Em entrevista especial ao Projeto Brasil, exibida na TV GGN, Márcio Pochmann, presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), traçou um quadro ambicioso e urgente para a gestão pública brasileira: transformar um instituto historicamente reativo em um motor preditivo de políticas públicas. A virada de paradigma proposta aponta um caminho necessário: deixar de operar apenas sobre o “presente do passado” e começar a moldar o “presente do futuro”.
Pochmann denuncia a fragmentação histórica das bases de dados brasileiras, resultado de quase cinco décadas de silos institucionais que impedem uma visão integrada da sociedade. Para ele, não se trata apenas de modernizar equipamentos, mas de reconstruir o modo como o Estado pensa e age.
Para além do censo a cada década
Durante décadas, o IBGE operou com saltos tecnológicos espaçados, geralmente atrelados ao calendário censitário. Essa lógica já não se sustenta em um mundo de inovações constantes, sobretudo no campo digital.
Para enfrentar esse desafio, o IBGE firmou parceria com o Serviço Federal de Processamento de Dados (SERPRO), responsável por processar cerca de 80% dos bancos de dados públicos do país. O objetivo é transformar a colaboração em uma espécie de “big tech pública”, capaz de lidar com volumes massivos de informações com soberania institucional, sem depender de soluções estrangeiras que podem comprometer o sigilo.
“Nesse sentido é que se abre a perspectiva de poder subsidiar as políticas públicas em relação à antecipação de fenômenos em termos de problemas e possibilidades”, explicou.
Inteligência preditiva como bússola governamental
O ponto central da fala de Pochmann é a transição: deixar de olhar apenas para o passado e projetar o futuro. A análise preditiva, segundo ele, pode ajudar desenhar soluções antes que suas consequências se agravem.
Um exemplo já em andamento é a aplicação do modelo nas Rotas de Integração Sul-Americana, em parceria com o Ministério do Planejamento e Orçamento. O IBGE está mapeando cidades em um raio de 100 km das rotas para identificar infraestrutura social (escolas, hospitais, universidades) e prever demandas antes do avanço urbano.
Outro caso é a inflexão demográfica: o Brasil deve atingir seu pico populacional em 2041, com cerca de 220 milhões de habitantes, e depois entrar em declínio. Além disso, 70% da população adulta que estará em 2050 já nasceu — grande parte em situação de vulnerabilidade social. Isso exige políticas de educação, saúde e habitação que rompam com a reprodução de desigualdades.
“É importante, no nosso modo de ver, trazer para o período presente situações que já estão atuais, mas que ganharão dimensões, para que possamos ter políticas públicas mais precisas no Brasil. Penso que é um grande momento de revisão do papel do Estado”, disse.
Integração de ministérios
Para que a análise preditiva funcione, o IBGE trabalha na integração de dados de diversos ministérios, como:
- Previdência: cadastro do INSS;
- Desenvolvimento Social: beneficiários de programas sociais;
- Educação: matrículas e censo estudantil do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP);
- Saúde: bases da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), fundamentais para entender o impacto do envelhecimento e novas doenças.
Esse cruzamento permitirá não apenas uma visão global, mas também a antecipação de cenários como envelhecimento populacional, surtos epidemiológicos e novas demandas sociais.
Dados soberanos: controle, sigilo e institucionalidade
Outro ponto de atenção é que, atualmente, cerca de 78% dos dados do Brasil são processados fora do país, sob controle de big techs estrangeiras. Para Pochmann, isso compromete a soberania e a credibilidade. “Essas empresas têm mais dados que o próprio IBGE. Sabem mais que presidentes, governadores e prefeitos. É gravíssimo”, alertou.
Por isso, o instituto trabalha em inteligência artificial própria, garantindo sigilo e autonomia tecnológica.
Desafios que resistem
Nenhuma mudança desse porte acontece sem atrito. Pochmann reconhece desafios polêmicos:
- Escassez de pessoal qualificado: O IBGE sofreu perdas por aposentadoria e falta de concursos. Agora, promoveu o maior concurso de sua história, com novos técnicos.
- Instabilidade institucional: Entre 2016 e 2023, o instituto teve cinco presidentes diferentes — dificultando planos de longo prazo.
- Recursos financeiros e infraestrutura: Para processar grandes volumes de dados, é necessário investir em centros de dados, conectividade avançada, segurança cibernética e pessoal especializado.
- Aceitação institucional: Ministérios e órgãos tradicionalmente fragmentados precisam ceder autonomia local e integrar seus cadastros ― o que exige negociações políticas.
Impacto nacional e internacional
Em nível nacional, esse movimento coloca o Brasil entre os países que estão reinventando seu aparato estatal para a era das tecnologias massivas de dados — alinhando-se à agenda global de “governos dirigidos por dados”.
No plano internacional, o IBGE tem buscado intercâmbio com instituições de países do Sul global e articulado com organismos do G20 para repensar metodologias estatísticas tradicionais e a experiências do Sul global, como Colômbia e México, que já utilizam análise preditiva em estatísticas oficiais.
Assista à íntegra da entrevista ao Projeto Brasil: