto>

            Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global.

            O ousado plano de soberania digital do governo brasileiro

            Patricia Faermann

            Em entrevista exclusiva a Luis Nassif, a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovações do Brasil, Luciana Santos, apresentou as iniciativas do governo para o Brasil atingir a soberania digital, como um dos pilares de desenvolvimento do país.

            Entre as estratégias, Luciana destacou o papel do BRICS na Ciência e na Tecnologia, citando projetos de pesquisa conjuntos e a prioridade dada à inteligência artificial, mencionou os acordos bilaterais com o Vietnã e a China no desenvolvimento de semicondutores e satélites, a criação de centros de competência em Inteligência Artificial, e a importância de uma nuvem soberana de dados para o Brasil, com a construção, por exemplo, do cabo submarino Sul-Sul.

            Você também pode participar deste debate junto ao Projeto Brasil no Fórum Especializado “Soberania Digital”, acesse aqui.

            Ciência e Tecnologia no centro do BRICs e de acordos bilaterais

            “Há 10 anos atrás foi feito o primeiro memorando do BRICs na parte de Ciência, Tecnologia e Inovação. Nesse período todo, para além do interesse e das convergências, nós temos atitudes concretas: temos, conjuntamente, financiados 157 projetos, chamadas públicas, que possibilitaram que 6.000 pesquisadores e pesquisadoras fizessem pesquisa em rede”, citou Luciana.

            Segundo a ministra, as áreas de cooperação do BRICs incluem ciências oceânicas, fotônica, desastres naturais e inteligência artificial (IA), que foi eleita como pauta prioritária este ano, com propostas, por exemplo, de levar a digitalização para sociedades mais pobres.

            O satélite geoestacionário que irá ranquear o Brasil entre 10 países do mundo

            Além disso, a ministra falou sobre outros dois acordos firmados pelo presidente Lula com parceiros internacionais: com o Vietnã, um acordo para desenvolver áreas de semicondutores e inteligência artificial, visando compartilhar expertise e diminuir a curva de aprendizado do Brasil, como na formação de engenheiros de software; e com a China, um grande acordo que prevê a criação de um centro binacional de transferência tecnológica de inteligência artificial e o desenvolvimento do satélite CBERS 5.

            “Não é compra tecnológica, não é transferência, é desenvolvimento comum. O CBERS 5 é o primeiro satélite brasileiro geoestacionário que vai ter um papel muito importante para a gente vai partilhar dados, e a gente disponibilizou para os países do BRICs, e isso vai otimizar a curácia da previsão de tempo, de política urbana, de agropecuária e vai nos colocar entre os 10 países do mundo, do seleto grupo de países que dominam essa tecnologia.”

            A busca pela soberania digital

            Ao tratar das iniciativas e capacidades atuais do Brasil de se atingir a soberania digital, Luciana Santos lembrou que há 11 centros de competência em IA espalhados pelo país, com especialidades em saúde, clima, segurança cibernética, entre outras. Ela citou projetos, em andamento, para a criação de modelos de linguagem próprios de IA no Brasil.

            Segundo a ministra, o presidente Lula efende a necessidade de o Brasil ter seu próprio centro de dados e ampliar a capacidade de armazenamento de dados governamentais (como os do SERPRO e DataPrev).

            O objetivo é evitar que as grandes empresas de tecnologia (Big Techs) lucrem com o uso de dados brasileiros e reduzir a dependência de infraestruturas de nuvem estrangeiras.

            Entre os projetos em andamento, a ministra citou o LNCC (Laboratório Nacional de Computação Científica), com seu supercomputador Santos Dumont, recebeu um investimento de R$ 125 milhões, passando a figurar entre os 100 mais potentes do mundo, e o desenvolvimento de microrreatores nucleares para futuramente alimentar data centers no Brasil.

            O ousado projeto de conexão Sul global por cabos de rede

            Luciana também disse que há um esforço contínuo para promover o uso de software livre no setor público, visando maior autonomia e soberania, e os estudos para a construção de um cabo submarino de fibra ótica que ligará o sudeste do Brasil, passando pela África, até a Ásia, o chamado Cabo Submarino Sul-Sul.

            Atualmente, a rede de cabos submarinos é concentrada no hemisfério norte, com 17 cabos desembarcando em Fortaleza. De acordo com a ministra, esse projeto foi proposto pela Rede Nacional de Pesquisa (RNP) e aprovado pelos ministros, para criar uma conexão de dados do sul global. “É algo estruturante, ousado e factível, e a gente vai fazer um estudo de viabilidade econômica”, pontuou.

            Além disso, o projeto caminha com a expansão da rede nacional de fibra ótica, a RNP, dedicada à Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), que está sendo ampliada pelo PAC com 19 enfvias estaduais e 40.000 km de fibra, o que, segundo a ministra, representa uma “volta ao mundo” em infraestrutura de rede.

            Confira a íntegra da entrevista abaixo:

            Redução do déficit nominal brasileiro pela redução dos juros reais, por Claudio Abreu

            Claudio Braga de Abreu

            Aposentado da BNDESPAR e presidente da AFBNDESPAR, Claudio Braga de Abreu e Silva é engenheiro civil e mestre em Administração de Empresas.

            Há trinta e um anos, o Brasil enfrentava uma inflação inercial persistente, mesmo após quatro tentativas fracassadas de estabilização econômica baseadas em congelamento de preços e salários feitas por medidas provisórias. Em junho de 1994, a inflação atingiu 47% ao mês. O Plano Real conseguiu reduzi-la para cerca de 5% ao ano. No entanto, ela permanece inercial em bases anuais, pois os preços, salários e orçamentos públicos continuam a ser reajustados todos os anos.

            Desde julho de 1994, tem-se recorrido a juros elevados e à apreciação cambial para manter a inflação sob controle. Essa estratégia, no entanto, gerou um expressivo aumento da dívida pública líquida, que passou de cerca de 25% do PIB em 1995 para 76,1% em 2024. Projeções do Instituto Fiscal Independente (IFI), do Senado Federal, indicam que esse índice pode chegar a 125% do PIB em 2035.

            Em 1999, foi instituído o chamado Tripé Econômico – resultado primário, câmbio flutuante e meta de inflação. Esse modelo adota como meta o resultado primário (que exclui os juros), ignorando o resultado nominal (que os inclui). O câmbio flutuante, por sua vez, gera maior volatilidade nas cotações e estimula operações excessivas no mercado futuro, aumentando o risco tanto nas transações externas quanto nas internas. Já a meta de inflação – atualmente fixada em 3% ao ano – é de difícil cumprimento, pois a inflação futura tende a ser a inflação atual (5,20% ao ano em maio/2025), perpetuada por mecanismos de indexação.

            O juro de uma operação financeira resulta da soma do juro desejado adicionado de juro para compensar os seus riscos. Assim, se reduzirmos os riscos, também reduziremos o juro da operação. Hoje, a maior parte das operações de curto prazo são prefixadas (inclusive a Selic, apesar de ser flutuante), cujos juros contêm o risco referente à inflação.

            Acredito que se as operações pré-fixadas fossem substituídas por operações pós-fixadas, haveria uma redução do risco, pois o relativo à inflação não seria mais considerado. Isto permitiria que o juro real fosse conhecido no momento da contratação. Para tanto proponho transformar a Selic, indexador financeiro fundamental, em uma operação pós-fixada, com determinação mensal, o que faria, com o tempo, que todo o mercado financeiro passasse a ser regido por operações pós-fixadas.

            Adicionalmente, a adoção de uma política cambial com bandas reduziria a volatilidade das cotações e o risco cambial das operações externas e, também, das operações internas, na medida que tal risco faz parte da determinação dos juros reais internos.

            Para viabilizar essas mudanças, proponho a criação de dois novos indexadores a serem usados nas operações financeiras internas e externas, de forma a considerar o fato de que vivemos numa economia com inflação inercial anual:

            • URF – Unidade Real Financeira
            • URC – Unidade Real Cambial

            Após a implantação e consolidação das medidas acima propostas, com o objetivo de reduzir a inflação inercial, dos atuais 5% a.a. para cerca de 1% a.a., proponho a implantação de um Plano Real II, com a criação de nova moeda e manutenção dos dois indexadores.

            Em 31/08/1993, finalizei meu trabalho chamado de “A Indexação Diária Negociada”, com o subtítulo “Contra o veneno da cobra só o próprio veneno da cobra”, onde propus uma solução inovadora para combater a nossa inflação inercial e que se tornou a grande inovação do exitoso Plano Real: a criação de um indexador atrelado ao câmbio que depois se transformaria na nova moeda forte nacional, tudo isso sendo feito de forma transparente e anunciada. Meu trabalho foi enviado para o então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, e membros da sua equipe econômica e para o então presidente Itamar Franco. Denominei o indexador de Cruzeiro Cambial (Cc$), mas ele acabou sendo denominado de Unidade Real de Valor (URV). Infelizmente, nunca tive o meu mérito reconhecido neste episódio. (Vide mais detalhes no Anexo, no final do texto em PDF, cujo link segue abaixo).

            Em 2024, publiquei um livro, denominado “O ovo de Colombo do Plano Real”, onde conto essa história de forma detalhada e documentada. Ele pode ser acessado gratuitamente na Biblioteca do Projeto Brasil.

            Por essa razão, sinto-me à vontade para apresentar novamente propostas inovadoras para enfrentar um dos nossos principais problemas atuais: o desequilíbrio das nossas contas públicas, causado principalmente pelos juros reais mais altos do mundo e insustentáveis no longo prazo, e que responderam por 95,2% do nosso déficit nominal em 2024, sendo os demais 4,8% referentes ao superávit primário.

            Embora o aumento das receitas e a redução das despesas primárias também possam contribuir para a melhoria do resultado nominal, não serão tratados neste trabalho, que segue na íntegra abaixo:

            Tarifas dos EUA são “afronta inaceitável à soberania nacional”, afirmam SBPC e ABC

            “Uma afronta inaceitável à soberania nacional, à democracia brasileira e à
            estabilidade das relações internacionais”, afirmaram a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), duas renomadas instituições brasileiras, expressam sua profunda preocupação e repúdio às ações do governo dos Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump.

            A manifestação expressando “profunda preocupação e repúdio” foi publicada em meio à 77ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que ocorre entre os dias 13 e 19 de julho.

            O texto destaca ameaças de tarifas e barreiras comerciais, que prejudicam a economia brasileira e violam princípios de comércio justo. Além disso, as entidades denunciam tentativas de ingerência em decisões internas do Brasil, o que afronta a soberania nacional e a autodeterminação.

            “Além dos danos econômicos, as entidades signatárias denunciam com veemência a tentativa de ingerência em decisões internas do Estado brasileiro, incluindo pressões políticas que atentam contra a autodeterminação dos povos — um princípio fundamental do direito internacional e da convivência entre nações soberanas.”

            Você também pode participar deste debate junto ao Projeto Brasil no Fórum Livre: Taxação dos EUA e Política Monetária Internacional

            Leia a íntegra da manifestação, assinada por Renato Janine, presidente da SBPC e conselheiro do Projeto Brasil, e por Helena Nader, presidente da ABC:

            Celso Furtado e a doença holandesa, por André Nassif

            Luís Nassif

            O artigo Underdevelopment, development, and the Dutch disease: the seminal and still relevant theory of Celso Furtado, de André Nassif, publicado na Revista de Economia Política (2025), apresenta diversas contribuições.

            → Acesse a íntegra do artigo no Acervo do Projeto Brasil, aqui.

            Abaixo, o resumo e pontos em destaque do artigo de André Nassif sobre Celso Furtado, por Inteligência Artificial:

            🧠 1. A teoria furtadiana do subdesenvolvimento

            André Nassif defende que Celso Furtado não apenas seguiu a tradição cepalina, mas formulou uma teoria original do subdesenvolvimento, que leva em conta fatores:
            • Históricos
            • Sociais
            • Estruturais

            Segundo Furtado:
            • O subdesenvolvimento não é uma etapa transitória, mas sim um processo autônomo e historicamente condicionado.
            • A formação de mercados internos e a industrialização nos países periféricos dependem da superação de dualidades estruturais, como:
            • Agricultura moderna vs. arcaica
            • Consumo de massas vs. consumo restrito às elites
            • Industrialização com geração de empregos vs. industrialização excludente

            Furtado atribui o subdesenvolvimento brasileiro à colonização predatória, à estrutura fundiária desigual e à incorporação subordinada ao capitalismo internacional.

            ⛽ 2. Furtado foi pioneiro na análise da “doença holandesa”

            O artigo demonstra que Celso Furtado foi o primeiro economista a elaborar uma teoria sobre o fenômeno conhecido como “doença holandesa”, antes da Holanda vivenciar o problema e antes da famosa formulação de Corden e Neary (1982).

            Ele observou isso ao analisar a Venezuela, nos anos 1950:
            • A abundância de petróleo provocou valorização cambial, perda de competitividade industrial e estagnação do setor produtivo.
            • O efeito foi de desindustrialização prematura, concentração de renda e manutenção da estrutura agrária retrógrada.

            Furtado, porém, não via a abundância de recursos como uma maldição inevitável (como sugeriram Sachs e Warner em 1995), mas sim como uma oportunidade desperdiçada, caso não houvesse:
            • Políticas públicas ativas
            • Diversificação produtiva
            • Formação de capital humano

            🧩 Conclusão do artigo

            O texto conclui que:
            • As teses de Furtado continuam altamente relevantes, sobretudo para países periféricos com abundância de recursos naturais, como o Brasil.
            • A superação do subdesenvolvimento exige integração do mercado interno, redução das desigualdades, e o uso estratégico dos recursos naturais via política industrial e social ativa.

            Parques e áreas verdes como commodities ambientais: protestos e movimentos sociais no Brasil

            Igor Vitorino da Silva*

            O Brasil vive a onda da privatização verde. Em todo o país, prefeitos, governadores e gestores públicos têm sido seduzidos pela ideia da concessão pública de parques e áreas verdes como possibilidade de ganhos fiscais com as potencialidades do turismo, do lazer e de variados usos ambientais. Assim, muitas vezes atropelando o debate público e desqualificando contraposições de ONGs, instituições e funcionários públicos, seguem na transferência dos bens públicos para o controle e uso privados, transformando-os em bases da acumulação rentista e neoextrativista brasileira.  

            Sob o discurso da modernização e dos investimentos, da gestão eficiente e aumento da arrecadação, com apelos ao desenvolvimento do ecoturismo e do setor imobiliário, governos e iniciativa privada celebram entusiasmadamente o processo de concessão de parques e áreas verdes públicas. Seguem ignorando os argumentos em defesa do acesso gratuito, da qualidade dos serviços e do controle público.

            Da mesma forma, minimizam as vozes que denunciam a perda da identidade local desses espaços, na medida em que as áreas verdes e parques concedidos deixam de ser espaços de preservação, conservação, educação ambiental e lazer para constituírem território de extração de investimento e de capital. As concessionárias da iniciativa privada precisam, antes e acima de tudo, gerar lucros para seus investidores, atropelando, com apoio dos governos e da mídia, o interesse público e a sustentabilidade ambiental.

            Sob argumentos de ineficiência administrativa, abandono e depredação social, renuncia-se ao uso comum e coletivo desses espaços, por parte de toda a sociedade, para o uso restrito e seletivo do ganho capitalista. Em São Paulo, a voz de Ana Beatriz Nestlehner protestando contra a concessão do Parque da Água Branca (na Zona Oeste de São Paulo) à iniciativa privada realça o processo político acima descrito: “Não existem estudos consistentes de impactos sociais e econômicos. A população não foi incluída nesse processo de concessão. E um bem público tem que servir à sua função pública, que é garantir os direitos constitucionais da população e o bem-estar da população” (G1 SP, 19/03/2022, 13h10).

            Em Salvador, os movimentos de resistência (@seremosresistencia, @movimentosalvaverde) ao processo de concessão de parques e áreas verdes vêm travando uma batalha desigual contra a coalização política entre mercado e governos, tentando sensibilizar parlamentares, cidadãos e sujeitos proeminentes na opinião pública soteropolitana. Nesse sentido, tiveram o apoio de Anitta, Regina Casé e Daniela Mercury, que se posicionaram nas redes sociais. Regina Casé, dessa forma, comentou: “A gente não pode deixar derrubar nenhuma área verde, temos que cuidar de todas as áreas verdes que existem em Salvador” (G1BA, 16/05/2025). Também Daniela Mercury desabafou: “Por que vender áreas de proteção ambiental em plena crise climática? Salvador já está sofrendo com temperaturas muito altas, a gente não pode perder a pouca vegetação que tem.”

             

            Enfim, não se trata apenas de um processo de transferência da execução e/ou gerenciamento de algum serviço público, mas de um processo evidente de exclusão das populações não solventes e que não podem participar da cidadania do consumo. Essa situação é afirmada e reforçada quando consideramos a desigualdade socioeconômica do país e as tentativas regulares de vários setores econômicos e sociais de desregulamentar a legislação ambiental e exercer livremente seus interesses especulativos e rentistas (turismo e mercado imobiliário).

            Apesar de todos os protestos e movimentos sociais em todos os cantos do país, o processo de comodificação (ou mercadorização, mercantilização) por meio da concessão, alimentado pelo discurso econômico de futuros ganhos verdes, tais como os créditos de carbono ou certificados de energia renovável – RECs, segue sequestrando e pilhando, de fato, os bens públicos. 

            Essa prática é apoiada na ideia política liberal de que os governos devem focar suas ações em planos de manejo, ordenamento territorial e regularização fundiária, enquanto a iniciativa privada, com apoio logístico e econômico do BNDES Parques e Florestas, Ernst & Young Global Limited (assessorias) e Programa de Parcerias de Investimentos/PPI (ICMBio), deve se aproveitar das vantagens e potencialidades possíveis dos parques e áreas verdes. 

            No final, como descrevemos acima, estamos diante de uma conversão mercantil dos bens públicos, que passam a ser submetidos à lógica de “tudo tem um preço”.  Contra essa lógica econômica os movimentos sociais protestam, proclamando à mídia e aos governantes: “O Estado tem condições de proteger a biodiversidade e o direito da população ao contato com a natureza e ao meio ambiente ecologicamente equilibrado” (discurso do militante Darí Lourenço Marchesini, do Comitê Popular de Luta e da Comissão em Defesa do Meio Ambiente de Vila Velha) (SD, 28/12/2024).  É um grande processo de desapropriação/despossessão da natureza, do meio ambiente e da terra no Brasil, e o povo segue em processo de cercamento social, econômico e ambiental, resultante da desigualdade e racismo ambientais. 

             

            *Professor e Mestre em História pelo PPHIS/UFPR

            Pesquisador Associado Externo do LHIPI – UFES

            Pesquisador Associado Externo do LHIPU – IFES 

            Política de Transição Energéitca

            Projeto Brasil: o plano de transição energética

            Luís Nassif

            Um dos pontos centrais do Projeto Brasil – a ser lançado pelo Jornal GGN – será a discussão de transição energética. → Confira aqui o Fórum criado na plataforma para discutir esse tema!

            O país tem dois diferenciais relevantes.

            O primeiro, é seu saldo ambiental, especialmente junto ao mercado de crédito de carbono. O segundo é o potencial de energia verde, que tem feito muitas indústrias da China e da Europa estudarem a transferência de produção para cá.

            Com o auxílio da Inteligência Artificial, vamos levantar os principais pontos de uma política de transição energética.

            Ela visa substituir gradualmente fontes de energia intensivas em carbono (como petróleo, gás natural e carvão) por fontes renováveis e sustentáveis (como solar, eólica, biomassa e hidrogênio verde), de forma a garantir segurança energética, desenvolvimento econômico e proteção ambiental. A seguir, detalho os principais objetivos e os pontos críticos dessa política:

            Objetivos da política de transição energética no Brasil

            1. Descarbonização da matriz energética
              • Reduzir emissões de gases de efeito estufa (GEE), alinhando o Brasil ao Acordo de Paris.
              • Promover uma economia de baixo carbono até 2050.
            2. Aproveitamento do potencial renovável
              • Expandir a geração solar e eólica, onde o Brasil tem vantagens naturais.
              • Valorizar o papel da bioenergia e do etanol, setores nos quais o país é líder global.
            3. Segurança e soberania energética
              • Diminuir a dependência de combustíveis fósseis importados.
              • Tornar o país menos vulnerável a crises externas de energia.
            4. Inclusão social e geração de empregos verdes
              • Criar empregos na indústria de energias renováveis.
              • Estimular o desenvolvimento regional em áreas com potencial solar e eólico.
            5. Inovação tecnológica e industrialização
              • Estimular a cadeia produtiva nacional de equipamentos e sistemas energéticos.
              • Atrair investimentos em tecnologias como hidrogênio verde e baterias.
            6. Justiça climática e transição justa
              • Garantir que trabalhadores e comunidades impactadas pela transição (ex.: regiões carboníferas) tenham alternativas sustentáveis e suporte governamental.

            ⚠️ Pontos críticos e desafios da transição energética no Brasil

            1. Inércia política e falta de planejamento de longo prazo
              • Ausência de um marco regulatório integrado e consistente.
              • Falta de coordenação entre os entes federativos e os setores público/privado.
            2. Interesses de setores fósseis
              • Forte lobby das indústrias de petróleo, gás e carvão.
              • Subsídios ainda existentes para combustíveis fósseis.
            3. Desigualdades regionais e sociais
              • Risco de aprofundamento de desigualdades se a transição não for planejada com equidade.
              • Falta de acesso à energia limpa em comunidades remotas ou pobres.
            4. Infraestrutura limitada
              • Linhas de transmissão insuficientes para integrar novas fontes (especialmente eólicas no Nordeste e solares no Centro-Oeste/Norte).
              • Dificuldade de armazenamento de energia e gerenciamento da intermitência.
            5. Financiamento e investimentos
              • Falta de mecanismos estáveis de financiamento verde.
              • Risco regulatório pode afastar investidores internacionais.
            6. Dependência do agronegócio e bioenergia
              • Concorrência por terra entre produção de alimentos, bioenergia e conservação ambiental.
              • Desmatamento pode comprometer a imagem e sustentabilidade da bioenergia.
            7. Tecnologia e capacitação
              • Baixo investimento público em pesquisa e desenvolvimento.
              • Falta de formação técnica para empregos na nova economia verde.

            🌍 Modelos internacionais inspiradores

            🇩🇪 Alemanha (Energiewende)

            • Política de Estado iniciada nos anos 2000.
            • Grandes investimentos em solar e eólica, com metas ambiciosas de neutralidade de carbono até 2045.
            • Participação cidadã em cooperativas de energia renovável.
            • Exemplo positivo, embora enfrente desafios com segurança energética.

            🇺🇾 Uruguai

            • Conseguiu transformar sua matriz elétrica em mais de 95% renovável em menos de 15 anos.
            • Investimentos públicos e parcerias privadas em eólica, solar e biomassa.
            • Modelo de coordenação estatal eficaz.

            🇨🇱 Chile

            • Política agressiva de expansão da energia solar no deserto do Atacama.
            • Leilões públicos bem estruturados, atraindo investimentos internacionais.
            • Plano nacional de hidrogênio verde como prioridade estratégica.

            🇨🇳 China

            • Maior investidor global em energia renovável.
            • Liderança industrial em painéis solares e baterias.
            • Estratégia coordenada de longo prazo, com forte presença do Estado.

            🇮🇳 Índia

            • Programa ambicioso de energia solar para zonas rurais.
            • Parcerias internacionais para capacitação e transferência de tecnologia.

            🧾 1. Quadro comparativo: Brasil x outros países na transição energética

            Critério 🇧🇷 Brasil 🇩🇪 Alemanha 🇺🇾 Uruguai 🇨🇱 Chile 🇨🇳 China
            % de eletricidade renovável ~85% (muito hidrelétrica) ~50% (principalmente solar/eólica) ~95% ~50% ~35%
            Fonte renovável dominante Hidrelétrica, seguida por biomassa e solar Solar e eólica Eólica e biomassa Solar (deserto do Atacama) Solar, eólica, hidro
            Plano estratégico Incompleto e fragmentado Energiewende (ambicioso) Políticas públicas eficazes Estratégia nacional clara Planos quinquenais com metas
            Participação cidadã Baixa Alta (cooperativas) Média Média Baixa
            Investimento público Limitado Alto Moderado Moderado Muito alto
            Indústria verde nacional Em desenvolvimento Forte Limitada Crescendo Potência global
            Transporte sustentável Foco em biocombustíveis Veículos elétricos Pouco desenvolvido Começando a eletrificação Trens e veículos elétricos
            Descarbonização da indústria Lenta Em andamento N/A Começando Em rápida evolução

            Propostas concretas para o Brasil

            1. Plano Nacional de Transição Energética Justa
            • Criar um plano integrado (interministerial e federativo), com metas claras até 2050.
            • Garantir mecanismos de consulta e participação social, especialmente de comunidades impactadas (trabalhadores do setor fóssil, povos indígenas, quilombolas etc.).
            1. Reforma dos subsídios energéticos
            • Reduzir gradualmente os subsídios aos combustíveis fósseis.
            • Redirecionar esses recursos para energias renováveis, eficiência energética e formação profissional.
            1. Fomento à energia solar distribuída
            • Ampliar o acesso de residências, comércios e cooperativas à geração solar, com financiamento popular (inclusive via Caixa ou BNDES).
            • Criar programas específicos para instalar painéis solares em escolas, hospitais e prédios públicos.
            1. Expansão e modernização da infraestrutura elétrica
            • Investir em linhas de transmissão para integrar regiões com alto potencial renovável (Nordeste, Norte).
            • Estimular o uso de baterias e sistemas de armazenamento.
            1. Incentivo à industrialização verde
            • Criar zonas econômicas especiais para a cadeia produtiva do hidrogênio verde, eólica offshore, veículos elétricos etc.
            • Garantir conteúdo local na fabricação de turbinas, painéis, eletrolisadores etc.
            1. Transporte sustentável
            • Ampliar a eletrificação do transporte público (ônibus elétricos) e do transporte de carga ferroviário.
            • Estimular o uso de biocombustíveis avançados (como etanol de segunda geração e biodiesel de resíduos).
            1. Capacitação e inclusão no mercado de trabalho verde
            • Criar programas nacionais de requalificação para trabalhadores do setor fóssil.
            • Integrar a pauta energética à educação técnica e profissionalizante (SENAI, universidades federais, IFs).

            O que é preciso para o desenvolvimento real no Brasil

            “A agenda de desenvolvimento deve ser voltada para a superação dos grandes problemas brasileiros”

            Patricia Faermann

            Jornal GGN

            Com o governo brasileiro em meio a uma crise da esquerda, da divulgação das políticas bem-sucedidas, da busca pelo protagonismo econômico, e alvo de uma das mais importantes pressões dos EUA, dois grandes economistas – Luiz Gonzaga Belluzzo e Carlos Gadelha – defendem a reorganização, enfrentando os desafios e com uma nova perspectiva para o desenvolvimento nacional.

            Na abertura do lançamento do Projeto Brasil, Celso Gadelha ressaltou a relevância da iniciativa no cenário atual e a necessidade de um projeto de desenvolvimento nacional.

            Ele expressou a honra de participar do projeto, fazendo lembrar a sua vida dedicada à perspectiva do desenvolvimento do Brasil e a trajetória de retomar o pensamento desenvolvimentista brasileiro, deixado por inspirações como Celso Furtado, em novas bases.

            Para isso, destacou a necessidade de se colocar a equidade e a desigualdade no centro da estratégia de governo, e superar a ideia de que questões sociais, ambientais e a própria desigualdade são elementos “naturais ou herdados” e que teríamos que “nos conformar”.

            “É ao contrário, a grande agenda que o Brasil deve ao Brasil, que a classe política, as universidades, o pensamento estratégico devem ao Brasil é uma agenda de desenvolvimento voltada para a superação dos grandes problemas brasileiros.”

            Gadelha apresentou dados comparativos chocantes: o Brasil, mesmo com um sistema de saúde universal, o SUS, financia menos de 50% do gasto em saúde com recursos públicos, enquanto a saúde, frequentemente vista como gasto, é uma das áreas que mais geram empregos.

            “Nos Estados Unidos, 10% do emprego hoje gerado está no campo da saúde. Se eu somar saúde, educação e mobilidade urbana, como nós estamos conversando aqui, a gente está caminhando de uma visão que foi muito arraigada no campo da saúde para uma visão mais ampla. A chave para o desenvolvimento é superar essa iniquidade terrível que a gente tem no Brasil, e colocar a área social e a área ambiental como os novos grandes vetores de uma estratégia de reindustrialização e de inovação.”

            O especialista comparou os gastos em saúde, educação e ciência/tecnologia/inovação, que são cerca de R$ 420 bilhões anuais, ao gasto de R$ 946 bilhões em juros no ano anterior, enfatizando a necessidade de inverter esse modelo.

            “Não apenas em um modelo – eu comecei aqui mostrando Celso Furtado – de a gente retomar o desenvolvimento, mas dialogar intrinsecamente com a aposta de um novo país. A gente precisa entregar um país digno da nossa própria população.”

            Por fim, Gadelha propôs “radicalizar, generalizar e ampliar a experiência bem-sucedida da saúde”, onde o Sistema Único de Saúde (SUS), a inovação e a produção industrial foram combinados. O objetivo é pensar em um projeto de país e uma “política de desenvolvimento, industrial e de inovação que dialogue com as demandas da sociedade brasileira”.

            Em participação especial no evento, o Professor Luiz Gonzaga Belluzzo também trouxe diversas reflexões importantes, conectando-as à história econômica e social do país, e ao cenário internacional.

            Entre as propostas apresentadas por Belluzzo, ele destacou o financiamento das atividades de pesquisa e desenvolvimento, criticando a “grande ignorância” a respeito de como o gasto do governo deve ser executado. Ele refutou a ideia de que a dívida pública seja um problema intrínseco, explicando que os títulos da dívida pública são instrumentos constitutivos dos mercados financeiros, e expressou preocupação com discursos que distorcem essa realidade.

            O economista defendeu a criação de um sistema de financiamento “eficaz”, tomando como exemplo a trajetória bem-sucedida da China nos últimos 30-40 anos, com a articulação entre o Banco Central, os bancos públicos (que detêm 80% do crédito), os bancos privados e as empresas públicas na China, que subsidiam o setor privado e promovem um grande avanço do empreendedorismo. Ele lamentou que essas questões não sejam debatidas no Brasil.

            “Como é que você não articula essas instituições econômicas e sociais, à semelhança [do que é feito na China]? Eu diria que até o Brasil já teve alguns momentos em que fez essa articulação”, disse, mencionando o papel decisivo que bancos públicos como o BNDES tiveram na industrialização do país, em 1952. Ele defendeu que o Ministério do Planejamento e o Ministério da Fazenda deveriam promover essa articulação para dar possibilidade de crescimento à economia.

            Em meio aos recentes ataques de Donald Trump com a taxação ao Brasil e aos BRICs, Belluzzo também afirmou a necessidade de manter as relações internacionais como eixo central do desenvolvimento nacional.

            O economista criticou um “nacionalismo um pouco tosco” que ignora a importância das relações internacionais. Ele afirmou que o capitalismo sempre foi internacional e que um projeto de desenvolvimento não pode se realizar sem levar em conta as relações internacionais, sejam elas financeiras, produtivas, etc. E citou o exemplo do governo Juscelino Kubitschek, que soube aproveitar a recuperação europeia para atrair investimento estrangeiro e empresas importantes, como as automobilísticas.

            “Nós temos a oportunidade de reproduzir isso de outra forma, diante da aproximação com os países dos BRICs, e no centro desse desse sistema está a segunda maior economia do mundo [a China], interessada não só em preservar as suas conquistas, mas também de ter uma participação internacional muito mais pródiga, muito mais interessante”, completou.

            Belluzzo elogiou a iniciativa do Projeto Brasil, como uma ferramenta de reordenamento do sistema de conhecimento e articulação entre as Universidades e de mobilização social. Ele observou que as universidades brasileiras estão “muito desarticuladas” e que essa articulação não acontecerá espontaneamente, mas exige um programa que contemple pesquisa e avanços tecnológicos. Belluzzo usou como exemplo propostas do governo como a “Nova Indústria Brasil”, que não avançarão sem essa articulação e construção social.

            Veja estas e outras participações no evento de lançamento do Projeto Brasil, na TVGGN no Youtube: