Diplomata afirma que o mundo vive uma ruptura histórica, enquanto o Brasil mantém um discurso defasado e uma política econômica incompatível com um projeto de desenvolvimento soberano.
O mundo não atravessa uma simples transição, mas uma “ruptura da ordem internacional a que nós estávamos acostumados”. A afirmação é do embaixador Rubens Ricupero, em entrevista ao Projeto Brasil, com os jornalistas Luís Nassif e Sergio Leo, analisando a atual conjuntura geopolítica.
Ricupero reconhece o enfraquecimento do sistema multilateral, mas pondera que as organizações internacionais não pararam totalmente de funcionar, observando que “boa parte do comércio mundial continua regido pelas regras da OMC” e que o sistema ainda opera em conflitos que não envolvem diretamente as divergências entre as três superpotências nucleares (EUA, China e Rússia).
Diplomacia do Brasil e o “Soft Power”
Ricupero enfatiza que a influência brasileira é estritamente diplomática. Ele afirma que o Brasil “só tem condições de influir no multilateral”, pois não possui poder militar estratégico ou nuclear. Para ele, o país depende do seu “soft power”, que se manifesta através de “propostas e do diálogo” em fóruns como a ONU.
O embaixador elogia o discurso recente do primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, mas lamenta que o Brasil não tenha sido o protagonista dessa fala.
Ricupero argumenta que o discurso brasileiro “não se atualizou em relação ao mundo atual”, mantendo-se preso a conceitos dos anos 70 e 80, como a dicotomia Norte-Sul, que já não refletem a posição do Brasil como grande exportador global.
Política Industrial e “Taxa de juros injustificável”
Sobre o desenvolvimento econômico, Ricupero é enfático ao dizer que o caminho para a competitividade não passa pelo protecionismo tarifário, mas pela incorporação de tecnologia. O embaixador defende que a “política industrial hoje em dia (…) tem que ser uma política de conhecimento”.
Ele cita a Embraer e a Embrapa como setores onde o Brasil é indiscutivelmente competitivo porque houve “investimento pesado e um esforço planejado de aumento da qualidade” e “incorporação de conhecimento”.
O embaixador aponta que a política macroeconômica brasileira, especialmente com as atuais taxas de juros, é incompatível com um projeto de crescimento industrial.
Ele classifica o nível da taxa SELIC como “injustificável”.
O Impacto da Operação Lava Jato
De acordo com os documentos, a Operação Lava Jato prejudicou a exportação de serviços de engenharia ao provocar a liquidação das grandes empresas brasileiras do setor, que antes possuíam forte competitividade internacional.
O embaixador Rubens Ricupero afirma que o Brasil deu um “tiro no pé” ao permitir que a operação liquidasse companhias como Odebrecht e Andrade Gutierrez. Essas empresas não apenas dominavam o mercado interno, mas eram capazes de vencer licitações internacionais de alta complexidade, como a construção do metrô de Miami.
Ele argumenta que o combate à corrupção deveria ter focado na punição de indivíduos e não na destruição das empresas, o que resultou na perda de mercado para competidores estrangeiros.