Quem produz o conhecimento: equidade e educação no Brasil

“Um país que decide quem entra na escola, quem permanece na universidade e quem recebe uma bolsa está decidindo, ao mesmo tempo, que perguntas será capaz de fazer sobre o próprio futuro”, escreve a presidente da SBPC, Francilene Garcia, em editorial.

Por Francilene Procópio Garcia, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC

Prossegue a série de editoriais que a SBPC dedica ao debate eleitoral de 2026. Os textos anteriores trataram do financiamento da ciência e da soberania nacional, e depois do território, onde clima, biodiversidade, segurança alimentar e segurança pública se encontram. Chegamos agora a dois eixos do caderno “O Brasil que Queremos: Ciência, Democracia e Soberania” (acesse a íntegra aqui) que respondem a outra pergunta: equidade, diversidade e justiça social, de um lado; educação, formação e universidade, de outro.

Se os eixos anteriores perguntavam o quê e onde, estes perguntam quem. Quem estuda, quem ensina, quem pesquisa, quem decide o que merece ser investigado. É uma pergunta que o debate eleitoral costuma tratar como assunto de política social, quando é também, e diretamente, assunto de política científica. A composição da comunidade científica determina as perguntas que essa comunidade faz, e as perguntas determinam o que o país vem a saber sobre si mesmo.

A desigualdade brasileira não é efeito colateral do desenvolvimento, é a sua estrutura. O país registra coeficiente de Gini em torno de 0,55, com o 1% mais rico detendo 25% da renda nacional enquanto metade da população fica com 9%. O racismo é a pedra angular dessa arquitetura, e sua face mais cruel é a violência: das quatro mulheres assassinadas por dia no Brasil, três são negras, e uma pessoa trans é morta a cada dia e meio, com vítimas majoritariamente negras e jovens.

Essa estrutura atravessa a própria ciência. Apenas 12% dos bolsistas de produtividade em pesquisa do CNPq são pretos ou pardos, num país em que essa população é 55,5% do total. A UnB tem dois professores indígenas depois de trinta anos de debate sobre diversidade. Passaram-se 45 anos desde que o Movimento Negro Unificado pediu uma ciência a serviço das etnias oprimidas, e o desafio permanece. Como sintetizou Nilma Lino Gomes no ciclo, toda inovação carrega valores, e a pergunta que importa é quais valores estamos colocando no centro.

Não é problema apenas de justiça, é de qualidade. Uma ciência que não reflete a sociedade que a financia produz conhecimento incompleto, porque deixa de fazer perguntas que ninguém em seu quadro tem razão para formular. Diversidade, nesse sentido, não é concessão a um grupo: é método. Ampliar quem pergunta amplia o que o país é capaz de descobrir.

O ciclo mostrou como isso se materializa nas tecnologias que estão sendo construídas agora. Sara Wagner York propôs pensar o duplo mapeamento: além do mapa visível dos territórios, há o mapa dos corpos implicados, e quando o território passa a ser o corpo, os dados mudam de sentido. Plataformas de inteligência artificial reproduzem hierarquias raciais, e modelos brasileiros apresentam disparidades no tratamento de conteúdos sobre cultura afro-brasileira e indígena, em desacordo com as Leis 10.639 e 11.645. Sistemas treinados sobre um retrato desigual do país devolvem esse retrato como se fosse natureza.

Daí as propostas do eixo. Ampliar políticas afirmativas para a contratação de docentes negros e indígenas nas universidades públicas e nos institutos de pesquisa, com metas graduais, plano público e avaliação de resultados. Destinar 25% das bolsas de produtividade a docentes negros e ao menos 10% a docentes indígenas até 2030, com recortes regionais e de gênero para não produzir novas desigualdades, e assegurar equidade de gênero na distribuição dessas bolsas.

A ação afirmativa já tem base legal consolidada: a Lei nº 14.723/2023 prorrogou a política por mais uma década e estendeu sua incidência à pós-graduação. O que falta é implementação isonômica e regular, como mostrou a radiografia conduzida por Joaze Bernardino-Costa, que integrou a mesa de diversidade do ciclo: menos da metade das universidades federais havia aprovado ação afirmativa em seus programas de pós-graduação. Sem completar esse ciclo, a diversidade conquistada na graduação não chega ao corpo docente nem aos espaços de decisão.

Some-se a isso o financiamento estrutural e permanente para pesquisas com recorte étnico-racial, de gênero e regional no CNPq, na Capes e nas fundações estaduais, superando a dependência de termos de execução descentralizada e de emendas parlamentares de curto prazo, que fazem de uma agenda de Estado um favor renovável a cada ano. E a transversalidade racial explícita nas políticas de saúde, educação, habitação, saneamento e segurança, com dados desagregados por raça, gênero e região como instrumento obrigatório de avaliação.

Há ainda o que o ciclo tratou como reconhecimento epistêmico: admitir a existência de três grandes sistemas de conhecimento, o científico ocidental, o indígena e o africano, com direito à institucionalidade própria e ao diálogo simétrico, e não à captura. Incorporar tradições indígenas e afro-brasileiras como eixos estruturantes dos currículos, levando às bibliotecas escolares os mais de 500 títulos publicados por autores indígenas nas últimas três décadas. Apoiar a articulação e a difusão do pensamento de intelectuais indígenas. E revisar os critérios de avaliação da produção científica brasileira, reduzindo a pressão pela publicação em periódicos do Norte Global como único critério de mérito e reconhecendo as pesquisas voltadas a problemas locais e nacionais.

O segundo eixo começa onde tudo começa. A soberania de um país se constrói muito antes do laboratório, na escola pública que forma a maioria dos brasileiros. Renato Cordeiro resumiu no ciclo: a China só chegou ao lado oculto da Lua porque decidiu que cada jovem teria acesso a uma escola de excelência, independentemente do seu código postal, e a soberania se constrói do chão da escola primária ao laboratório de nanotecnologia.

O país acaba de conquistar seu principal instrumento nesse campo. A Lei nº 15.388, sancionada em 14 de abril de 2026 sem vetos, aprovou o Plano Nacional de Educação para o decênio 2026-2036, com 19 objetivos, 73 metas e 372 estratégias, meta de investimento de 10% do PIB e, pela primeira vez, o princípio da equidade presente em todos os objetivos, com metas voltadas à redução de desigualdades entre grupos sociais. O texto vincula ainda parcela das receitas da exploração de petróleo e gás à educação pública. O desafio deixou de ser a aprovação e passou a ser a materialização.

Materializar significa enfrentar o que os números mostram. Entre 80% e 90% dos novos professores da rede pública são formados em instituições privadas, mais da metade na modalidade a distância, sem regulação efetiva da qualidade. Professores da rede fazem transporte por aplicativo, vendem comida e fazem faxina para sobreviver. Rosemara Staub de Barros descreveu um professor de arte com vinte turmas em três escolas, sem tempo de conhecer quem são seus alunos, e concluiu que a democracia ainda não chegou ao ensino de arte.

No outro extremo da cadeia, a situação não é melhor. A bolsa de pós-doutorado das agências federais está em R$ 5.200 e precisaria de 45% de reajuste apenas para recuperar o poder de compra de 2013. O CNPq opera em 2026 com orçamento real equivalente ao de 2007. Pós-graduandos se formam sem direitos previdenciários, sem concursos, sem futuro garantido, e o Profix cobre menos de 5% dos doutores formados a cada ano. Enquanto isso, universidades chinesas assumiram as duas primeiras posições do Ranking de Leiden em 2026.

Não há política de Estado que sobreviva a professores obrigados a um segundo emprego para chegar ao fim do mês, nem a doutores formados para o desemprego. Formar quadros e não conseguir retê-los é a forma mais cara de desperdício público que um país em desenvolvimento pode praticar: paga-se o custo integral da formação e transfere-se o benefício para quem oferece condições de trabalho.

As propostas do eixo partem daí. Implementar a Lei nº 15.388/2026 com o Custo Aluno Qualidade como referência orçamentária obrigatória e aprovar mecanismo legal que proteja as metas contra descontinuidades políticas e contingenciamentos. Garantir o piso salarial nacional dos professores como piso real, com mecanismo federal de controle e punição para os entes que descumprem. Criar licença remunerada para formação continuada, com garantia de retorno ao cargo e sem perda de vencimentos, e facilitar o acesso de docentes da rede pública à pós-graduação.

Na cadeia da pesquisa, ampliar o Profix para alcançar ao menos 10% dos doutores formados por ano, com bolsas de valor digno, e garantir direitos previdenciários aos pós-graduandos bolsistas, reconhecendo a pós-graduação como trabalho científico, o que depende da tramitação no Senado do PL 6.284/2013, já aprovado na Câmara. Assegurar financiamento público estável e de longo prazo às universidades e institutos federais, definidos como setor estratégico do Estado e protegidos de contingenciamento.

Some-se a isso a desmilitarização das escolas públicas, com o retorno aos princípios da educação democrática consagrados no artigo 206 da Constituição, e a gestão democrática com eleição direta de diretores. O letramento digital dos professores e a inserção da inteligência artificial como componente curricular, com capacitação e equipamentos para todas as escolas públicas. A interiorização universitária acompanhada de transformação curricular efetiva, porque universidades que recebem estudantes indígenas e quilombolas precisam adaptar currículos, metodologias e estruturas, não apenas conceder acesso formal. E uma política nacional de materiais didáticos territorializados, para escolas ribeirinhas, indígenas, quilombolas, amazônicas e periféricas, reconhecendo que um único livro didático não representa o Brasil.

Nos programas de governo registrados no Tribunal Superior Eleitoral, educação é presença garantida, e equidade racial e de gênero aparece em vários deles. A distância continua sendo entre enunciado e mecanismo. Nos programas que analisamos até aqui, não encontramos definição de fonte para a meta de 10% do PIB agora inscrita em lei, nem compromisso com o Custo Aluno Qualidade como referência obrigatória, nem previsão de direitos previdenciários para os bolsistas, nem metas verificáveis de presença negra e indígena no corpo docente e nas bolsas de produtividade. Um plano decenal aprovado sem trajetória de financiamento pactuada é uma promessa de dez anos com validade de um ciclo orçamentário.

É por isso que a SBPC e a Academia Brasileira de Ciências vêm construindo, a partir do desafio lançado à comunidade científica na 78ª Reunião Anual, o documento Brasil 2040, ainda em elaboração. Formar, fixar e diversificar quem produz conhecimento é parte central dessa agenda, ao lado da trajetória que leva o investimento em pesquisa e desenvolvimento a 2% do PIB até 2034, com marcos intermediários verificáveis. Não se sustenta uma política científica de longo prazo sem as pessoas que a executarão, e essas pessoas estão hoje na escola pública, na graduação interiorizada, nos programas de pós-graduação que dependem de uma bolsa para existir.

A SBPC não indica candidaturas nem recomenda voto. Compara propostas com evidências, registra convergências e lacunas e cobra mecanismos. É o que o Termo de Compromisso do Observatório das Eleições 2026 pede a cada candidata e a cada candidato: decidir com base no conhecimento científico, nos dados e nas evidências. Ao fim, a pergunta destes dois eixos é simples e decisiva. Um país que decide quem entra na escola, quem permanece na universidade e quem recebe uma bolsa está decidindo, ao mesmo tempo, que perguntas será capaz de fazer sobre o próprio futuro.

Bilionários ameaçam a democracia, mostra relatório da Oxfam em Davos

Silvia Portela

Como todos os anos, a organização não-governamental britânica OXFAM publicou seu relatório sobre o crescimento da desigualdade no mundo. Como sempre muito bem documentado e convincente, o relatório faz uma convocação pela construção de um mundo mais justo.

Um ponto central do relatório é o perigo para a democracia representado pelo poder descomunal dos bilionários. O seu lançamento no início do Fórum de Davos, o convescote anual desses bilionários, torna-se ainda mais oportuna com a presença de Trump, que vai apresentar sua proposta para tornar-se o imperador do mundo.

O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto da agência France 24.

Em Davos, a Oxfam apontou os ganhos vertiginosos na fortuna dos ultra-ricos   

Por ocasião da abertura do Fórum Econômico Mundial de Davos, a  Oxfam publicou seu relatório anual sobre as desigualdades no mundo. No relatório a ONG denuncia o enriquecimento contínuo dos ultra-ricos e apela aos governos para agirem para proteger o poder político da influência dos mais afortunados.  

Publicado em 19 de janeiro de 2026  

Na ocasião da abertura do Fórum Econômico Mundial, que acontecerá de 19 a 23 de janeiro, a ONG publicou um novo relatório* sobre o estado das desigualdades no mundo em 2025. Intitulado “Contra el Imperio de los Más Ricos”, o texto indica o crescimento contínuo da fortuna dos bilionários e ressalta os grandes perigos que representam para a democracia a concentração de riquezas em poucas mãos.

18,3 trilhões de dólares para 3.000 bilionários  

Este é um novo recorde para o ano de 2025. A organização denunciou que mais de 3.000 bilionários no mundo que acumularam uma fortuna de 18.300 bilhões de dólares. Um recorde histórico proporcionado pelo aumento 16,2%  de sua fortuna de em relação a 2024, cerca de 2.500 bilhões de dólares. Um ganho anual equivalente à riqueza total detida pela metade mais pobre da humanidade, cerca 4,1 bilhões de pessoas.

Este acúmulo de riqueza não para de crescer diz a Oxfam. O crescimento de 16,2% da fortuna dos bilionários em 2025 marcou um enriquecimento de três vezes mais rápido que durante os cinco anos anteriores. Portanto a riqueza dos bilionários aumentou 81% desde 2020.

“As ações da administração de Trump, incluindo a defesa da desregulamentação e o enfraquecimento de acordos para aumentar a tributação corporativa, beneficiaram os mais ricos do mundo”, afirmou a Oxfam.

O mais rico dos milionários, Elon Musk, dono – entre outras empresas – de Tesla e X (antigo Twitter), tornou-se a primeira pessoa a possuir uma fortuna superior de 500 bilhões de dólares, em outubro passado.

Menos de 70% dos ganhos dos bilionários em 2025 seriam suficientes para erradicar 26 vezes a extrema pobreza. Os bilionários do mundo inteiro poderiam igualmente doar 250 dólares de seus ganhos a cada habitante do planeta e mesmo assim continuarem enriquecendo cerca de 500 bilhões de dólares.

Face ao enriquecimento sempre mais rápido dos ultra-ricos, a Oxfam sublinha que a taxa de redução da pobreza  estagnou nos níveis de 2019. A extrema pobreza está ao mesmo tempo  aumentando na África. Aparecem sinais alarmantes, nomeadamente reduções no financiamento da ajuda ao desenvolvimento, de acordo com a ONG. Neste ano, os Estados-Unidos anunciaram o fechamento da USAID, o  maior provedor de ajuda humanitária no mundo e a França reduziu consideravelmente o orçamento da Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD).

Os milionários tem 4 000 vezes mais chances de ocupar um posto político  

Segundo a ONG os bilionários têm 4 000 vezes mais chances de ocupar um cargo político do que um cidadão comum. Nos Estados Unidos, Elon Musk, o homem mais rico do mundo, tornou-se dirigente do DOGE,  órgão encarregado da eficácia governamental na administração de Donald Trump, que também é miliardário.

Ao longo do seu relatório, a Oxfam ressalta o acesso privilegiado dos mais ricos ao poder político, em detrimento da democracia e das liberdades. “Essa explosão de riquezas tem múltiplas consequências e coloca em perigo o bem comum. Os bilionários podem usar sua fortuna para adquirir poder político, influenciar os governos, obter meios de comunicação ou fazer negócios enfraquecendo toda a oposição, apoiando-se sobretudo em poderosas equipes jurídicas para garantir sua impunidade perante a lei”, explica Layla Abdelké Yakoub, ativista do Quênia.

Cada vez mais, esse dinheiro está comprando poder político, disse a Oxfam, apontando em particular para a compra de jornais e outros meios de comunicação por magnatas, como a aquisição da X por Musk ou a compra do The Washington Post por Jeff Bezos, da Amazon.

Ao tempo em que o governo Trump anunciou que as multinacionais americanas estariam isentas da alíquota mínima de imposto de 15% estipulada por um acordo internacional da OCDE, a Oxfam está apelando aos governos a fazerem uma escolha: oligarquia ou democracia. “A crescente desigualdade entre os ricos e o resto da população está resultando em um déficit político grave e insustentável. As desigualdades econômicas e políticas podem acelerar a erosão dos direitos e da segurança das pessoas a um ritmo alarmante”, denuncia Amitabh Behar, diretor executivo da ONG.

*Leia o Relatório da OXFAM: 

Contra el Imperio de los Más Ricos. Defendiendo la democracia frente al poder de los milmillonarios (espanhol) (pdf)

Resumo Executivo (espanhol) (pdf) 

Este texto foi traduzido do francês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações.. As opiniões expressas são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente as visões do ODTI.