O governo de Michel Temer e Jair Bolsonaro representaram um desmonte das políticas de proteção social e, consequentemente, uma piora do número de brasileiros passando fome – chegando a 33 milhões em 2021, ou 14% da população em insegurança alimentar grave.
A notícia da saída do Brasil do Mapa da Fome, que é a condição de subnutrição, deve ser comemorada. Mas ainda há um grande caminho: o indicador de insegurança alimentar grave continua elevado – 3,4% da população – e é bastante preocupante. A avaliação é do economista Walter Belik.
Em entrevista ao Projeto Brasil, o professor titular aposentado de Economia Agrícola do Instituto de Economia da Unicamp discutiu a segurança alimentar no Brasil, analisando os progressos e desafios do país em relação à fome e à desnutrição.
Ele lembrou como o programa Fome Zero e o Bolsa Família retiraram o Brasil do Mapa da Fome em 2014, e a posterior reversão dessa situação, com cenários acentuados durante o governo Bolsonaro.
“A gente ficou muito satisfeito com esse anúncio de que o Brasil saiu do Mapa da Fome, não se esperava que isso acontecesse tão rapidamente, logo após essa mudança de política a partir do Lula, mas, ao mesmo tempo, nós estávamos com uma expectativa de que agora, de forma definitiva, a gente pudesse consolidar uma política de segurança alimentar no Brasil”, manifestou.
Segundo Belik, os dados da última década mostram que embora o Brasil tenha saído do mapa da fome (medido pela subnutrição, que caiu abaixo de 2,5%), o indicador de insegurança alimentar grave continua elevado e aumentou de 0,7% para 3,4% da população, indicando que a fome piorou.
Além disso, a melhoria na desnutrição veio acompanhada de um aumento preocupante da obesidade, que praticamente dobrou em 10 anos, um fenômeno chamado de “efeito gangorra”, que indica que as pessoas estão comendo mais, mas comendo mal. Isso está relacionado ao aumento do preço dos alimentos saudáveis, que se tornaram inacessíveis para parte da população, levando ao consumo maior de alimentos ultraprocessados, que são mais baratos.
Walter Belik explicou como as políticas públicas de alimentação e o mercado de trabalho desempenharam um papel fundamental na superação da fome e na melhoria da qualidade de vida no Brasil, desde programas como o Bolsa Família, o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) – considerado o maior programa universal do mundo, atendendo diariamente 40 milhões de crianças e adolescentes em escolas públicas gratuitamente -, a Lei Orgânica de Segurança Alimentar (LOZAN) de 2006 e o Conselho Nacional de Segurança Alimentar (CONSEA), que atuam para supervisionar e dar assistência à população.
Conforme expôs o economista, o cenário econômico do país, a melhoria no mercado de trabalho, a retomada do crescimento econômico e do emprego a partir do governo Lula e o reajuste real do salário mínimo foram fatores fundamentais para a saída do Mapa da Fome.