Entrevista: A revolução do processamento de dados que o IBGE prepara

O presidente do IBGE, Marcio Pochmann, detalha uma reestruturação do instituto focada na análise preditiva e na modernização tecnológica para orientar políticas públicas brasileiras. A nova estratégia busca superar a fragmentação histórica de dados ao integrar diversas bases governamentais por meio de parcerias com o Serpro e o uso de inteligência artificial. O objetivo central é permitir que o Estado antecipe fenômenos sociais e econômicos, como o envelhecimento populacional e novas dinâmicas de urbanização, em vez de apenas reagir a dados passados.

Em entrevista retransmitida no YouTube do Projeto Brasil, no canal da TVGGN, nesta semana, Pochmann enfatiza a importância da soberania de dados para proteger informações sensíveis contra o domínio de grandes empresas estrangeiras de tecnologia. Sobre isso, ele expõe os riscos de treinar modelos de inteligência artificial em empresas estrangeiras.

Segundo o executivo, atualmente, 78% dos dados no Brasil são processados fora do país por empresas privadas estrangeiras. Isso cria uma situação de dependência e vulnerabilidade, pois essas chamadas “big techs” acabam detendo mais informações sobre a realidade brasileira do que os próprios governantes, como o presidente, governadores e prefeitos.

Aí é que entra a importância e a necessidade de o IBGE reformular e atualizar a metodologia e o processamento de dados, já que isto é também soberania digital.

Pochmann explica que o IBGE irá utilizar a inteligência artificial (IA) como uma ferramenta central para garantir a soberania de dados por meio da internalização tecnológica e da redução da dependência de empresas estrangeiras. Entre as estratégias, o Instituto está formando sua própria inteligência artificial, desenvolvendo essa capacidade internamente, assim como já fazem instituições como a Petrobras e o Supremo Tribunal Federal. 

O IBGE também estabeleceu uma associação com o SERPRO, a maior empresa pública de processamento de dados do Brasil, para processar informações em larga escala. Essa união permite que o instituto atue como uma espécie de “big tech pública”, mantendo os dados sob controle nacional.

Além disso, os mais diversos órgãos do governo estão promovendo a homogeneização e o pareamento de diversos bancos de dados governamentais (como os do INSS, Ministério da Saúde e do Trabalho). Pochamnn narra que desde 1973, o IBGE é o coordenador do sistema estatístico nacional, mas as informações acabaram se dispersando em bancos de dados setoriais. A integração visa homogeneizar e parear esses dados para que o governo tenha uma visão do “todo” e não apenas de partes isoladas da realidade.

Ao cruzar dados do Censo com registros do INSS, Ministério do Trabalho, Educação (INEP) e Saúde, é possível identificar, por exemplo, onde a população está envelhecendo e se esses locais possuem infraestrutura hospitalar adequada, ou como as mudanças no perfil de doenças afetarão o sistema público.

Ainda, a integração permite analisar o impacto de grandes projetos, como as Rotas de Integração Sul-Americana. Tal projeto das rotas de integração permitirá uma visão detalhada e preditiva do impacto dessas infraestruturas no território brasileiro e países vizinhos. O IBGE identifica as cidades situadas ao longo das cinco rotas planejadas, analisando um raio de 100 km para cada lado desses eixos, mapeando, por exemplo, a existência de escolas, universidades e hospitais das vias em expansão.

Essa análise identifica carências e problemas, orientando onde o Estado precisa investir para dar suporte ao crescimento econômico territorial. O planejamento integrado também busca evitar a repetição de erros do passado, como a urbanização sem planejamento que gerou favelas nas regiões litorâneas, ajudam a evitar a “favelização do interior”, garantindo que o crescimento em torno das rotas seja organizado.

Com as mudanças, o IBGE espera passar o Brasil de uma política de dados baseada apenas na “realidade observada” (presente do passado) para uma política do “presente do futuro”, explicou Marcio Pochmann. Isso significa que, ao processar grandes volumes de dados, o governo pode antecipar problemas e soluções, atuando de forma precisa antes mesmo que os gargalos sociais ou logísticos se consolidem.

Assista à íntegra da entrevista no Projeto Brasil no YouTube:

 

Qual o impacto das Big Techs na pressão econômica de Trump no Brasil

O tarifaço de Donald Trump foi uma tática de pressão econômica utilizada para proteger os interesses das Big Techs contra tentativas de regulamentação e responsabilização no Brasil, demonstrando a influência dessas empresas na política externa dos EUA.

A afirmação é da pesquisadora Isabela Rocha, mestre em ciência política e uma das autoras do estudo Contratos, Códigos e Controle: A Influência das Big Techs no Estado Brasileiro, assinado em parceria com pesquisadores da USP e da Universidade de Brasília (UnB) e disponível aqui no acervo do Projeto Brasil.

Publicado em julho deste ano, o estudo calculou que o Brasil, em todas as suas esferas (federal, estadual e municipal), pagou, ao menos, R$ 23 bilhões em licenças de software, nuvem e tecnologia digital para as Big Techs norte-americanas, nos últimos 10 anos.

Em entrevista a Luís Nassif e economistas do Projeto Brasil, Rocha expôs que o tarifaço desta semana de Trump teve uma relação direta com as Big Techs, funcionando como uma forma de pressão em favor dos interesses dessas grandes empresas de tecnologia.

“Esse tarifaço ele veio em uma tentativa de ameaçar, de fato, o Brasil, para que a gente ‘desse para trás’ e não acontecesse a responsabilização e, principalmente, a regulação das plataformas digitais”, afirmou.

“A gente fez um mapeamento de todos os gastos do governo brasileiro com as Big tech e a gente chegou no montante de R$ 23 bilhões, e 10 bilhões só no ano passado, esses gastos não são irrisórios e considerando o interesse econômico que as Big Tech têm no Brasil, é impossível a gente tirar o tarifaço desse contexto”, continuou.

A pesquisadora apresentou um dos dados alarmantes dessa tentativa de influência no Brasil pelos gigantes da tecnologia: A Meta vem demonstrando “grande interesse no Brasil”, com um membro do governo de Donald Trump chegando a declarar interesses no excedente energético de Itaipu para a construção de Data Centers, o que, segundo a pesquisadora, está ligado ao projeto da Meta de construir tais estruturas no país.

A participação de Isabela Rocha no programa desta semana do Projeto Brasil no Youtube inaugura a nova parceria da plataforma com a equipe de economistas e especialistas do programa Nova Economia da TV GGN, que agora somarão seus conhecimentos à esta iniciativa.

Confira a íntegra da entrevista que foi ao ar nesta quinta (31):

E leia outros artigos e o Fórum Soberania Digital, criado especialmente para debater esta temática no Projeto Brasil:

Setor público gasta bilhões com Big Techs ao invés de ciência nacional, mostra estudo

O ousado plano de soberania digital do governo brasileiro

Soberania Digital

Taxação dos EUA e Política Monetária Internacional