Carlos Gadelha recebe Prêmio Destaque Unicamp 2025: trajetória dedicada ao desenvolvimento e saúde pública

O economista Carlos Gadelha, coordenador da rede e do grupo de pesquisa “Desenvolvimento Sustentável, CT&I e Complexo Econômico-Industrial da Saúde” (GPCEIS/CEE-ENSP/Fiocruz), foi reconhecido com o Prêmio Egresso Destaque Unicamp 2025, entregue nesta segunda-feira, 15 de dezembro. A premiação é concedida pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) a ex-alunos cuja trajetória profissional se destaca pela relevância acadêmica, institucional e social.

Gadelha concluiu o mestrado na Unicamp, instituição cujo Instituto de Economia (IE) consolidou-se como um dos principais centros de formulação do pensamento desenvolvimentista no país. O IE-Unicamp é reconhecido como celeiro de nomes fundamentais da economia política brasileira, como Celso Furtado, Maria da Conceição Tavares, Luiz Gonzaga Belluzzo, João Manuel Cardoso de Mello e Luciano Coutinho.

Inspirado pelo legado de Celso Furtado, Gadelha defende uma concepção de desenvolvimento orientada ao bem-estar social, à sustentabilidade ambiental e à soberania nacional. Tais linhas também são o mote deste Projeto Brasil do Jornal GGN, do qual temos a honra de integrar Gadelha como conselheiro consultivo, e junto ao nosso espaço o economista vem construindo debates de alto nível junto à sociedade.

Em sua atuação acadêmica e institucional, o pesquisador articula inovação, transformação produtiva e política econômica às demandas do Sistema Único de Saúde (SUS) e da sociedade brasileira.

Trajetória marcada pela formulação de políticas públicas

Carlos Augusto Grabois Gadelha é doutor em Economia pelo Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e foi, até fevereiro deste ano, secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (Sectics). Ao longo de sua trajetória, atuou como formulador de políticas públicas estratégicas desde 2003, ocupando cargos de direção em secretarias dos ministérios da Saúde, da Integração Nacional e do Desenvolvimento Industrial.

Entre suas principais contribuições está a formulação da Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP), considerada uma das mais importantes ferramentas para o fortalecimento do complexo econômico-industrial da saúde no Brasil.

Atualmente, Gadelha lidera o grupo de pesquisa GPCEIS no Centro de Estudos Estratégicos da ENSP/Fiocruz, vinculado ao Ministério da Saúde. Também é parceiro do Jornal GGN e do Projeto Brasil.

O reconhecimento da Unicamp destaca uma trajetória que conecta pensamento econômico crítico, inovação e compromisso com políticas públicas voltadas à redução das desigualdades, à sustentabilidade e ao fortalecimento do SUS — pilares centrais do desenvolvimento nacional.

Entidades sindicais pedem a integração no setor naval do Mercosul

Silvia Portela 

Este texto traz o documento* entregue ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), que pede que o governo brasileiro promova junto aos governos do Mercosul um processo de integração produtiva do setor naval para enfrentar a concorrência dos estaleiros asiáticos. O processo de construção da plataforma teve a participação do escritório regional do IndustriAll Sindicato Global, sediado em Montevideo, Uruguai.

Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais transcreveu este texto de CNM Noticias, da página da Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT.

Trabalhadores entregam Plataforma Naval do Cone Sul e reforçam unidade regional 

Redação CNM/CUT, publicado em 05 de dezembro de 2025 

Com participação importante da CNM/CUT, iniciativa inédita une países da região em torno de um projeto comum para retomar a indústria naval e ampliar oportunidades de trabalho qualificado 

Em um ato considerado histórico para a classe trabalhadora sul-americana, a Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT (CNM/CUT) participou, nesta quarta-feira (3), em Brasília, da entrega oficial ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) da Plataforma de Integração e Cooperação da Indústria Naval e Offshore do Cone Sul. A entidade foi representada pelo secretário de Relações Internacionais, Maicon Michel Vasconcelos da Silva, e pelo coordenador do segmento Naval, Edson Rocha. 

A plataforma é fruto de um processo iniciado há dois anos. Já teve seminário realizado na Universidade de Buenos Aires (UBA), reunindo trabalhadores, sindicatos, empresários, universidades e representantes governamentais de vários países e várias reuniões onlines. Trata-se da primeira iniciativa em 34 anos de Mercosul a produzir um documento setorial comum envolvendo todos esses atores, um marco político, econômico e sindical. 

O objetivo central é integrar a cadeia produtiva da indústria naval e offshore em toda a América do Sul, fortalecer o desenvolvimento regional, gerar empregos de qualidade e impedir que as demandas industriais do continente continuem migrando para países da Ásia, aprofundando desigualdades e precarização. 

“A construção desta plataforma é inédita. Pela primeira vez trabalhadores, empresários, academia e governos elaboram juntos uma proposta para o setor naval no Cone Sul. Isso devolve força à nossa região num momento em que corporações transnacionais tentam retirar direitos e explorar nossos recursos. Com esta plataforma, recolocamos o Cone Sul na disputa global”, destacou Maicon. 

O documento entregue ao MDIC propõe que o Brasil, por ser o país com maior estrutura produtiva e por estar retomando políticas industriais, lidere o diálogo entre os governos da região. O Ministério, responsável por reorganizar a legislação e reconstruir a indústria naval brasileira, recebeu o material como subsídio estratégico. 

Segundo Edson Rocha, a entrega é apenas o primeiro passo. “A luta está só começando. Precisamos impedir que nossa demanda industrial continue sendo enviada ao exterior enquanto os trabalhadores brasileiros e nossos hermanos ficam no subemprego. Esta plataforma cria um caminho para retomar a construção de navios, plataformas e toda a cadeia produtiva, com emprego de qualidade aqui na América do Sul.” 

A cadeia naval é uma das mais extensas e de maior impacto social e econômico, envolvendo setores como metalurgia, química, construção civil, energia, logística, alimentação e tecnologia. Como aponta o documento, ela possui enorme potencial de reativar economias, reduzir a sazonalidade típica do setor e garantir produção contínua e lucrativa na região. 

Um passo decisivo para um futuro comum 

Para Maicon, a plataforma inaugura um novo patamar de cooperação regional. “Estamos colocando a região na rota dos grandes blocos internacionais. A indústria naval é estratégica e pode integrar economias inteiras. É disso que se trata: empregos, soberania e futuro para o nosso povo.” 

Edson reforça o compromisso da CNM/CUT. “Seguiremos lutando para transformar este documento em políticas concretas que gerem trabalho, renda e dignidade para milhões de trabalhadores e trabalhadoras.” 

A entrega ao MDIC simboliza o início de uma articulação que pode redesenhar o mapa industrial da América do Sul, com protagonismo dos trabalhadores, integração produtiva e desenvolvimento a serviço da soberania da região.

A Plataforma reafirma a necessidade de ressignificar e fortalecer o papel sindical nas relações de trabalho, especialmente diante dos desafios tecnológicos, das reformas trabalhistas recentes e da convivência entre múltiplas gerações no mundo do trabalho.O documento propõe: 

  • – Criação de um Fórum Tripartite Permanente + Academia;
  • – integração de universidades, institutos técnicos e escolas de engenharia;
  • – alinhamento das condições de trabalho, segurança e proteção social entre os países;
  • – equivalência salarial na cadeia naval;
  • – integração tecnológica entre empresas do Cone Sul;
  • – políticas de fomento e soberania produtiva em toda a região;
  • – centros tecnológicos integrados;
  • – articulação legislativa conjunta nos países participantes.

 

Construindo uma agenda de transformação na América do Sul

O processo conta também com a participação do deputado federal Alexandre Lindenmeyer (PT-RS), integrante da Frente Parlamentar em Defesa da Indústria Naval, e de sindicatos nacionais do Uruguai, Argentina, Chile, Bolívia e Paraguai. 

As entidades signatárias incluem: CNM/CUT; UOM; ATE; PIT-CNT; Industriall/Constramet; CNTM; Sindicato Argentino de Obreros Navales; FISENGE; Senge-RJ; UFF; CCSCS; SINAVAL e Transpetro.

* O documento: Integração e Cooperação da Indústria Naval e Offshore no Cone Sul (pdf) pode ser lido no Acervo do Projeto Brasil, confira:

Integração e Cooperação da Indústria Naval e Offshore no Cone Sul

“Não sou menina”: como o diminutivo nos infantiliza, erotiza e apaga nossa potência

Janethe Fontes*

Há algum tempo venho refletindo sobre um fenômeno que, apesar de não ser recente, tem se intensificado: mulheres adultas passaram a se chamar — e a chamar outras mulheres — de “meninas”. 

Eu sei que, à primeira vista, parece um termo afável e qualquer problematização sobre ele pode soar exagerada. Porém, é necessário observar que, por trás dessa suavidade, esconde-se uma armadilha linguística e simbólica que reforça desigualdades de gênero, nega a maturidade feminina e sustenta estruturas patriarcais. Não se trata apenas de uma escolha de vocabulário, mas de um mecanismo cultural que distribui lugares sociais e afeta profundamente a forma como mulheres são percebidas e tratadas. 

Como observa Angela Davis, o poder opera também no plano simbólico; e, quando a linguagem legitima hierarquias, ela própria se torna dispositivo de dominação. É exatamente por isso que precisamos analisar expressões que parecem inocentes — como “menina” — antes de deixá-las atuar sobre nossos corpos e histórias. 

Eu sei também que muitos poderão classificar essa preocupação como “mi-mi-mi” ou considerá-la tola — inclusive algumas mulheres (ou muitas). No entanto, insisto em trazer essas reflexões por acreditar que o uso constante desse diminutivo infantiliza as mulheres, associando-as a características historicamente usadas para mantê-las em posição de subalternidade: fragilidade, dependência e docilidade. 

O curioso é que, conforme uma menina vai crescendo, a sociedade passa a cobrar dela uma postura de “mocinha”. Por isso, o termo se torna uma verdadeira armadilha: ao embaralhar os limites entre infância e vida adulta — chamando meninas de 8, 10 ou 12 anos de mocinhas e mulheres adultas de 30, 40 ou 50 anos de meninas — apaga-se uma diferença crucial entre mulheres e meninas reais. E isso não apenas enfraquece a noção de maturidade feminina, como também abre espaço para uma erotização precoce que normaliza práticas violentas — algo gravíssimo em um país como o Brasil, com índices extremamente altos de violência sexual contra mulheres e meninas. Assim, é fundamental estarmos vigilantes. 

Os dados recentes são alarmantes: Segundo a Câmara dos Deputados, a partir de um estudo da OMS (2019), o Brasil chegou a figurar entre os países com as maiores taxas de feminicídio — dado que, segundo especialistas, pode variar conforme metodologia, subnotificação e atualização dos dados. 

Em 2024, o país registrou o maior número histórico de casos de estupro, totalizando 87.545 ocorrências — o que equivale, em média, a uma vítima a cada seis minutos — com 76,8% dos casos classificados como estupro de vulnerável, categoria que engloba, entre outros, crimes contra menores de 14 anos, conforme o 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2025), em dados divulgados pelo jornal Poder360. Esses indicadores reforçam a urgência de políticas públicas efetivas e de transformações culturais profundas para enfrentar a violência de gênero. A linguagem que infantiliza mulheres adultas e erotiza meninas reais não é mero detalhe: ela participa, ainda que simbolicamente, da engrenagem cultural que sustenta essa violência. 

Como alerta a pensadora Betty Friedan, a dependência infantil passiva e a imaturidade são confundidas com “feminilidade”. Essa confusão mantém as mulheres presas a um ideal de juventude eterna, negando-lhes o direito de envelhecer, amadurecer e adquirir autoridade sem serem vistas como menos valiosas. Afinal, se o envelhecer é difícil para todos os corpos e experiências humanas, para as mulheres é ainda mais cruel. 

 

Infantilizar é dominar 

Quando uma mulher adulta é chamada de “menina”, ela é automaticamente associada à fragilidade, dependência e obediência — qualidades socialmente esperadas das crianças. 

Essa nomenclatura raramente é aplicada a homens adultos, que dificilmente serão chamados de “meninos” fora de um contexto brincalhão. Mas, mesmo quando isso ocorre, o termo é usado apenas para diluir a cobrança ou até mesmo amenizar a conduta do homem adulto — isentando-o, muitas vezes, das consequências de suas ações. Contudo, jamais reduz o valor ou a autoridade que lhe são socialmente atribuídos. 

Para a filósofa Simone de Beauvoir, “não se nasce mulher, torna-se mulher” — um processo complexo de vivências, conquistas e resistências que é ignorado quando reduzimos essa experiência ao termo “menina”. 

 

A armadilha da hiperssexualização 

O uso do termo “menina” infantiliza a mulher adulta, assim como o termo “mocinha” é frequentemente utilizado para erotizar disfarçadamente a criança ou a adolescente. Enquanto chamar mulheres adultas de “meninas” as infantiliza, chamar meninas reais de “mocinhas” as erotiza — dois movimentos complementares que distorcem a fronteira entre infância e vida adulta. 

Ao fundir mulheres adultas com adolescentes, o discurso machista dissolve os limites entre infância e sexualidade — um terreno bastante perigoso, pois abre espaço para a normalização da pedofilia e da exploração sexual de meninas reais. 

No Brasil, com altos índices de violência sexual contra crianças e adolescentes, sobretudo negras e pobres, essa banalização é especialmente grave. Por isso, a discussão não pode ser subestimada: a linguagem atua tanto no corpo simbólico quanto no corpo material das mulheres e meninas. 

 

A cobrança da juventude eterna 

O controle sobre os corpos femininos não se limita à infantilização; ele também se manifesta na exigência constante de juventude. 

Outro aspecto simbólico do uso de “meninas” para designar mulheres adultas é o ideal de juventude eterna. A sociedade faz com que mulheres que envelhecem percam valor, como se beleza e desejo fossem exclusivamente da juventude. 

Para Marcia Tiburi, o corpo feminino é politicamente controlado por meio de padrões estéticos e morais. O termo “menina” reforça a ideia de fragilidade e beleza como única existência feminina, negando maturidade, força e sabedoria. 

 

Nomear é resistir 

Reivindicar o direito de ser chamada de mulher é ato político e libertador. É afirmar autonomia, história, dores e lutas. É dizer não aos moldes que nos querem enquadrar. 

Chamar mulheres adultas de “meninas” não é um gesto inocente: é reforço simbólico.
“Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância.” — Simone de Beauvoir. 

Ser mulher significa assumir responsabilidade, potência e voz ativa, rompendo com modelos patriarcais que querem nos manter infantilizadas e silenciadas. Essa não é uma crítica moral, mas política: não se trata de certo ou errado, e sim de compreender como determinadas palavras sustentam estruturas de poder. 

 

Conclusão 

Em tempos de retrocessos, em que se tenta rebaixar o papel da mulher à submissão e superficialidade, devemos estar atentas às palavras. Afinal, a linguagem molda a realidade e carrega estruturas de poder. 

“Eu não serei livre enquanto alguma mulher não o for, mesmo que suas correntes sejam diferentes das minhas.” — Audre Lorde. 

Por isso tudo, torna-se tão importante reafirmar: não somos meninas! Somos mulheres que carregam história, força, maturidade — e nenhuma de nós cabe em diminutivos. 

Lembre(m)-se: corroborar com discursos machistas nos torna cúmplices. 

 

Nota: Enquanto refletia e esboçava este texto, inúmeros casos de violência doméstica vieram à tona nas mídias brasileiras, e o presidente da República iniciou uma campanha nacional de enfrentamento à violência contra a mulher. No entanto, na escola, o discurso permanece atravessado por uma lógica antiga: diante de qualquer comportamento considerado “inadequado” dos(as) estudantes, a culpa recai sempre — e exclusivamente — sobre as mães. Não se fala em “pais”. Nunca ouvi — nem mesmo entre professores e professoras que se identificam como progressistas, de esquerda — qualquer questionamento sobre o papel dos pais (e aqui me refiro aos homens) na educação de seus filhos e filhas. Ah, como é bom ser homem no Brasil! 

Esse padrão revela o quanto ainda precisamos debater seriamente as desigualdades de gênero no país, pois até aqueles e aquelas que deveriam reconhecer essa estrutura acabam reproduzindo — muitas vezes sem perceber — o machismo que responsabiliza unicamente as mulheres pela dinâmica familiar. E, quando essa cobrança recai sobre uma mulher, o peso simbólico é ainda mais brutal. Esse discurso, repetido diariamente, reforça desigualdades e evidencia o quanto ainda estamos distantes de uma verdadeira consciência de gênero — inclusive em espaços que se pretendem críticos. 

 

Referências: 

BRASIL. Lei nº 13.104, de 9 de março de 2015. Institui o crime de feminicídio no Código Penal. Diário Oficial da União, Brasília, 9 mar. 2015. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13104.htm. Acesso em: 30 de nov. 2025. 

CÂMARA DOS DEPUTADOS. Brasil tem a quinta maior taxa de feminicídio do mundo, segundo a OMS. Câmara Debate, TV Câmara, 14 mar. 2019. Disponível em: https://www.camara.leg.br/tv/553531-brasil-tem-a-quinta-maior-taxa-de-feminicidio-no-mundo. Acesso em: 30 de nov. 2025. 

FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Anuário Brasileiro de Segurança Pública – 19ª ed., 2025. São Paulo: FBSP, 2025. 

PODER360. Brasil bate recorde de estupros em 2024: uma vítima a cada 6 minutos. Poder360, 24 jul. 2025. Disponível em: https://www.poder360.com.br/poder-seguranca-publica/brasil-bate-recorde-de-estupros-em-2024-uma-vitima-a-cada-6-minutos/. Acesso em: 30 de nov. 2025. 

 

*Janethe Fontes é professora de história e sociologia e escritora. Autora, entre outros livros, de Natureza Selvagem (Ed. A Liter Ação). 

A engenharia dos juros altos: Banco Central alimenta superlucros do sistema financeiro

O Banco Central valida o modelo de negócio do sistema financeiro, impulsionando grande poder político: isso é o que explica as altas taxas de juros no Brasil. “A função do Banco Central é preservar a estabilidade do sistema, mas a forma como ele o faz implica em garantir a segurança e a rentabilidade financeira dos operadores”, resumiu Marco Aurelio Crocco, professor da UFMG, CEO do BH-TEC, presidente da Rede Mineira de Inovação e ex-presidente do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais.

Em entrevista ao Projeto Brasil desta semana, Crocco analisou o mercado de crédito, seus impasses e alternativas. Ele narrou o condicionamento das altas taxas de juros, no qual tanto a política monetária (que se manifesta na taxa Selic), quanto a política fiscal são condicionadas pelo setor financeiro. 

Segundo o especialista e os jornalistas Luis Nassif e Sergio Leo, o Banco Central foi criticado pela sua falta de iniciativa total em relação aos spreads abusivos, permitindo que taxas cheguem a mais de 1000%, como no caso da Crefisa. 

O professor também explicou que o regime macrofinanceiro – a articulação entre políticas monetária, fiscal e regulação financeira – é estruturado para permitir que a lógica e o modelo de negócio do sistema financeiro continuem operando. A alta taxa de juros (como o piso da Selic) define a rentabilidade necessária para investimentos em Parcerias Público-Privadas (PPPs).

Se a taxa de juros básica é elevada, o setor privado só participa de PPPs se o retorno for compatível. Isso significa que o Estado precisa fornecer mais garantias para reduzir o risco e ajustar a expectativa de risco e retorno da operação para o setor privado, fechando a operação em torno do custo alto do dinheiro. Assim, a política monetária se integra à fiscal, e o Estado atua indiretamente para manter e garantir um ambiente de alta lucratividade para quem financia.

Crocco conclui que a captura do Banco Central garante que o modelo de negócio que gerou “milionários e bilionários” nos últimos anos seja priorizado, colocando a defesa do crédito como um direito para as calendas em favor da segurança e rentabilidade do sistema financeiro.

Assista à íntegra do episódio:

Fiocruz lança obras que reforçam o papel da ciência na transformação do SUS

O futuro da saúde pública em pauta: dois novos livros produzidos por pesquisadores da Fiocruz reacendem o debate sobre ciência, SUS e soberania. Uma das obras, de Patrícia Seixas da Costa Braga, que integra o Grupo de Pesquisa “Desenvolvimento Sustentável, CT&I e Complexo Econômico-Industrial da Saúde”, terá 3 lançamentos — o primeiro deles ocorreu neste 1º de dezembro, durante o 14º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva (Abrascão), o maior evento de Saúde Coletiva no Brasil, em Brasília.

Os livros — “Políticas de Ciência, Tecnologia e Inovação e os Desafios de Conexão com o SUS”, de Patrícia Braga, e “Resiliência na Saúde Pública”, de Alessandro Jatobá e Paulo Victor Rodrigues de Carvalho — apresentam reflexões críticas sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), a política nacional de ciência e tecnologia (PNCT&I) e os desafios de um país que precisa fortalecer sua soberania científica e produtiva.

Ciência conectada ao SUS: uma urgência nacional

Fruto de pesquisa desenvolvida no Grupo de Pesquisa “Desenvolvimento Sustentável, CT&I e Complexo Econômico-Industrial da Saúde” (GPCEIS/CEE-ENSP/Fiocruz), o livro de Patrícia Braga sustenta que a produção científica financiada com recursos públicos precisa gerar valor social — especialmente em um sistema universal como o SUS.

A autora analisou percepções de 26 coordenadores de Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT/CNPq) da área da saúde. O estudo revela limites do atual modelo de avaliação científica, ainda guiado por métricas acadêmicas que pouco dialogam com impactos concretos na saúde pública.

“O atual sistema de avaliação científica, centrado em critérios acadêmicos e desprovido de ferramentas analíticas capazes de mensurar impactos sociais da pesquisa, não direciona os investimentos para as prioridades do SUS”, afirma Patrícia.

Para ela, aproximar conhecimento científico das demandas reais do sistema público “não é apenas desejável, mas essencial para um sistema mais equitativo, acessível, universal e sustentável”.

Resiliência em saúde: sistemas que aprendem e se adaptam

Já a obra de Alessandro Jatobá e Paulo Victor Rodrigues de Carvalho, pesquisadores do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE/Fiocruz), discute o papel da resiliência em sistemas de saúde — tema que ganhou força após crises sanitárias recentes, como a pandemia de Covid-19.

Os autores defendem a necessidade de estruturas estatais robustas, capazes de responder a emergências e ao mesmo tempo sustentar políticas de qualidade e equidade no longo prazo. O livro integra o projeto de pesquisa “Tecnologia, Informação e Resiliência em Saúde Pública”.

“Compromisso com a transformação social”

Para Carlos Gadelha, coordenador do GPCEIS/ENSP/Fiocruz e conselheiro do Projeto Brasil, as duas obras expõem uma visão integrada de saúde, ciência, tecnologia e desenvolvimento nacional — e contribuem para recolocar a soberania sanitária no centro do debate público.

“As obras buscam orientar o desenvolvimento da ciência, tecnologia, inovação e produção nacional diante dos desafios da sustentabilidade, saúde, bem-estar e soberania nacional”, afirma Gadelha.

Três lançamentos para ampliar o debate

Além da estreia no Abrascão, o livro de Patrícia Braga terá dois outros eventos de lançamento — um webinário nacional e uma noite de autógrafos no Rio de Janeiro, confira:

Webinário “Desafios da CT&I para o SUS”

  • Data: 16/12/2025, às 14h

  • Participações:

    • Olival Freire Júnior (CNPq)

    • Denise Pires de Carvalho (Capes)

    • Patrícia Braga (autora)

    • Lígia Bahia (IESC/UFRJ)

  • Abertura: Alessandro Jatobá

  • Mediação: Carlos Gadelha

Noite de autógrafos – Retrato Espaço Cultural

  • Data: 17/12/2025, às 17h30

  • Local: Rua Benjamin Constant, 115, laje – Glória, Rio de Janeiro

Leia mais:

https://projetobrasil.jornalggn.com.br/artigos/a-saude-como-pilar-do-desenvolvimento-sustentavel-por-carlos-gadelha/

G20 sob a ótica da Sindical Internacional: Solidariedade, Igualdade e Sustentabilidade

Silvia Portela 

Neste texto a Confederação Sindical Internacional (CSI) avalia positivamente a reunião dos líderes do G20, ocorrida na Africa do Sul (Joanesburgo) recentemente. A Confederação saúda diversos avanços na discussão, que deu continuidade às positivas decisões tomadas na reunião anterior do grupo, ocorrida no Brasil. 

Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto da página da Confederação Sindical Internacional (CSI).

Cúpula de Líderes do G20: Sindicatos saúdam declaração e pedem forte ambição para avançar na luta contra as desigualdades.  

A Cúpula de Líderes do G20, realizada nos dias 22 e 23 de novembro em Joanesburgo, marcou  o ápice de uma Presidência sul-africana que promoveu uma agenda progressista e colocou as prioridades da África no centro do processo do G20.  .  

Sob o lema “Solidariedade, Igualdade e Sustentabilidade”, a Presidência deste ano deu continuidade ao legado progressista do Brasil e estabeleceu diversos grupos de especialistas que divulgaram relatórios com importantes recomendações políticas sobre desigualdades, dívida e política industrial.  

A Cúpula adotou a Declaração dos Líderes da Cúpula do G20 na África do Sul, que enfatizou fortemente o desenvolvimento e as prioridades africanas. Os sindicatos saúdam:  

  • O reconhecimento da importância de empregos de qualidade e trabalho decente no cerne da industrialização sustentável, bem como o papel crucial de instituições trabalhistas robustas, mecanismos justos de fixação de salários e proteção social universal na redução das desigualdades.  
  • O reconhecimento da necessidade de políticas coordenadas que vinculem a industrialização, a criação de empregos decentes, a proteção social e o respeito aos direitos trabalhistas como motores do crescimento econômico inclusivo.  
  • A inclusão de metas específicas sobre emprego juvenil, participação das mulheres na força de trabalho e a diferença salarial entre homens e mulheres, previamente acordadas pelos Ministros do Trabalho e Emprego do G20. 
  • O reconhecimento de trajetórias nacionais de Transição Justa como facilitadoras essenciais da ação climática. Os líderes do G20 também apoiaram padrões econômicos, sociais e ambientais robustos na exploração de minerais críticos.  
  • Compromissos para aumentar os investimentos e a proteção social na economia do cuidado, juntamente com o apelo para apoiar a adoção e implementação de sistemas universais de proteção social.  
  • O reconhecimento da importância de abordar os direitos humanos, a transparência e a explicabilidade*, a regulamentação, a segurança e a supervisão humana para garantir uma IA segura, protegida e confiável.  

Embora a Declaração seja um passo positivo, a ambição política fica aquém em áreas-chave vitais para a redução das desigualdades, como o avanço do salário mínimo, o fortalecimento da negociação coletiva e compromissos firmes em matéria de tributação internacional. O texto deixa de abordar recomendações importantes do Comitê Extraordinário de Especialistas Independentes do G20 sobre Desigualdade Global.  

“O G20 precisa definir uma agenda política robusta para o combate às desigualdades. Os líderes do G20 devem aproveitar as conclusões do relatório do Comitê Extraordinário de Especialistas Independentes do G20 sobre Desigualdade e promover compromissos concretos para reduzir as desigualdades, inclusive por meio do engajamento construtivo no desenvolvimento de uma Convenção Tributária robusta da ONU e do apoio à criação de um Painel Internacional sobre Desigualdade”, afirmou Luc Triangle, Secretário-Geral da CSI (Confederação Sindical Internacional).  

A Secretária-Geral do Comitê Consultivo Sindical da OCDE (TUAC), Veronica Nilsson, acrescentou:Para demonstrar sua relevância como plataforma multilateral, o G20 deve cumprir suas promessas de prosperidade compartilhada e liderar ações concretas em níveis nacional e internacional. Metas mensuráveis ​​sobre a criação de trabalho decente, liberdade sindical, fortalecimento da negociação coletiva e salários mínimos dignos precisam estar no centro das estratégias do G20 para realmente promover a solidariedade, a igualdade e a sustentabilidade.  

Os Estados Unidos da América assumirão a presidência do G20 em 1º de dezembro. 

Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações. 

*Explicabilidade (Explainability) refere-se a técnicas que tornam as decisões e previsões de modelos de IA interpretáveis ​​e compreensíveis para humanos. Mais especificamente, a explicabilidade visa proporcionar transparência sobre como os modelos chegam a resultados a partir de um conjunto de entradas. (nota do ODTI) 

COP30: Transição Justa deve incluir os trabalhadores, avalia CSI

Confederação Sindical Internacional avalia COP30

Silvia Portela

Neste texto o secretário-geral da Confederação Sindical Internacional (CSI) avalia os resultados da  COP30 recém realizada em Belem. Luc Triangle destaca principalmente a criação do Mecanismo de Ação de Belém (MAB) para uma Transição Justa que incluiu a participação dos trabalhadores em sua implementação. 

Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto da página da Confederação Sindical Internacional (CSI).

Mecanismo de Ação de Belém para uma Transição Justa: Um avanço para os trabalhadores em meio a grandes fracassos na COP30

A decisão tomada na COP30, a conferência climática, de criar um Mecanismo de Ação de Belém (MAB) para uma Transição Justa representa uma grande vitória para os trabalhadores e seus sindicatos.  

Pela primeira vez, os trabalhadores e seus sindicatos terão um papel formal na formulação de políticas de transição justa por meio da UNFCCC. Essa decisão histórica é resultado de anos de persistente defesa por parte do movimento sindical internacional, bem como de aliados em organizações ambientais, de justiça climática, de mulheres e gênero, de jovens e de povos indígenas. Ela reconhece que a organização da participação dos trabalhadores, a proteção dos direitos trabalhistas, a garantia da proteção social e do trabalho decente são essenciais para uma ação climática ambiciosa e justa.  

“O Mecanismo de Ação de Belém é uma vitória decisiva para o movimento sindical e para os trabalhadores de todo o mundo, em todos os setores, mas especialmente naqueles das indústrias em transição.”  Secretário-Geral da CSI, Luc Triangle  

“Precisamos garantir que o Mecanismo de Adaptação às Mudanças Climáticas (BAM) esteja operacional no próximo ano, gerando resultados concretos e colocando empregos decentes, direitos trabalhistas e justiça social no centro das soluções climáticas.  

O próximo ano será crucial para assegurar que o novo Mecanismo de Transição Justa ofereça apoio concreto aos países de todo o mundo e que os parceiros sociais, a sociedade civil e a OIT façam parte de sua governança.  

Mas também precisamos ser claros: a COP30 não alcançou a ambição exigida pela ciência e pelos trabalhadores 

  • No geral, os resultados da COP30 ficaram muito aquém do necessário em termos de mitigação, adaptação e financiamento climático:  
  • Não houve um roteiro para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis de maneira “justa, ordenada e equitativa”, conforme estabelecido na COP28. 
  • Não houve um pacote de justiça para apoiar os trabalhadores e as comunidades na linha de frente da transição.  
  • Não houve um plano crível para reduzir a lacuna entre as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) e os objetivos do Acordo de Paris sobre a redução das emissões de gases de efeito estufa.  
  • Promessas fracas sobre financiamento para adaptação, com metas críticas adiadas para 2035. 
  • Um processo falho, marcado por regras de consenso muito rígidas e falta de transparência nas negociações finais.  

Luc Triangle comentou: “Não pode haver Transição Justa se as emissões de gases de efeito estufa continuarem a aumentar, afetando trabalhadores e comunidades em todo o mundo, se os governos não conseguirem proteger os cidadãos dos impactos do aquecimento global e se os países do Sul Global não tiverem acesso a financiamento climático”.  

No entanto, além da decisão de desenvolver o BAM, conquistas importantes para a justiça social incluíram:  

  • a inclusão dos direitos trabalhistas, trabalho decente e proteção social no mandato do BAM; 
  • o reconhecimento das Diretrizes da OIT para uma Transição Justa como base para a implementação;  
  • e a renovação do Plano de Ação para a Igualdade de Gênero, com referência explícita à Transição Justa.  

“A CSI continuará trabalhando para garantir que o BAM seja governado por e para os trabalhadores e que impulsione políticas climáticas concretas, socialmente justas e inclusivas.” Luc Triangle, Secretário-Geral da CSI.  

Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações. 

Projeto Brasil e GPCEIS/CEE-Fiocruz divulgam Projeto Nacional de Desenvolvimento

Um mapa dos diagnósticos dos desafios de desenvolvimento do país e propostas concretas foram desenhadas por 6 especialistas, mediados pelo jornalista Luís Nassif, em um encontro no último dia 30 de outubro, resultando em um Projeto Nacional de Desenvolvimento, que divulgamos nesta sexta-feira (14).

O documento é resultado do Seminário “Inovação, Soberania e Desafios Nacionais”, promovido pelo Projeto Brasil e pelo grupo de pesquisa Desenvolvimento Sustentável, CT&I e Complexo Econômico-Industrial da Saúde (GPCEIS) do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE-Fiocruz/Ministério da Saúde), em parceria com a Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).

Na ocasião, especialistas de diversas áreas (Saúde, Educação, Meio Ambiente, Defesa, Macroeconomia e Políticas Públicas) promoveram o intercâmbio de conhecimentos e propostas para pensar, de forma conjunta, novas políticas de desenvolvimento produtivo e inovação, visando soluções integradas para os desafios nacionais de crescimento, competitividade, bem-estar e sustentabilidade. 

O encontro reuniu Cesar Callegari, consultor educacional, presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE/MEC); Carlos Nobre, cientista ambiental, professor da USP/IEA e Copresidente do SPA (Painel Científico para a Amazônia); Gabriela Maretto, coordenadora da Comissão Interministerial de Contratações Públicas para o Desenvolvimento Sustentável (Cics) do MGI; Marcos Barbieri, professor da UNICAMP e especialista em Indústria Aeroespacial e de Defesa, e Antonio Lacerda; doutor em Economia, pesquisador do Departamento de Economia da PUC-SP.

A realização do evento foi do jornalista Luís Nassif, responsável pela mediação, e do economista Carlos Gadelha, coordenador do GPCEIS do CEE-Fiocruz e conselheiro do Projeto Brasil, que realizou a abertura do encontro. 

Os especialistas promoveram os referidos diagnósticos e apontaram propostas concretas, sistematizadas no documento “Agenda de Estratégias para a Soberania e Desenvolvimento Estrutural do Brasil”, divulgado na data de hoje e que será entregue a instituições, gestores e representantes públicos e órgãos de fomento. O objetivo é que as proposições possam alimentar agendas de políticas públicas para os próximos anos.

O Projeto Nacional de Desenvolvimento 

A proposição parte da atual conjuntura do país, sugerindo caminhos para um desenvolvimento que vá além da mitigação de crises cíclicas e promova um projeto de transformação estrutural de longo prazo, com estratégias políticas e econômicas focadas na mudança estrutural, na soberania tecnológica e no uso direcionado da capacidade estatal

O documento aponta que o desenvolvimento soberano do Brasil requer a implementação de políticas públicas ousadas e inovadoras, ancoradas em uma visão integrada que articule o econômico, a inovação, o social e o ambiental. 

A proposta visa um novo modelo de desenvolvimento para o país, concebido para as complexidades do século XXI. A tese central do documento é que o crescimento sustentável e inclusivo só pode ser alcançado por meio de uma estratégia fundamentada em um tripé de soberania, bem-estar e sustentabilidade. 

Acesse a íntegra do documento: 

Agenda de Estratégias para a Soberania e Desenvolvimento Estrutural do Brasil

 

Banco Master e BRB: por dentro das fraudes bilionárias que desafiaram reguladores

Para destrinchar os negócios bilionários do Banco Master e do BRB, o jornalista Luis Nassif recebeu o perito investigador de fraudes, Marcelo Alcides Carvalho Gomes, doutor em Ciências Contábeis pela FEA-USP, e Manfred Back, ex-trader, professor de economia e mercado de capitais.

Os especialistas analisaram a crescente amplitude das fraudes financeiras complexas no Brasil, com vistas nos casos Banco Master e Refite. Para eles, apesar da evolução tecnológica — que potencializa o alcance dos golpes —, as modalidades de fraude em si permanecem inalteradas, fundamentadas na ganância humana e no sonho do dinheiro fácil.

A digitalização e o avanço da tecnologia potencializaram a escala e a dimensão dos antigos esquemas financeiros fraudulentos, mesmo que a essência dos golpes permaneça a mesma. Marcelo Gomes expôs que o aparecimento de Fintechs e outros instrumentos digitais conferiu aos antigos esquemas uma dimensão enorme.

O que antes poderia ser a venda de um produto restrito a um bairro, hoje, com a internet, pode ser vendido “para o mundo”. Para Gomes, que é doutor em ciências contábeis e perito investigador de fraudes, essa é a principal mudança proporcionada pela tecnologia: a capacidade de transacionar muito maior, potencializando tudo o que os fraudadores fazem.

Ainda, com a tecnologia e a flexibilização exagerada dada pelo Banco Central e pela CVM, surgiu um “efeito pirâmide no mercado” com fundos de investimento que estão sempre precisando de mais recursos.

As instituições reguladoras, notadamente a CVM, foram apontadas como ineficazes por priorizar normas excessivas, em vez de investir em liderança técnica e aplicação da lei. Da mesma forma, embora o Banco Central possua um corpo técnico de auditoria excelente, sua gestão anterior foi criticada por decisões passadas sobre a supervisão de instituições financeiras, permitindo que irregularidades ganhassem grandes proporções.

O ex-trader Manfred Back compartilhou sua experiência e opinião sobre a reguladora, destacando que as falhas da Comissão de Valores Mobiliários não são recentes e que, na sua impressão, a instituição “até piorou”. Ele observou que o único método que coíbe o mercado é quando este “sente no bolso”, visto que a CVM se concentra em criar “alíneas e alíneas” de normas, muitas vezes sem cumprimento efetivo.

Os especialistas em contabilidade e economia também detalharam como criminosos utilizam paraísos fiscais como Delaware e sofisticadas operações de interligação entre empresas para a lavagem de dinheiro e sonegação fiscal.

Eles concluíram que o combate efetivo exige menos novas legislações e mais foco no cumprimento rigoroso da lei e no aprimoramento tecnológico das agências de investigação.

Confira a íntegra do episódio do Projeto Brasil na TVGGN:

A saúde como pilar do desenvolvimento sustentável, por Carlos Gadelha

Carlos Gadelhaconselheiro do Projeto Brasil, Maria Augusta Arruda e Marcelo Manzano

A saúde como pilar do desenvolvimento sustentável é o tema do artigo publicado no jornal Valor Econômico do dia 19/11. De autoria do professor e pesquisador do CEE, Carlos Gadelha, em conjunto com Maria Augusta Arruda, diretora do LNBio/CNPEM, e Marcelo Manzano, diretor do CESIT/IE-Unicamp, o texto é fruto do trabalho desenvolvido pelos pesquisadores no projeto: “O potencial da biodiversidade para a transformação ecológica do Complexo Econômico-Industrial da Saúde”

A realização da COP-30 no Brasil reforça a necessidade e a urgência do debate sobre a transformação ecológica. O agravamento da crise ambiental e climática, nas últimas décadas, evidencia a desconexão entre o modelo de produção e consumo da sociedade e as necessidades sociais e ambientais.

A saúde não está à parte desse cenário. Ao mesmo tempo em que os sistemas de saúde sofrem com as pressões geradas por este modelo, também contribuem para a crise ambiental. Portanto, a saúde pode ser parte fundamental da solução, ajudando a construir um padrão de desenvolvimento sustentável que reposicione as relações entre economia, sociedade e natureza.

Ao redor do mundo, a saúde já responde à crise climática com soluções inovadoras, como o uso de materiais biodegradáveis para a fabricação de próteses, órteses e dispositivos médicos, a utilização de painéis solares em hospitais e combustíveis verdes no transporte médico, além do mapeamento genético da biodiversidade, que abre portas para a descoberta de novos fármacos, valorizando a floresta em pé. Para que essas iniciativas avancem, no entanto, é preciso ir além de soluções pontuais: é necessária uma mudança estrutural, capaz de promover um padrão não predatório de uso dos recursos naturais.

Estudo coordenado pela Fiocruz, em parceira com o Laboratório Nacional de Biociências e o Instituto de Economia da Unicamp, mostra que o Complexo Econômico-Industrial da Saúde, uma das seis áreas prioritárias da Nova Indústria Brasil, desponta como pilar estratégico para alavancar esta mudança, ao integrar CT&I e produção nacional aos desafios do Sistema Único de Saúde (SUS), o maior sistema universal de saúde do mundo em termos de população.

Os dados levantados mostram que a saúde tem grande relevância social, econômica e ambiental no Brasil. Atualmente, responde por cerca de 10% do PIB, 30% do investimento em P&D, empregando mais de 10 milhões de pessoas. Entre 2012 e 2023, enquanto a população ocupada geral cresceu 12,3%, o número de trabalhadores no CEIS aumentou 65,7%, um ritmo muito superior à média nacional.

Além disso, a amplitude e a heterogeneidade de ecossistemas como a Amazônia, o Cerrado, a Mata Atlântica, a Caatinga, o Pantanal e o Pampa, somadas à extensa faixa costeira e marinha, fazem do território nacional um espaço estratégico para promover a convergência entre saúde, biodiversidade e potencial científico. Estima-se que o país concentre entre 15% e 20% de toda a diversidade biológica existente no planeta, ocupando a 6ª posição mundial quando o assunto é pesquisa em biodiversidade, o que corresponde a 7,5% do número de publicações científicas – um valor significativamente superior à média de 2% nas publicações científicas em geral.

Esse dado por si só já coloca o Brasil em uma posição de excepcionalidade no cenário internacional, mas sua importância vai além do aspecto quantitativo. Os biomas brasileiros, além de reservas naturais a serem preservadas, servem também como plataformas de inovação científica e tecnológica, que podem ser translacionadas para o atendimento das demandas de saúde, superando a tradicional segmentação entre políticas sociais, ambientais e econômicas.

A Amazônia, por exemplo, oferece base genética para prospecção de fármacos, vacinas, fitoterápicos e biomateriais, enquanto o Cerrado aparece com compostos antioxidantes e anti-inflamatórios. A Mata Atlântica destaca-se em fitoterápicos e insumos farmacotécnicos, como o medicamento Acheflan, desenvolvido a partir da erva-baleeira (Cordia verbenaceae) e utilizado no tratamento de inflamações. A Caatinga, único bioma exclusivamente brasileiro, reúne moléculas antivirais, anti-inflamatórias, antibióticas, cicatrizantes — como o óleo de licuri (Syagrus coronata) —, e com potencial anticâncer, a exemplo dos derivados do lapachol, extraído de plantas do gênero Tabebuia avellanedae, capazes de inibir a proliferação de células metastáticas.

Essas informações evidenciam que a biodiversidade deve ser vista não apenas como um recurso a explorar, mas concebida como uma infraestrutura viva para inovação, saúde e justiça social. Para isso, é necessária a formulação de uma nova geração de políticas públicas orientadas pelas principais demandas da sociedade – como a ampliação do acesso à saúde, a geração de renda e empregos e a sustentabilidade ambiental.

Nos últimos anos, o Brasil consolidou um conjunto de políticas públicas que abrem condições inéditas para integrar biodiversidade, saúde e desenvolvimento em uma estratégia de Estado. A promulgação do Protocolo de Nagoya, em 2023, estabeleceu a obrigação de alinhar suas práticas de pesquisa e inovação a padrões internacionais de repartição justa e equitativa de benefícios oriundos do uso de recursos genéticos. Trata-se de um passo decisivo para articular ciência e justiça socioambiental, ao assegurar que o aproveitamento da biodiversidade esteja vinculado não apenas à inovação tecnológica, mas também ao reconhecimento e à valorização dos povos e comunidades tradicionais.

No mesmo ano, foi instituída a Estratégia Nacional para o Desenvolvimento do CEIS (Decreto nº 11.715/2023), definindo seis programas estruturantes, com a finalidade de orientar investimentos públicos e privados na busca de soluções produtivas e tecnológicas para ampliar o acesso à saúde e reduzir a vulnerabilidade do SUS. Em 2024, a Nova Indústria Brasil incorporou essa visão, incluindo a meta de ampliar a participação da produção no país de 42% para 70% das necessidades nacionais em medicamentos, vacinas, equipamentos e dispositivos médicos, entre outros, contribuindo para o fortalecimento do SUS e a melhoria do acesso da população à saúde.

No presente, essas condições conferem ao Brasil a oportunidade única de articular biodiversidade e saúde em um Projeto Nacional comprometido com a transformação produtiva e a mudança estrutural. Isso exige ir além de políticas compensatórias que, embora essenciais, quando tomadas como horizonte máximo, apenas reproduzem o receituário clássico de preservação da estrutura econômica e social existente, matriz tanto da desigualdade quanto de um padrão produtivo nacional ambientalmente insustentável.

Por isso, é fundamental o fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde como pilar estruturante da transformação ecológica, que visa orientar o desenvolvimento da ciência, tecnologia, inovação e produção nacional aos desafios da sustentabilidade, do bem-estar e da soberania.

Carlos Gadelha é professor e pesquisador da Fiocruz. Maria Augusta Arruda é diretora do LNBio/CNPEM. Marcelo Manzano é diretor do CESIT/IE-Unicamp.  

A prisão de Bolsonaro: o custo da Educação de Base sobre a Memória do golpe e da ditadura

Foto: Jair Bolsonaro aponta para placa com foto do general Emílio Garrastazu Médici, ditador entre 1969 e 1974, com a frase: “Eu era feliz e sabia!” – Flickr

A História não se repete: ela insiste 

Autoritarismo, medo e resistência na longa travessia latino-americana (1930 a 2023) 

Janethe Fontes*

Introdução: o fio invisível das repetições 

Embora já se tenha falado muito sobre a tentativa de golpe de 2023, sinto — sobretudo em sala de aula do Ensino Médio — que boa parte da sociedade ainda não percebeu as conexões entre esse episódio e os golpes militares que o precederam. Muitos o relativizam; outros, ainda hoje, o apoiam — mesmo sem compreender plenamente suas motivações, apenas repetindo o coro das forças que se uniram em torno do autoritarismo. Creio, portanto, que, se não formos capazes de enxergar essa continuidade, corremos o risco de repetir, em breve, o mesmo erro — talvez de modo ainda mais brutal e irreversível.  

E é justamente essa repetição disfarçada que me leva a refletir sobre o fio invisível que atravessa nossa história: uma linha que, embora se apresente como progresso, conduz sempre ao mesmo ponto — a crença de que o autoritarismo é o preço necessário da ordem. O que muda são os uniformes, os slogans e os meios de comunicação. O que permanece é o mesmo medo: do outro, do pobre, do pensamento crítico, da liberdade. 

Desde 1937, quando Getúlio Vargas justificou o golpe do Estado Novo com a farsa do Plano Cohen, até 2023, quando extremistas tomaram a Praça dos Três Poderes clamando por “intervenção militar”, o discurso é o mesmo — apenas traduzido em novas linguagens. O inimigo muda de rosto, mas nunca de função: é o bicho-papão ideológico necessário para que a elite conserve o privilégio sob a máscara da moral. 

A História não se repete, como diria Marx — ela insiste. E insiste porque a estrutura social que a produz continua a mesma. 

 

O “pai dos pobres” e o autoritarismo paternal

A Revolução de 1930 colocou Getúlio Vargas no poder com o discurso da modernização e da justiça social. O país precisava de ordem, diziam — e, em nome dessa ordem, dissolveram o Congresso e impuseram, em 1937, a Constituição Polaca, inspirada nos regimes totalitários europeus. 

A figura de Vargas foi esculpida com perfeição simbólica pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). O rádio, então o meio de comunicação mais popular, transformou o “chefe” em pai e a política em liturgia. Vargas era o “pai dos pobres” — expressão que disfarçava a essência do autoritarismo: o controle das vozes que poderiam ser ouvidas. 

O Estado Novo criou direitos trabalhistas, mas sob vigilância. Os sindicatos passaram a existir apenas com autorização estatal. Era o corporativismo paternalista — a inclusão subordinada. Como analisou Florestan Fernandes, o povo brasileiro foi convidado a participar da nação como súdito agradecido, não como cidadão consciente. 

O Plano Cohen, forjado pelo Estado-Maior do Exército, simbolizou a gênese do medo político no Brasil moderno: a invenção do inimigo interno como fundamento do poder. A ideia de proteger a pátria do comunismo — esse conceito elástico que cabe em qualquer ameaça — nascia ali como retórica permanente das elites. 

 

Entre Jânio e Jango: o medo como método 

A renúncia de Jânio Quadros em 1961 abriu uma crise que serviria de laboratório para o golpe de 1964. Seu vice, João Goulart, defendia as Reformas de Base — agrária, bancária, educacional e eleitoral —, buscando corrigir desigualdades estruturais. Mas, como denunciava Florestan, a democracia no Brasil só se torna perigosa quando começa a incluir os pobres. 

Os setores conservadores reagiram com violência simbólica. O anticomunismo voltou a ser o espantalho de sempre. E, sob o pretexto da fé, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade levou milhares às ruas, embalados por hinos religiosos e slogans moralistas. A religião foi instrumentalizada como escudo político do medo — o mesmo mecanismo que, décadas depois, voltaria às telas e púlpitos das igrejas neopentecostais. 

O golpe civil-militar de 1964, apoiado por empresários, pela grande mídia e pelo governo dos Estados Unidos, mergulhou o país em duas décadas de censura e tortura. Os militares chamaram-no de “Revolução Redentora” — o nome pomposo que disfarça a violência. Como toda revolução de mentira, ela começou prometendo liberdade e terminou produzindo silêncio. 

 

Ditadura, silêncio e resistência 

Os porões do DOPS e do DOI-CODI tornaram-se laboratórios do medo. A tortura era método, a censura, rotina, e o exílio, destino. Mas, mesmo na escuridão, a resistência germinava. 

A canção “Cálice”, de Chico Buarque e Gilberto Gil, ecoava como oração e denúncia: “Pai, afasta de mim esse cálice / de vinho tinto de sangue”. A arte se fez trincheira quando a palavra foi proibida. Como observa Jessé Souza, a arte, quando se transforma em denúncia, é o último refúgio da verdade. 

A repressão não era exclusividade brasileira. No Chile, Salvador Allende tombou em 1973 defendendo a democracia. “A história não perdoará aqueles que traíram o mandato do povo.” Na Argentina, o golpe de 1976 produziu cerca de trinta mil vítimas da ditadura. E no Uruguai, Pepe Mujica — preso por 14 anos, a maior parte em isolamento absoluto — demonstrou que a dignidade não se destrói nem com grades, nem com torturas. 

Esses regimes formaram a Operação Condor, uma aliança repressiva continental com apoio dos EUA. A violência virou política de Estado, e o silêncio — política continental. 

 

A redemocratização e o pacto do esquecimento 

Com a Lei da Anistia (1979), o Brasil iniciou o caminho de volta à democracia. Mas a conciliação teve um custo: o perdão aos algozes. O país tentou se reconciliar sem lembrar, curar sem tocar a ferida. 

Como nos ensinou Paulo Freire, “a educação muda pessoas, e pessoas transformam o mundo”. Mas sem memória, a educação se torna anestesia. O esquecimento virou estratégia de sobrevivência das elites, e o autoritarismo, em vez de ser extinto, apenas se recolheu — esperando o momento de ressurgir. 

 

Do golpe de 1964 à tentativa de 2023: a mutação do autoritarismo 

Em 8 de janeiro de 2023, manifestantes invadiram os prédios dos Três Poderes em Brasília, pedindo intervenção militar e questionando eleições legítimas. A cena, transmitida ao vivo, parecia inédita — mas era uma nova versão (remake) do velho enredo. 

Os tanques deram lugar aos tweets; o medo, às fake news; e a retórica da “salvação nacional” ressurgiu sob novas bandeiras. Mas algo permaneceu intocado: o medo do comunismo — o velho espantalho que, desde 1937, é ressuscitado sempre que a elite teme perder privilégios. 

O “comunismo” virou o rótulo de tudo o que ameaça o poder: educação crítica, diversidade, consciência racial, igualdade de gênero e até políticas sociais básicas. 

É o mesmo bicho-papão ideológico que justificou o auto-golpe de 1937, o golpe civil-militar de 1964 e que, em 2023, foi atualizado nas redes, pintando professores, artistas e jornalistas como “inimigos da nação”. 

Durante as eleições de 2022, esse discurso foi amplificado. Púlpitos religiosos foram transformados em palanques eleitorais; pregadores confundiram fé com voto; e o medo, novamente, tornou-se evangelho. A religião, que deveria humanizar, foi politizada como arma de guerra cultural. 

Ao mesmo tempo, o Judiciário e o discurso moralista da “anticorrupção” foram instrumentalizados para neutralizar vozes progressistas e legitimar perseguições seletivas. Era a velha tática da elite latino-americana: usar a lei e a moral como instrumentos de poder. 

O que mudou foi o meio — não o enredo. A mesma elite ressentida, o mesmo moralismo, o mesmo ataque à escola e ao pensamento crítico. Mas também, como antes, a mesma resistência: professores, artistas, estudantes, jornalistas. A História insistia. 

 

Conclusão: o eco que teima em voltar 

“A história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.” (Karl Marx, O 18 Brumário de Luís Bonaparte, 1852) 

Como lembrou Marx, a primeira vez é tragédia, a segunda é farsa. Mas no Brasil — e em toda a América Latina —, a farsa é o eco prolongado da tragédia que teima em voltar. A cada geração, o autoritarismo muda de nome e de forma, mas continua a disputar corações, mentes e algoritmos. 

Cabe à educação crítica, à arte e à memória impedir que o riso cínico da farsa apague o luto da tragédia. Porque esquecer — como ensinou a História — é sempre o primeiro passo para repetir. 

Nota final: 

Há algumas semanas, enquanto redigia este texto, uma desastrada operação policial nos Complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, deixou oficialmente 121 mortos — um deles, decapitado. Uma chacina que o governador do Estado teve a audácia de classificar como “sucesso”. Casos assim revelam, com clareza brutal, o quanto a extrema direita pode ser letal caso, um dia, reassuma o poder no governo federal. 

REFERÊNCIAS: 

ALLENDE, Salvador. Discurso final ao povo chileno, 11 set. 1973. Santiago do Chile: Rádio Magallanes, 1973. Disponível em: https://www.memoriachilena.gob.cl. Acesso em: 2 nov. 2025. 

BUARQUE, Chico; GIL, Gilberto. Cálice. Composta em 1973. In: BUARQUE, Chico. Chico Buarque [LP]. Rio de Janeiro: Philips Records, 1978. 

FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil: ensaio de interpretação sociológica. 5. ed. São Paulo: Globo, 2005. 

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 50. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021. (1ª ed. 1968). 

MARX, Karl. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. Tradução de Nélio Schneider. São Paulo: Boitempo, 2011. 

MUJICA, José (Pepe). Uma ovelha negra no poder: conversas com Pepe Mujica. Conversas com Andrés Danza e Ernesto Tulbovitz. São Paulo: L&PM, 2015. 

SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2017. 

AGÊNCIA BRASIL. Moradores de favelas protestam no Rio após megaoperação com 121 mortos. CartaCapital, São Paulo, 31 out. 2025. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/moradores-de-favelas-protestam-no-rio-apos-megaoperacao-com-121-mortos/. Acesso em: 3 nov. 2025. 

 

* Janethe Fontes é escritora, professora de História e Sociologia e pós-graduanda pelo ICL/FESPSP. Autora, entre outros livros, de Natureza Selvagem (Ed. A Liter Ação). 

Bélgica entra em greve geral contra mudanças trabalhistas

Silvia Portela 

Trabalhadores da Bélgica convocam greve geral no país nesta quarta-feira em protesto contra cortes orçamentários e mudanças na legislação trabalhista. A greve iniciou-se na segunda-feira no setor de transportes, ampliou-se na terça-feira com a entrada de servidores públicos e culmina nesta quarta-feira com a paralisação geral. A burguesia belga segue a receita de resolver os seus próprios problemas econômicos às custas dos direitos trabalhistas. 

Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto da agência noticiosa France 24, com informações da AFP e Reuters.

Bélgica se prepara para greve nacional de três dias contra cortes orçamentários.  

A Bélgica enfrenta grandes interrupções no transporte, além do fechamento de escolas e serviços públicos, durante uma greve de três dias que começou na segunda-feira em protesto contra os cortes de gastos e as mudanças na legislação trabalhista propostos pelo governo. As greves ocorrem mesmo após o governo ter chegado a um acordo sobre o orçamento na manhã da segunda-feira, depois de meses de negociações intensas.  

France 24, publicado em 24 de novembro de 2025    

A Bélgica se preparava nesta segunda-feira para três dias de greves em todo o país, convocadas por sindicatos para protestar contra os cortes orçamentários e as reformas no sistema previdenciário propostos pelo governo.  

As greves estão ocorrendo em três ondas. Trens e transportes públicos entraram em greve na segunda-feira, com a companhia ferroviária nacional SNCB prevendo operar dois de cada três trens, ou apenas um de cada três em algumas linhas. Vários trens Eurostar ligando Bruxelas a Paris foram cancelados.  

Na terça-feira, serviços públicos como escolas, creches e hospitais aderem à greve.  

Para quarta-feira, os sindicatos convocaram uma greve geral total, abrangendo todas as categorias.  

Não há previsão de voos nesta quarta-feira nos dois principais aeroportos do país, Bruxelas-Zaventem e Charleroi. As greves estão programadas para ocorrer apesar de um acordo alcançado na manhã de segunda-feira pelo governo sobre o orçamento para o próximo ano.  

Governo chega a acordo orçamentário  

O primeiro-ministro belga, Bart De Wever, confirmou nesta segunda-feira as notícias veiculadas pela imprensa de que um acordo havia sido alcançado sobre o orçamento nacional para o próximo ano.  

De Wever havia estabelecido, no início deste mês, um prazo até o Natal para que sua coalizão de cinco partidos chegasse a um acordo, após continuarem discordando sobre como sanear as finanças públicas.  

O acordo foi alcançado durante negociações maratonas que começaram na manhã de domingo e se estenderam até a madrugada de segunda-feira. O acordo inclui aumentos de impostos sobre a compra de ações, passagens aéreas e gás natural, além de um novo imposto sobre bancos, informou o jornal financeiro De Tijd. Juntamente com cortes nos gastos do governo, isso deve reduzir o déficit público em € 9,2 bilhões (US$ 10,6 bilhões) até 2029.  

O déficit orçamentário da sexta maior economia da zona do euro deve atingir 4,5% do Produto Interno Bruto (PIB) este ano, com uma dívida equivalente a 104,7% do PIB, segundo o Banco Central – bem acima do máximo acordado pelas regras orçamentárias da UE.  

O acordo não impedirá uma greve nacional de três dias contra as reformas do sistema previdenciário, anunciadas anteriormente, que começa na segunda-feira. 

 ‘Desprezo’  

A greve foi convocada pelos principais sindicatos belgas, que estão em impasse com De Wever devido aos seus esforços para reduzir a dívida do país, uma das mais altas da Europa, juntamente com Grécia, Itália e França.  

No poder desde fevereiro, o conservador flamengo está tentando impor um grande esforço de austeridade por meio de uma série de reformas estruturais sem precedentes relacionadas à liberalização do mercado de trabalho, ao seguro-desemprego e às pensões. Mas apenas um pequeno número das medidas propostas por De Wever foi implementado até agora, em grande parte devido a divisões dentro de sua coalizão de cinco partidos. Ele deu à sua coalizão até o Natal para chegar a um acordo, inclusive sobre seu pedido de cortes de gastos para cobrir um aumento no orçamento militar.  

A greve tem como objetivo pressionar os partidos enquanto negociam entre si. 

 Trata-se de “um apelo ao primeiro-ministro De Wever e a todo o governo para que ponham fim ao desmantelamento dos programas sociais”, afirmaram os sindicatos em um comunicado à imprensa. 

A central sindical socialista FGTB acusou o primeiro-ministro de demonstrar “desprezo” e “desrespeito” por esse movimento social.  

Esforços sindicais anteriores tiveram resultados mistos. Cerca de dezenas de milhares de manifestantes marcharam pelas ruas de Bruxelas em meados de outubro para protestar contra o que chamaram de cortes orçamentários “brutais”.  

 

E se os Big Data fossem aplicados no combate à pobreza? Por Ricardo T. Neder

E SE OS BIG-DATA FOSSEM APLICADOS NO COMBATE A POBREZA ? (*)

Ricardo T. Neder
UnB – [email protected]

A íntegra deste artigo também está disponível no Acervo do Projeto Brasil, aqui.

INTRODUÇÃO: A RETÓRICA VAZIA DO DESEMPREGO

A conjuntura histórica que se abre nos anos 2010 com as tecnologias de base digital desnuda um cenário que revela um País com pés de barro devido ao subemprego e desemprego cronico que não podem mais ser vistos pela métrica dos anos 1990 quando 22% da classe trabalhadora vivia do trabalho industrial. Com o desenvolvimento do ecossistema da internet e da ciência das organizações (que não se resume em tratar os sistemas tipo big-data) temos as condições de possibilidade de inaugurar um projeto nacional em torno do sistema de emprego, trabalho e renda que hoje está fraturado entre mercado formal x informal.

O desenvolvimento do ecossistema da internet e da ciência das organizações (que não se resume em tratar os sistemas tipo big-data) abre as condições de possibilidade de lidar com este complexo de questões acumuladas para superar a desregulação social nesse estádio primitivo e de barbárie em que vivem os contingentes submetidos a extensas jornadas de trabalhos como parte do clássico excedente do exército industrial de reserva em formações capitalistas (assentada na análise do cap. 23 de O Capital – A Lei Geral de Acumulação Capitalista) no qual Marx analisa como o crescimento do capital, especialmente por meio do investimento em maquinário, gera uma superpopulação relativa de trabalhadores, que forma o exército de reserva e pressiona os salários para baixo.

1. AINDA O MESMO PROBLEMA DOS ANOS 1990: FALTA PLANEJAMENTO, IDIOTA!

Nos anos que precederam a queda do campo socialista (1989/90) um debate comum entre as esquerdas era como viabilizar a construção de um modelo de gestão para o planejamento descentralizado e estrategicamente orientado para reunir dados e contribuir para compreender e fazer a estruturação do poder em distintas escalas, global, nacional e local. Esse era um sonho do planejamento soviético até a queda do campo socialista da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas).

Quarenta anos depois (em 2020) a China estruturou seu ecossistema de internet nacional, criou uma indústria para a infraestrutura física, gerou politicamente os marcos regulatórios para sua sustentação e avançou ao ponto de um ecossistema digital ser capaz de viabilizar uma governança 4.0 que tem entre seus principais desdobramentos um sistema de previdência e seguridade social integrado com a vida civil, funcional e trabalhista do cidadão (o que permitiu, por sua vez, criar um cadastro unificado de famílias em situação de extrema pobreza).

A primeira, e mais óbvia, política industrial de combate a pobreza entre os BRICs deverá se inspirar neste modelo chinês: criar um ecossistema de big-data modelado como uma governança capaz de atuar enquanto eixos de inteligência para incluir toda a população em idade ativa (ou PIA) em diretrizes para ações, acompanhamento e controles que permitirão qualificar o acesso da população a políticas públicas para trabalho e renda.

As principais características do big-data são conhecidas como os cinco V’s: Volume: volume de dados gerados e coletados, que pode ser medido em terabytes, petabytes ou até mesmo exabytes; Velocidade: rapidez com que os dados são gerados e processados, muitas vezes em tempo real; Variedade: diversidade de fontes e formatos de dados, incluindo dados estruturados, semi-estruturados e não estruturados; Veracidade: precisão e confiabilidade dos dados, que é fundamental para tomar decisões informadas; 5. Valor: valor que os dados podem agregar à organização, seja em termos de redução de custos, aumento de receita ou melhoria dos processos. Em sua totalidade são dados coletados em grande escala diferem dos bancos de dados comuns, que não permitem correlações.

2. INDUSTRIALIZAÇÃO POPULAR: QUEM CONDUZIRÁ O REGIME DE TRANSIÇÃO ?

Fazer a passagem pelo deserto dos invisíveis do mercado de trabalho informal no Brasil para incluí-los no sistema nacional de emprego, trabalho e renda não é uma tarefa para quadros tecnocráticos, racionalistas e positivistas; sem direção politica da esquerda mais afinada com os temas tecnocientíficos e sociocientíficos (fins e não meios solidários) ninguém mais é capaz como força organizada na política de enxergar saídas para o labirinto que tem um Minotauro que destrói e mutila os corpos na economia popular.

O conhecimento sobre as características cruzadas – localização produtiva de cadeias econômicas no território, perfis ocupacionais, profissões, qualificação das pessoas-residentes, escolaridade, perfis ocupacionais, saúde e qualidade de vida por faixa etária e étnicas das relações de gênero – podem ser identificadas por interseccionalidades nos algoritmos, e estes interagem com os contingentes fora do mercado formal, tanto quanto com os que estão nos circuitos da economia popular. Rompe-se assim, a separação entre formal & informal no mercado de trabalho do ponto de vista das TICs e bases de dados digitais.

3. A CEGUEIRA MORAL COMO FUNDAMENTO

Saramago explorou o tema da cegueira como metáfora para a indiferença, o egoísmo e a intolerância na sociedade moderna, explorando o que acontece quando as pessoas perdem não só a visão, mas também a lucidez e a ética. Trata-se, é claro, da cegueira moral da sociedade, refletindo a incapacidade das pessoas de ver e lidar com problemas sociais como a intolerância, a apatia e a violência. Será preciso chegar a melhor taxonomia para enquadrar os 80 milhões restantes, que estão artificialmente, de forma malandra e capciosa, classificados como não-empregados do setor formal. Mas ambos, formais e informais, são como substâncias apolares de acordo com o princípio químico de que semelhante dissolve semelhante, ou seja, eles seriam miscíveis. Mas não é o caso, pois os fluxos e dinâmicas do mercado de trabalho formal e informal podem ser comparados à mistura do óleo e azeite (que são apolares). Não se misturam mas sintetizam uma terceira substância como propôs Chico de Oliveira (1933-2019) como se o trabalho formal se misturasse com o informal, em constante troca de qualidades! As bases técnicas para integrar os registros de ambos os contingentes já existe desde janeiro de 2020, quando o Sistema do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) foi substituído pelo Sistema de Escrituração Digital das Obrigações Fiscais, Previdenciárias e Trabalhistas (eSocial) para parte das empresas (tal como estabelecido pela Portaria SEPRT nº 1.127, de 14/10/2019).

3. ALTERNATIVAS PARA POLÍTICAS DO TRABALHO COM A REVOLUÇÃO DIGITAL 4.0

A balança geopolítica de poder entre Sul e Norte Global parece pender para movimentos de grande autonomia a favor do Sul. Se tomarmos como referência a experiência chinesa que reúne regulação social para seguridade e vida laboral, este pode ser caminho virtuoso para criar sistemas complexos de big-data. O financiamento dessa regulação social precisa ser revista para incluir a economia popular, e o melhor modelo não é ‘pejotização’.

Existem hoje no Brasil quatro regimes tributários específicos. Recolhimento feito pelo microempreendedor como contribuinte individual com CNPJ; o simples nacional, a arrecadação derivada do lucro presumido e do lucro real que incidem sobre todo tipo de empresário e trabalhadores autônomo/as da chamada economia formal. Hoje o contingente dos 80 milhões de pessoas (matriculadas no CADÚNICO) é uma força de trabalho que tem plena viabilidade econômica de gerar valores, pois opera sob formas de gestão cooperativa unifamiliar, pluri-familiar (por economia de vizinhança), ou associativa e cooperativa sem fins lucrativos, na total ou parcial ilegalidade. Formam circuitos que tenho conceituado como Organizações Produtivas Populares (OPPs). Como poderão ser enquadradas num regime fiscal ao mesmo tempo diferenciado (do setor formal com suas quatro modalidades fiscais), e com potencial inédito de definir obrigações modulares a serem cumpridas por estas organizações? O roteiro de sete passos para começar a planejar essa integração é meramente exemplificativo, e poderia ter outras agências e atores, interesses e setores envolvidos:

1 Revitalizar o SINE para dotá-lo de banco de dados integrado com a base CADÚnico/MDS sob orientação do CADSOL/ SENAES área hoje que dialoga com os invisíveis do mercado de trabalho;

2 Revitalizar e integrar o SINE/SENAES/MTE ao programa Periferia Viva que opera sob dois vetores: Ministério das Cidades/Secretária Nacional de Periferia + BNDES/Periferia Viva

3 Cruzar o banco de dados relacional ECOSOL/SENAES/SINE com um sistema de apoio à pesquisa com base no modelo da área de ciência e tecnologia/saúde ou PPSUS/C&T Saúde (que tem expertise para trabalhar com agentes comunitários)

4 Apoio MCTI/SEDES: fomento a linhas de pesquisa de extensão tecnológica para incubadoras (Universitárias, municipais e comunitárias) para diagnóstico quali-quantitativo para formação de agentes multiplicadores ECOSOL nos territórios.

5 Conexão FAT/Fundo de Apoio ao Trabalhador/SENAES/BNDES(I) – Relatório Técnico sobre empregos gerados (fev/2025): desenvolver outro modelo análogo aplicado com metodologia para formular políticas econômicas de industrialização dirigida para a força de trabalho subutilizada com destaque para bairros populares e periferias.

6 Conexão FAT/SENAES/BNDES(II) – Fomento para crédito/investimento em cadeias de produção envolvendo territórios participantes do programa Periferia Viva.

7 Conexão FAT/SENAES/BNDES(III) – Programa Nacional de mini-incubadoras por cadeias produtivas a exemplo do existente PRONINC – Programa Nacional de Incubadoras Populares.

Abandonar a política do Bolsa-Família é difícil, mas necessário, pois é ilusório como política de geração de trabalho e renda. A crítica é expor um osso quebrado: a focalização dos benefícios sociais nasceu de recomendações da tecnocracia do Banco Mundial nos anos 1990; está empoeirada e cheira mal pois não conseguimos como esquerda, mencionar seu caráter de cidadania ativa para industrializar a produção de bens e serviços de consumo popular. Sua associação à política neoliberal nunca deve ser esquecida pois se funda na redução do papel do Estado tanto na provisão de bem-estar social, quanto sobretudo, no abandono do Estado que atua no campo dos investimentos produtivos.

4. PLATAFORMIZAÇÃO SOLIDÁRIA

O novo eSocial tem a virtualidade de ser um sistema de gestão pública tanto para os empregados, quanto pode ser aplicado também para os trabalhadores em OPPs/organizações produtivas populares articulados em federações e confederações de cooperativas. O SINE poderá ser vitaminado pelo FAT (Fundo de Apoio ao Trabalhador) com recursos consideráveis e manejado pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Isto exigirá um pacto político estratégico a fim de garantir regras e políticas de proteção aos/às trabalhadores/as em todas as formas de inserção laboral (assalariados, autônomos, conta-própria, teletrabalho, mediado por aplicativo ou plataformas, mulheres em condições de trabalho na economia do cuidado e precariato em geral).

Nota-se a partir de uma análise sumária do escopo da Nova Indústria Brasil (NIB) que 99% de seus recursos são investimentos públicos e privados em segmentos já intensivos de capital, da agroindústria, indústria automobilística, bioeconomia, energia renovável, construção civil, indústria da saúde, papel e celulose, siderurgia e defesa aero e nuclear. Para essa expansão se exige quadros técnicos, mas uma das características da revolução digital é superar o modelo gerencial de supervisão e comando, e adotar outro mais barato e eficaz devido a funções inteligentes compartilhadas em equipes monitoradas. Portanto, que se danem os gerentes! Essa é a estrela que surge no horizonte como uma das principais transformações verificadas no mundo do trabalho na última década, o surgimento de plataformas digitais de trabalho online. O processo centra-se em plataformas baseadas na web, por meio das quais as empresas e outros clientes podem externalizar tarefas por meio de um convite aberto a mão-de-obra vasta e flexível («crowd», multidão), geograficamente dispersa pelo mundo.

5. AS TRÊS DIMENSÕES DA LUTA POLÍTICO-IDEOLÓGICA EM TORNO DAS PLATAFORMAS

i) Uma primeira dimensão da luta político-ideológica instaurada pelo capitalismo de plataforma reside nas suas tentativas de impor uma lógica proto-fascista que combate todas as formas de solidariedade de classe trabalhadora. Pesquisadores tem chamado a atenção para correlação entre plataformas digitais e o comportamento político destes trabalhadores arregimentados pela lógica dos aplicativos de grandes empresas de comércio eletrônico, ou de entrega na última milha.

ii) As contradições envolvem os campos das relações laborais e trabalhistas. As empresas que se identificam como “aplicativos” e “plataformas” são a atual coqueluche que radicalizou uma narrativa de que os trabalhadores não são seus empregados, mas clientes. É nessa esteira que difundem o argumento de que os trabalhadores teriam autonomia, liberdade e flexibilidade para definir onde, como e quando prestar os serviços.

iii) O que é, afinal, a plataforma digital para autogestão? Tem sido definido de forma um tanto vaga, como plataformas digitais controladas por trabalhadores e/ou pelas comunidades locais. Demandam fomento continuado de assistência sociotécnica aos grupos produtores, e experiências-piloto para constituir formas organizacionais próprias reconhecidas juridicamente e dotadas de segurança econômica para receber uma parcela do poder de investimento dos Governos que tem sido direcionado para as Empresas do setor formal. No Brasil a maioria das experiências registra modelos no compartilhamento do cuidado (saúde familiar, coletiva, saúde mental; assistência e serviço sociais, serviços domésticos, cuidados de idosos e crianças), prestação de serviços, alimentação, agricultura familiar, agroecologia, sistemas de entrega.

São unidades com trabalhado/as com ou sem estabelecimentos, vinculados aos circuitos mercantis mediante unidades produtivas em espaços econômicos não explorados pela grande empresa (economia criativa por meio de cervejarias artesanais, produção de alimentos orgânicos, microempresas de tecnologia de informação e comunicação, parte de um aglomerado). Esta base já existente poderá no futuro próximo se articular como Cooperativismo Solidário de Plataformas Digitais no Brasil com a reapropriação de tecnologias digitais autogestionadas por trabalhador/as. Esta base poderá ser somada com a experiências entre 2002-2016 com a Política Nacional de Economia Solidária que apontam sete setores e subsetores da economia popular que tem grande potencial de operar cadeias e redes de empreendimentos econômicos solidários: 1. reciclagem, 2. construção civil, 3. manufatura artesanal, 4. metalurgia e polímeros, 5. agricultura familiar e camponesa, populações tradicionais 6. apicultura, olericultura, fruticultura, 7. cereais sob certificação agroecológica e orgânica. Formar cadeias de valor nestes segmentos mediante OPP’s organizações geradoras de outras formas de trabalho e renda como inédito viável de um regime de transição especial que os inserira numa política industrial de combate a pobreza (ou industrialização solidária – Renato Dagnino). Este é o universo de oportunidades que se abre com os big-data para alavancar as ações do movimento pela Economia Solidária (ECOSOL).

REFERÊNCIAS

FARIA, Luiz A. Silva de et al. Centralizando ou compartilhando governanças de plataformas de moeadas sociais digitais? Explorando olhares a partir do caso Mumbuca. In: R.T. Neder e Flavio C. Henriques (orgs) Um horizonte de lutas para a autogestão (org) – O trabalho organizado por plataforma digital. Marília/SP: Ed Lutas Anticapital. 2024. (pp.295-320).

GONÇALVES, Gustavo Nicolau et al. Desenvolvimento de algoritmo gerador de rotas com valores.
In: R.T. Neder e Flavio C. Henriques (orgs) Um horizonte de lutas para a autogestão (org) – O trabalho organizado por plataforma digital. Marília/SP: Ed Lutas Anticapital. 2024. (pp.253-272)

KALIL, Renan B. Regulação do trabalho e plataformas digitais. In R.T. Neder e Flavio C. Henriques (orgs) Um horizonte de lutas para a autogestão (org) – O trabalho organizado por plataforma digital. Marília/SP: Ed Lutas Anticapital. 2024. (pp.90-76)

MARRERO, Nicolas. A captura do intelecto geral em plataformas de compartilhamento digital: transformações do trabalho coletivo no capitalismo cognitivo. In: R.T. Neder e Flavio C. Henriques (orgs) Um horizonte de lutas para a autogestão (org) – O trabalho organizado por plataforma digital.
Marília/SP: Ed Lutas Anticapital. 2024. (105-120)

MASSON, Letícia P. e CHRISTO, Cirlene de S. Sobre viver no trabalho por plataformas digitais: saude, sofrimento e luta de entregadore/as e motoristas. In: R.T. Neder e Flavio C. Henriques (orgs) Um horizonte de lutas para a autogestão (org) – O trabalho organizado por plataforma digital.
Marília/SP: Ed Lutas Anticapital. 2024. (pp.77-104)

NT-MTST – Núcleo de Tecnologia do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto. É possível concorrer com as grandes plataformas? Uma visão crítica de trabalhadores de tecnologia da informação. In: R.T. Neder e Flavio C. Henriques (orgs) Um horizonte de lutas para a autogestão (org) – O trabalho organizado por plataforma digital. Marília/SP: Ed Lutas Anticapital. 2024. (pp.273-294)

NEDER, Ricardo T. e HENRIQUES, Flavio C. (org) Um horizonte de lutas para a autogestão (org)

NEDER, Ricardo T. e BEZERRA-SILVA, R. O plataformismo solidário diante do capitalismo de plataforma (uma revisão da literatura). Pags.7-47. Revista Ciência & Tecnologia Social. 2025

PESSANHA, Roberto M. Plataformismo: uma nova etapa do modo de produção capitalista? In R.T. Neder e Flavio C. Henriques (orgs) Um horizonte de lutas para a autogestão (org) – O trabalho organizado por plataforma digital. Marília/SP: Ed Lutas Anticapital. 2024. (pp.19-58)

SANTINI, Daniel. Cooperativismo e solidariedade contra as distopias do capitalismo de plataforma na mobilidade. In R.T. Neder e Flavio C. Henriques (orgs) Um horizonte de lutas para a autogestão (org) – O trabalho organizado por plataforma digital. Marília/SP: Ed Lutas Anticapital. 2024. (pp.207-230)

SILVA, Sandra Aparecida Oliveira Cordeiro. A experiência do GT de Regulamentação do Trabalho em Plataformas Digitais do Governo Lula. In: R.T. Neder e Flavio C. Henriques (orgs) Um horizonte de lutas para a autogestão (org) – O trabalho organizado por plataforma digital.
Marília/SP: Ed Lutas Anticapital. 2024. (pp.141-150)

SCHOLZ, T. Cooperativismo de plataforma – Contestando a economia do compartilhamento corporativa. Editora Elefante, 2017.

SANTANA, Marco A. Plataformas digitais e movimentos de trabalhadores: a experiência dos entregadores durante a pandemia. In: R.T. Neder e Flavio C. Henriques (orgs) Um horizonte de lutas para a autogestão (org) – O trabalho organizado por plataforma digital. Marília/SP: Ed Lutas Anticapital. 2024. (pp.121-140)

TYGEL, Alan et al. Autogestão e tecnologias da informação a serviço dos movimentos sociais – a experiencia da cooperativa EITA. In: R.T. Neder e Flavio C. Henriques (orgs) Um horizonte de lutas para a autogestão (org) – O trabalho organizado por plataforma digital. Marília/SP: Ed Lutas Anticapital. 2024. (pp.231-252)

ZANATTA, R. e BARCELLOS, Victor (editores convidados). Revista Ciência & Tecnologia Social. Número temático: Plataformismo Solidário. acesso: https://periodicos.unb.br/index.

ZANATTA, Rafael A. Ferreira. Cooperativismo de plataforma ou plataformização solidária? In R.T. Neder e Flavio C. Henriques (orgs) Um horizonte de lutas para a autogestão (org) – O trabalho organizado por plataforma digital. Marília/SP: Ed Lutas Anticapital. 2024. (pp.159-190).

(*) Pesquisa de base sobre os temas aqui apresentados contou com apoio fundamental do CNPq Chamada nº 40/2022 – Linha 4B – Projetos em Rede – Políticas públicas para a inovação e para o desenvolvimento econômico sustentável. Pro-Humanidades 2022 – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq. (proc. 4208772/2022-1).

COP30 x Sul Global… e o nó na garganta que pode matar, por Janethe Fontes

Janethe Fontes*

*Janethe Fontes é professora de história e sociologia e escritora. Autora, entre outros livros, de Natureza Selvagem (Ed. A Liter Ação). 

Esse nó ao qual me refiro no título não surge apenas em decorrência da 30ª COP, mas das camadas históricas que nos atravessam enquanto país periférico — mesmo quando sediamos decisões que afetam profundamente nossas vidas. 

Acompanhei, de longe — bem longe — tudo o que pude. Não estive em Belém, não pude ouvir os debates oficiais nem aqueles que ocorreram nas frestas, nos corredores, nos bastidores. O que me chegou, como sempre chega para a maioria de nós, foram recortes: manchetes, discursos polidos, promessas calibradas, análises já filtradas pelas lentes das grandes mídias. Ou seja: vi a vitrine, não a engrenagem. Talvez por isso tenham permanecido tantas perguntas grudadas na garganta — perguntas que, talvez por serem incômodas demais, costumam ser tratadas como distrações, “pessimismo”, “ingenuidade”. Mas é justamente desse lugar — o lugar da pergunta indócil — que nasce o pensamento crítico. Por isso ouso escrever o que ficou preso na garganta. 

Ouso também desconfiar, perguntar, friccionar: ao propor o veículo elétrico como solução ao colapso climático, será que não estamos apenas trocando seis por meia dúzia? 

Será que a denominada bateria “verde” realmente reverte os danos ambientais, sociais e econômicos causados pelo combustível fóssil? Ou será que apenas move o dano de lugar, muda o mapa da dor, preserva o mesmo centro de poder? Pois, sejamos honestos: trocar a matriz energética sem mudar a matriz de desigualdade é apenas maquiar o colapso. 

E, cada vez mais, tenho a incômoda impressão de que o carro elétrico — mesmo com suas promessas sedutoras — é menos solução e mais sintoma, já que mantém viva a lógica que nos trouxe até aqui: a lógica do automóvel como eixo da vida, da mobilidade baseada no indivíduo, do consumo que se expande para resolver problemas que ele próprio cria. 

Assim, a pergunta que me assola é: Por que estamos tentando salvar o carro, quando deveríamos salvar a vida coletiva? 

Não existe futuro sustentável quando a cidade continua sendo estruturada para o automóvel. Não importa se o carro é movido a gasolina, etanol, bateria ou hidrogênio: o problema não é o combustível; o problema é a própria ideia de cidade como pista.  

Por isso, quando reflito sobre a COP30, percebo que o debate ecológico não se separa do debate urbano, social, racial, econômico e decolonial. Tudo está amarrado — e é da teia inteira que precisamos falar. 

 

Cidades densas, verdes, conectadas: a política que não cabe no automóvel 

O Brasil — assim como tantos países do Sul — foi empurrado para um modelo urbano disperso, caro, cansativo, dependente do carro. Mas existe outro caminho: o caminho das cidades que respiram juntas. O caminho dos metrôs, dos VLTs (Veículos Leves sobre Trilhos), dos trens regionais, dos corredores verdes, dos bairros acessíveis, da mobilidade como direito e não mercadoria. 

Estudos brasileiros ajudam a consolidar essa crítica. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) já registrava em 2016: “modos coletivos de transporte apresentam gastos de energia e emissões per capita muito menores.” 

É simples: quanto menos carros nas ruas, menor o dano ao clima, ao ar, ao corpo, ao tempo. 

E não é só questão ambiental — é questão de desigualdade urbana. O automóvel é marcador social: define quem pode circular com conforto e quem leva o peso da espera, das filas, do tempo perdido, do transporte precário. 

Cidades densas e conectadas são, portanto, políticas de igualdade. 

 

Economia menos automobilística: romper o velho pacto 

Reduzir o protagonismo do carro não é um ataque à indústria; é um novo pacto civilizatório. O automóvel privado nunca foi apenas meio de transporte — é uma máquina de produzir desigualdade: 

  • ocupa espaço urbano desproporcional, 
  • consome materiais e energia em escala absurda, 
  • gera emissões de carbono e resíduos, 
  • cria congestionamentos que drenam vida, 
  • reforça a cidade como território fragmentado. 

É importante lembrar também que o automóvel privado não apenas gera emissões operacionais, mas exige uma infraestrutura extensiva (estradas, túneis, estacionamentos, manutenção), uma cadeia material volumosa (aço, borracha, plástico, vidro) e um destino adequado para os resíduos ao fim de vida. Tudo isso raramente é contabilizado quando se fala no suposto “carro elétrico verde”. 

Um artigo recente — “Mobilidade Sustentável: ESG e o Transporte Urbano no Brasil” (2025) — reforça que reduzir veículos individuais e ampliar transporte coletivo é essencial para a mobilidade de baixo carbono. 

Ou seja: o caminho não é “carro elétrico para todos”. O caminho é menos carros para todos. 

 

Energia descentralizada: soberania começa na infraestrutura 

Veículos elétricos exigem geração de energia, redes de recarga, infraestrutura pesada. Mas a pergunta crucial é: quem controla essa energia? 

Se as baterias forem importadas e as redes privatizadas, se a extração de minerais continuar destruindo territórios indígenas, se a geração elétrica vier de biomassa insustentável, não há “verde” que resista. 

Energia descentralizada — solar comunitária, geração distribuída, redes locais — devolve poder às comunidades e reduz a dependência de megaprojetos.
Sem soberania energética, não há soberania tecnológica. 

 

Redução real de consumo: o tabu que ninguém toca 

Fala-se em “transição”, mas evita-se o coração do problema: consumimos demais… Demais energia, demais material, demais espaço, demais recursos.  

Nenhuma tecnologia dará conta se não houver redução real — não redução moralista, mas redistribuição do uso da cidade, planejamento urbano, trabalho remoto bem estruturado, políticas de proximidade, resgate do tempo como direito. 

 

Soberania tecnológica e cooperação Sul–Sul 

O Sul Global só deixará de ser extrator quando se tornar criador. Nunca participamos da tecnologia pelo topo — sempre pelo subsolo: 

  • extraímos lítio, mas não produzimos a bateria; 
  • fornecemos energia, mas não controlamos o algoritmo; 
  • suportamos o impacto, mas não colhemos o valor. 

A instalação de um megacentro de inteligência artificial no Ceará é exemplo dessa contradição: é apresentado como progresso, mas consumirá água e energia em escala absurda, podendo aprofundar desigualdades regionais.  

A pergunta é: a quem serve essa inteligência? E mais: que inteligência produz um país que sacrifica seu território para abrigar máquinas que não lhe pertencem? 

O Brasil precisa de soberania tecnológica que não seja mera adesão ao que vem de fora, mas produção crítica, cooperação Sul–Sul, alianças que reorganizem o mapa do conhecimento. Sem isso, continuaremos sendo base de impacto — e nunca base de invenção. 

 

Cidades-esponja: um futuro que aprende com a água 

Enquanto o Ocidente responde às enchentes com mais concreto, bombas e diques, a China vem experimentando um urbanismo que aprende com a natureza: as cidades-esponja. 

Elas aceitam a água, não lutam contra ela: 

  • parques permeáveis, 
  • jardins de chuva, 
  • pavimentos drenantes, 
  • telhados verdes, 
  • reservatórios naturais, 
  • sistemas que imitam o que os rios sempre souberam fazer. 

Não é apenas técnica — é filosofia. É a ideia de que a cidade não precisa dominar a natureza, mas dialogar com ela. 

E fico aqui pensando: como seria o Brasil se aprendêssemos com nossa própria água? Como seria o Ceará — terra marcada por secas e enchentes — se seus investimentos fossem voltados para resiliência climática, e não para as máquinas que treinam inteligências artificiais estrangeiras? 

Cidades-esponja revelam que existe inteligência fora dos laboratórios.
Existe inteligência no ciclo das chuvas, nos solos, nas marés, nas comunidades que sempre sobreviveram apesar do Estado.  

Essa é a inteligência de que precisamos: uma inteligência ecológica, social e decolonial. 

 

Conclusão: o nó na garganta é também semente 

A COP30 terminou. Mas o nó na garganta continua. E talvez deva continuar. Porque esse nó — esse incômodo que não desce — é o que nos impede de aceitar, como espectadores dóceis (deslumbrados), uma transição verde que muda o rótulo, mas não muda o mundo. É ele que nos lembra que nenhuma bateria “verde”, nenhum carro silencioso, nenhum pacto diplomático salvará o planeta se continuarmos preservando a mesma lógica que nos trouxe até aqui: a lógica da desigualdade, do consumo ilimitado, do extrativismo colonial e da cidade pensada como pista. 

O transporte coletivo muda. 

Cidades densas mudam. 

Energia comunitária muda. 

Soberania do Sul muda. 

E justiça climática — se vier — virá das margens, das periferias, das vozes que insistem em existir mesmo quando o mundo tenta reduzi-las ao silêncio. 

Nota:

Enquanto o mundo discute caminhos para mitigar a crise climática, aqui, na cidade onde vivo — Guarulhos — um outro nó na garganta se forma.

Segundo denúncia da vereadora Fernanda Curti (PT), publicada na Revista Forum (em 20/11/2025), a Prefeitura está destruindo uma área que, de acordo com moradores, abrigava quatro nascentes — um pequeno ecossistema que poderia, e deveria, ter sido preservado ou até mesmo reflorestado. Em vez disso, está sendo aterrada para a realização de um megaevento musical.

Assim, um pedaço vivo da cidade — que era pântano, nascente, lago, refúgio — agora vira palco de destruição, na contramão de tudo o que a COP30 tenta simbolizar.

É nesses momentos que sinto o nó subir novamente à garganta, e de forma ainda mais dolorida, já que esse caso eu acompanho de perto. O mesmo nó da COP30, o mesmo nó da transição verde como vitrine, porque o problema não está apenas em Belém, Glasgow, Paris, Nova York etc. O problema está aqui, na esquina, no bairro, no chão concreto de Guarulhos e em outras tantas administrações locais: quando se destrói aquilo que ainda poderia nos salvar, quando o poder público decide que o espetáculo vale mais do que a vida.

Nota final: 

Este ensaio não nasce de uma posição acadêmica. Não sou pesquisadora do tema ecologia. Sou, há algum tempo, uma ecossocialista que olha o mundo com interesse legítimo e inquietação real. Minha análise pode ser ingênua — e talvez por isso mesmo é honesta. 

 

 

Indianos condenam mudanças nas leis trabalhistas

Silvia Portela

Este texto da Reuters noticia a reação das grandes centrais sindicais indianas à tentativa do governo Modi de implementar as regressivas mudanças trabalhistas aprovadas pelo parlamento há cinco anos. As mudanças querem aumentar as jornadas de trabalho, permitir o trabalho noturno das mulheres e facilitar demissões, entre outras mudanças – a receita preferida para prejudicar os trabalhadores. 

Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto de matéria da agência noticiosa Reuters.

Sindicatos indianos planejam protestos em todo o país

Por Sarita Chaganti Singh e Manoj Kumar  

22 de novembro de 2025 11:26 GMT-3 Atualizado em 22 de novembro de 2025    

MUMBAI, 22 de novembro (Reuters) – Dez grandes centrais sindicais indianas condenaram o lançamento, pelo governo, na sexta-feira, de novos códigos trabalhistas, a maior reforma desse tipo em décadas, como uma “fraude enganosa” contra os trabalhadores.  

Os sindicatos, alinhados com partidos de oposição ao primeiro-ministro Narendra Modi, exigiram em comunicado divulgado na noite de sexta-feira a revogação das leis, antes dos protestos nacionais planejados para quarta-feira.  

Uma das centrais sindicais, o Centre of Indian Trade Unionsorganizou marchas de protesto no sábado na cidade de Bhubaneswar, no leste do país, onde centenas de trabalhadores se reuniram e queimaram cópias dos novos códigos trabalhistas.  

O governo de Modi implementa os quatro códigos trabalhistas, aprovados pelo parlamento há cinco anos, buscando simplificar as normas trabalhistas, algumas datando do período colonial britânico, e liberalizar as condições para investimentos. O governo afirma que as mudanças melhoram a proteção dos trabalhadores. 

Embora as novas regras ofereçam benefícios como seguridade social e salário mínimo, elas também permitem que as empresas contratem e demitam trabalhadores com mais facilidade.  

Os sindicatos se opuseram veementemente às mudanças, organizando diversos protestos em todo o país nos últimos cinco anos.  

O Ministério do Trabalho não respondeu imediatamente, no sábado, a um pedido de comentário da Reuters sobre as reivindicações dos sindicatos. Um documento interno do ministério sobre as normas trabalhistas mostra que o governo realizou mais de uma dezena de consultas com sindicatos desde junho de 2024.  

As novas regras permitem turnos mais longos nas fábricas e trabalho noturno para mulheres, além de elevar o limite de demissões que exigem aprovação prévia de 100 para 300 trabalhadores, dando às empresas maior flexibilidade na gestão da força de trabalho.  

As empresas há tempos criticam as normas trabalhistas indianas por considerá-las um entrave para o setor manufatureiro, que contribui com menos de um quinto da economia do país, avaliada em quase US$ 4 trilhões.  

Associação de Empreendedores Indianos (AIEA) expressou preocupação com o fato de as novas regras aumentarem significativamente os custos operacionais para pequenas e médias empresas e interromperem a continuidade dos negócios em setores-chave. A associação solicitou ao governo apoio transitório e mecanismos flexíveis de implementação.  

Nem todos os sindicatos se opõem à reforma. O sindicato de direita Bharatiya Mazdoor Sangh, alinhado ao partido de Modi, pediu aos estados que implementassem as novas normas após consultas sobre alguns dos códigos.

Espera-se que os estados indianos elaborem normas alinhadas aos novos códigos federais que abrangem salários, relações trabalhistas, previdência social e segurança ocupacional. 

Metalúrgicos de Ontário ameaçam ocupar fábrica da GM

Silvia Portela

Os trabalhadores organizados no Sindicato dos Trabalhadores Automotivos de Ontário ameaçam ocupar a fábrica da montadora em Ingersoll, na província de Ontário, Canadá. A GM alegando as tarifas impostas por Trump sobre os produtos canadenses quer transferir a planta para os Estados Unidos. Os metalúrgicos canadenses estão em luta para manter seus empregos ameaçados. E devem estar preocupados sobre a quebra na unidade sindical norte-americana. O texto não cuida dessa questão, mas o United Auro Workers (UAW) apóia a decisão da GM; 

Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto da PayDay Report, um blog  “que cobre o  movimento sindical em um deserto de notícias”.

Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Automobilística de Ontário Ameaça Ocupar Fábrica Se a GM Retirar Máquinas  

PayDay Staff – 19 de novembro de 2025  A seguinte matéria é de autoria do nosso editor colaborativo, Saleh Waziruddin, que reside em St. Catharines, Canadá.   

“Nós tomaremos a fábrica fisicamente”, disse Mike Van Boekel, presidente da unidade da Unifor Local 88, após a GM não cumprir o prazo estabelecido pelo governo canadense para apresentar seu plano de manutenção da fábrica em funcionamento.  

A fábrica da GM em CAMI contava com 1.200 funcionários antes de ser paralisada no início de abril, e a produção deveria ter sido retomada no mês passado. No entanto, a GM anunciou que interromperia a produção, demitindo todos os trabalhadores.  

A GM alega que a medida se deve à baixa demanda, mas a Unifor afirma que também se deve às tarifas impostas por Trump. “ 

A realidade é que a CAMI foi atingida em ambas as frentes por Trump, que agiu agressivamente para desfazer o apoio aos veículos elétricos e impôs uma tarifa de 25% às montadoras canadenses”, disse Lana Payne, presidente da Unifor.  

O fechamento da fábrica da GM ocorre ao mesmo tempo em que a Stellantis está transferindo a produção planejada para Brampton para Illinois, e parte da produção da GM em Oshawa está sendo transferida para Indiana, devido às tarifas de Trump. A Stellantis também anunciou demissões em Windsor, atribuindo a culpa às tarifas.  

Há três anos, os governos federal e provincial de Ontário destinaram meio bilhão de dólares à GM para reequipar a fábrica de Ingersoll e modificar suas linhas de produção. Agora, a fábrica está fechando – um golpe repentino e chocante para muitos.  

“É devastador”, disse o prefeito de Ingersoll, Brian Petrie, à CBC. “Houve muitos momentos difíceis para os funcionários e para a GM neste projeto, e ouvir que a produção vai ser interrompida… é o pior cenário possível.”  

Os sindicatos canadenses afirmam estar se preparando para uma luta intensa para resistir aos fechamentos, pois temem que outros ocorram no futuro. “Se não lutarmos com força contra ele (Trump) e contra essas empresas, vamos perder tudo”, disse a presidente da Unifor, Lana Payne, no início deste ano.  

A ocupação da fábrica da Ingersoll pode inspirar ações semelhantes em outros locais. Os trabalhadores afirmam estar preparados para ocupar a fábrica, se necessário, para mantê-la em funcionamento. “Deixamos nossa posição bem clara para a empresa: nada entra e nada sai. Se eles tentarem remover sequer uma coisa da fábrica, estamos prontos para tomar o controle. Não estamos brincando”, declarou Mike Van Boeckel, líder do sindicato Unifor, em um comunicado. “Estamos lutando para garantir que a CAMI permaneça aberta… faremos o que for preciso para proteger nossos empregos, nossos membros e o futuro desta fábrica”. 

 

Uma Nova (velha) Reforma Trabalhista na Argentina, por Carlos Tomada

Artigo de Carlos Tomada, ex-Ministro do Trabalho da Argentina na era Kirchneirista. São considerações sobre a possível reforma trabalhista que o governo Milei está prometendo.

Carlos Alfonso Tomada

O presente nos desafia mais uma vez e exige que consideremos propostas e conceitos que possam ser úteis para reflexão e debate, nos quais o atual governo, fiel herdeiro de outras tentativas fracassadas semelhantes, pretende envolver toda a sociedade. Refiro-me à suposta necessidade urgente de uma reforma trabalhista que visa centralmente (Mais uma vez!! Quantas vezes isso já aconteceu?…) eliminar direitos e enfraquecer as instituições trabalhistas, como condição indispensável para a solução dos problemas que assolam a Argentina há anos. Isso baseia-se em um diagnóstico simplista e falso, repleto de preconceitos e clichês que permeiam sistematicamente a opinião pública. Digamos, para dizer o mínimo, que não há evidências nem comprovação empírica da eficácia de uma reforma trabalhista para resolver as dificuldades do nosso país, muito menos por meio dessa violação constitucional. Infelizmente, porém, uma parcela significativa da sociedade internalizou esses argumentos e “realidades”, aceitando essa medida perigosa, inútil e prejudicial, que, portanto, é inegociável. E não estou falando dos empresários que a pressionam para seu próprio benefício exclusivo (o que é um direito deles). Estou falando de líderes, comentaristas/jornalistas, jovens e idosos (até mesmo progressistas) e tantas outras pessoas bem-intencionadas que defendem esse retrocesso, acreditando sinceramente que essa é a solução. 

Talvez seja melhor antecipar a conclusão. Na realidade, as soluções residem na implementação de políticas públicas (talvez algumas regulamentações legais) que abordem as mudanças no mundo do trabalho, colocando no centro a “proteção do trabalho em todas as suas formas”, conforme estabelecido em nossa Constituição Nacional (artigo 14 bis), bem como a segurança jurídica, que todos exigem para si (inclusive os trabalhadores ). 

Vamos analisar rapidamente os principais argumentos e propostas que estão circulando: 

  • Devido à falta de reformas, o emprego não está crescendo . Falso: o emprego não está crescendo porque, há vários anos, não existem políticas em vigor para promover a produção e o emprego. Em todo caso, uma reforma trabalhista não resolve nenhum dos problemas estruturais do país. E é ainda menos provável que essa reforma resolva os problemas do mundo do trabalho, como demonstram as 103 reformas trabalhistas implementadas em outros tantos países que usaram esse argumento para aumentar o emprego e o investimento, apenas para ver o resultado ser o aumento da desigualdade e da pobreza, segundo um relatório das Nações Unidas. 
  • Reduzir as indenizações por demissão para estimular a contratação . Falso: os empregadores contratam quando há consumo, crédito e negócios, não quando as condições de trabalho são péssimas , e certamente não durante períodos de recessão generalizada. Um exemplo basta. O período de maior crescimento do emprego privado registrado na Argentina contemporânea (ou seja, emprego formal) coincidiu com a existência de uma medida excepcional: indenização em dobro por demissão (revogada após a superação da crise). Desde o ano passado, está em vigor um sistema teoricamente voltado para demissões a baixo custo (ver a Lei-Quadro), mas ninguém o utiliza, e empregos estão sendo destruídos a uma taxa média de 420 trabalhadores a menos por dia. 
  • O atual sistema trabalhista é a causa do colapso das PMEs . Falso. Primeiro, digamos que as 25.000 PMEs que faliram entre 2016 e 2019 (governo Macri) e agora, os 18.100 empregadores que fecharam as portas no último ano e meio (governo Milei) não parecem ser afetados pelas leis trabalhistas, mas sim por políticas prejudiciais à produção e ao emprego, pelos aumentos acentuados nas tarifas de serviços públicos, pela queda no consumo e pela pura especulação financeira que quebrou o espírito dos ” empresários éticos “. Além disso, e isso se aplica ao ponto anterior, vale destacar que a indenização por demissão na Argentina é calculada com base no tempo de serviço do funcionário na empresa. O tempo médio de serviço utilizado para esse cálculo é de dois anos para 50% de todos os trabalhadores do setor privado, e apenas 8% dos trabalhadores em nosso país têm mais de dez anos de serviço. A causa das falências não parece estar aí. 
  • Eliminar a “indústria dos processos judiciais”. Embora reconhecendo alguns casos de distorção (que existem em todas as profissões ou atividades), sejamos realistas. Por exemplo, na Província de Buenos Aires, de 1,5 milhão de trabalhadores , apenas 5% entraram com processos judiciais em 2021. Mas, acima de tudo, acredito que o foco deva ser nos sonegadores de impostos, naqueles que burlam as normas trabalhistas e tributárias, e na falta de uma cultura genuína de prevenção em relação aos riscos no ambiente de trabalho. 
  • Enfraquecimento das relações coletivas de trabalho . As quatro reformas propostas visam unicamente enfraquecer as organizações representativas dos trabalhadores e aumentar a discricionariedade dos empregadores. Especificamente: I) priorizar acordos coletivos de trabalho em nível empresarial em detrimento de acordos setoriais, para minar a defesa dos interesses coletivos; II) eliminar a prorrogação automática de acordos coletivos para pressionar os sindicatos, trocando aumentos salariais por direitos; III) restringir e penalizar o direito à greve para impedir a defesa de salários e direitos; IV) condicionar as contribuições sindicais para sufocar financeira e politicamente as associações profissionais. Esses detalhes podem ser explorados mais a fundo em outro momento. 

As soluções propostas não se limitam a reformar leis, mas sim a criar ambientes produtivos e assimilar as mudanças tecnológicas e organizacionais ocorridas, sem comprometer os direitos arduamente conquistados. Porque esses são direitos, não privilégios. 

RUMO A UM TRABALHO MAIS HUMANO E A UMA MELHOR DISTRIBUIÇÃO DE RENDA 

Vamos analisar os problemas reais do mundo do trabalho em nosso país e algumas propostas para enfrentar os desafios: 

  1. Retomando a criação de empregos : implementando um modelo de crescimento econômico baseado na indústria, em novos setores estratégicos, na economia do conhecimento, em obras públicas voltadas para logística e habitação, no turismo receptivo e na promoção do nosso comércio exterior. Considerando nosso complexo científico e tecnológico como carro-chefe — no sentido mais amplo — e incluindo nossos portos, nossos sistemas de transporte e nossas tripulações. 
  1. Para restaurar o poder de compra dos salários : a curto prazo, permitir a livre negociação coletiva, ativar uma política de rendimentos baseada no salário mínimo e nos abonos de família para os setores público e privado e, a médio prazo, coordenar com os atores sociais as medidas acordadas relativamente a tarifas, preços e salários, e cumprir a nossa Constituição Nacional para avançar na partilha de lucros. 
  1. Reduzir a informalidade : gerar um sistema progressivo de contribuição patronal, fortalecer a política de fiscalização do trabalho por meio do uso intensivo de tecnologias e, por outro lado, para os trabalhadores autônomos, reformular e controlar o monopólio para ampliar os direitos (principalmente saúde e proteção social) criando novas categorias e proibindo sua utilização no setor público. 
  1. Abordar outras questões verdadeiramente ligadas às mudanças no mundo do trabalho: 1) regulamentar os novos direitos dos trabalhadores de plataformas digitais; 2) debater a jornada de trabalho e a questão da autonomia temporal; 3) conceber, dentro do quadro institucional existente, um Sistema Nacional de Educação Continuada com a participação de atores sociais; 4) valorizar o trabalho na economia informal; 5) incentivar a participação dos trabalhadores e seus representantes na organização do trabalho e a formação de Comissões Parlamentares de Saúde e Segurança; 6) promover soluções e ações concretas relacionadas ao empoderamento efetivo das mulheres no ambiente de trabalho e à representação de todos os trabalhadores. Esta lista é exemplificativa, mas essencial para a discussão. 

Lembremos que o trabalho não tem apenas uma lógica econômica, mas também uma existencial; faz parte do sentido da nossa vida. Não se trata apenas de cortar custos. Vamos tornar o mundo do trabalho melhor, e não pior, para as gerações futuras. 

Por fim, peço que não caiam na armadilha ou no discurso imposto pelos setores dominantes que buscam apenas ” deslaboralizar as relações de trabalho” e esterilizar o sujeito sindical. 

Lembremos que as relações de trabalho sempre foram dominadas pelo poder, que tenta fragmentar rompendo laços e isolando indivíduos. Acredito ser importante recordar que a liberdade só existe coletivamente, pois indivíduos isolados têm menos poder para defender seus direitos. 

Portanto, é necessário acumular poder político para ampliar outras dimensões que permitam a garantia dos direitos.

Cidade do Rio usa investimentos públicos para ecossistema de inovação e sustentabilidade local

modelo de desenvolvimento da cidade de Maricá, no Rio de Janeiro, utiliza os royalties do petróleo para fomentar uma nova economia local baseada em inovação e sustentabilidade. Em entrevista ao Projeto Brasil, Celso Pansera, ex-ministro de Ciência e Tecnologia e presidente da Codemar, explica o ecossistema criado pela cidade para articular o desenvolvimento do município com os investimentos das Compras Públicas em suas mais diferentes áreas.

Segundo Pansera, o modelo de desenvolvimento de Maricá, impulsionado pelos royalties do petróleo, busca a sustentabilidade econômica através da criação e fomento de uma nova economia local, diversificada e duradoura, que substitua a dependência dos recursos petrolíferos no futuro. O objetivo principal é que o royalty de petróleo impulsione uma economia “mais justa, mais duradora, mais estruturada e mais sustentável”, afirmou.

Maricá possui um Fundo Soberano com mais de R$ 2 bilhões guardados dos royalties. A estratégia é utilizar este fundo não apenas para aplicações no mercado financeiro, mas sim para financiar a nova economia. Dentro deste objetivo, após o financiamento e a maturação das empresas, o dinheiro retorna ao Fundo Soberano, mantendo o capital disponível para novos ciclos de investimento. Com este planejamento, a cidade calcula cerca de 15 anos de produção de petróleo pela frente para criar essa nova economia sustentável.

Ele explica como a Companhia de Desenvolvimento de Maricá-Codemar articula investimentos, traz ciência, pesquisadores e firma parcerias com institutos de pesquisa e empresas municipais para participar de startups.  Entre os resultados, o ex-ministro narra conquistas como o parque tecnológico, a renovação do aeroporto e projetos de infraestrutura, incluindo hotéis e shopping centers.

Celso Pansera ainda destaca o planejamento para uma base de lançamento de foguetes para satélites de órbita baixa e o desenvolvimento de uma aeronave regional de 19 lugares em parceria com a empresa Desaer.

O modelo de gestão do município enfatiza as Compras Públicas para inovação, usadas para criar ecossistemas produtivos locais em setores como alimentação e saúde, com o objetivo de gerar patentes e empresas privadas que garantirão a sustentabilidade econômica da cidade após o fim da produção de petróleo.

O princípio central do modelo é a interpretação e aplicação da lei de inovação (e o Código Nacional de Ciência e Tecnologia) através das Compras Públicas para Inovação (CPI). Este método consiste em que o poder público é o principal cliente da economia (sendo 15% do PIB brasileiro composto por compras públicas), utilizando uma parte de seus gastos para induzir o desenvolvimento de novos produtos e ecossistemas econômicos locais.

Para isso, o modelo trabalha com o desenvolvimento de necessidades locais, a indução da ciência e gerando produtos patenteados nacionalmente. Ele citou como exemplo de sucesso o desafio da pandemia de Covid-19, quando a Fiocruz investiu R$ 2 bilhões de reais em conjunto com a Universidade de Cambridge e a AstraZeneca para desenvolver a vacina. O investimento necessário para o desafio da população à época “virou um produto de sucesso da Fiocruz aqui no Brasil no mundo e que financia até hoje novos produtos na Fiocruz”, disse.

Em Maricá, Pansera disse que o Instituto de Ciência e Tecnologia Inovação de Maricá (ISTIN) foi criado com este intuito de colocar a ciência como motor de desenvolvimento, por meio dos investimentos das Compras Públicas.

Nesta lógica, alguns projetos do Instituto estão sendo desenvolvidos, como um estudo avançado a viabilidade técnica e econômica de ter uma base de lançamento de foguetes em Maricá, aproveitando o mercado crescente de satélites de órbita baixa. Ainda, Maricá está fechando um contrato para desenvolver uma aeronave de 19 lugares (projeto da Desaer, empresa de ex-engenheiros da Embraer). 

Políticas na área da saúde, alimentação e mobilidade também estão sendo implementadas. Ele destaca um programa que cria um ecossistema que produza alimentos localmente para escolas, restaurantes populares e hospitais municipaisEmpresas maduras já produzem alimentos como Guando, Pinim (inhame) e proteína a partir da jaca. A Codemar se associará a essas empresas, comprando parte das ações para capitalizar e dar escala de produção, antes de vender sua participação no futuro.

Na área de aquicultura, em parceria com a UF (Universidade Federal Fluminense), Maricá desenvolveu pesquisas bem-sucedidas na produção de tilápias e camarões. O plano é abrir uma concessão para a industrialização de pescado, focando em produtos de alto valor agregado (como conservas, estilo as sardinhas portuguesas).

Outra iniciativa é a renovação da frota de ônibus vermelhinhos do município com a meta de zerar a emissão de carbono. O município lança editais para produtos que o poder público necessita e a renovação da frota de ônibus, com a perspectiva de zero emissão de carbono, é um destes produtos. A ideia é pegar uma parte dos recursos que já seriam gastos – neste caso, com subsídios ao transporte ou renovação tradicional da frota – e usá-la para desenvolver um ecossistema local.

Neste modelo, o objetivo é que a prefeitura não seja a dona final dos empreendimentos. O investimento e o incentivo são públicos, mas se busca o surgimento de empresas privadas com raízes locais, utilizando o parque tecnológico e acelerador de startups. A Codemar torna-se sócia de patentes e empresas que irão gerar uma economia que, futuramente, substituirá o petróleo. A ideia é que a economia gire para as pessoas, e não o contrário, incorporando a população no ganho real.

Assista à íntegra da entrevista de Celso Pansera ao Projeto Brasil:

 

Metalúrgicos dos EUA querem taxar navios chineses

Silvia Portela

Este texto dá conta do protesto de sindicatos metalúrgicos estadunidenses contra a retirada de tarifas contra China. De modo válido os sindicatos defendem uma política industrial que traga a indústria naval de volta ao pais. Existe uma certa ingenuidade em imaginar que a simples imposição de tarifas possa reviver uma industria tão intensiva em capital como a industria naval. Existe também uma preocupação política, o que mostra que as tarifas , apesar de causarem uma alta inflacionária, tem o apoio das famílias trabalhadoras. 

Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto da gCaptain!, um blog “dedicado a fornecer notícias de qualidade e a construir uma comunidade interativa de profissionais do setor marítimo”.

Sindicatos criticam Trump por dar carta branca à China na construção naval 

Por Joe Deaux e Laura Curtis, publicado em 8 de novembro de 2025

Um grupo de sindicatos liderado pelo United Steelworkers criticou duramente o governo Trump por suspender as taxas portuárias para navios chineses, medida que, segundo os trabalhadores, traria um renascimento para a outrora dominante indústria naval nacional.  

Os sindicatos expressaram “forte decepção” com a decisão do governo e afirmaram que ela terá consequências negativas na tentativa do país de restaurar o setor marítimo dos EUA, de acordo com uma carta enviada ao Representante Comercial dos EUA, Jamieson Greer. A carta, também assinada pela International Association of MachinistsInternational Brotherhood of Electrical Workers and International Brotherhood of Boilermakers, afirma que a decisão permitirá que a China continue com seu “comportamento predatório”. 

Os comentários contundentes surgem uma semana depois do presidente Donald Trump ter anunciado uma trégua comercial entre as maiores economias do mundo, garantindo aos americanos que a China compraria mais produtos agrícolas e suspenderia os controles de exportação de minerais de terras raras que ameaçavam a segurança nacional dos EUA. Mas a reação negativa também demonstra que o acordo prejudicou algunsintegrantes da classe operária, o que pode afetar negativamente o presidente nas eleições de meio de mandato do próximo ano em estados-chave. 

“Ao suspender as medidas corretivas da Seção 301 por um ano, o governo dos EUA está introduzindo incerteza justamente no momento em que a confiança e o planejamento a longo prazo são essenciais”, escreveram os sindicatos na carta. “Suspender a implementação das ações corretivas no âmbito da investigação da Seção 301 continuará dando carta branca à China.”  

Na quinta-feira, o escritório do Representante Comercial dos EUA abriu um período de comentários excepcionalmente curto sobre os termos do acordo firmado entre Trump e seu homólogo chinês, Xi Jinping.  

A carta dos sindicatos foi enviada na sexta-feira, antes do prazo final, às 17h (horário do leste dos EUA).  

O plano de Trump suspenderia as tarifas sobre as importações de guindastes portuários e chassis da China, além da suspensão das taxas cobradas de navios mercantes construídos e operados pela China que atracam em portos americanos. A China concordou em suspender as medidas retaliatórias em troca da ação dos EUA, de acordo com um documento divulgado pela Casa Branca após o encontro entre Trump e Xi na semana passada. 

A suspensão começaria em 10 de novembro e representa, na prática, um compromisso de um ano de não impor tarifas ou outras penalidades decorrentes de uma investigação americana sobre as ações da China nos setores marítimo, logístico e de construção naval.  

A investigação, conduzida sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, teve início durante o governo Biden, a pedido de cinco sindicatos que representam trabalhadores siderúrgicos e da construção naval dos EUA, incluindo aqueles que assinaram a carta de sexta-feira.Trump buscou contrabalançar a crescente influência da China no setor naval com a investigação, bem como com acordos com o Japão e a Coreia do Sul para fortalecer alternativas. 

O esforço para revitalizar a capacidade de construção naval dos EUA recebeu amplo apoio de republicanos e democratas no Congresso, e uma legislação bipartidária complementar à política voltada para o setor marítimo chinês foi tema de uma audiência no Senado na semana passada. A medida também conta com o apoio de grande parte da indústria marítima nacional.

Plano Ecológico Brasil: Inovação e Sustentabilidade Econômica, por Luís Nassif

A COP 30 lança definitivamente o Brasil na liderança global pelo meio ambiente e pela luta contra o aquecimento planetário.

Luís Nassif

O Tropical Forest Forever Facility (TFFF), ou Fundo Florestas Tropicais para Sempre, representa uma iniciativa inovadora para a conservação das florestas tropicais, liderada pelo Brasil e representa uma mudança radical na legislação atual de defesa do meio ambiente.

O modelo do mercado de carbono é profundamente ingrato para com os países sequestradores de carbono – como o Brasil, com suas florestas tropicais e seu mangue e a maioria dos países africanos e do Sul Global.

No artigo “É hora de rever a legislação ambiental brasileira”, mostramos os principais vícios do modelo, a partir de uma entrevista com Raquel Dodge, ex-Procuradora Geral da República.

Pelo modelo vigente, não se remunerava a manutenção do meio ambiente, mas apenas a recuperação de regiões degradadas ou a ampliação das reservas ambientais. A partir daí, empresas de auditoria – muitas de reputação duvidosa, todas estrangeiras – definiam o crédito de carbono gerado. O fazendeiro vendia por 5 dólares e esse crédito era revendido por até dez vezes mais no mercado europeu.

Lançado na COP 30, o Fundo Tropical das Florestas (TFFF) é uma revolução na questão da responsabilização de quem polui e no financiamento de quem preserva. Como é explicado no portal do Ministério da Fazenda, “países que preservam suas florestas tropicais serão recompensados financeiramente via fundo de investimento global. Em vez da destruição, a conservação se torna economicamente vantajosa, gerando desenvolvimento social e econômico”.

O objetivo final do fundo será captar US$ 125 bilhões no mercado, a juros reduzidos como ativo de baixo risco, US$ 25 bilhões de países e US$ 100 bilhões do setor privado. Os recursos serão reinvestidos em projetos com maior taxa de retorno, gerando um lucro, correspondente a diferencial de spread. A diferença será repassada aos países com florestas tropicais, proporcionalmente à área preservada, enquanto que o dinheiro que foi emprestado será devolvido aos investidores com lucro.

O TFFF (Tropical Forest Forever Facility) foi oficialmente lançado em 6 de novembro de 2025, durante a Cúpula de Líderes da COP30 em Belém. A iniciativa recebeu endosso de 53 países, com mais de US$ 5,5 bilhões anunciados em compromissos iniciais.

O pagamento será de US$ 4 por hectare preservado. O projeto poderá beneficiar mais de 70 países tropicais, cobrindo até 1 bilhão de hectares de floresta. Pelo menos 20% dos recursos irão para povos indígenas e comunidades locais.

Além dos benefícios ao meio ambiente, o TFFF reforça o papel do Brasil, e do presidente Lula, como a grande liderança do Sul Global, colocando o Brasil como interlocutor das principais economias do planeta.

Os avanços internos

Secretário-Executivo adjunto, cabe a Rafael Ramalho Dubeux o acompanhamento de todas as ações ambientais dispersas pelos diversos Ministérios.

O Ministério da Fazenda, em articulação com o Ministério do Meio Ambiente, lidera um esforço para substituir o modelo econômico baseado em commodities e degradação ambiental por um sistema de inovação, sustentabilidade e agregação de valor. Mais de 200 ações governamentais estão integradas nesse plano, monitoradas por um painel central e conectadas a diferentes pastas ministeriais.

Avanços Legislativos

Entre os marcos regulatórios recentes, destacam-se:

 Lei do Mercado Regulamentado de Carbono, separando-o do mercado voluntário e garantindo maior integridade dos créditos.

 Lei dos Combustíveis do Futuro, incentivando SAF, biogás e biometano.

 Lei do Hidrogênio de Baixo Carbono e Lei da Energia Eólica Offshore.

 Programa MOVER, voltado à mobilidade sustentável.

Essas medidas reforçam a transição para uma economia verde, com regras claras e instrumentos de fiscalização robustos.

Finanças Verdes e Fundo Clima

O Brasil já realizou três emissões de títulos sustentáveis, cada uma entre US$ 2 e 2,25 bilhões. Os recursos captados são canalizados para o Fundo Clima, operado pelo BNDES, que ampliou sua capacidade de desembolso de R$ 200 milhões/ano para até R$ 10 bilhões/ano. O diferencial está na destinação exclusiva para projetos limpos, como ônibus elétricos, e na possibilidade de oferecer crédito competitivo sem onerar o Tesouro.

Mercado de Carbono e Serviços Ambientais

O mercado voluntário de carbono brasileiro, considerado frágil, dá lugar a um sistema regulado com metodologias rigorosas e créditos de alta integridade. Paralelamente, o Fundo Florestas Tropicais (TFFF) surge como mecanismo internacional de remuneração pela preservação das florestas. Países como Noruega, Indonésia, França e Alemanha já anunciaram aportes bilionários, reforçando a ideia de que o custo da preservação deve ser compartilhado globalmente.

Ciência, Tecnologia e Inovação

A inovação é vista como eixo central da nova economia verde. Entre os projetos destacados estão:

 Centro de Competência em Hidrogênio de Baixo Carbono, com integração internacional.

 Programa Universidades Inovadoras e Sustentáveis, em parceria com os ministérios da Educação e da Ciência/Tecnologia.

• Apoio ao projeto Amazônia 4.0, liderado por Carlos Nobre, que busca criar um “MIT da Amazônia” para fomentar biotecnologia e soluções inovadoras.

Agricultura Familiar e Inclusão

A agricultura familiar foi reconhecida como peça-chave para a sustentabilidade e inclusão social. Editais de inovação tecnológica estão previstos para apoiar máquinas agrícolas adaptadas a pequenos produtores. Experiências locais, como as de Maricá e do Morro da Penha, foram citadas como exemplos de transformação social e econômica.

Mineração Sustentável

A mineração, setor estratégico para a transição energética, ganha novos contornos com a taxonomia sustentável brasileira. O objetivo é evitar a exportação de commodities sem processamento, investindo em refino e transformação mineral. Programas como o NECO-INVEST buscam atrair capital estrangeiro para industrialização e inovação, sempre com padrões ambientais elevados.

Desafios Digitais

Apesar dos avanços, críticas foram feitas à infraestrutura digital brasileira, especialmente à baixa qualidade da banda larga e à cartelização dos preços. A conectividade é vista como condição essencial para sustentar a inovação verde.

Próximos Passos

Entre as ações imediatas estão:

• Lançamento de editais para agricultura familiar.

• Consolidação do centro de hidrogênio de baixo carbono.

• Evolução institucional do MIT da Amazônia.

• Monitoramento contínuo do mercado regulado de carbono.

• Internalização dos recursos do TFFF com mecanismos de auditoria e transparência.

Conclusão

Plano de Transformação Ecológica representa uma mudança estrutural na forma como o Brasil encara desenvolvimento econômico e preservação ambiental. Ao integrar finanças verdes, ciência, agricultura, mineração e governança social, o país busca se posicionar como líder global em inovação sustentável, conciliando crescimento econômico com responsabilidade ambiental e inclusão social.

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Seminário Inovação, Soberania e Desafios Nacionais: pensando um Projeto Nacional de Desenvolvimento

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Estratégia Brasil 2050: a soberania digital dentre os pilares da nação, por Ergon Cugler

Ergon Cugler

O Brasil começa a desenhar, de forma inédita, uma visão de futuro que ultrapassa governos e mandatos. A Estratégia Brasil 2050, coordenada pelo Ministério do Planejamento e Orçamento, inaugura uma agenda de Estado voltada para as próximas décadas, construída com participação social, acadêmica e institucional. Seu propósito é organizar um horizonte comum: unir desenvolvimento, justiça social e sustentabilidade sob a perspectiva da soberania nacional.

O documento define uma visão objetiva e ambiciosa: fazer do Brasil uma nação democrática, desenvolvida e sustentável, que cresce com justiça social, garante sustentabilidade para as próximas gerações e lidera soluções globais para os desafios do futuro. Para isso, a Estratégia se estrutura em três eixos fundamentais: 1.) desenvolvimento social e garantia de direitos; 2.) desenvolvimento econômico e sustentabilidade socioambiental; e 3.) fortalecimento das instituições democráticas e da soberania nacional. Estes orientados por valores como democracia, diversidade, equidade, coesão social e soberania.

Mais do que um plano técnico, trata-se de um projeto de país. Pela primeira vez, o Estado brasileiro propõe uma arquitetura de longo prazo baseada em diagnósticos, evidências e diálogo com a sociedade civil. Nesse esforço, o Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável da Presidência da República tem desempenhado um papel importante. O CDESS, por meio das suas comissões temáticas, articula debates e formula recomendações que cruzam inovação tecnológica e fortalecimento da democracia. Ao trabalhar de forma integrada, essas instâncias reforçam a compreensão de que não há soberania nacional sem soberania digital.

O futuro como política de Estado

A Estratégia Brasil 2050 parte de um princípio fundamental: o futuro precisa ser planejado com base em valores, e não apenas em metas. Ela propõe que a democracia, a sustentabilidade e a soberania sejam os alicerces do desenvolvimento. Mas, para que esses princípios se sustentem em um mundo cada vez mais interconectado, provoca-se aqui a urgência de se incluir a soberania digital como pilar permanente da nação.

A digitalização da economia, da comunicação e da vida cotidiana tornou os dados, os algoritmos e as plataformas tão estratégicos quanto o território e os recursos naturais. A energia que move os cabos, os satélites e os servidores é hoje o que antes movia os portos e os trilhos. O século XXI trouxe um novo tipo de dependência: a dependência tecnológica. E, se o Brasil não enfrentar essa realidade com políticas públicas estruturantes, continuará sendo um país exportador de dados e importador de inteligência. E pagando muito caro por isso.

Os estudos da Estratégia mostram que o país precisará dobrar sua demanda energética e triplicar a capacidade de transmissão de dados até 2050. Isso significa ampliar redes, investir em conectividade de alta velocidade, garantir segurança cibernética e reduzir a vulnerabilidade de sistemas públicos e privados. Mas significa também compreender que tecnologia é poder. Que quem controla os fluxos digitais controla, também, as decisões econômicas, sociais e políticas.

Integrar a soberania digital como pilar da Estratégia Brasil 2050 é garantir que o país possa definir suas próprias regras e prioridades. É assegurar que os dados brasileiros sejam processados sob leis nacionais, que o conhecimento produzido em universidades públicas seja protegido e aplicado em benefício do interesse público, e que o Estado tenha autonomia para gerir as infraestruturas críticas que sustentam suas políticas sociais, sua economia e sua democracia.

Soberania digital como dimensão da soberania nacional

Durante décadas, o Brasil tratou a tecnologia como um instrumento, e não como um eixo estratégico. Isso mudou. A dependência de servidores estrangeiros para armazenar dados do SUS, o uso de softwares proprietários em órgãos públicos e a falta de transparência nos contratos de nuvem mostram que o país precisa de uma política de soberania digital robusta. Não se trata apenas de segurança cibernética. Trata-se de capacidade de decisão.

Soberania digital significa garantir que nossas comunicações, bancos de dados e sistemas públicos não dependam da vontade de governos estrangeiros ou de meia dúzia de Big Techs. Significa fortalecer empresas nacionais, investir em pesquisa e inovação e consolidar uma política industrial capaz de gerar autonomia tecnológica. Significa, acima de tudo, colocar o poder digital a serviço do bem comum.

A Estratégia Brasil 2050 aponta que o futuro será disputado no campo da informação. É nesse território simbólico e tecnológico que se definirá quem terá poder de decisão. Incorporar a soberania digital como pilar nacional é reconhecer que a independência do Brasil, no século XXI, passa também por dominar suas redes, seus algoritmos e suas infraestruturas críticas. É assegurar que a revolução digital sirva à cidadania e não à concentração de poder.

Participação e compromisso público

Planejar o futuro não é apenas tarefa do Estado, mas também da sociedade civil. A Estratégia Brasil 2050 nasce com esse compromisso: garantir que o processo de construção do país do amanhã seja participativo, transparente e contínuo. As comissões do CDESS cumprem papel essencial nesse acompanhamento, transformando diagnósticos em propostas e conectando a sociedade às decisões estratégicas do governo.

Mas é preciso mais. É necessário transformar a Estratégia Brasil 2050 em política de Estado permanente, blindada de descontinuidades e mudanças de governo. Isso só será possível se houver pressão social, articulação política e engajamento da sociedade civil para exigir a implementação das metas e o monitoramento dos resultados. A Estratégia não é um fim em si mesma. É um compromisso coletivo com o país que queremos construir.

O Brasil de 2050 não será definido apenas pela força de sua economia, mas pela inteligência com que souber alinhar inovação, democracia e soberania. Um país que produz tecnologia, protege seus dados e valoriza a ciência será mais livre, mais justo e mais forte. Por isso, incluir a soberania digital entre os pilares da nação é mais do que uma escolha técnica. É um ato de afirmação política e civilizatória.

Por fim, vale reforçar que planejar o Brasil de 2050 é defender o direito de decidir o nosso próprio futuro. E essa decisão começa agora, no presente, com o reconhecimento de que a soberania digital é a nova fronteira da soberania nacional.

Ergon Cugler de Moraes Silva é Conselheiro da Presidência da República no Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CDESS), o Conselhão do Governo Federal. Graduado e pós-graduado pela USP, mestre em administração pública e governo pela FGV e cientista de dados pós-graduado pela Universitat de Barcelona. Pesquisador CNPq do Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas (DesinfoPop/FGV). Autor do livro “IA-Cracia: Como enfrentar a ditadura das Big Techs” (Kotter Editorial, 2024), integra também o Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé.

Inflação nos EUA: Salários decentes para os trabalhadores

Silvia Portela

Nos Estados Unidos ocorre hoje um debate crucial para os trabalhadores. Como está a inflação no país? Como os salários sofrem diante dessa situação? O governo Trump virou a economia literalmente de ponta-cabeça com suas medidas arbitrárias  e impensadas. Como as tarifas estão refletindo no custo de vida e na economia? A economia está em recessão? Todas essas questões permeiam o debate político americano e o enfrentamento a Trump. E artigo de Robert Polin mostra um pouco disso. 

Este debate é muito importante para o Brasil e para nossas famílias trabalhadoras. Muitas questões, de uma certa forma, se repetem. A comida está cara ou os salários é que estão baixos? O cálculo da inflação está refletindo realmente a carestia?  Um salário único nacional satisfaz as muitas variações regionais? 

Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto da Z Network, que “é uma plataforma de mídia independente dedicada ao avanço da visão e estratégia para um mundo melhor”.

Estagnação salarial vs. salários dignos para os trabalhadores dos EUA   

Robert Pollin, publicado em 09 de novembro de 2025 

No final de agosto passado, o presidente Donald Trump afirmou que os salários médios dos trabalhadores norte-americanos aumentaram US $546 durante os primeiros seis meses desde que ele retornou ao cargo em janeiro de 2025. Como acontece com praticamente todos os pronunciamentos de Trump, este tem pouca relação com a verdade. De fato, ao usarmos os dados governamentais mais confiáveis sobre salários e depois de descontarmos a inflação, os salários dos trabalhadores aumentaram sob Trump, mas em US $26—Isso é 95% menos do que o aumento salarial médio de US $546 proclamado por Trump.  

A realidade da estagnação salarial sob Trump é totalmente consistente com seu ataque mais amplo aos trabalhadores. Apenas como exemplo, o historiador trabalhista Joseph McCartin chamou o movimento de Trump em março para cancelar os direitos sindicais de mais de um milhão de trabalhadores do Governo federal  “de longe a maior ação individual de ataque sindical na história americana.”  

Pior ainda é que a estagnação salarial sob Trump segue o que é hoje um padrão de 50 anos. Em 1973, o funcionário não-supervisor médio ganhava US $ 29,15 por hora (em dólares de 2024). Em 2024, esse salário médio era de R $ 30,13. No mesmo período, a produtividade média dos trabalhadores norte americanos – o valor médio do que eles produzem quando aparecem no trabalho – aumentou 150%. Se esses trabalhadores tivessem recebido aumentos todos os anos entre 1973 e 2024 apenas igual ao aumento de sua produtividade, mas nem um centavo a mais, seu salário médio por hora hoje seria de US $72,88 a hora.  

Para esclarecer melhor os níveis salariais atuais para trabalhadores não supervisores, compare seu salário médio por hora atual de US $30,13 com o que poderíamos considerar um padrão de salário digno. Existem várias maneiras pelas quais se pode definir o que queremos dizer com um salário digno. Em a Living Wage: American Workers and The Making of a Consumer Society, Lawrence Glickman define qualitativamente o termo como sendo um nível salarial que oferece aos trabalhadores “a capacidade de sustentar as famílias, manter o respeito próprio e ter os meios e o lazer para participar da vida cívica da nação.” Um grupo de pesquisa do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) produziu uma calculadora de salário digno que fornece estimativas quantitativas anuais detalhadas dos padrões salariais de vida para cada estado e condado nos Estados Unidos, conforme medido em relação ao custo de vida em cada área. Sua definição do que constitui um salário digno em uma determinada comunidade é menos ambiciosa do que o padrão sugerido por Glickman.  

Especificamente, de acordo com a definição da Calculadora do MIT, “o salário digno é o padrão de renda básica que, se cumprido, traça uma linha muito tênue entre a independência financeira dos trabalhadores pobres e a necessidade de buscar assistência pública ou sofrer moradia consistente e severa e insegurança alimentar. À luz desse fato, o salário digno talvez seja melhor definido como um salário mínimo de subsistência para pessoas que vivem nos Estados Unidos.”  

Trabalhando a partir dessa definição mais baixa, mas ainda razoável, os pesquisadores do MIT estimam salários dignos para vários tipos de famílias, incluindo aquelas com um ou dois adultos e entre zero a três filhos. Por exemplo, suas estimativas de salário digno em nível estadual para famílias com um adulto e uma criança variam entre uma baixa de US $32,62 por hora no Mississippi e uma alta de US $55,15 por hora em Massachusetts. Esses números produzem o resultado impressionante de que mesmo o salário mínimo do Mississippi de US $32,62 por hora está 8% acima da média de US $30,13 que agora é ganha por trabalhadores não supervisores nos Estados Unidos. O salário mínimo de US $55,15 em Massachusetts é 83% maior do que o salário médio por hora atual de US $ 30,13.  

Desde o início da década de 1990, um forte movimento político nos Estados Unidos tem lutado para estabelecer padrões salariais dignos nos níveis municipal e estadual. O movimento alcançou alguns sucessos significativos. Entre 1994 e 2010, leis salariais foram promulgadas em mais de 125 cidades e condados. No nível estadual, 30 estados e Washington, D. C., agora têm taxas de salário mínimo acima do mínimo federal de nível de pobreza de US $7,25 por hora. O estado de Washington tem o maior salário mínimo Estadual, de US $ 16,66 por hora. O salário mínimo para Washington, D. C., ainda é maior, de US $17,95 a hora.  

No entanto, essas taxas salariais estaduais e municipais permanecem uniformemente bem abaixo até mesmo dos padrões mais baixos da Calculadora do MIT. Dado o padrão mais amplo de 50 anos de estagnação salarial nos Estados Unidos, não podemos evitar a conclusão de que o movimento do salário mínimo não foi bem sucedido o suficiente, apesar dos grandes esforços de milhares de organizadores e ativistas em todo o país.  

Sob Trump, só podemos esperar mais das mesmas mentiras descaradas e ataques cruéis aos direitos dos trabalhadores, a oportunidades de emprego e padrões de vida. Portanto, agora é imperativo reviver o movimento do salário mínimo em todo o país. Um movimento de salário digno acelerado pode se tornar uma força importante que contribui para a resistência contra Trump e o Trumpismo. Mais fundamentalmente ainda, um movimento salarial vivo revivido pode ser um meio para construir o poder da classe trabalhadora e, com esse poder, entregar níveis salariais para salários não supervisores que – após 50 anos de  estagnação salarial dos EUA – pode atingir verdadeiros padrões salariais de subsistência.  

Portugal quer retirar direitos dos trabalhadores; Confederação de Trabalharadores do país denuncia

Silvia Portela 

O secretário-geral da CGTP-IN Confederação dos Trabalhadores de Portugueses – Intersindical Nacional, Tiago Oliveira, denuncia a proposta governamental portuguesa de lei de reforma trabalhista  que concentra nos seus cem artigos a retirada de direitos sociais em cinco pontos: o aumento e a normalização da precarização das relações de trabalho; a desregulação dos horários de trabalho; o ataque à contratação coletiva; o ataque ao direito à greve e a facilitação dos despedimentos”. 

Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais, vinculado ao Instituto Lavoro transcreveu as partes principais deste texto do jornal português A Voz do Operário dedicado a retratar as realidade que habitualmente não têm espaço na maioria dos jornais”. O mais antigo jornal operário, ele foi fundado em 1879. 

“Daremos combate a este pacote laboral” 

O secretário-geral da CGTP-IN afirma que a resposta dos trabalhadores será na mesma proporção da gravidade do Pacote Laboral, que considera ser um dos maiores ataques de que há memória aos direitos de quem trabalha e adverte que não põe de lado nenhuma forma de luta. 

Tiago Oliveira, Secretário-geral da CGTP-IN, entrevistado por Bruno Amaral de Carvalho 

De que forma é que os trabalhadores e os sindicatos vão ser afetados se este pacote laboral for aprovado? 

Acho que temos um desafio muito grande pela frente. A CGTP-IN já assumiu isso internamente. A obrigação e o maior desafio com que nos deparamos é levar aos trabalhadores o conteúdo do pacote laboral para que percebam de facto a verdadeira dimensão do ataque. Acho que a manifestação do passado dia 20 demonstrou o grande trabalho que está a ser feito e o que está a ser construído. Milhares de trabalhadores vieram para a rua denunciar o que são os problemas que sentem no seu dia a dia fruto da legislação em vigor e foi a resposta necessária para aquilo que é, do ponto de vista da CGTP-IN, o papel fundamental que nós tínhamos neste momento: levar esta discussão aos trabalhadores. 

Este governo decidiu apresentar um anteprojeto que tem mais de 100 artigos, todos eles assentes em cinco pontos basilares: o aumento e a normalização da precarização das relações de trabalho; a desregulação dos horários de trabalho; o ataque à contratação coletiva; o ataque ao direito à greve e a facilitação dos despedimentos. 

Estamos a falar do maior ataque aos direitos trabalhadores desde a revolução? Podemos considerá-lo desta forma? 

Não fazemos essa análise dessa forma porque até poderíamos estar a correr o risco de escamotear grandes atropelos que aconteceram principalmente no início da década de 90, durante o governo de Cavaco Silva. A análise concreta que fazemos é de que é, de facto, um dos maiores ataques contra os trabalhadores, pelo conteúdo, pelo objetivo, pelo alcance e por uma questão central: como é que coloca os trabalhadores para o futuro? Nós assistimos diariamente e, ainda agora, na reunião da Concertação Social, na discussão do Orçamento do Estado, que cada governo, em cada período legislativo, tenta tocar na questão central que é a questão do trabalho, e sempre na mesma retórica de recuar nos direitos dos trabalhadores. E isso não podemos aceitar. 

Trabalho XXI é como o governo batizou o pacote laboral e, de acordo com a retórica do executivo, a ideia é modernizar as leis do trabalho, alegando que vivemos num país com legislação ultrapassada. 

Já tivemos vários pacotes laborais. Recordo o grande ataque aos direitos dos trabalhadores com a introdução do Código do Trabalho, em 2003. A partir daí, houve um conjunto de revisões e a retórica era igual à de hoje. Diziam que iam servir para aumentar a produtividade, para responder às necessidades da economia e das empresas, para pôr o país a crescer. O que houve foi a deterioração das condições de trabalho e, de alteração em alteração, o que constatamos é que se coloca sempre em primeiro lugar os interesses do capital, dos grandes grupos económicos e financeiros, das grandes empresas, em detrimento daqueles que são – e acho que nós temos que ter a percepção disto – a maioria do nosso povo, que são os que hoje estão no mundo de trabalho, são os que tiveram uma vida inteira dedicada ao trabalho e que hoje são tão penalizados nas suas reformas e nas suas pensões.  

Como é que é possível ter pessoas que trabalharam uma vida inteira e chegam a uma situação de reforma em que deviam ter a possibilidade de descansar, de ter uma vida feliz, e depois assistimos a um milhão de reformados que têm uma reforma de 510 euros por mês? Como é que nós conseguimos dizer a um jovem que amanhã vai entrar para o mundo do trabalho que aquilo com que se vai deparar é com condições de trabalho e uma perspetiva de vida pior do que aqueles que já hoje estão no mundo do trabalho? Tem de haver uma inversão completa na política que é seguida que responda aos interesses da maioria, e os interesses da maioria são, de facto, estes, quem trabalhou uma vida inteira. 

(…)E de que forma é que os trabalhadores podem derrotar esta proposta? 

O passado demonstra que perante todos os ataques, perante todas as tentativas de fazer recuar direitos, perante todas as maldades que foram cometidas ao longo de anos, fruto das políticas de direita, os trabalhadores em todos os momentos souberam dar resposta; o passado demonstra, o presente exige e o futuro irá confirmar que este é o caminho, de trazer os trabalhadores para a luta, para o confronto direto em cada empresa e em cada local de trabalho, porque é aí que se dá o verdadeiro confronto com os que se apoderam da legislação para a fazer aplicar em cada empresa e em cada local de trabalho, promovendo o retrocesso nos direitos de quem trabalha. Temos de passar esta mensagem: tudo o que acontece na nossa vida é político: se nós queremos marcar uma consulta com um médico e demora meses a ser marcada; se queremos uma cirurgia e demora anos a ser marcada; se constatamos que as urgências hospitalares estão encerradas e os centros de saúde estão a encerrar; que há falta de professores; que a legislação do trabalho é cada vez mais negativa; que o salário não chega; então temos de perceber que tudo isto é fruto de opções políticas que são seguidas, e, portanto, há que dar-lhes combate. 

(…)Ainda dentro deste quadro europeu, é possível falar de rutura com este modelo neoliberal sem falarmos de recuperar a nossa soberania nacional? 

Estávamos hoje a analisar os dados do investimento público em Portugal e este corresponde a 80% de financiamento da União Europeia, financiamento feito através de imposições sobre o caminho que devemos seguir. Fala-se muito do PRR, fala-se muito de todos os apoios que vêm de fora para alavancar a economia do país, mas ninguém fala daquilo que o país abdicou e perdeu. A questão fundamental é que temos de deixar de produzir ou ter uma economia assente em produtos de baixo valor. A questão fundamental é que nunca vamos competir com uma Alemanha onde compramos submarinos ou com uma França onde compramos aviões ou Espanha onde compramos os comboios depois de destruirmos a nossa capacidade de produzir comboios. Mandamos fazer os navios para a marinha na Turquia quando tínhamos os maiores e os mais capacitados estaleiros navais. E, portanto, abdicou-se da nossa soberania para que outros possam crescer à custa do definhamento de países como Portugal. 

Neste contexto, a extrema-direita procura dividir os trabalhadores acusando os trabalhadores imigrantes de serem responsáveis pelos problemas dos trabalhadores portugueses. 

Continua a colocar-se o trabalhador apenas como uma peça de uma ferramenta ao serviço do capital. Quanto mais barato, melhor. Fruto desta ação do capital, o que nós vemos é uma deterioração ainda maior nas condições de vida. E a extrema-direita tem usado isto de forma assustadora, que é culpabilizar aqueles que vêm para Portugal, tal como nós vamos para outros países, à procura de uma vida melhor, de mais estabilidade, de um futuro diferente do que hoje nos é apresentado. Coloca-se nesses trabalhadores que vêm para cá, à procura desse futuro e dessa perspectiva diferente, neste momento, a culpa de tudo. Coloca-se o trabalhador [imigrante] como culpado dos baixos salários porque dizem que como recebe pouco, baixa os salários dos trabalhadores portugueses. 

Como se fossem eles que determinassem o seu próprio salário. 

Ou como se não fosse um patrão português que pudesse explorar o trabalhador imigrante e, fruto da exploração do trabalhador imigrante, continua a explorar o trabalhador português. Portanto, isto é uma questão central. Colocam na culpa dos imigrantes o preço da habitação com argumentos estapafúrdios, como o preço da habitação estar a crescer porque conseguem morar sete pessoas num apartamento, como se fosse algo digno, como se fosse uma opção de vida que pudesse ser colocada. 

Culpabiliza-se sempre aqueles que menos têm, como na questão dos rendimentos mínimos, que é um número ínfimo [de beneficiários], mas nunca se culpam os rendimentos máximos, aqueles que exploram e que ganham milhões à custa dos salários de tostões.

O pior que podíamos fazer era culpar um trabalhador que todos os dias veste a mesma farda de trabalho que nós, pela deterioração das condições de vida de todos, e não culpar aquele que ,aproveitando-se dele, consegue fazer retroceder tudo aquilo que são direitos na vida de todos nós. (…) 

A Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses – Intersindical Nacional (CGTP-IN ou simplesmente CGTP) é uma confederação sindical fundada a 1 de outubro de 1970 em Lisboa. A CGTP é membro da Confederação Europeia de Sindicatos. 

O Modelo Maricá: Fundamentos, Governança e Inovações, por Luís Nassif

Cidade usa R$ 1,6 bi de royalties em modelo de desenvolvimento virtuoso, com Economia Solidária e mais de 130 mil usuários da Mumbuca

Luís Nassif

Recentemente, em parceria com a Fiocruz, o Jornal GGN e o Projeto Brasil realizaram o Seminário “Soberania, Inovação e Desafios Nacionais”. O evento contou com a participação de grandes especialistas e visou discutir um modelo de política de desenvolvimento para o país, com base na mais bem sucedida experiência de política industrial: CEIS — Complexo Econômico-Industrial da Saúde.

As principais conclusões do encontro sobre uma política virtuosa de desenvolvimento:

1. Políticas públicas voltadas para o atendimento da população.

2. Inovações e novos produtos atendendo à nova demanda.

3. Compras públicas garantindo sua sustentabilidade.

4. Nova economia do bem estar, gerando emprego e inovação.

Desde 2013 Maricá deu início a um modelo de desenvolvimento que incorpora os principais princípios adotados pelo CEIS, com uma vantagem adicional: disponibilidade de recursos financeiros.

A cidade vem transformando os royalties do petróleo — tradicionalmente associados à volatilidade e concentração de renda — em combustível para um modelo de desenvolvimento inclusivo, sustentável e inovador.

Passei cinco dias na cidade, tentando entender seu modelo. Está na hora de passar a tratá-la como mera curiosidade, devido ao estilo extravagante de seu prefeito Washington Quaquá, e passar a estudá-la como modelo de atuação de gestões progressistas.

Royalties como Alicerce de Transformação

Maricá é um dos principais beneficiários dos royalties da exploração de petróleo na Bacia de Campos. Em 2017, o município recebeu cerca de R$ 746,8 milhões. Para 2025, a projeção ultrapassa R$ 1,6 bilhão, com estimativas que apontam para mais de R$ 3 bilhões em um único ano. Essa receita, embora finita e sujeita às oscilações do mercado, tem sido utilizada como base para políticas públicas de alto impacto.

Economia Solidária: O Princípio Norteador

O ponto de virada ocorreu em 2013, quando Maricá adotou a Economia Solidária como eixo central de suas políticas. Inspirada em conceitos de autogestão, cooperação e desenvolvimento comunitário, essa abordagem busca redistribuir riqueza, fortalecer vínculos locais e combater a pobreza de forma estrutural. Em vez de seguir o modelo tradicional de crescimento, Maricá optou por uma lógica que prioriza o bem-estar coletivo e a circulação interna de recursos.

Mumbuca: A Moeda Social

Um dos pilares dessa transformação é a Mumbuca, moeda social criada em 2013 com paridade ao real. Gerida pelo Banco Mumbuca, ela é utilizada em programas de transferência de renda e no comércio local. Totalmente digital, a moeda já conta com mais de 130 mil correntistas e cerca de 13 mil estabelecimentos credenciados. Em 2025, foram estabelecidos limites de uso: R$ 800 por dia e R$ 2.000 por mês.

A Mumbuca não apenas movimenta a economia local, mas também se tornou referência internacional em políticas de economia solidária. Cerca de 20% da economia de Maricá já passa por essa moeda, consolidando-a como ferramenta de inclusão e resiliência.

Mobilidade Gratuita: Tarifa Zero como Direito

Desde 2014, Maricá oferece transporte público gratuito — uma política pioneira entre cidades brasileiras com mais de 100 mil habitantes. Com uma frota de 158 ônibus e 49 linhas, o sistema realiza 115 mil embarques diários. A economia direta para as famílias é estimada em R$ 16 milhões por mês. Além disso, a gratuidade ampliou o acesso a serviços essenciais, como saúde, especialmente nas regiões periféricas. Desde 2021, bicicletas públicas gratuitas complementam essa política de mobilidade.

Outras Frentes de Inclusão

O modelo de Maricá se estende a diversas áreas:

•           Microcrédito sem juros: apoio a pequenos empreendedores e estímulo à economia local.

•           Habitação popular: programas para reduzir o déficit habitacional e garantir moradia digna.

•           Agroecologia: hortas comunitárias e incentivo à agricultura sustentável.

•           Educação e tecnologia: investimentos estratégicos para garantir resiliência a longo prazo.

O fio condutor inicial são os valores que nortearão as políticas públicas. As iniciativas de políticas públicas se organizam em torno desses valores, organizando a adesão da população e da máquina pública.

Por isso mesmo, fariam bem a esquerda e os setores progressistas em acompanhar o que diz o prefeito de Maricá, Washington Quaquá.

Quaquá veio da favela. Até a adolescência, usava fossas e pescava para comer. Depois, ganhou uma bolsa de estudos do governo Brizola e pode estudar. Tornou-se um pensador popular, casando o conhecimento teórico com os valores que traz de sua origem como favelado e com uma enorme capacidade de análise empírica, isto é, de de observar, coletar, interpretar e tirar conclusões a partir de dados e fatos concretos.

No contato pessoal, faz questão de se conduzir fiel às suas raízes, no linguajar chulo e politicamente incorreto, capaz de chocar as rodas intelectuais e até de aplaudir o pavoroso massacre da Penha e do Morro do Alemão. É o que dificulta a visibilidade do modelo Maricá.

Mas, ao mesmo tempo, com uma objetividade que foi buscar nos clássicos da sociologia política aplicados à realidade do dia-a-dia da política.

Mesmo que o modelo de Maricá não seja replicável em termos financeiros, os valores e estratégias políticas que ele adota podem inspirar práticas em outros contextos. E podem ajudar na criação de um modo de governar da esquerda.

De certa forma, aliás, lembra o estilo Lula e os primeiros movimentos do “modo PT de governar”. Enquanto Lula representou a nova classe social, dos metalúrgicos sindicalizados, Quaquá simboliza o avanço de uma consciência social que emerge das favelas.

Sua lógica de governança obedece a princípios bastante claros.

1. O cidadão como centro da política pública

Premissa fundamental: toda política pública deve ter como alvo o cidadão. Essa orientação desloca o foco da gestão pública da burocracia para a efetividade social, exigindo que cada ação governamental seja mensurável em termos de impacto direto na vida das pessoas. É uma lógica que exige transparência, escuta ativa e compromisso com resultados concretos. Vale também para a discussão de projetos de neoindustrialização, direcionando o foco para o cidadão e para a organização das pequenas empresas, algo que falta nas atuais políticas de neoindustrialização.

2. Fortalecimento coletivo como estratégia de emancipação

Ao priorizar cooperativas e movimentos sociais em detrimento de iniciativas individuais, Quaquá aposta na organização popular como motor da transformação social. Essa escolha reflete uma crítica ao individualismo neoliberal, que fragmenta a ação coletiva e enfraquece a capacidade de mobilização. A educação, nesse contexto, aparece como ferramenta de empoderamento e construção de consciência crítica. Outro caminho é o investimento em empresas estratégicas, que no futuro irão operar como âncora de ecossistemas da pequena agricultura e das pequenas empresas.

3. Relação pragmática com o setor empresarial

A recomendação de evitar parcerias com pequenos empresários — sob o argumento de que tendem a migrar para a direita — é controversa, mas revela uma leitura estratégica das dinâmicas políticas. Ao optar por negociar com grandes empresários, Quaquá busca estabelecer relações baseadas em interesses objetivos, enquanto mantém os trabalhadores como aliados políticos. Essa abordagem exige cautela ética, mas pode ser eficaz na construção de alianças estáveis.

4. Adversários não são inimigos

A distinção entre adversário e inimigo é essencial para a manutenção da democracia e para a construção de pontes políticas. Quaquá defende uma postura que evita a radicalização do discurso, permitindo o diálogo e a convivência com a diferença — algo cada vez mais raro no cenário polarizado atual.

5. Rigor nos princípios, flexibilidade na política

Essa dualidade é uma das marcas mais sofisticadas da atuação de Quaquá. Ser intransigente nos valores e pragmático nas alianças permite navegar pelas complexidades da política sem perder os compromissos sociais. É uma lição valiosa para lideranças progressistas que, muitas vezes, se veem paralisadas por dilemas morais diante da necessidade de composição.

6. Comunicação popular e empática

Por fim, Quaquá enfatiza a importância de pensar como o povo pensa e comunicar-se em uma linguagem acessível. Essa postura rompe com o elitismo discursivo que ainda permeia parte da esquerda, aproximando o projeto político das demandas reais da população. É uma estratégia de construção de hegemonia cultural, nos moldes gramscianos, que reconhece o papel da linguagem na disputa de sentidos.

7. Simbologia nos valores culturais da nacionalidade

Elemento central de mobilização é o uso de elementos culturais e personagens simbólicos da nacionalidade e das esquerdas, como Darcy Ribeiro, Anisio Teixeira, Che Guevara, Oscar Niemayer. E dos elementos centrais da brasilidade: futebol, samba e caipirinha.

8. Investimento na pesquisa

Parceria com universidades, institutos de pesquisa e uso de ferramentas digitais de última geração, para preparar a próxima etapa de desenvolvimento.

9. Relevante: sem receio de ousar

Não tenha receio de ousar, ponto central para romper com uma inércia que imobilizou praticamente toda a esquerda. Maricá transformou-se em um caos criativo. E não apenas pelo orçamento turbinado, mas pela ousadia na formulação de políticas inovadoras.

Os princípios de Quaquá não são uma fórmula pronta, mas uma bússola estratégica. Eles convidam os setores progressistas a repensar suas práticas, suas alianças e sua forma de comunicar.

Em tempos de crise de representatividade, essa abordagem pode ser a chave para reconstruir a confiança popular na política.

A primeira etapa do experimento Maricá consistiu na montagem de uma rede de proteção social robusta. A segunda etapa foi preparar a cidade para o futuro. E, aí, valeu-se do mesmo modelo da inclusão: foco nas características da cidade e nas demandas da população.

Seguiu-se um modelo programático que tem trazido bons resultados, dentro do conceito das indústrias de bem estar – que começou a ser esboçado no segundo governo Lula e no primeiro Dilma, mas se perdeu no tempo.

É um todo lógico:

Etapa 1 – investe na educação, saúde, agricultura e transporte público, valendo-se de políticas criativas e no estado da arte. Recorre às pesquisas acadêmicas para dotar esses setores de avanços tecnológicos.

Etapa 2 – gera tecnologia, patentes para organizar arranjos produtivos que permitam o trabalho cooperado.

Etapa 3 – atrai empresas âncoras nas áreas com avanços tecnológicos, de modo a criar uma rede de fornecedores.

A estratégia consiste em trabalhar projetos tendo como foco central as características específicas da cidade, de sua população, preparando-a para a economia do futuro. E, aí, papel central é o da educação, tornando-a referência em política pública inclusiva e transformadora.

O modelo educacional

1. Estrutura e Expansão do CPT (Centro de Pesquisa e Tecnologia)

–   O CPT funciona como um campus, indo além de uma simples escola, oferecendo .integração com a comunidade, cursos de línguas para funcionários e moradores.

–   O projeto está em expansão: construção de observatório, teatro e cinema.

–   A utilização plena do espaço ocorrerá após a conclusão das obras, inclusive nos finais de semana.

2. Formação de Professores e Política de Educação Integral

–   Todos os professores são concursados e passam por formação continuada, promovida pela própria instituição.

–   Maricá mantém desde 2009 uma política municipal de tempo integral (PROBAT), tendo resistência e continuidade mesmo com cortes federais durante o governo Temer.

–   O CPT integra diversas secretarias (Agricultura, Pesca, etc.) para enriquecer o currículo escolar.

3. Rede de Escolas e Estrutura dos CIECs/SIEC

–   Maricá possui 85 escolas, das quais 42 funcionam em tempo integral.

–   CIECs/SIEC são Centros de Integração Escola-Comunidade, com infraestrutura diferenciada (piscina, horta, salas alternativas).

–   Crianças frequentam SIEC no contraturno, recebendo suporte de uma equipe multidisciplinar para questões sociais e pedagógicas.

4. Continuidade dos Estudos e Integração Estadual

–   Até o 9º ano, alunos permanecem na rede municipal; depois, integram a rede estadual para o ensino médio.

–   Em negociação com o Estado para oferecer ensino médio regular e contraturno integrados, com perspectiva de implementação já no próximo ano.

–   O município mantém o programa “passaporte universitário”, oferecendo bolsas para ensino superior, e “passaporte técnico” para formação técnica.

5. Ensino de Línguas e Liceus

–   Após o 9º ano, alunos podem continuar cursos de língua em Liceus, independentes da escola regular.

–   Oferta ampliada de idiomas, incluindo mandarim, francês e alemão, disponível para a comunidade por edital.

–   As vagas são distribuídas via sistema de matrícula inteligente, priorizando a proximidade da moradia, exceto nos cursos abertos.

6. Integração Escola-Família e Inclusão Social

–   A escola atua como porta de entrada para a sociabilização das famílias, com ações para engajamento familiar (SIEC aberto para famílias nos finais de semana; mães podem participar de cursos enquanto filhos fazem atividades).

–   Creche noturna (Corujinhas) facilita a participação de mães no ensino superior, com 250 crianças matriculadas, atendendo demanda principalmente feminina.

7. Parcerias Culturais

–   Parceria ativa com Sarau de Choro e outras atividades culturais, reforçando a integração comunitária.

Mercado global

Com o fortalecimento do programa Passaporte Universitário e a expansão de escolas bilíngues, a cidade aposta em uma estratégia ousada: preparar seus alunos para o mercado de trabalho local e global.

Mais de 50% dos estudantes formados pelo Passaporte Universitário já estão empregados em suas áreas de atuação, majoritariamente dentro do próprio município. A iniciativa tem contribuído para reduzir a dependência de profissionais de fora, ao mesmo tempo em que fortalece a economia local com mão de obra qualificada.

A prefeitura também investe em parcerias com consulados de países como China, França, Alemanha, Bolívia, Escócia, Austrália, Chile e Inglaterra. O objetivo é ampliar o ensino de línguas estrangeiras — incluindo o mandarim — por meio de professores capacitados e convênios internacionais. “Estamos formando cidadãos do mundo, sem que eles precisem sair da cidade para ter acesso a uma educação de qualidade”, afirma um gestor municipal.

Entre os projetos em andamento está a construção do CEPP Pepe Mojica, escola multicultural com capacidade para 3 mil alunos e foco em Brasil, China e Inglaterra. Com início previsto para dezembro de 2025, a unidade terá estrutura térrea e formato modular para acelerar as obras. A previsão é que esteja em funcionamento até meados de 2026.

A Alemanha, por sua vez, mantém uma parceria sólida com Maricá e financia a criação de um novo Centro de Referência em Profissionalização e Trabalho (CRPT Brasil-Alemanha), que deve atender 12 escolas articuladas. O projeto aguarda apenas a resolução judicial sobre os terrenos para iniciar a construção.

Além da formação acadêmica, o município aposta em estágios remunerados vinculados à Secretaria de Educação e campos de trabalho locais. Alterações legislativas estão sendo implementadas para garantir a sustentabilidade financeira dos projetos e sua continuidade a longo prazo.

Além disso, há duas escolas, uma com 80 alunos, outra com 120, com currículo diferenciado, voltada para idosos. Atividades não ficam restritas ao ambiente escolar; incluem socialização, conversas e passeios pela cidade.

Avaliação

O Relatório de Impacto Social e Educacional, preparado periodicamente, avalia o impacto social do Passaporte Universitário, bem como o perfil dos beneficiados. A análise contempla dados de empregabilidade, experiências pessoais, ações complementares e indicadores educacionais do município de Maricá.

Empregabilidade e Formação Local

•           Mais de 50% dos formados pelo programa estão empregados em suas áreas de atuação, majoritariamente dentro de Maricá.

•           Houve redução da necessidade de importar profissionais de outros municípios, especialmente após a consolidação das instituições de ensino superior locais.

•           Destaques na formação de engenheiros, psicólogos, advogados e outros profissionais, que hoje atuam diretamente na cidade.

Ajuste na Oferta de Cursos

•           Estão em andamento ajustes nos cursos ofertados para equilibrar a formação acadêmica com a demanda real do mercado local.

O município de Maricá tem se destacado no cenário da saúde pública brasileira com um modelo considerado avançado e de referência. No centro dessa transformação está o Hospital Municipal Dr. Ernesto Che Guevara, localizado em São José do Imbassaí, que representa não apenas uma unidade hospitalar de alta complexidade, mas o embrião de um ambicioso projeto: a Cidade da Saúde Dr. Ernesto Che Guevara.

Inaugurado em 2020 em resposta à pandemia de Covid-19, o Hospital Che Guevara rapidamente evoluiu para diversas especialidades médicas. Diferentemente da maioria dos hospitais públicos, a unidade não atende demanda espontânea. Todos os pacientes são regulados pela Central de Regulação municipal, chegando ao hospital por meio de ambulâncias, helicópteros ou referenciamento de outras unidades de saúde.

Essa estratégia permite um planejamento mais eficiente dos recursos e garante que os pacientes recebam atendimento especializado de acordo com suas necessidades específicas.

Especialidades e serviços de ponta

Atualmente, o Hospital Che Guevara oferece cirurgias de diversas especialidades, atendimento ao trauma referenciado, prevenção e tratamento de câncer de pele, cirurgia bariátrica, oftalmologia, proctologia, além de procedimentos como endoscopia e colonoscopia. O hospital também conta com um centro de imagem de última geração, equipado com tecnologia diagnóstica avançada.

Esse portfólio diversificado de serviços já posiciona Maricá como um polo de atração para pacientes da região, reduzindo a necessidade de deslocamento para grandes centros urbanos em busca de tratamentos especializados.

A Cidade da Saúde

As obras em andamento no complexo hospitalar integram o futuro projeto da Cidade da Saúde Dr. Ernesto Che Guevara. Com previsão de entrega de alguns setores até o final de 2025, a expansão trará serviços de alta complexidade que atualmente são escassos em muitos municípios brasileiros.

Entre os novos serviços destacam-se a hemodiálise, que substituirá a função renal para pacientes com insuficiência renal crônica, e a hemodinâmica, voltada para tratamentos cardiovasculares avançados. A estrutura cirúrgica será significativamente ampliada, com mais salas de operação e aumento do centro cirúrgico, além da construção de leitos adicionais de enfermaria cirúrgica.

Um dos destaques da expansão é a implantação de uma enfermaria coronariana e de um CTI cardiológico (Centro de Terapia Intensiva Cardiológico), que permitirão o atendimento integral a pacientes cardíacos graves sem necessidade de transferência para outros municípios. O centro de imagem também será ampliado, e um novo prédio administrativo será construído para melhorar a gestão da unidade.

Visão de futuro: especialização e inovação

O projeto integral da Cidade da Saúde vai além da expansão atual. Estão previstos a criação do Hospital da Mulher, do Hospital da Criança e de uma maternidade, configurando um complexo de saúde completo e especializado. Um dos elementos mais inovadores do planejamento é a futura oncoclínica, que operará sob um modelo de gestão mista, com 75% de participação pública e 25% privada, buscando sustentabilidade econômica sem comprometer o acesso universal.

A incorporação de tecnologias de ponta é outro pilar do projeto. Estão planejadas a implementação de cirurgia robótica, a expansão da telemedicina com 11 kits de teleconsulta conquistados via Novo PAC, e a oferta de serviços de medicina nuclear. Esta última permitirá diagnósticos precisos e individualizados por meio da análise de DNA, possibilitando a identificação precoce de predisposições genéticas a diversas doenças.

Integração entre assistência, ensino e pesquisa

Um diferencial estratégico do modelo de Maricá é a intenção de transformar progressivamente o Hospital Che Guevara em um espaço de ensino, pesquisa e prática profissional. Estudantes da área da saúde do município, incluindo beneficiários do Programa Passaporte Universitário, terão oportunidade de formação prática em um ambiente de excelência.

Essa visão é reforçada pela parceria entre o Instituto de Ciência, Tecnologia e Inovação de Maricá (ICTIM) e a UFRJ para desenvolver projetos de pesquisa científica em saúde. O acordo prevê avaliação de incorporação tecnológica no SUS, desenvolvimento de novos testes diagnósticos, medicamentos, vacinas e estratégias de tratamento, além de um plano de capacitação em pesquisa focado em inovações para a saúde humana.

Complementando esse ecossistema de inovação, o Parque Tecnológico de Maricá contará com espaço dedicado a empresas e instituições focadas no desenvolvimento de equipamentos para a saúde, criando um ambiente propício para a geração de soluções tecnológicas locais.

Um modelo replicável?

O caso de Maricá demonstra que é possível construir um sistema de saúde público municipal robusto, tecnologicamente avançado e financeiramente sustentável. A combinação de investimento em infraestrutura, adoção de tecnologias de ponta, gestão eficiente por meio de regulação centralizada e integração com ensino e pesquisa configura um modelo que pode inspirar outros municípios brasileiros.

Com a conclusão das obras previstas e a implementação integral do projeto, Maricá pode se consolidar como referência nacional em saúde pública, demonstrando que investimento estratégico, planejamento de longo prazo e inovação são os pilares para transformar a realidade da saúde nos municípios brasileiros.

Em meio a um cenário nacional marcado por incertezas econômicas e desafios sociais, Maricá emerge como um laboratório vivo de inovação territorial. Sob a liderança do prefeito Quaquá e com coordenação estratégica de Celso Pansera — ex-Ministro da Ciência e Tecnologia — a cidade constrói um modelo de desenvolvimento que coloca as pessoas no centro da transformação e busca na pesquisa científica a passagem para o futuro.

CODEMAR: A Engrenagem da Revolução

A Companhia de Desenvolvimento de Maricá (CODEMAR) é o motor por trás dessa virada. Com foco em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PDI), a empresa pública atua em frentes que vão da agroecologia à infraestrutura tecnológica, passando por turismo, energia limpa e economia criativa.

Um dos projetos emblemáticos é o Inova Agroecologia Maricá, desenvolvido em parceria com a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). A iniciativa capacita agricultores — muitos deles “neo-rurais” — e promove a produção sustentável com alto valor agregado, como cogumelos medicinais, cosméticos naturais, cachaças artesanais e chocolates com identidade territorial.

Parque Tecnológico: O Coração da Nova Indústria

Em construção no bairro de Ubatiba, o Parque Tecnológico de Maricá é o epicentro da nova economia local. Idealizado pela CODEMAR e gerido pelo Instituto de Ciência, Tecnologia e Inovação de Maricá (ICTIM), o parque reúne universidades, empresas, startups e investidores em um ecossistema vibrante.

Entre suas estruturas estão:

    • Torres Triplas: edifícios sustentáveis para empresas de todos os portes
    • Parque Voltaico: complexo com mais de 7 mil painéis solares
    • MicroETE: estação de tratamento de esgoto com bioinsumos
    • Galpão Tecnológico (Inoã): incubadora de startups, Maricá Games Hub e Escola de Startup

Compras Públicas como Vetor de Inovação

Maricá adota o Marco Legal da Inovação, sancionado em 2016, que permite a aquisição de soluções inovadoras sem os trâmites tradicionais de licitação. O CETIM (Centro de Referência em Inovação) se destaca como modelo pioneiro de compras públicas para inovação, atraindo o interesse de grandes empresas como a Petrobras.

Produtos com DNA Maricaense

Com apoio da CODEMAR e da UFRRJ, a cidade desenvolve produtos inovadores por meio de encomendas tecnológicas (INTECs), como:

    • Macarrão de farinha de aipim e banana desidratada
    • Cachaças com mel e chocolates artesanais
    • Café torrado e encapsulado localmente
    • Pescados filetados com alto valor agregado
    • Equipamentos médicos como respiradores não-invasivos e vidros laringoscópicos

Fundo Soberano: Financiamento com Retorno Social

Inspirado em modelos chineses, o Fundo Soberano Municipal permite que o poder público participe com até 49% das empresas geradas, reinvestindo os lucros em novos projetos. O ciclo inclui investimento em P&D, desenvolvimento de produto, criação de empresa e reintegração dos lucros ao fundo.

O próximo investimento será em uma fábrica de aeronaves menores, com engenheiros egressos da Embraer, e encomendas garantidas pela Aueronáutica.

Mobilidade e Infraestrutura de Futuro

Maricá também investe em mobilidade urbana com tecnologias limpas:

    • Ônibus movidos a hidrogênio e etanol
    • Trem de levitação magnética, com tecnologia da China e Irlanda, e potencial para abastecer grandes metrópoles

Aeroporto e Turismo Sustentável

O projeto de ampliação do aeroporto local prevê operações de carga e voos internacionais, com 94% da área preservada como reserva ambiental. A expectativa é receber até 350 mil turistas por ano, com conexão direta ao projeto Maraí.

Hotelaria e Corredor de Negócios

Com investimentos previstos de R$ 4 bilhões, Maricá deve receber ao menos quatro grandes hotéis, incluindo marcas internacionais como Marriott. O objetivo é consolidar um corredor turístico e de negócios, gerando oportunidades para empresas locais.

Integração de Políticas Públicas

A estratégia de Maricá integra setores como educação, saúde, assistência social, agricultura e desenvolvimento econômico. Os resultados esperados incluem:

Vindo da favela, o prefeito Washington Quaquá considera a segurança pública parte essencial em uma política pública.

A Guarda Municipal de Maricá passou por uma profunda reestruturação. Antes marcada por desvalorização e interferência política, a corporação adotou uma gestão técnica voltada para resultados. A substituição de cargos políticos por operadores de segurança pública e o engajamento dos agentes em políticas específicas para o município.

Indicadores de Segurança em Queda

Desde 2017, os índices criminais vêm caindo significativamente, mesmo com o crescimento populacional acelerado — de 14 mil habitantes em 2002 para cerca de 230 mil em 2025. Destaques incluem:

•           Redução de roubos de veículos: de 277 casos em 2017 para 44 em 2025.

•           Quase eliminação de roubos de carga.

•           Homicídios pontuais e sem registro de latrocínios.

•           Tempo médio de atendimento caiu de 45 minutos (190 estadual) para 15 minutos (Disque-CEOB 153 municipal).

Modernização e Expansão do Efetivo

A partir de 2019, o efetivo da Guarda Municipal quase triplicou. Houve investimentos em viaturas, rádios, armas de menor potencial ofensivo e regime adicional de serviço. O município também firmou acordos com a Polícia Militar (PROEIS), permitindo a contratação diária de até 240 PMs. Atualmente, cerca de 160 agentes patrulham simultaneamente os quatro distritos da cidade.

Tecnologia e Integração Institucional

Maricá conta com cerca de 3 mil câmeras espalhadas pela cidade, com reconhecimento facial e de placas veiculares. Todos os acessos são monitorados, gerando alertas automáticos. A integração com a Polícia Militar, Polícia Civil e, futuramente, com a Polícia Federal, fortalece as operações conjuntas. A Patrulha Maria da Penha também desempenha papel essencial no combate à violência doméstica.

Processo de Armamento da Guarda

A gestão atual determinou o armamento completo da Guarda Municipal, com aprovação legislativa e autorização do Exército. O processo inclui:

•           Exames psicológicos e táticos credenciados pela Polícia Federal.

•           Formação especializada com previsão de treinamento junto ao BOPE.

•           Implantação de política de tolerância zero contra ocupação criminosa.

•           Contratação de câmeras corporais e coletes balísticos.

•           Requalificação anual obrigatória (mínimo de 80 horas), conforme normativa federal.

A distribuição dos armamentos será criteriosa, com redirecionamento de agentes não qualificados para funções administrativas.

Estratégias Complementares e Desafios

A cidade investe na expansão de viaturas e contêineres de segurança, com 10 módulos, 35 veículos e 20 motos em operação. O monitoramento contínuo dos índices orienta a alocação de recursos em áreas sensíveis. A atuação em regiões críticas será intensificada com apoio da PM.

Itens de Ação e Acompanhamento

Entre os próximos passos estão:

•           Conclusão dos exames e treinamentos para armamento.

•           Formalização da parceria com a Polícia Federal.

•           Implantação de portais de segurança nos acessos principais.

•           Atualização da carreira da Guarda Municipal.

•           Operações em áreas com presença criminal pontual.

•           Expansão da rede de câmeras e integração de novas tecnologias.

Um dos elementos centrais do modelo Maricá é o uso de elementos culturais representativos do chamado pensamento progressista e dos fatores de brasilidade. Aliás, um dos elementos centrais para a construção de um projeto de país, segundo Celso Furtado.

O hospital local tem o nome de Che Guevara e, em suas instalações, crianças recebem bonequinhos supostamente baseados na figura de Che – embora lembrem mais Mario Bro.

As políticas culturais incluem a valorização de personagens históricos e ícones nacionais, como Darcy Ribeiro, Maísa, Beth Carvalo, João Saldanha e Oscar Niemeyer. Há um projeto para adquirir e transformar a fazenda da família Niemeyer em um espaço artístico-cultural semelhante ao Inhotim.

A cidade planeja a criação de museus multimídia e de imersão no pensamento de Darcy Ribeiro, além da integração de itinerários históricos e culturais, como o “Caminho de Darwin”, que foi apresentado em feiras internacionais. Trata-se de uma  rota turística e ecológica no Rio de Janeiro que reconstruiu parte da trajetória percorrida pelo naturalista Charles Darwin em 1832, conectando Niterói e Maricá.

A aproximação e articulação com especialistas renomados, como Gringo Cardia, também fazem parte dessa estratégia.

Outras iniciativas culturais em andamento incluem:

*   A criação da Escola Latinoamericana de Cinema.

*   A concepção do Parque do Folclore Brasileiro, sob a direção de Sérgio Dias, com o objetivo de transformar heróis do folclore como Saci e Cuca em ícones para educação e entretenimento.

*   Investimento em produções audiovisuais nacionais, como o filme sobre os Malês, que recebeu R$ 3 milhões em investimento.

*   Apoio a grandes iniciativas culturais locais, como o Natal com carnavalização e produções artísticas.

*   A criação de um complexo de samba, futebol e caipirinha, que inclui um hotel resort com temática brasileira, uma quadra de escola de samba e uma mini passarela para eventos.

*   A instalação de uma azulejaria personalizada de Maricá, inspirada em artistas plásticos locais.

*   A ampliação da estrutura cultural com museus, como o Museu da Maré, a Casa Darcy Ribeiro (com um anexo que pode ser o maior acervo sobre povos originários no Brasil), e casas de personalidades como Bete Carvalho, Maísa e João Saldanha.

A casa Darcy Ribeiro

Um projeto de museu imersivo sobre Darcy Ribeiro, com curadoria de Gringo Cardia, que mescla pensamento, história, hip hop e vídeo.

O espaço cultural é visto como uma “sala do pensamento”, onde as pessoas podem escolher temas e descobrir histórias, refletindo a visão de Darcy Ribeiro sobre a miscigenação e o pluralismo cultural brasileiro.

Há também uma forte preocupação com a acessibilidade, especialmente para deficientes visuais, utilizando maletas sensoriais, defumadores, trigo para toque, maquetes táteis e tecnologia para criar experiências autônomas e inclusivas. A intenção é sistematizar essas práticas para outros museus.

A juventude é engajada através de atividades educativas, como batalhas de rima (rap), focadas na troca de conhecimento e não na competição, com temas educativos como o Setembro Amarelo. Há uma reflexão sobre gênero e representatividade nas culturas urbanas, evidenciando as dificuldades de visibilidade das mulheres no rap.

O mirante

O projeto do Mirante, Anfiteatro e Galeria, em fase final de acabamento, prevê um anfiteatro para encontros, concertos e eventos. Há ideias para encontros de músicos nacionais e locais, buscando fusões musicais inovadoras, e a criação da Orquestra dos BRICS, em colaboração com André Abujamra, com músicos de 21 países parceiros.

Abaixo do mirante, uma grande galeria está sendo planejada para abrigar uma exposição de longa duração do fotógrafo Sebastião Salgado. Futuramente, um Museu Sebastião Salgado será instalado em uma das obras de Oscar Niemeyer (“a pomba”), com acervo permanente e uma escola de fotografia.

Especial Terras Raras: um debate sobre o potencial do Brasil

Um debate sobre o potencial do Brasil em terras raras, elementos químicos cruciais para o desenvolvimento tecnológico e a geopolítica mundial. Este foi o tema do programa do Projeto Brasil no Youtube desta semana, que foi ao ar nesta quinta-feira (23) e contou com a participação de especialistas que estão na linha de frente da pesquisa e do desenvolvimento industrial em torno das terras raras, insumos estratégicos para a transição energética e para a reindustrialização do país.

Na mesa mediada por Sergio Leo, foram convidados Fernando Landgraf, professor titular da Escola Politécnica da USP, doutor em ímãs de terras raras e coordenador do INCT Terras Raras entre 2018 e 2024; Luiz Gonzaga Trabasso, engenheiro mecânico e pesquisador-chefe do Instituto Senai de Inovação em Sistemas de Manufatura e Processamento a Laser, em Joinville (SC), além de coordenador do projeto MagBras, voltado à consolidação da cadeia produtiva nacional de ímãs permanentes; Edinei Koester, geólogo e professor titular do Instituto de Geociências da UFRGS, e Marcelo Barcellos da Rosa, químico e professor associado da UFSM, coordenador do LAQUIF e do projeto CNPq sobre a geoquímica de elementos terras raras na região central do Rio Grande do Sul.

A exploração e industrialização de terras raras no Brasil configuram um tema de extrema relevância geopolítica e econômica para o desenvolvimento nacional. O Brasil possui reservas minerais potencialmente classificadas como a segunda ou terceira maior do mundo, com novos achados de alta concentração no Rio Grande do Sul (como em Caçapava do Sul e Santa Maria) confirmando este potencial.

Os especialistas discutiram os avanços científicos, os desafios industriais e a importância desses minérios para a produção de super ímãs usados em diversas aplicações, como motores elétricos e veículos, destacando o domínio global da China no setor e como o Brasil começa a se destacar nesse campo e a atrair atenção internacional.

O professor Fernando Landgraf focou na dimensão geopolítica e nos desafios estratégicos da produção e discutiu a dependência global da China, que detém mais de 90% da oferta de super ímãs. Como especialista, ele reforçou que o ponto crítico na cadeia produtiva é a etapa de separação (refino) dos elementos de terras raras e explicou que sem essa estrutura no Brasil, o país não conseguirá produzir ímãs, pois não seria viável importar neodímio refinado da Chin.

Landgraf alertou que, embora o Brasil tenha grandes reservas, o jogo global é competitivo, pois o mundo inteiro está desenvolvendo projetos de terras raras, mas confirmou que o país tem potencial e mentes brasileiras por trás, citando a UFSC e a USP, e que egressos brasileiros estão trabalhando em Lagoa Santa e até mesmo em fábricas de ímãs na Europa.

Luís Gonzaga Trabasso, por sua vez, apontou caminhos com o projeto brasileiro MAGBRAS, que busca estabelecer um ciclo completo de produção de ímãs permanentes de terras raras no país, desde a mineração até a reciclagem, com o apoio do setor automotivo e diversas parcerias industriais e acadêmicas. Já em andamento, o objetivo central do projeto, segundo ele, é “dominar o ciclo completo” – desde a mina até o ímã pronto e sua reciclagem – e evitar que as mineradoras exportem o material como commodity.

Ele explicou que o MAGBRAS interliga plantas piloto existentes, como a de separação no CTEM (Rio de Janeiro) e a de redução no IPT (São Paulo). O projeto envolve 12 mineradoras, além de usuários finais como Weg e montadoras (Iveco, Stellantis) e confirmou que há mais parceiros estratégicos de olho, como a Alemanha, que é o país que tem demonstrado maior interesse em transformar a pesquisa em oportunidade de negócios no Brasil.

O geólogo Ednei Queiroz (UFRGS) abordou a prospecção geológica de novas reservas no Sul do país e a viabilidade da exploração. Ele narrou que seu grupo de pesquisa (UFRGS, UFSM, Unipampa) fez achados de rochas com alta concentração de terras raras na região central do Rio Grande do Sul, nas áreas de Caçapava do Sul e Santa Maria (carbonatito Picada dos Tocos e Passo Feio).

Sobre as preocupações ambientais, Queiroz defendeu que tudo pode ser explorado e tudo tem remediação ambiental, desde que seja realizado com cuidado, acompanhamento constante e que todos os atores trabalhem em conjunto. Mencionou o desafio de conciliar a demanda crescente por minerais críticos (devido à tecnologia limpa, como carros elétricos) com a necessidade de responsabilidade ambiental.

Marcelo Barcelos da Rosa (UFSM) detalhou os métodos de pesquisa interdisciplinar utilizados no Sul, com químicos, biólogos, geólogos e engenheiros de Minas, e os desafios ambientais e tecnológicos do beneficiamento (separação dos minérios). Explicou a técnica de Bioprospecção Sustentável, que utiliza a bioprospecção monitorando plantas “ultraabsorvedoras” de terras raras, o que é considerado uma abordagem mais ambientalmente amigável para prospecção.

Ele contou que o grupo já desenvolveu metodologias para a separação dos terras raras em nível de bancada (laboratórios), mas a transição para a escala piloto não é linear, e que há interesse e conversas abertas com entidades internacionais, incluindo doutorandos de Harvard, e empresas que procuram a nanotecnologia desenvolvida no laboratório para auxiliar na extração.

A conclusão principal que emerge da discussão é que o Brasil está em uma corrida estratégica para dominar o ciclo completo de produção, que abrange desde a extração (mina) até o ímã pronto, e a sua posterior reciclagem. O dilema central é evitar a exportação de minérios como commodities, agregando valor ao produto. Para isso, o ponto crítico inegociável é o desenvolvimento da capacidade de separação (refino) dos elementos de terras raras, pois sem essa instalação, a produção de ímãs brasileiros não é viável. O grupo também expôs as parcerias internacionais (com Europa e Japão sendo potenciais colaboradores) e a sustentabilidade ambiental da exploração desses recursos.

Seminário Inovação, Soberania e Desafios Nacionais: pensando um Projeto Nacional de Desenvolvimento

Evento do Projeto Brasil e de grupo de pesquisa GPCEIS ligado à Fiocruz trouxe nomes renomados de setores estratégicos para debater o desenvolvimento do país

Patricia Faermann

O desenvolvimento soberano e estrutural do Brasil requer a implementação de políticas públicas ousadas e inovadoras, ancoradas em uma visão integrada que articule o econômico, a inovação, o social e o ambiental. Este foi o mote do Seminário “Inovação, Soberania e Desafios Nacionais”, promovido pelo Projeto Brasil e o grupo de pesquisa Desenvolvimento Sustentável, CT&I e Complexo Econômico-Industrial da Saúde (GPCEIS) do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE-Fiocruz/Ministério da Saúde), com o apoio da FESPSP, nesta quinta-feira (30).

O encontro de alto nível, comandado por Luís Nassif e Carlos Gadelha, reuniu um time de especialistas de setores estratégicos, em uma discussão profunda sobre as urgências, desafios e caminhos que o país precisa enfrentar para a continuidade do desenvolvimento. Nas diversas áreas (Saúde, Educação, Meio Ambiente, Defesa, Macroeconomia e Políticas Públicas em geral), os expoentes apresentaram a proposta de um novo Projeto Nacional de Desenvolvimento para o Brasil, enfatizando a superação do neoliberalismo e a fragmentação das políticas públicas.

Na mesa, ao lado de Nassif e Gadelha, líder do grupo de pesquisa da Fiocruz, estiveram presentes o cientista climático e referência em sustentabilidade Carlos Nobre, o presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE) do MEC César Callegari, a coordenadora da Comissão Interministerial de Contratações Públicas do Ministério de Gestão e Inovação, Gabriela Maretto, o coordenador de pesquisas em Defesa e especialista aeroespacial Marcos Barbieri, e o economista professor da PUC-SP e membro da Comissão de Assuntos Estratégicos do BNDES, Antônio Lacerda.

As apresentações destacaram a importância de políticas industriais ousadas e estruturais, como o Complexo Econômico Industrial da Saúde, o avanço na soberania tecnológica e digital, e a valorização da biodiversidade e da educação como pilares para um crescimento inclusivo e sustentável, ressaltando a constante disputa política em torno da alocação de recursos e do papel do Estado. Eles sugeriram um conjunto de estratégias políticas e econômicas focadas na mudança estrutural, a soberania tecnológica e no uso estratégico da capacidade estatal.

“A nossa boa suspeita é que para um provável quarto governo Lula vão ter que ser pensadas as grandes políticas públicas do país, introduziu o jornalista Luís Nassif. “A perspectiva foi discutir e propor caminhos para um projeto nacional de desenvolvimento no qual os desafios do bem-estar, da sustentabilidade e da soberania passam a guiar a inovação e a transformação produtiva como novos vetores de uma nova estratégia para o Brasil”, disse Gadelha.

Na convergência das diferentes áreas, os especialistas apontaram que o Projeto Nacional de Desenvolvimento para o Brasil deve apontar estratégias que envolvem política industrial e inovação para a soberania; desenvolvimento sustentável e ambiental; investimentos em educação e capacitação; coordenação estatal e financiamento; e soberania digital.

Nassif referenciou o complexo industrial da saúde como “o melhor modelo de política industrial que nós tivemos ao longo dos tempos“. “A grande vantagem do processo produtivo do sistema da saúde foi juntar elementos que já existiam: poder de compra do Estado em uma negociação para transferência de tecnologia, defendeu.

Neste eixo de Política Industrial e Inovação, Carlos Gadelha afirmou a importância de se ter uma orientação aos desafios nacionais e a estrutura produtiva do país, como motor da agenda que impulsiona o PIB e o emprego no Brasil.

Ainda, alertou para a identificação de Complexos Econômicos críticos, capazes de mudar o padrão de desenvolvimento e ter como referência o modelo do Complexo Econômico Industrial da Saúde (CEIS), que inspira uma estratégia nacional ao utilizar o poder de compra do Estado (do SUS) para desenvolver produtos e inovações, articular instituições públicas de ciência e tecnologia (Butantã, Fiocruz) com empresas privadas para transferência de tecnologia, e garantir que a tecnologia desenvolvida fique sob a propriedade de laboratórios públicos, licenciando-a a privados, para evitar a desnacionalização

“Trabalhamos na perspectiva de que a visão e a estratégia concebida para o Complexo da Saúde, vinculadas a um SUS soberano, inspire uma nova política nacional, inovadora, dinâmica e comprometida com as demandas da sociedade”, afirmou.

No eixo de Defesa, o especialista aeroespacial Marcos Barbieri narrou como a indpustria da Defesa é intrinsecamente ligada à inovação e à supremacia tecnológica, a exemplo dos gastos militares que buscam superioridade tecnológica e não dependem primariamente de viabilidade econômica. “A supremacia econômica tem como base a supremacia tecnológica, expôs.

Barbieri defendeu que o Brasil precisa definir sua estrutura de Defesa que inclua o monitoramento, mobilidade, presença, e identificar as tecnologias críticas que deve dominar, a exemplo de satélites, veículos lançadores e os sistemas de comunicação tática.

O especialista também afirmou que é necessário reestruturar a aquisição de equipamentos militares, separando a área operacional da aquisição e desenvolvimento de tecnologias críticas dentro do Ministério da Defesa, para garantir que as necessidades sejam supridas por tecnologias sob domínio nacional.

E usou como exemplo as empresas estratégicas como a Embraer (que possui inserção ativa no mercado global de alta tecnologia) e a Avibras (fundamental nos setores de foguetes e espacial), que precisam de demanda regular e apoio estrutural.

Entre as estratégias de desenvolvimento ambiental, o climatologista Carlos Nobre expôs a necessidade de se alcançar uma transição ecológica justa, como como frente de expansão para o crescimento do país. Para isso, disse, é necessário integrar o pensamento ambiental nas decisões de investimento, não se limitando a políticas compensatórias.

O cientista lembrou que o Brasil possui a maior biodiversidade do mundo, e que a estratégia nacional deve envolver a criação de uma sociobioeconomia (o que significa a economia de floresta em pé), dando escala aos produtos da biodiversidade e integrando o conhecimento científico nacional com o saber dos povos indígenas e comunidades locais.

“Quanto dos produtos da maior biodiversidade do mundo a nossa economia utiliza? Nós fizemos um estudo que é realmente desapontador: do PIB brasileiro, só 0,4% vem dos produtos da nossa biodiversidade. Mandioca, açaí, cacau, castanha, abacaxi, mamão, etc. Já a carne bovina – principal fator do desmatamento de todos os nossos biomas representa 6% do PIB. Quer dizer, 15 vezes mais do que todos os produtos da nossa biodiversidade. Isso é para mostrar para vocês o desafio que nós temos.”

Com exclusividade ao evento, Nobre contou sobre um estudo que será apresentado no dia 5 de novembro, no Rio de Janeiro, pela Academia Brasileira de Ciências, no qual os cientistas ambientais revelam que “o Brasil tem potencial para zerar as emissões líquidas até 2040”, mas “requer o fim total do desmatamento e uma transição rápida para a agricultura e pecuária regenerativa”.

Em Educação, Cesar Callegari afirmou a necessidade de uma base educacional sólida como ferramenta direta para o desenvolvimento do país. “Só haverá soberania num país como o Brasil se nós tivermos uma base educacional absolutamente sólida. Nós temos que buscar saldar o enorme déficit de dívidas educacionais e sociais que o Brasil acumulou durante séculos, pontuou.

Entre as estratégias para este longo caminho, o consultor educacional e presidente do CNE apontou a reversão do Déficit Educacional e a reestruturação da Carreira e Formação Docente, tendo como principal desafio estratégico formar uma nova geração de professores.

“Nós estamos desafiados a formar uma nova geração de professores no Brasil. Esse é o nosso principal desafio estratégico. Se quisermos garantir educação de qualidade, não há outra forma de fazer.”

No setor de Compras Públicas, Carlos Gadelha e Gabriela Maretto afirmaram que o mercado interno deve ser usado como parte do patrimônio nacional para gerar autonomia tecnológica, o que já é um princípio constitucional do país, e que as compras públicas, que representam cerca de 16% do PIB, são um instrumento transversal e estratégico, servindo como o elo entre os desafios nacionais e as políticas de desenvolvimento.

“Compras é um elo – e um instrumento transversal – entre esses desafios nacionais e os programas e políticas de desenvolvimento“, resumiu a coordenadora no MGI, Gabriela Maretto. “É muito importante também nessa discussão de projeto de desafio e demanda nacional ter o uso do poder de compra, que a gente está falando de mais ou menos de 16% do PIB. Inclusive, esse é outra outro projeto liderado pela ministra Esther Dweck: o uso do poder de compra para impulsionar as políticas de desenvolvimento.”

Maretto reafirmou a importância de o Estado usar a margem de preferência para compras e o poder de compra em projetos de infraestrutura, como ocorre no PAC, garantindo o conteúdo nacional.

Ainda nas políticas de financiamento e desafios macroeconômicos, o economista e professor da PUC-SP, Antonio Lacerda, afirmou que a trajetória do país é dificultada por um modelo de “política monetária e fiscal cujo único objetivo é garantir o livre fluxo de capitais improdutivos“. Lacerda também pontuou que o regime de metas de inflação “monopoliza a política macroeconômica” em torno da taxa de juros. “Aqui nós estamos com uma discussão rica e rara, que você vai ver em poucos lugares”, elogiou.

Ao analisar a importância de se traçar estratégias conjuntas de diferentes setores em uma mesma mesa, o economista e co-realizador do evento, Carlos Gadelha, destacou que “a sociedade exige uma ação transversal”.

“Quando a sociedade tem problemas ela exige uma ação transversal. Eu não posso tratar o problema da sociedade se eu não articulo inovação, bem-estar, sustentabilidade ambiental dentro de uma mesma estratégia. Isso envolve uma nova geração de políticas públicas, um Estado comprometido com desafios nacionais e uma articulação virtuosa e não predatória entre o Estado e o setor privado, expôs.

Para Gabriela Maretto, a necessária discussão do grupo foi o reconhecimento da economia política para as estratégias do país e da nossa capacidade de sonhar por melhorias. “Todos nós estamos trazendo aqui nesse debate, nessa troca, a economia política, nesse sentido de reconhecer o papel da economia política. Não tem como falar de projetos estruturante sem falar de economia política, não é um tecnicismo isso, não. Mas, ao mesmo tempo, eu gosto de pensar que a gente não pode perder a capacidade de sonhar.”

 

A íntegra do Seminário está disponível no canal da TVGGN no Youtube, confira:

Datacenters: a necessária discussão sob os impactos e prisma social

Silvia Portela 

Datacenters: a necessária discussão  

O texto que trazemos hoje foge, aparentemente, do foco principal de nossas discussões. Entretanto, o debate sobre a importação de datacenters para o Brasil além de muito atual, tem grandes implicações para as pessoas e as comunidades. Esta necessária discussão sobre, na prática, a transferência de degradação ambiental está sendo muito mais encarada sobre o prisma econômico, e muito pouco pelo prisma social. 

Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais, vinculado ao Instituto Lavoro traduziu este texto do blog Naked Capitalism, que transcreve texto de Jomo Kwame Sundaram, ex-secretário-geral adjunto da ONU para o Desenvolvimento Econômico, publicado em seu blog pessoal. Mantivemos a introdução de Yves Smith do blog, porque muito pertinente. Yves Smith e o pseudônimo de uma importante economista, a primeira a prever a crise de 2008.  

 

Revolta contra os data centers se espalha pelo mundo

Parece que cidadãos de outros países não concordam com o esquema Big Tech de terceirizar os custos ambientais e de energia adicionais dos datacenters para o que é indelicadamente chamado de terceiro mundo. Além disso, acho notável que o data center (DC), como na IA, novas demandas de energia estejam sendo impostas a todos os clientes. Aqueles que exigem energia incremental e de maior custo devem pagar mais. Mas, em vez disso, a população em geral está subsidiando a IA, tanto por meio desses custos de energia quanto suportando o custo de poluição adicional.  

É certo que os cidadãos das economias avançadas têm resistido o suficiente para levar os senhores da tecnologia a procurarem outras vítimas, partindo do pressuposto de Larry Summers de que os países mais pobres concordarão em aceitar a versão de geração de energia das barcaças de lixo. Mas Jomo abaixo discute quantos, senão a maioria, estão bem cientes desse jogo de poder neocolonial e não estão a bordo. (Introducao de Yves Smith, publicada em 29 de outubro de 2025). 

Jomo Kwame Sundaram, ex-secretário-geral adjunto da ONU para o Desenvolvimento Econômico. Publicado originalmente no site da Jomo  

Os data centers estão se proliferando rapidamente, impulsionados pela popularidade da inteligência artificial.  

Para quem servem os data centers?  

O boom da IA já superou outros usos da “nuvem” e impulsiona o rápido crescimento dos data centers (DCs), impondo demandas de recursos em rápida expansão. Isso desencadeou uma reação pública bipartidária nos EUA devido ao maior uso de energia, água e terra, bem como ao aumento dos preços.  

Em outubro de 2024, a McKinsey projetou que a demanda global de energia pelos DCs aumentaria entre 19% e 22% ao ano até 2030, atingindo uma demanda anual entre 171 e 219 gigawatts. Isso excede em muito a “demanda atual de 60 GW”. “Para evitar um déficit [de oferta], pelo menos o dobro da capacidade [DC] construída desde 2000 teria que ser construída em menos de um quarto do tempo”!  

Como as empresas de tecnologia não estão pagando pela capacidade adicional de geração de energia, os consumidores e os governos anfitriões estão pagando, quer se beneficiem da IA ou não.  

À medida que os DCs enfrentam cada vez mais uma resistência crescente no Norte, os desenvolvedores se voltaram para os países em desenvolvimento, terceirizando problemas para nações mais pobres com recursos limitados.  

Compreender essas instalações que consomem energia e água é necessário para proteger melhor as economias, sociedades, comunidades e seus ambientes.  

Necessidades de energia  

Com a crescente demanda corporativa e de consumidores por IA, o crescimento da DC continuará e até mesmo acelerará ocasionalmente.  

O aumento do uso da IA aumentará significativamente o consumo de energia e água, acelerando o aquecimento planetário direta e indiretamente.  

À medida que a demanda por IA e DCs aumenta, os computadores de suporte exigirão significativamente mais eletricidade. Isso gerará calor, precisando do uso de água e energia para resfriamento. Muita energia usada pelos DCs, de 38% a 50%, é para resfriamento.  

A geração de eletricidade, seja a partir de combustíveis fósseis ou fissão nuclear, requer mais resfriamento do que fontes de energia renováveis, como painéis solares fotovoltaicos ou turbinas eólicas.  

Um DC de pequena escala com 500 a 2.000 servidores consome de um a cinco megawatts (MW). Para gigantes da tecnologia, um DC em ‘hiperescala’, hospedando dezenas de milhares de servidores, consome de 20 a mais de 100 MW, como uma cidade pequena!

Os data centers não são bons  

Como o foco popular está nas enormes necessidades de energia dos DCs, suas enormes necessidades de água para resfriar equipamentos tendem a ser ignoradas, discretas e negligenciadas.  

A localização de novos DCs em países em desenvolvimento aquecerá ainda mais os microclimas locais e a atmosfera planetária. Pior ainda, o calor é mais ameaçador para o meio ambiente nos trópicos, onde as temperaturas ambientes são mais altas.  

O estabelecimento de mais DCs inevitavelmente excluirá os usos existentes e outros possíveis do abastecimento de água doce, além de reduzir os aquíferos subterrâneos locais.  

Não é de surpreender que os investidores de DC raramente alertem os governos anfitriões sobre a quantidade de energia fornecida localmente e água necessária.  

Os DCs precisam de muita água doce para resfriar servidores e roteadores. Em 2023, somente o Google usou quase 23 bilhões de litros para resfriar DCs.  

Em sistemas de resfriamento que usam evaporação, a água fria é usada para absorver calor severo, liberando vapor na atmosfera. Os sistemas de resfriamento de circuito fechado absorvem o calor usando água canalizada, enquanto os resfriadores resfriados a ar resfriam a água quente. A água resfriada recirculada para resfriamento requer menos água, mas mais energia para resfriar a água quente.  

Investidores esperam subsídios  

Como outros investidores em potencial, os DCs se mudaram para áreas onde os governos anfitriões têm sido mais generosos e menos exigentes.  

Liderados pelos poderosos “tech bros” do presidente dos EUA, Trump, muitos investidores estrangeiros lucraram com energia subsidiada, terra e água baratas e outros incentivos especiais. Os futuros governos anfitriões competem para oferecer incentivos fiscais e outros, como energia e água subsidiadas, para atrair investimento estrangeiro direto em DCs.  

Os EUA pressionaram a Malásia e a Tailândia a impedir que as empresas chinesas as usassem como “pontos de fuga ao controle de exportação” para seus chips de IA. Washington alega que os DC fora da China compram chips para treinar sua IA para fins militares. Até agora, apenas a Malásia cumpriu.  

Isso limita o acesso das empresas chinesas a esses chips. Washington afirma que os substitutos chineses dos chips fabricados nos EUA são inferiores e busca proteger a tecnologia americana da China.  

Empregos em DC de alta tecnologia?  

Os data centers estão surgindo em todos os lugares, mas poucos empregos serão criados. Defensores afirmam que os DC s fornecerão empregos de alta tecnologia.  

Os DCs são em grande parte autônomos, exigindo mínima intervenção humana, exceto pela manutenção, que eles determinam de forma independente. Assim, a criação de empregos é minimizada.  

Os trabalhos de construção e instalação serão temporários, com a maioria das funções gerenciais sendo executadas remotamente da sede. Um relatório da Georgetown University estima que apenas 27% dos empregos em DC são “técnicos”.  

Embora o discurso de DC se concentre principalmente em investimentos estrangeiros, há pouca discussão sobre os crescentes desejos nacionais por soberania de dados.  

Atender a tantas solicitações estrangeiras inevitavelmente bloqueará as ambições nacionais de desenvolver capacidades DC de ponta a ponta e não apenas hospedá-las.  

Até o momento, há um interesse limitado na “vida após a morte” dos DC s, como o que acontece depois que eles sobreviveram ao seu propósito ou no descarte de resíduos.  

Os custos mais altos de energia e água, subsídios, incentivos fiscais e outros problemas causados pelos DCs dificilmente são compensados por seu emprego modesto e outros benefícios. 

Greve na VW do sul dos Estados Unidos

Silvia Portela

Os trabalhadores da Volkswagen em Chattanooga, Tennessee, dirigidos pelo United Auto Workers (UAW) entraram em greve nos dias 28 e 29 de outubro para obrigar a empresa a apresentar uma nova proposta aos trabalhadores que não aceitaram o aumento oferecido pela montadora alemã. A empresa encontra-se em grandes dificuldades na Alemanha mas apresenta grandes lucros nos Estados Unidos. 

O que existe de interessante na notícia é que os trabalhadores de Chattanooga, que fica ao sul do pais, conquistaram a sua sindicalização ainda no ano passado, fruto de um grande esforço do sindicato em organizar as empresas daqueles estados, tradicionalmente antissindicais. 

Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais, vinculado ao Instituto Lavoro traduziu este texto  da pagina Common Dreams. 

“Dispostos a fazer o que for preciso”: Trabalhadores da UAW Volkswagen em Chattanooga convocam greve  

“Estou votando sim para que a Volkswagen volte à mesa de negociação”, disse um funcionário da fábrica. “A maioria das pessoas que eu conheço não quer a ‘oferta final’ da VW.”  

Jéssica Corbett, 23 de outubro de 2025  

Trabalhadores da Volkswagen em Chattanooga, Tennessee, que se sindicalizaram com a United Auto Workers no ano passado, anunciaram na quinta-feira que votarão na próxima semana para autorizar uma greve após mais de 13 meses de negociações contratuais infrutíferas com a gigante automobilística.  

A votação de autorização de greve planejada para 28 e 29 de outubro “ocorre após meses de práticas trabalhistas injustas cometidas pela empresa, incluindo negociações de má-fé, intimidação ilegal e corte unilateral de empregos na única fábrica de montagem da Volkswagen nos EUA”, disse o UAW em um comunicado. O sindicato também destacou os lucros de 20,6 bilhões de dólares da Volkswagen no ano passado.  

O porta-voz da empresa, Michael Lowder, disse na segunda-feira que “a Volkswagen deixou claro para o sindicato que nossa última, melhor e última oferta é realmente definitiva. Não podemos, de boa fé, prolongar as negociações continuando a negociar quando já colocamos nossa melhor oferta na mesa. É hora de o UAW dar voz aos funcionários da VW e deixar que eles decidam por si mesmos votando em nossa oferta final.”  

No entanto, vários funcionários disseram na quinta-feira que não estão satisfeitos com a última oferta da empresa e planejam votar por uma greve. 

 “Estou votando sim porque esta é a hora de mostrar à Volkswagen que levamos a sério o tratamento padrão da indústria. A segurança no emprego é essencial. Eles poderiam nos pagar $100 por hora, mas isso não significa nada se eles fecharem a fábrica duas semanas após o início do acordo”, disse James Robinson. “Espero que esse processo mostre à empresa que levamos a sério a obtenção de um contrato justo. Mostraremos a eles que a oferta não foi suficiente, mostraremos que estamos dispostos a lutar para conseguir o que merecemos.” “Espero que esse processo mostre à empresa que levamos a sério a obtenção de um contrato justo.”  

A funcionária Taylor Fugate disse que “Estou votando sim para que a Volkswagen volte à mesa. A maioria das pessoas que conheço não quer a “oferta final” da VW. Eles querem continuar negociando e estamos dispostos a fazer o que for preciso para que isso aconteça.”  

Precisamos de cuidados de saúde acessíveis e de uma forte declaração de segurança no emprego que não deixe áreas cinzentas”, acrescentou Fugate. “Também merecemos padrões iguais — os trabalhadores automotivos do sul não devem ser tratados de forma diferente!”  

Um representante republicano eleito deu uma entrevista coletiva na quarta-feira em uma tentativa de intimidar o sindicato a votar sobre a última oferta da empresa. O Local 3 News informou que o comissário do condado de Hamilton, Jeff Eversole, disse: “A Volkswagen apresentou uma oferta final de contrato sindical há mais de um mês que oferece ganhos significativos para os trabalhadores de Chattanooga, incluindo um aumento salarial de 20%, um subsídio de custo de vida, um bônus de ratificação de $4.000, menores custos de saúde e muito mais. Muitos funcionários estão entrando em contato com o UAW para votar, e o UAW se recusou.”  

Mike Elk, do Payday Report, destacou na quinta-feira que “as táticas usadas pelo Partido Republicano em Chattanooga são semelhantes às que eles usaram por mais de uma década para, às vezes, dissuadir os votos sindicais, sugerindo que a fábrica pode fechar se o sindicato ficar ‘muito ganancioso’ (palavras deles, não minhas, como filho de um trabalhador da linha de montagem de automóveis da Volkswagen)”.  

O Local 3 News observou que “durante a coletiva de imprensa, dezenas de membros do UAW e do Conselho Central do Trabalho da Área de Chattanooga, ou CLC, começaram a fazer piquetes em frente à fábrica da VW”.  

O noticioso também conversou com alguns funcionários. Uma delas, Dakotah Bailey, explicou que “originalmente, seria um aumento de 25% nos salários. Eles não queriam aceitar isso e agora baixaram para 20%. Eu queria tentar conseguir meu dinheiro agora. Especialmente logo antes das férias. Seria ótimo ter mais $5.500 em minha conta bancária.”  

De acordo com a série de vídeos “Volkswagen Stories” publicada pelo UAW no YouTube, os salários são a principal preocupação dos trabalhadores. Outras prioridades principais incluem condições de saúde e segurança na fábrica, assistência médica, folgas remuneradas e benefícios de aposentadoria.  

Não quero fazer greve, mas se for o caso, farei”, disse Mitchell Harris, funcionário da Volkswagen, na quinta-feira. “Porque sinto que todos os meus irmãos e irmãs do UAW Local 42 merecem respeito, para proporcionar uma vida melhor para suas famílias e ter segurança no emprego para nós e para as gerações futuras.”  

Jéssica Corbett é editora sênior e redatora da Common Dreams. 

EUA: Onde estão os Sindicatos? 

Silvia Portela 

Crescem os protestos contra Trump, mas…

Onde estão os Sindicatos? 

O texto que trazemos argumenta que a pequena participação dos sindicatos nos protestos No Kings em Nova Iorque representa uma fraqueza do movimento, pois, mais que nunca para evitar a manipulação e as fraudes nas próximas eleições, será necessária a luta no local de trabalho. 

Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais, vinculado ao Instituto Lavoro traduziu este texto e outras informações da revista Jacobin, que se apresenta como a principal voz da esquerda americana, oferecendo perspectivas socialistas sobre política, economia e cultura.

 

O movimento anti-Trump está crescendo.  

Onde está o trabalho?  

Centenas de milhares marcharam nos protestos “No Kings” na cidade de Nova York no último fim de semana, assim como milhões fizeram em outros lugares nos EUA. A presença marginal do trabalho organizado nos protestos de Nova York foi emblemática de sua oposição anêmica a Trump em geral.  

Por Marc Kagan, publicado em 22 de outubro de 2025 

Enquanto dezenas de milhares de nova-iorquinos desciam a Sétima Avenida da Times Square em direção ao ponto de dispersão na Fourteenth Street para o protesto “No Kings” da cidade no sábado, 18 de outubro, uma marcha separada de talvez cinco mil esperava incertamente a um longo quarteirão de distância. Na frente, os líderes da marcha cantaram “De quem são as ruas? Nossas ruas!” — aparentemente alheio à ironia de que o Departamento de Polícia de Nova York (NYPD) estava naquele momento se recusando a permitir que marchasse para a parte alta da cidade e para o oeste para se juntar ao protesto muito maior. Atrás deles, os manifestantes estavam, agora em sua maioria silenciosos e incertos: O que foi planejado? Por que estávamos esperando? Finalmente, a palavra voltou: disperse-se e caminhe para o leste na calçada até a Union Square, onde os manifestantes foram informados, incorretamente, de que se encontrariam com a marcha principal. 

A marcha trabalhista de sábado forneceu quase a metáfora perfeita para a saúde do “movimento” sindical da cidade de Nova York: incapaz ou não disposto a mobilizar seus 750.000 membros em números substantivos, irresoluto e pouco claro em seus planos, mantendo seus próprios membros no escuro e com medo ou não querendo desafiar os ditames da polícia de Nova York. E em vez de se esforçar para fornecer organização e liderança a centenas de milhares de nova-iorquinos comuns que protestavam contra Trump, o trabalho organizado sinalizou que estava propositadamente separado.  

Embora a marcha tenha sido convocada pelo Conselho Central do Trabalho de Nova York (CLC), faltavam grandes segmentos da mão de obra de Nova York em ação no ponto de montagem. Praticamente todas as empresas de construção civil — talvez apoiem as políticas de Trump ou simplesmente tenham medo de seus próprios membros, mesmo quando Trump está fechando grandes projetos de construção financiados pelo governo para transporte público, eólico e solar; os serviços uniformizados — não apenas policiais e agentes penitenciários, mas também saneamento e bombeiros; todos os integrantes locais do Teamsters, incluindo 237, o segundo maior sindicato de trabalhadores municipais; os trabalhadores em trânsito; a Hotel and Gaming Trades Council; todos os principais sindicatos de trabalhadores culturais, sem dúvida decidindo (corretamente) que seus membros ficariam mais revigorados participando da marcha principal do que se isolando com seus irmãos sindicais. 

E os sindicatos que apareceram? Os trabalhadores do hospital da organização 1199 do SEIU, que na memória recente reuniu quarenta ou cinquenta mil trabalhadores para comícios, foram os que mais compareceram – talvez (generosamente) mil. Seu primo da SEIU, 32BJ, cujos funcionários do serviço imobiliário enfrentam ameaças da Imigração e Alfândega, trouxe uns poucos. Os Communications Workers of America (CWA), representando 70.000 trabalhadores dos setores público e privado, tinham um contingente de cinquenta cartazes ostentando “CWA forte”, em vez de qualquer mensagem política. O maior sindicato de trabalhadores municipais, o   Conselho Distrital 37 da American Federation of State, County and Municipal Employees (AFSCME) com cem mil membros, reuniu duzentos. 

Mas isso foi maior do que a participação da United Federation of Teachers (UFT)que possui 150.000 membros — apesar da alegação do Guardian de que sua controladora nacional, a American Federation of Teachers (AFT) estava (talvez fora da cidade de Nova York?) “patrocinando eventos”. Como membro da UFT, sei que não houve nem mesmo um e-mail para os membros pedindo que se mobilizassem. Pequenos e desorganizados demais para formar seu próprio contingente, a maioria dos membros da UFT parecia marchar com seus colegas da AFT, o Professional Staff Congress (representando professores e funcionários da Universidade de Nova Iorque), que foi, na contagem, o campeão do dia, mobilizando pouco mais de quinhentos de seus 20.000 membros. Seu presidente, James Davis, parecia ser o único grande líder sindical que se dava ao trabalho de marchar com seus membros. 

A fraca participação na marcha trabalhista nos diz que a maioria dos membros desses sindicatos que participaram do No Kings marcharam no protesto principal, ignorando os planos do sindicato ou totalmente inconscientes deles.  

Talvez mais significativo do que o tamanho minúsculo da marcha tenha sido sua óbvia desordem. Por que não havia sistema de som móvel em uma caminhonete que acompanhava os manifestantes? Por que houve uma aparente confusão sobre o ponto final da marcha e seu objetivo? Se, por algum motivo, foi considerado necessário começar separadamente, para diferenciar o trabalho da manifestação mais ampla, por que não houve nenhum esforço para se unir à marcha principal? (De acordo com um relatório de um líder trabalhista, esse era o plano inicial, mas a polícia de Nova York o proibiu.) 

A participação marginal do trabalho organizado no protesto No Kings em Nova York não foi necessariamente representativo de manifestações em outros lugares. Em Chicago, por exemplo, o Chicago Teachers Union (CTU) esteve fortemente envolvido na organização e teve uma presença proeminente na série de protestos contra os ataques autoritários de Trump à cidade, incluindo o protesto No Kings na semana passada. E a United Teachers Los Angeles (UTLA) tem sido uma importante força anti-Trump em LA.  

No entanto, a triste exibição dos sindicatos de Nova York no sábado é indicativa da abordagem anêmica do movimento sindical na luta contra Trump de forma mais geral. Apesar dos ataques violentos aos direitos de negociação coletiva e às liberdades civis, os sindicatos, em sua maioria, responderam (na melhor das hipóteses) emitindo declarações fortes ou buscando ações legais. 

Mas o envolvimento sério e militante do trabalho organizado no movimento anti-Trump é provavelmente crucial para resistir efetivamente ao autoritarismo e aos ataques do presidente aos trabalhadores. As marchas do No Kings, que demonstraram a oposição popular a Trump em uma nova escala, são necessárias. Mas, como podemos ver nas políticas que estão sendo implementadas em Washington, DC, e nos destacamentos militares e paramilitares do ICE nas ruas de lá — e em Chicago, Portland, Los Angeles e Memphis — elas estão longe de ser suficientes. Esperando por alívio nas eleições para o Congresso ainda distantes é uma tarefa idiota. Ainda nesta semana, a Suprema Corte indicou que efetivamente derrubará a Lei de Direitos de Voto, permitindo o desmantelamento de praticamente todos os poucos distritos de tendência democrata restantes no sul. A empresa de equipamentos de votação Dominion Voting Systems acaba de ser comprada por um apoiador da MAGA. Portanto, podemos prever razoavelmente uma fraude genuína nas urnas eleitorais em 2026 — apenas alguns pequenos ajustes aqui e ali necessários para mudar os distritos. 

Em breve, precisamos ir além de meras marchas, para a disrupção — da economia e das ruas. Durante décadas, fiquei frustrado com o canto exagerado: “If we don’t get it, shut it down!  Nós realmente precisamos da capacidade de fazer isso acontecer — mas essa capacidade não surge espontaneamente, mesmo que algum evento em particular crie a base para uma revolta em massa. As redes que convocaram os protestos No Kings e May Day Strong precisam ser complementadas por redes que possam realmente fechar pelo menos segmentos significativos de sistemas de transporte aéreo, ferroviário e de caminhões, além da manufatura e produção de energia em larga escala, e as vastas indústrias culturais e de saúde. 

O trabalho organizado, fraco, ambivalente e desorganizado como muitas vezes parece, é a única rede existente de trabalhadores enquanto trabalhadores, capaz de ação coletiva no local de produção. É difícil imaginar uma capacidade disruptiva séria sem sua participação ativa — o tipo de capacidade disruptiva que a oposição anti-Trump precisa para vencer. 

Nota: as diversas referencias no texto deverão ser procuradas no texto original. 

AFL-CIO diz a Trump: Coloque os trabalhadores em primeiro lugar

Silvia Portela

Diante da situação calamitosa em que se encontram os empregados federais dos Estados Unidos com a  inércia de Trump em resolver o impasse do orçamento e a paralisação do governo, a AFL-CIO divulgou uma carta que sua diretora de advocacia, Jody Calemine, enviou a todos os senadores. Na carta “Calemine pediu que apoiassem o senador Chris Van Hollen (D-Md.) True Shutdown Fairness Act, que forneceria pagamento atrasado e contínuo a trabalhadores federais, empreiteiros e militares durante a paralisação, bem como ao senador Gary Peters (D-Mich.) Lei de Proteção aos Empregados Militares e Federais, que forneceria uma parcela imediata de pagamento atrasado. Esses trabalhadores — militares, civis e do setor privado — servem ao povo americano dia após dia de inúmeras maneiras”, escreveu Calemine.  

“Muitos funcionários federais, junto com os militares, foram obrigados a cumprir suas funções sem remuneração. Outros trabalhadores e empreiteiros federais querem trabalhar, mas foram dispensados e impedidos de trabalhar. Embora os salários tenham parado, as contas não. O aluguel precisa ser pago. Os pagamentos da hipoteca são devidos. Os mantimentos devem ser comprados.” 

Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais, vinculado ao Instituto Lavoro traduziu este texto e outras informações da página de Common Dreans

“Coloque os trabalhadores em primeiro lugar”  

…diz a AFL-CIO irritada com a agenda de Trump e a paralisação do governo “A mensagem do movimento trabalhista para a administração é clara: mãos à obra. Financie o governo. Corrija a crise da saúde.”

Jessica Corbet

A maior federação de sindicatos dos Estados Unidos convocou a administração do presidente Donald Trump na quarta-feira, depois que uma paralisação do governo começou à meia-noite após a falha na votação de projetos da lei de orçamento do Congresso.  

“O governo federal está fechando agora porque o presidente Trump e seu governo escolheram o caos e a dor em vez de um governo responsável”, declarou Liz Shuler, presidente da Federação Americana do Trabalho e do Congresso de Organizações Industriais (AFL-CIO), em um comunicado.  

Agora”, disse ela, “inúmeros empregos, os serviços governamentais essenciais em que todos confiamos e a economia impulsionada por nossa força de trabalho estão em risco, tudo porque o governo quer dar mais uma olhada na destruição do Affordable Care Act (ACA) e expulsar os trabalhadores de nossos serviços de saúde”.  

Os republicanos controlam a Casa Branca e as duas câmaras do Congresso, mas precisam de algum apoio democrata para levar a maioria das leis à votação final no Senado. Enquanto o Partido Republicano queria aprovar um projeto de lei provisório aprovado pela Câmara, os democratas lutaram para estender os subsídios expirados da ACA e reverter os cortes do Medicaid na chamada Lei One Big Beautiful Bill de Trump, ou HR 1. “Não são os políticos de Washington que estão em risco aqui — são os trabalhadores como nós.” 

 “Centenas de milhares de trabalhadores federais estão sendo bloqueados e podem perder os salários dos quais suas famílias dependem”, disse Shuler. “Empreiteiros federais, incluindo zeladores e funcionários do refeitório, não terão a garantia de pagamento atrasado. Não são os políticos de Washington que correm risco aqui — são trabalhadores como nós, mais de 80% dos quais vivem fora de DC e 30% são veteranos.”  

Trabalhadores federais considerados essenciais continuam trabalhando durante uma paralisação, e aqueles considerados não essenciais são dispensados; nenhum recebe pagamento até que o governo reabra. O governo Trump ameaçou usar a paralisação para continuar o esforço do Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) para destruir a burocracia federal.  

Essas são as pessoas que enviam nossos cheques da Previdência Social a tempo, mantêm nossa comida e água seguras, cuidam de nossos veteranos e nos protegem em aeroportos e durante desastres naturais”, observou Shuler. “De acordo com a agenda do Projeto 2025/DOGE do governo, trabalhadores federais foram demitidos, recontratados e demitidos novamente. Eles foram despojados de seus direitos de negociação coletiva e contratos sindicais.”  

Agora, o presidente Trump está fechando o governo, usando trabalhadores federais como peões e ameaçando demiti-los ilegalmente — tudo para evitar resolver a crescente crise de custos de saúde que prejudicará milhões de americanos”, concluiu. “A mensagem do movimento sindical para a administração é clara: mãos à obra. Financie o governo. Corrija a crise da saúde. Coloque os trabalhadores em primeiro lugar.”

Líderes de afiliados da AFL-CIO compartilharam mensagens semelhantes na quarta-feira, incluindo o presidente nacional da Federação Americana de Funcionários do Governo (AFGE), Everett Kelley, que enfatizou que “quando o governo fecha, as famílias americanas pagam o preço”.  

O Congresso deve parar de fazer política com os meios de subsistência dos trabalhadores federais e das comunidades que eles servem, acabar com essa paralisação imediatamente e parar de manter os trabalhadores como reféns”, disse ele. “Esses funcionários devem poder realizar seu trabalho sem interferência política. Em vez disso, esses funcionários e os serviços que eles prestam estão sendo lançados no caos porque o Congresso se recusa a agir.”  

Para piorar a situação”, observou Kelley, “o presidente Trump e o diretor do Escritório de Gestão e Orçamento, Russell Vought, estão ameaçando demitir ilegalmente um grande número de funcionários federais durante a paralisação do governo para infligir mais dor às comunidades e trabalhadores em todo o país — uma ação que já estamos contestando nos tribunais”.