Projeto Brasil e GPCEIS/CEE-Fiocruz divulgam Projeto Nacional de Desenvolvimento

Um mapa dos diagnósticos dos desafios de desenvolvimento do país e propostas concretas foram desenhadas por 6 especialistas, mediados pelo jornalista Luís Nassif, em um encontro no último dia 30 de outubro, resultando em um Projeto Nacional de Desenvolvimento, que divulgamos nesta sexta-feira (14).

O documento é resultado do Seminário “Inovação, Soberania e Desafios Nacionais”, promovido pelo Projeto Brasil e pelo grupo de pesquisa Desenvolvimento Sustentável, CT&I e Complexo Econômico-Industrial da Saúde (GPCEIS) do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE-Fiocruz/Ministério da Saúde), em parceria com a Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).

Na ocasião, especialistas de diversas áreas (Saúde, Educação, Meio Ambiente, Defesa, Macroeconomia e Políticas Públicas) promoveram o intercâmbio de conhecimentos e propostas para pensar, de forma conjunta, novas políticas de desenvolvimento produtivo e inovação, visando soluções integradas para os desafios nacionais de crescimento, competitividade, bem-estar e sustentabilidade. 

O encontro reuniu Cesar Callegari, consultor educacional, presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE/MEC); Carlos Nobre, cientista ambiental, professor da USP/IEA e Copresidente do SPA (Painel Científico para a Amazônia); Gabriela Maretto, coordenadora da Comissão Interministerial de Contratações Públicas para o Desenvolvimento Sustentável (Cics) do MGI; Marcos Barbieri, professor da UNICAMP e especialista em Indústria Aeroespacial e de Defesa, e Antonio Lacerda; doutor em Economia, pesquisador do Departamento de Economia da PUC-SP.

A realização do evento foi do jornalista Luís Nassif, responsável pela mediação, e do economista Carlos Gadelha, coordenador do GPCEIS do CEE-Fiocruz e conselheiro do Projeto Brasil, que realizou a abertura do encontro. 

Os especialistas promoveram os referidos diagnósticos e apontaram propostas concretas, sistematizadas no documento “Agenda de Estratégias para a Soberania e Desenvolvimento Estrutural do Brasil”, divulgado na data de hoje e que será entregue a instituições, gestores e representantes públicos e órgãos de fomento. O objetivo é que as proposições possam alimentar agendas de políticas públicas para os próximos anos.

O Projeto Nacional de Desenvolvimento 

A proposição parte da atual conjuntura do país, sugerindo caminhos para um desenvolvimento que vá além da mitigação de crises cíclicas e promova um projeto de transformação estrutural de longo prazo, com estratégias políticas e econômicas focadas na mudança estrutural, na soberania tecnológica e no uso direcionado da capacidade estatal

O documento aponta que o desenvolvimento soberano do Brasil requer a implementação de políticas públicas ousadas e inovadoras, ancoradas em uma visão integrada que articule o econômico, a inovação, o social e o ambiental. 

A proposta visa um novo modelo de desenvolvimento para o país, concebido para as complexidades do século XXI. A tese central do documento é que o crescimento sustentável e inclusivo só pode ser alcançado por meio de uma estratégia fundamentada em um tripé de soberania, bem-estar e sustentabilidade. 

Acesse a íntegra do documento: 

Agenda de Estratégias para a Soberania e Desenvolvimento Estrutural do Brasil

 

Cidade do Rio usa investimentos públicos para ecossistema de inovação e sustentabilidade local

modelo de desenvolvimento da cidade de Maricá, no Rio de Janeiro, utiliza os royalties do petróleo para fomentar uma nova economia local baseada em inovação e sustentabilidade. Em entrevista ao Projeto Brasil, Celso Pansera, ex-ministro de Ciência e Tecnologia e presidente da Codemar, explica o ecossistema criado pela cidade para articular o desenvolvimento do município com os investimentos das Compras Públicas em suas mais diferentes áreas.

Segundo Pansera, o modelo de desenvolvimento de Maricá, impulsionado pelos royalties do petróleo, busca a sustentabilidade econômica através da criação e fomento de uma nova economia local, diversificada e duradoura, que substitua a dependência dos recursos petrolíferos no futuro. O objetivo principal é que o royalty de petróleo impulsione uma economia “mais justa, mais duradora, mais estruturada e mais sustentável”, afirmou.

Maricá possui um Fundo Soberano com mais de R$ 2 bilhões guardados dos royalties. A estratégia é utilizar este fundo não apenas para aplicações no mercado financeiro, mas sim para financiar a nova economia. Dentro deste objetivo, após o financiamento e a maturação das empresas, o dinheiro retorna ao Fundo Soberano, mantendo o capital disponível para novos ciclos de investimento. Com este planejamento, a cidade calcula cerca de 15 anos de produção de petróleo pela frente para criar essa nova economia sustentável.

Ele explica como a Companhia de Desenvolvimento de Maricá-Codemar articula investimentos, traz ciência, pesquisadores e firma parcerias com institutos de pesquisa e empresas municipais para participar de startups.  Entre os resultados, o ex-ministro narra conquistas como o parque tecnológico, a renovação do aeroporto e projetos de infraestrutura, incluindo hotéis e shopping centers.

Celso Pansera ainda destaca o planejamento para uma base de lançamento de foguetes para satélites de órbita baixa e o desenvolvimento de uma aeronave regional de 19 lugares em parceria com a empresa Desaer.

O modelo de gestão do município enfatiza as Compras Públicas para inovação, usadas para criar ecossistemas produtivos locais em setores como alimentação e saúde, com o objetivo de gerar patentes e empresas privadas que garantirão a sustentabilidade econômica da cidade após o fim da produção de petróleo.

O princípio central do modelo é a interpretação e aplicação da lei de inovação (e o Código Nacional de Ciência e Tecnologia) através das Compras Públicas para Inovação (CPI). Este método consiste em que o poder público é o principal cliente da economia (sendo 15% do PIB brasileiro composto por compras públicas), utilizando uma parte de seus gastos para induzir o desenvolvimento de novos produtos e ecossistemas econômicos locais.

Para isso, o modelo trabalha com o desenvolvimento de necessidades locais, a indução da ciência e gerando produtos patenteados nacionalmente. Ele citou como exemplo de sucesso o desafio da pandemia de Covid-19, quando a Fiocruz investiu R$ 2 bilhões de reais em conjunto com a Universidade de Cambridge e a AstraZeneca para desenvolver a vacina. O investimento necessário para o desafio da população à época “virou um produto de sucesso da Fiocruz aqui no Brasil no mundo e que financia até hoje novos produtos na Fiocruz”, disse.

Em Maricá, Pansera disse que o Instituto de Ciência e Tecnologia Inovação de Maricá (ISTIN) foi criado com este intuito de colocar a ciência como motor de desenvolvimento, por meio dos investimentos das Compras Públicas.

Nesta lógica, alguns projetos do Instituto estão sendo desenvolvidos, como um estudo avançado a viabilidade técnica e econômica de ter uma base de lançamento de foguetes em Maricá, aproveitando o mercado crescente de satélites de órbita baixa. Ainda, Maricá está fechando um contrato para desenvolver uma aeronave de 19 lugares (projeto da Desaer, empresa de ex-engenheiros da Embraer). 

Políticas na área da saúde, alimentação e mobilidade também estão sendo implementadas. Ele destaca um programa que cria um ecossistema que produza alimentos localmente para escolas, restaurantes populares e hospitais municipaisEmpresas maduras já produzem alimentos como Guando, Pinim (inhame) e proteína a partir da jaca. A Codemar se associará a essas empresas, comprando parte das ações para capitalizar e dar escala de produção, antes de vender sua participação no futuro.

Na área de aquicultura, em parceria com a UF (Universidade Federal Fluminense), Maricá desenvolveu pesquisas bem-sucedidas na produção de tilápias e camarões. O plano é abrir uma concessão para a industrialização de pescado, focando em produtos de alto valor agregado (como conservas, estilo as sardinhas portuguesas).

Outra iniciativa é a renovação da frota de ônibus vermelhinhos do município com a meta de zerar a emissão de carbono. O município lança editais para produtos que o poder público necessita e a renovação da frota de ônibus, com a perspectiva de zero emissão de carbono, é um destes produtos. A ideia é pegar uma parte dos recursos que já seriam gastos – neste caso, com subsídios ao transporte ou renovação tradicional da frota – e usá-la para desenvolver um ecossistema local.

Neste modelo, o objetivo é que a prefeitura não seja a dona final dos empreendimentos. O investimento e o incentivo são públicos, mas se busca o surgimento de empresas privadas com raízes locais, utilizando o parque tecnológico e acelerador de startups. A Codemar torna-se sócia de patentes e empresas que irão gerar uma economia que, futuramente, substituirá o petróleo. A ideia é que a economia gire para as pessoas, e não o contrário, incorporando a população no ganho real.

Assista à íntegra da entrevista de Celso Pansera ao Projeto Brasil: