O Modelo Maricá: Fundamentos, Governança e Inovações, por Luís Nassif

Cidade usa R$ 1,6 bi de royalties em modelo de desenvolvimento virtuoso, com Economia Solidária e mais de 130 mil usuários da Mumbuca

Luís Nassif

Recentemente, em parceria com a Fiocruz, o Jornal GGN e o Projeto Brasil realizaram o Seminário “Soberania, Inovação e Desafios Nacionais”. O evento contou com a participação de grandes especialistas e visou discutir um modelo de política de desenvolvimento para o país, com base na mais bem sucedida experiência de política industrial: CEIS — Complexo Econômico-Industrial da Saúde.

As principais conclusões do encontro sobre uma política virtuosa de desenvolvimento:

1. Políticas públicas voltadas para o atendimento da população.

2. Inovações e novos produtos atendendo à nova demanda.

3. Compras públicas garantindo sua sustentabilidade.

4. Nova economia do bem estar, gerando emprego e inovação.

Desde 2013 Maricá deu início a um modelo de desenvolvimento que incorpora os principais princípios adotados pelo CEIS, com uma vantagem adicional: disponibilidade de recursos financeiros.

A cidade vem transformando os royalties do petróleo — tradicionalmente associados à volatilidade e concentração de renda — em combustível para um modelo de desenvolvimento inclusivo, sustentável e inovador.

Passei cinco dias na cidade, tentando entender seu modelo. Está na hora de passar a tratá-la como mera curiosidade, devido ao estilo extravagante de seu prefeito Washington Quaquá, e passar a estudá-la como modelo de atuação de gestões progressistas.

Royalties como Alicerce de Transformação

Maricá é um dos principais beneficiários dos royalties da exploração de petróleo na Bacia de Campos. Em 2017, o município recebeu cerca de R$ 746,8 milhões. Para 2025, a projeção ultrapassa R$ 1,6 bilhão, com estimativas que apontam para mais de R$ 3 bilhões em um único ano. Essa receita, embora finita e sujeita às oscilações do mercado, tem sido utilizada como base para políticas públicas de alto impacto.

Economia Solidária: O Princípio Norteador

O ponto de virada ocorreu em 2013, quando Maricá adotou a Economia Solidária como eixo central de suas políticas. Inspirada em conceitos de autogestão, cooperação e desenvolvimento comunitário, essa abordagem busca redistribuir riqueza, fortalecer vínculos locais e combater a pobreza de forma estrutural. Em vez de seguir o modelo tradicional de crescimento, Maricá optou por uma lógica que prioriza o bem-estar coletivo e a circulação interna de recursos.

Mumbuca: A Moeda Social

Um dos pilares dessa transformação é a Mumbuca, moeda social criada em 2013 com paridade ao real. Gerida pelo Banco Mumbuca, ela é utilizada em programas de transferência de renda e no comércio local. Totalmente digital, a moeda já conta com mais de 130 mil correntistas e cerca de 13 mil estabelecimentos credenciados. Em 2025, foram estabelecidos limites de uso: R$ 800 por dia e R$ 2.000 por mês.

A Mumbuca não apenas movimenta a economia local, mas também se tornou referência internacional em políticas de economia solidária. Cerca de 20% da economia de Maricá já passa por essa moeda, consolidando-a como ferramenta de inclusão e resiliência.

Mobilidade Gratuita: Tarifa Zero como Direito

Desde 2014, Maricá oferece transporte público gratuito — uma política pioneira entre cidades brasileiras com mais de 100 mil habitantes. Com uma frota de 158 ônibus e 49 linhas, o sistema realiza 115 mil embarques diários. A economia direta para as famílias é estimada em R$ 16 milhões por mês. Além disso, a gratuidade ampliou o acesso a serviços essenciais, como saúde, especialmente nas regiões periféricas. Desde 2021, bicicletas públicas gratuitas complementam essa política de mobilidade.

Outras Frentes de Inclusão

O modelo de Maricá se estende a diversas áreas:

•           Microcrédito sem juros: apoio a pequenos empreendedores e estímulo à economia local.

•           Habitação popular: programas para reduzir o déficit habitacional e garantir moradia digna.

•           Agroecologia: hortas comunitárias e incentivo à agricultura sustentável.

•           Educação e tecnologia: investimentos estratégicos para garantir resiliência a longo prazo.

O fio condutor inicial são os valores que nortearão as políticas públicas. As iniciativas de políticas públicas se organizam em torno desses valores, organizando a adesão da população e da máquina pública.

Por isso mesmo, fariam bem a esquerda e os setores progressistas em acompanhar o que diz o prefeito de Maricá, Washington Quaquá.

Quaquá veio da favela. Até a adolescência, usava fossas e pescava para comer. Depois, ganhou uma bolsa de estudos do governo Brizola e pode estudar. Tornou-se um pensador popular, casando o conhecimento teórico com os valores que traz de sua origem como favelado e com uma enorme capacidade de análise empírica, isto é, de de observar, coletar, interpretar e tirar conclusões a partir de dados e fatos concretos.

No contato pessoal, faz questão de se conduzir fiel às suas raízes, no linguajar chulo e politicamente incorreto, capaz de chocar as rodas intelectuais e até de aplaudir o pavoroso massacre da Penha e do Morro do Alemão. É o que dificulta a visibilidade do modelo Maricá.

Mas, ao mesmo tempo, com uma objetividade que foi buscar nos clássicos da sociologia política aplicados à realidade do dia-a-dia da política.

Mesmo que o modelo de Maricá não seja replicável em termos financeiros, os valores e estratégias políticas que ele adota podem inspirar práticas em outros contextos. E podem ajudar na criação de um modo de governar da esquerda.

De certa forma, aliás, lembra o estilo Lula e os primeiros movimentos do “modo PT de governar”. Enquanto Lula representou a nova classe social, dos metalúrgicos sindicalizados, Quaquá simboliza o avanço de uma consciência social que emerge das favelas.

Sua lógica de governança obedece a princípios bastante claros.

1. O cidadão como centro da política pública

Premissa fundamental: toda política pública deve ter como alvo o cidadão. Essa orientação desloca o foco da gestão pública da burocracia para a efetividade social, exigindo que cada ação governamental seja mensurável em termos de impacto direto na vida das pessoas. É uma lógica que exige transparência, escuta ativa e compromisso com resultados concretos. Vale também para a discussão de projetos de neoindustrialização, direcionando o foco para o cidadão e para a organização das pequenas empresas, algo que falta nas atuais políticas de neoindustrialização.

2. Fortalecimento coletivo como estratégia de emancipação

Ao priorizar cooperativas e movimentos sociais em detrimento de iniciativas individuais, Quaquá aposta na organização popular como motor da transformação social. Essa escolha reflete uma crítica ao individualismo neoliberal, que fragmenta a ação coletiva e enfraquece a capacidade de mobilização. A educação, nesse contexto, aparece como ferramenta de empoderamento e construção de consciência crítica. Outro caminho é o investimento em empresas estratégicas, que no futuro irão operar como âncora de ecossistemas da pequena agricultura e das pequenas empresas.

3. Relação pragmática com o setor empresarial

A recomendação de evitar parcerias com pequenos empresários — sob o argumento de que tendem a migrar para a direita — é controversa, mas revela uma leitura estratégica das dinâmicas políticas. Ao optar por negociar com grandes empresários, Quaquá busca estabelecer relações baseadas em interesses objetivos, enquanto mantém os trabalhadores como aliados políticos. Essa abordagem exige cautela ética, mas pode ser eficaz na construção de alianças estáveis.

4. Adversários não são inimigos

A distinção entre adversário e inimigo é essencial para a manutenção da democracia e para a construção de pontes políticas. Quaquá defende uma postura que evita a radicalização do discurso, permitindo o diálogo e a convivência com a diferença — algo cada vez mais raro no cenário polarizado atual.

5. Rigor nos princípios, flexibilidade na política

Essa dualidade é uma das marcas mais sofisticadas da atuação de Quaquá. Ser intransigente nos valores e pragmático nas alianças permite navegar pelas complexidades da política sem perder os compromissos sociais. É uma lição valiosa para lideranças progressistas que, muitas vezes, se veem paralisadas por dilemas morais diante da necessidade de composição.

6. Comunicação popular e empática

Por fim, Quaquá enfatiza a importância de pensar como o povo pensa e comunicar-se em uma linguagem acessível. Essa postura rompe com o elitismo discursivo que ainda permeia parte da esquerda, aproximando o projeto político das demandas reais da população. É uma estratégia de construção de hegemonia cultural, nos moldes gramscianos, que reconhece o papel da linguagem na disputa de sentidos.

7. Simbologia nos valores culturais da nacionalidade

Elemento central de mobilização é o uso de elementos culturais e personagens simbólicos da nacionalidade e das esquerdas, como Darcy Ribeiro, Anisio Teixeira, Che Guevara, Oscar Niemayer. E dos elementos centrais da brasilidade: futebol, samba e caipirinha.

8. Investimento na pesquisa

Parceria com universidades, institutos de pesquisa e uso de ferramentas digitais de última geração, para preparar a próxima etapa de desenvolvimento.

9. Relevante: sem receio de ousar

Não tenha receio de ousar, ponto central para romper com uma inércia que imobilizou praticamente toda a esquerda. Maricá transformou-se em um caos criativo. E não apenas pelo orçamento turbinado, mas pela ousadia na formulação de políticas inovadoras.

Os princípios de Quaquá não são uma fórmula pronta, mas uma bússola estratégica. Eles convidam os setores progressistas a repensar suas práticas, suas alianças e sua forma de comunicar.

Em tempos de crise de representatividade, essa abordagem pode ser a chave para reconstruir a confiança popular na política.

A primeira etapa do experimento Maricá consistiu na montagem de uma rede de proteção social robusta. A segunda etapa foi preparar a cidade para o futuro. E, aí, valeu-se do mesmo modelo da inclusão: foco nas características da cidade e nas demandas da população.

Seguiu-se um modelo programático que tem trazido bons resultados, dentro do conceito das indústrias de bem estar – que começou a ser esboçado no segundo governo Lula e no primeiro Dilma, mas se perdeu no tempo.

É um todo lógico:

Etapa 1 – investe na educação, saúde, agricultura e transporte público, valendo-se de políticas criativas e no estado da arte. Recorre às pesquisas acadêmicas para dotar esses setores de avanços tecnológicos.

Etapa 2 – gera tecnologia, patentes para organizar arranjos produtivos que permitam o trabalho cooperado.

Etapa 3 – atrai empresas âncoras nas áreas com avanços tecnológicos, de modo a criar uma rede de fornecedores.

A estratégia consiste em trabalhar projetos tendo como foco central as características específicas da cidade, de sua população, preparando-a para a economia do futuro. E, aí, papel central é o da educação, tornando-a referência em política pública inclusiva e transformadora.

O modelo educacional

1. Estrutura e Expansão do CPT (Centro de Pesquisa e Tecnologia)

–   O CPT funciona como um campus, indo além de uma simples escola, oferecendo .integração com a comunidade, cursos de línguas para funcionários e moradores.

–   O projeto está em expansão: construção de observatório, teatro e cinema.

–   A utilização plena do espaço ocorrerá após a conclusão das obras, inclusive nos finais de semana.

2. Formação de Professores e Política de Educação Integral

–   Todos os professores são concursados e passam por formação continuada, promovida pela própria instituição.

–   Maricá mantém desde 2009 uma política municipal de tempo integral (PROBAT), tendo resistência e continuidade mesmo com cortes federais durante o governo Temer.

–   O CPT integra diversas secretarias (Agricultura, Pesca, etc.) para enriquecer o currículo escolar.

3. Rede de Escolas e Estrutura dos CIECs/SIEC

–   Maricá possui 85 escolas, das quais 42 funcionam em tempo integral.

–   CIECs/SIEC são Centros de Integração Escola-Comunidade, com infraestrutura diferenciada (piscina, horta, salas alternativas).

–   Crianças frequentam SIEC no contraturno, recebendo suporte de uma equipe multidisciplinar para questões sociais e pedagógicas.

4. Continuidade dos Estudos e Integração Estadual

–   Até o 9º ano, alunos permanecem na rede municipal; depois, integram a rede estadual para o ensino médio.

–   Em negociação com o Estado para oferecer ensino médio regular e contraturno integrados, com perspectiva de implementação já no próximo ano.

–   O município mantém o programa “passaporte universitário”, oferecendo bolsas para ensino superior, e “passaporte técnico” para formação técnica.

5. Ensino de Línguas e Liceus

–   Após o 9º ano, alunos podem continuar cursos de língua em Liceus, independentes da escola regular.

–   Oferta ampliada de idiomas, incluindo mandarim, francês e alemão, disponível para a comunidade por edital.

–   As vagas são distribuídas via sistema de matrícula inteligente, priorizando a proximidade da moradia, exceto nos cursos abertos.

6. Integração Escola-Família e Inclusão Social

–   A escola atua como porta de entrada para a sociabilização das famílias, com ações para engajamento familiar (SIEC aberto para famílias nos finais de semana; mães podem participar de cursos enquanto filhos fazem atividades).

–   Creche noturna (Corujinhas) facilita a participação de mães no ensino superior, com 250 crianças matriculadas, atendendo demanda principalmente feminina.

7. Parcerias Culturais

–   Parceria ativa com Sarau de Choro e outras atividades culturais, reforçando a integração comunitária.

Mercado global

Com o fortalecimento do programa Passaporte Universitário e a expansão de escolas bilíngues, a cidade aposta em uma estratégia ousada: preparar seus alunos para o mercado de trabalho local e global.

Mais de 50% dos estudantes formados pelo Passaporte Universitário já estão empregados em suas áreas de atuação, majoritariamente dentro do próprio município. A iniciativa tem contribuído para reduzir a dependência de profissionais de fora, ao mesmo tempo em que fortalece a economia local com mão de obra qualificada.

A prefeitura também investe em parcerias com consulados de países como China, França, Alemanha, Bolívia, Escócia, Austrália, Chile e Inglaterra. O objetivo é ampliar o ensino de línguas estrangeiras — incluindo o mandarim — por meio de professores capacitados e convênios internacionais. “Estamos formando cidadãos do mundo, sem que eles precisem sair da cidade para ter acesso a uma educação de qualidade”, afirma um gestor municipal.

Entre os projetos em andamento está a construção do CEPP Pepe Mojica, escola multicultural com capacidade para 3 mil alunos e foco em Brasil, China e Inglaterra. Com início previsto para dezembro de 2025, a unidade terá estrutura térrea e formato modular para acelerar as obras. A previsão é que esteja em funcionamento até meados de 2026.

A Alemanha, por sua vez, mantém uma parceria sólida com Maricá e financia a criação de um novo Centro de Referência em Profissionalização e Trabalho (CRPT Brasil-Alemanha), que deve atender 12 escolas articuladas. O projeto aguarda apenas a resolução judicial sobre os terrenos para iniciar a construção.

Além da formação acadêmica, o município aposta em estágios remunerados vinculados à Secretaria de Educação e campos de trabalho locais. Alterações legislativas estão sendo implementadas para garantir a sustentabilidade financeira dos projetos e sua continuidade a longo prazo.

Além disso, há duas escolas, uma com 80 alunos, outra com 120, com currículo diferenciado, voltada para idosos. Atividades não ficam restritas ao ambiente escolar; incluem socialização, conversas e passeios pela cidade.

Avaliação

O Relatório de Impacto Social e Educacional, preparado periodicamente, avalia o impacto social do Passaporte Universitário, bem como o perfil dos beneficiados. A análise contempla dados de empregabilidade, experiências pessoais, ações complementares e indicadores educacionais do município de Maricá.

Empregabilidade e Formação Local

•           Mais de 50% dos formados pelo programa estão empregados em suas áreas de atuação, majoritariamente dentro de Maricá.

•           Houve redução da necessidade de importar profissionais de outros municípios, especialmente após a consolidação das instituições de ensino superior locais.

•           Destaques na formação de engenheiros, psicólogos, advogados e outros profissionais, que hoje atuam diretamente na cidade.

Ajuste na Oferta de Cursos

•           Estão em andamento ajustes nos cursos ofertados para equilibrar a formação acadêmica com a demanda real do mercado local.

O município de Maricá tem se destacado no cenário da saúde pública brasileira com um modelo considerado avançado e de referência. No centro dessa transformação está o Hospital Municipal Dr. Ernesto Che Guevara, localizado em São José do Imbassaí, que representa não apenas uma unidade hospitalar de alta complexidade, mas o embrião de um ambicioso projeto: a Cidade da Saúde Dr. Ernesto Che Guevara.

Inaugurado em 2020 em resposta à pandemia de Covid-19, o Hospital Che Guevara rapidamente evoluiu para diversas especialidades médicas. Diferentemente da maioria dos hospitais públicos, a unidade não atende demanda espontânea. Todos os pacientes são regulados pela Central de Regulação municipal, chegando ao hospital por meio de ambulâncias, helicópteros ou referenciamento de outras unidades de saúde.

Essa estratégia permite um planejamento mais eficiente dos recursos e garante que os pacientes recebam atendimento especializado de acordo com suas necessidades específicas.

Especialidades e serviços de ponta

Atualmente, o Hospital Che Guevara oferece cirurgias de diversas especialidades, atendimento ao trauma referenciado, prevenção e tratamento de câncer de pele, cirurgia bariátrica, oftalmologia, proctologia, além de procedimentos como endoscopia e colonoscopia. O hospital também conta com um centro de imagem de última geração, equipado com tecnologia diagnóstica avançada.

Esse portfólio diversificado de serviços já posiciona Maricá como um polo de atração para pacientes da região, reduzindo a necessidade de deslocamento para grandes centros urbanos em busca de tratamentos especializados.

A Cidade da Saúde

As obras em andamento no complexo hospitalar integram o futuro projeto da Cidade da Saúde Dr. Ernesto Che Guevara. Com previsão de entrega de alguns setores até o final de 2025, a expansão trará serviços de alta complexidade que atualmente são escassos em muitos municípios brasileiros.

Entre os novos serviços destacam-se a hemodiálise, que substituirá a função renal para pacientes com insuficiência renal crônica, e a hemodinâmica, voltada para tratamentos cardiovasculares avançados. A estrutura cirúrgica será significativamente ampliada, com mais salas de operação e aumento do centro cirúrgico, além da construção de leitos adicionais de enfermaria cirúrgica.

Um dos destaques da expansão é a implantação de uma enfermaria coronariana e de um CTI cardiológico (Centro de Terapia Intensiva Cardiológico), que permitirão o atendimento integral a pacientes cardíacos graves sem necessidade de transferência para outros municípios. O centro de imagem também será ampliado, e um novo prédio administrativo será construído para melhorar a gestão da unidade.

Visão de futuro: especialização e inovação

O projeto integral da Cidade da Saúde vai além da expansão atual. Estão previstos a criação do Hospital da Mulher, do Hospital da Criança e de uma maternidade, configurando um complexo de saúde completo e especializado. Um dos elementos mais inovadores do planejamento é a futura oncoclínica, que operará sob um modelo de gestão mista, com 75% de participação pública e 25% privada, buscando sustentabilidade econômica sem comprometer o acesso universal.

A incorporação de tecnologias de ponta é outro pilar do projeto. Estão planejadas a implementação de cirurgia robótica, a expansão da telemedicina com 11 kits de teleconsulta conquistados via Novo PAC, e a oferta de serviços de medicina nuclear. Esta última permitirá diagnósticos precisos e individualizados por meio da análise de DNA, possibilitando a identificação precoce de predisposições genéticas a diversas doenças.

Integração entre assistência, ensino e pesquisa

Um diferencial estratégico do modelo de Maricá é a intenção de transformar progressivamente o Hospital Che Guevara em um espaço de ensino, pesquisa e prática profissional. Estudantes da área da saúde do município, incluindo beneficiários do Programa Passaporte Universitário, terão oportunidade de formação prática em um ambiente de excelência.

Essa visão é reforçada pela parceria entre o Instituto de Ciência, Tecnologia e Inovação de Maricá (ICTIM) e a UFRJ para desenvolver projetos de pesquisa científica em saúde. O acordo prevê avaliação de incorporação tecnológica no SUS, desenvolvimento de novos testes diagnósticos, medicamentos, vacinas e estratégias de tratamento, além de um plano de capacitação em pesquisa focado em inovações para a saúde humana.

Complementando esse ecossistema de inovação, o Parque Tecnológico de Maricá contará com espaço dedicado a empresas e instituições focadas no desenvolvimento de equipamentos para a saúde, criando um ambiente propício para a geração de soluções tecnológicas locais.

Um modelo replicável?

O caso de Maricá demonstra que é possível construir um sistema de saúde público municipal robusto, tecnologicamente avançado e financeiramente sustentável. A combinação de investimento em infraestrutura, adoção de tecnologias de ponta, gestão eficiente por meio de regulação centralizada e integração com ensino e pesquisa configura um modelo que pode inspirar outros municípios brasileiros.

Com a conclusão das obras previstas e a implementação integral do projeto, Maricá pode se consolidar como referência nacional em saúde pública, demonstrando que investimento estratégico, planejamento de longo prazo e inovação são os pilares para transformar a realidade da saúde nos municípios brasileiros.

Em meio a um cenário nacional marcado por incertezas econômicas e desafios sociais, Maricá emerge como um laboratório vivo de inovação territorial. Sob a liderança do prefeito Quaquá e com coordenação estratégica de Celso Pansera — ex-Ministro da Ciência e Tecnologia — a cidade constrói um modelo de desenvolvimento que coloca as pessoas no centro da transformação e busca na pesquisa científica a passagem para o futuro.

CODEMAR: A Engrenagem da Revolução

A Companhia de Desenvolvimento de Maricá (CODEMAR) é o motor por trás dessa virada. Com foco em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PDI), a empresa pública atua em frentes que vão da agroecologia à infraestrutura tecnológica, passando por turismo, energia limpa e economia criativa.

Um dos projetos emblemáticos é o Inova Agroecologia Maricá, desenvolvido em parceria com a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). A iniciativa capacita agricultores — muitos deles “neo-rurais” — e promove a produção sustentável com alto valor agregado, como cogumelos medicinais, cosméticos naturais, cachaças artesanais e chocolates com identidade territorial.

Parque Tecnológico: O Coração da Nova Indústria

Em construção no bairro de Ubatiba, o Parque Tecnológico de Maricá é o epicentro da nova economia local. Idealizado pela CODEMAR e gerido pelo Instituto de Ciência, Tecnologia e Inovação de Maricá (ICTIM), o parque reúne universidades, empresas, startups e investidores em um ecossistema vibrante.

Entre suas estruturas estão:

    • Torres Triplas: edifícios sustentáveis para empresas de todos os portes
    • Parque Voltaico: complexo com mais de 7 mil painéis solares
    • MicroETE: estação de tratamento de esgoto com bioinsumos
    • Galpão Tecnológico (Inoã): incubadora de startups, Maricá Games Hub e Escola de Startup

Compras Públicas como Vetor de Inovação

Maricá adota o Marco Legal da Inovação, sancionado em 2016, que permite a aquisição de soluções inovadoras sem os trâmites tradicionais de licitação. O CETIM (Centro de Referência em Inovação) se destaca como modelo pioneiro de compras públicas para inovação, atraindo o interesse de grandes empresas como a Petrobras.

Produtos com DNA Maricaense

Com apoio da CODEMAR e da UFRRJ, a cidade desenvolve produtos inovadores por meio de encomendas tecnológicas (INTECs), como:

    • Macarrão de farinha de aipim e banana desidratada
    • Cachaças com mel e chocolates artesanais
    • Café torrado e encapsulado localmente
    • Pescados filetados com alto valor agregado
    • Equipamentos médicos como respiradores não-invasivos e vidros laringoscópicos

Fundo Soberano: Financiamento com Retorno Social

Inspirado em modelos chineses, o Fundo Soberano Municipal permite que o poder público participe com até 49% das empresas geradas, reinvestindo os lucros em novos projetos. O ciclo inclui investimento em P&D, desenvolvimento de produto, criação de empresa e reintegração dos lucros ao fundo.

O próximo investimento será em uma fábrica de aeronaves menores, com engenheiros egressos da Embraer, e encomendas garantidas pela Aueronáutica.

Mobilidade e Infraestrutura de Futuro

Maricá também investe em mobilidade urbana com tecnologias limpas:

    • Ônibus movidos a hidrogênio e etanol
    • Trem de levitação magnética, com tecnologia da China e Irlanda, e potencial para abastecer grandes metrópoles

Aeroporto e Turismo Sustentável

O projeto de ampliação do aeroporto local prevê operações de carga e voos internacionais, com 94% da área preservada como reserva ambiental. A expectativa é receber até 350 mil turistas por ano, com conexão direta ao projeto Maraí.

Hotelaria e Corredor de Negócios

Com investimentos previstos de R$ 4 bilhões, Maricá deve receber ao menos quatro grandes hotéis, incluindo marcas internacionais como Marriott. O objetivo é consolidar um corredor turístico e de negócios, gerando oportunidades para empresas locais.

Integração de Políticas Públicas

A estratégia de Maricá integra setores como educação, saúde, assistência social, agricultura e desenvolvimento econômico. Os resultados esperados incluem:

Vindo da favela, o prefeito Washington Quaquá considera a segurança pública parte essencial em uma política pública.

A Guarda Municipal de Maricá passou por uma profunda reestruturação. Antes marcada por desvalorização e interferência política, a corporação adotou uma gestão técnica voltada para resultados. A substituição de cargos políticos por operadores de segurança pública e o engajamento dos agentes em políticas específicas para o município.

Indicadores de Segurança em Queda

Desde 2017, os índices criminais vêm caindo significativamente, mesmo com o crescimento populacional acelerado — de 14 mil habitantes em 2002 para cerca de 230 mil em 2025. Destaques incluem:

•           Redução de roubos de veículos: de 277 casos em 2017 para 44 em 2025.

•           Quase eliminação de roubos de carga.

•           Homicídios pontuais e sem registro de latrocínios.

•           Tempo médio de atendimento caiu de 45 minutos (190 estadual) para 15 minutos (Disque-CEOB 153 municipal).

Modernização e Expansão do Efetivo

A partir de 2019, o efetivo da Guarda Municipal quase triplicou. Houve investimentos em viaturas, rádios, armas de menor potencial ofensivo e regime adicional de serviço. O município também firmou acordos com a Polícia Militar (PROEIS), permitindo a contratação diária de até 240 PMs. Atualmente, cerca de 160 agentes patrulham simultaneamente os quatro distritos da cidade.

Tecnologia e Integração Institucional

Maricá conta com cerca de 3 mil câmeras espalhadas pela cidade, com reconhecimento facial e de placas veiculares. Todos os acessos são monitorados, gerando alertas automáticos. A integração com a Polícia Militar, Polícia Civil e, futuramente, com a Polícia Federal, fortalece as operações conjuntas. A Patrulha Maria da Penha também desempenha papel essencial no combate à violência doméstica.

Processo de Armamento da Guarda

A gestão atual determinou o armamento completo da Guarda Municipal, com aprovação legislativa e autorização do Exército. O processo inclui:

•           Exames psicológicos e táticos credenciados pela Polícia Federal.

•           Formação especializada com previsão de treinamento junto ao BOPE.

•           Implantação de política de tolerância zero contra ocupação criminosa.

•           Contratação de câmeras corporais e coletes balísticos.

•           Requalificação anual obrigatória (mínimo de 80 horas), conforme normativa federal.

A distribuição dos armamentos será criteriosa, com redirecionamento de agentes não qualificados para funções administrativas.

Estratégias Complementares e Desafios

A cidade investe na expansão de viaturas e contêineres de segurança, com 10 módulos, 35 veículos e 20 motos em operação. O monitoramento contínuo dos índices orienta a alocação de recursos em áreas sensíveis. A atuação em regiões críticas será intensificada com apoio da PM.

Itens de Ação e Acompanhamento

Entre os próximos passos estão:

•           Conclusão dos exames e treinamentos para armamento.

•           Formalização da parceria com a Polícia Federal.

•           Implantação de portais de segurança nos acessos principais.

•           Atualização da carreira da Guarda Municipal.

•           Operações em áreas com presença criminal pontual.

•           Expansão da rede de câmeras e integração de novas tecnologias.

Um dos elementos centrais do modelo Maricá é o uso de elementos culturais representativos do chamado pensamento progressista e dos fatores de brasilidade. Aliás, um dos elementos centrais para a construção de um projeto de país, segundo Celso Furtado.

O hospital local tem o nome de Che Guevara e, em suas instalações, crianças recebem bonequinhos supostamente baseados na figura de Che – embora lembrem mais Mario Bro.

As políticas culturais incluem a valorização de personagens históricos e ícones nacionais, como Darcy Ribeiro, Maísa, Beth Carvalo, João Saldanha e Oscar Niemeyer. Há um projeto para adquirir e transformar a fazenda da família Niemeyer em um espaço artístico-cultural semelhante ao Inhotim.

A cidade planeja a criação de museus multimídia e de imersão no pensamento de Darcy Ribeiro, além da integração de itinerários históricos e culturais, como o “Caminho de Darwin”, que foi apresentado em feiras internacionais. Trata-se de uma  rota turística e ecológica no Rio de Janeiro que reconstruiu parte da trajetória percorrida pelo naturalista Charles Darwin em 1832, conectando Niterói e Maricá.

A aproximação e articulação com especialistas renomados, como Gringo Cardia, também fazem parte dessa estratégia.

Outras iniciativas culturais em andamento incluem:

*   A criação da Escola Latinoamericana de Cinema.

*   A concepção do Parque do Folclore Brasileiro, sob a direção de Sérgio Dias, com o objetivo de transformar heróis do folclore como Saci e Cuca em ícones para educação e entretenimento.

*   Investimento em produções audiovisuais nacionais, como o filme sobre os Malês, que recebeu R$ 3 milhões em investimento.

*   Apoio a grandes iniciativas culturais locais, como o Natal com carnavalização e produções artísticas.

*   A criação de um complexo de samba, futebol e caipirinha, que inclui um hotel resort com temática brasileira, uma quadra de escola de samba e uma mini passarela para eventos.

*   A instalação de uma azulejaria personalizada de Maricá, inspirada em artistas plásticos locais.

*   A ampliação da estrutura cultural com museus, como o Museu da Maré, a Casa Darcy Ribeiro (com um anexo que pode ser o maior acervo sobre povos originários no Brasil), e casas de personalidades como Bete Carvalho, Maísa e João Saldanha.

A casa Darcy Ribeiro

Um projeto de museu imersivo sobre Darcy Ribeiro, com curadoria de Gringo Cardia, que mescla pensamento, história, hip hop e vídeo.

O espaço cultural é visto como uma “sala do pensamento”, onde as pessoas podem escolher temas e descobrir histórias, refletindo a visão de Darcy Ribeiro sobre a miscigenação e o pluralismo cultural brasileiro.

Há também uma forte preocupação com a acessibilidade, especialmente para deficientes visuais, utilizando maletas sensoriais, defumadores, trigo para toque, maquetes táteis e tecnologia para criar experiências autônomas e inclusivas. A intenção é sistematizar essas práticas para outros museus.

A juventude é engajada através de atividades educativas, como batalhas de rima (rap), focadas na troca de conhecimento e não na competição, com temas educativos como o Setembro Amarelo. Há uma reflexão sobre gênero e representatividade nas culturas urbanas, evidenciando as dificuldades de visibilidade das mulheres no rap.

O mirante

O projeto do Mirante, Anfiteatro e Galeria, em fase final de acabamento, prevê um anfiteatro para encontros, concertos e eventos. Há ideias para encontros de músicos nacionais e locais, buscando fusões musicais inovadoras, e a criação da Orquestra dos BRICS, em colaboração com André Abujamra, com músicos de 21 países parceiros.

Abaixo do mirante, uma grande galeria está sendo planejada para abrigar uma exposição de longa duração do fotógrafo Sebastião Salgado. Futuramente, um Museu Sebastião Salgado será instalado em uma das obras de Oscar Niemeyer (“a pomba”), com acervo permanente e uma escola de fotografia.

Especial Terras Raras: um debate sobre o potencial do Brasil

Um debate sobre o potencial do Brasil em terras raras, elementos químicos cruciais para o desenvolvimento tecnológico e a geopolítica mundial. Este foi o tema do programa do Projeto Brasil no Youtube desta semana, que foi ao ar nesta quinta-feira (23) e contou com a participação de especialistas que estão na linha de frente da pesquisa e do desenvolvimento industrial em torno das terras raras, insumos estratégicos para a transição energética e para a reindustrialização do país.

Na mesa mediada por Sergio Leo, foram convidados Fernando Landgraf, professor titular da Escola Politécnica da USP, doutor em ímãs de terras raras e coordenador do INCT Terras Raras entre 2018 e 2024; Luiz Gonzaga Trabasso, engenheiro mecânico e pesquisador-chefe do Instituto Senai de Inovação em Sistemas de Manufatura e Processamento a Laser, em Joinville (SC), além de coordenador do projeto MagBras, voltado à consolidação da cadeia produtiva nacional de ímãs permanentes; Edinei Koester, geólogo e professor titular do Instituto de Geociências da UFRGS, e Marcelo Barcellos da Rosa, químico e professor associado da UFSM, coordenador do LAQUIF e do projeto CNPq sobre a geoquímica de elementos terras raras na região central do Rio Grande do Sul.

A exploração e industrialização de terras raras no Brasil configuram um tema de extrema relevância geopolítica e econômica para o desenvolvimento nacional. O Brasil possui reservas minerais potencialmente classificadas como a segunda ou terceira maior do mundo, com novos achados de alta concentração no Rio Grande do Sul (como em Caçapava do Sul e Santa Maria) confirmando este potencial.

Os especialistas discutiram os avanços científicos, os desafios industriais e a importância desses minérios para a produção de super ímãs usados em diversas aplicações, como motores elétricos e veículos, destacando o domínio global da China no setor e como o Brasil começa a se destacar nesse campo e a atrair atenção internacional.

O professor Fernando Landgraf focou na dimensão geopolítica e nos desafios estratégicos da produção e discutiu a dependência global da China, que detém mais de 90% da oferta de super ímãs. Como especialista, ele reforçou que o ponto crítico na cadeia produtiva é a etapa de separação (refino) dos elementos de terras raras e explicou que sem essa estrutura no Brasil, o país não conseguirá produzir ímãs, pois não seria viável importar neodímio refinado da Chin.

Landgraf alertou que, embora o Brasil tenha grandes reservas, o jogo global é competitivo, pois o mundo inteiro está desenvolvendo projetos de terras raras, mas confirmou que o país tem potencial e mentes brasileiras por trás, citando a UFSC e a USP, e que egressos brasileiros estão trabalhando em Lagoa Santa e até mesmo em fábricas de ímãs na Europa.

Luís Gonzaga Trabasso, por sua vez, apontou caminhos com o projeto brasileiro MAGBRAS, que busca estabelecer um ciclo completo de produção de ímãs permanentes de terras raras no país, desde a mineração até a reciclagem, com o apoio do setor automotivo e diversas parcerias industriais e acadêmicas. Já em andamento, o objetivo central do projeto, segundo ele, é “dominar o ciclo completo” – desde a mina até o ímã pronto e sua reciclagem – e evitar que as mineradoras exportem o material como commodity.

Ele explicou que o MAGBRAS interliga plantas piloto existentes, como a de separação no CTEM (Rio de Janeiro) e a de redução no IPT (São Paulo). O projeto envolve 12 mineradoras, além de usuários finais como Weg e montadoras (Iveco, Stellantis) e confirmou que há mais parceiros estratégicos de olho, como a Alemanha, que é o país que tem demonstrado maior interesse em transformar a pesquisa em oportunidade de negócios no Brasil.

O geólogo Ednei Queiroz (UFRGS) abordou a prospecção geológica de novas reservas no Sul do país e a viabilidade da exploração. Ele narrou que seu grupo de pesquisa (UFRGS, UFSM, Unipampa) fez achados de rochas com alta concentração de terras raras na região central do Rio Grande do Sul, nas áreas de Caçapava do Sul e Santa Maria (carbonatito Picada dos Tocos e Passo Feio).

Sobre as preocupações ambientais, Queiroz defendeu que tudo pode ser explorado e tudo tem remediação ambiental, desde que seja realizado com cuidado, acompanhamento constante e que todos os atores trabalhem em conjunto. Mencionou o desafio de conciliar a demanda crescente por minerais críticos (devido à tecnologia limpa, como carros elétricos) com a necessidade de responsabilidade ambiental.

Marcelo Barcelos da Rosa (UFSM) detalhou os métodos de pesquisa interdisciplinar utilizados no Sul, com químicos, biólogos, geólogos e engenheiros de Minas, e os desafios ambientais e tecnológicos do beneficiamento (separação dos minérios). Explicou a técnica de Bioprospecção Sustentável, que utiliza a bioprospecção monitorando plantas “ultraabsorvedoras” de terras raras, o que é considerado uma abordagem mais ambientalmente amigável para prospecção.

Ele contou que o grupo já desenvolveu metodologias para a separação dos terras raras em nível de bancada (laboratórios), mas a transição para a escala piloto não é linear, e que há interesse e conversas abertas com entidades internacionais, incluindo doutorandos de Harvard, e empresas que procuram a nanotecnologia desenvolvida no laboratório para auxiliar na extração.

A conclusão principal que emerge da discussão é que o Brasil está em uma corrida estratégica para dominar o ciclo completo de produção, que abrange desde a extração (mina) até o ímã pronto, e a sua posterior reciclagem. O dilema central é evitar a exportação de minérios como commodities, agregando valor ao produto. Para isso, o ponto crítico inegociável é o desenvolvimento da capacidade de separação (refino) dos elementos de terras raras, pois sem essa instalação, a produção de ímãs brasileiros não é viável. O grupo também expôs as parcerias internacionais (com Europa e Japão sendo potenciais colaboradores) e a sustentabilidade ambiental da exploração desses recursos.

Seminário Inovação, Soberania e Desafios Nacionais: pensando um Projeto Nacional de Desenvolvimento

Evento do Projeto Brasil e de grupo de pesquisa GPCEIS ligado à Fiocruz trouxe nomes renomados de setores estratégicos para debater o desenvolvimento do país

Patricia Faermann

O desenvolvimento soberano e estrutural do Brasil requer a implementação de políticas públicas ousadas e inovadoras, ancoradas em uma visão integrada que articule o econômico, a inovação, o social e o ambiental. Este foi o mote do Seminário “Inovação, Soberania e Desafios Nacionais”, promovido pelo Projeto Brasil e o grupo de pesquisa Desenvolvimento Sustentável, CT&I e Complexo Econômico-Industrial da Saúde (GPCEIS) do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE-Fiocruz/Ministério da Saúde), com o apoio da FESPSP, nesta quinta-feira (30).

O encontro de alto nível, comandado por Luís Nassif e Carlos Gadelha, reuniu um time de especialistas de setores estratégicos, em uma discussão profunda sobre as urgências, desafios e caminhos que o país precisa enfrentar para a continuidade do desenvolvimento. Nas diversas áreas (Saúde, Educação, Meio Ambiente, Defesa, Macroeconomia e Políticas Públicas em geral), os expoentes apresentaram a proposta de um novo Projeto Nacional de Desenvolvimento para o Brasil, enfatizando a superação do neoliberalismo e a fragmentação das políticas públicas.

Na mesa, ao lado de Nassif e Gadelha, líder do grupo de pesquisa da Fiocruz, estiveram presentes o cientista climático e referência em sustentabilidade Carlos Nobre, o presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE) do MEC César Callegari, a coordenadora da Comissão Interministerial de Contratações Públicas do Ministério de Gestão e Inovação, Gabriela Maretto, o coordenador de pesquisas em Defesa e especialista aeroespacial Marcos Barbieri, e o economista professor da PUC-SP e membro da Comissão de Assuntos Estratégicos do BNDES, Antônio Lacerda.

As apresentações destacaram a importância de políticas industriais ousadas e estruturais, como o Complexo Econômico Industrial da Saúde, o avanço na soberania tecnológica e digital, e a valorização da biodiversidade e da educação como pilares para um crescimento inclusivo e sustentável, ressaltando a constante disputa política em torno da alocação de recursos e do papel do Estado. Eles sugeriram um conjunto de estratégias políticas e econômicas focadas na mudança estrutural, a soberania tecnológica e no uso estratégico da capacidade estatal.

“A nossa boa suspeita é que para um provável quarto governo Lula vão ter que ser pensadas as grandes políticas públicas do país, introduziu o jornalista Luís Nassif. “A perspectiva foi discutir e propor caminhos para um projeto nacional de desenvolvimento no qual os desafios do bem-estar, da sustentabilidade e da soberania passam a guiar a inovação e a transformação produtiva como novos vetores de uma nova estratégia para o Brasil”, disse Gadelha.

Na convergência das diferentes áreas, os especialistas apontaram que o Projeto Nacional de Desenvolvimento para o Brasil deve apontar estratégias que envolvem política industrial e inovação para a soberania; desenvolvimento sustentável e ambiental; investimentos em educação e capacitação; coordenação estatal e financiamento; e soberania digital.

Nassif referenciou o complexo industrial da saúde como “o melhor modelo de política industrial que nós tivemos ao longo dos tempos“. “A grande vantagem do processo produtivo do sistema da saúde foi juntar elementos que já existiam: poder de compra do Estado em uma negociação para transferência de tecnologia, defendeu.

Neste eixo de Política Industrial e Inovação, Carlos Gadelha afirmou a importância de se ter uma orientação aos desafios nacionais e a estrutura produtiva do país, como motor da agenda que impulsiona o PIB e o emprego no Brasil.

Ainda, alertou para a identificação de Complexos Econômicos críticos, capazes de mudar o padrão de desenvolvimento e ter como referência o modelo do Complexo Econômico Industrial da Saúde (CEIS), que inspira uma estratégia nacional ao utilizar o poder de compra do Estado (do SUS) para desenvolver produtos e inovações, articular instituições públicas de ciência e tecnologia (Butantã, Fiocruz) com empresas privadas para transferência de tecnologia, e garantir que a tecnologia desenvolvida fique sob a propriedade de laboratórios públicos, licenciando-a a privados, para evitar a desnacionalização

“Trabalhamos na perspectiva de que a visão e a estratégia concebida para o Complexo da Saúde, vinculadas a um SUS soberano, inspire uma nova política nacional, inovadora, dinâmica e comprometida com as demandas da sociedade”, afirmou.

No eixo de Defesa, o especialista aeroespacial Marcos Barbieri narrou como a indpustria da Defesa é intrinsecamente ligada à inovação e à supremacia tecnológica, a exemplo dos gastos militares que buscam superioridade tecnológica e não dependem primariamente de viabilidade econômica. “A supremacia econômica tem como base a supremacia tecnológica, expôs.

Barbieri defendeu que o Brasil precisa definir sua estrutura de Defesa que inclua o monitoramento, mobilidade, presença, e identificar as tecnologias críticas que deve dominar, a exemplo de satélites, veículos lançadores e os sistemas de comunicação tática.

O especialista também afirmou que é necessário reestruturar a aquisição de equipamentos militares, separando a área operacional da aquisição e desenvolvimento de tecnologias críticas dentro do Ministério da Defesa, para garantir que as necessidades sejam supridas por tecnologias sob domínio nacional.

E usou como exemplo as empresas estratégicas como a Embraer (que possui inserção ativa no mercado global de alta tecnologia) e a Avibras (fundamental nos setores de foguetes e espacial), que precisam de demanda regular e apoio estrutural.

Entre as estratégias de desenvolvimento ambiental, o climatologista Carlos Nobre expôs a necessidade de se alcançar uma transição ecológica justa, como como frente de expansão para o crescimento do país. Para isso, disse, é necessário integrar o pensamento ambiental nas decisões de investimento, não se limitando a políticas compensatórias.

O cientista lembrou que o Brasil possui a maior biodiversidade do mundo, e que a estratégia nacional deve envolver a criação de uma sociobioeconomia (o que significa a economia de floresta em pé), dando escala aos produtos da biodiversidade e integrando o conhecimento científico nacional com o saber dos povos indígenas e comunidades locais.

“Quanto dos produtos da maior biodiversidade do mundo a nossa economia utiliza? Nós fizemos um estudo que é realmente desapontador: do PIB brasileiro, só 0,4% vem dos produtos da nossa biodiversidade. Mandioca, açaí, cacau, castanha, abacaxi, mamão, etc. Já a carne bovina – principal fator do desmatamento de todos os nossos biomas representa 6% do PIB. Quer dizer, 15 vezes mais do que todos os produtos da nossa biodiversidade. Isso é para mostrar para vocês o desafio que nós temos.”

Com exclusividade ao evento, Nobre contou sobre um estudo que será apresentado no dia 5 de novembro, no Rio de Janeiro, pela Academia Brasileira de Ciências, no qual os cientistas ambientais revelam que “o Brasil tem potencial para zerar as emissões líquidas até 2040”, mas “requer o fim total do desmatamento e uma transição rápida para a agricultura e pecuária regenerativa”.

Em Educação, Cesar Callegari afirmou a necessidade de uma base educacional sólida como ferramenta direta para o desenvolvimento do país. “Só haverá soberania num país como o Brasil se nós tivermos uma base educacional absolutamente sólida. Nós temos que buscar saldar o enorme déficit de dívidas educacionais e sociais que o Brasil acumulou durante séculos, pontuou.

Entre as estratégias para este longo caminho, o consultor educacional e presidente do CNE apontou a reversão do Déficit Educacional e a reestruturação da Carreira e Formação Docente, tendo como principal desafio estratégico formar uma nova geração de professores.

“Nós estamos desafiados a formar uma nova geração de professores no Brasil. Esse é o nosso principal desafio estratégico. Se quisermos garantir educação de qualidade, não há outra forma de fazer.”

No setor de Compras Públicas, Carlos Gadelha e Gabriela Maretto afirmaram que o mercado interno deve ser usado como parte do patrimônio nacional para gerar autonomia tecnológica, o que já é um princípio constitucional do país, e que as compras públicas, que representam cerca de 16% do PIB, são um instrumento transversal e estratégico, servindo como o elo entre os desafios nacionais e as políticas de desenvolvimento.

“Compras é um elo – e um instrumento transversal – entre esses desafios nacionais e os programas e políticas de desenvolvimento“, resumiu a coordenadora no MGI, Gabriela Maretto. “É muito importante também nessa discussão de projeto de desafio e demanda nacional ter o uso do poder de compra, que a gente está falando de mais ou menos de 16% do PIB. Inclusive, esse é outra outro projeto liderado pela ministra Esther Dweck: o uso do poder de compra para impulsionar as políticas de desenvolvimento.”

Maretto reafirmou a importância de o Estado usar a margem de preferência para compras e o poder de compra em projetos de infraestrutura, como ocorre no PAC, garantindo o conteúdo nacional.

Ainda nas políticas de financiamento e desafios macroeconômicos, o economista e professor da PUC-SP, Antonio Lacerda, afirmou que a trajetória do país é dificultada por um modelo de “política monetária e fiscal cujo único objetivo é garantir o livre fluxo de capitais improdutivos“. Lacerda também pontuou que o regime de metas de inflação “monopoliza a política macroeconômica” em torno da taxa de juros. “Aqui nós estamos com uma discussão rica e rara, que você vai ver em poucos lugares”, elogiou.

Ao analisar a importância de se traçar estratégias conjuntas de diferentes setores em uma mesma mesa, o economista e co-realizador do evento, Carlos Gadelha, destacou que “a sociedade exige uma ação transversal”.

“Quando a sociedade tem problemas ela exige uma ação transversal. Eu não posso tratar o problema da sociedade se eu não articulo inovação, bem-estar, sustentabilidade ambiental dentro de uma mesma estratégia. Isso envolve uma nova geração de políticas públicas, um Estado comprometido com desafios nacionais e uma articulação virtuosa e não predatória entre o Estado e o setor privado, expôs.

Para Gabriela Maretto, a necessária discussão do grupo foi o reconhecimento da economia política para as estratégias do país e da nossa capacidade de sonhar por melhorias. “Todos nós estamos trazendo aqui nesse debate, nessa troca, a economia política, nesse sentido de reconhecer o papel da economia política. Não tem como falar de projetos estruturante sem falar de economia política, não é um tecnicismo isso, não. Mas, ao mesmo tempo, eu gosto de pensar que a gente não pode perder a capacidade de sonhar.”

 

A íntegra do Seminário está disponível no canal da TVGGN no Youtube, confira:

Datacenters: a necessária discussão sob os impactos e prisma social

Silvia Portela 

Datacenters: a necessária discussão  

O texto que trazemos hoje foge, aparentemente, do foco principal de nossas discussões. Entretanto, o debate sobre a importação de datacenters para o Brasil além de muito atual, tem grandes implicações para as pessoas e as comunidades. Esta necessária discussão sobre, na prática, a transferência de degradação ambiental está sendo muito mais encarada sobre o prisma econômico, e muito pouco pelo prisma social. 

Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais, vinculado ao Instituto Lavoro traduziu este texto do blog Naked Capitalism, que transcreve texto de Jomo Kwame Sundaram, ex-secretário-geral adjunto da ONU para o Desenvolvimento Econômico, publicado em seu blog pessoal. Mantivemos a introdução de Yves Smith do blog, porque muito pertinente. Yves Smith e o pseudônimo de uma importante economista, a primeira a prever a crise de 2008.  

 

Revolta contra os data centers se espalha pelo mundo

Parece que cidadãos de outros países não concordam com o esquema Big Tech de terceirizar os custos ambientais e de energia adicionais dos datacenters para o que é indelicadamente chamado de terceiro mundo. Além disso, acho notável que o data center (DC), como na IA, novas demandas de energia estejam sendo impostas a todos os clientes. Aqueles que exigem energia incremental e de maior custo devem pagar mais. Mas, em vez disso, a população em geral está subsidiando a IA, tanto por meio desses custos de energia quanto suportando o custo de poluição adicional.  

É certo que os cidadãos das economias avançadas têm resistido o suficiente para levar os senhores da tecnologia a procurarem outras vítimas, partindo do pressuposto de Larry Summers de que os países mais pobres concordarão em aceitar a versão de geração de energia das barcaças de lixo. Mas Jomo abaixo discute quantos, senão a maioria, estão bem cientes desse jogo de poder neocolonial e não estão a bordo. (Introducao de Yves Smith, publicada em 29 de outubro de 2025). 

Jomo Kwame Sundaram, ex-secretário-geral adjunto da ONU para o Desenvolvimento Econômico. Publicado originalmente no site da Jomo  

Os data centers estão se proliferando rapidamente, impulsionados pela popularidade da inteligência artificial.  

Para quem servem os data centers?  

O boom da IA já superou outros usos da “nuvem” e impulsiona o rápido crescimento dos data centers (DCs), impondo demandas de recursos em rápida expansão. Isso desencadeou uma reação pública bipartidária nos EUA devido ao maior uso de energia, água e terra, bem como ao aumento dos preços.  

Em outubro de 2024, a McKinsey projetou que a demanda global de energia pelos DCs aumentaria entre 19% e 22% ao ano até 2030, atingindo uma demanda anual entre 171 e 219 gigawatts. Isso excede em muito a “demanda atual de 60 GW”. “Para evitar um déficit [de oferta], pelo menos o dobro da capacidade [DC] construída desde 2000 teria que ser construída em menos de um quarto do tempo”!  

Como as empresas de tecnologia não estão pagando pela capacidade adicional de geração de energia, os consumidores e os governos anfitriões estão pagando, quer se beneficiem da IA ou não.  

À medida que os DCs enfrentam cada vez mais uma resistência crescente no Norte, os desenvolvedores se voltaram para os países em desenvolvimento, terceirizando problemas para nações mais pobres com recursos limitados.  

Compreender essas instalações que consomem energia e água é necessário para proteger melhor as economias, sociedades, comunidades e seus ambientes.  

Necessidades de energia  

Com a crescente demanda corporativa e de consumidores por IA, o crescimento da DC continuará e até mesmo acelerará ocasionalmente.  

O aumento do uso da IA aumentará significativamente o consumo de energia e água, acelerando o aquecimento planetário direta e indiretamente.  

À medida que a demanda por IA e DCs aumenta, os computadores de suporte exigirão significativamente mais eletricidade. Isso gerará calor, precisando do uso de água e energia para resfriamento. Muita energia usada pelos DCs, de 38% a 50%, é para resfriamento.  

A geração de eletricidade, seja a partir de combustíveis fósseis ou fissão nuclear, requer mais resfriamento do que fontes de energia renováveis, como painéis solares fotovoltaicos ou turbinas eólicas.  

Um DC de pequena escala com 500 a 2.000 servidores consome de um a cinco megawatts (MW). Para gigantes da tecnologia, um DC em ‘hiperescala’, hospedando dezenas de milhares de servidores, consome de 20 a mais de 100 MW, como uma cidade pequena!

Os data centers não são bons  

Como o foco popular está nas enormes necessidades de energia dos DCs, suas enormes necessidades de água para resfriar equipamentos tendem a ser ignoradas, discretas e negligenciadas.  

A localização de novos DCs em países em desenvolvimento aquecerá ainda mais os microclimas locais e a atmosfera planetária. Pior ainda, o calor é mais ameaçador para o meio ambiente nos trópicos, onde as temperaturas ambientes são mais altas.  

O estabelecimento de mais DCs inevitavelmente excluirá os usos existentes e outros possíveis do abastecimento de água doce, além de reduzir os aquíferos subterrâneos locais.  

Não é de surpreender que os investidores de DC raramente alertem os governos anfitriões sobre a quantidade de energia fornecida localmente e água necessária.  

Os DCs precisam de muita água doce para resfriar servidores e roteadores. Em 2023, somente o Google usou quase 23 bilhões de litros para resfriar DCs.  

Em sistemas de resfriamento que usam evaporação, a água fria é usada para absorver calor severo, liberando vapor na atmosfera. Os sistemas de resfriamento de circuito fechado absorvem o calor usando água canalizada, enquanto os resfriadores resfriados a ar resfriam a água quente. A água resfriada recirculada para resfriamento requer menos água, mas mais energia para resfriar a água quente.  

Investidores esperam subsídios  

Como outros investidores em potencial, os DCs se mudaram para áreas onde os governos anfitriões têm sido mais generosos e menos exigentes.  

Liderados pelos poderosos “tech bros” do presidente dos EUA, Trump, muitos investidores estrangeiros lucraram com energia subsidiada, terra e água baratas e outros incentivos especiais. Os futuros governos anfitriões competem para oferecer incentivos fiscais e outros, como energia e água subsidiadas, para atrair investimento estrangeiro direto em DCs.  

Os EUA pressionaram a Malásia e a Tailândia a impedir que as empresas chinesas as usassem como “pontos de fuga ao controle de exportação” para seus chips de IA. Washington alega que os DC fora da China compram chips para treinar sua IA para fins militares. Até agora, apenas a Malásia cumpriu.  

Isso limita o acesso das empresas chinesas a esses chips. Washington afirma que os substitutos chineses dos chips fabricados nos EUA são inferiores e busca proteger a tecnologia americana da China.  

Empregos em DC de alta tecnologia?  

Os data centers estão surgindo em todos os lugares, mas poucos empregos serão criados. Defensores afirmam que os DC s fornecerão empregos de alta tecnologia.  

Os DCs são em grande parte autônomos, exigindo mínima intervenção humana, exceto pela manutenção, que eles determinam de forma independente. Assim, a criação de empregos é minimizada.  

Os trabalhos de construção e instalação serão temporários, com a maioria das funções gerenciais sendo executadas remotamente da sede. Um relatório da Georgetown University estima que apenas 27% dos empregos em DC são “técnicos”.  

Embora o discurso de DC se concentre principalmente em investimentos estrangeiros, há pouca discussão sobre os crescentes desejos nacionais por soberania de dados.  

Atender a tantas solicitações estrangeiras inevitavelmente bloqueará as ambições nacionais de desenvolver capacidades DC de ponta a ponta e não apenas hospedá-las.  

Até o momento, há um interesse limitado na “vida após a morte” dos DC s, como o que acontece depois que eles sobreviveram ao seu propósito ou no descarte de resíduos.  

Os custos mais altos de energia e água, subsídios, incentivos fiscais e outros problemas causados pelos DCs dificilmente são compensados por seu emprego modesto e outros benefícios. 

Greve na VW do sul dos Estados Unidos

Silvia Portela

Os trabalhadores da Volkswagen em Chattanooga, Tennessee, dirigidos pelo United Auto Workers (UAW) entraram em greve nos dias 28 e 29 de outubro para obrigar a empresa a apresentar uma nova proposta aos trabalhadores que não aceitaram o aumento oferecido pela montadora alemã. A empresa encontra-se em grandes dificuldades na Alemanha mas apresenta grandes lucros nos Estados Unidos. 

O que existe de interessante na notícia é que os trabalhadores de Chattanooga, que fica ao sul do pais, conquistaram a sua sindicalização ainda no ano passado, fruto de um grande esforço do sindicato em organizar as empresas daqueles estados, tradicionalmente antissindicais. 

Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais, vinculado ao Instituto Lavoro traduziu este texto  da pagina Common Dreams. 

“Dispostos a fazer o que for preciso”: Trabalhadores da UAW Volkswagen em Chattanooga convocam greve  

“Estou votando sim para que a Volkswagen volte à mesa de negociação”, disse um funcionário da fábrica. “A maioria das pessoas que eu conheço não quer a ‘oferta final’ da VW.”  

Jéssica Corbett, 23 de outubro de 2025  

Trabalhadores da Volkswagen em Chattanooga, Tennessee, que se sindicalizaram com a United Auto Workers no ano passado, anunciaram na quinta-feira que votarão na próxima semana para autorizar uma greve após mais de 13 meses de negociações contratuais infrutíferas com a gigante automobilística.  

A votação de autorização de greve planejada para 28 e 29 de outubro “ocorre após meses de práticas trabalhistas injustas cometidas pela empresa, incluindo negociações de má-fé, intimidação ilegal e corte unilateral de empregos na única fábrica de montagem da Volkswagen nos EUA”, disse o UAW em um comunicado. O sindicato também destacou os lucros de 20,6 bilhões de dólares da Volkswagen no ano passado.  

O porta-voz da empresa, Michael Lowder, disse na segunda-feira que “a Volkswagen deixou claro para o sindicato que nossa última, melhor e última oferta é realmente definitiva. Não podemos, de boa fé, prolongar as negociações continuando a negociar quando já colocamos nossa melhor oferta na mesa. É hora de o UAW dar voz aos funcionários da VW e deixar que eles decidam por si mesmos votando em nossa oferta final.”  

No entanto, vários funcionários disseram na quinta-feira que não estão satisfeitos com a última oferta da empresa e planejam votar por uma greve. 

 “Estou votando sim porque esta é a hora de mostrar à Volkswagen que levamos a sério o tratamento padrão da indústria. A segurança no emprego é essencial. Eles poderiam nos pagar $100 por hora, mas isso não significa nada se eles fecharem a fábrica duas semanas após o início do acordo”, disse James Robinson. “Espero que esse processo mostre à empresa que levamos a sério a obtenção de um contrato justo. Mostraremos a eles que a oferta não foi suficiente, mostraremos que estamos dispostos a lutar para conseguir o que merecemos.” “Espero que esse processo mostre à empresa que levamos a sério a obtenção de um contrato justo.”  

A funcionária Taylor Fugate disse que “Estou votando sim para que a Volkswagen volte à mesa. A maioria das pessoas que conheço não quer a “oferta final” da VW. Eles querem continuar negociando e estamos dispostos a fazer o que for preciso para que isso aconteça.”  

Precisamos de cuidados de saúde acessíveis e de uma forte declaração de segurança no emprego que não deixe áreas cinzentas”, acrescentou Fugate. “Também merecemos padrões iguais — os trabalhadores automotivos do sul não devem ser tratados de forma diferente!”  

Um representante republicano eleito deu uma entrevista coletiva na quarta-feira em uma tentativa de intimidar o sindicato a votar sobre a última oferta da empresa. O Local 3 News informou que o comissário do condado de Hamilton, Jeff Eversole, disse: “A Volkswagen apresentou uma oferta final de contrato sindical há mais de um mês que oferece ganhos significativos para os trabalhadores de Chattanooga, incluindo um aumento salarial de 20%, um subsídio de custo de vida, um bônus de ratificação de $4.000, menores custos de saúde e muito mais. Muitos funcionários estão entrando em contato com o UAW para votar, e o UAW se recusou.”  

Mike Elk, do Payday Report, destacou na quinta-feira que “as táticas usadas pelo Partido Republicano em Chattanooga são semelhantes às que eles usaram por mais de uma década para, às vezes, dissuadir os votos sindicais, sugerindo que a fábrica pode fechar se o sindicato ficar ‘muito ganancioso’ (palavras deles, não minhas, como filho de um trabalhador da linha de montagem de automóveis da Volkswagen)”.  

O Local 3 News observou que “durante a coletiva de imprensa, dezenas de membros do UAW e do Conselho Central do Trabalho da Área de Chattanooga, ou CLC, começaram a fazer piquetes em frente à fábrica da VW”.  

O noticioso também conversou com alguns funcionários. Uma delas, Dakotah Bailey, explicou que “originalmente, seria um aumento de 25% nos salários. Eles não queriam aceitar isso e agora baixaram para 20%. Eu queria tentar conseguir meu dinheiro agora. Especialmente logo antes das férias. Seria ótimo ter mais $5.500 em minha conta bancária.”  

De acordo com a série de vídeos “Volkswagen Stories” publicada pelo UAW no YouTube, os salários são a principal preocupação dos trabalhadores. Outras prioridades principais incluem condições de saúde e segurança na fábrica, assistência médica, folgas remuneradas e benefícios de aposentadoria.  

Não quero fazer greve, mas se for o caso, farei”, disse Mitchell Harris, funcionário da Volkswagen, na quinta-feira. “Porque sinto que todos os meus irmãos e irmãs do UAW Local 42 merecem respeito, para proporcionar uma vida melhor para suas famílias e ter segurança no emprego para nós e para as gerações futuras.”  

Jéssica Corbett é editora sênior e redatora da Common Dreams. 

EUA: Onde estão os Sindicatos? 

Silvia Portela 

Crescem os protestos contra Trump, mas…

Onde estão os Sindicatos? 

O texto que trazemos argumenta que a pequena participação dos sindicatos nos protestos No Kings em Nova Iorque representa uma fraqueza do movimento, pois, mais que nunca para evitar a manipulação e as fraudes nas próximas eleições, será necessária a luta no local de trabalho. 

Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais, vinculado ao Instituto Lavoro traduziu este texto e outras informações da revista Jacobin, que se apresenta como a principal voz da esquerda americana, oferecendo perspectivas socialistas sobre política, economia e cultura.

 

O movimento anti-Trump está crescendo.  

Onde está o trabalho?  

Centenas de milhares marcharam nos protestos “No Kings” na cidade de Nova York no último fim de semana, assim como milhões fizeram em outros lugares nos EUA. A presença marginal do trabalho organizado nos protestos de Nova York foi emblemática de sua oposição anêmica a Trump em geral.  

Por Marc Kagan, publicado em 22 de outubro de 2025 

Enquanto dezenas de milhares de nova-iorquinos desciam a Sétima Avenida da Times Square em direção ao ponto de dispersão na Fourteenth Street para o protesto “No Kings” da cidade no sábado, 18 de outubro, uma marcha separada de talvez cinco mil esperava incertamente a um longo quarteirão de distância. Na frente, os líderes da marcha cantaram “De quem são as ruas? Nossas ruas!” — aparentemente alheio à ironia de que o Departamento de Polícia de Nova York (NYPD) estava naquele momento se recusando a permitir que marchasse para a parte alta da cidade e para o oeste para se juntar ao protesto muito maior. Atrás deles, os manifestantes estavam, agora em sua maioria silenciosos e incertos: O que foi planejado? Por que estávamos esperando? Finalmente, a palavra voltou: disperse-se e caminhe para o leste na calçada até a Union Square, onde os manifestantes foram informados, incorretamente, de que se encontrariam com a marcha principal. 

A marcha trabalhista de sábado forneceu quase a metáfora perfeita para a saúde do “movimento” sindical da cidade de Nova York: incapaz ou não disposto a mobilizar seus 750.000 membros em números substantivos, irresoluto e pouco claro em seus planos, mantendo seus próprios membros no escuro e com medo ou não querendo desafiar os ditames da polícia de Nova York. E em vez de se esforçar para fornecer organização e liderança a centenas de milhares de nova-iorquinos comuns que protestavam contra Trump, o trabalho organizado sinalizou que estava propositadamente separado.  

Embora a marcha tenha sido convocada pelo Conselho Central do Trabalho de Nova York (CLC), faltavam grandes segmentos da mão de obra de Nova York em ação no ponto de montagem. Praticamente todas as empresas de construção civil — talvez apoiem as políticas de Trump ou simplesmente tenham medo de seus próprios membros, mesmo quando Trump está fechando grandes projetos de construção financiados pelo governo para transporte público, eólico e solar; os serviços uniformizados — não apenas policiais e agentes penitenciários, mas também saneamento e bombeiros; todos os integrantes locais do Teamsters, incluindo 237, o segundo maior sindicato de trabalhadores municipais; os trabalhadores em trânsito; a Hotel and Gaming Trades Council; todos os principais sindicatos de trabalhadores culturais, sem dúvida decidindo (corretamente) que seus membros ficariam mais revigorados participando da marcha principal do que se isolando com seus irmãos sindicais. 

E os sindicatos que apareceram? Os trabalhadores do hospital da organização 1199 do SEIU, que na memória recente reuniu quarenta ou cinquenta mil trabalhadores para comícios, foram os que mais compareceram – talvez (generosamente) mil. Seu primo da SEIU, 32BJ, cujos funcionários do serviço imobiliário enfrentam ameaças da Imigração e Alfândega, trouxe uns poucos. Os Communications Workers of America (CWA), representando 70.000 trabalhadores dos setores público e privado, tinham um contingente de cinquenta cartazes ostentando “CWA forte”, em vez de qualquer mensagem política. O maior sindicato de trabalhadores municipais, o   Conselho Distrital 37 da American Federation of State, County and Municipal Employees (AFSCME) com cem mil membros, reuniu duzentos. 

Mas isso foi maior do que a participação da United Federation of Teachers (UFT)que possui 150.000 membros — apesar da alegação do Guardian de que sua controladora nacional, a American Federation of Teachers (AFT) estava (talvez fora da cidade de Nova York?) “patrocinando eventos”. Como membro da UFT, sei que não houve nem mesmo um e-mail para os membros pedindo que se mobilizassem. Pequenos e desorganizados demais para formar seu próprio contingente, a maioria dos membros da UFT parecia marchar com seus colegas da AFT, o Professional Staff Congress (representando professores e funcionários da Universidade de Nova Iorque), que foi, na contagem, o campeão do dia, mobilizando pouco mais de quinhentos de seus 20.000 membros. Seu presidente, James Davis, parecia ser o único grande líder sindical que se dava ao trabalho de marchar com seus membros. 

A fraca participação na marcha trabalhista nos diz que a maioria dos membros desses sindicatos que participaram do No Kings marcharam no protesto principal, ignorando os planos do sindicato ou totalmente inconscientes deles.  

Talvez mais significativo do que o tamanho minúsculo da marcha tenha sido sua óbvia desordem. Por que não havia sistema de som móvel em uma caminhonete que acompanhava os manifestantes? Por que houve uma aparente confusão sobre o ponto final da marcha e seu objetivo? Se, por algum motivo, foi considerado necessário começar separadamente, para diferenciar o trabalho da manifestação mais ampla, por que não houve nenhum esforço para se unir à marcha principal? (De acordo com um relatório de um líder trabalhista, esse era o plano inicial, mas a polícia de Nova York o proibiu.) 

A participação marginal do trabalho organizado no protesto No Kings em Nova York não foi necessariamente representativo de manifestações em outros lugares. Em Chicago, por exemplo, o Chicago Teachers Union (CTU) esteve fortemente envolvido na organização e teve uma presença proeminente na série de protestos contra os ataques autoritários de Trump à cidade, incluindo o protesto No Kings na semana passada. E a United Teachers Los Angeles (UTLA) tem sido uma importante força anti-Trump em LA.  

No entanto, a triste exibição dos sindicatos de Nova York no sábado é indicativa da abordagem anêmica do movimento sindical na luta contra Trump de forma mais geral. Apesar dos ataques violentos aos direitos de negociação coletiva e às liberdades civis, os sindicatos, em sua maioria, responderam (na melhor das hipóteses) emitindo declarações fortes ou buscando ações legais. 

Mas o envolvimento sério e militante do trabalho organizado no movimento anti-Trump é provavelmente crucial para resistir efetivamente ao autoritarismo e aos ataques do presidente aos trabalhadores. As marchas do No Kings, que demonstraram a oposição popular a Trump em uma nova escala, são necessárias. Mas, como podemos ver nas políticas que estão sendo implementadas em Washington, DC, e nos destacamentos militares e paramilitares do ICE nas ruas de lá — e em Chicago, Portland, Los Angeles e Memphis — elas estão longe de ser suficientes. Esperando por alívio nas eleições para o Congresso ainda distantes é uma tarefa idiota. Ainda nesta semana, a Suprema Corte indicou que efetivamente derrubará a Lei de Direitos de Voto, permitindo o desmantelamento de praticamente todos os poucos distritos de tendência democrata restantes no sul. A empresa de equipamentos de votação Dominion Voting Systems acaba de ser comprada por um apoiador da MAGA. Portanto, podemos prever razoavelmente uma fraude genuína nas urnas eleitorais em 2026 — apenas alguns pequenos ajustes aqui e ali necessários para mudar os distritos. 

Em breve, precisamos ir além de meras marchas, para a disrupção — da economia e das ruas. Durante décadas, fiquei frustrado com o canto exagerado: “If we don’t get it, shut it down!  Nós realmente precisamos da capacidade de fazer isso acontecer — mas essa capacidade não surge espontaneamente, mesmo que algum evento em particular crie a base para uma revolta em massa. As redes que convocaram os protestos No Kings e May Day Strong precisam ser complementadas por redes que possam realmente fechar pelo menos segmentos significativos de sistemas de transporte aéreo, ferroviário e de caminhões, além da manufatura e produção de energia em larga escala, e as vastas indústrias culturais e de saúde. 

O trabalho organizado, fraco, ambivalente e desorganizado como muitas vezes parece, é a única rede existente de trabalhadores enquanto trabalhadores, capaz de ação coletiva no local de produção. É difícil imaginar uma capacidade disruptiva séria sem sua participação ativa — o tipo de capacidade disruptiva que a oposição anti-Trump precisa para vencer. 

Nota: as diversas referencias no texto deverão ser procuradas no texto original. 

AFL-CIO diz a Trump: Coloque os trabalhadores em primeiro lugar

Silvia Portela

Diante da situação calamitosa em que se encontram os empregados federais dos Estados Unidos com a  inércia de Trump em resolver o impasse do orçamento e a paralisação do governo, a AFL-CIO divulgou uma carta que sua diretora de advocacia, Jody Calemine, enviou a todos os senadores. Na carta “Calemine pediu que apoiassem o senador Chris Van Hollen (D-Md.) True Shutdown Fairness Act, que forneceria pagamento atrasado e contínuo a trabalhadores federais, empreiteiros e militares durante a paralisação, bem como ao senador Gary Peters (D-Mich.) Lei de Proteção aos Empregados Militares e Federais, que forneceria uma parcela imediata de pagamento atrasado. Esses trabalhadores — militares, civis e do setor privado — servem ao povo americano dia após dia de inúmeras maneiras”, escreveu Calemine.  

“Muitos funcionários federais, junto com os militares, foram obrigados a cumprir suas funções sem remuneração. Outros trabalhadores e empreiteiros federais querem trabalhar, mas foram dispensados e impedidos de trabalhar. Embora os salários tenham parado, as contas não. O aluguel precisa ser pago. Os pagamentos da hipoteca são devidos. Os mantimentos devem ser comprados.” 

Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais, vinculado ao Instituto Lavoro traduziu este texto e outras informações da página de Common Dreans

“Coloque os trabalhadores em primeiro lugar”  

…diz a AFL-CIO irritada com a agenda de Trump e a paralisação do governo “A mensagem do movimento trabalhista para a administração é clara: mãos à obra. Financie o governo. Corrija a crise da saúde.”

Jessica Corbet

A maior federação de sindicatos dos Estados Unidos convocou a administração do presidente Donald Trump na quarta-feira, depois que uma paralisação do governo começou à meia-noite após a falha na votação de projetos da lei de orçamento do Congresso.  

“O governo federal está fechando agora porque o presidente Trump e seu governo escolheram o caos e a dor em vez de um governo responsável”, declarou Liz Shuler, presidente da Federação Americana do Trabalho e do Congresso de Organizações Industriais (AFL-CIO), em um comunicado.  

Agora”, disse ela, “inúmeros empregos, os serviços governamentais essenciais em que todos confiamos e a economia impulsionada por nossa força de trabalho estão em risco, tudo porque o governo quer dar mais uma olhada na destruição do Affordable Care Act (ACA) e expulsar os trabalhadores de nossos serviços de saúde”.  

Os republicanos controlam a Casa Branca e as duas câmaras do Congresso, mas precisam de algum apoio democrata para levar a maioria das leis à votação final no Senado. Enquanto o Partido Republicano queria aprovar um projeto de lei provisório aprovado pela Câmara, os democratas lutaram para estender os subsídios expirados da ACA e reverter os cortes do Medicaid na chamada Lei One Big Beautiful Bill de Trump, ou HR 1. “Não são os políticos de Washington que estão em risco aqui — são os trabalhadores como nós.” 

 “Centenas de milhares de trabalhadores federais estão sendo bloqueados e podem perder os salários dos quais suas famílias dependem”, disse Shuler. “Empreiteiros federais, incluindo zeladores e funcionários do refeitório, não terão a garantia de pagamento atrasado. Não são os políticos de Washington que correm risco aqui — são trabalhadores como nós, mais de 80% dos quais vivem fora de DC e 30% são veteranos.”  

Trabalhadores federais considerados essenciais continuam trabalhando durante uma paralisação, e aqueles considerados não essenciais são dispensados; nenhum recebe pagamento até que o governo reabra. O governo Trump ameaçou usar a paralisação para continuar o esforço do Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) para destruir a burocracia federal.  

Essas são as pessoas que enviam nossos cheques da Previdência Social a tempo, mantêm nossa comida e água seguras, cuidam de nossos veteranos e nos protegem em aeroportos e durante desastres naturais”, observou Shuler. “De acordo com a agenda do Projeto 2025/DOGE do governo, trabalhadores federais foram demitidos, recontratados e demitidos novamente. Eles foram despojados de seus direitos de negociação coletiva e contratos sindicais.”  

Agora, o presidente Trump está fechando o governo, usando trabalhadores federais como peões e ameaçando demiti-los ilegalmente — tudo para evitar resolver a crescente crise de custos de saúde que prejudicará milhões de americanos”, concluiu. “A mensagem do movimento sindical para a administração é clara: mãos à obra. Financie o governo. Corrija a crise da saúde. Coloque os trabalhadores em primeiro lugar.”

Líderes de afiliados da AFL-CIO compartilharam mensagens semelhantes na quarta-feira, incluindo o presidente nacional da Federação Americana de Funcionários do Governo (AFGE), Everett Kelley, que enfatizou que “quando o governo fecha, as famílias americanas pagam o preço”.  

O Congresso deve parar de fazer política com os meios de subsistência dos trabalhadores federais e das comunidades que eles servem, acabar com essa paralisação imediatamente e parar de manter os trabalhadores como reféns”, disse ele. “Esses funcionários devem poder realizar seu trabalho sem interferência política. Em vez disso, esses funcionários e os serviços que eles prestam estão sendo lançados no caos porque o Congresso se recusa a agir.”  

Para piorar a situação”, observou Kelley, “o presidente Trump e o diretor do Escritório de Gestão e Orçamento, Russell Vought, estão ameaçando demitir ilegalmente um grande número de funcionários federais durante a paralisação do governo para infligir mais dor às comunidades e trabalhadores em todo o país — uma ação que já estamos contestando nos tribunais”. 

 

 

Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais: Grécia aumenta a Jornada de Trabalho

Silvia Portela

O governo e a classe dominante grega querem, mais uma vez, empurrar para a classe trabalhadora a solução dos problemas econômicos do pais. A duração do trabalho aprece desta vez como o remédio para a crise social.

O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais, vinculado ao Instituto Lavoro traduziu este texto da agência de noticias Reuters.

Grécia adota lei que estende o horário de trabalho apesar dos protestos

Por Angeliki Koutantou e Renee Maltezou, publicado em 16 de outubro de 2025

Sindicatos gregos realizam greve de um dia para protestar contra o horário de trabalho estendido.

Projeto de lei permite jornadas de trabalho de 13 horas e visa mercado de trabalho flexível

Trabalhadores protestam, temem o enfraquecimento de direitos em meio à crise do custo de vida

A recuperação econômica da Grécia não melhora os salários, o poder de compra permanece baixo

 

O parlamento da Grécia aprovou um projeto de lei na quinta-feira apesar dos protestos de trabalhadores que já enfrentam uma crise de custo de vida. A lei aprovada permite que empregadores do setor privado estendam o horário de trabalho.

O projeto de lei, que permite que os empregadores apliquem dias de trabalho de 13 horas, acima das oito horas atuais, visa tornar o mercado de trabalho mais flexível e eficaz, diz o governo conservador.

Mas a proposta desencadeou duas greves gerais neste mês de trabalhadores que a veem como uma medida para minar seus direitos, no momento em que enfrentam a estagnação dos salários e o aumento dos custos de alimentação e aluguel.

“Quando o resto da Europa está discutindo a redução do horário de trabalho, na Grécia nós o aumentamos”, disse o barman Themis Lytras, de 41 anos, que disse que seu aluguel dobrou nos últimos dois anos.

A Grécia já tem uma das semanas de trabalho mais longas da Europa, com cerca de 40 horas, mostram dados da UE, contra uma média de 34 horas trabalhadas na Alemanha e 32 na Holanda.

Grécia está se recuperando de uma crise debilitante da dívida de 2009-2018, marcada por anos de aperto de cinto, que destruiu um quarto da produção nacional. O forte crescimento econômico nos últimos anos abriu espaço para cortes de impostos e aumentos salariais. Mas os salários permanecem abaixo dos níveis anteriores à crise e o poder de compra dos gregos está entre os mais baixos da União Europeia, mostram dados do Eurostat.

O governo do primeiro-ministro Kyriakos Mitsotakis viu sua popularidade diminuir nas pesquisas de opinião, em parte devido à decepção com o fracasso da recuperação econômica em gerar padrões de vida mais elevados. “Depois da crise, esperávamos um retorno à normalidade”, disse George Koutroumanis, ex-ministro do Trabalho que chamou a nova lei de “absurda”.

O turno de trabalho estendido só pode ser aplicado três dias por mês e até 37 dias por ano. O projeto protege as pessoas de serem demitidas se elas se recusarem a trabalhar horas extras, mas os sindicatos dizem que isso priva os trabalhadores do poder de negociação em um país onde há trabalho não declarado e onde os salários médios permanecem relativamente baixos.

O projeto de lei, que também dá aos empregadores mais flexibilidade em contratações de curto prazo e permite que os funcionários trabalhem quatro dias por semana durante todo o ano, mediante acordo prévio, foi aprovado pela maioria dos legisladores no parlamento de 300 assentos.

Reportagem adicional de Mark John e Lefteris Papadimas Edição de Ed Osmond, Edward McAllister e Gareth Jones

Diretiva Européia de Trabalho em Plataforma, por Silvia Portela 

Silvia Portela

Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais, vinculado ao Instituto Lavoro produziu este texto com base nas informações do The Gig Economy Project  um projeto de Brave New Europe um site educacional com sede em Londres, uma publicação especializada com uma face e uma atitude radicais em relação à política, economia e política ambiental europeias . 

Em 24 de abril do ano passado o Parlamento Europeu, depois de uma grande discussão, aprovou a Diretiva Européia de Trabalho em Plataforma. A proposta, patrocinada por um grande numero de sindicatos e associações, recebeu 87% dos votos parlamentares. 

Depois de anos de discussão e disputas sobre a lei, 554 parlamentares votaram a seu favor, 56 votaram contra e 24 se abstiveram.  

Para que se alcançasse essa situação favorável muitos percalços foram superados. Mesmo o compromisso para a aprovação do projeto alcançado em fevereiro de 2024 foi cancelado quando, por pressão das  plataformas de trabalho uberizado, quatro países (Estônia, Grécia, Franca e Alemanha)  o abandonaram. Na continuidade da mobilização os dois primeiros países voltaram ao acordo de fevereiro, isolando Franca e Alemanha. 

A Diretiva de Trabalho em Plataforma busca resolver o problema do falso trabalho autônomo estabelecendo uma presunção legal de emprego na economia de plataforma, um instrumento legal para determinar o status trabalhista. No entanto, ela deixa que os estados membros decidam sobre os detalhes mais importantes dessa presunção legal 

A Diretiva também cria um novo conjunto de direitos para trabalhadores temporários em relação ao gerenciamento algorítmico, incluindo o direito de saber quais dados são mantidos sobre você e o direito à supervisão humana sobre importantes decisões automatizadas, como suspender ou desativar a conta de um funcionário.  

A euro deputada Elisabetta Gualmini, relatora do Parlamento Europeu sobre a Diretiva, falou aos deputados antes da votação, afirmando: “Quando o Parlamento Europeu age com determinação e unidade, a UE consegue realmente mudar a vida dos cidadãos para melhor”. Ela disse que a Diretiva foi “um sinal maravilhoso e é algo que permanecerá na história deste Parlamento”, acrescentando que cerca de 6 milhões de trabalhadores que atualmente trabalham por conta própria na UE agora “serão governados por condições objetivas de emprego”.  

Promulgada a Diretiva 

Finalmente em outubro de 2024 foi promulgada a Diretiva do parlamento europeu e o Conselho para Melhora das Condições na Economia de plataforma. Em 11 de novembro o boletim oficial da UE publicou a Diretiva (UE) 2024/2831  de 23 de outubro de 2024 relativa à melhoria das condições de trabalho em plataformas digitais. (incluir o link https://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/TXT/HTML/?uri=OJ:L_202402831 ) 

Depois de um extenso considerando, a Diretiva estabelece seus objetivos de   melhora das condições de trabalho e a proteção dos dados pessoais no trabalho em plataformas digitais através: 

  1. a) Da introdução de medidas para facilitar a determinação do estatuto profissional correto das pessoas que trabalham em plataformas;
  2. b) Da promoção da transparência, da equidade, da supervisão humana, da segurança e da responsabilização na gestão algorítmica do trabalho em plataformas digitais; e
  3. c) Da melhoria da transparência relativa ao trabalho em plataformas digitais, inclusive em situações transfronteiriças.“

Diretiva garante “direitos mínimos aplicáveis a todas as pessoas que trabalham em plataformas digitais na União que têm um contrato de trabalho ou relação de trabalho ou que, com base numa apreciação dos factos, se possa determinar que têm um contrato de trabalho ou relação de trabalho, tal como definidos pelo direito, por convenções coletivas ou pelas práticas em vigor nos Estados-Membros, tendo em conta a jurisprudência do Tribunal de Justiça“. 

E estabelece regras para proteger os direitos sobre seus dados pessoais, “prevendo medidas em matéria de gestão algorítmica aplicáveis às pessoas que trabalham em plataformas digitais“. 

Presunção legal na relação 

Uma questão fundamental na Diretiva encontra-se na presunção que a relação contratual é uma relação de trabalho “quando se verificarem factos que indiciem a direção e o controlo, nos termos do direito nacional, das convenções coletivas ou das práticas em vigor nos Estados-Membros e tendo em conta a jurisprudência do Tribunal de Justiça“. Se a plataforma de trabalho não concordar com essa presunção legal cabe a ela o ônus da prova. 

Diretiva estabelece também uma serie de restrições ao tratamento das informações pessoais dos trabalhadores defendendo sua privacidade e seus direitos, a chamada gestão algorítmica. Ela também defende a transparência na gestão dos sistemas de monitoramento dos trabalhadores.  

A promulgação da Diretiva abriu um processo de dois anos para a incorporação dos seus preceitos nas legislações nacionais. Os conflitos que se abriram com o inicio desse processo estão sendo acompanhados pela Confederação Sindical Européia. O seu secretário confederal, Ludovic Voet, criou um grupo de trabalho de especialistas para apoiar a transposição da Diretiva para a legislação nacional. 

Trabalhadores se reúnem no Platforum  

À medida que os países se aproximam desse prazo final para colocar a diretiva de trabalho da plataforma em ação, trabalhadores de plataformas, representantes sindicais, formuladores de políticas e acadêmicos de todos os 27 estados membros da UE se reuniram no final de setembro em Chipre para a quarta edição do Platforum, o principal evento sobre trabalho em plataforma organizado pela Confederação Sindical Europeia (ETUC). 

  

  

Entrevista: Reajuste do salário mínimo é um “multiplicador maior” da economia brasileira

O salário mínimo é, além de um piso de remuneração, uma “proteção social significativa”, que também estimula o consumo e a própria demanda agregada, sendo um “multiplicador maior” da economia brasileira. A fala é de Nelson Marconi, mestre e doutor em economia pela FGV EAESP, em entrevista ao Projeto Brasil.

Em conversa com Luis Nassif e Sergio Leo, eles apontam como o reajuste do salário mínimo, que serve como piso salarial e indexa benefícios sociais, afeta tanto as despesas fiscais quanto o dinamismo da economia por meio do estímulo ao consumo.

Eles ainda exploram o efeito multiplicador do gasto das classes de renda mais baixa e questionam a visão de que os aumentos salariais levam inevitavelmente a um colapso fiscal, destacando que o aumento da demanda pode gerar receita.

Segundo Marconi, o salário mínimo é “o multiplicador do gasto das camadas mais menos favorecidas da população cujo salário está vinculado ao mínimo”, gerando o aquecimento da economia que gera a receita.

Na conversa, eles abordam também a complexidade do mercado de trabalho informal e a pejotização, discutindo se a correção do salário mínimo contribui para a informalidade ou se esta é mais influenciada pela diferença na tributação e pela economia digital.

Por fim, os debatedores falam sobre dilemas macroeconômicos mais amplos, como a meta inflacionária e a taxa de juros, e a necessidade de o Brasil adotar estratégias industriais mais competitivas e planejadas.

Assista à íntegra do episódio do Projeto Brasil no Youtube:

Luís Nassif e Carlos Gadelha reúnem grandes mentalidades em SP para pensar a soberania e inovação do país

Evento do Projeto Brasil conta com apoio de instituições renomadas e será aberto ao público mediante inscrição; saiba como participar

Dia 30 de outubro, o jornalista Luís Nassif e o economista Carlos Gadelha recebem um time de especialistas de setores estratégicos, em um encontro de alto nível e aberto ao público, para debater políticas públicas e o futuro produtivo e inovador do Brasil, no auditório da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), em São Paulo. O evento é uma realização do Projeto Brasil e do grupo de pesquisa Desenvolvimento Sustentável, CT&I e Complexo Econômico-Industrial da Saúde (GPCEIS) do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE-Fiocruz/Ministério da Saúde).

O Seminário “Soberania, Inovação e Desafios Nacionais” terá entre os convidados o cientista climático e referência em sustentabilidade Carlos Nobre, que abordará o eixo Meio Ambiente; a deputada Jandira Feghali (PSOL), relatora da Lei Aldir Blanc e ex-secretária de Cultura do Rio de Janeiro, para tratar de Cultura; o presidente do Conselho Nacional de Educação do MEC e número 2 de Fernando Haddad em São Paulo, César Callegari, que será o expositor de Educação.

Ainda, a coordenadora da Comissão Interministerial de Contratações Públicas do Ministério de Gestão e Inovação, Gabriela Maretto, falará de Compras Públicas; o coordenador de pesquisas em Defesa e especialista aeroespacial Marcos Barbieri trará o eixo Defesa, e o Assessor da Presidência e membro da Comissão de Assuntos Estratégicos do BNDES, Antônio Lacerda, conversará sobre a Soberania Produtiva no Brasil. Como um dos organizadores do evento, Carlos Gadelha trará suas experiências sobre as Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDP), que representam um modelo de política industrial e de inovação orientado às necessidades sociais.

Eles irão compor uma mesa única, sob a mediação de Nassif e Gadelha, em uma oportunidade inédita de interconexão, promovendo o intercâmbio de conhecimentos e experiências-chave para pensar, de forma conjunta, novas políticas de desenvolvimento produtivo e inovação em diferentes áreas importantes do país. Aberto ao público e gratuito, mediante prévia inscrição, o evento conta com vagas limitadas. A inscrição deve ser feita aqui.

Uma agenda ambiciosa para repensar o Brasil

O tema central da mesa — a articulação entre soberania e inovação — foi concebido para responder a uma pergunta crucial: como garantir que os processos de inovação no Brasil fortaleçam nossa autonomia estratégica, em contrapartida às dependências externas? A proposta é deslocar o foco do mero discurso estimulador de ‘Startups’ para o cerne da política pública: infraestrutura, regulação, financiamento e inteligência institucional voltados à ampliação do acesso aos direitos sociais.

Durante o debate, serão abordadas dimensões como:

  • Modelos de financiamento público e privado para a inovação, inclusive mecanismos de fomento que equilibrem risco e incentivo;
  • Infraestrutura crítica e regulação digital, pensadas como base de soberania e não apenas como agenda tecnológica;
  • Convergência de políticas científicas e indústria nacional, buscando integrar pesquisa acadêmica ao desenvolvimento produtivo local;
  • Desafios institucionais e coordenação governamental, especialmente no contexto de arranjos federativos e articulação entre os entes da República.

 

Painelistas e Eixos Estratégicos

A mesa reúne importantes nomes entre pesquisadores, gestores públicos e lideranças do setor privado, todos com trajetória reconhecida em temas de inovação, políticas públicas e estratégia nacional, envolvendo os eixos estratégicos:

O que está em jogo: Soberania tecnológica

A proposta deste encontro vai além da busca da inovação como resposta automática ao “atraso”. Ele desafia os participantes a pensarem políticas sistêmicas que articulem: 

  1. Autonomia estratégica, de modo que o Brasil não dependa exclusivamente de tecnologias e capitais externos;
  2. Inclusão territorial e social, assegurando que os benefícios da inovação cheguem além de polos urbanos concentrados;
  3. Sustentabilidade democrática e ética, considerando impactos sociais, privacidade, desigualdades de acesso e proteção de dados.

 

Desdobramentos esperados 

Ao final da mesa, os temas tratados serão sistematizados em um documento com recomendações (propostas ou “mini-agenda”) que será entregue a instituições públicas, parlamentares e órgãos de fomento. A ideia é que o debate transcenda o espaço do evento e possa alimentar agendas de políticas públicas nos próximos anos.

Para nós, Projeto Brasil e Jornal GGN, o compromisso é visibilizar este diálogo para além de um público técnico restrito. Queremos abrir essa discussão para leitores interessados em política, ciência e estratégia nacional — refletir sobre o Brasil que queremos construir.

Convidamos você, leitor, a acompanhar este importante encontro “Soberania, Inovação e Desafios Nacionais”, que será aberto ao público presencial, e participar desse esforço coletivo de pensar inovação com soberania.

 

Serviço: Mesa de Encontro “Soberania, Inovação e Desafios Nacionais”

Dia: 30 de outubro
Horário: Das 14h às 17h
Local: Auditório da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo)
📍Rua General Jardim, 522 – Vila Buarque, São Paulo.

Faça a sua inscrição aqui.

OMS alerta sobre condições de trabalho na Saúde

Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais

Por Silvia Portela 

Neste dia 10 de Outubro, Dia Mundial da Saúde Mental, trazemos este alerta da Organização Mundial da Saúde OMS-Europa sobre o sofrimento e angústia dos profissionais da saúde com os transtornos causados por más condições de trabalho. Ainda que o relatório da OMS refira-se aos trabalhadores europeus, não resta duvida que essa mesma situação atinge os trabalhadores brasileiros da saúde.  

Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais, vinculado ao Instituto Lavoro transcreveu este texto  do boletim ONU News da Divisão de Jornalismo das Nações Unidas. 

OMS na Europa alerta para casos de depressão em agentes de saúde

OMS-Europa revelou que grande parte de profissionais de medicina e enfermagem têm transtornos de saúde mental e bem-estar por causa das condições de trabalho 

ONU News, 10 Outubro 2025    

Um em cada três profissionais de enfermagem e medicina sofre de depressão, um em cada 10 sofreu violência física e/ou assédio sexual e um em cada 10 tem pensamentos suicidas, revela novo relatório da Organização Mundial da Saúde, OMS, na Europa; 10 de outubro é o Dia Mundial da Saúde Mental. 

Num alerta preocupante divulgado no Dia Mundial da Saúde Mental, neste 10 de outubro, um estudo do Escritório da Organização Mundial de Saúde na Europa, OMS-Europa, revelou que grande parte de profissionais de medicina e enfermagem têm transtornos de saúde mental e bem-estar por causa das condições de trabalho. 

O relatório “A Saúde Mental de Médicos e Enfermeiros” mostra que um em cada três profissionais sofre de depressão ou ansiedade e um em cada 10 pensou que “seria melhor estar morto”, duas semanas antes de ser entrevistado para a pesquisa. 

Uma crise silenciosa nos hospitais da Europa 

O inquérito conhecido como Mend recolheu e analisou mais de 90 mil respostas de profissionais de saúde nos 27 países da União Europeia, além da Islândia e da Noruega. 

Os resultados revelam o impacto direto de anos de subfinanciamento dos sistemas de saúde europeus. 

Nos últimos 12 meses, um em cada três médicos e enfermeiros foi alvo de bullying ou intimidações, e 10% reportaram ter sofrido violência física ou assédio sexual. 

Além disso, um em cada quatro médicos trabalha mais de 50 horas por semana, enquanto cerca de um terço dos médicos e um quarto dos enfermeiros têm contratos temporários, o que alimenta a ansiedade e a insegurança profissional. 

Quase 1 bilhão com transtornos mentais 

As condições de saúde mental incluem transtornos mentais e deficiências psicossociais, bem como outros estados mentais associados a sofrimento significativo, comprometimento no funcionamento ou risco de autolesão. 

Em 2019, 970 milhões de pessoas em todo o mundo viviam com um transtorno mental, sendo ansiedade e depressão os mais comuns. 

As condições de saúde mental podem causar dificuldades em todos os aspectos da vida, incluindo relacionamentos com família, amigos e comunidade. Elas podem levar ainda a problemas na escola e no trabalho. 

Globalmente, pessoas com condições graves de saúde mental morrem de 10 a 20 anos mais cedo do que a população em geral. 

Além disso, ter uma condição de saúde mental aumenta o risco de suicídio e de sofrer violações dos direitos humanos. As consequências econômicas das condições de saúde mental também são enormes, com as perdas de produtividade superando significativamente os custos diretos de cuidado. 

População geral 

De acordo com a OMS, estas condições estão diretamente ligadas à deterioração da saúde mental. 

Os profissionais expostos a violência, longas jornadas e turnos noturnos têm o dobro da probabilidade de sofrer de depressão ou ansiedade e de desenvolver pensamentos suicidas, em comparação com a população geral. 

Hans Henri P. Kluge, diretor regional da OMS-Europa, afirmou que “o resultado do inquérito é um lembrete claro de que os sistemas de saúde da Europa são tão fortes quanto as pessoas que os sustentam”. 

Tolerância zero 

Kluge ressaltou que um em cada três médicos e enfermeiros vive com depressão ou ansiedade, e mais de um em cada 10 já pensou em acabar com a própria vida, representando “um fardo inaceitável sobre aqueles que cuidam de nós”. 

O diretor regional apelou a medidas imediatas para enfrentar esta crise, incluindo a tolerância zero para a violência e o assédio, reformas nos turnos e horas extra para pôr fim à cultura de exaustão, redução das cargas de trabalho através de investimentos em tecnologia e contratação inteligente, e apoio psicológico confidencial e livre de estigma para todos os profissionais de saúde. 

Movidos pelo propósito 

Apesar da sobrecarga e do sofrimento psicológico, a maioria dos profissionais mantém um forte sentido de missão: três em cada quatro médicos e dois em cada três enfermeiros afirmam encontrar propósito e satisfação no seu trabalho. 

A médica francesa, Mélanie Debarreix, residente em radiologia, relatou que “os médicos estão fisicamente e mentalmente exaustos, o que infelizmente pode levar a erros e que estas condições têm um impacto devastador na saúde mental dos profissionais”. 

Para ela, 66% dos estudantes de medicina, na França, já viveram um episódio depressivo e 21% tiveram pensamentos suicidas no último ano. 

Quando quem cuida adoece 

O relatório alerta que o sofrimento mental dos profissionais de saúde tem consequências diretas para os pacientes e para o funcionamento dos sistemas de saúde. 

Dependendo do país, até 40% dos médicos e enfermeiros com sintomas depressivos tiraram licença médica no último ano, e entre 11% e 34% consideram abandonar a profissão. 

Essa perda de capacidade humana traduz-se em tempos de espera mais longos, cuidados de menor qualidade e maior pressão sobre os serviços públicos. 

Escassez crescente e necessidade de ação urgente 

A OMS alerta que, se nada for feito, a Europa enfrentará uma escassez de 940 mil profissionais de saúde até 2030. 

Melhorar as condições de trabalho, reduzir o absenteísmo e reter profissionais é essencial para garantir que os sistemas de saúde estejam preparados para futuras crises. 

O relatório da OMS-Europa define sete ações políticas urgentes: implementar tolerância zero à violência, melhorar a previsibilidade dos turnos, controlar as horas extra, reduzir cargas de trabalho, treinar líderes e responsabilizá-los, ampliar o acesso a apoio psicológico e monitorar regularmente o bem-estar dos profissionais. 

Kluge, por fim, declarou que “com a Europa a caminho de perder quase um milhão de profissionais de saúde até 2030, não podemos permitir que o burnout, o desespero ou a violência destruam esta força vital”. 

Nassif expõe a Comunicação Política na Semana Internacional da Soberania Tecnológica

Fundador do GGN e do Projeto Brasil, o jornalista Luís Nassif foi o expositor da Comunicação Política no IV Simpósio Internacional em Inovação e Governança Digital e II Conferência em Estratégia, Tecnologia e Soberania, nesta quinta-feira (09), às 14h, em Brasília.

O evento realizado nesta semana consolida-se como um dos principais fóruns de debate sobre governança tecnológica, inovação e democracia digital no Brasil, reunindo pesquisadores, gestores públicos, empreendedores e representantes da sociedade civil.

Um dos destaques da programação desta quarta foi a apresentação do jornalista Luís Nassif, referência no jornalismo econômico e político brasileiro. Com décadas de atuação passando por grandes veículos, Nassif é fundador do Jornal GGN e do Projeto Brasil. Ele participou da mesa “Comunicação Política num Mundo Digital Interconectado”, ao lado da jornalista Sávia Barreto.

O debate discutiu os desafios da comunicação no cenário digital global, em que as disputas narrativas, a concentração de plataformas e os algoritmos moldam o espaço público e as formas de participação democrática. A presença de Nassif reforça o compromisso do evento em promover reflexões críticas sobre soberania comunicacional, pluralidade informativa e autonomia tecnológica — temas estratégicos para as sociedades contemporâneas.

A Semana da Soberania Tecnológica é uma realização do IBRICS+ e do CGI.br (Comitê Gestor da Internet no Brasil), em parceria com o governo federal, por meio do Ministério da Gestão e Inovação em Serviços Públicos e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. O evento conta ainda com apoio do Projeto Brasil, que faz a transmissão ao vivo pelo canal do YouTube, ampliando o acesso do público aos debates.

Com foco em temas como Inteligência Artificial aplicada às políticas públicas e à participação cidadã, a conferência reúne mesas-redondas, atividades interativas, coworking acadêmico e um Hackathon de Políticas Públicas, articulando perspectivas éticas, regulatórias e democráticas para um mundo multipolar e digitalmente conectado.

Assista à íntegra do Seminário desta quinta-feira:

Serviço:
Semana da Soberania Tecnológica – IV Simpósio Internacional em Inovação e Governança Digital e II Conferência em Estratégia, Tecnologia e Soberania
📅 7 a 10 de outubro
📍 Brasília, DF
🎥 Transmissão: Canal do YouTube do Projeto Brasil

Brasil está na reta final do plano para a Ciência e Tecnologia dos próximos 5 anos

Está em curso o desenvolvimento da Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ENCTI), um importante instrumento para a Ciência e Tecnologia brasileira que serve de guia para os investimentos e práticas do país para o setor.

Ao longo dos últimos meses, o Grupo de Trabalho (GT) que desenvolve o instrumento realizou diversos encontros e reuniões com os setores envolvidos e a sociedade civil. O Projeto Brasil decidiu reunir essa equipe de pesquisadores e mentalidades por trás da nova Estratégia Nacional e trazer ao público os debates, os principais apontamentos que estão sendo finalizados e os desafios do setor para marcar os rumos de como o Brasil pretende colocar em prática o desenvolvimento da Ciência e da Tecnologia brasileira para os próximos 5 anos.

Para Francilene Procópio Garcia, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), os encontros, que foram coroados com a 5ª Conferência Nacional, realizada entre agosto e julho do ano passado, mostraram a importância da escuta da sociedade para o tema e das capacidades do país:

“O engajamento da sociedade é muito importante. Essa escuta que é realizada do norte ao sul do país, ela traz também a perspectiva das pessoas que estão em diferentes áreas. E está ligado ao conjunto de políticas públicas que o Brasil volta a elaborar. A retomada dos conselhos, o Conselhão, as ações inter-conselhos são fundamentais para esse processo de construção, no momento que nós enfrentamos desafios extremamente complexos. A pandemia, a crise sanitária mostrou a gente que na hora do ‘vamos ver’, quem se vale para a sobrevivência é a ciência. A gente tem essa certeza desde então, e agora nesse movimento de reorganização política. Mais ainda, a geopolítica já mostra que a soberania ela está extremamente vinculada à nossas capacidades. E aí eu diria que o Brasil tem suas próprias capacidades.”

Ainda, segundo Francilene, que é a primeira mulher nordestina a liderar a maior entidade científica da América Latina, o Brasil conta com estruturas centrais: uma base científica importante em diversas áreas, uma biodiversidade “fantástica”, centros de excelência, bons pesquisadores e tradição de políticas públicas em ciência. Mas ainda existe “um paradoxo”: “A gente não consegue ter um sistema estruturante para manter esse desenvolvimento científico. Então, por isso que eu digo em relação ao dia seguinte [ao lançamento do documento Estratégia Nacional], a gente tem competência científica, mas não tem estabilidade estrutural”.

Para Renato Janine, ex-presidente da SBPC e ex-Ministro, é preciso focar no que o Brasil pode oferecer de melhor e pode ser líder.

“O presidente Lula disse que quer uma inteligência artificial que fala em português. Podemos fazer isso, mas onde podemos ser líderes? E na nossa discussão surgiram sobretudo três temas em que o Brasil pode ser líder: primeiro, a biodiversidade amazônica e não só, porque nós temos seis biomas ricos importantes; as energias alternativas, dado que temos tanto sol, tanto vento no Brasil, sem contar a nossa histórica energia hidráulica; e a segurança e soberania alimentar, que também é muito importante.”

Ele defendeu também que a Estratégia Nacional seja um plano que ultrapasse os 5 próximos anos. “É uma pena que a estratégia nacional pelo decreto presidencial tem uma meta de 5 anos. Eu acho que deveria ter uma meta de décadas, porque tem coisas que a gente vai precisar construir a muito longo prazo. Eu imagino que para sermos líderes desses assuntos são 20, 30 anos de muito investimento, não só econômico, investimento de inteligência natural, da nossa inteligência”.

Os principais conteúdos e destaques da Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ENCTI), que está em elaboração pelo Grupo de Trabalho (GT), com base nas recomendações da 5ª Conferência Nacional, foram apresentadas com exclusividade ao Projeto Brasil pelos membros do grupo na SuperLive “A estratégia nacional de Ciência e Tecnologia” (veja o vídeo na íntegra):

Abaixo, sistematizamos com ferramentas de IA alguns dos principais conteúdos tratados para servir de consulta e referência futuras:


1. Contexto e Foco Central

A Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ENCTI) está na fase final de redação e é vista como um marco da retomada da ciência e da vocação democrática do Brasil, inserida em um projeto de desenvolvimento nacional.

O foco principal é a construção de um “Brasil justo, desenvolvido e soberano”, onde a CTI é consolidada como o “pilar central do desenvolvimento nacional”.

A Estratégia é orientada pela necessidade de abordar a soberania e a segurança nacional, temas que voltaram com força ao centro do debate político. A dimensão da soberania e do enfrentamento da dependência tecnológica é transversal e se materializa em todos os quatro eixos.

2. A Base da Estratégia: A 5ª Conferência Nacional

A Estratégia se apoia fortemente nas contribuições da 5ª Conferência Nacional de C, T & I, que demonstrou um amplo engajamento social:

  • Alcance: Ocorreu após 14 anos da conferência anterior (2010). Foi a maior conferência de todas, com 272 eventos prévios (regionais, municipais e temáticos) ao longo de 9 meses.
  • Participação: Totalizou 100.000 participantes, sendo 13.000 presenciais e 87.000 remotos.
  • Resultados: Foram geradas 521 recomendações, consolidadas em documentos como o Livro Lilás (leia aqui) e o Livro Violeta (acesse no Acervo do Projeto Brasil aqui), que servem de acervo para o GT.

 

3. A Estrutura da Estratégia: Quatro Eixos Básicos

A Estratégia Nacional está assentada sobre quatro eixos que guiam as ações e investimentos:

Eixo Foco Principal Destaques Explicativos
Eixo 1 Recuperação, Expansão e Consolidação do Sistema Nacional de CTI Foca em ações sistêmicas e horizontais, incluindo a garantia de infraestrutura, formação adequada de recursos humanos, desburocratização e o enfrentamento das assimetrias regionais (como a desigualdade de financiamento entre Sul/Sudeste e Norte/Nordeste).
Eixo 2 Inovação nas Empresas e Reindustrialização em Novas Bases Tecnológicas Busca o alinhamento com a política industrial (Nova Indústria Brasil – NIB) para canalizar investimentos em inovação. Áreas estruturantes: transição energética e descarbonização, complexo industrial e tecnológico da saúde, base industrial da defesa e mobilidade inteligente urbana (cidades inteligentes).
Eixo 3 Projetos Estratégicos para a Soberania Nacional Concentra-se em enfrentar as vulnerabilidades tecnológicas do país. Envolve a hierarquização de temas com base em graus de vulnerabilidade (baixo, médio, alto) para direcionar iniciativas e investimentos.
Eixo 4 Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento Social É focado em grandes projetos de desenvolvimento social para gerar impacto macro e melhores condições de vida para a maioria da população, evitando que o tema seja secundário.

4. Destaques Temáticos: Liderança vs. Vulnerabilidade

A Estratégia adota uma lógica de priorização em níveis (sugestão do GT) que evita a listagem alfabética de temas (presente na estratégia de 2016), focando onde o Brasil deve ser líder e onde é mais vulnerável.

A. Áreas de Liderança (Potencial de Ser Líder Global)

Estas áreas exigirão muito investimento de longo prazo (estimado em 20 a 30 anos) para consolidar o Brasil como líder mundial.

  1. Biodiversidade e Bioeconomia: Uso estratégico da biodiversidade amazônica e dos seis biomas ricos; inclui bioeconomia e biotecnologias associadas, dada a condição do país como megadiverso e sua capacidade científica consolidada.
  2. Energias Renováveis e Sustentáveis: Dada a abundância de energia hidráulica, solar e eólica. O Brasil já possui a matriz energética mais limpa entre os grandes países.
  3. Segurança e Soberania Alimentar e Agricultura Sustentável: Tema de importância central, onde o Brasil demonstra liderança. O caso da Embrapa é citado como sucesso, com retorno de R$ 21 a R$ 25 para a sociedade por real investido.

 

B. Áreas Críticas e Vulneráveis (Foco em Soberania Tecnológica)

O esforço é canalizar iniciativas e investimentos para as áreas onde a soberania tecnológica está mais ameaçada:

  • Vulnerabilidade Alta: Exemplo: Setor Espacial.
  • Vulnerabilidade Média: Exemplo: Setor Nuclear.
  • Tecnologias Críticas:
    • Soberania Digital: Tema crítico.
    • Inteligência Artificial (IA): O foco é garantir que o Brasil tenha presença, apesar de não ser um “super grande player” (devido à concorrência EUA/China). É necessário desenvolver IA que “fale em português” e garanta a soberania sobre os dados.
    • Tecnologias Quânticas: Um campo de ponta que, por estar em fase inicial de desenvolvimento global, oferece uma oportunidade para o Brasil ter uma contribuição maior, como sinalizado pelos recentes Prêmios Nobel de física.
    • Defesa e Segurança Nacional: Essencial para lidar com o crescente cerceamento e bloqueio de transferência de tecnologia.

 

C. Foco no Desenvolvimento Social (Eixo 4)

O Eixo 4 foca em grandes projetos que afetam a maioria da população, exigindo forte componente de CTI, incluindo:

  • Erradicação da Fome e Soberania Alimentar.
  • Mobilidade Urbana e Segurança Pública.
  • Promoção de Tecnologias Sociais e economia criativa, garantindo que as tecnologias básicas cheguem aos pequenos produtores.
  • Inclusão da ciência indígena e dos saberes tradicionais.
  • Comunicação da Ciência à Sociedade (políticas ousadas para que a população saiba o que a ciência brasileira faz).

 

5. Desafios Sistêmicos: Financiamento de Longo Prazo

A comunidade científica reconhece que o sistema carece de estabilidade estrutural e que o investimento em ciência deve ser tratado como capital, não como gasto.

A. O Desafio do FNDCT e a Regra Fiscal

Embora o descontingenciamento do FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) tenha sido uma conquista fundamental, ele não é suficiente.

  • Instabilidade: Os recursos do FNDCT permanecem presos ao regime fiscal vigente e ao limite global de despesa primária, sujeitando-os à disputa orçamentária e à fragilização (ex.: grande demanda reprimida de bolsas do CNPq).

 

B. Propostas para um Novo Modelo de Financiamento

A estratégia exige a criação de um novo modelo de financiamento para CTI:

  1. Regra Fiscal para a Ciência: É vital retirar os investimentos em CTI das restrições fiscais (como feito em países como Alemanha e Chile), reconhecendo a ciência como capital importante.
  2. Piso Plurianual de Investimento Público: Estabelecer um piso para garantir estabilidade e permitir o planejamento de médio e longo prazo (décadas).
  3. Fundo Soberano: Criação de um fundo alimentado por novas lógicas de receitas, como royalties e créditos de carbono, para financiar CTI.
  4. Metas de Investimento: Chegar a 1,6% do PIB em 2028 e 2,5% do PIB até 2035 em investimento em pesquisa e desenvolvimento.
  5. Inovação Empresarial: É necessário criar uma estrutura de incentivos adequada para a promoção da inovação empresarial, combatendo o desincentivo gerado pelo alto retorno de aplicações especulativas.

 

6. A Visão de Longo Prazo e Próximos Passos

O sucesso da Estratégia Nacional depende de sua continuidade e de se tornar uma política de Estado, e não apenas de Governo.

  • Fôlego Necessário: O prazo de 5 anos definido pelo decreto presidencial é considerado insuficiente. A Estratégia e seus objetivos de liderança exigem um fôlego de décadas (20 a 50 anos).
  • Plano de Ações: O passo seguinte à aprovação da Estratégia será a elaboração de um Plano Decenal (ou Plano de Ação).
  • Detalhamento e Recursos: O Plano Decenal terá a responsabilidade de detalhar o financiamento específico para cada ação e transformar as diretrizes amplas da Estratégia em uma realidade factível, definindo editais e recursos de diferentes ministérios.

 

Terras Raras, A Nova Fronteira da Reindustrialização Brasileira, por Luís Nassif

Luís Nassif

Oportunidade está em dominar a cadeia produtiva: da separação ao produto final, passando por ímãs, motores, catalisadores, sensores.

O Brasil está diante de uma nova janela histórica — talvez a mais estratégica desde a descoberta do pré-sal. Com cerca de 23% das reservas mundiais estimadas de terras raras, o país tem em mãos um ativo geopolítico e tecnológico capaz de reposicioná-lo como potência industrial verde no século XXI.

A recente decisão da China de restringir exportações aos Estados Unidos reacende o interesse global por fontes alternativas. Nesse contexto, o gesto de aproximação entre Donald Trump e o governo Lula ganha contornos claros: garantir acesso às terras raras brasileiras.

Mas o desafio não é apenas geológico — é político, tecnológico e institucional. O Brasil precisa evitar repetir o ciclo colonial de extração e fuga de valor. A oportunidade está em dominar toda a cadeia produtiva: da separação ao produto final, passando por ímãs, motores, catalisadores, sensores e reciclagem.

Esta série apresenta um plano estratégico para transformar o potencial mineral em soberania industrial, com protagonismo das PMEs, atração de capital estrangeiro sob controle nacional e estímulo à inovação em setores críticos como mobilidade elétrica, saúde, defesa e cultura tecnológica.

As possibilidades trazidas pelas terras raras são grandiosas que, se o país jogar fora a oportunidade, não haverá perdão para os responsáveis.

Resumo Executivo:

  • O Brasil possui uma das maiores reservas de terras raras do mundo, mas ainda não domina sua cadeia produtiva.
  • A série propõe uma Política Nacional de Terras Raras (PNTR) com foco em industrialização, soberania tecnológica e sustentabilidade.
  • São identificados sete eixos industriais estratégicos, com destaque para eletromobilidade, eletrônicos, saúde, defesa e reciclagem.
  • As PMEs são colocadas no centro da estratégia, com instrumentos específicos de crédito, inovação e certificação.
  • A entrada de capital estrangeiro é estruturada em cinco zonas seguras, com cláusulas de controle nacional, transferência de tecnologia e reinvestimento obrigatório.
  • A proposta inclui mecanismos jurídicos, financeiros e diplomáticos para garantir que o Brasil agregue valor e não apenas exporte minério.
  • O objetivo é transformar as terras raras em vetor de reindustrialização verde, geração de empregos qualificados e inserção soberana na nova economia global.

 

Este artigo também consta no Acervo do Projeto Brasil, acesse clicando aqui.

 


 

Leia mais este e outros artigos do Especial GGN Terras Raras no Jornal GGN:

Especial GGN: Terras Raras, A Nova Fronteira da Reindustrialização Brasileira

Eixos de Desenvolvimento Industrial Baseados em Terras Raras

O papel das PMEs no Plano Nacional de Terras Raras

O papel do capital estrangeiro na Política Nacional de Terras Raras

Seminário pré-COP 30 discute a capacidade do Estado como motor do desenvolvimento sustentável

Às vésperas da 30ª Conferência das Partes (COP 30), o Rio de Janeiro sedia, nos dias 6 e 7 de outubro, o “States of the Future 2”, um seminário internacional que busca discutir um dos temas centrais para o futuro do planeta: a capacidade do Estado de promover o desenvolvimento sustentável.

Organizado pelo Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI) em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), e com apoio da Organização de Estados Ibero-americanos (OEI) e da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o evento dá continuidade aos debates iniciados durante a presidência brasileira no G20, em 2024. O encontro reúne especialistas e formuladores de políticas públicas para refletir sobre as arquiteturas institucionais, financeiras e sociais necessárias para construir um futuro mais justo, resiliente e sustentável.

Entre os destaques da programação foi a participação do professor e pesquisador da Fiocruz, Carlos Gadelha, conselheiro consultivo do Projeto Brasil, que compõe a mesa “Instrumentos Econômicos para Acelerar a Transição Justa”, nesta segunda-feira (7), às 9h. Coordenador da rede de pesquisa “Desenvolvimento Sustentável, CT&I e Complexo Econômico-Industrial da Saúde (GPCEIS)”, Gadelha defende que o Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS) representa um novo motor para o desenvolvimento nacional.

Assista a um trecho do pesquisador aqui.

“Colocar o SUS e a vida no centro da estratégia de política industrial e de inovação é uma escolha moral e uma decisão econômica e política que definem as novas apostas para o desenvolvimento inclusivo e sustentável em nosso país”, afirma o pesquisador.

Em um cenário global marcado por desordem geopolítica, tensões democráticas, transformações tecnológicas aceleradas e mudanças climáticas, o seminário destaca a importância de fortalecer o setor público como agente inovador, capaz de liderar a transição para economias sustentáveis e socialmente inclusivas.

O evento acontece no Centro Cultural da FGV, em Botafogo (RJ), e é transmitido ao vivo, pelo canal do Ministério da Gestão no YouTube, ampliando o acesso ao debate sobre os rumos do desenvolvimento sustentável no Brasil e no mundo.

Super live do Projeto Brasil vai debater a estratégia nacional de Ciência e Tecnologia

Nesta quinta-feira (09), às 18h, a TV GGN transmite um seminário especial do Projeto Brasil, reunindo alguns dos nomes mais influentes da política de inovação para debater o futuro da estratégia nacional de Ciência e Tecnologia.

O debate acontece em um momento decisivo, no qual o Brasil busca fortalecer sua posição internacional e ampliar a integração entre universidades, empresas e governo. A mediação será do jornalista Luís Nassif, que conduz a conversa entre:

– Francilene Procópio Garcia, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) — primeira mulher nordestina a liderar a maior entidade científica da América Latina

– Luis Fernandes, secretário-executivo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI);

– Sérgio Rezende, físico, professor e ex-ministro de Ciência e Tecnologia no segundo governo Lula;

– Anderson Gomes, diretor do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) e vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências para o Nordeste e o Espírito Santo;

– Fernando Rizzo, engenheiro, acadêmico e ex-diretor do Instituto Nacional de Tecnologia (INT/MCTI).

A expectativa é que o encontro vá além da análise conjuntural, trazendo diagnósticos e apontando caminhos concretos para consolidar uma política nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) à altura dos desafios globais.

Acompanhe, neste 9 de outubro, às 18h, ao vivo no canal da TV GGN. Ative o sininho para receber o lembrete da transmissão:

A revolução das pequenas empresas no Brasil: entrevista com presidente do Sebrae

Em entrevista especial ao Projeto Brasil (confira abaixo), Décio Lima, presidente do Sebrae, aborda o papel crucial das micro e pequenas empresas no desenvolvimento socioeconômico e na consolidação da democracia no Brasil. Segundo ele, o setor é o principal gerador de empregos e distribuidor de riqueza, citando estatísticas sobre a criação de empresas, a credibilidade do Sebrae, e o impacto da pequena economia na retirada de pessoas do Mapa da Fome. Além disso, ele destaca os desafios do acesso ao crédito para pequenos empresários e a importância da digitalização, inovação e sustentabilidade para a longevidade e escala dos negócios no cenário global.

Conforme detalhado na entrevista, Lima elenca como o Sebrae tem implementado estratégias e alcançado resultados notáveis nas áreas de crédito, digitalização e formalização empresarial. Uma das estratégias-chave é o Fundo Garantidor,  para fornecer a garantia que faltava à pequena economia, eliminando a dificuldade cultural do aval. Para mulheres, o fundo garantidor cobre 100% do valor, e o BNDES também tem contribuído para esses fundos.

Segundo o empresário, ao fornecer a garantia, o Sebrae reduz o risco para o sistema financeiro, o que consequentemente diminui as taxas de juros. O crédito é distribuído através de cooperativas de crédito, bancos públicos e, mais recentemente, bancos privados que começaram a atuar com o Sebrae. Além disso, utilizam o chamado “crédito assistido”, que impede o pequeno empresário de pegar dinheiro sem saber como aplicá-lo.

Como resultado dessa e de outras iniciativas, segundo presidente do Sebrae, a organização está caminhando para atingir R$ 12 bilhões de reais em crédito para a pequena economia até o final do ano, um aumento significativo comparado ao período anterior, em que o volume era de cerca de R$ 1 bilhão por ano.

Décio Lima também narrou outros programas de tecnologia e desenvolvimento, como o Neon Nordeste, que aglutina cerca de 20 mil jovens anualmente, entregando processos criativos extraordinários (startups), e de economia sustentável, como o Innova Amazonas, que se concentra em transformar a economia do bioma Amazônia, induzindo a economia sustentável.

Assista à íntegra da entrevista:

 

IBGE aposta em inovação estatística e soberania de dados para redesenhar políticas públicas

Em entrevista especial ao Projeto Brasil, exibida na TV GGN, Márcio Pochmann, presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), traçou um quadro ambicioso e urgente para a gestão pública brasileira: transformar um instituto historicamente reativo em um motor preditivo de políticas públicas. A virada de paradigma proposta aponta um caminho necessário: deixar de operar apenas sobre o “presente do passado” e começar a moldar o “presente do futuro”.

Pochmann denuncia a fragmentação histórica das bases de dados brasileiras, resultado de quase cinco décadas de silos institucionais que impedem uma visão integrada da sociedade. Para ele, não se trata apenas de modernizar equipamentos, mas de reconstruir o modo como o Estado pensa e age.

Para além do censo a cada década

Durante décadas, o IBGE operou com saltos tecnológicos espaçados, geralmente atrelados ao calendário censitário. Essa lógica já não se sustenta em um mundo de inovações constantes, sobretudo no campo digital. 

Para enfrentar esse desafio, o IBGE firmou parceria com o Serviço Federal de Processamento de Dados (SERPRO), responsável por processar cerca de 80% dos bancos de dados públicos do país. O objetivo é transformar a colaboração em uma espécie de “big tech pública”, capaz de lidar com volumes massivos de informações com soberania institucional, sem depender de soluções estrangeiras que podem comprometer o sigilo.

“Nesse sentido é que se abre a perspectiva de poder subsidiar as políticas públicas em relação à antecipação de fenômenos em termos de problemas e possibilidades”, explicou.

Inteligência preditiva como bússola governamental

O ponto central da fala de Pochmann é a transição: deixar de olhar apenas para o passado e projetar o futuro. A análise preditiva, segundo ele, pode ajudar desenhar soluções antes que suas consequências se agravem.

Um exemplo já em andamento é a aplicação do modelo nas Rotas de Integração Sul-Americana, em parceria com o Ministério do Planejamento e Orçamento. O IBGE está mapeando cidades em um raio de 100 km das rotas para identificar infraestrutura social (escolas, hospitais, universidades) e prever demandas antes do avanço urbano.

Outro caso é a inflexão demográfica: o Brasil deve atingir seu pico populacional em 2041, com cerca de 220 milhões de habitantes, e depois entrar em declínio. Além disso, 70% da população adulta que estará em 2050 já nasceu — grande parte em situação de vulnerabilidade social. Isso exige políticas de educação, saúde e habitação que rompam com a reprodução de desigualdades.

É importante, no nosso modo de ver, trazer para o período presente situações que já estão atuais, mas que ganharão dimensões, para que possamos ter políticas públicas mais precisas no Brasil. Penso que é um grande momento de revisão do papel do Estado”, disse.

Integração de ministérios

Para que a análise preditiva funcione, o IBGE trabalha na integração de dados de diversos ministérios, como:

  • Previdência: cadastro do INSS;

  • Desenvolvimento Social: beneficiários de programas sociais;

  • Educação: matrículas e censo estudantil do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP);

  • Saúde: bases da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), fundamentais para entender o impacto do envelhecimento e novas doenças.

Esse cruzamento permitirá não apenas uma visão global, mas também a antecipação de cenários como envelhecimento populacional, surtos epidemiológicos e novas demandas sociais.

Dados soberanos: controle, sigilo e institucionalidade

Outro ponto de atenção é que, atualmente, cerca de 78% dos dados do Brasil são processados fora do país, sob controle de big techs estrangeiras. Para Pochmann, isso compromete a soberania e a credibilidade. “Essas empresas têm mais dados que o próprio IBGE. Sabem mais que presidentes, governadores e prefeitos. É gravíssimo”, alertou.

Por isso, o instituto trabalha em inteligência artificial própria, garantindo sigilo e autonomia tecnológica.

Desafios que resistem

Nenhuma mudança desse porte acontece sem atrito. Pochmann reconhece desafios polêmicos:

  • Escassez de pessoal qualificado: O IBGE sofreu perdas por aposentadoria e falta de concursos. Agora, promoveu o maior concurso de sua história, com novos técnicos.

  • Instabilidade institucional: Entre 2016 e 2023, o instituto teve cinco presidentes diferentes — dificultando planos de longo prazo.

  • Recursos financeiros e infraestrutura: Para processar grandes volumes de dados, é necessário investir em centros de dados, conectividade avançada, segurança cibernética e pessoal especializado.

  • Aceitação institucional: Ministérios e órgãos tradicionalmente fragmentados precisam ceder autonomia local e integrar seus cadastros ― o que exige negociações políticas.

Impacto nacional e internacional

Em nível nacional, esse movimento coloca o Brasil entre os países que estão reinventando seu aparato estatal para a era das tecnologias massivas de dados — alinhando-se à agenda global de “governos dirigidos por dados”. 

No plano internacional, o IBGE tem buscado intercâmbio com instituições de países do Sul global e articulado com organismos do G20 para repensar metodologias estatísticas tradicionais e a experiências do Sul global, como Colômbia e México, que já utilizam análise preditiva em estatísticas oficiais.

Assista à íntegra da entrevista ao Projeto Brasil:

Os caminhos para garantir saúde pública no Brasil em transformação

O futuro da saúde brasileira não pode ser tratado como um tema de curto prazo. Essa é a premissa da iniciativa “Saúde Amanhã”, coordenada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que ganhou destaque em edição especial do Projeto Brasil, transmitida pela TV GGN. [Assista ao vídeo ao final do texto]

No programa, os jornalistas Luis Nassif e Sérgio Leo receberam o pesquisador e sanitarista José Carvalho de Noronha, coordenador adjunto do projeto e membro do Conselho Consultivo do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes). Ele apresentou tendências e riscos para o Sistema Único de Saúde (SUS) no horizonte de 2050.

O debate destacou o SUS como a maior conquista do federalismo brasileiro e um modelo que já inspira outras áreas, como a segurança pública. Sua continuidade, no entanto, depende de políticas estruturais capazes de responder a transformações econômicas, tecnológicas, ambientais e demográficas.

De 2010 a 2050: a trajetória de um projeto de Estado

Noronha destacou o projeto “Saúde no Brasil em 2050”, braço do “Saúde Amanhã”, que surgiu em 2010, no segundo governo Lula (PT), como parte de um esforço nacional de planejamento conduzido pelo então ministro José Gomes Temporão.

Em 2013, a ação passou a se chamar “Saúde 2030”, adotando a ideia de horizonte móvel de 20 anos. Após o impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT), em 2016, o projeto foi vinculado à “Estratégia Fiocruz Agenda 2030”, lançada por Paulo Gadelha.

Com o retorno de Lula ao poder e a criação da “Estratégia Brasil 2050”, pelo Ministério do Planejamento, a iniciativa ganhou novo fôlego e maior institucionalidade, conectando saúde, desenvolvimento e sustentabilidade no planejamento de longo prazo.

Quatro vetores que moldarão a saúde em 2050

A longo prazo, o estudo da Fiocruz para a “Saúde no Brasil em 2050” aponta quatro grandes macrodesafios para o sistema de saúde nas próximas décadas:

Crise climática e meio ambiente

As mudanças ambientais afetam tanto a saúde da população quanto a rede de atendimento. Epidemias tendem a se intensificar, enquanto desastres naturais exigirão serviços resilientes e prontos para respostas emergenciais.

Economia e geopolítica

O financiamento limitado do SUS e a dependência externa em insumos e tecnologias médicas seguem como entraves. Apesar dos avanços de instituições como Fiocruz e Butantã, o país ainda depende fortemente de fornecedores internacionais.

Demografia e doenças crônicas

O envelhecimento populacional redefine demandas: cuidados contínuos substituem a ideia de cura. Doenças como diabetes e cardiovasculares exigem reorganização do sistema e avanços em cuidados paliativos.

Transformação digital e tecnológica

Da inteligência artificial a cirurgias robóticas, a saúde vive uma revolução. O desafio é evitar que essas inovações fiquem restritas ao setor privado, garantindo acesso pelo SUS de forma inclusiva e regulada.

Noronha lembrou ainda que toda a iniciativa segue o Artigo 196 da Constituição Federal, que define a saúde como direito de todos e dever do Estado, a ser garantido por políticas sociais e econômicas que reduzam riscos e assegurem acesso universal e igualitário.

O futuro em disputa

Para Noronha, a saúde em 2050 será reflexo das escolhas feitas hoje. O SUS já mostrou capacidade de inovação, mas enfrenta ameaças que exigem visão estratégica.

Sem planejamento consistente, alerta o pesquisador, o sistema corre o risco de perder relevância, pressionado por restrições fiscais, dependência tecnológica e impactos ambientais.

Agora, o Brasil terá de decidir se investirá em um sistema público universal e resiliente ou se permitirá a erosão de um de seus maiores patrimônios sociais.

Assista à íntegra da entrevista ao Projeto Brasil:

A ciência da guerra e a soberania em risco: lições de Bousquet para o Brasil e a América Latina

Em The Scientific Way of Warfare, Antoine Bousquet mostra como cada regime científico moldou a guerra moderna — da mecânica ao caos das redes — e revela chaves para compreender os ataques dos EUA à soberania latino-americana

Mais do que um estudo sobre história militar, o livro de Bousquet é um guia estratégico para entender o presente. Da pressão econômica às sanções seletivas, dos navios de guerra no Caribe às operações digitais contra o Brasil, o “regime chaoplexic” da guerra em rede evidencia que a América Latina continua sendo um laboratório de intervenções e disputas pela ordem global.

Preambulo

Há livros que atravessam a nossa trajetória de forma silenciosa, e há outros que, ao serem encontrados, transformam radicalmente a maneira como enxergamos o mundo. The Scientific Way of Warfare, de Antoine Bousquet, pertence a essa segunda categoria. Conheci a obra por indicação de um amigo querido, Eden Cardim, que, em meio a uma conversa sobre política, tecnologia e poder, me disse que esse livro poderia ser um divisor de águas nas minhas pesquisas. Ele estava certo.

A cada página, compreendi melhor não apenas o passado das guerras, mas sobretudo o presente — esse presente convulsionado, marcado por guerras híbridas, redes digitais e operações de desinformação. Bousquet me ofereceu uma chave que faltava: entender que a guerra sempre se reinventa a partir dos paradigmas científicos e tecnológicos dominantes, e que hoje, na era do caos e da complexidade, estamos vivendo uma forma de conflito que atravessa nossas democracias, nossas economias e até nossas subjetividades.

Resolvi escrever este texto não como uma resenha acadêmica, mas como um artigo estratégico, pensado para jornalistas, pesquisadores, militantes, lideranças políticas e qualquer cidadão que queira compreender a engrenagem invisível que move os ataques contra as soberanias nacionais. Mais do que comentar o livro, quero compartilhar a urgência de sua leitura: porque sem compreender os regimes científicos da guerra descritos por Bousquet, corremos o risco de não reconhecer os sinais do presente — e, consequentemente, de não ter ferramentas para enfrentá-los.

Introdução — O Livro como Chave de Leitura do Presente

Quando Antoine Bousquet publicou The Scientific Way of Warfare: Order and Chaos on the Battlefields of Modernity, em 2009, poucos poderiam prever que, mais de uma década depois, o livro seria não apenas uma referência acadêmica, mas uma ferramenta indispensável para entender o presente. A obra, parte da coleção Critical War Studies, rompe com o formalismo das análises militares tradicionais e mergulha naquilo que realmente define a guerra contemporânea: a íntima relação entre ciência, tecnologia e poder. Para Bousquet, cada paradigma científico que emergiu na modernidade deu origem a um novo regime de guerra — do mecanicismo newtoniano ao caos das redes — e é essa chave que permite compreender os conflitos atuais, em especial os ataques híbridos que hoje atingem a América Latina e o Brasil.

Ao mostrar como o “modo científico de fazer a guerra” sempre esteve associado às metáforas tecnológicas dominantes, Bousquet nos oferece um mapa para decifrar a crise global. Se no século XVIII os exércitos funcionavam como relógios disciplinados, e no século XX a destruição termodinâmica das guerras industriais deu lugar à obsessão cibernética da Guerra Fria, hoje vivemos sob o regime chaoplexic, marcado por redes, complexidade e caos. Essa é a gramática invisível que rege não apenas os drones e os algoritmos militares, mas também as sanções econômicas, o lawfare, as campanhas de desinformação e as pressões diplomáticas que se abatem sobre o Brasil e seus vizinhos.

No mundo atual, em que navios de guerra norte-americanos patrulham o Caribe enquanto ministros brasileiros sofrem sanções pessoais, a leitura de Bousquet ganha contornos quase proféticos. Ele mostra que a guerra não é apenas um fenômeno bélico restrito aos campos de batalha, mas um processo difuso que atravessa sociedades, economias e consciências. Essa perspectiva é fundamental para entender por que a América Latina permanece como um laboratório de intervenções: a lógica não é mais apenas ocupar territórios com tanques, mas sim manipular fluxos de informação, sufocar economias e corroer instituições por dentro. O livro de Bousquet nos alerta: a guerra hoje se manifesta na fronteira difusa entre ordem e caos, e é nessa fronteira que o destino das soberanias nacionais está sendo decidido.

Os Quatro Regimes Científicos da Guerra

A originalidade de Antoine Bousquet está em mostrar que a guerra nunca foi apenas técnica ou tática, mas sempre esteve moldada pelas metáforas científicas dominantes de cada época. Ele identifica quatro regimes fundamentais que não apenas explicam o passado, mas também ajudam a decifrar o presente.

O regime mecanicista, nascido com o Iluminismo e a física newtoniana, via os exércitos como relógios de engrenagens. Soldados eram peças de uma máquina que se movia de acordo com a disciplina rígida e a ordem centralizada dos monarcas ilustrados. Esse modelo foi encarnado pelos exércitos de Frederico, o Grande, e deixou marcas profundas na ideia de que a guerra podia ser organizada como um sistema previsível.

Com a Revolução Industrial, surgiu o regime termodinâmico: a guerra como motor a vapor, como liberação de energia em escala destrutiva. As batalhas da Primeira e da Segunda Guerra Mundial, com artilharia pesada, tanques, bombardeios aéreos e, no limite, a bomba atômica, expressam essa lógica. Aqui, a vitória não dependia apenas de disciplina, mas da capacidade de mobilizar recursos, indústria e energia em proporções colossais.

O regime cibernético, típico da Guerra Fria, introduziu a lógica do controle e da retroalimentação. Inspirada nos computadores e nos sistemas de comunicação, a guerra passou a ser pensada em termos de informação, comando e monitoramento. O Vietnã mostrou os limites desse paradigma, mas também consolidou a visão de que exércitos modernos precisavam ser geridos como sistemas complexos de dados, sensores e decisões centralizadas.

Por fim, chegamos ao regime chaoplexic, marcado pela teoria do caos e das redes. Aqui a guerra é descentralizada, organizada em enxames, dinâmica, fluida. Guerrilhas, terrorismo em rede, operações digitais e manipulação informacional encarnam esse novo modelo. O poder não está mais apenas em tanques ou mísseis, mas na capacidade de gerar instabilidade, manipular narrativas, controlar fluxos de informação e explorar vulnerabilidades sociais. É nesse regime que se encaixam os ataques híbridos contemporâneos contra o Brasil e a América Latina.

Do Caos à Rede: A Guerra Chaoplexic

Se os regimes mecanicista, termodinâmico e cibernético ajudaram a estruturar a guerra entre os séculos XVII e XX, é no chaoplexic warfare que encontramos a chave para compreender os conflitos atuais. Inspirado pelas ciências do caos e da complexidade, esse paradigma rompe com a ideia de hierarquia rígida e aposta na descentralização, na auto-organização e na fluidez. O campo de batalha deixa de ser um espaço delimitado por fronteiras e trincheiras para se transformar em rede: múltiplos atores, conectados de maneira horizontal, disputam narrativas, dados e percepções tanto quanto territórios físicos.

Bousquet mostra que conceitos como “enxame” e “auto-sincronização” são centrais nesse novo regime. Exércitos já não dependem apenas de comando centralizado: insurgências, milícias digitais e até campanhas de desinformação operam em lógica distribuída, adaptando-se rapidamente ao ambiente. O exemplo mais citado é o do ciclo OODA, de John Boyd, no qual a velocidade de observar, orientar-se, decidir e agir se torna decisiva. No século XXI, essa aceleração se traduz em drones autônomos, ataques cibernéticos coordenados e enxames de perfis falsos nas redes sociais, todos capazes de saturar o inimigo antes que ele consiga responder.

O mais relevante, porém, é perceber como a guerra chaoplexic transcende o campo militar. O que antes se limitava ao fronte físico hoje invade a política, a economia e a cultura. Uma sanção econômica pode paralisar um setor produtivo inteiro tão eficazmente quanto uma bomba; um processo judicial midiático pode derrubar um governo com mais impacto do que um golpe militar; uma campanha massiva de desinformação pode destruir reputações, dividir sociedades e corroer democracias. Esse é o terreno em que o Brasil e a América Latina se encontram: laboratórios onde a guerra híbrida se manifesta em sua forma mais pura, transformando a disputa geopolítica em disputa cognitiva.

América Latina: Laboratório da Guerra Híbrida

Poucas regiões do mundo ilustram tão bem a aplicação prática das teorias de Antoine Bousquet quanto a América Latina. Desde o século XIX, quando a Doutrina Monroe proclamou que o continente era “esfera de influência natural” dos Estados Unidos, nossos países foram submetidos a sucessivos experimentos de guerra — ora convencionais, ora híbridos. O que Bousquet chama de regimes científicos da guerra aqui se traduziu em golpes, invasões, sanções e operações clandestinas, cada qual adequado ao paradigma dominante da época.

No regime mecanicista, vimos os EUA moldarem exércitos latino-americanos como engrenagens dóceis, treinados em academias militares subordinadas à lógica da disciplina centralizada. No regime termodinâmico, a industrialização da violência se fez sentir em intervenções como a invasão de Granada (1983) ou do Panamá (1989), quando a mobilização de poder de fogo avassalador garantiu vitórias rápidas, mas deixou cicatrizes profundas. O regime cibernético encontrou seu auge na Guerra Fria, quando a lógica de comando e controle se traduziu na Operação Condor: redes de inteligência interligadas, bancos de dados de opositores, tortura sistemática e assassinatos coordenados em escala continental — uma espécie de “network-centric warfare” antes mesmo do termo.

Hoje, no regime chaoplexic, a América Latina volta a ser laboratório. As guerras não se dão mais apenas em selvas ou cidades, mas em redes digitais, tribunais e fluxos econômicos. A Venezuela sofre bloqueios e sanções que corroem sua economia e geram caos social. Cuba permanece sob cerco econômico enquanto é alvo de campanhas de desinformação. A Nicarágua é bombardeada por operações psicológicas e diplomáticas. E o Brasil, maior país da região, tornou-se epicentro desse novo regime: da Lava Jato, que funcionou como uma operação de lawfare transnacional, às atuais sanções contra ministros do Supremo Tribunal Federal e tarifas comerciais impostas em meio a disputas diplomáticas, o país é alvo direto da guerra híbrida estadunidense.

Essas estratégias, longe de incidentes isolados, expressam exatamente o que Bousquet descreve: a guerra como um processo difuso, caótico, descentralizado, onde redes substituem quartéis e algoritmos valem mais do que divisões blindadas. A América Latina, mais uma vez, não é apenas palco — é campo de teste, onde Washington experimenta as técnicas que depois exporta para o resto do mundo.

O Brasil na Linha de Fogo

Se a América Latina como um todo é um laboratório de guerra híbrida, o Brasil ocupa o centro desse experimento. Nenhum outro país da região reúne, ao mesmo tempo, dimensão continental, população massiva, peso econômico, biodiversidade estratégica e protagonismo geopolítico. Justamente por isso, tornou-se alvo privilegiado das pressões estadunidenses, que operam de maneira exemplar sob o regime chaoplexic descrito por Bousquet: uma guerra difusa, travada em múltiplas frentes, combinando sanções, tarifas, lawfare, desinformação e operações psicológicas.

Os exemplos recentes são eloquentes. O governo Trump retomou a escalada de medidas contra Brasília: sanções direcionadas à esposa de um ministro do Supremo Tribunal Federal, restrições de visto a autoridades e ameaças veladas no campo diplomático. Em paralelo, tarifas comerciais sobre produtos brasileiros reaparecem como instrumento de pressão, reeditando a lógica do “porrete econômico” que historicamente moldou a relação entre Washington e seus vizinhos. Ao mesmo tempo, navios de guerra dos EUA no Caribe são percebidos em Brasília como recados indiretos: gestos militares simbólicos que funcionam mais como demonstração de força e intimidação do que como preparação bélica direta.

Mas a dimensão mais sofisticada da guerra contra o Brasil se dá na esfera informacional e jurídica. A Operação Lava Jato, montada em articulação com o Departamento de Justiça dos EUA, funcionou como uma operação de lawfare exemplar: desestruturou setores estratégicos da economia, criminalizou a política desenvolvimentista e abriu espaço para interesses estrangeiros sobre o petróleo do pré-sal. Hoje, a mesma lógica ressurge em novas roupagens — processos seletivos, campanhas de difamação digital, uso de think tanks e fundações estrangeiras para pautar a opinião pública, e uma máquina de desinformação que opera de forma enxameada, saturando o ambiente cognitivo com narrativas corrosivas.

Nesse sentido, o Brasil é a expressão viva da guerra chaoplexic de Bousquet: o inimigo não está em trincheiras visíveis, mas disperso em fluxos de dados, em sanções financeiras, em algoritmos de redes sociais que privilegiam o discurso de ódio, em decisões judiciais que se transformam em armas políticas. O país enfrenta, simultaneamente, o peso de um intervencionismo externo e a corrosão interna promovida por elites locais alinhadas ao projeto hegemônico norte-americano. É um campo de batalha invisível, mas não menos devastador — e, ao mesmo tempo, um espelho do que pode se tornar o futuro da guerra em escala global.

A Ordem e o Caos nas Relações Globais

A chave de leitura de Bousquet — a tensão permanente entre ordem e caos — revela-se decisiva quando olhamos para o cenário internacional. Os Estados Unidos insistem em projetar-se como força ordenadora do sistema global, mas suas próprias estratégias geram instabilidade crônica. A tentativa de impor “ordem” por meio de sanções, tarifas, bloqueios diplomáticos e demonstrações militares tem o efeito paradoxal de alimentar o caos que pretendem controlar. É o dilema central do regime chaoplexic: quanto mais se busca centralizar e disciplinar, mais se abre espaço para resistências descentralizadas e para a emergência de novos polos de poder.

No caso brasileiro, isso se torna evidente. As tarifas de Trump, as sanções contra membros do Judiciário e a pressão sobre a economia nacional buscam enquadrar o país em uma lógica subordinada. Mas, em vez de isolamento, esses movimentos aceleram o realinhamento de Brasília com China, Rússia e os BRICS. Cada ataque norte-americano reforça a percepção de que o Brasil precisa ampliar suas parcerias estratégicas, consolidar a soberania informacional e fortalecer redes regionais de defesa. O que para Washington seria uma demonstração de ordem, acaba funcionando como catalisador de novas alianças e de maior autonomia.

Esse mesmo paradoxo se repete em escala global. As pressões contra a Venezuela alimentam a aproximação de Caracas com Moscou e Pequim. O bloqueio a Cuba só fortalece sua posição simbólica de resistência no Sul Global. E o uso cada vez mais frequente de instrumentos jurídicos, como designações de terrorismo ou programas de sanções extraterritoriais, mina a legitimidade dos EUA junto a organismos multilaterais. O resultado é uma erosão lenta, porém contínua, da hegemonia americana — enquanto cresce o espaço para alternativas multipolares.

Nesse jogo, a América Latina se encontra em um ponto crítico: pode ser apenas campo de manobra, reproduzindo ciclos de dependência e instabilidade, ou pode assumir um papel de protagonista na disputa global. Para isso, precisa reconhecer que o terreno em disputa não é apenas militar ou econômico, mas cognitivo e informacional. Como ensina Bousquet, a guerra chaoplexic se trava em redes, fluxos e percepções. Quem dominar essas camadas terá mais poder do que quem controlar apenas tanques ou bases militares.

Conclusão — Um Livro para o Nosso Tempo

The Scientific Way of Warfare não é apenas uma obra acadêmica sobre a história da guerra. É, antes de tudo, um guia intelectual para compreender o presente — e, em grande medida, antecipar o futuro. Ao mostrar que cada paradigma científico molda não apenas as batalhas, mas também as formas de organização política e social, Antoine Bousquet nos lembra que a guerra nunca está restrita aos quartéis: ela infiltra-se nas instituições, nos tribunais, nas economias e, hoje, sobretudo nas redes digitais.

Para o Brasil e a América Latina, a lição é incontornável. O continente, mais uma vez, se encontra no olho do furacão de um regime bélico global, agora marcado pela lógica chaoplexic. Os EUA aplicam sanções seletivas, tarifas comerciais, campanhas de desinformação e operações psicológicas não para conquistar territórios, mas para moldar subjetividades, corroer instituições e manter a região em posição subordinada. Ao mesmo tempo, novos polos de poder exploram as fissuras criadas por esse intervencionismo, oferecendo alternativas e abrindo espaço para uma multipolaridade em gestação.

Exaltar o livro de Bousquet, neste contexto, é exaltar um instrumento de lucidez. Ele nos ajuda a ver que o caos não é acidente, mas método; que as redes não são apenas canais de comunicação, mas armas de guerra; que a soberania não pode mais ser pensada apenas em termos militares, mas sobretudo informacionais e cognitivos. É nessa arena invisível que o Brasil joga seu destino — e é nela que precisa construir defesas e estratégias próprias.

Em última instância, a leitura de Bousquet é um chamado à vigilância. Um alerta de que a guerra mudou de forma, mas não de objetivo: continua sendo a luta pelo poder e pela hegemonia. Se a América Latina quiser deixar de ser laboratório e se afirmar como protagonista, terá de compreender que a batalha decisiva não se trava apenas nos mares ou nas fronteiras, mas no campo fluido e incerto das redes, onde ordem e caos disputam cada segundo.

Artigo publicado originalmente em <código aberto>

Quando o “milagre” neoliberal desmorona: derrotas de Milei expõem a crise na Argentina

A derrota de Javier Milei nas eleições legislativas da província de Buenos Aires, em 7 de setembro, expôs os limites do projeto neoliberal radical que vinha sendo propagandeado como solução definitiva para a crise argentina. A maior província do país, responsável por cerca de 40% do eleitorado nacional, enviou uma mensagem inequívoca: o “milagre argentino”, exaltado pela mídia ocidental e por investidores, não convenceu a população que sofre os efeitos diretos da austeridade.

O tema foi analisado no programa especial do Projeto Brasil, exibido pela TV GGN. Os jornalistas Luis Nassif e Sergio Leo conversaram com o correspondente da TeleSUR, Nacho Lemus, e a economista Margarita Olivera, professora da UFRJ, para compreender as consequências políticas e sociais da derrota. O consenso entre os convidados é claro: a votação funcionou como um plebiscito contra o governo Milei.

A distância entre promessa e realidade

Durante meses, o discurso oficial insistiu em vender a Argentina como um país a caminho da estabilidade, com a inflação sob controle e os mercados recompensando a disciplina fiscal. Mas, como destacou Nacho Lemus, a cena nas ruas era outra: famílias inteiras sem moradia, pessoas buscando comida no lixo e um consumo interno em colapso.

A reação dos mercados à derrota foi imediata: o dólar disparou, os bônus argentinos despencaram e investidores aceleraram a fuga de capitais. Para Margarita Olivera, o episódio expôs a fragilidade de um modelo que depende da corrosão inflacionária sobre gastos sociais para manter o equilíbrio fiscal. 

O peronismo fortalecido

A derrota de Milei também reposicionou a oposição. Axel Kicillof, governador de Buenos Aires, desponta como figura capaz de unificar as diversas alas do peronismo. Segundo Lemus, ele representa a vertente mais à esquerda do movimento, mas com respaldo popular e histórico de gestão. “O peronismo é muitas coisas, mas sempre foi a força que chegou quando a sociedade não aguentava mais”, observou o jornalista.

Com um discurso de justiça social e defesa de direitos conquistados historicamente, o peronismo retoma protagonismo e mira as eleições nacionais de outubro. Para os especialistas, o desafio será consolidar essa força em um campo hoje fragmentado.

Fragilidade no Congresso e na sociedade

Se nas ruas Milei enfrenta protestos crescentes, no Congresso sua base de apoio também mostra fissuras. Nas últimas semanas, parlamentares derrubaram vetos presidenciais em pautas sensíveis, como financiamento de universidades e programas de saúde infantil. O episódio evidenciou que, sem articulação política, o governo não consegue sustentar medidas de austeridade que penalizam diretamente a população.

Além disso, denúncias de corrupção envolvendo figuras próximas, como sua irmã Karina Milei, aumentam o desgaste da imagem presidencial, que já vinha sendo arranhada por promessas não cumpridas e cortes sociais impopulares.

O fim de um paradigma

Para Nassif, todo este resultado simboliza “o fim do sonho visionário maluco de Milei”. Olivera, por sua vez, destacou que ficou evidente que o presidente “não entendeu o resultado das urnas” ao insistir em aprofundar a linha neoliberal mesmo depois da derrota. Já Lemus resume: “o que tínhamos era uma promessa de milagre, mas nas ruas vimos apenas uma bomba-relógio social”.

A derrota em Buenos Aires não é um episódio isolado. É um sinal de que, sem resposta ao sofrimento da maioria, nenhum governo se sustenta apenas em planilhas fiscais. O modelo de Milei tropeçou na realidade.

Assista à íntegra da entrevista ao Projeto Brasil:

Dívida e endividamento: o novo normal das famílias brasileiras

“Antes, eu era pobre. Agora, sou pobre e endividado.”

Frase anônima brasileira.

Lena Lavinas[1]

Maria Paula Bertran[2]

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Este é o primeiro texto de uma série de três, originalmente publicados no blog Boletim Lua Nova. O artigo abaixo descreve como o comprometimento da renda com dívidas se transformou na rotina das famílias brasileiras. O segundo artigo vai abordar o papel do Governo Federal para aprofundamento deste ambíguo processo, em que políticas públicas paradoxais reforçam o rentismo e a desigualdade. Por fim, o último artigo da série vai apresentar possibilidades e alternativas.

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Quem lê a grande mídia nacional ou acompanha noticiários na televisão tem se familiarizado com matérias cada vez mais frequentes sobre inclusão e educação financeira, bancarização, temas que são igualmente abordados nas redes dos milhares de influenciadores que diariamente dão dicas sobre gestão financeira. Levantamento recente da  FInfluence, realizado pela ANBIMA (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) identificou 741 “finfluenciadores” digitais ativos, sendo a grande maioria, 576, pessoas físicas. O número de perfis corporativos monitorados soma 165. Não apenas essa categoria de influenciadores engrossa a cada dia (+ 30% em um ano), como eles registram, a cada nova publicação, uma média de quase  3.000 interações do público.

O que buscam seus seguidores? Pistas para investir, acompanhar o mercado, mas também orientações de como sair do vermelho. Isso porque a dívida das famílias junto ao setor financeiro é hoje preocupação no topo das angústias de cada dia. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio (CNC), metodologicamente embasada na autodeclaração de entrevistados, indica a percepção de que 78,2% das famílias brasileiras estavam endividadas em maio de 2025. Desse grupo, 29,5% das famílias tinham contas em atraso no mesmo mês, maior nível desde outubro de 2023. Ainda, 12,5% das famílias declararam não ter condições de pagar dívidas vencidas, o que as fará permanecer inadimplentes.

Os dados mais recentes do Banco Central do Brasil, por sua vez, que não capta endividamentos de fora do sistema financeiro, tais como crediário de lojas ou dívidas de luz e água, indicam que o nível de endividamento das famílias brasileiras atingiu 48,7% da renda disponível acumulada nos últimos doze meses em janeiro de 2025, um dos maiores patamares da série histórica. Além disso, o comprometimento da renda familiar com o pagamento de dívidas subiu para 27,3% em janeiro de 2025 (ou 25,1% sem considerar crédito imobiliário), também segundo o Banco Central.

O percentual de endividamento das famílias brasileiras em relação ao PIB está atualmente em torno de 30%, conforme os dados mais recentes disponíveis para o quarto trimestre de 2024, segundo dados da Trading Economics consultoria. Esse índice representa a razão entre o estoque de dívidas das famílias e o Produto Interno Bruto do país, um patamar considerado baixo quando comparado a outras economias. Países como Alemanha, Japão e Estados Unidos indicam percentuais em torno de 70% do PIB.

O argumento é recorrentemente citado para sugerir que existe espaço para aumento do endividamento das famílias brasileiras. Contudo, pelo menos dois fatores diferenciam o Brasil e os países normalmente citados em relação ao percentual de endividamento: o motivo pelo qual as famílias se endividam e a desigualdade local. Enquanto os países desenvolvidos se endividam principalmente para aquisição da casa própria e financiamento estudantil – no caso dos americanos, também as dívidas com despesas de saúde –, os brasileiros se endividam por comida e remédios, pelas estratégias maliciosas dos piores agentes do sistema financeiro, pelo ciclo de endividamento gerado pelos altos juros dos endividamentos pretéritos. São clientes do crédito de consumo não direcionado, de fácil acesso agora. Em um contexto de famílias empobrecidas, estas se endividam para financiar a vida diária, chegam ao final do mês e passam a viver com frações do que poderiam ter, mesmo no ambiente de baixa renda.

A relativa facilidade de acesso ao crédito, especialmente pelo uso do cartão de crédito, mas também pelo empréstimo consignado, aliada a altas taxas de juros – spreads bancários astronômicos, mesmo quando há garantias de colateral, como no caso dos empréstimos consignados –, contribuiu para a rápida escalada do endividamento. Segundo a Serasa, 69% das compras feitas no cartão de crédito são destinadas a supermercados, seguidas por roupas, eletrodomésticos e medicamentos. Isso evidencia que o endividamento, em muitos casos, é uma estratégia de sobrevivência diante da insuficiência de renda.

O endividamento é mais acentuado entre famílias de renda mais baixa — 81% das famílias com até três salários-mínimos possuem dívidas, enquanto o índice cai para 69,8% entre aquelas com renda acima de dez salários mínimos.

“Troca com troco”

Teoricamente, uma dívida é feita para a obtenção de recursos com um propósito específico. A quitação integral da dívida é a expectativa contratual clássica de um contrato de crédito. Isso não acontece no Brasil. O processo de endividamento das famílias brasileiras, especialmente com o protagonismo do crédito consignado, mas também do cartão de crédito, se estrutura, na prática, sobre a perpetuidade e sobre o comprometimento permanente da renda dos indivíduos.

A expressão “troca com troco”, utilizada por Ione Amorim, por muitos anos economista do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), descreve a situação em que o consumidor substitui uma dívida por outra e recebe a diferença em dinheiro — o chamado “troco”.

No contexto do crédito consignado, a “troca com troco” ocorre quando o aposentado(a) ou pensionista, ou ainda o beneficiário de uma transferência monetária pelo Estado e, desde 2025, também o trabalhador da iniciativa privada, quita um empréstimo consignado antigo com um novo, de valor maior, e recebe a diferença em espécie. Ou seja, ao renovar o empréstimo, parte do valor é usada para pagar a dívida anterior e o restante é liberado como mais dinheiro ao consumidor e uma forma de torná-lo cativo do endividamento. Segundo Ione Amorim, essa prática é frequentemente incentivada pelos bancos, especialmente quando há reajuste salarial, perpetuando o ciclo de endividamento, pois o consumidor acaba assumindo uma nova dívida para quitar outra, muitas vezes com juros acumulados e sem clareza das consequências dessa mudança.

Ilícito lucrativo

O fenômeno do ilícito lucrativo no setor de crédito brasileiro representa uma das faces mais sofisticadas das práticas abusivas nas relações de consumo. Grandes instituições financeiras calculam que a manutenção de condutas ilícitas é mais vantajosa economicamente do que o cumprimento rigoroso da legislação consumerista. Trata-se de um comportamento sistemático, no qual a infração deixa de ser um risco e passa a ser incorporada como parte do modelo de negócios, dada a baixa expectativa de fiscalização efetiva e de sanções suficientemente dissuasórias.

No setor de crédito, o ilícito lucrativo manifesta-se por meio de cobrança indevida de tarifas e encargos não previstos ou não informados adequadamente ao consumidor; retenção de valores e demora proposital na devolução de quantias devidas; venda casada de produtos e serviços financeiros; falta de transparência na apresentação de contratos e extratos, dificultando o acesso do consumidor à informação clara e precisa sobre suas obrigações e direitos e até mesmo empréstimos jamais solicitados.

Essas práticas são facilitadas por fatores estruturais, como a vulnerabilidade dos consumidores brasileiros, a assimetria de informação entre bancos e consumidores e a timidez judicial e administrativa em sancionar condutas ilícitas, o que torna as infrações economicamente racionais para as instituições financeiras.

Potencialmente, para além dos problemas econômicos do endividamento da população, a sociedade brasileira é desproporcionalmente onerada pela expectativa extremamente provável de, a partir do momento do primeiro empréstimo, ser vítima de um conjunto de abusos e práticas ilícitas que dificultam e até mesmo impedem a possibilidade de quitação plena de suas dívidas.

Como chegamos a isso?

De maneira relativamente superficial, indicamos que dois fenômenos sociais marcantes caracterizam o primeiro quarto do século XXI e criaram a condição para o grave cenário acima.

De um lado, observa-se um processo de bancarização em massa das classes populares e de “inclusão financeira” levado a cabo nos países do Sul Global, promovendo o acesso ao sistema de crédito e ao sistema financeiro em geral. Com isso, centenas de milhões de pessoas, antes consideradas de alto risco (por não disporem nem de garantia para as dívidas, o colateral, nem de rendimentos regulares), passaram a ser titulares de contas bancárias, fenômeno facilitado pela digitalização e pela telefonia celular.

As fintechs (acrônimo das palavras tecnologia e financeira) permitiram reduzir custos para o setor financeiro (eliminação de unidades de atendimento, novos instrumentos de avaliação de credit score em tempo real, novas linhas de crédito focalizadas em determinados grupos, entre outros). As fintechs permitiram também que bancos tradicionais criassem ou investissem em novos formatos, com mais capilaridade, sem ligação direta com a marca central do conglomerado financeiro e, portanto, sem prejuízos reputacionais para a marca central.

De outro, a consequência imediata, vinda em crescendo incessante, foi o forte aumento do grau de endividamento das famílias. Endividamento para consumo não-direcionado e livre, ou seja, para aquisição de bens comuns, mas não a casa própria, ou o financiamento agrícola ou do empreendedor. Esse crédito torna-se rapidamente indispensável à sua reprodução social, sendo agora complemento inegociável da renda familiar e individual.

A “inclusão financeira” não significou autonomia. A “inclusão financeira” significou a transformação do crédito em complemento indispensável da renda familiar. O crédito deixou de ser um instrumento de alavancagem social para se tornar um meio de paradoxal sobrevivência, no qual a dívida das famílias lhes compra a subsistência imediata e aniquila a capacidade de subsistência a longo prazo. O endividamento contínuo compromete parcela crescente do orçamento familiar com o pagamento de dívidas e juros, perpetuando a dependência das famílias em relação ao sistema financeiro.

Como não poderia deixar de ser, aumento do endividamento significa também explosão da inadimplência. Relacionado com a bancarização, mas com consequências dramáticas para quem declara default. A situação envolve perda de direitos, novos riscos, violência, exclusão. A elevação da inadimplência é vista como ameaça de risco sistêmico ao setor financeiro, reduzindo sua rentabilidade e freando a expansão da oferta de crédito, o que faz encolher o mercado mundial de dívidas.

Quaisquer que sejam as cifras e os montantes estimados, claro está que se tornou urgente formular alternativas para dirimir o bloqueio que tal realidade traz ao reaquecimento do mercado doméstico, ao inibir o consumo das famílias trabalhadoras. Nesse contexto, o Governo Federal lançou, em julho de 2023, o Desenrola Brasil, cuja finalidade consistiu, teoricamente, em oferecer condições para que as pessoas negativadas pudessem renegociar suas dívidas. Assim, reduziriam seus graus de vulnerabilidade financeira, restabelecendo a capacidade de endividamento necessária à retomada de um novo ciclo de expansão financeira. Afinal, o próprio Banco Central (2023) reconheceu que a elevada alavancagem das famílias e as perdas crescentes que tal alavancagem impôs ao setor financeiro provocaram a retração da oferta de crédito às famílias e colocaram em xeque a rentabilidade dos bancos.

O Banco Central, em seu Relatório de Economia Bancária de 2022, fez três observações determinantes da rentabilidade dos bancos naquele ano:

i) o fator predominante nas carteiras de crédito dos bancos é o crédito destinado às famílias (65% do estoque de crédito em 2022, proporção dominante desde 2016);

ii) os tomadores individuais continuam respondendo pela maior parte da receita com juros de empréstimos, ou seja, 73%;

iii) 76% da receita com juros proveniente desses tomadores tem origem no crédito ao consumo (e não no crédito imobiliário ou no crédito direcionado).

Portanto, fica claro que são as famílias na cauda inferior da distribuição que asseguram a alta rentabilidade dos bancos privados brasileiros às custas de uma vida pendurada em dívidas.

Contudo, a escala e a rapidez com que esse fenômeno de bancarização se alastra foram possíveis através da “colateralização da política social” (Lavinas 2020), isto é, mediante a intervenção do Estado que, ao assegurar transferências monetárias de renda regulares a famílias pobres e vulneráveis, torna-se o fiador do colateral que faltava a essas famílias para ingressarem no sistema financeiro.

Esse é o segundo fenômeno que explica a explosão do endividamento das famílias: a colateralização da política social foi a força motriz que garantiu que pessoas sem histórico de crédito e com renda instável, em razão de sua inserção precária no mercado de trabalho, tivessem acesso à chamada “cidadania financeira”, isto é, a incorporação das classes trabalhadoras à marcha da financeirização.

Mas a cidadania financeira não impede a explosão da inadimplência, muito pelo contrário.  Elas se retroalimentam e acabam por colocar em xeque a regra de ouro da acumulação financeira — a expansão da dívida e, portanto, a reprodução do capital portador de juros. Cidadania financeira e níveis crescentes de inadimplência andam juntos, embora impactem distintamente o sistema financeiro. Logo, assim como o Estado garantiu a colateralização da política social quando o objetivo era ampliar o mercado de crédito e consolidar a lógica rentista, ele assume agora o papel de evitar o colapso da dependência da classe trabalhadora em relação ao sistema financeiro devido à inadimplência, desenvolvendo mecanismos de gestão da dívida, para resolver o nó da inadimplência.

Se o gasto social que garante as condições de reprodução está comprimido pela prevalência da austeridade e se o financiamento da sobrevivência via endividamento é estrangulado, como evitar o desastre? Se antes era necessário flexibilizar as regras de acesso ao mercado de crédito pelas massas, com apoio do Estado, agora trata-se de flexibilizar as regras que negam sua permanência. É por isso que o Estado passou a assumir a gestão do endividamento crônico como forma de enfrentar as contradições que a própria acumulação rentista engendra, criando o Desenrola.

3I Atlas, mergulho cometário, a dialética do cosmos e a beleza da ciência

Uma jornada filosófica e científica pelos mergulhos cometários que iluminam o céu e desafiam nossos paradigmas

Por Reynaldo Aragon 

Em 2025, múltiplos cometas atravessam o Sistema Solar, trazendo consigo não apenas espetáculo celeste, mas também contradições, mistérios e novas perguntas. Este ensaio mergulha no diálogo entre astronomia e filosofia — de Marx a Engels, de Gramsci a Althusser, com a inspiração poética de Carl Sagan — para mostrar como a ciência, em sua beleza, é também filosofia, política e emancipação humana.

Introdução

Escrevo estas páginas como alguém que sempre caminhou no terreno das ciências humanas — pesquisador das formas políticas, dos comportamentos sociais, das tecnologias que modulam a vida. Nunca fui exímio em matemática; os números, para mim, sempre tiveram mais ares de muralha do que de estrada. Mas aprendi que a ciência não se reduz às equações que não sei resolver: ela pulsa também na perplexidade, na intuição, na capacidade de espanto.

É desse espanto que nasce este ensaio. Trago comigo um amor profundo por toda a ciência, mas a astronomia tem o poder de desarmar minhas defesas racionais e expor aquilo que há de mais vulnerável em mim: a emoção diante do cosmos. Não é a emoção fácil, do clichê ou da metáfora vazia. É a emoção que nasce do rigor, da consciência de que cada ponto de luz no céu carrega séculos de cálculo, séculos de erros e superações, séculos de luta entre paradigmas. É a emoção que reconhece, na trajetória de um cometa, a contradição entre conservação e destruição, entre permanência e dissolução, entre o arquivo do passado e a fagulha de futuro.

Ao escolher escrever sobre os cometas de 2025, não o faço como astrônomo, mas como alguém que se recusa a aceitar fronteiras rígidas entre ciência e filosofia, entre cálculo e poética. Sigo o farol do Materialismo Histórico-Dialético, aprendendo com ENGELS, MARX, GRAMSCI e ALTHUSSER que a natureza, como a história, é movimento dialético: contradições em processo, negações que se superam, sínteses que se refazem. E encontro em Carl Sagan — herói da ciência e da astrofísica — a prova de que o conhecimento, quando partilhado com ternura, pode ser também beleza e emancipação.

Escrevo, portanto, não para competir com a técnica dos astrônomos, mas para unir minhas ferramentas — a filosofia, a política, a crítica — ao espanto diante do céu. O que apresento aqui é um testemunho: de como a ciência, longe de ser neutralidade fria, pode ser também filosofia viva, poesia material e pedagogia popular. É um convite para que cada cometa seja visto não apenas como fenômeno celeste, mas como lição dialética: o universo nos ensinando, mais uma vez, que nada é absoluto, tudo é movimento.

Abertura — O céu como dialética viva

O céu nunca foi um quadro imóvel, ainda que os olhos humanos o tenham contemplado durante séculos como se fosse estático. Desde as primeiras cosmologias até a revolução copernicana, o firmamento foi interpretado como esfera de ordem, harmonia e permanência. Mas a astronomia, quando lida sob o farol do Materialismo Histórico-Dialético, revela outra verdade: o cosmos é contradição em movimento, síntese de processos que se afirmam e se negam sem cessar. É exatamente esse horizonte que 2025 nos apresenta, com a chegada quase simultânea de múltiplos cometas — mensageiros gelados, arquivos do passado primordial, mas também anunciadores da negação de nossas certezas.

Um cometa não é apenas poeira e gelo vagando ao acaso. Ele é a memória material de bilhões de anos condensada num núcleo que, ao se aproximar do Sol, entra em conflito com sua própria estrutura. O aquecimento solar é ao mesmo tempo força vital e força destrutiva: sublima o gelo, rasga a superfície, lança jatos de gás e plasma que criam a cauda. O que era sólido se dissolve, o que era invisível se torna espetáculo. Aqui a natureza confirma ENGELS: a dialética está inscrita na própria tessitura do real. A conservação é acompanhada da destruição, a ordem contém o germe do caos, e a beleza nasce justamente do embate entre contrários.

Mas essa contradição não é apenas natural; é também epistemológica. Cada mergulho cometário desafia os paradigmas astronômicos vigentes, força a ciência a revisar hipóteses, a recalibrar modelos, a se refazer no contato com o inesperado. Se o positivismo prometia leis definitivas, os cometas lembram que a astronomia é feita de incertezas férteis. MARX nos advertia que a verdade é sempre histórica; na astronomia, a verdade é sempre transitória, provisória, submetida ao julgamento dos fótons que chegam às lentes e dos rastros que queimam nas câmeras CCD. Não há ciência sem crise, e não há crise sem avanço.

Gramsci entenderia esses cometas como momentos de hegemonia cultural em disputa. Um céu riscado de luz não é apenas fenômeno físico: é também uma abertura simbólica, uma possibilidade de pedagogia popular. Quando o povo olha para cima e se pergunta “o que é isso?”, a ciência disputa sentidos, enfrenta o irracional, planta sementes de crítica e de encantamento. A astronomia é, nesse sentido, não só ciência natural, mas também ciência social: constrói narrativas, organiza o senso comum, disputa espaço na cultura. O brilho de um cometa é, ao mesmo tempo, cauda de poeira e trincheira cultural.

Sob esse prisma, o céu de 2025 é um laboratório dialético. De um lado, o visitante interestelar 3I/ATLAS nos lembra que não somos totalidade fechada: somos atravessados pelo outro, pelo imprevisto, pela alteridade cósmica. De outro, os cometas R2 (SWAN) e A6 (Lemmon) prometem um espetáculo acessível, democratizando o espanto científico em noites de outubro. No mesmo ano, G3 (ATLAS) se fragmentou, negando nossas previsões e oferecendo mais perguntas que respostas. O cosmos ensina: nada é absoluto, tudo é processo. A astronomia, nessa chave, não é um catálogo de leis, mas uma filosofia material da mudança.

É nessa encruzilhada entre ciência e filosofia, entre método e poética, que se ergue este ensaio. Uma ode à astronomia como prática dialética: nem dogma, nem superstição, mas caminho humano para compreender que a beleza está na contradição, e que a verdade, como os cometas, é sempre movimento.

Contradições do tempo e do espaço — o Outro cósmico

O céu de 2025 não nos oferece apenas belezas previsíveis. Entre os visitantes gelados que retornam cíclicos, há um intruso radical: 3I/ATLAS, o terceiro objeto interestelar a atravessar nosso sistema. Diferente dos filhos da Nuvem de Oort, sua órbita é hiperbólica: não se curva ao domínio do Sol, apenas o atravessa, segue adiante e some no escuro. É o signo da alteridade cósmica, o “Outro” que irrompe sem pedir licença, lembrando-nos que o Sistema Solar não é totalidade fechada, mas apenas recorte de um processo maior, aberto, incompleto.

Esse corpo estranho tensiona não só a gravidade, mas também a própria ciência. Por décadas, os manuais repetiram que a astronomia lidava com objetos conhecidos: planetas, asteroides, cometas de longo ou curto período. Mas em 2017, com ʻOumuamua, e em 2019, com Borisov, essa certeza foi negada. Agora, em 2025, a negação se repete. ALTHUSSER diria que vivemos um corte epistemológico: quando um objeto recusa ser explicado pelas categorias antigas, somos obrigados a produzir novas. A ciência não avança por acumulação linear de dados, mas por rupturas que desorganizam o pensamento e obrigam a reorganizar todo o edifício.

A trajetória de 3I/ATLAS é mais que uma curva em equações diferenciais. Ela é metáfora do tempo histórico. Se a órbita elíptica é o ciclo, a repetição, a volta que garante previsibilidade, a órbita hiperbólica é o evento, a irrupção que não retorna. MARX lembrava que a história se move em saltos, que o processo histórico não é mera sucessão cronológica, mas ruptura qualitativa. O cometa interestelar, ao atravessar nosso céu, materializa essa lógica: não vem para repetir, mas para negar, para romper, para deslocar o horizonte de normalidade.

Para a filosofia da ciência, cada aparição interestelar é um lembrete da insuficiência de nossos paradigmas. A estatística orbital previa raridade quase infinita desses encontros; a realidade, em menos de uma década, já nos apresentou três. O imprevisto exige teoria nova. É a negação do positivismo que ainda insiste em confundir ciência com certeza. A dialética ensina: a verdade não é imóvel, mas movimento. ENGELS, em A Dialética da Natureza, advertia que a ciência precisa aprender a lidar com o “absolutamente inesperado”, com a irrupção do novo que nega nossas leis provisórias. O 3I/ATLAS é justamente isso: um desmentido que ilumina.

Na mesma chave, GRAMSCI nos ajuda a pensar a dimensão cultural dessa aparição. O senso comum tende a transformar o desconhecido em superstição ou em espetáculo midiático. A hegemonia científica, por sua vez, tem a tarefa de disputar esse espaço simbólico: ensinar que o estranho não é ameaça, mas riqueza; que o inesperado não é sinal de desordem, mas motor da história natural. O cometa interestelar é, nesse sentido, trincheira cultural: pode ser apropriado pela pseudociência, mas também pode ser momento de pedagogia pública, em que a ciência revela sua grandeza filosófica.

Assim, 3I/ATLAS não é apenas um ponto fraco de luz nos telescópios. É uma contradição viva entre tempo e espaço, repetição e ruptura, ordem e caos. É a prova material de que o cosmos não cabe em nossos manuais, e que a ciência, se quiser ser verdadeira, deve aceitar o desafio de se reinventar. Aqui se revela a grande lição dialética: o universo não confirma nossas certezas, ele as nega — e é dessa negação que nasce o conhecimento.

O espetáculo do inesperado e a pedagogia do espanto

Há momentos em que o cosmos decide falar diretamente ao povo. Outubro de 2025 será um desses instantes raros: dois cometas, C/2025 R2 (SWAN) e C/2025 A6 (Lemmon), prometem cruzar o céu em magnitudes capazes de serem vistas a olho nu. Não se trata apenas de cálculo orbital ou de tabelas técnicas de magnitude. Trata-se de uma experiência coletiva: crianças, trabalhadores, velhos e jovens poderão erguer os olhos numa mesma noite e testemunhar uma dança luminosa que conecta a Terra ao infinito.

Esse encontro é, ao mesmo tempo, espetáculo e lição. O espetáculo reside na cauda que se acende, nos gases e poeiras que se desprendem do núcleo gelado para formar um rastro que desafia a escuridão. A lição está na dialética material: o brilho do cometa não é sinal de estabilidade, mas de crise. O que aparece no céu é a contradição entre conservação e destruição, entre arquivo e transformação. O núcleo, ao sublimar, dissolve-se. O espetáculo é, na verdade, a morte lenta do cometa. Mas é justamente nesse colapso que nasce sua beleza.

GRAMSCI falava da luta pela hegemonia cultural como a batalha para conquistar o senso comum. Os cometas de outubro são trincheiras nessa luta. O senso comum pode ver neles sinais, presságios, superstições. A ciência, se souber disputar esse momento, pode transformá-los em pedagogia do espanto. Não se trata de reduzir a beleza a fórmulas físicas, mas de mostrar que a explicação não elimina o encanto — pelo contrário, o amplia. O povo que entende que está vendo gelo de bilhões de anos sublimar diante do Sol não perde a poesia: ganha consciência.

E aqui reencontramos a dialética marxista: a beleza não está na suspensão da razão, mas na união entre razão e emoção. O espanto, quando mediado pela ciência, torna-se ferramenta de emancipação. Não há necessidade de escolher entre poesia e método; o cometa mostra que ambos podem coexistir. O brilho que deslumbra os olhos é o mesmo que alimenta gráficos fotométricos e debates acadêmicos. A mesma cauda que emociona uma criança pode redefinir modelos teóricos de sublimação. Eis a síntese dialética entre popular e erudito, entre experiência sensível e abstração científica.

Esse momento de outubro será, portanto, mais do que um evento astronômico: será uma oportunidade histórica de reencantar o mundo sem recorrer à superstição. Um céu riscado por dois cometas, sob a Lua Nova e as chuvas de meteoros Orionídeas, será assembleia cósmica e pedagógica. A ciência, aqui, torna-se hegemonia cultural no sentido gramsciano: ganha legitimidade ao tocar o coração do povo.

O fracasso como triunfo da ciência

Janeiro de 2025 trouxe um cometa que parecia destinado ao heroísmo: C/2024 G3 (ATLAS), um sungrazer que mergulhou a menos de 0,1 UA do Sol. Durante dias, astrônomos e curiosos esperaram um espetáculo, uma aurora cósmica digna dos livros. Mas o que se seguiu foi outro tipo de beleza: o núcleo não resistiu à proximidade solar e se fragmentou, deixando para trás rastros difusos, uma pluma desordenada, uma cauda de sódio e potássio que se dissipava em silêncio. O que muitos chamaram de fracasso foi, para a dialética da ciência, um triunfo.

Pois o que a observação mostrou não foi o vazio, mas a negação de nossas expectativas. O colapso expôs camadas internas, sugeriu fragilidade estrutural, revelou composições inesperadas. Cada pedaço desprendido, cada linha espectral captada, foi uma negação fértil que obrigou a comunidade científica a rever modelos sobre sublimação, resistência térmica e estatística de sobrevivência dos sungrazers. Em vez de espetáculo popular, tivemos revolução conceitual.

É aqui que o Materialismo Histórico-Dialético se mostra mais potente que qualquer epistemologia positivista. O positivismo lamenta: “o cometa falhou em produzir luz suficiente”. A dialética celebra: “o cometa negou nossas hipóteses e nos fez avançar”. ENGELS, ao falar da contradição como motor da natureza, já antevia essa pedagogia: só há progresso quando o real força a teoria a se refazer. MARX, ao dissecar as crises do capital, mostrou o mesmo princípio: o colapso não é fim, mas ponto de partida para nova forma. Assim também no céu: o desmoronamento de G3 foi crise geradora, superação em ato.

O olhar filosófico nos convida a ir além da astronomia descritiva. O cometa fragmentado é uma alegoria da própria ciência: construída em núcleos provisórios, desgastada pela proximidade com o real, obrigada a se romper para revelar novas camadas. A verdade científica não é bloco indestrutível, é processo de autonegação contínua. Cada previsão falha não destrói a ciência, mas a fortalece.

GRAMSCI diria que o fracasso de um cometa visível é também disputa cultural. As manchetes rápidas podem transformá-lo em desapontamento para o público, em espetáculo que não se cumpriu. Cabe à ciência, em sua função hegemônica, traduzir o “fracasso” em pedagogia: mostrar que a beleza não estava em ver um rastro brilhante, mas em compreender a natureza frágil dos blocos primordiais que nos contam sobre a formação do Sistema Solar. O espetáculo, afinal, não é só para os olhos: é para a razão crítica.

O caso de G3 (ATLAS) reafirma a maior das lições: o verdadeiro triunfo da ciência está em sua capacidade de aprender com a contradição, não em evitar o erro. O céu, aqui, é professor dialético.

Carl Sagan e a poética material do cosmos

Em meio à linguagem severa das órbitas e das equações diferenciais, há uma voz que ainda ecoa como música: a de Carl Sagan. Se Marx e Engels nos ensinaram a compreender o mundo em sua materialidade histórica, se Gramsci nos mostrou a batalha das ideias e Althusser nos lembrou das rupturas epistemológicas, Sagan fez algo igualmente revolucionário: mostrou que a ciência pode ser também ternura, poesia e esperança. Ele compreendeu que a astronomia não é só cálculo frio — é a narrativa de quem somos, de onde viemos e de como poderíamos ser melhores.

Sagan soube traduzir a física do cosmos em ética para a Terra. Ao lembrar que “somos feitos de poeira de estrelas”, não usava metáfora, mas constatação científica. E, no entanto, essa frase carregava mais que informação: era a síntese dialética entre objetividade e emoção, entre dados espectroscópicos e imaginação humana. Engels falava da dialética da natureza; Sagan a reencenou para milhões, fazendo da ciência uma pedagogia popular, uma hegemonia cultural capaz de disputar corações e mentes contra o obscurantismo.

O que Sagan nos deu foi uma ciência que não se furta ao espanto. Enquanto alguns tentam reduzir a astronomia a números e curvas, ele insistia na beleza como parte da verdade. Não se tratava de romantizar, mas de compreender que a beleza não é ornamento: é consequência do próprio real. O cometa que ilumina o céu não brilha para ser visto; mas, ao ser visto, nos ensina sobre nós mesmos. O espetáculo natural torna-se espelho da nossa pequenez e da nossa potência.

Aqui, a ponte com o Materialismo Histórico-Dialético é nítida. A ciência, quando reduzida a positivismo, morre em sua própria arrogância. Mas quando aceita o inesperado, o contraditório, o frágil e o poético, se torna emancipação. Marx dizia que o objetivo não é apenas interpretar o mundo, mas transformá-lo. Sagan aplicou esse princípio à cultura científica: não basta entender o cosmos, é preciso transformar o modo como o povo o percebe, romper com o senso comum alienado e substituí-lo por uma consciência cósmica.

Sagan, portanto, é herói da ciência e da astrofísica não por ter descoberto novos mundos, mas por ter feito do cosmos um patrimônio cultural da humanidade. Ele provou que a astronomia não é privilégio de especialistas, mas prática popular, política e poética. Ao lado de Marx, Engels, Gramsci e Althusser, seu nome compõe essa constelação de pensadores que lembram: a ciência, para ser plena, precisa ser também filosofia e beleza.

A astronomia como filosofia material

A história da astronomia não é apenas uma sequência de descobertas técnicas. Ela é, na verdade, um campo de batalha filosófico, uma arena onde se enfrentam concepções de mundo, paradigmas e hegemonias culturais. Cada revolução no olhar para o céu foi também uma revolução na maneira como o ser humano se compreende. Copérnico, Newton, Einstein, Vera Rubin — todos protagonizaram mais que avanços científicos: produziram rupturas históricas no tecido cultural e político da humanidade.

O Materialismo Histórico-Dialético nos ajuda a ler essa trajetória. Se a astronomia nasceu como contemplação metafísica dos astros, sua maturação só foi possível quando a observação se aliou ao cálculo e à crítica das velhas concepções. Copérnico, ao deslocar a Terra do centro do cosmos, não apenas reformou o sistema astronômico: abalou o edifício ideológico da Igreja e inaugurou uma luta por nova hegemonia cultural. Foi um momento de “guerra de manobra”, diria GRAMSCI — ruptura brusca que redistribuiu poder simbólico.

Depois, Newton ergueu a lei da gravitação universal como síntese que unificava os céus e a Terra. Não era mais um cosmos dividido entre “acima” e “abaixo”: tudo obedecia à mesma dialética da atração. Foi a construção de uma nova “trincheira” no senso comum científico. A ciência se tornava parte do projeto de modernidade, de desenvolvimento das forças produtivas, alimentando revoluções políticas e econômicas. A astronomia não era neutra; era fundamento da própria ordem burguesa nascente.

Mas a dialética não para. Einstein, ao reformular tempo e espaço, negou e superou a mecânica newtoniana. A relatividade mostrou que até o tecido do cosmos é contraditório: espaço e tempo não são absolutos, mas se curvam diante da matéria e da energia. Essa negação foi também uma revolução epistemológica, no sentido althusseriano: ruptura com os limites da ciência anterior. E a recepção popular dessas ideias mostrou que até os conceitos mais abstratos da física se tornam matéria de cultura, poesia, política.

No século XX, outra figura rompeu com os paradigmas ocultos: Vera Rubin, ao medir as curvas de rotação galáctica, revelou a presença da matéria escura. Mais uma vez, o cosmos negava nossas certezas. Rubin mostrou que a maior parte do universo não é visível — e que nossa teoria ainda é insuficiente. Aqui, a dialética se manifesta na contradição entre aparência e essência: o que vemos não é o todo; o essencial se esconde, e a ciência precisa cavar mais fundo.

Assim, a astronomia deve ser entendida como filosofia material em prática. Não é apenas coleção de dados, mas movimento histórico em que hipóteses são negadas, superadas e incorporadas em novas sínteses. É uma verdadeira “guerra de posições” no sentido gramsciano: não há vitória definitiva, mas avanços lentos, trincheira por trincheira, contra a ignorância e o obscurantismo. Cada telescópio lançado, cada cometa estudado, cada curva espectral analisada é uma posição conquistada na longa batalha da humanidade para compreender o real.

Por isso, a astronomia é mais do que ciência: é filosofia e política em ato. Ela desnaturaliza o dogma, questiona a ordem aparente, reconfigura nossa relação com o mundo. É, em última instância, prática de emancipação.

Conclusão — Ode à dialética cósmica

A travessia de cometas em 2025 não é mero registro astronômico. É uma metáfora material, uma alegoria viva do modo como a própria realidade se organiza: em movimento, em contradição, em negação e superação. Se o positivismo nos prometeu certezas definitivas, os cometas nos devolvem a dialética: o núcleo que se dissolve para brilhar, o visitante interestelar que recusa os manuais, a previsão que falha para nos ensinar de novo.

ENGELS, em sua Dialética da Natureza, já intuía que a ciência não podia ser compreendida como acúmulo linear de dados, mas como história de saltos e rupturas. MARX nos lembrava que não há verdade fora da história, que o real é processo. GRAMSCI via a batalha cultural como disputa por hegemonia — e os cometas, ao despertarem olhares coletivos, mostram que a ciência também disputa corações e mentes, que cada fenômeno celeste pode ser trincheira contra o obscurantismo. ALTHUSSER falaria aqui de cortes epistemológicos: objetos que rompem a continuidade e obrigam a ciência a se refazer. E Carl Sagan, em sua ternura cósmica, nos ensinou que a ciência é também poesia, que o método pode andar de mãos dadas com o espanto.

Os cometas de 2025 são arquivos do passado e ao mesmo tempo motores de revolução teórica. São conservadores e destruidores, arquivos e fogos de artifício, silêncio milenar e explosão súbita. Eles nos recordam que o cosmos não cabe em fórmulas fixas: exige humildade, exige coragem, exige imaginação. São uma lição de filosofia prática: o real não é estático, é dialético.

Por isso, contemplá-los é mais do que ver luzes no céu. É participar de um processo histórico maior, em que a humanidade aprende com o inesperado. É entender que a ciência não salva o mundo pelo acúmulo de certezas, mas pela capacidade de transformar o erro em caminho, a crise em avanço, a contradição em beleza. É aceitar que o conhecimento é provisório, mas a busca é infinita.

Assim, o céu de 2025 se eleva como manifesto: uma ode à dialética cósmica, à ciência que não teme o imprevisto, à filosofia que encontra poesia no real. Os cometas passam, mas a lição fica: a beleza do universo é que ele nunca confirma nossos dogmas — ele sempre os nega, e dessa negação nos faz mais humanos.

Ensaio publicado originalmente em <código aberto> 

O que esperar do Brasil, segundo Fernando Haddad

Luis Nassif

Fernando Haddad sempre foi um homem público preocupado com as implementações estruturantes, as que ficam para sempre e cujos frutos nem sempre são colhidos de imediato. Foi assim com a expansão da rede de universidades e institutos federais de ensino, quando Ministro da Educação. Ou as políticas urbanas, que mudaram a cara de São Paulo, apesar da mais relevante delas, a nova Lei do Zoneamento, ter sido torpedeada pela especulação imobiliária.

Como Ministro da Fazenda, Haddad sai das situações fim, de entregas, para as situações meio, de preparação do terreno para colheitas futuras.

Aqui, um resumo dos temas abordadas na entrevista concedida no sábado, ao Projeto Brasil do Jornal GGN.

 Resumo da Entrevista com Fernando Haddad

1. Contexto Político

  • Diferença entre 2002 e 2022:
    • Em 2002, Lula herdou um país institucionalmente estável, com oposição republicana (PSDB) disposta a negociar.
    • Em 2022, Lula encontrou um ambiente mais tóxico, com oposição bolsonarista cujo objetivo é travar a agenda nacional.
  • O Congresso atual, apesar de entraves, aprovou pautas importantes como a reforma tributária.

2. Avanços Econômicos Recentes

  • Reforma Tributária: considerada a maior já feita no Brasil.
  • Combate às renúncias fiscais: redução de 6% do PIB para patamares menores, com transparência CNPJ por CNPJ. Em São Paulo e Minas Gerais, por exemplo, os governos estaduais ampliaram as isenções fiscais e mantém em sigilo as empresas beneficiadas.
  • Ajuste fiscal: feito sem aumentar impostos, mas reduzindo privilégios e isenções.

3. Desigualdade e Justiça Social

  • Nova agenda: ir além do combate à miséria e fome, enfrentando desigualdade estrutural. Trata-se de um desafio totalmente distinto do combate à fome.
  • Reforma da renda + tributação mais justa como instrumentos centrais.
  • Crédito abusivo: governo estuda medidas contra juros excessivos cobrados de trabalhadores, mesmo em consignados. Considera que um dos grandes fatores de desigualdades são os spreads dos empréstimos bancários.

4. Vantagens Competitivas e Desenvolvimento Sustentável

  • Brasil tem condições únicas na transformação ecológica: vento, sol, biocombustíveis, grandes reservas de terras raras e minerais críticos.
  • Estratégia: agregar valor localmente → empregos de qualidade, transferência tecnológica e reindustrialização. Mas admite que essa tarefa, essencial, cabe ao Ministério de Minas e Energia.
  • Compras governamentais como instrumento de política industrial (não aceitação da cláusula da UE que proibia isso).
  • Defesa de joint ventures tecnológicas para absorver ciência e tecnologia.

5. Inteligência Artificial e Soberania Digital

  • 60% dos dados brasileiros são processados fora do país → risco à soberania.
  • Governo articula com capital nacional e estatal a criação de infraestrutura própria de data centers e plataformas de IA.
  • Integração entre transição ecológica e mundo digital (IA demanda energia limpa e minerais críticos).

6. Política Internacional e Geopolítica

  • Terras raras: Brasil e Vietnã como grandes detentores, EUA com reservas muito limitadas.
  • Interesse norte-americano em governos entreguistas na América Latina para acesso a minerais estratégicos.
  • China como referência: só concede acesso ao mercado mediante transferência de tecnologia e joint ventures.
  • Defesa de acordos soberanos, evitando repetir modelo de exploração sem valor agregado.

7. Outras Políticas Estruturantes

  • Educação e ciência: recomposição dos orçamentos do MEC, SUS e FNDCT após o sucateamento do governo Bolsonaro.
  • Mercado de carbono e taxonomia verde: criação de regras para precificar emissões e valorizar produtos sustentáveis.
  • Energia: necessidade de socializar os custos da energia renovável, barateando para todos, não apenas para quem instala painéis solares.
  • Aeroespacial: Brasil tem iniciativas em satélites, mas distante de China e EUA. Estratégico não depender de monopólios internacionais.

8. Previdência e Trabalho

  • Reconhecimento da necessidade de reformas futuras devido ao envelhecimento populacional.
  • Proposta: aposentadoria mais tardia, mas com jornadas semanais mais curtas, distribuindo melhor o trabalho ao longo da vida.
  • Defesa de justiça no financiamento da Previdência, incluindo reforma dos militares (travada no Congresso).

 

Conclusão

Haddad articula uma visão de desenvolvimento estratégico e sustentável, que combina:

  • Justiça social (enfrentamento da desigualdade).
  • Reindustrialização verde (bioeconomia, minerais críticos, energias renováveis).
  • Soberania digital (IA e dados processados no Brasil).
  • Política fiscal justa (redução de renúncias e privilégios).
  • Política internacional assertiva (parcerias com contrapartidas, à moda chinesa).
  • Fernando Haddad chamou atenção, também – mas sem entrar em detalhes – para o trabalho que vem sendo realizado pelo Banco Central em 2024. Segundo ele, entrará futuramente para a história.

O corpo em disputa: metaintermediação algorítmica e soberania perdida

Entre amor, desejo e sofrimento, o corpo tornou-se campo de disputa silenciosa sob o domínio das plataformas digitais

Por Reynaldo Aragon 

Este ensaio mergulha na carne viva da nossa existência: como aplicativos de saúde, namoro e produtividade transformam emoções e sinais vitais em mercadorias. Um convite à reflexão sobre a luta pela soberania do corpo em tempos de captura algorítmica.

O corpo como trincheira

Acordamos, todos os dias, cercados de números. O coração que pulsa em silêncio é traduzido em gráficos que medem desempenho. O sono, que antes era repouso, agora tem relatório que acusa falhas. O amor, que sempre foi encontro incerto, virou algoritmo de compatibilidade e rejeição gamificada. O corpo — essa matéria concreta da vida, essa força produtiva que sustenta a história — já não é apenas carne e energia, mas variável estatística, ativo financeiro, dado a ser explorado.

O capitalismo digital colonizou a pele, o pulso, o olhar. Transformou desejo em dado, ansiedade em gráfico, esperança em notificação. Não se trata apenas de vigiar: trata-se de modular comportamentos, reforçar docilidade, administrar emoções como quem administra estoques. A psicologia comportamental, antes instrumento para compreender e libertar, foi apropriada como técnica de comando suave. Badges, streaks, metas e recompensas intermitentes transformam a vida cotidiana em laboratório de obediência.

Mas o que significa viver assim? Que soberania resta quando até a respiração pode ser indexada por uma plataforma? Quando o direito ao erro, ao acaso, à contingência — aquilo que faz da vida vida — é suprimido em nome da otimização? A cada relatório de sono mal dormido, a cada match perdido, a cada passo não dado, somos atravessados por uma pedagogia de culpa e de insuficiência. A promessa de cuidado converte-se em disciplina; a promessa de saúde, em ansiedade; a promessa de felicidade, em solidão.

Este ensaio parte de uma certeza dura: o corpo é hoje a última trincheira da luta de classes. Se no passado o capital disputava nossas mãos nas fábricas e nossas horas de trabalho, agora disputa nossos batimentos cardíacos, nossos desejos mais íntimos, nossas cicatrizes emocionais. A batalha é silenciosa, mas visceral. E sua questão central é inescapável: seremos corpos otimizados para o lucro ou corpos soberanos para a vida?

O corpo no materialismo histórico-dialético

O corpo nunca foi neutro. Ele é o primeiro território da luta de classes, o fundamento de toda produção social. Desde os primórdios, o capital aprendeu a transformar músculos, nervos e energia vital em mercadoria. No chão das fábricas, as mãos foram cronometreadas; nos campos, o suor foi medido em colheitas; no fordismo, cada gesto foi reduzido a movimento repetido em nome da eficiência. O corpo, força produtiva histórica, foi moldado como engrenagem de uma máquina maior.

O materialismo histórico nos mostra que cada época traz novas formas de subordinação da vida ao capital. Se o século XIX domesticou braços e pernas sob o chicote e a disciplina fabril, o século XXI captura pulsações, respirações, desejos. Já não basta controlar a hora do trabalho: agora se disputa a hora do sono, a intensidade da respiração, a cadência da caminhada, a frequência do coração apaixonado. É a subsunção real da vida — quando não apenas o trabalho, mas a própria existência, é devorada pela lógica da exploração.

A dialética revela a contradição: aquilo que poderia ser libertação — tecnologia capaz de aliviar a fadiga, cuidar da saúde, ampliar o tempo livre — é apropriado como nova forma de opressão. Os algoritmos aparecem como “cuidadores”, mas operam como patrões invisíveis, modulando condutas, recompensando obediência, punindo desvios. Onde o trabalhador antes se via na máquina, hoje se vê no dashboard. Onde o corpo antes se dobrava ao ritmo da sirene, agora se curva ao ritmo da notificação.

O capital não se contenta mais em explorar nossas horas: ele coloniza nossos segundos. O corpo não é apenas o espaço do trabalho, é também o espaço da mercadoria, da estatística, do ativo financeiro. Cada batimento capturado, cada passo registrado, cada emoção quantificada — tudo se converte em mais-valor. A vida em si torna-se força produtiva em tempo integral.

Psicologia comportamental e a captura algorítmica

O capital aprendeu a falar a língua da psicologia comportamental. Não mais apenas chicote, relógio de ponto ou metas industriais: agora é o algoritmo quem administra prêmios, punições e reforços. As plataformas digitais são laboratórios de condicionamento operante em escala de massas.

Cada notificação é um estímulo; cada “like” é um reforço positivo; cada badge conquistado é uma recompensa simbólica que nos faz voltar no dia seguinte. Da mesma forma, cada falha registrada — uma noite mal dormida, uma meta de passos não alcançada, um match que não veio — atua como punição sutil, cultivando culpa e docilidade. O cotidiano é reorganizado em torno de uma pedagogia invisível: o sujeito não apenas age, mas aprende a se auto-regular para satisfazer os critérios de um sistema opaco.

Skinner mostrou que o reforço intermitente — aquele que não se sabe quando virá — é o mais poderoso. É exatamente essa lógica que sustenta os apps: a promessa de que o próximo match, a próxima recompensa, a próxima métrica verde virá a qualquer momento. E é por isso que voltamos, repetidamente, compulsivamente. O capital não se contenta em governar nossos atos: governa agora nossas expectativas.

Esse é o coração da captura algorítmica: transformar desejo em variável controlável, esperança em instrumento de docilização, sofrimento em engrenagem produtiva. O corpo, ao ser condicionado, aprende a dançar no ritmo do algoritmo — e cada passo que dá alimenta a mesma engrenagem que o aprisiona.

Sintomas e cicatrizes – a carne marcada pela métrica

O corpo não sai ileso da captura algorítmica. A cada métrica imposta, a cada dashboard iluminado, a cada gráfico que separa sucesso de fracasso, nascem sintomas e cicatrizes que não são apenas psicológicas, mas físicas, concretas, encarnadas. A colonização não é abstrata: ela se imprime na pele, no sono, no desejo, no estômago vazio de ansiedade.

No amor e no desejo, os algoritmos hierarquizam afetos, transformando encontros em estatística e rejeições em notificações silenciosas. O que antes era acaso, surpresa, paixão inesperada, hoje é filtro, ranking, escassez artificial. O desejo, força vital que sempre escapou à disciplina, é agora calibrado em “matches” e “likes”. Cicatriz: uma solidão amplificada, onde o corpo aprende que vale tanto quanto a relevância que um código lhe concede.

No sono e no repouso, a cama se converte em laboratório. A cada noite mal dormida, um relatório de fracasso; a cada insônia, uma curva vermelha que acusa. A promessa de cuidado transforma-se em ortossonia: obsessão em dormir “corretamente”, medo de não render. Cicatriz: a noite, que deveria ser refúgio, torna-se mais um espaço de ansiedade.

Na alimentação e no movimento, calorias são moedas e passos são metas. O prato deixa de ser prazer ou partilha: é dashboard. O corpo aprende que comer não é nutrir-se, mas evitar estar “fora da meta”. O caminhar não é mais liberdade, mas disciplina medida. Cicatriz: a vida cotidiana rebaixada a jogo de punições e recompensas.

Na alegria e na tristeza, a captura é ainda mais perversa. A dopamina, que deveria nascer do encontro com o mundo, é agora racionada por notificações. Cada sorriso diante da tela é reforço intermitente; cada decepção é punição invisível. Alegria fabricada, tristeza contabilizada, esperança sequestrada. Cicatriz: sentimentos autênticos dissolvidos em reforços artificiais.

O resultado é um corpo marcado. Insônia, ansiedade, distúrbios alimentares, solidão digital, depressão — sintomas que são ao mesmo tempo pessoais e coletivos. Cicatrizes que carregamos não apenas como indivíduos, mas como classe, como geração submetida a uma pedagogia de insuficiência.

Alienação deixa de ser conceito distante: ela pulsa no peito acelerado, na pele cansada, nos olhos que não fecham à noite. É a alienação tornada fisiologia. É a vida reduzida à métrica, à régua do capital.

Subsunção real da vida pelo capital algorítmico

No capitalismo digital, já não há fronteiras claras entre tempo de trabalho e tempo de vida. O que Marx chamou de subsunção real — quando o capital não apenas se apropria do produto do trabalho, mas reorganiza inteiramente o processo produtivo — alcança agora uma dimensão radical: a própria vida é integrada como engrenagem da produção.

O corpo não descansa: produz dados enquanto dorme. O coração que pulsa em silêncio é convertido em métrica de saúde para seguradoras, em variável estatística para investidores, em insumo para plataformas. O beijo apaixonado, a corrida solitária, o prato de comida, a insônia — tudo é transformado em fluxo de informação que alimenta algoritmos de predição e modelos de extração de valor.

Essa é a novidade brutal: já não vendemos apenas nossa força de trabalho por horas. Vendemos, mesmo sem saber, cada instante da existência. Cada respiração monitorada é um microtrabalho inconsciente que abastece a máquina de cálculo do capital. O corpo, alienado de si, se torna ativo financeiro: objeto de especulação, moeda para seguros, mercadoria nas mãos de quem controla as plataformas.

A promessa de emancipação tecnológica — a possibilidade de aliviar a fadiga, cuidar da saúde, ampliar a liberdade — é revertida em colonização. O mesmo dispositivo que poderia libertar o corpo do cansaço transforma-se em mecanismo de controle e disciplinamento. O algoritmo surge como “cuidador”, mas opera como supervisor invisível, determinando ritmos, recompensando comportamentos, punindo desvios.

Essa colonização total marca um salto histórico. O capital não apenas compra o tempo do trabalhador: ele captura a energia vital, a intimidade, o desejo, a própria substância da vida. O corpo, reduzido a dado, já não pertence ao sujeito que o habita. O que está em jogo não é apenas exploração econômica — é a perda da soberania sobre a carne, sobre os gestos, sobre o que ainda nos restava de humano.

Geopolítica do corpo

A disputa sobre nossos corpos não é apenas íntima, é planetária. O mesmo algoritmo que mede passos em São Paulo calcula também a fertilidade em Nairobi, o batimento cardíaco em Mumbai, o desejo em Buenos Aires. Os metaintermediários não conhecem fronteiras: operam como novos impérios invisíveis, administrando dados biométricos com a mesma lógica de pilhagem que marcou o colonialismo.

No Sul Global, essa colonização digital assume contornos ainda mais brutais. Nossos corpos tornam-se laboratórios, nossas emoções são matéria-prima barata, nossos dados circulam em mercados que não controlamos. Cada pulso, cada noite insone, cada gesto íntimo trafega por servidores situados nos centros do capital global. É uma nova forma de colonialismo: não mais o saque direto de minerais ou terras, mas a extração contínua de dados vitais.

O Brasil, com sua população jovem e hiperconectada, é visto como mina de ouro informacional. Empresas estrangeiras coletam sinais de saúde, padrões de sono, rotinas alimentares, desejos amorosos. Esses dados são processados fora do país, convertidos em mercadorias, revendidos a governos, corporações e seguradoras. Nossa carne, traduzida em código, serve para alimentar modelos de predição que reforçam a hegemonia das potências do Norte.

Aqui, a dialética se impõe com toda a sua força: a soberania do corpo está diretamente entrelaçada à soberania nacional. Quem controla os dados do corpo controla também a força produtiva de uma nação. Ao permitir que algoritmos estrangeiros ditem os ritmos da saúde, da sexualidade e do trabalho, abrimos mão de um pedaço fundamental de nossa autonomia histórica.

O corpo, portanto, é também campo de batalha geopolítico. Na era da metaintermediação algorítmica, lutar pela soberania corporal significa lutar contra a recolonização digital do Sul. É afirmar que nem nossos gestos, nem nossos desejos, nem nossas dores serão mais mercadorias a serviço de impérios invisíveis.

Horizontes de emancipação

Se o capital algorítmico transformou o corpo em ativo estatístico e mercadoria, cabe a nós recolocar a vida no centro. A luta pela soberania do corpo não é metáfora: é projeto político. Significa disputar os rumos da tecnologia, reverter a lógica da captura e afirmar que a respiração, o sono, o amor e a dor pertencem ao humano — não ao capital.

Soberania informacional é soberania do corpo. Não há separação. Cada dado produzido pelo corpo deve ser tratado como extensão da dignidade humana, e não como moeda de troca. Isso implica instituir direitos inegociáveis: o direito à opacidade, à privacidade, ao erro, ao acaso. A vida só é vida quando contém margem de contingência. Eliminar o imprevisível é eliminar a liberdade.

Um projeto socialista de tecnologia precisa nascer da urgência desse tempo. Não basta regular plataformas: é preciso criar infraestruturas públicas e coletivas que sirvam à emancipação, não à exploração. Apps de saúde voltados ao bem-estar coletivo, sem monetização de dados. Algoritmos transparentes, auditáveis, sob controle democrático. Redes digitais que incentivem solidariedade, não competição permanente.

 

  • Critérios materiais de soberania do corpo podem ser desenhados:

 

  • Finalidade pública: tecnologia orientada para necessidades sociais e não para lucro.

 

  • Minimização de dados: coletar apenas o estritamente necessário, nunca a vida inteira.

 

  • Transparência e verificabilidade: algoritmos auditáveis, sujeitos a controle popular.

 

  • Autonomia coletiva: infraestruturas de dados sob comando público e democrático.

Mas há ainda um horizonte mais profundo: o direito à própria experiência humana. O direito de dormir sem relatório, de amar sem filtro, de caminhar sem meta, de sentir tristeza sem ser convertido em métrica. O direito ao acaso, à falha, à imperfeição. Porque é na imperfeição que mora a liberdade, e é na contingência que floresce a vida.

Resistir à colonização algorítmica do corpo é afirmar que a carne não será subsumida ao cálculo. É declarar que nossos gestos não são estatística, que nossos afetos não são mercadoria, que nossos sonhos não cabem em dashboards. É, acima de tudo, recuperar a possibilidade de sermos soberanos sobre nós mesmos.

Conclusão – O corpo como última fronteira da luta de classes

Chegamos ao coração da contradição: o corpo, antes força de trabalho nas fábricas e nos campos, tornou-se agora o território mais íntimo da exploração. Cada batimento cardíaco, cada noite insone, cada gesto de afeto ou solidão é transformado em dado, e cada dado é convertido em valor. O capital não apenas disputa nossas horas: disputa a própria carne, os sentimentos, os sonhos.

É nesse ponto que o materialismo histórico-dialético nos dá clareza: a luta de classes não se limita ao chão de fábrica, mas se expande até a pulsação do corpo. A alienação já não se esconde na distância entre trabalhador e produto do trabalho — ela vibra na ansiedade de não cumprir metas de passos, na culpa de não dormir direito, na solidão gamificada de quem espera um match que nunca vem.

Mas é também aqui, nesse mesmo território de dor, que pode nascer a emancipação. A soberania do corpo é a trincheira final contra o colonialismo algorítmico. Resistir significa afirmar o direito ao acaso, ao erro, à imperfeição — a viver para além da métrica. Significa lutar por tecnologias a serviço da vida, sob controle democrático, orientadas pela dignidade humana e não pela extração de lucro.

O corpo é a última fronteira da luta de classes. Se deixarmos que seja totalmente colonizado, não restará sequer o abrigo íntimo do sono ou o calor inesperado do amor. Mas se defendermos essa trincheira, estaremos também defendendo a possibilidade de um futuro em que a técnica pertença ao povo, e não ao capital.

A escolha é nossa e o tempo é agora: seremos corpos otimizados para o lucro, ou corpos soberanos para a vida.

Ensaio publicado originalmente em <código aberto> 

Tempos e Contratempos da Política Econômica, um ensaio sobre o Brasil

Nathan Caixeta

Introdução

Leio na coluna de Pedro Cafardo, jornalista de conhecida competência no debate econômico, a sugestão de que o debate sobre os juros no Brasil não deveria ser ofuscado pelas discussões acerca do tarifaço de Trump.

De fato, as últimas ações do Banco Central na condução da política de juros não têm estado no farol dos especialistas como deveriam. Ou pelo menos, as questões cruciais e terríveis que deveriam suscitar maior energia no debate público têm sido obstadas não (só) pelo tarifaço, mas falta de criatividade de economistas, jornalistas e agentes do mercado que, por vício, desgosto ou predileção, costumam se debruçar sobre os problemas dos juros altos, da inflação, da institucionalidade da política monetária e do elevado custo fiscal do serviço da dívida pública.

O artigo chama a atenção para as propostas que José Luis Oreiro ofereceu quando convocado pela Comissão de Debates e Estudos Estratégicos da Câmara dos Deputados (cujo texto integral o autor fez a gentileza de disponibilizar).

Cafardo convocou dois comentaristas para lançar luzes e breves considerações sobre o texto do Dr. Oreiro: Luiz Gonzaga Belluzzo, a quem devo, em amizade, muito mais do que minha formação intelectual, e Felipe Adaime, ex-VP do Banco de Chicago.

Belluzzo cuidou de destacar os aspectos estruturais e históricos que levaram à desindustrialização brasileira e ao ciclo vicioso entre juros altos e câmbio volátil e sobrevalorizado que submeteu o país à estagnação do investimento, da renda e da produtividade nos últimos 40 anos. 

A trinca formada pela globalização financeira, pelo acelerado avanço do desemprego estrutural na indústria, motivado em parte pela avalanche tecnológica 4.0, e pelos desequilíbrios crescentes do sistema monetário financeiro nucleado pelo dólar, tem embalado os ritos e ritmos contemporâneos do capitalismo, ou do Regime do Capital, como preferiria Karl Marx. Esses fenômenos nem de longe alteram o modo de ser desse sistema econômico-político-social, senão manifestam sua saga realizadora: mudar para permanecer igual.

Os leitores deste distinto jornal, agraciados pela variedade de pontos de vista que lhes são oferecidos diariamente, certamente sabem que esses fatores estruturais não respeitam graus ou etapas de desenvolvimento entre diferentes espaços nacionais. Atinge a todos, mas não da mesma maneira.

Na periferia, como diziam os antigos mestres cepalinos, mutações do capitalismo se fazem sentir com especial ferocidade. 

A cada ciclo de inovações tecnológicas os chamados países em desenvolvimento (com exceção da China e da Índia), são atravessados pela intensa desconfiguração de seus (ainda existentes) sistemas industriais e pela desvalorização da mão de obra, sempre excedente e destinada às novas e velhas “alternativas”: o bico, a viração, as ocupações sem carteira assinada, o trabalho dominado pelos algoritmos das plataformas digitais.

De forma análoga, os ciclos de expansão e retração dos fluxos de capitais que, tem pouca ou nenhuma aderência ao malfalado e imaginário risco-fiscal, seguem o ritmo dos novos e velhos estratagemas especulativos-alocativos dos grandes investidores institucionais, bancos multinacionais, shadow-banks e outros concorrentes pelo domínio dos instrumentos que permitem a centralização do capital á nível global. Por aqui, desde o afamado Plano Real, somos campeões na arte de ofertar aos convivas estrangeiros um paraíso de rentabilidade num mundo (quase sempre) em crise. Executamos essa nobre tarefa oferecendo os prazeres tropicais e paradisíacos de juros altos, dividendos não-tributáveis, privatizações, fusões e aquisições e outras traquitanas.

Sob alvo dos devaneios de Donald Trump, o domínio do dólar como moeda-reserva e os (des)arranjos vigentes do sistema monetário-financeiro global tem acenado para a mesma espiral de descredibilidade que afetou a libra-esterlina, da metade do século XIX ao período entreguerras. 

Para sintetizar, a detenção por um único país do privilégio exorbitante (como definiu Charles De Gaulle), de emitir a moeda aceita universalmente para o encerramento de transações comerciais e financeiras, provoca sistematicamente ciclos de expansão e contração da liquidez internacional, inflando bolhas financeiras aqui e acolá, determinando crises estruturais no balanço de pagamento de países externamente deficitários (caso do Brasil nos anos 1980 e da Argentina desde então) e concentrando a responsabilidade no país-emissor (no presente, os EUA), de recepcionar os desequilíbrios entre países deficitários e superavitários em seu (ilimitado?) estoque de dívida pública.

Fato é que o movimento recente dos BRICS+, através da construção em curso de institucionalidades que operam fora do sistema dólar, tem turbado os fiéis que deitam suas oferendas ao poder hegemônico do dólar. Aos devotos, o Presidente dos EUA ofereceu o tarifaço e as demais arbitrariedades que só o dono da moeda-reserva pode executar.

Sem levar em conta esses fatores de ordem estrutural e global, é impossível travar qualquer debate honesto sobre os juros no Brasil. Apesar dos que pensam o país como Banana-Republique, é imperativo alertar que existe algo além entre o céu e a terra do que supõe a vã filosofia mecanicista-positivista que atribui os juros elevados à desconfiança dos investidores forâneos em relação aos fundamentos fiscais do país.

Feitos da Economia dos Práticos-inertes

Feitas essas considerações, ocuparei as linhas que me sobram com os comentários deploráveis de Felipe Adaime. Deixarei minhas observações completas (e discordantes) ao texto de Oreiro suspensas por ora, por considerar que exigem maior atenção do que os caracteres disponíveis me permitem.

Disparou o “especialista de mercado”: o colunista [Cafardo] deveria ser “mais cauteloso” na escolha de “especialistas” de esquerda e “mesclá-los” com vozes do mercado. E em seguida, admite o mesmo: foi aluno de Maria da Conceição Tavares na UFRJ, mas diz não se orgulhar disso, porque ela lhe teria ensinado “um monte de porcarias”.

Ao que parece Adaime sugere a existência de dois mundos distintos: aquele habitado pelos economistas de esquerda, eivado dos vícios da política e da teoria social; e o ilustrado reino de onde ecoam as vozes do mercado. 

O primeiro está sempre pronto a solucionar os problemas do país com ideias vindas fora da caixinha da teoria convencional, que guia as mentes dos agentes de mercado e seus economistas. O segundo, por outro lado, é lúcido e prático, com conhecimento de causa sobre as dificuldades que obrigam o país a ostentar as maiores taxas de juros reais do mundo.

Os práticos e lúcidos apreendem a realidade em seu cotidiano operando nos mercados. Os outros, se encastelam na academia e conspiram a favor da dialética, o que os impede de enxergar o mundo em cores duplas, como fazem os especialistas de mercado.

Isso me trouxe à lembrança as considerações de Jean-Paul Sartre (que não, não jogou pela seleção francesa de futebol, caro Adaime), sobre os sujeitos aos quais denominava de práticos-inertes, sujeitos prontos, não a negar a dialética, mas a operá-la ao avesso. Diz o francês: 

“Assim, o movimento da objetividade define sua necessidade dialética como a atividade orgânica superada e conservada pela inércia na medida em que ele se apresenta, para o próprio agente individual e na apodicticidade da experiência, como superação da individualidade, nesse agente e em todos, por um estado suportado e original de sociabilidade reificante”. (Crítica da Razão Dialética, p. 422)

Tomo a liberdade de imaginar que Felipe, locutor do mercado, não tenha escalado muito o andaime (ou “monte de porcarias”) do marxismo, por isso, peço licença para expor brevemente as virtudes práticas dos seres inertes.

Os seres práticos e lúcidos, muitos que habitam o ambiente dos negócios e das finanças, o mundo falante do mercado, carregados pela razão instrumental e pela herança mecanicista e positivista trazida das navegações inconscientes pelos mares da doutrina liberal, reservam para si uma dialética peculiar, negada e afirmada a todo tempo por sua objetividade esclarecida. 

Essa dialética pendula entre a dinâmica dos indicadores econômicos que tem, quase sempre, três estados possíveis – acima, abaixo ou em linha com seus atributos neutros (ou naturais) – para, enfim, fixar-se no equilíbrio, retornando ao ponto de inércia. Este ponto, em coordenadas cartesianas, satisfaz as condições do crescimento exponencial das crenças e certezas e do decaimento logarítmico da capacidade de observar algo além das duas cores (verdes, de alta, e vermelhas, de baixa) exibidas nos gráficos tipo candlesticks.

O andaime intelectual do especialista Adaime funciona bem em sua função de subir e descer identificando cores e tendências, mas está sempre preso ao movimento pendular implícito na teoria neoclássica da taxa de juros. Vejamos uma amostra:

“O Brasil não caiu em armadilha alguma dos juros e do câmbio – foi levado à situação atual porque a esquerda acha que resolve todos os problemas emitindo moeda e tomando dívida. Se fosse simples assim, não haveria pobreza no mundo. Não dá certo porque o crescimento tem que estar associado à produtividade, à tecnologia e, mais que tudo, ao capital. Também precisa ter estoque de mão de obra, território e recursos naturais. O Brasil tem quase tudo isso, mas é pobre, sem capital. Essa é uma das razões para os juros altos. Como a demanda por capital excede sua oferta, impacta o preço do capital – os juros.”

Os juros no Brasil, permanecem no degrau mais alto do andaime, porque a demanda de capital supera sua oferta. Caso, esse descasamento fosse superado, poderíamos reduzir os juros até o nível neutro ou natural.

Se a praticidade do comentarista já não tivesse disparatado o suficiente, o mesmo se mete a implicar a emissão de dívida pública à escassez de capital. Convém recorrer aqui a uma das quatro operações elementares da aritmética, neste caso, a soma: se o governo emite dívida para financiar gastos, esse estoque de riqueza se converte necessariamente em capital na mão do tomador do título, somando-se ao universo de ativos líquidos, ou quase líquidos em posse do público.

Em seguida, Adaime relaciona os juros altos ao tamanho da dívida pública, que aumenta conforme se acumulam déficits nominais (resultado primário do governo mais juros da dívida). É de bom alvitre recordar, que exceto no período da pandemia, o resultado primário negativo (déficit) nunca ultrapassou 20% do resultado nominal, desde novembro de 2014.

Aliás, vale notar que entre 2003 e 2010, na primeira era da temível esquerda gastadora, os sucessivos e crescentes superávits primários fizeram com que dívida pública em relação ao PIB recuasse 22,67% (ou 17,5 p.p.) em termos brutos e quase 35% (ou 20,4 p.p) em termos líquidos. 

Do ponto mais baixo da série histórica, em abril/2014, ainda sob a batuta de Dilma, para cá, a dívida líquida dobrou e a dívida bruta cresceu quase 60% (ainda em proporção do PIB) e em ambas as óticas se elevaram em mais de 30 p.p. Vale a pergunta: se o primário contribuiu em média, neste período, com 13,67% do resultado nominal (que registra a variação da dívida líquida), é possível outro motivo para a bola de neve do endividamento público senão os juros sistematicamente elevados?

Nas cabeças de planilha dos denunciantes do risco-fiscal, para usar o termo do amigo Luis Nassif, o resultado primário tem por finalidade exclusiva de pagar a dívida pública, devolvendo ao possuidor dos títulos o valor inicialmente aportado mais juros (fixados ou indexados, seja a Selic, ao IPCA e outros índices). Ledo engano. 

Diante da necessidade de financiamento, acusada pelo déficit nominal, o Estado opera a rolagem da dívida velha para frente, emitindo dívida nova, desvalorizando o estoque de títulos de curto prazo e oferecendo como recompensa fluxos de renda futuros na forma de juros que são incorporados no montante da dívida pública. Essa não é uma peculiaridade brasileira, mas a forma moderna de conciliação monetária e fiscal praticada Urbi et Orbi por todos os bancos centrais do mundo.

A peculiaridade da Ilha de Vera Cruz, atual Brasil, é o elevado patamar das taxas de juros praticadas pelo Banco Central, sobretudo, quando consideradas em termos reais. Aqui vamos ao centro do baile cujo ritmo fez o senhor “ex-VP” do Banco de Chicago derrapar no passo e cair de seu andaime.

Juros, expectativas e o Sistema de Metas

As várias interpretações sobre os juros altos no Brasil são possíveis de vender em uma feira, atendendo a todos os gostos e amealhar cada trocado dos visitantes curiosos.

A visão mais difundida, quase que uníssona entre mercadistas e seus economistas de bolso, é que os juros são altos porque o país gasta muito e gasta mal, gerando inseguranças aos investidores sobre os rumos da dívida pública e sobre a resiliência da inflação acima da meta.

A inércia criativa desses praticantes da boa e velha “ciência econômica” os faz retornar, sem querer querendo, ou querendo por querer, aos postulados do sistema de metas: se os preços dos ativos financeiros negociados nos mercados secundários de riqueza informam a todo tempo a trajetória provável da “economia real” cujo desempenho é refletido pelo comportamento de cada ativo especifico, seria razoável presumir que as expectativas dos participantes e negociantes desses ativos servissem como farol aos bancos centrais sobre as tendências da economia como um todo e, em especial, da inflação.

Esse farol funciona bem ou mal, a depender da disposição dos bancos centrais em manejar a taxa de juros para a direção apontada por esses especialistas engajados na predição do futuro com base no aprendizado sobre o passado. 

Além da direção, os bancos centrais devem acertar na medida, reagindo às expectativas com precisão e se mostrando preparados para coibir excessos vindos da “economia real”, tais como: empresários investindo demasiadamente, gente demais trabalhando, recebendo salários, gastando e perturbando o equilíbrio de curto prazo entre oferta e demanda. Se não forem capazes de coibir excessos diretamente, os bancos centrais podem alertar gentilmente os governos sobre a necessidade de ajustar as contas públicas para reorientar as expectativas e conter pressões sobre a demanda e a dívida pública.

Em última instância, as vozes do mercado se juntam à poderosa retórica dos bancos centrais para dizer aos políticos gastões: “se continuarem a gastar, o aumento dos juros vem aí, até que a desaceleração da economia jogue a inflação para baixo, trazendo consigo o desemprego e a impopularidade”. Não muito tempo atrás, a Presidente Dilma se viu nessa posição. Cedeu aos desejos da turma do andaime e o resto virou história.

O economista suíço Christian Marazzi sugere em seus trabalhos mais recentes que as relações dos bancos centrais e dos tesouros nacionais com o mercado e a sociedade se estabelecem por meio de um diálogo perpétuo no qual os entes públicos estão submetidos ao dever do convencimento. 

Ao mercado, bancos centrais e governos devem atestar credibilidade técnica nas decisões acerca do controle da inflação e da contenção de despesas; à sociedade, devem esclarecimentos sobre a dinâmica do emprego, da renda e da distribuição de renda. Tarefa hercúlea nestes tempos em que as palavras perderam seu referente concreto e o diálogo político-social foi invadido pelos signos sem significado. Um exemplo muito fortuito pode ser encontrado na última Ata do Comitê de Política Monetária do BACEN, divulgada em 05/08/2025:

“7. A conjuntura de atividade econômica doméstica tem indicado certa moderação no crescimento e, ao mesmo tempo, apresentado dados mistos entre os setores e indicadores.

  1. De modo geral, observa-se uma certa moderação de crescimento, corroborando o cenário delineado pelo Comitê. Tal moderação, necessária para a abertura de hiato e a convergência da inflação à meta, se coaduna com uma política monetária contracionista. As pesquisas setoriais mensais e os dados mais tempestivos de consumo corroboram uma redução gradual de crescimento.
  2. Em momentos de inflexão no ciclo econômico, é natural que se observem sinais mistos advindos de indicadores econômicos, alguns antecedentes, outros defasados, como também de comparações entre mercados, por exemplo, os mercados de crédito e de trabalho.
  3. O mercado de crédito, mais sensível às condições financeiras, tem apresentado uma moderação mais nítida. Observa-se um recuo nas concessões de crédito livre e elevação nas taxas de juros e de inadimplência. Além disso, no crédito às pessoas físicas, há um aumento do comprometimento da renda familiar com o serviço das dívidas e um aprofundamento do fluxo de crédito negativo, ou seja, maior pagamento do que contratação de dívida por parte das pessoas físicas. Ressaltou-se, no debate, que algumas medidas recentes, como o consignado privado, têm tido menor impacto do que era esperado por muitos participantes do mercado. Tendo em vista o calendário de implementação nesta linha de crédito, bem como o efeito em outras modalidades da introdução e retirada de impostos, o Comitê avalia que deve acompanhar atentamente as próximas divulgações dos dados de crédito.
  4. Em contraposição ao mercado de crédito, o mercado de trabalho segue dinâmico. Tanto do ponto de vista de renda, com ganhos reais consistentemente acima da produtividade, como do emprego, com redução expressiva da taxa de desemprego para níveis historicamente baixos, o mercado de trabalho tem dado bastante suporte ao consumo e à renda.
  5. Desse modo, o Comitê avalia que os sinais advindos da demanda e da atividade econômica até aqui sugerem que o cenário se desenrola conforme esperado e compatível com a política monetária em curso. O Comitê reforça que o arrefecimento da demanda agregada é um elemento essencial do processo de reequilíbrio entre oferta e demanda da economia e convergência da inflação à meta.”

O ilustre colegiado composto pelo Presidente e pelos Diretores do BACEN neste trecho da Ata, que registra ao final a decisão unânime pela manutenção da taxa básica de juros em 15% a.a., informa, em tom sóbrio e com a linguagem carregada das tecnicidades habituais, que a persistente elevação do emprego e da renda tem criado obstáculos à tentativa, até então frustrada, de conduzir a inflação ao centro da meta, hoje fixada em 3% ao ano, com tolerância de 1,5 p.p. para cima e para baixo. 

No mesmo passo, o COPOM carrega esperanças de que o elevado patamar da taxa de juros comprima o ritmo de crescimento da economia, jogando a favor da tal “ancoragem das expectativas”. Quais expectativas? Aquelas formadas pelos operadores de mercado, que formam os preços dos ativos. 

A crença do BC de que acertou na medida tanto no ritmo, como na magnitude das seguidas elevações da taxa de juros desde outubro de 2024, despejará nas botijas dos formadores de preços um modesto rendimento entre 7 a 9% acima da inflação esperada para os próximos 12 meses. Na contramão, a esperança dos guardiões da moeda é que o arrefecimento da atividade econômica (leia-se aumento do desemprego), equilibre oferta e demanda.

O Presidente do BC, Gabriel Galípolo, revelou que, em conversa amistosa com o genial Caetano Veloso, o músico baiano o perguntou sobre ‘forward guidance’, as sinalizações ofertadas pelo BC ao mercado sobre a trajetória futura dos juros. Galípolo respondeu:

“E eu comecei a falar para ele como é que são as escolhas das palavras. Ele falou: ‘então é que nem fazer poesia’. Eu falei que tenho certeza que as pessoas não tem o mesmo prazer lendo suas poesias do que a ata do Copom. Mas tem uma arte por trás de escolher as palavras ali”.

A arte de escolher as palavras dirigidas ao mercado e à sociedade não é, de fato, distante da poesia. Nos dois casos, a linguagem traz à tona o elemento simbólico que pretende produzir no interlocutor uma reação afetiva, isto é, que ultrapassa a casca racional e atinge as camadas sutis da consciência. A diferença reside no artifício linguístico. 

A linguagem poética, ensina Franco Berardi, “é a ocupação do espaço de comunicação por palavras que escapam do plano das trocas… é o espaço da singularidade, da significação corporal, da criação sensorial”. 

A linguagem da finança, que ocupa as linhas e entrelinhas da comunicação dos bancos centrais e governos com o mercado e a sociedade, é perfomativa: busca produzir efeitos a partir de sinais que não carregam ou aludem à referentes concretos, mas que reforçam a necessidade de realização dos efeitos sinalizados. 

Essa forma supera a casca da razão prática no momento em que o referente, que deveria oferecer à consciência algum significado real, é superado pela autorrealização do ato linguístico, que entrega o símbolo em virtude do convencimento. Marazzi exemplifica com clareza os dons da comunicação monetário-financeira:

“Quando, por exemplo, o Tesouro dos EUA escreve em uma nota de US $ 20 “Esta nota tem curso legal para todas as dívidas públicas e privadas”, não está apenas descrevendo um fato, mas na verdade criando um. É um enunciado performativo em que dizer algo torna isso algo verdadeiro”.

A linguagem técnica dos responsáveis pela salvaguarda das finanças públicas e do poder de compra, que preserva distância tétrica da política, encarna imediatamente um ato de troca: o governo e o banco central oferecem credibilidade na condução das políticas econômicas recomendadas pela velha ciência e o mercado e a sociedade retribuem reiterando a soberania monetária, isto é, a autonomia na emissão e gestão da riqueza criada a partir da emissão de dívida pública e selada pela propriedade do dinheiro em atuar como reserva de valor.

Esse ato dialógico ocorre cotidianamente, na forma de uma convenção que reitera a cada instante a possibilidade de acionamento do performativo absoluto, isto é, da sinalização para qual não é possível nenhuma resistência material ou ideal: a confiança dos participantes da vida social e econômica de que o dinheiro emitido pelo Estado captura em seu valor de uso, todos valores de troca da riqueza existente, refletida nas expectativas acerca dos fluxos de renda futuros. 

Neste momento, a dinheiro torna-se o único caminho possível entre o presente e o futuro e a preferência pela liquidez torna-se imperativa na consciência dos homens e mulheres que, como disse um certo filósofo inglês, buscam a lua e se contentam com queijo suíço, ou melhor, buscam preservar seu estoque de riqueza na forma líquida e se contentam no abrigo do Tesouro público.

Sobre o Tempo e a Incerteza

Essas digressões pelos aspectos substantivos da forma-dinheiro foram necessárias para o avanço sobre o perigoso terreno das expectativas, que já aprisionou mentes como a de Robert Lucas na casamata de considerar a incerteza em relação ao futuro como caso particular das propriedades racionais dos seres econômicos.

É prudente recorrer, brevemente a dois conceitos de incerteza, a Incerteza Radical de Keynes, exposta já nos textos preparatórios de sua Teoria Geral de 1936, e a de Werner Heisenberg que elaborou sua Teoria da Incerteza no campo da Mecânica Quântica poucos anos antes de Keynes, em 1927.

A Incerteza de Heisenberg garante que, em um sistema quântico, a variação simultânea da posição e da velocidade de partículas em movimento conduz à indeterminação sobre a precisão das medidas. A eliminação dessa indeterminação depende da subjetividade do observador em fixar a posição correspondente à velocidade da partícula para uma determinada força de aceleração. Igualmente, a posição só pode ser obtida tomando uma velocidade já conhecida.

A hipótese da Incerteza Radical de Keynes estabelece que a precariedade do conhecimento humano impede a formação de considerações precisas sobre o futuro. Por isso, os agentes se apegam à opinião da maioria, na esperança de minimizar os erros de suas previsões. Essa é uma ação racional que dedica os esforços do indivíduo esclarecido em assumir como verdadeiras determinadas hipóteses que não podem ser provadas à priori. Entretanto, essa ação racional pode ser dirigida por suposições inteiramente equivocadas que, igualmente, só se mostram falsas no futuro.

As duas teorias da incerteza indicam que não existem critérios objetivos pelos quais se obtém um conhecimento objetivo. Ao contrário, o conhecimento objetivo parte de uma base de escolhas subjetivas que não podem ser validadas ou impugnadas objetivamente.

A Teoria das Expectativas que domina os modelos mais reputados da macroeconomia moderna postula o contrário acerca da incerteza. Em síntese, informam seus realizadores (dentre os quais alguns keynesianos bastardos) que a incerteza pode ser mitigada pela expansão e qualificação das informações que baseiam a decisão racional dos agentes econômicos. 

A capacidade de aprendizado obtida no passado imuniza os agentes em relação à incerteza sobre o futuro, transformando as decisões econômicas que antes eram objetivamente indetermináveis pelas vias racionais em variáveis de um modelo probabilístico ajustado por um certo erro entre as previsões passadas e a realidade anterior observada. As expectativas refletem, portanto, as probabilidades de determinados eventos futuros.

A amplitude de informações que correm pelas veias das mídias digitais para dentro do circuito financeiro, capacitam os analistas de mercado a formarem os preços dos ativos com cada vez mais precisão, que é assegurada pela significância estatística de seus modelos de probabilidade.

Essa alquimia, operada pela teoria econômica convencional para driblar as inconsistências do conhecimento humano e da capacidade de decidir sobre o futuro baseando-se no passado, mora no coração da operacionalidade do sistema de metas de inflação.

Nas funções de reação dos bancos centrais, inspirados na charmosa Regra de Taylor, com suas diferenças e peculiaridades pontuais, estão abrigadas nos supostos de que os agentes de mercado são capazes de prever com razoável segurança os riscos associados à evolução da inflação. 

Na hipótese de não existirem pressões inflacionárias de demanda (hiato de produto próximo a zero) e de calibragem correta do diferencial de juros entre os juros internos e os juros praticados internacionalmente (garantindo a cobertura da paridade cambial no médio-longo prazo), a decisão do banco central fixa-se tão somente na diferença entre a meta de inflação e as expectativas informadas pelos agentes via precificação dos títulos de dívida.

Espremendo ao limite, o sistema de metas se resume a convencer o mercado de que o banco central fará tudo possível para convergir a inflação em direção à meta, que é definida, no caso brasileiro, pelo Conselho Monetário Nacional. 

Quanto mais desconfiado o mercado em relação à capacidade do banco central de manejar os juros, com direção e precisão necessárias, para realizar seu objetivo dentro de um determinado prazo, mais longos e intensos os ciclos de alta de juros, e mais curtos e moderados os ciclos de baixa, como a experiência pós-pandemia tem demonstrado.

Vale considerar, portanto, as relações entre as expectativas e a meta de inflação. Na função de reação do BC, na qual já mostramos que, em condições ideais, procura-se tão somente encurtar a distância entre as expectativas dos agentes econômicos, denunciadas nos preços dos ativos, e a meta de inflação perseguida, considera-se uma determinada sensibilidade entre o nível de ancoragem das expectativas e a dose necessária de ajuste na taxa de juros que cumprirá o objetivo de mover o crédito e a demanda, impactando a inflação corrente.

Este componente de sensibilidade, calculado via estimação bayesiana, cumpre a função de averiguar a distância entre a taxa de juros praticada pelo Banco Central e a taxa neutra de juros reais (aquela que equilibra oferta e demanda de crédito, anulando pressões inflacionárias de demanda). A diferença entre as expectativas e a meta oferece a direção e, fixada a taxa neutra, obtém-se a precisão requerida para a o ajuste na taxa de juros.

Como já discutimos, as expectativas individuais dos agentes econômicas acerca do futuro são formadas com base em seu imperfeito conhecimento do passado e de suas avaliações subjetivas sobre o comportamento futuro da dinâmica da economia, ou melhor, das variáveis que cada agente imagina impactar, com maior ou menor grau, a dinâmica futura da economia como um todo e de cada mercado em particular. Tais avaliações são elaboradas em condições de incerteza radical, o que exige do observador o amparo de alguma convenção que estabilize seu horizonte de decisão. 

Este amparo é encontrado na opinião da maioria e no grau de confiança que cada agente individual deposita na opinião dos demais. Este procedimento, bem documentado pelos estudos sobre a psicologia das massas, pretende objetificar o processo de avaliação sobre a dinâmica futura da economia e, portanto, sobre as condições de preservação e valorização do estoque de riqueza existente. 

Muito embora os agentes possam confiar cegamente na opinião dos demais, a objetificação da avaliação sobre as condições de preservação e valorização da riqueza revela, na verdade, um grau de subjetividade extremo que está justamente na escolha consciente, ou não, em depositar sua crença nas expectativas exaradas pela coletividade a cada movimento do preço dos ativos. 

Isto equivale à experimentação nos sistemas quânticos, em que ao fixar as variáveis que controlam as condições iniciais do sistema, o observador admite um grau de autodeterminação ex-ante ao experimento. Michael Epperson ao perscrutar os procedimentos dos Quanta à luz da filosofia de Alfred North Whitehead, escreveu:

“Embora a mecânica quântica utilize fatos os fatos constitutivos daquilo que está sendo medido, por exemplo, e os fatos constitutivos do resultado da medição , a mecânica quântica não pode explicar esses fatos. A mecânica produz somente probabilidades. Quando usada para prever e, portanto, descrever uma interação de medição, a mecânica quântica utiliza fatos estipulados como existentes antes da interação de medição fatos que explicam o que deve ser medido, bem como o aparato que realizará a medição. Esses fatos são, segundo o formalismo quântico que descreve a interação de medição, causalmente produtivos de uma matriz de probabilidades mutuamente exclusivas e exaustivas probabilidades referentes a um resultado único e factual. Embora esse resultado único seja antecipado pela mecânica, ele não é explicado pela mecânica, e aí reside a chave para o conflito entre várias interpretações concorrentes da teoria quântica. John Bell explica essa dificuldade da seguinte forma: quando se diz que algo é “medido”, é difícil não pensar no resultado como se referindo a alguma propriedade pré-existente do objeto em questão.”

As dificuldades de elaboração dos Quanta acerca da consistência de seus modelos de previsão sugerem uma avaliação cuidadosa dos mecanismos de transmissão das expectativas dos agentes aos preços dos ativos. 

Se os modelos que baseiam a predição do comportamento futuro da economia têm que, necessariamente, instituir parâmetros iniciais que condicionam seus resultados, as decisões de alocação de riqueza baseadas nesses modelos, portanto, são pré-conduzidas a replicarem a autodeterminação presente nos modelos.

As decisões sobre a riqueza, ensinou Keynes, seguem uma hierarquia intuitiva que leva em conta a preferência dos agentes em preservar sua riqueza na forma líquida, isto é, em dinheiro. A alternativa ao dinheiro, a abstinência da liquidez, é o endereçamento da riqueza para a aquisição de bens, quer sejam bens de consumo, quer sejam bens de investimento engajados no aumento da capacidade de produção e do nível de emprego, quer sejam ativos financeiros que carregam em seus preços as expectativas dos fluxos de renda futuros, subjacentes ao desempenho ou fixados nos valores de face desses ativos.

Como mostrou Hyman Minsky, explorando o circuito Finance-Funding, sugerido por Keynes nos textos posteriores à Teoria Geral, as expectativas sobre o comportamento futuro dos ativos financeiros estão contaminadas pela subestimação do risco-sistêmico, espalhado por toda economia, através das interrelações das posições passivas (de endividamento) e ativas (de investimento) que são compartilhadas pelos portadores dos títulos de propriedade sobre o direito a uma renda futura.

A fixação das condições iniciais nos modelos de predição disponíveis aos alocadores de recursos, que carregam para suas decisões um importante grau de autodeterminação, são responsáveis pelo partilhamento do risco-sistêmico, ocultado na oscilação dos preços dos ativos.

O movimento concreto da dinâmica capitalista surpreende os espíritos confiantes na autonomia de suas decisões, disparando, ao sabor das convenientes tendências à concentração e centralização do capital, sinais de turbulência sistêmica, impossíveis de serem capturados pelos modelos de predição. 

Não por menos, as crises financeiras registram momentos de exuberante (e irracional) confiança na capacidade preditiva dos mercados e de seus agentes, seguidos de súbita desconfiança, revelando aos olhos nus dos homens de carne e osso, a miséria do conhecimento humano sobre o passado, a inconsistente percepção sobre o presente e a ilusória crença acerca do futuro. Estes momentos, de relevante frequência na história do capitalismo, advertem os orgulhosos construtores da hipótese dos mercados eficientes a respeito da visita, inesperada e indesejável, do sorriso da volatilidade.

A propósito de investigar as perigosas relações da ciência com o tempo, Carlo Rovelli demonstra os descaminhos da percepção humana sobre a existência e a passagem do tempo, que surgem de uma visão necessariamente desfocada da realidade. Apoiando-se no trabalho do austríaco Ludwig Boltzmann, ensina o italiano Rovelli:

“Boltzmann mostrou que a entropia existe porque descrevemos o mundo de maneira desfocada. Demonstrou que a entropia é precisamente a quantidade de disposições diversas que a nossa visão desfocada não diferencia. […]

A entropia do mundo não depende apenas da configuração do mundo; depende também de como estamos desfocando o mundo, o que, por sua vez, depende de quais são as variáveis do mundo com as quais nós interagimos, ou seja, a parte do mundo a que pertencemos.”

Como consequência, arremata Rovelli:

“Observamos o universo a partir de dentro, interagindo com uma minúscula porção das incontáveis variáveis do cosmos. Vemos uma imagem desfocada dele. Esse desfocamento implica que a dinâmica do universo com que interagimos é governada pela entropia, que, por sua vez, mede a magnitude do desfocamento. Mede algo que diz respeito mais a nós que ao cosmos. Estamos nos aproximando perigosamente de nós mesmos.”

O desfocamento, medido pelo grau de entropia, pela própria passagem do tempo, é a implicação elementar da incerteza sobre as condições essenciais que permitem a existência e a dinâmica dos sistemas em movimento. Hegel, ao tratar do tempo, denomina esse misterioso atributo, transportado da filosofia ao calculo diferencial, como variabilidade absoluta, que turba e desfoca as percepções apressadas dos seres viventes sobre o espaço e suas dimensões.

Breve quadro sobre as condições políticas e sociais do debate sobre as políticas econômicas

Ao tratarmos das relações humanas é invariável a incapacidade da mente humana em conceber a quantidade e o grau de interrelações entre as varias dimensões que governam a vida social. A coleção de indícios da qual dispõe a teoria social é tão insuficiente que os filhos do iluminismo foram obrigados a recuar até as ousadias da dialética de Aristóteles para encontrar algum caminho de confrontação entre o real e o ideal.

Marx, na introdução aos Grundrisse, a proposito da crítica à ontologia mecanicista esposada pela economia política clássica, estabelece os critérios elementares para a representação ideal do movimento real do objeto. Abro aspas para o filósofo nascido em Tréveris:

“Como em geral em toda ciência histórica e social, no curso das categorias econômicas é preciso ter presente que o sujeito, aqui a moderna sociedade burguesa, é dado tanto na realidade como na cabeça, e que, por conseguinte, as categorias expressam formas de ser, determinações de existência, com frequência somente aspectos singulares, dessa sociedade determinada, desse sujeito, e que, por isso, a sociedade, também do ponto de vista científico, de modo algum só começa ali onde o discurso é sobre ela enquanto tal.”

O trabalho de retirar as cortinas que revestem a representação ideal acerca dos fenômenos reais requer, antes de tudo, a consideração acerca das categorias responsáveis por estruturar as formas de aparecer da dita realidade.

Neste mérito, antes e agora, o discurso que predomina nos corredores da finança e, de forma consigna, nos andares e elevadores dos poderes políticos constituídos e postos a operar a máquina das instituições públicas, é empurrado à reprodução das formas elementares e abstratas de representação da dinâmica econômica e social, pelas forças concretas e avançadas que movem essa mesma dinâmica.

Os esforços teóricos que embalaram a criação da institucionalidade contemporânea dos tesouros nacionais e bancos centrais no bordo do mundo atingido pelos conselhos e consensos de Washington, pretenderam reificar os supostos da naturalidade, da racionalidade e do individualismo que suportaram as construções clássicas da doutrina do equilíbrio.

O novo monolito da ciência econômica acabou por preservar as vigas mestras da teoria do equilíbrio, trocando sua roupagem arquitetônica e sofisticando os mecanismos de imposição da razão econômica na moldura das instituições criadas com o propósito de regular as práticas dos agentes privados e proteger os interesses públicos.

Não surpreende, que sob a atuação dos ventos da globalização financeira, a proa do navio neoliberal tenha sido blindada pela negação do controle de capitais, o regime de metas de inflação e o regime de regras que pregam a neutralidade da política fiscal.

Concordando ou não com as bases teóricas do sistema de metas, fato é, que este instrumento se encrustou profundamente na estrutura das políticas econômicas dos países submetidos à governança neoliberal, ou seja: todos os países, com exceção da China e de exemplares que lutam contra o domínio ocidental, como a Rússia.

Alterar este quadro é uma missão política para gerações, não bastando political will dos governantes e congressistas que, com bravura, tem lutado contra os retrocessos nas políticas sociais e do investimento público, aqui e lá fora.

A ingenuidade dos companheiros da Nova Esquerda, na qual incluo minha geração e a anterior, tem levado o debate sobre a política econômica até o paroxismo moralista, que se propõe a etiquetar tudo quanto existe fora de seus (ou dos nossos) ideais como fruto do neoliberalismo e do financismo. Não podemos, a proposito do combate político, cedermos ao imediatismo ou a esperança de que o jogo de poderes se trata da próxima eleição.

A construção do Brasil como uma, vá lá, potência econômica, que inspirou olhares admirados do mundo desenvolvido, levou 50 anos, de Getúlio aos militares, com avenças e desavenças de nossa história, até hoje atravessada pelas ousadias da caserna pintada de verde-oliva. Foram, portanto, três gerações de brasileiros e brasileiras empenhados na construção do País do Futuro, como profetizou Stefan Zweig.

Com a crise da dívida e a explosão inflacionária vindas da mudança de rota da hegemonia americana pós 1979, a obsessão pela estabilização nos desviou do caminho do desenvolvimento econômico, embora tenhamos, diante das complexidades e contradições da história, conseguido com sucesso (e muitos percalços) a redemocratização e a Constituição de 1988, a mais avançada do mundo nos temas sociais até hoje.

De 1980 até o presente, o país vive um longo e profundo processo de regressão estrutural que se estende das esferas econômica, social e política até a moral e a cultura nacional. A estruturação da política econômica, que amarra qualquer um que tente algo além de um crescimento pífio e alguma melhora na distribuição da renda e da riqueza, faz parte desse movimento regressivo, que se aprofundou após a queda de Dilma e os adventos de Temer-Bolsonaro. 

Foram necessárias, portanto, duas gerações de políticos e burocratas compromissados com a doutrina neoliberal para destruir o país. Nossa Nova Esquerda acha que isso será revertido sem o trabalho de duas ou mais gerações, podendo ultrapassar, inclusive, a existência individual de seus participantes? Dúvidas que persistem…

Retorno ao debate dos juros e das metas de inflação

De volta aos constrangimentos do regime de metas de inflação, é recomendável considerar suas inconsistências com o processo de formação de preços em economias abertas com elevado grau de volatilidade cambial e sensibilidade às variações nos preços internacionais dos chamados bens tradebles.

No limite, repetimos, o sistema de metas visa adequar a trajetória das expectativas de mercado apontadas pelos preços dos ativos à meta a ser perseguida pelos bancos centrais. Não custa rimar a repetição, com a lembrança de as expectativas de mercado estão atreladas ao grau de convencimento adquirido no diálogo entre as instituições públicas e os operadores privados de títulos públicos e demais instrumentos financeiros, e refletem em seus aparatos probabilísticos os pressupostos que autodeterminam o processo de formação de preços dos ativos.

Ao tomarmos ipsis litteris os supostos do Regime de Metas verificamos, sem dificuldades, pouca ou nenhuma atenção ao processo de indexação de preços e contratos, que ocorre, sobretudo, em mercados oligopólicos sensíveis à inflação e à volatilidade da taxa de câmbio e dos preços internacionais de commodities.

Ancoradas as expectativas de mercado à meta de inflação estabelecida, a indexação de qualquer preço é um abuso que se supõe geralmente estimulado por deficiências regulatórias ou incentivos indevidos do governo. Na ausência de choques de oferta e de pressões inflacionárias que fogem da capacidade de reação dos bancos centrais, a teoria informa que as economias submetidas ao regime de metas operam contratos celebrados sempre em termos nominais.

Mesmo na ocasião de choques ou de pressões inflacionárias que escapem dos modelos de previsão e da função de reação dos bancos centrais, a indexação é temporária e deverá ser eliminada tão logo os agentes incorporem, no futuro, os fenômenos que perturbaram a formação de preços no passado. No limite, a indexação não deveria existir e se, porventura, ocorrer temporariamente, as forças do equilíbrio intertemporal se encarregam de eliminá-la.

O desafio da estabilização de preços no Brasil, mesmo antes da explosão inflacionária ocorrida nos anos 1980, foi alvo de grande interesse dos economistas, de Furtado a Rangel, depois, já sob a escalada inflacionária, Pérsio Arida e Lara Resende em seu Larida, ortodoxos, heterodoxos, gregos e troianos. A respeito da inflação, suas causas e peculiaridades no contexto brasileiro, o volume e a variedade de teses que foram produzidas, especialmente nos anos 1980 e 1990, são gigantescos.

No curso de evolução do problema inflacionário, sobretudo a partir de 1980, os economistas ortodoxos foram aos poucos abandonando a defesa de uma estabilização clássica, ou seja, elevação da taxa de juros e corte de gastos. Evidentemente, alguns resistiram na defesa da velha magia, enquanto outros admitiam os entraves impostos pela indexação e pela fragilidade externa do país. 

O consenso era difícil e os fracassos dos seguidos planos de estabilização (Cruzado, Bresser, Verão, Collor I e Collor II) embora tenham deixado claro as raízes do problema inflacionário, pouco sugeriam em termos de sua resolução.

Os problemas elementares, cada qual com sua explicação dentre os economistas que se debruçaram sobre o tema da inflação, eram: o desarranjo fiscal gerado pela própria aceleração inflacionária; a restrição externa imposta pelo elevado endividamento e a dificuldade em atrair reservas cambiais, ambos agravados pela tardia moratória; e a indexação de preços e contratos que, progressivamente, se concentrou na correção ofertada pelo instrumento do overnight.

Em 19 de maio de 1993, o mineiro Itamar Franco, Presidente em exercício após a queda de Fernando Collor, convocou o então Ministro das Relações Exteriores, Fernando Henrique Cardoso, o Sociólogo, para assumir o cargo de Ministro da Fazenda, já havia sido ocupado por outros três ministros, dois políticos e um economista. FHC, por sua vez, convocou a equipe econômica que já trabalhava para um plano de estabilização a ser proposto no pleito eleitoral de 1994. Era o Plano Real, que em primeira vista, parecia ficção.

O Plano consistia na tentativa de atacar, de uma vez, as três grandes causas da aceleração inflacionária: o déficit público, a restrição externa e a hiperindexação. 

Encontramos as pegadas intelectuais do Real em dois trabalhos, o paper de Pérsio Arida e André Lara Resende, de 1985, Inertial Inflation and Monetary Reform in Brazil, apelidado de Larida, e a Tese de Doutoramento de Gustavo Franco, Hyperinflations: The experience of the 1920s reconsidered, de 1989.

Com suas semelhanças e divergências sobre o caráter da inflação brasileira, os dois trabalhos tem uma inspiração comum: as experiências clássicas de estabilização durante o período entreguerras que tem, em comum, a restrição externa como grande entrave para qualquer reforma monetária e o processo de indexação como defesa dos agentes econômicos em relação às incertezas acerca do poder de compra da moeda.

O Larida propõe uma reforma monetária absolutamente incomum ao que até então estava disponível na prateleira dos planos de estabilização: a geração de uma hiperindexação em uma unidade de conta estável de tal modo, que, a indexação em moeda corrente fosse transferida para um indexador comum e administrável. Com isso, na medida em que os preços e contratos fossem, progressivamente, denominados no indexador comum, a função da moeda como reserva de valor, que é a primeira a desaparecer com a aceleração da inflação, retornaria e traria consigo as funções de meio de pagamento e meio de troca.

A grande questão, de enorme incomodo aos autores do Larida, e que praticamente derrotou todos os planos de estabilização anteriores ao Real, era a restrição externa. Nenhum indexador resistiria ao enorme passivo externo, que chegava a representar quase 4 vezes as exportações brasileiras. 

***Esta é uma versão preliminar. O artigo completo será publicado em breve.

Economistas apontam o fim da hegemonia americana na economia

A economia mundial presencia o “declínio da hegemonia americana” e a busca por alternativas para um Novo Sistema Monetário Global, apontam os economistas e professores Luís Gonzaga de Melo Belluzzo e Manfred Beck, em entrevista especial ao Projeto Brasil.

Na conversa com os jornalistas Luís Nassif e Sergio Leo, os especialistas destacaram a descentralização do poder monetário global, impulsionada pelo declínio da hegemonia do dólar e a ascensão de outras moedas e sistemas de pagamento, especialmente da China.

Segundo eles, as ações do ex-presidente Trump, visando reindustrializar os Estados Unidos e enfraquecer o dólar, ironicamente impulsionaram a busca por alternativas e o fortalecimento de blocos como os BRICS, do qual a China e o Brasil formam parte.

Entre os fatores que contribuem para o fim desta hegemonia norte-americana, está a política de Donald Trump de congelar ativos russos e as leis como a Magnitsky, que negam o uso do dólar a certas pessoas, expõem o dólar como um instrumento de poder e geram desconfiança internacional.

Isso tem levado países como a China a buscar relações monetárias bilaterais, desenvolver sistemas de pagamento próprios (como um concorrente do SWIFT, que é mais rápido) e acumular ouro.

Ainda, embora os EUA tentem adiar a “morte” do dólar através de iniciativas como os stablecoins (criptomoedas estáveis lastreadas em dólar ou títulos públicos americanos, porém com controle centralizado), a transformação do sistema monetário financeiro é vista pelos economistas como “inexorável”.

Ao mesmo tempo, o avanço das moedas digitais de bancos centrais (CBDCs), com a China liderando o desenvolvimento e 150 bancos centrais no mundo explorando a ideia, aponta para uma era em que a moeda digital se tornará a realização do conceito de moeda no capitalismo.

Luís Gonzaga Belluzzo e Manfred Beck também criticaram o regime de metas inflacionárias, considerando-o uma armadilha que aprisiona a economia brasileira e ignoram outras variáveis importantes. Por fim, exploram-se as implicações da digitalização da moeda e a necessidade de uma maior vigilância sobre o sistema financeiro liberalizado diante do avanço do crime organizado e da especulação.

Para eles, a economia brasileira está inserida em um ambiente onde a taxa de juros e o câmbio são produtos de forças globais complexas, incluindo o carry trade e o volume expressivo dos mercados futuros. As limitações do Banco Central para intervir e o debate sobre a eficácia do regime de metas de inflação somam-se a um cenário internacional de transição na hegemonia monetária, tornando a gestão dessas variáveis um desafio constante para o desenvolvimento econômico do país.

Assista à íntegra da entrevista ao Projeto Brasil:

Um homem contra a pseudociência

Lucas Romano López

Como primeira postagem no Projeto Brasil do GGN, pensei em homenagear um dos maiores cientistas da América Latina do século XX (que faria aniversário em 21 de setembro, se estivesse vivo):

Mário Bunge (1919-2020) foi um físico e filósofo argentino influenciado em grande medida por Bertrand Russell, criou uma versão atualizada e robusta do Problema da Demarcação, que em termos simples, visa dividir o que é ciência do que não é (aqui, a lógica binária de ciência e “não ciência” faz sentido porque a ciência deve se basear em pressupostos comuns e diretivos para suas respectivas áreas). Tal tarefa é muito mais difícil do que parece, porém, o autor nos ajuda a pensar no problema de maneira didática e sistemática, oferecendo 10 condições para que um campo cognitivo seja considerado científico, a saber:

Visão de mundo, base formal, domínio, base específica, problemática, fundo de conhecimento, objetivos, métodos, atualização e integração. Tais características estão presentes em todos os campos científicos e podem ser considerados a base da “boa ciência”. A pseudociência para Bunge falha em satisfazer uma ou mais condições citadas acima. Bunge é um dos críticos mais ferrenhos da psicanálise, sem entrar na discussão acerca do Complexo de Édipo e do conservadorismo na abordagem freudiana. A crítica de Bunge à psicanálise é direta, mas pesada: os pressupostos básicos da psicanálise não se baseiam em questões passíveis de teste empírico e, portanto, não poderia ser capaz de fazer previsões testáveis. Bunge critica fortemente a noção freudiana de inconsciente e diz que esta não encontra lastro na Neurociência de sua época, o conceito de inconsciente para ele não serve nem como “entidade metafísica”.

Todo texto (ainda que de opinião) sobre Filosofia da Ciência obrigatoriamente deve fazer menção à Thomas Kuhn, por diversos motivos: sua visão sobre as revoluções científicas e o progresso da ciência pode ser considerada basilar para entendermos como a ciência funciona, porém, nem Kuhn escapou das críticas de Bunge. Em que pese, a crítica de Bunge à Kuhn é mais light se comparada à Popper, porque o autor argentino enfatiza a possibilidade de as revoluções científicas serem parciais e não aparentemente totais como em Kuhn. Veja, Bunge não nega a existência das revoluções científicas, mas propõe um olhar mais sóbrio para elas e enfatiza que mesmo as revoluções científicas não são capazes de destruir o conhecimento anterior (como fica a impressão em Kuhn).

O rigor de Bunge acerca da ciência pode ser contestado, porém, não se pode negar que o autor argentino apresentou, durante toda sua carreira, uma visão crítica do fazer ciência e a busca por uma unidade pode ser considerado uma virtude, visto que há de se ter critérios claros, coerentes e confiáveis para separar a ciência da pseudociência. Este tema é tão relevante atualmente quanto foi na época em que o filósofo escreveu, as aulas de ciências nas escolas poderiam começar com a pergunta: o que é ciência afinal? (como diria Chalmers). As escolas poderiam pensar em oficinas práticas de investigação científica para os alunos, pegar um tema como Democracia, Direitos Humanos ou Tolerância e incentivar os alunos a fazerem um debate apresentando argumentos verificáveis e referenciados (com referências públicas para que todos possam acessar e sem cópias), obviamente que exigiria algum grau de engajamento por parte dos estudantes e comunidade escolar, mas poderia despertar o interesse pela ciência nos jovens.

O questionamento é o que rege a ciência, porém, não qualquer tipo de questionamento: até para questionar você precisa de base, se não houver base, o questionamento pode se tornar raso e ad hoc, como o questionamento da eficácia das vacinas, por exemplo (não faz sentido nenhum, é baseado em achismos e pior, pode matar!). O estudo das bases da ciência, aliado ao estudo dos clássicos de uma determinada área pode ser produtivo para despertar questionamentos mais refinados e coerentes. Existem cientistas que são expoentes de uma ou mais áreas do conhecimento como por exemplo, Max Weber, que é expoente da sociologia, da filosofia e da política. O bom trabalho científico transita entre áreas e não fica limitado à uma “caixinha”. A interdisciplinariedade ou a conexão com outras áreas do conhecimento pode ser extremamente benéfica para a pesquisa científica, visto que, pode refinar os argumentos, incentivar a leitura de outras fontes de conhecimento e resolver problemas de maneira inovadora.

Brasil tem todos os pilares para ser protagonista da revolução tecnológica, afirma Marcelo Zuffo

O Brasil possui uma variedade significativa de recursos que o posicionam de forma vantajosa na indústria de semicondutores e na revolução tecnológica. Mas é preciso “arregaçar as mangas”, pontua o professor Marcelo Zuffo, doutor em Engenharia Elétrica e diretor do Centro de Inovação da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista ao Projeto Brasil.

Filho do pioneiro João Antonio Zuffo, engenheiro eletricista que participou dos primórdios da computação no Brasil e foi o primeiro a produzir um chip no país, Marcelo seguiu os passos do pai e vem desenvolvendo projetos estratégicos na USP.

Na entrevista, ele examina a história e o potencial do Brasil na indústria de semicondutores, destacando o pioneirismo do país na fabricação de chips na década de 1970. A discussão explora a complexidade da cadeia produtiva, desde matérias-primas abundantes como o silício e terras raras, até a formação de recursos humanos altamente qualificados, que, infelizmente, resultam na exportação de talentos.

O especialista defende a a necessidade de políticas públicas integradas que impulsionem a demanda interna e a produção local, visando a soberania tecnológica e econômica do Brasil e aborda os desafios globais atuais, como a “Guerra Fria 2.0”, que, paradoxalmente, criam oportunidades para o Brasil desenvolver uma indústria de chips limpa e sustentável.

Ele elenca como o Brasil possui uma variedade significativa de recursos que o posicionam de forma vantajosa na indústria de semicondutores e na revolução tecnológica, desde recursos minerais essenciais, engenheiros especializados e talentos brasileiros e, para além de recursos naturais e infraestrutura, também a demanda interna.

Assista à íntegra da entrevista no especialista no Projeto Brasil no Youtube: