*Presidente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), Membro ABC e Professor UFPE
O controle sobre recursos críticos e capacidades tecnológicas redefine o poder global e desafia o Brasil a transformar potencial em estratégia
Em meio a um cenário internacional cada vez mais fragmentado e competitivo, uma transformação silenciosa redefine as bases do poder global. Vivemos uma era em que a geopolítica deixou de ser apenas sobre territórios e passou a ser, fundamentalmente, sobre átomos.
Átomos não como abstração científica, mas como matéria-prima do poder. O hélio (He), invisível e escasso, torna-se essencial na fabricação de semicondutores (AsGa, AsGaIn, etc) – o coração de toda infraestrutura digital contemporânea, insumo para os chips. O hidrogênio (H), o primeiro elemento da tabela periódica, ressurge como promessa energética na forma do hidrogênio verde. E os minerais críticos, especialmente as terras raras (Nd, Pr, etc) sustentam desde turbinas eólicas até sistemas militares avançados. Mais ainda: quando falamos dos fertilizantes (outra criticidade), falamos de NPK (Nitrogênio, Fósforo e Potássio).
Quem controla esses átomos – sua extração, processamento e aplicação – controla cadeias produtivas inteiras. E quem controla cadeias produtivas controla dependências. E dependência, na geopolítica, é o oposto de soberania.
O caso do hélio é emblemático. Concentrado em poucos países, como o Qatar, ele é um insumo invisível, porém insubstituível, para a indústria de chips. Sem ele, não há litografia de precisão; sem chips, não há economia digital, defesa moderna ou inteligência artificial. Um único elemento químico, portanto, pode condicionar a autonomia tecnológica de nações inteiras. Isso vale para o hidrogênio. Embora abundante no universo, sua forma utilizável como vetor energético exige tecnologia, infraestrutura e, sobretudo, estratégia. Países que dominarem a produção e logística do hidrogênio verde poderão redefinir fluxos energéticos globais, deslocando centros tradicionais de poder.
Já os minerais críticos revelam outra dimensão: não basta possuir reservas. É preciso dominar refino, cadeia industrial e aplicação tecnológica. A soberania não está no subsolo, mas na capacidade de transformar recurso em valor estratégico.
No caso dos fertilizantes, a dependência de exportações vai além 80% da quantidade de NPK que consome, sendo altamente vulnerável a choques externos. A dependência é crítica no potássio (até 97,8% importado) e nitrogenados. Já existe o Plano Nacional de Fertilizantes – muito bem elaborado – mas que carece de inteligência estratégica para ser mais efetivo.
Dessa forma, a equação contemporânea é clara: átomos são poder potencial; soberania é o resultado desse poder internalizado; e estratégia é o que conecta um ao outro. Sem estratégia, recursos viram dependência. Com estratégia, tornam-se autonomia.
O Brasil, nesse tabuleiro, não é irrelevante – ao contrário. É um dos poucos países que combinam base mineral significativa, capacidade energética renovável e um sistema científico respeitável. Em tese, reúne condições para ser protagonista na geopolítica dos átomos. Na prática, no entanto, ainda opera aquém dessa possibilidade.
Persistimos, em grande medida, como fornecedores de insumos em cadeias globais cujo valor agregado se concentra fora. Exportamos potencial e importamos tecnologia. Participamos da base, mas raramente do topo.
Isso não é resultado inevitável da economia global, mas de escolhas – ou da ausência delas. A questão, portanto, não é diagnóstica. Já sabemos onde estão nossos ativos. A questão é estratégica: o que o Brasil decidiu, ou pretende decidir, fazer com eles?
Responder a isso exige coordenação que vá além de agendas fragmentadas. Exige alinhar política industrial, ciência, tecnologia e inovação, energia e inserção internacional. Exige, sobretudo, instituições capazes de pensar no longo prazo e de sustentar essa visão ao longo do tempo.
Ministérios, agências, bancos públicos, centros de pesquisa e espaços de reflexão estratégica têm, todos, um papel a cumprir. Alguns, inclusive, já acumulam experiência e capacidade para articular essas agendas de forma mais integrada – ainda que, por vezes, subaproveitada.
O ponto central é que, sem uma estratégia explícita e consistente, o país corre o risco de assistir à reorganização do poder global a partir de uma posição periférica – não por falta de recursos, mas por falta de direção. O mundo não será dividido apenas entre países ricos e pobres, mas entre aqueles que sabem o que fazer com seus átomos – e aqueles que não sabem. O Brasil claramente tem os átomos.
E começa, também, a construir caminhos mais estruturados para transformá-los em estratégia. A nova Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ENCTI) surge como uma oportunidade de organizar essa visão de forma transversal – reconhecendo que ciência, tecnologia e inovação não são setores isolados, mas a base sobre a qual se estruturam energia, indústria, defesa e soberania.
Porque, no fim, os átomos são ciência transformada em capacidade. E é essa capacidade, quando orientada por estratégia, que define o lugar das nações no mundo.
A ENCTI, se efetivamente incorporada como instrumento de coordenação e ação, seguida por um plano concertado nacionalmente, pode ser o passo decisivo nessa direção.
Mas, como toda estratégia, seu valor não estará apenas no que diz – e sim no que mobiliza. Já está no papel, precisa sair do papel.
É aí que, finalmente, átomos deixam de ser apenas matéria. E passam a ser destino.
O projeto Milei de Reforma Trabalhista tem chamado muito a atenção da imprensa brasileira. Interessante notar que muitas das medidas aprovadas pelo governo liberal argentino são iguais as mudanças já operadas no Brasil em outras oportunidades. Fato que a imprensa brasileira insiste em ignorar. Esses retrocessos vêm sendo incorporados há quase dez anos e mesmo o movimento sindical brasileiro poucas vezes prioriza sua anulação.
Por que fazer essa comparação nesse momento? Em primeiro lugar para recordar, mais uma vez, que a economia e a política dos dois países estão interligadas, seja no período de avanços econômicos e sociais, seja no período de retrocessos econômicos produtivos. Brasil e Argentina não são apenas vizinhos e filhos do mesmo processo de colonização, mas têm atravessado etapas semelhantes na história da República, com a diferença do crescimento superior alcançado pelos argentinos nas três primeiras décadas do século passado e o processo tardio de industrialização no Brasil.
Entre os anos 40 e 60 os dois países consolidaram o Estado Nacional, geraram movimentos políticos sociais como o varguismo e o peronismo e foram os autores do desenvolvimentismo cepalino, que impulsionou o modelo de substituição de importações, favorecendo uma onda de industrialização. Ao longo desse período também, sofreram vários golpes e estiveram sob governos autoritários e ditaduras militares, que tinham como um dos principais objetivos garantir o silencio da classe trabalhadora e utilizar o retrocesso laboral como instrumento de acumulação de capital.
Durante os regimes militares houve diferenças importantes entre os modelos produtivos adotados, que se refletiram nas duas economias nos anos 70 e 90. No Brasil os militares fortaleceram o Estado nacional como indutor do avanço na indústria, na Argentina, ao contrário, os governos militares quase destruíram o aparato produtivo, promovendo uma ampla abertura comercial unilateral e a desvalorização cambial.
Do ponto de vista dos direitos trabalhistas houve perdas sistemáticas nos dois países. Na Argentina os retrocessos, foram fruto principalmente da violenta repressão ao sindicalismo. No Brasil, logo após o golpe houve centenas de prisões e de intervenções nos sindicatos, mas também houve significativas alterações na legislação. O melhor exemplo refere-se ao fim do regime de estabilidade no emprego em 1967 e sua substituição pelo Fundo de Garantia por Tempo de Serviço-FGTS, que passou a ser s verba indenizatória em caso de demissão . Um retrocesso que tornou o mercado de trabalho brasileiro extremamente flexível, gerando uma altíssima rotatividade, o rebaixamento salarial e a desqualificação profissional. Hoje, sessenta anos depois, o ataque se repete na Argentina com a criação do FAL (Fundo de Amparo Laboral) e no caso argentino, o fundo será integrado também por quotas dos salários dos trabalhadores.
No Brasil houve conquistas importantes na Constituinte Democrática de 1988, mas muitas permaneceram sem uma regulação legislativa, o que facilitou a adoção decretos presidenciais “emergenciais” nos períodos de crise financeira e alta inflação, quando foram retirados direitos para que as empresas contratassem. Passada as crises as mudanças transitórias se tornavam permanentes.
Ao longo dos últimos anos, nos dois países, os contratos de trabalho, salários e jornada de trabalho têm sido atacados e se tornam cada vez mais flexíveis. Um quadro que vem se estabelecendo desde os anos 80/90 quando foram eleitos governos neoliberais em ambos os países: Menem na Argentina e Collor de Melo e FHC no Brasil .
Mudanças mais significativas feitas durante os governos de FHC no Brasil e Menem na Argentina (1995-2001)
Brasil -Licença médica- Redução do salário a ser pago pela Previdência por licença médica a partir do 16º dia; Criação do Banco de Horas , com possibilidade de compensar horas extras em até 120 dias; Contrato de Trabalho por Tempo Parcial, com jornada de até 25 horas semanais e salário proporcional; Contrato de Trabalho Temporário regulamentado através do contrato por tempo determinado e outros.
Argentina - governo Carlos Menem- foi adotada a Lei de Emprego que passou a permitir contrato de trabalho flexível, com prazo determinado e o contrato de trabalho temporário e contrato de trabalho a tempo parcial; a extensão da jornada de trabalho e a compensação de horas extras; flexibilização trabalho noturno e do trabalho em turnos.
Brasil: o legado bolsonarista
Em 2017, Michel Temer mandou ao Congresso um Projeto de Lei que retirou mais de 100 artigos da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), com a promessa de criar 6 milhões de empregos. Quatro anos depois o resultado foi:mais de 13 milhões de brasileiros desemprega-dos, 73,2 milhões de trabalhadores sem direitos (37 milhões são informais, 25,4 milhões trabalham por conta própria e 10,8 milhões trabalhando sem carteira assinada).
Temer fez algo que nem a ditadura tinha ousado fazer: um ataque direto ao sistema de financiamento dos sindicatos (o fim do imposto sindical) e enfraquecimento das negociações coletivas, acabando com a ultratividade dos convênios coletivos e permissão para que negociações por empresa sejam menos que a convenção coletiva.
Dentre os direitos individuais atacados destacamos: liberação do trabalho aos domingos para todas as atividades, sem necessidade de autorização ou de negociação com os sindicatos, com escalas mais flexíveis sem garantia de que ao menos uma vez ao mês haja coincidência de descanso aos domingos.
Não reconhecimento da relação contratual entre empresas e motoristas, entregadores e outros profissionais que trabalham por aplicativo. Isto significa negar-lhes a proteção da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), não tendo acesso ao13º salário, férias, descanso remunerado, FGTS e outros benefícios.
Institucionalização do Teletrabalho por demanda, desvinculação entre trabalho e extensão da jornada sem direito a hora extra e o Contrato de Trabalho Intermitente, pelo qual o contratado trabalha por períodos específicos, inclusive do mesmo dia, recebendo apenas pelas horas trabalhadas.
A jornada de 12 horas seguida de 36 horas de descanso (12×36) pode ser adotada por acordo individual escrito. O banco de horas pode ser pactuado por acordo individual escrito, com compensação em até 6 meses.
As férias podem ser divididas em até 3 períodos, com um mínimo de 14 dias corridos e os demais com mínimo de 5 dias.
A demissão em comum acordo é permitida, com pagamento de metade do aviso prévio e metade da multa de 40% sobre o FGTS. A Homologação das verbas em caso de demissão, que antes obrigatoriamente eram realizadas com a assistência dos sindicatos, agora pode ser feita diretamente entre a empresa e o empregado.
A maior parte dessas mudanças tão prejudiciais aos trabalhadores se manteve mesmo depois do retorno do Presidente Lula, pelo fato do Congresso legislativo ser extremamente conservador (as forças políticas de centro esquerda são menos de 25%) assim como TST e do STF penderem mais para um enfoque patronal no que toca a aplicação da legislação trabalhista. Um exemplo em curso é a alta probabilidade do STF legalizar a pejotização dos contratos de trabalho, isto significa que os trabalhadores passam ser tratados como empresa e não como assalariados, perdendo todos os direitos trabalhistas.
Refletindo esse quadro, o movimento sindical brasileiro vive um período de muita debilidade.
Argentina: o legado Milei
Em 2024 , refletindo a crise econômica do governo de Alberto Fernandes e Cristina Kirchner, o peronismo foi derrotado por um político desconhecido, aparentemente um outsider, defensor de uma agenda liberal que, entre outros retrocessos, vem tratando de destruir o patrimônio trabalhista desse país.
No início de janeiro de 2026, Milei enviou ao Congresso uma proposta que atacou direitos trabalhistas históricos e que conseguiu ser aprovado em menos de 40 dias por uma pequena maioria no Senado, em consequência dos bons resultados obtidos numa eleição legislativa de meio do mandato.
Os principais aspectos dessa reforma foram: extensão do limite diário da jornada de trabalho de 8 para até 12 horas, com possibilidade de compensação sem pagamento de horas extras (Banco de horas). Alteração no cálculo das indenizações e possibilidade de pagamento parcelado, retirando do cálculo encargos tradicionais como férias, decimo terceiro, e outras verbas. Negociação Coletiva- fim da ultratividade e prevalência dos acordos firmado por empresa.
Período de Experiência: Ampliado para até seis meses, podendo chegar a 12 meses em alguns casos. Férias: Possibilidade de fracionar férias em períodos mínimos de sete dias.
Trabalhadores de Plataformas não são reconhecidos como assalariados e sim prestadores de serviços independentes com regras específicas.
Conclusões
1.Os ataques buscaram a precarização dos contratos de trabalho (chegando a aprovação do contrato intermitente no Brasil), a flexibilização e extensão das jornadas de trabalho. Em ambos os sistemas os trabalhadores em plataformas e aplicativos – cada dia mais numerosos – estão fora de qualquer proteção, não sendo reconhecida relação de dependência. Nos dois países a precarização dos contratos de trabalho ultrapassam 45% da mão de obra ocupada. O que significa rendimentos mais baixos, extensão das jornadas de trabalho (as vezes dois ou três contratos ao mesmo tempo) e fragilização do sistema de previdência social, pois quase a metade dos ocupados não contribuem.
Nos dois países houve um ataque frontal aos sindicatos: a prevalência dos acordos coletivos sobre a convenção coletiva, pulverizando a organização dos trabalhadores. Além de contribuir para maior precarização, essa inversão enfraquece a estrutura sindical que sempre teve como base de sustentação um sistema de contratação coletiva centralizado. Outro ataque foi contra a sustentação financeira dos sindicatos.. No Brasil o chamado imposto sindical foi extinto e, na Argentina, as contribuições sindicais foram fortemente reduzidas e os trabalhadores passaram a contribuir também para as Obras Sociais. Ou seja os associados terão que arcar com parte dos custos de assistência médica que tem direito. Em ambos países se estabeleceram regras para dificultar o recolhimento dessas contribuições diretamente na folha de pagamento.
2. O quadro nos mostra que a luta é política e responde a natureza da luta de classes. Os recursos jurídicos e legislativos podem ajudar, mas não serão suficientes. Com as mudanças resultantes da utilização de novas tecnologias e a inteligência artificial a organização sindical torna-se mais complexa e exige dos sindicatos escolhas políticas mais abrangentes para recuperar seu histórico papel de representação dos trabalhadores e trabalhadoras. Os dois países vivem sob um modelo de economia liberal e financeirizado, onde os principais resultados são a pulverização dos contratos de trabalho, fator que dificulta muito a organização corporativa. No Brasil o governo Lula é progressista é mas está sujeito à hegemonia liberal do Congresso. Para o neoliberalismo os sindicatos não têm lugar, as relações entre capital e trabalho tem que ser individualizadas .
Como os sindicatos poderão atuar frente a essa realidade? Como compensar as limitações que hoje se impõe à organização sindical corporativa? Como combinar a ação sindical de setores de ponta, altamente qualificados, com a realidade de entregadores e trabalho em home office? Como atuar levando em conta a internacionalização do capital e do trabalho através das cadeias produtivas globais?
Brasil e Argentina estão vinculados por comercio bilateral, mas também por investimentos de empresas internacionais nos dois países, ou investimentos brasileiros na Argentina e argentinos no Brasil. Para dar alguns exemplos: a JBS atua nos dois países; Techint atua nos dois países; Mercado Livre é a maior plataforma de vendas online no Brasil enveredando inclusive no setor financeiro e Chocolates Havana cresce mais no Brasil. Outros importantes exemplos são da indústria automobilística (montadoras e autopeças) , indústria química e petroquímica, e outros. Os dois países estão muitas vezes integrados em cadeias produtivas globais.
O sindicalismo da região tem investigado essas conexões e processos produtivos? Esse conhecimento é uma exigência de um novo modelo de sindicatos, para regionalizar e transnacionalizar a ação sindical.
Para finalizar o artigo montamos um quadro superficial dos direitos retaliados nos dois países. Como verão a diferença é mínima.
*No Brasil a maior parte do patrimônio dos direitos individuais e coletivos está sustentada em leis e na Argentina boa parte do acervo trabalhista foi construído com negociações coletivas que sempre tiveram o peso da lei e agora deixam de ter .
IA e telessaúde levam atendimento médico a regiões remotas do Brasil, ampliando o acesso ao SUS e reduzindo desigualdades históricas na saúde pública
A Inteligência Artificial e a telessaúde estão modernizando o atendimento da saúde pública no Brasil. Convidadas especiais do Projeto Brasil, Ana Estela Haddad, Secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde, e Ana Helena Ulbrich, farmacêutica reconhecida entre as 100 personalidades mais influentes do mundo no campo da inteligência artificial, mostraram estratégias inovadoras que estão revolucionando a saúde brasileira.
A inteligência artificial (IA) e a telessaúde estão transformando o Sistema Único de Saúde (SUS) ao ampliar o acesso, aumentar a precisão dos diagnósticos e otimizar a gestão por meio de dados. De acordo com Ana Estela, a telessaúde já é uma realidade consolidada, com o registro de 5,7 milhões de teleatendimentos no SUS em 2025, cobrindo 53% dos municípios brasileiros.
Ela explica que o feito ultrapassa o que seria a digitalização da medicina, mas significa o acesso da saúde a populações em áreas remotas de um país de proporções continentais. “O Brasil já realizou milhões de teleatendimentos, cobrindo mais da metade dos municípios, com impacto significativo na região Norte, onde distâncias geográficas são um desafio.”
Como fica a IA na saúde em um país desigual territorialmente?
No Brasil de desigualdades regionais, em territórios onde a medicina presencial não consegue chegar, a telemedicina salva vidas. A Secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde narra ao Projeto Brasil experiências e como a digitalização da saúde está sendo fundamental para permitir o acesso ao direito básico.
Ela explica que há cidades do Amazonas em que populações ribeirinhas levam até 30 dias de barco para chegar a centros de saúde de Manaus. No Ceará, a implantação de teleatendimento em quase 40 especialidades alcançou uma taxa de resolutividade superior a 70%.
Paralelamente a projetos de acessibilidade territorial, a digitalização da saúde pública também é usada para o avanço da tecnologia dos tratamentos. Como exemplo, Haddad explicou como um banco de dados de 10 milhões de laudos de eletrocardiograma vem sendo processado, pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), para trazer diagnósticos em cardiologia, por meio de algoritmos de IA.
Esses modelos permitem fazer predições estatísticas e diagnósticos individualizados, identificando a probabilidade de um paciente desenvolver determinadas doenças. O uso da Inteligência Artificial para fazer a predição na saúde também foi assunto exposto pela farmacêutica Ana Helena Ulbrich.
Fundadora da NoHarm.AI e do Instituto de Inteligência Artificial na Saúde, única brasileira incluída na lista TIME100 AI 2025, que reconhece as 100 personalidades mais influentes do mundo no campo da inteligência artificial, ela criou um software que combina tecnologia e recursos humanos para promover cuidados integrais garantindo a segurança do paciente, otimizando as decisões dos atendimentos do SUS. Ela enfatiza que a tecnologia não substitui o profissional: “a IA é um suporte à decisão, ela não substitui ninguém, ela está ajudando”.
Não basta tecnologia, é preciso condições mínimas
Ambas as participantes anotaram a importância de se garantir, de base, infraestruturas para que a IA chegue à população. Não basta tecnologia de ponta, não basta conseguir trazer a Inteligência Artificial para o Sistema Único de Saúde (SUS) e propor medidas para a implementação real desta tecnologia e conhecimento na saúde pública brasileira, se o país não tem a infraestrutura básica, simples e necessária para receber todo este know how.
É essa visão integrativa que fez com que a farmacêutica Ana Helena Ulbrich entendesse que a garantia à saúde de ponta precisa ir além. Ela narrou um projeto da NoHarm.AI de levar tecnologia de ponta para o SUS associada à infraestrutura.
“Porque não tem como trazer a tecnologia em um lugar que não tem luz, por exemplo. Lá em Afuá, que é uma cidade do Pará, bem do norte do Brasil, a gente identificou a necessidade de levar placas solares para que as quatro unidades básicas de saúde que não tinham luz. Eles não tinham acesso à vacina na unidade porque não tinha como refrigerar as vacinas. Então a gente percebeu a necessidade de levar a infraestrutura, a internet satélite e tudo mais, para que a gente pudesse levar a tecnologia”, relatou.
Ana Estela também relatou que estão sendo distribuídos 7.000 kits de telessaúde (computador, monitor e câmera) para unidades básicas de saúde, além de investimentos pesados em conectividade, inclusive para populações indígenas em territórios isolados.
A Inteligência Artificial (IA) modernizou a gestão pública, está presente nas atividades políticas e assessorando mandatos parlamentares. Em entrevista ao Projeto Brasil, o professor do Departamento de História da Universidade Federal de Viçosa, André Luan Nunes Macedo, relata a sua atuação e o desenvolvimento de sistemas de IA para a gestão e organização política.
André Luan trabalha com inteligência artificial desde o final de 2023, quando iniciou a criação de agentes de IA. Com pós-doutorado na UFMG que buscou explorar a interseção entre ensino de história, educação e IA, em 2024, o pesquisador foi um dos coordenadores de campanha da vereadora Adriana Souza por Contagem. No período, ele criou métodos de organização de logística e demandas da campanha por meio de IA.
Deste trabalho surgiram assistentes digitais de IA para tarefas específicas do mandato, como o Sistema Juscelino (organização, sistematização e georreferenciamento das demandas), o Sistema Carlitos (do Planejamento Estratégico Situacional) e o Sistema Lucerna (consulta e auxílio na elaboração de projetos de lei). Ele explica como estes sistemas otimizaram o atendimento às demandas populares e auxiliaram na elaboração técnica de projetos de lei em gabinetes parlamentares.
“A gente conseguiu fazer com que o tempo da militância do gabinete fosse destinado não a tarefas burocráticas“, disse André Macedo, mostrando os benefícios dos sistemas. “Ao invés de ter manualmente uma secretária que vai escrever uma linha do Excel, ela joga pro Juscelino, e ele interpreta aquilo. Imagine o tempo que é economizado para conseguir fazer com que a burocracia ande de fato“, completou.
Ele destaca que boa parte dessas ferramentas utiliza o motor do ChatGPT para automatizar tarefas burocráticas, permitindo que a equipe política foque em ações estratégicas e diretas com a comunidade.
“O ChatGPT é como se fosse o motor desses robôs personalizados, e a gente personaliza esses robôs na plataforma e desenvolve eles voltados especificamente para as tarefas que a gente quer ter.”
Sobre isso, os debatedores alertam a falta técnica ou tecnologia nacional própria do Brasil, o que gera uma dependência de assinaturas de plataformas estrangeiras, como o ChatGPT. Os participantes também abordam a preocupação ética e de segurança quanto ao uso de dados públicos para treinar grandes modelos de linguagem de empresas privadas. Segundo eles, é necessário cautela para evitar que informações sensíveis sejam utilizadas pela “inteligência coletiva” dessas plataformas sem o devido controle.
Por fim, o pesquisador fala sobre o potencial da história preditiva para analisar cenários futuros com base em padrões históricos.
“Nós que somos historiadores precisamos falar também sobre o futuro. Isso é fundamental para a política”, disse.
O debate reforça a importância de integrar a expertise acadêmica às necessidades do setor público para promover uma administração mais eficiente e conectada com a era digital.
Assista à íntegra da entrevista do Projeto Brasil no YouTube da TVGGN:
Este texto dá conta do debate nos Estados Unidos sobre um sistema tributário justo. Lá, como aqui e como praticamente em todos os países capitalistas, a participação dos mais ricos no financiamento dos serviços públicos vem caindo a cada ano. Em 1944 a taxa básica do IR estadunidense era de 94%, que foi reduzida para 70% em 1964, 50% em 1981 e 37% em 2018. É claro que os mais ricos pagavam uma taxa muito menor, com deduções, brechas na lei, paraísos fiscais, etc. Mas com certeza eles pagavam e pagam uma taxa muito maior do que os ricos brasileiros pagam.
Os lucros corporativos pagavam uma taxa de 53% reduzida paulatinamente para 21% entre 1969 e 2025. No Brasil, como sabemos, os lucros corporativos são isentos de imposto, uma coisa que acontece apenas aqui e na Estônia. Apesar do pequeno progresso que tivemos neste ano, e na medida em que se aproximam as próximas eleições presidenciais, a discussão de taxar os mais ricos torna-se oportuna.
O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto dapágina da Znet , que “é uma plataforma participativa para interação com conteúdo educacional, visão e análise estratégica que visa apoiar os esforços ativistas por um futuro melhor.”
Chegou a hora de taxar os Ricos
Por Lawrence S. Wittner , publicado em 25 de março de 2026
Com o prazo para o pagamento do imposto de renda federal se aproximando rapidamente, os pensamentos dos contribuintes americanos se voltam naturalmente para a velha questão: por que não existe um sistema tributário mais justo?
Atualmente, campanhas por leis estaduais que taxam os ricos estão em pleno vigor na Califórnia, Colorado, Nova York, Oregon, Rhode Island, Texas e Virgínia, e já conseguiram a aprovação de tais leis em Massachusetts e Washington. Da mesma forma, no Congresso, a senadora Elizabeth Warren e a deputada Pramila Jayapal apresentaram o Projeto de Lei do Imposto sobre os Ultramilionários (Ultra-Millionaire Tax Act), enquanto o senador Bernie Sanders e o deputado Ro Khanna patrocinam o Projeto de Lei para que os Bilionários Paguem Sua Justa Parte (Make Billionaires Pay Their Fair Share Act). As propostas para taxar os ricos variam desde o aumento da alíquota de imposto para os indivíduos com renda anual mais alta até a instituição de um imposto anual sobre a riqueza dos americanos mais ricos, ou uma combinação de ambos.
Embora os americanos mais ricos, assim como os demais, sempre tenham pago impostos para financiar os serviços públicos, a disputa girava em torno de quanto deveriam pagar. Os impostos sobre vendas e sobre a propriedade representam um fardo pesado para as pessoas de recursos modestos, mas um fardo muito mais leve para os ricos. Portanto, os ricos tenderam a favorecer essas fontes de receita pública e a se opor a um imposto de renda progressivo, no qual os ricos pagariam uma alíquota maior do que os pobres. Uma longa batalha política por um sistema tributário baseado na capacidade contributiva levou à aprovação da 16ª Emenda à Constituição dos EUA, que autorizou o Congresso a instituir um imposto de renda.
Inicialmente, o novo imposto de renda, embora progressivo, era de pequena escala. Mas, à medida que o governo federal assumiu novas e dispendiosas tarefas — particularmente o financiamento da participação dos EUA em duas guerras mundiais e na Guerra Fria — o imposto de renda federal cresceu proporcionalmente. Em 1944, a taxa oficial de imposto para os indivíduos de maior renda era de 94%, embora, graças a deduções, brechas legais e à limitação da taxa à parcela mais alta de sua renda, os americanos mais ricos, na realidade, pagassem uma taxa muito menor.
Assim como seus antecessores abastados, muitos americanos ricos se indignavam com o financiamento de serviços públicos que beneficiavam pessoas que muitas vezes consideravam inferiores. Por que, perguntavam-se, seu dinheiro estava sendo “desperdiçado” em coisas como escolas públicas, habitação popular e saúde pública, enquanto “as melhores pessoas” frequentavam escolas particulares, moravam em mansões ou condomínios fechados e contratavam médicos particulares? Enquanto conversavam com amigos durante o almoço em seus iates ou em seus clubes de tênis, reclamavam das “rainhas do bem-estar social” e dos “pobres ingratos”.
Consequentemente, o Congresso — pressionado pelos ricos, suas corporações e ideólogos conservadores — reduziu a progressividade do imposto de renda federal. Em 1964, a alíquota marginal máxima foi reduzida de 91% para 70%, em 1981 para 50% e em 2018 para 37%.
Graças a esses cortes drásticos na alíquota do imposto de renda federal, além do tratamento tributário preferencial para dividendos e valorização de ações, títulos e outros investimentos, os americanos mais ricos conseguiram garantir uma alíquota de imposto muito menor do que a maioria dos americanos. De acordo com uma investigação da ProPublica, os 25 americanos mais ricos, que tiveram uma renda de US$ 401 bilhões entre 2014 e 2018, pagaram impostos sobre essa renda a uma alíquota de apenas 3,4%. Aliás, em alguns anos, os maiores bilionários do mundo — incluindo Elon Musk, Jeff Bezos, Michael Bloomberg e Carl Icahn — não pagaram nenhum imposto de renda federal.
No que diz respeito à renda corporativa, o governo federal reduziu a alíquota do imposto corporativo de 53% para 21% entre 1969 e 2025. E isso também gerou enormes benefícios para os americanos muito ricos, que detêm a maior parte da riqueza do mercado de ações. Segundo o Instituto de Tributação e Política Econômica, 23 das maiores e mais lucrativas empresas dos EUA não pagaram nenhum imposto de renda corporativo federal entre 2018 e 2022. E 109 empresas não pagaram nenhum imposto federal em pelo menos um desses anos.
As políticas tributárias do governo Trump elevaram a fortuna dos ricos a patamares sem precedentes. De acordo com um relatório de setembro de 2025 da Americans for Tax Fairness, a riqueza dos 15 bilionários mais ricos dos EUA aumentou mais de 300% após a aprovação do primeiro corte de impostos de Trump e do Partido Republicano, em dezembro de 2017. A riqueza do mais rico deles, Elon Musk, multiplicou-se por 20. No primeiro ano do segundo mandato de Trump, marcado por outro enorme corte de impostos para os ricos, a riqueza dos bilionários americanos saltou de US$ 6,7 trilhões para US$ 8,2 trilhões.
Não surpreendentemente, a política tributária do governo — somada aos baixos salários, à terceirização corporativa, aos ataques aos sindicatos e aos subsídios governamentais para grandes empresas — resultou no aumento da desigualdade econômica nos Estados Unidos. No final de 2025, o 1% mais rico dos americanos possuía cerca de US$ 55 trilhões em ativos — aproximadamente o mesmo valor da riqueza detida pelos 90% mais pobres. “A riqueza das famílias está altamente concentrada e tornando-se cada vez mais concentrada”, relatou o economista-chefe da Moody’s Analytics, uma importante empresa de pesquisa financeira.
Essa crescente desigualdade econômica amplia o poder dos ricos nos assuntos públicos. Cada vez mais, na política, o dinheiro fala alto — e em favor dos republicanos. As contribuições para eleições federais dos 100 americanos mais ricos tiveram uma média de US$ 21 milhões entre 2000 e 2010, mas ultrapassaram US$ 1 bilhão em 2024. Naquele ano, as contribuições para os republicanos saltaram de aproximadamente US$ 300 milhões para quase US$ 1 bilhão, enquanto as doações para os democratas caíram de cerca de US$ 300 milhões para menos de US$ 200 milhões. Um partido político de direita, liderado por um bilionário demagogo que prometia mais cortes de impostos, mostrou-se irresistível.
Em contrapartida, a maioria dos americanos apoia propostas para aumentar os impostos sobre os ricos. De acordo com uma pesquisa do Pew Research Center de março de 2025, a grande maioria dos americanos entrevistados era favorável ao aumento de impostos sobre os ricos e as corporações. Em janeiro de 2026, uma pesquisa da Economist/YouGov revelou que 80% dos entrevistados americanos consideravam a desigualdade de riqueza um problema, 80% afirmavam que os ricos detinham poder político excessivo e 78% consideravam os impostos sobre bilionários muito baixos.
Chegou a hora de taxar os ricos. Ou, como cantava Pete Seeger: “Vá com calma, mas pague”.
Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações e, portanto, sem a revisão dos autores. As opiniões expressas são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente as visões do ODTI. O texto original encontra-se no link do início.
Este texto argumenta que se a Inteligência Artificial trouxer os benefícios que promete, os patrões vão utilizá-la contra os trabalhadores. Usarão o ganho na produtividade para cortar empregos e degradar os empregos. Para o autor, um organizador sindical, a resposta dos trabalhadores não deve ser apenas defensiva, a luta sindical deve avançar em busca da redução do tempo de trabalho.
Nesse sentido a luta contra o regime de trabalho 6X1 que os trabalhadores brasileiros travam neste momento toma uma nova dimensão e importância. Existe uma certa descrença no movimento sindical brasileiro quanto à possibilidade de conquistarmos a semana de 40 horas de trabalho, o texto também argumenta pela viabilidade dessa luta. Trata-se portanto de um tema atual e importante.
O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto da página da Labor Notes que “desde 1979 tem sido a voz dos ativistas sindicais que desejam reinserir movimento no movimento sindical.”.
Ponto de vista: A resposta do movimento sindical à IA?
Devolvam-nos o nosso tempo.
Vishal Reddy
Quando se trata de IA, existe uma grande discrepância de ambição entre as empresas e os trabalhadores.
Se a IA inaugurar um boom tecnológico, as corporações pretendem usá-la para travar uma guerra total contra os trabalhadores. Elas usarão os ganhos de eficiência para cortar empregos humanos, vigiar os trabalhadores e degradar o trabalho. Mesmo que a IA não alcance suas altas (e talvez infladas) expectativas, a classe trabalhadora ainda poderá sofrer graves consequências, já que nossa economia e aposentadoria dependem cada vez mais de investimentos em IA.
Os trabalhadores sentem que as corporações armaram uma cilada para eles. Uma pesquisa recente do Pew Research Center indicou que a maioria dos trabalhadores se sente preocupada com a IA em seus locais de trabalho, com a ansiedade sendo maior entre os trabalhadores de baixa renda. Apenas 17% dos americanos acreditam que a IA terá um impacto positivo nos próximos 20 anos. Apesar desse temor coletivo, os 10 magnatas da tecnologia mais ricos aumentaram seu patrimônio líquido combinado em meio trilhão de dólares no ano passado, em grande parte com base em especulações sobre IA.
No entanto, em resposta a essas tendências preocupantes, os sindicatos e políticos aliados têm convergido, em grande parte, para soluções defensivas e focadas em processos. Os princípios de organização e negociação da AFL-CIO enfatizam ferramentas defensivas: transparência, consulta, salvaguardas processuais e desenvolvimento da força de trabalho.
Essas ferramentas são necessárias, mas insuficientes. Elas avançam muito lentamente em comparação com a velocidade de evolução da IA e exigem fiscalização constante durante a vigência do contrato. Mesmo que contem com amplo apoio, não conseguem gerar o entusiasmo em massa necessário para a ação coletiva.
Essas ferramentas estão focadas em preservar o pouco que os trabalhadores têm, em vez de lutar pelo que eles poderiam ganhar neste momento. Elas não mudarão fundamentalmente quem se beneficia do progresso tecnológico.
Então, como o movimento sindical pode garantir que o progresso tecnológico seja redefinido nos termos dos trabalhadores, e não nos termos dos oligarcas?
A Semana de trabalho de 32 horas
Talvez não possamos controlar a economia, mas podemos controlar nossa ambição. A ascensão da IA nos dá a oportunidade de definir uma agenda econômica que dê às pessoas a esperança de que a tecnologia melhorará suas vidas, e não as piorará.
Uma semana de trabalho de quatro dias e 32 horas, com salário e benefícios integrais, deve estar no centro dessa agenda ambiciosa. A demanda por jornadas de trabalho mais curtas mostra como os ganhos da tecnologia podem fluir para fora, e não apenas para cima. Se a promessa da IA é que ela vai “nos economizar tempo”, então ela pode nos devolver o tempo que temos no trabalho.
Nas últimas décadas, os sindicatos lutaram quase exclusivamente para redistribuir os ganhos econômicos aos trabalhadores na forma de dinheiro ou benefícios. Mas pode ser igualmente poderoso, ou até mais, distribuir os ganhos na forma de tempo, assim como quando os trabalhadores reivindicaram a jornada de oito horas.
Como observaram os historiadores do trabalho Phillip Foner e David Roediger em “Our Own Time: A History of American Labor and the Working Day” (Nosso Próprio Tempo: Uma História do Trabalho Americano e da Jornada de Trabalho), a história do trabalho sugere que a maneira mais eficaz para os trabalhadores exercerem controle sobre a tecnologia não é minimizar o papel da tecnologia no trabalho, mas sim minimizar o papel do trabalho na vida.
Na WorkFour — a campanha nacional por essa reivindicação — identificamos quatro áreas de influência que os sindicatos podem usar para conquistar semanas de trabalho mais curtas.
É urgente renovar essa luta agora. Os trabalhadores já se sentem inseguros em relação à IA, o que nos dá impulso, mas a escala do deslocamento real ainda é limitada — o que significa que nossa influência permanece intacta.
Sobrecarregados e Exaustos
A última redução real na jornada de trabalho ocorreu em 1940. Até então, a principal reivindicação do movimento trabalhista era menos trabalho: jornada de oito horas, semana de cinco dias, fim de semana e férias remuneradas. Após décadas de organização trabalhista militante, conquistamos o padrão de 40 horas semanais por meio da Lei de Normas Justas de Trabalho (Fair Labor Standards Act).
Desde então, a produtividade aumentou 400%, a participação das mulheres no mercado de trabalho cresceu, o setor de serviços se expandiu e ocorreu a revolução da informática. Mas o padrão da jornada de trabalho semanal permaneceu inalterado. Como resultado, famílias com dois provedores agora trabalham mais do que na década de 1960.
As famílias trabalhadoras pagaram o preço com menos tempo livre e mais estresse. O esgotamento profissional é generalizado, afetando especialmente os trabalhadores de baixa renda, os trabalhadores negros e os jovens. Todos os trabalhadores foram afetados pelo excesso de trabalho, devido a uma economia implacável e a uma rede de proteção social fragilizada.
É por isso que a jornada de trabalho é uma questão de sobrevivência, tão central para a qualidade ou acessibilidade do emprego quanto os salários e os preços. Se nos concentrarmos exclusivamente em garantir que os trabalhadores tenham mais horas ou salários mais altos, estaremos negligenciando a magnitude da exaustão e do esgotamento que a classe trabalhadora enfrenta e perdendo a oportunidade de conquistar algo à prova de inflação: mais tempo.
Uma economia que exige ainda mais horas apenas para sobreviver está falida e precisa ser reestruturada, não modificada. É por isso que aproximadamente 80% dos trabalhadores apoiam uma semana de trabalho de quatro dias, se isso significar nenhuma perda salarial.
Isso é viável?
Os trabalhadores querem; os trabalhadores precisam. Mas o mesmo salário por menos tempo de trabalho parece bom demais para ser verdade, certo? Como você propõe isso aos seus colegas de trabalho ou ao seu chefe sem ser ridicularizado? É improvável que os trabalhadores se mobilizem em torno de uma ideia utópica.
Bem, agora é uma situação comprovada e respaldada por evidências que beneficia tanto empregadores quanto empregados. Nos últimos cinco anos, centenas de organizações nos EUA instituíram uma semana de trabalho de quatro dias e 32 horas.
Em estudos-piloto anteriores na América do Norte, 97% dos empregadores mantiveram o novo horário após testá-lo, citando melhorias na produtividade, na receita (aumento de 30%), nas demissões (redução de 23%) e no absenteísmo (redução de 39%). Os trabalhadores relataram melhorias na saúde (40%), melhor equilíbrio entre vida pessoal e profissional (60%) e menor esgotamento profissional (69%).
A redistribuição do tempo também remodelou quem realiza o trabalho de cuidado e como. Nos projetos-piloto, os homens aumentaram sua participação nas tarefas domésticas em cerca de 28%, e os pais relataram mais tempo para cuidar dos filhos.
Embora a maioria das semanas de quatro dias até agora tenha sido liderada pelos empregadores, diversos sindicatos também conquistaram essa medida. Os trabalhadores da área elétrica na Flórida são um exemplo. Outro exemplo são os funcionários do governo local no Condado de San Juan, Washington, que conquistaram a semana de trabalho reduzida quando o condado alegou não ter condições de arcar com aumentos salariais significativos durante um período de inflação crescente.
Os trabalhadores de tecnologia do Kickstarter garantiram a sua em 2021, quando a Covid-19, a gestão favorável e a onda de demissões em massa lhes deram uma vantagem incomum nas negociações. Mas mesmo quando essas condições se inverteram em 2025, os trabalhadores do Kickstarter entraram em greve por 42 dias para defender sua semana de trabalho mais curta.
A semana de trabalho de quatro dias tem funcionado em diversos setores e tipos de trabalho, incluindo saúde e manufatura. Para empresas que empregam trabalhadores horistas, os empregadores formularam várias maneiras de garantir que os trabalhadores não percam salário líquido — incluindo convertê-los em assalariados, aumentar seu salário por hora ou creditar o quinto dia como folga remunerada.
Todos esses exemplos devem fornecer aos trabalhadores munição para apresentar um argumento crível e persuasivo na mesa de negociação.
Mesmo quando não é viável conquistar uma semana de 32 horas em uma única campanha contratual, vimos sindicatos obterem vitórias intermediárias, como a semana de 36 horas, um quinto dia de folga remunerado garantido a cada duas semanas ou as “Sextas-feiras de Verão”. Também vimos sindicatos implementarem essas mudanças gradualmente.
Impulsiona a militância
Há um consenso crescente no movimento sindical de que precisamos de sindicatos mais militantes e preparados para greves; dois ingredientes necessários são solidariedade e consciência de classe. A negociação pela semana de trabalho de quatro dias e 32 horas fortalece ambos.
Todo trabalhador consegue imaginar imediatamente: mais descanso, mais fins de semana prolongados, mais tempo para cuidar da família e participar da vida comunitária. Uma semana de trabalho de quatro dias pode unir trabalhadores de diferentes tipos de trabalho e salários, porque todos têm a ganhar.
A demanda também aguça a consciência de classe. De um lado, está uma classe trabalhadora sobrecarregada e esgotada; do outro, uma classe cujas vidas são repletas de lazer. Como disse Shawn Fain, presidente do sindicato United Auto Workers (UAW), os verdadeiros aproveitadores da nossa economia são os “mestres da renda passiva”, que lucram com o trabalho alheio.
Mesmo depois de 1940, existe um legado de trabalhadores que responderam às novas tecnologias com ações militantes para reconquistar seu tempo. Em 1960, os estivadores da Costa Oeste conquistaram uma redução da jornada de trabalho semanal de 40 para 35 horas, à medida que a tecnologia de conteinerização e a globalização remodelavam o trabalho portuário. Em 1994, 11.500 trabalhadores do sindicato UAW Local 599 entraram em greve em Flint para protestar contra o excesso de trabalho impulsionado pelas novas tecnologias de produção.
E, nos últimos três anos, vimos greves impactantes pela semana de trabalho de quatro dias e 32 horas, realizadas por trabalhadores das três grandes montadoras (embora não tenham conquistado essa reivindicação) e por trabalhadores da área de tecnologia no Kickstarter.
O Sindicato dos Trabalhadores de Tecnologia do New York Times também não teve sucesso na reivindicação, mas o fanzine do sindicato sobre o assunto mostra como ele abriu espaço para conversas sobre organização, questionando: “Como isso poderia funcionar aqui na prática? O que você faria com o seu dia extra? O que isso significaria para sua família?”. Os trabalhadores falaram sobre cuidado, descanso, comunidade e dignidade. Na preparação para uma greve, as conversas sobre esses temas aprofundam o comprometimento e o otimismo.
Essa reivindicação simples e significativa também pode unir trabalhadores de diferentes lojas, setores e sindicatos. Historicamente, reivindicações que transcendem contratos individuais podem levar a uma maior militância trabalhista e até mesmo a greves gerais.
Uma Reivindicação que Funciona
Além das negociações coletivas, a semana de trabalho de quatro dias e 32 horas também pode ser conquistada nas casas legislativas. Ela agrada tanto aos trabalhadores sindicalizados quanto aos não sindicalizados, ao contrário da maioria das reivindicações relacionadas à IA, baseadas em procedimentos específicos do local de trabalho.
Os sindicatos, com pouca influência nas negociações, podem ter maior poder como um bloco político ao fazer uma reivindicação que ressoa amplamente. Curiosamente, o apoio não é muito polarizado: como ideia política, essa reivindicação tem níveis relativamente altos de apoio público em todos os níveis de escolaridade, filiação partidária, gênero e raça.
Nos últimos cinco anos, legisladores apresentaram projetos de lei ou decretos locais para a semana de trabalho de 32 horas em 20 estados, bem como na Câmara dos Representantes e no Senado dos EUA. No ano passado, um legislador republicano no Maine e um socialista democrata em Nova York apresentaram projetos de lei para reduzir a semana de trabalho no mesmo mês. O projeto de lei apresentado no estado de Washington este ano foi apoiado pela Federação de Funcionários Públicos do Estado de Washington.
Uma semana de trabalho mais curta beneficiará os trabalhadores tanto em tempos de bonança econômica, quando os trabalhadores podem compartilhar os ganhos recuperando seu tempo livre; em tempos de recessão, quando jornadas mais curtas estabilizam o emprego, distribuindo o trabalho de forma mais equitativa; quanto em tempos normais, quando jornadas mais curtas tornam a mão de obra mais escassa, aumentando o poder de negociação dos trabalhadores.
Mas, além de qualquer justificativa econômica, o argumento mais convincente é o mais simples: os trabalhadores merecem mais tempo livre, mais descanso e mais controle sobre seu tempo.
Vishal Reddy é negociador sindical de trabalhadores de lares de idosos e diretor executivo da WorkFour, a campanha nacional para tornar a semana de trabalho de quatro dias e 32 horas o padrão para todos os trabalhadores. Ele pode ser contatado pelo e-mail [email protected]. As opiniões expressas são de sua autoria.
Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações e, portanto, sem a revisão dos autores. As opiniões expressas são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente as visões do ODTI. O texto original contem os links para as referências.
CSA e Central Operária Bolivariana debatem situação regional
Esta nota dá conta da reunião entre a Confederação Sindical das Américas e a Confederação Operária Bolivariana quando discutiram os grandes desafios da atual situação regional. Rafael Freire se solidarizou com o povo e os trabalhadores argentinos diante da agressão cometida pelo governo Trump.
Representantes da Central Operária Socialista Bolivariana da Cidade, do Campo e da Pesca (CBST-CCP) e da Confederação Sindical das Américas (CSA) reuniram-se para discutir a situação do movimento operário e os desafios enfrentados pela classe trabalhadora na região.
A CBST-CCP foi fundada em 2011 como parte do projeto bolivariano liderado pelo presidente Hugo Chávez. Desde então, a central tem servido como estrutura organizacional para a classe trabalhadora venezuelana, promovendo a organização sindical e a negociação coletiva em setores estratégicos como petróleo e energia elétrica.
Participaram do encontro Wills Rangel, presidente da CBST-CCP; Gerdul Gutiérrez, secretário de relações internacionais da central; e Rodolfo Martínez, secretário-geral do Sindicato dos Marinheiros. Representando a CSA, estiveram presentes Rafael Freire, secretário-geral; Marcelo Di Stefano, secretário de Fortalecimento e Organização Sindical; e Iván González, Coordenador Político da CSA.
Durante o encontro, foi reafirmada a importância de fortalecer a coordenação sindical regional, promover o diálogo entre as organizações de trabalhadores e avançar na defesa dos direitos trabalhistas e da democracia nas Américas. Rafael Freire reiterou o compromisso da CSA com a solidariedade ao povo e aos trabalhadores venezuelanos que sofreram a agressão militar e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama e congressista Cilia Flores pelo governo dos EUA.
Além de defender a soberania e a paz no país e na região, o Secretário-Geral da CSA defendeu o fortalecimento da unidade do movimento sindical nas Américas para enfrentar a ofensiva da extrema-direita na região.
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Este texto da página de opinião do New York Times traz uma perspectiva diferente sobre os horários de trabalho. Seus autores Matt Bruenig (advogado trabalhista) e Adelle Waldman (romancista) discutem os problemas que enfrentam os trabalhadores em tempo parcial e apresentam uma proposta para sua resolução.
Nestes tempos que o Brasil discute o regime de trabalho 6×1, pode ser interessante discutir os problemas de nossos (muitos) trabalhadores em regime de trabalho precário. Pensemos nest frase do texto> “Hoje em dia, a falta de trabalho se tornou um problema tão grande quanto o excesso de trabalho já foi”.
Americanos Estão Presos em Empregos de Meio Período Sem Futuro e Exploradores
Por Matt Bruenig e Adelle Waldman, publicado em 18 de março de 2026
O Sr. Bruenig é advogado trabalhista e fundador do People’s Policy Project. A Sra. Waldman é autora de “Help Wanted”, um romance sobre trabalhadores horistas em uma grande loja de departamentos.
O que vem à mente quando você pensa em trabalhar em meio período? Para os americanos que trabalham em empregos assalariados, o trabalho em meio período tende a ser visto como uma escolha, até mesmo um luxo, algo que aqueles que podem pagar podem buscar para passar mais tempo com os filhos, investir em educação ou simplesmente desfrutar de mais tempo livre. Mas para milhões de trabalhadores, o emprego em meio período se tornou uma armadilha.
Em todo o país, mais de 6,7 milhões de americanos dizem aos entrevistados que trabalham em empregos de meio período, não porque querem, mas porque não conseguem empregos de tempo integral. Para muitos trabalhadores, a falta de horas de trabalho causa mais dificuldades do que o salário por hora. É revelador que a plataforma do Target Workers Unite, um grupo de funcionários da Target que luta por melhores condições de trabalho, liste como sua primeira reivindicação não um salário maior, mas mais horas de trabalho. Sua segunda reivindicação? Horários mais estáveis.
A mudança do trabalho de tempo integral para o de meio período em muitas grandes empresas americanas nos últimos 20 anos decorre, em grande parte, da ascensão do que é conhecido como agendamento just-in-time. Em vez de garantir 40 horas semanais para a maior parte de seus funcionários, muitos grandes empregadores, que dependem fortemente de trabalhadores de baixa renda, contratam a maioria deles em meio período e, em seguida, agendam apenas o número mínimo necessário. Se o fluxo de clientes for maior do que o previsto, essas empresas têm um grande contingente de trabalhadores de meio período para convocar para turnos de última hora.
Os trabalhadores podem trabalhar quatro horas em uma semana e 30 horas na seguinte. Essa irregularidade salarial pode dificultar o progresso em outras áreas da vida, como a aprovação de contratos de aluguel e financiamentos de veículos. Também torna mais difícil ter um segundo emprego, já que os trabalhadores de meio período precisam estar disponíveis para maximizar as horas em seu primeiro emprego. Recusar um turno pode significar receber menos ofertas de turnos no futuro. De acordo com o Federal Reserve, adultos que trabalham em meio período por não conseguirem encontrar um emprego em tempo integral têm muito mais probabilidade de dizer que têm dificuldades para pagar as contas ou que não têm o suficiente para comer.
Tudo isso se resume a uma transferência de risco dos proprietários de empresas e acionistas para os trabalhadores com os menores salários do país.
Por décadas, legisladores e ativistas dedicaram muito mais atenção ao aumento do salário por hora do que à questão de quantas horas os funcionários trabalham. Por exemplo, os legisladores da cidade de Nova York, ecoando uma promessa de campanha do prefeito Zohran Mamdani, apresentaram recentemente um projeto de lei para aumentar o salário mínimo por hora pago por empregadores com mais de 500 funcionários, de US$ 17 atualmente para US$ 30 em 2030. Isso é bem intencionado,Mas como a renda depende tanto do salário por hora quanto do número de horas trabalhadas, melhorar a vida dos trabalhadores exige abordar ambos os aspectos. Um de nós trabalhou em uma grande loja de departamentos como parte da pesquisa para um romance sobre trabalho de baixa remuneração e viu isso em primeira mão. Mesmo um aumento de US$ 2 ou US$ 3 por hora não faz muita diferença se, em algumas semanas, você só tem um turno de quatro horas.
É por isso que nós — um romancista, um advogado trabalhista e um analista de políticas públicas — propusemos uma solução para garantir o direito federal ao trabalho em tempo integral para muitos trabalhadores atualmente relegados a empregos indesejáveis de meio período, simplesmente porque são os únicos disponíveis.
Especificamente, propomos que os trabalhadores de meio período que atuam em empresas com mais de 50 funcionários em tempo integral (ou equivalente) tenham a opção de trabalhar em tempo integral após três meses de emprego. Quando um trabalhador qualificado fizer tal solicitação, o empregador será obrigado a concedê-la, desde que isso não represente um ônus excessivo para a empresa (um padrão comum no direito trabalhista).
Tal direito estaria em consonância com a política trabalhista dos EUA desde o New Deal. A semana de trabalho de 40 horas, o salário mínimo federal e o direito ao pagamento de horas extras têm origem na Lei de Normas Justas de Trabalho de 1938 (Fair Labor Standards Act). A lei foi criada para combater o problema do excesso de trabalho. Naquela época, os empregadores exigiam jornadas de trabalho de 70, 80 horas ou até mais dos funcionários, sem oferecer um aumento na remuneração. A lei foi tão bem-sucedida que, hoje em dia, a maioria de nós considera a semana de trabalho de 40 horas como padrão. Agora, a subutilização da mão de obra tornou-se um problema tão grande quanto o excesso de trabalho já foi. Hoje em dia, a falta de trabalho se tornou um problema tão grande quanto o excesso de trabalho já foi.
Nossa proposta não é tão radical quanto possa parecer. Nosso sistema trabalhista há muito aceita que os empregadores devem equilibrar seus interesses de lucro com acomodações que proporcionem estabilidade e segurança aos trabalhadores. Diversas leis — a Lei dos Americanos com Deficiências (ADA), a Lei de Licença Familiar e Médica (FMLA) e os programas estaduais de indenização trabalhista — garantem aos funcionários o direito de trabalhar em tempo parcial ou tirar licença em caso de deficiência, doença ou crise médica na família. Essas leis também exigem que os empregadores atendam aos pedidos de retorno ao trabalho em tempo integral assim que a necessidade de licença ou jornada reduzida tiver passado.
Os empregadores justificam o uso de trabalhadores em tempo parcial insistindo que seus funcionários preferem a flexibilidade desse tipo de trabalho. Se isso for verdade, nada mudaria, já que a obrigação de fornecer jornada integral só entraria em vigor quando a pessoa fizesse um pedido nesse sentido. Além disso, como essa política afetaria todos os grandes empregadores, criaria condições equitativas, o que significa que as empresas que tratam seus funcionários de forma decente não precisariam mais temer perder para concorrentes mais implacáveis.
Essa iniciativa poderia ser politicamente atraente. Os políticos americanos que se mostram relutantes em aumentar impostos e gastos para reduzir a desigualdade e as dificuldades tendem a estar muito mais dispostos a usar regulamentações trabalhistas como a que propomos para ajudar a alcançar esses objetivos.
Os americanos sempre se orgulharam da crença de que vivemos em um país onde aqueles que estão dispostos a trabalhar duro podem viver dignamente. Estabelecer o direito ao trabalho em tempo integral ajudaria milhões de americanos a alcançar esse ideal.
Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações , e portanto sem a revisão dos autores. As opiniões expressas são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente as visões do ODTI. O texto original inteiro encontra-se no link do inicio.
A transformação digital da saúde já se tornou um campo estratégico de disputa global — e o Brasil corre o risco de ampliar sua dependência tecnológica se não avançar na soberania sobre dados, infraestrutura digital e inovação. O alerta foi o eixo central do webinário“Desenvolvimento, Tecnologias Digitais e o Risco de Vulnerabilidade em Saúde (Vulnerabilidade 4.0)”, realizado em 3 de março por pesquisadores e gestores da área.
Os números apresentados durante o debate revelam a dimensão da desigualdade tecnológica no setor. Hoje, 86% das patentes em saúde estão concentradas em apenas 10 países, enquanto 50 grandes corporações dominam a chamada saúde 4.0, sediadas em apenas 6 nações.
O professor Carlos Gadelha, coordenador do grupo de pesquisa “Desenvolvimento Sustentável, CT&I e CEIS” da Fundação Oswaldo Cruz e conselheiro do Projeto Brasil, afirmou que a digitalização da saúde criou um novo eixo de poder global.
Segundo ele, na atual geopolítica, soberania não se limita mais ao território físico. Dados e informação tornaram-se ativos estratégicos centrais, capazes de influenciar o sistema político, a economia e a própria democracia, indicou.
A preocupação ganha peso diante do crescimento acelerado do setor. O mercado global de saúde digital já se aproxima de US$ 1 trilhão, quase metade do valor do mercado mundial de medicamentos.
Dependência tecnológica
O diagnóstico apresentado pelos pesquisadores aponta uma forte dependência estrutural do Brasil e de outros países periféricos em relação à infraestrutura digital internacional.
Entre os dados destacados no encontro:
1/3 dos 500 supercomputadores mais potentes do mundo estão nos EUA
90% dos modelos de IA (inteligência artificial) seguem a lógica das grandes corporações
60% dos dados brasileiros não estão hospedados em instituições nacionais
83% das universidades utilizam servidores estrangeiros
Ao mesmo tempo, o setor público brasileiro já movimenta recursos relevantes: o gasto público em tecnologia da informação na saúde se aproxima de R$ 10 bilhões. Ainda assim, segundo os especialistas, esse investimento não tem se traduzido na mesma proporção em emprego qualificado, inovação nacional ou soberania tecnológica.
Para Gadelha, a agenda de digitalização em curso no Ministério da Saúde é robusta, mas precisa avançar em um ponto central: a governança pública dos dados. “Não há soberania em saúde sem controle público de dados estratégicos”, afirmou.
Dados de saúde: ativo econômico e político
A economista Helena Lastres, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, chamou atenção para outro aspecto pouco visível da digitalização: a captura econômica dos dados.
Segundo ela, informações de saúde muitas vezes são comercializadas ou exploradas sem conhecimento da população, em um ambiente global dominado por oligopólios digitais.
Lastres comparou o cenário atual ao processo de privatização das telecomunicações nas últimas décadas, que consolidou a divisão internacional do trabalho no setor tecnológico.
Sem regulação adequada, afirmou, países periféricos se tornam meros fornecedores de dadosenquanto as etapas mais valiosas — como desenvolvimento de algoritmos, softwares e plataformas — permanecem concentradas nos países centrais.
SUS como motor de desenvolvimento
Diante desse cenário, especialistas defendem que o SUS (Sistema Único de Saúde) pode assumir um papel estratégico na transformação digital do país.
A diretora científica do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, Monica Felts, destacou que o Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS) tem potencial para articular inovação científica, produção industrial e acesso universal.
Segundo ela, o poder de compra do Estado pode funcionar como alavanca para desenvolver tecnologia nacional, fortalecer a indústria e reduzir a dependência externa.
Felts citou a atualidade do pensamento do economista Celso Furtado, que defendia um modelo de desenvolvimento baseado em autonomia tecnológica e papel indutor do Estado.
Agenda digital do SUS
No campo das políticas públicas, o Ministério da Saúde apresentou iniciativas que buscam estruturar essa transformação digital sob governança pública.
Entre os projetos em andamento estão:
Meu SUS Digital, com diretrizes de segurança e soberania de dados
SAGE (Sala de Apoio à Gestão Estratégica), voltada à análise de dados para políticas públicas
Infraestrutura de Dados Espaciais da Saúde (IDE-MS)
Ampliação da Telesaúde para regiões com menor acesso
Desenvolvimento de projetos de inteligência artificial sob governança pública
A secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde, Ana Estela Haddad, ressaltou que proteger os dados em saúde é uma questão estratégica para o país. “A defesa dos dados em saúde é central para a soberania sanitária e para o desenvolvimento nacional”, afirmou.
Entre as prioridades, ela destacou a construção de uma nuvem soberana para os dados governamentais, além de iniciativas científicas como o programa Genoma Brasil.
A disputa pelo futuro da saúde
Para o epidemiologista Naomar de Almeida Filho, da Universidade Federal da Bahia, a digitalização da saúde exige não apenas tecnologia, mas também reflexão política e teórica. Segundo ele, o desafio é atualizar os princípios históricos do SUS — universalidade, integralidade e equidade — para o ambiente digital.
Isso significa garantir que a inovação tecnológica não amplie desigualdades, mas fortaleça o acesso à saúde, a justiça social e a sustentabilidade.
No centro deste debate está uma pergunta cada vez mais decisiva para as políticas públicas: quem controla os dados, os algoritmos e a infraestrutura da saúde no século XXI. E, como alertaram os especialistas, a resposta pode definir o futuro do SUS e da soberania sanitária brasileira.
Abaixo, você pode acompanhar a íntegra deste Webinário:
Neste texto o conhecido jornalista sindical americano, Mike Elk, se solidariza com o Brasil denunciando a pretensão trumpista de designar grupos criminosos brasileiros como “organizações terroristas”. O autor argumenta que além das possibilidades de interferência no Brasil que a medida propiciaria, ela também ajudaria a processar e deportar imigrantes brasileiros nos Estados Unidos.
O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto doPayday Report, cujo fundador e autor desta reportagem esteve recentemente no Brasil, Mike Elk é um jornalista indicado ao Emmy.
Trump interfere nas eleições presidenciais brasileiras ao rotular grupos brasileiros de “terroristas”
Mike Elk, publicado em 11 de março de 2026
SÃO PAULO, BRASIL – Muitos diriam que o Brasil é a maior democracia ainda de pé nas Américas. Ao contrário dos Estados Unidos, que não processaram Trump por tentar fraudar as eleições de 2020, o Brasil, no ano passado, condenou seu ex-presidente Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão por tentar assassinar Lula e orquestrar um golpe de Estado no país.
Com as eleições presidenciais brasileiras marcadas para outubro, o governo Trump está interferindo no pleito para derrotar o presidente Lula, um crítico de esquerda. Atualmente, as pesquisas mostram que Lula está em uma disputa acirrada com o senador Flávio Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro.
Agora, a campanha do governo Trump contra Lula está prestes a se intensificar.
Nesta semana, o site brasileiro UOL noticiou que o governo Trump pretende rotular as facções criminosas PCC e Comando Vermelho como “organizações terroristas”. Em 2025, o governo Trump solicitou que o governo Lula os designasse como tal, mas o governo Lula recusou.
Segundo a Folha de S.Paulo, o governo Lula realizou reuniões de emergência nesta semana, buscando maneiras de negociar com o governo Trump para evitar que os cartéis de drogas sejam rotulados como “organizações terroristas”.
Ao rotular os cartéis de drogas como “organizações terroristas”, Lula teme que os Estados Unidos possam impor sanções econômicas ao Brasil caso o país não tome medidas que atendam aos desejos extremistas do governo Trump.
O governo Trump também poderia forçar bancos internacionais a interromperem a participação no PIX, um popular serviço brasileiro de transferência eletrônica que permite transferir dinheiro sem pagar altas taxas. Muitos pequenos negócios se beneficiam por poderem evitar o custo das taxas de cartão de crédito.
No entanto, Trump há muito acusa o PIX de ajudar terroristas a transferir dinheiro. Instituições financeiras há tempos buscam entrar no mercado brasileiro de transferência de dinheiro, mas o baixo custo do PIX torna isso praticamente impossível.
A designação de grupos terroristas também poderia significar que o governo Trump poderia realizar ações militares diretas contra esses grupos dentro do Brasil. O governo Trump já conduz operações militares em países vizinhos, como Equador e Paraguai, e poderia facilmente expandir suas operações para o Brasil.
Rotular os grupos como terroristas permitiria ao governo Trump contornar o governo Lula e realizar ações militares diretamente com as forças da Polícia Militar controladas por governadores de direita alinhados a Jair Bolsonaro.
Em outubro, o governador de direita do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, usou a Polícia Militar sob seu comando para invadir uma favela controlada pelo PCC, matando 121 pessoas em uma ação denunciada pelo governo Lula como um “massacre”. Com o apoio militar dos EUA, governadores como Castro poderiam realizar incursões maiores e ainda mais letais com a assistência das Forças Armadas americanas.
Por fim, ao designar os grupos como terroristas, o governo Trump poderia deportar brasileiros nos Estados Unidos com mais facilidade, acusando-os de serem “narcoterroristas”.
No mês passado, em Pittsburgh, o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos) deteve Bruno Guedes da Silva, um brasileiro de 38 anos, pai de uma menina de 6 anos que está internada em um hospital recebendo tratamento contra o câncer. Silva foi detido pelo ICE apesar de possuir um visto de trabalho.
Posteriormente, o ICE acusou publicamente Silva de envolvimento no tráfico ilegal de armas para o Brasil. No entanto, uma investigação da emissora pública WESA, da NPR de Pittsburgh, não conseguiu encontrar nenhum mandado ou registro de envolvimento de Silva no tráfico de armas.
Atualmente, Silva está preso aguardando uma audiência do ICE. Enquanto isso, a comunidade de Pittsburgh se mobilizou para apoiá-lo, arrecadando mais de US$ 100.000 para ajudar sua família.
Somente em 2025, o governo Trump deportou 2.268 imigrantes. Ao rotular grupos como o PCC (Comando para a Cidadania do Brasil) e o Comando Vermelho como “organizações terroristas”, seria mais fácil para o governo Trump deportar imigrantes brasileiros como Silva, permitindo que cidadãos inocentes fossem enviados para prisões militares e tivessem seus direitos ao devido processo legal negados.
Com Lula contestando publicamente a pressão de Trump para rotular esses grupos como “organizações terroristas”, o governo Trump busca retratar o governo Lula como apoiador dessas facções criminosas extremamente impopulares. Essa estratégia é central para sua campanha de interferência, moldando a percepção dos eleitores durante a eleição.
Líderes sindicais no Brasil afirmam que a disputa é mais um sinal de que o governo Trump busca ajudar elementos fascistas a vencerem a eleição presidencial brasileira em outubro.
“Não há dúvida de que o governo Trump vai interferir em nossas eleições este ano”, disse Miguel Torres, presidente da Força Sindical, em entrevista ao Payday Report esta semana.
No ano passado, outro filho de Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, ex-deputado federal,Eduardo Bolsonaro fugiu para os Estados Unidos depois que ficou claro que ele estava prestes a ser indiciado no esquema de seu pai para assassinar Lula e fraudar a eleição presidencial brasileira.
O governo Trump concedeu abrigo a Bolsonaro nos Estados Unidos. Desde então, ele tem trabalhado em estreita colaboração com o governo Trump para coordenar planos sobre como os Estados Unidos poderiam influenciar a eleição presidencial brasileira.
Nesta semana, o Supremo Tribunal Federal do Brasil autorizou Darren Beattie, um funcionário do governo Trump, a visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro na prisão. Posteriormente, após objeções do governo brasileiro, o pedido foi negado.
Em fevereiro, Beattie foi nomeado por Trump como enviado especial para supervisionar as relações entre o Brasil e os Estados Unidos. Figura controversa, Beattie frequentemente defende ideias supremacistas brancas. Ele elogiou a eugenia e participou com frequência de conferências nacionalistas racistas.
“Homens brancos competentes devem estar no comando se você quiser que as coisas funcionem”, tuitou Beattie em 2024.
Beattie chegou a promover teorias da conspiração de que o Partido Trabalhista britânico fraudou as eleições parlamentares de 2024, que venceu com folga.
“O regime governante no Reino Unido é muito menos legítimo do que Saddam Hussein no Iraque antes da invasão americana — e, aliás, muito menos legítimo do que o regime de Maduro na Venezuela”, escreveu Beattie em 2024.
Agora, Beattie, que não fala português, queria se reunir diretamente com Bolsonaro, como mais um sinal de que Trump pretende tomar medidas extremas antes das eleições presidenciais brasileiras de outubro.
Enquanto o governo Trump se envolve profundamente na política brasileira, infelizmente, a maioria dos americanos não está prestando atenção. Líderes sindicais como Miguel Torres dizem que os americanos deveriam estar atentos.
“Sabemos que Trump vai ajudar Bolsonaro a tentar vencer esta eleição”, diz Torres. “O que precisamos é de solidariedade internacional para derrotar essas tentativas de minar a democracia brasileira.”
Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações , e portanto sem a revisão dos autores. As opiniões expressas são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente as visões do ODTI. O texto original inteiro encontra-se no link do início.
Foi celebrada, também, na ocasião, a cooperação institucional em tecnologia, dados e inteligência artificial
Paula Sampaio
O Fórum para Tecnologia Estratégica do Brics+, o Instituto para Cooperação Cultural e Econômica do Brics+ (IBrics+) e o United Service Institution of India (USI) assinaram um Memorando de Entendimento (MoU), em Brasília e Nova Delhi, para estabelecer uma base de cooperação acadêmica e institucional entre Brasil e Índia. O documento, cedido mediante requisição, registra a intenção das entidades de desenvolver iniciativas conjuntas voltadas ao fortalecimento da soberania digital, da segurança cibernética e da governança de dados entre países do chamado BRICS+ e do chamado Sul Global.
Segundo o documento, a proposta central é ampliar o diálogo estratégico e a cooperação em tecnologia, especialmente em temas considerados sensíveis para a segurança digital e a autonomia tecnológica dos países emergentes. No marco das tensões internacionais, essas iniciativas passam a ganhar peso crescente à medida que disputas geopolíticas se deslocam também para o campo da infraestrutura digital, da governança de dados e do desenvolvimento de tecnologias críticas.
Áreas prioritárias de cooperação
O acordo identifica algumas áreas consideradas estratégicas para colaboração entre as instituições. Uma delas é a soberania tecnológica, conceito que se refere à capacidade de um país controlar suas infraestruturas digitais, seus fluxos de dados e seus sistemas tecnológicos de acordo com suas próprias prioridades políticas e sociais.
No escopo da soberania tecnológica, a cibersegurança também emerge como uma área de destaque do memorando, voltada à proteção de sistemas digitais, redes e bases de dados contra acessos não autorizados, ataques ou manipulações que possam comprometer a estabilidade econômica e institucional.
O documento também prevê cooperação em governança de dados, que envolve a criação de políticas, estruturas e processos para garantir que informações digitais sejam utilizadas de forma segura, ética e em conformidade com a legislação.
Entre os pontos considerados mais estratégicos está a chamada defesa cognitiva, conceito ligado à proteção das sociedades contra campanhas de desinformação, manipulação psicológica ou operações informacionais que possam afetar processos decisórios ou a estabilidade social.
Por fim, de acordo com o texto escrito, o memorando inclui o compromisso de avançar em pesquisas sobre o uso ético da inteligência artificial, inclusive em contextos sensíveis como o setor militar, com foco em princípios de transparência, responsabilidade e respeito a direitos humanos.
Ações previstas e expectativas
Entre as iniciativas previstas no documento estão a participação conjunta em eventos internacionais, como fóruns e cúpulas dedicadas à inteligência artificial e à governança tecnológica. O memorando também menciona a possibilidade de indicação de especialistas para apresentações e debates em conferências internacionais.
Outra frente de cooperação envolve a realização de treinamentos técnicos, especialmente em áreas como coleta de dados digitais, com o objetivo de ampliar a capacidade técnica das instituições parceiras.
O acordo também prevê intercâmbio acadêmico e produção conjunta de pesquisas, incluindo a elaboração de uma monografia coletiva com artigos de pesquisadores das três instituições. Há ainda a proposta de estruturar uma agenda de pesquisa voltada à análise do uso da inteligência artificial em contextos de segurança e defesa.
Contexto internacional e cooperação Brasil–Índia
A assinatura do memorando ocorreu em um momento de transição na liderança do BRICS+. Após o período de presidência brasileira em 2025, a coordenação do grupo passa para a Índia. Assim, o objetivo do MoU é ser um instrumento de aproximação entre centros de pesquisa e instituições estratégicas brasileiras e indianas.
Esse movimento ocorre em um cenário internacional marcado pela expansão recente do BRICS+ e pelo crescente interesse de países do Sul Global em mecanismos de cooperação financeira, tecnológica e científica fora das estruturas tradicionais do sistema internacional. A ampliação do grupo trouxe novos atores e ampliou seu peso político e econômico, ao mesmo tempo em que impôs o desafio de coordenar agendas diversas dentro de uma coalizão cada vez mais heterogênea.
A presidência indiana busca reforçar áreas de cooperação consideradas estratégicas para o desenvolvimento do bloco, como inovação tecnológica, infraestrutura digital, sistemas financeiros alternativos e intercâmbio científico. A aproximação entre Brasil e Índia, duas das maiores democracias do Sul Global e economias centrais dentro do BRICS, tende a desempenhar papel relevante nesse processo, especialmente na articulação de iniciativas voltadas à soberania tecnológica, produção científica conjunta e governança de tecnologias emergentes.
Além disso, o Brasil e a Índia são dois dos casos mais bem-sucedidos de inovação pública em infraestrutura financeira digital entre países emergentes. No Brasil, o sistema de pagamentos instantâneos PIX, desenvolvido pelo Banco Central e lançado em 2020, transformou rapidamente o funcionamento do sistema financeiro ao permitir transferências em tempo real, com baixo custo e ampla integração entre instituições financeiras e usuários. Na Índia, o Unified Payments Interface (UPI), é uma infraestrutura digital de pagamentos que possibilita transferências instantâneas entre contas bancárias por meio de dispositivos móveis tal qual o nosso PIX, concebido como uma infraestrutura pública interoperável, permitindo que bancos, fintechs e plataformas digitais operem dentro de um mesmo ecossistema de pagamentos.
A grande expectativa continua continua sendo a construção de mecanismos financeiros próprios no interior do BRICS+, capazes de reduzir a dependência de infraestruturas controladas por instituições ocidentais através do New Development Bank (NDB), conhecido como o Banco dos BRICS. A cooperação entre Brasil e Índia, particularmente no contexto da transição entre as presidências, pode ser o empurrão que o bloco estava precisando.
Quem são instituições envolvidas
O Fórum para Tecnologia Estratégica do Brics+ é uma organização da sociedade civil sediada em Brasília que atua na promoção de estudos e debates sobre tecnologia, dados e políticas públicas voltadas à soberania digital e ao desenvolvimento tecnológico dos países do BRICS+ e do Sul Global.
Já iBRICS+ é um instituto de pesquisa voltado à análise de políticas públicas, governança internacional e cooperação econômica entre países emergentes, atuando na articulação entre academia, setor público e iniciativa privada.
A terceira instituição signatária é a United Service Institution of India, organização fundada no século XIX e sediada em Nova Délhi, especializada em estudos estratégicos, segurança nacional, relações internacionais e tecnologias emergentes, com forte atuação na formação de formuladores de políticas públicas e especialistas em defesa.
Paula Sampaio é jornalista graduada pela Universidade Estadual do Piauí (Uespi) e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI).
Este texto discute as formas de reviver nos Estados Unidos um movimento contra a guerra nos moldes do vitorioso movimento contra a guerra do Vietnã. Trata-se de uma discussão importante e que dá ênfase a duas questões importantes para a nossa reflexão aqui no Brasil: em primeiro lugar “idéia de que o que você faz não fará diferença”, ou seja da pouca utilidade da mobilização e mais uma, um pouco contraditória, a idéia de que é fácil, hoje, com as novas tecnologias, mobilizar os apoiadores, sem tentar atrair e convencer novas pessoas, sem contato pessoal, sem organização. Isso parece uma situação familiar, e num momento, que vai se tornando cada vez mais fundamental criar um forte movimento.
O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto do Labor Politics, um blog sobre “organização e política da classe trabalhadora”.
Por que não existe um movimento anti-guerra nos EUA?
A guerra de Trump contra o Irã é impopular, perigosa e está se intensificando. Mas, sem organização, a indignação pública não a deterá.
Eric Blanc, publicado em 9 de março de 2026.
A guerra de Donald Trump contra o Irã é extremamente impopular. Como observa o pesquisador G. Elliot Morris, é a guerra mais impopular da história dos EUA desde o seu início. E “com apenas 38% dos americanos a favor, o apoio ao bombardeio do Irã é menor do que o apoio retrospectivo à guerra no Iraque em 2014”.
Por que, então, houve tão poucos protestos coletivos contra a ofensiva EUA-Israel? Responder a essa pergunta não é fácil. O que se segue são sete hipóteses, e não conclusões definitivas. Mas explorar por que não temos um movimento anti-guerra hoje pode nos ajudar a começar a construir um. E, pelo bem dos iranianos, do Oriente Médio e dos trabalhadores nos EUA, é melhor que façamos isso o mais rápido possível.
1) Americanos se sentem impotentes. Uma das principais razões pelas quais tantos jovens na década de 1960 se lançaram na luta contra o envolvimento militar dos EUA no Vietnã foi que o movimento pelos direitos civis havia recentemente demonstrado o poder da ação em massa. Como dizia o manifesto de fundação da Students for a Democratic Society (SDS) em 1962, “a luta do Sul contra o preconceito racial… compeliu a maioria de nós do silêncio ao ativismo”. Olhando para trás, um participante lembrou que tais exemplos de sucesso “davam a sensação de que você realmente podia fazer a diferença, de que precisava se posicionar”.
Agora, o maior obstáculo que enfrentamos em nosso país é uma sensação generalizada de impotência. A líder da SDS, Bernardine Dohrn, estava certa ao ressaltar a diferença entre aquela época e o momento atual: “O que nos impede hoje, para mim, é a ideia de que o que você faz não fará diferença”.
Para superar esse sentimento de resignação, precisamos de mais exemplos inspiradores de lutas bem-sucedidas. A bem-sucedida resistência em massa de Minnesota contra o ICE, por exemplo, começou a energizar o ativismo em todo o país. O desafio agora é encontrar e ampliar campanhas de baixo para cima com chances de sucesso, como fazer com que nossas escolas rompam com o ICE ou que milhões de consumidores abandonem empresas como a OpenAI, que estão dando suporte à máquina de guerra de Trump. Provar na prática que temos poder em batalhas menores pode inspirar milhões a se juntarem à luta contra os piores horrores desta administração, tanto no país quanto no exterior.
2) As pessoas esperam que a guerra termine rapidamente. Como muitos outros, acordo todas as manhãs na esperança de ver uma manchete sugerindo que o sempre volúvel Trump decidiu declarar uma vitória rápida no Irã, como fez na Venezuela. Pelo menos, nesse caso, novas atrocidades contra civis seriam interrompidas.
Dado o desinteresse da administração em tentar fabricar consentimento para esta guerra e os óbvios riscos políticos do aumento dos preços da gasolina, tem sido difícil acreditar que Trump arriscaria tão voluntariamente sua presidência — para não mencionar as vidas de iranianos e militares americanos — em uma guerra longa.Intervenção armada sem um objetivo final claro. Mesmo assim, a guerra continua a se intensificar.
O fato de Trump ter agido tão rapidamente e com tão pouco respeito pela opinião pública deixou muitos de nós em estado de choque. Enquanto George W. Bush passou um ano tentando nos convencer a invadir o Iraque — desencadeando um processo deliberativo no qual protestos em massa poderiam intervir —, a rapidez de Trump e seu descaso com a opinião pública criaram pouco espaço para que os americanos deixassem de ser meros espectadores. Isso ajuda a explicar o paradoxo de por que uma guerra excepcionalmente impopular tenha recebido, até agora, tão poucos protestos em massa. Mas, enquanto a guerra continuar, espere que um número crescente de pessoas comece a tomar medidas coletivas.
E mesmo que Trump declare vitória nos próximos dias ou semanas, é improvável que isso impeça suas ambições imperialistas. Ainda precisaremos intensificar nossa mobilização contra a guerra para impedir a pressão do governo por uma mudança de regime em Cuba, seu financiamento contínuo a Israel, sua beligerância em relação à China — e para fazer da eleição presidencial de 2028, em parte, um referendo sobre os gastos militares descontrolados, as guerras imperialistas dos EUA e o apoio dos EUA ao Estado genocida de Israel.
3) Trump está fazendo tantas coisas horríveis. Em contraste com George W. Bush — cujas façanhas imperialistas eram seu foco singular — é fácil se sentir sobrecarregado pelos ataques generalizados de Trump e é difícil responder rapidamente a cada nova atrocidade. Nossas forças organizadas estão sobrecarregadas. Pessoalmente, tenho dedicado cerca de dez horas diárias de trabalho voluntário no último mês para apoiar a nova campanha Schools Drop ICE; não tive uma única hora extra para me organizar em torno de outra questão ultimamente, o que limita minha capacidade de participar de outros esforços essenciais, como a organização contra esta guerra.
A boa notícia é que os próximos protestos “No Kings” em 28 de março e o dia de interrupção em 1º de maio oferecem excelentes oportunidades para reunir todas as nossas reivindicações e lutas contra Trump. A oposição à guerra provavelmente será um dos principais pontos de discussão.sua beligerância em relação à China — e fazer da eleição presidencial de 2028, em parte, um referendo sobre gastos militares descontrolados, guerras imperialistas dos EUA e o apoio dos EUA ao estado genocida de Israel.
4) As pessoas confundem mobilização com organização. Mesmo que as próximas ações do “No Kings” e do Dia do Trabalho sejam massivas e denunciem a dominação imperial do Irã a Cuba e à Palestina, isso não significa necessariamente que reconstruímos um movimento poderoso contra o regime de Trump em geral ou suas guerras em particular. Um movimento é um movimento na medida em que pessoas comuns se organizam entre os protestos — em outras palavras, quando se envolvem ativamente para conquistar outras pessoas para a causa.
Um dos desafios da nossa era atual é que as tecnologias digitais tornam muito mais fácil levar os apoiadores existentes às ruas sem muita infraestrutura organizacional ou contato pessoal. Em outras palavras, as mídias sociais facilitam a mobilização. Mas, por outro lado, grandes protestos não demonstram tanto poder quanto antes, e sua preparação não constrói o mesmo tipo de relações no terreno e novas lideranças das quais os movimentos dependem para sua força.
O líder do SDS, Mark Rudd, está certo ao afirmar que os jovens de hoje “carecem de instrução sobre como realizar o árduo trabalho de organização interpessoal. Em vez disso, a juventude contemporânea fica apenas com as fotos icônicas dos protestos dos anos 60 — e com pouco entendimento do trabalho que inspirou tais protestos em primeiro lugar”.
Angela Davis explica isso ainda mais claramente:
As manifestações deveriam demonstrar o poder potencial dos movimentos. … Mas hoje em dia tendemos a pensar nesse processo de tornar o movimento visível como a própria essência do movimento. Se for esse o caso, então os milhões que voltam para casa após a manifestação concluíram que não se sentem necessariamente responsáveis por construir mais apoio para a causa.
É por isso que devemos encarar o 28 de março e o 1º de maio não como protestos isolados, mas como mecanismos para recrutar, integrar e treinar o máximo de pessoas possível para campanhas contínuas.
5) O sectarismo contribuiu para marginalizar o movimento pacifista. Em vez de construir a oposição mais ampla e profunda possível à ajuda militar e às intervenções dos EUA no exterior, grande parte do movimento pacifista nos últimos anos tem se apoiado em retórica e slogans alienantes e excessivamente radicais, ao mesmo tempo que vincula demandas amplamente apoiadas contra a guerra à romantização injustificada e contraproducente de todas as forças “anti-imperialistas”. Opor-se consistentemente ao imperialismo não exige justificar o assassinato de civis pelo Hamas ou a repressão da República Islâmica contra ativistas pró-democracia.
E, em vez de concentrar seus ataques em políticos como Trump, Biden e Schumer, que incentivaram ou permitiram atrocidades no exterior, uma quantidade estranhamente alta de energia ativista tem sido direcionada para denunciar autoridades eleitas como Alexandria Ocasio-Cortez. Embora ela nunca tenha votado a favor da ajuda militar dos EUA a Israel e tenha se oposto veementemente à guerra no Irã,
Infelizmente, o impacto e a continuidade de muitos acampamentos justos em solidariedade à Palestina foram prejudicados por uma retórica provocativa que oponentes cínicos poderiam facilmente deturpar, por um foco excessivo na “cultura de segurança” ativista e pela ausência de esforços concertados para conquistar e mobilizar a maioria nos campi universitários. A intensa repressão contra esses esforços valentes, mas relativamente isolados, inibiu a organização nos campi. Especialmente porque os estudantes são frequentemente a vanguarda da organização contra a guerra e contra o autoritarismo, reviver uma cultura de política de massas nas universidades continua sendo uma tarefa fundamental.
Revivendo um Movimento Contra a Guerra: Que medidas podemos tomar para ajudar a reviver um poderoso movimento contra a guerra nos EUA? De forma mais imediata, cada um de nós — e cada uma das organizações às quais pertencemos — pode se comprometer não apenas a participar das manifestações “No Kings” de 28 de março, mas também a se empenhar ao máximo para convidar nossos vizinhos, colegas de trabalho, colegas estudantes e membros da igreja a se juntarem a nós. Você pode aproveitar a oportunidade para perguntar o que eles acham da guerra com o Irã ou do ICE; observe como é absurdo que os EUA gastem quase um trilhão de dólares por ano em guerras enquanto pessoas comuns não conseguem sobreviver em casa; e então, de forma amigável, convide-os para se juntarem a você no protesto.
E não fale apenas com as pessoas que você sabe que já são de esquerda. A maioria dos americanos é fortemente contra essa guerra e simplesmente não sabe o que fazer a respeito. É hora de ampliar o alcance e romper com nossas bolhas. É isso que torna um movimento real. E é isso que pode desencadear o tipo de protesto pacífico em massa no trabalho, na escola e em outros lugares que Trump e a máquina de guerra não podem se dar ao luxo de ignorar.
Um segundo passo concreto que você pode dar é apoiar a campanha QuitGPT. Esse boicote ganhou um nível adicional de urgência — e conteúdo anti-guerra — depois que o Pentágono, há duas semanas, se recusou a aceitar as estipulações do contrato da Anthropic que impediam o uso de sua IA para vigilância em massa.
Mas também é preciso se empenhar ao máximo para alcançar nossos vizinhos, colegas de trabalho, colegas de estudo e membros da igreja, convidando-os a se juntarem a nós. Você pode aproveitar a oportunidade para perguntar o que eles acham da guerra com o Irã ou do ICE; observar como é absurdo que os EUA gastem quase um trilhão de dólares por ano em guerras enquanto pessoas comuns não conseguem sobreviver em casa; e então, de forma amigável, convidá-los para participar do protesto. E não fale apenas com as pessoas que você sabe que já são de esquerda.
A maioria dos americanos é fortemente contra essa guerra e simplesmente não sabe o que fazer a respeito. É hora de ampliar o alcance e romper com nossas bolhas. É isso que torna um movimento real. E é isso que pode desencadear o tipo de protesto pacífico em massa no trabalho, na escola e em outros lugares, que Trump e a máquina de guerra não podem se dar ao luxo de ignorar.
Assim como o movimento Tesla Takedown conseguiu forçar a saída de Elon Musk da Casa Branca, o QuitGPT também pode punir a OpenAI por permitir que uma máquina militar americana massacre meninas do ensino fundamental no Irã e acelere o mundo rumo à catástrofe. Diferentemente de muitos boicotes online, este é um esforço organizado com impacto mensurável, no qual as pessoas podem se envolver para ajudar a ampliar seu alcance. Segundo os organizadores do QuitGPT, mais de 4 milhões de pessoas já participaram do boicote.
Trump quer que acreditemos que somos impotentes para impedi-lo. Mas a realidade é que este é um regime amplamente impopular travando uma das guerras mais impopulares da história dos EUA. À medida que o número de mortos, os preços do petróleo e os custos para o contribuinte americano continuam a aumentar, os americanos buscarão cada vez mais maneiras de deter o derramamento de sangue. Uma ação coletiva em massa nessa direção já deveria ter acontecido há muito tempo.
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Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações , e portanto sem a revisão dos autores. As opiniões expressas são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente as visões do ODTI. O texto original inteiro encontra-se no link do início.
Um projeto pioneiro da Universidade de São Paulo (USP) está criando fábricas modulares de microchips, conhecidas como “pocket fabs”, visando reduzir a vulnerabilidade e dependência tecnológica brasileira. O tema foi debatido no Projeto Brasil pelo professor Marcelo Zuffo, da Escola Politécnica da USP e diretor do InovaUSP, que expôs como o Brasil despertou para a capacidade de produção de chips e de se posicionar com autonomia econômica e geopolítica no assunto.
Em entrevista no YouTube da TVGGN, contou com a participação dos jornalistas Luis Nassif e Sergio Leo e da economista Carla Beni, Zuffo apresentou a iniciativa da USP, que utiliza manufatura avançada, robótica e inteligência artificial para atender demandas específicas de setores como o automotivo e o aeroespacial.
O pesquisador detalhou o projeto das “Pocket FABs” (fábricas de bolso) liderado pela USP. Seus principais pontos incluem uma mudança de paradigma, com o conceito de “downsizing” ou “right sizing”, criando fábricas modulares, portáteis e sustentáveis em vez das tradicionais “Megafabs” que custam bilhões de dólares, descentralizando a produção com custos menores, contrapondo-se ao modelo global de megasfábricas dominado por cartéis internacionais.
Zuffo explicou que o custo por milímetro quadrado do chip é o mesmo, independentemente do tamanho da fábrica, o que justifica o modelo de menor escala para atender demandas específicas, como a indústria automotiva.
Os participantes explicaram a importância de o Brasil se posicionar estrategicamente com independência no setor, uma vez que os semicondutores impactam 40% do PIB mundial e que o Brasil está vulnerável a chantagens geopolíticas por depender de importações.
A economista Carla Beni expressou preocupação com o baixo investimento histórico do Brasil em Ciência e Tecnologia (apenas 0,02% do orçamento executado), e apontou a necessidade de se atingir investimentos como o sucesso da China, que investiu 2,5% ao ano do PIB por décadas.
Marcelo Zuffo narrou
que a USP busca projetar e fabricar chips quânticos e de Inteligência Artificial, utilizando altos níveis de robótica e automação para compensar a falta de mão de obra disposta a regimes de trabalho extremos, como os de Taiwan.
Além de focar na sustentabilidade e na soberania nacional, o projeto conta com parcerias entre academia, governo e setor industrial para reverter o déficit comercial de eletrônicos. O convidado destacou o apoio da FIESP, SENAI, MCTI e das Forças Armadas no desenvolvimento desse ecossistema.
O jornalista Luis Nassif defendeu que o Brasil tem capacidade técnica e massa crítica para inovar, combatendo o “viralatismo” na indústria e economia mundial.
Assista à íntegra do programa Projeto Brasil no YouTube:
O texto da notícia da greve de 24 horas convocada pelo principal sindicato de marinheiros da Grécia pedindo segurança e repatriamento das tripulações retidas devido à situação de guerra no Golfo Pérsico. O gesto, mais simbólico que efetivo, quer chamar atenção para os prejuízos da guerra. O lema do movimento é “Nenhum sacrifício por lucros e guerras”.
O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto da Reuters publicada no jornal The Straits Times, de Singapura.
Marinheiros gregos entram em greve em protesto contra tripulações no Golfo
Peranakan Bearista. PIireu, Grécia,publicado em 5 de março de 2026
Marinheiros gregos iniciaram uma greve de 24 horas na quinta-feira, paralisando os serviços de navegaçãolocais, em protesto contra a retenção das tripulações de embarcações no Golfo em meio à escalada da guerra no Oriente Médio. Eles exigiram que a área fosse declarada zona de risco de guerra para possibilitar sua repatriação.
O conflito com o Irã ameaça os portos do Golfo e já interrompeu o comércio global pelo Estreito de Hormuz, uma importante via navegável responsável por cerca de 20% do fornecimento mundial de petróleo e gás. Embora o Estreito não esteja própriamente fechado, o Irã alertou que abrirá fogo contra qualquer navio que tente passar.
A Grécia é uma força dominante no transporte marítimo global, controlando uma das maiores frotas mercantes do mundo. Mais de 325 navios de interesse grego, com suas tripulações incluindo dezenas de marinheiros gregos, estão na região do Golfo.
“Exigimos que todos os nossos colegas, atualmente na perigosa área do Golfo, no Golfo de Omã e no Mar Vermelho, sejam evacuados e repatriados em segurança”, disse Angelos Galanopoulos, dirigente do Sindicato dos Tripulantes de máquinas de baixa potência da Grécia, Stephenson.
Dezenas de manifestantes se reuniram em frente à sede do sindicato dos armadores, perto do porto de Pireu, e picharam no chão a frase: “Nenhum sacrifício por lucros e guerras”. Uma carreata de motocicletas seguiu até o Ministério da Marinha Mercante.
A Organização Marítima Internacional afirma estar preocupada com cerca de 20.000 marinheiros na região. Pelo menos nove navios foram danificados em greves desde o início do conflito no sábado.
Os marinheiros geralmente têm o direito contratual de se recusar a navegar em zonas de guerra designadas e exigir repatriação às custas do armador.
Dezenas de navios permaneceram ancorados em mar aberto, ao largo da costa dos principais produtores do Golfo, e dezenas de petroleiros estavam dentro do Estreito, segundo dados de rastreamento de navios.
Os riscos incluem não apenas ataques, mas também possíveis escassez de alimentos e suprimentos, afirmou Apostolis Kypraios, chefe do sindicato dos engenheiros navais PEMEN.
“O governo e os armadores são responsáveis pelas pessoas presas em áreas de guerra”, disse Kypraios. “Exigimos que encontrem uma solução para que nossos colegas possam voltar para casa. Suas famílias estão preocupadas e os marinheiros não sabem se voltarão vivos, se estarão feridos.”
Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificaçõe , e portanto sem a revisão dos autores. As opiniões expressas são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente as visões do ODTI. O texto original inteiro encontra-se no link do inicio.
Este texto ressalta uma tendência das multinacionais de movimentar a localização de suas plantas dentro de um mesmo país em busca de salários mais baixos. Essa tendência é ilustrada pela atuação da Nike, uma empresa que alega pagar salários dignos para seus trabalhadores, na Indonésia.
O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto da página da Pro Publica, uma entidade que tem por missão declarada “expor os abusos de poder e o abuso da confiança pública por parte do governo, das empresas e de outras instituições, utilizando a força moral do jornalismo investigativo para impulsionar a reforma através da divulgação contínua das irregularidades”.
A Nike quer que seus operários tenham um salário digno. Na Indonésia, a empresa expandiu suas operações para áreas onde os trabalhadores não conseguem isso.
Rob Davis, Nick McMillan e Matthew Kish, publicado em 03 de março de 2026
Destaques:
Salário digno: A Nike afirma que as pessoas que fabricam seus produtos devem ganhar o suficiente para viver com dignidade e ainda ter uma renda extra — ou seus empregadores devem ter um plano para garantir isso.
Mudanças no mercado de trabalho: A cadeia de suprimentos na Indonésia cresceu em locais onde o salário mínimo não atinge uma das principais estimativas para um salário digno, enquanto diminuiu em áreas com salários melhores.
Resposta da empresa: A Nike afirma que as regiões menos desenvolvidas onde opera não devem ser excluídas do crescimento econômico, acrescentando em um comunicado: “Crescimento e progresso andam de mãos dadas”.
Se você está entre os mais de 1 milhão de pessoas que fabricam os tênis e roupas da Nike ao redor do mundo, a empresa diz que você deve ser capaz de sustentar sua família. Você deve ganhar o suficiente para pagar suas despesas e ainda ter uma renda extra. Se o seu salário na fábrica não for suficiente, seu empregador deve ter um plano para garantir isso.
Mas a expansão da Nike na Indonésia na última década prejudicou diretamente esses objetivos, segundo uma análise da ProPublica e do The Oregonian/OregonLive.
Ao longo da última década, o emprego em fábricas que fornecem para a maior marca de vestuário esportivo do mundo cresceu drasticamente em regiões da Indonésia onde, de acordo com uma estimativa importante, o salário mínimo é inferior ao necessário para a subsistência dos trabalhadores. Enquanto isso, a cadeia de suprimentos da Nike encolheu no geral em locais que pagam esse salário mínimo melorado, constatou nossa análise.
A tendência mostra como a movimentação de corporações multinacionais para países com custos de mão de obra cada vez menores está sendo substituída, em alguns casos, por movimentações dentro do próprio país, que podem gerar economias significativas e melhorar os resultados financeiros.
Os fornecedores da Nike empregam 280 mil pessoas na Indonésia, o segundo maior centro de produção da empresa.
De 2015 até o ano passado, esses fornecedores eliminaram cerca de 36 mil empregos em locais onde o salário mínimo mensal é superior ou se aproxima do salário mínimo necessário para uma vida digna. Nessas áreas de altos salários, que incluem a capital Jacarta, o salário mínimo normalmente equivale a cerca de US$ 300 por mês.
Em contraste, a força de trabalho dos fornecedores da empresa cresceu em quase 112.000 pessoas em partes de Java Central e Ocidental, onde os salários mínimos locais geralmente giram em torno de US$ 165 por mês — muito aquém do que é considerado suficiente para viver. Dezenas de trabalhadores empregados por fornecedores da Nike na Indonésia disseram às agências de notícias que o salário mínimo é praticamente tudo o que ganham.
“Se a produção exige muita mão de obra, você vai para onde a mão de obra é mais barata”, disse Nurina Merdikawati, professora do Projeto Indonésia da Universidade Nacional da Austrália. Na Indonésia, disse ela, “esse lugar é Java Central”.
Outras marcas também se mudaram para Java Central e outras regiões de baixos salários da Indonésia nos últimos anos e continuam se expandindo por lá, conforme noticiado por veículos de imprensa locais.
Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações e exclusão de partes do texto, e portanto sem a revisão do autor. As opiniões expressas são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente as visões do ODTI. O texto original inteiro encontra-se no link do inicio.
O Projeto Brasil apresentou um debate sobre o fim da escala 6×1 e os impactos da redução da jornada de trabalho no Brasil. Os especialistas convidados refutaram argumentos empresariais alarmistas, demonstrando que a diminuição das horas trabalhadas pode reduzir desigualdades e aumentar a produtividade sem necessariamente prejudicar o PIB, ao contrário, melhorar a economia do país.
No programa da última semana, os jornalistas Luis Nassif e Sergio Leo e a economista Carla Beni receberam o técnico do IPEA Felipe Pateo e a socióloga Ana Claudia Cardoso.
A discussão enfatizou que a resistência do setor patronal baseia-se em uma lógica histórica de preservação de lucros e na subvalorização do tempo de lazer do trabalhador. O técnico do IPEA destacou que a redução da jornada é uma ferramenta para reduzir a desigualdade, já que os trabalhadores de 44 horas semanais recebem, em média, apenas 40% do salário daqueles que cumprem 40 horas.
“Todos os indícios levam a crer que há capacidade de absorção desse aumento decorrente da redução da jornada de trabalho”, afirmou Felipe Pateu. Ele rebateu o “alarmismo” sobre os custos, estimando que o aumento no custo da hora de trabalho seria em torno de 7,8% a 8%, algo que a economia brasileira já absorveu em aumentos reais do salário mínimo sem crises.
A socióloga observou que os argumentos contra a redução da jornada são os mesmos desde 1910. Ela criticou como o capital cria estratégias para “engolir” o tempo livre, como a hora extra e o banco de horas, que muitas vezes só interessam às empresas: “Por que essa conta sempre é feita como se o lucro fosse intocável?”, questinou Ana Claudia Cardoso.
Membro da bancada do Projeto Brasil, a economista e comentarista Carla Beni trouxe exemplos práticos de setores como hotelaria (Copacabana Palace) e farmácias (Pague Menos) que já estão ajustando suas escalas para 5×2 ou similares, muitas vezes por dificuldade em contratar mão de obra disposta a aceitar o regime 6×1.
Na linha do que apontou Ana Claudia, ela discutiu a mudança geracional, onde os jovens buscam propósito e felicidade, não apenas resultados, e criticou práticas corporativas extremas que visam apenas o lucro, como empresas que oferecem congelamento de óvulos para postergar a maternidade em nome da produtividade.
Além disso, os participantes comparam o cenário brasileiro com modelos internacionais, evidenciando que a flexibilidade do trabalho no país costuma favorecer apenas o capital. Nassif e Sérgio Léo afirmaram que o Brasil possui menos proteção ao emprego do que quase todos os países da Europa, desmistificando a ideia de que o trabalhador brasileiro é excessivamente protegido.
O debate concluiu que a melhoria das condições de emprego é essencial para a saúde mental e para a retenção de talentos em um mercado em transformação.
Assista à íntegra do episódio no YouTube da TVGGN:
Nesta nota, a Confederação Sindical Internacional dá conta da preocupação de seus sindicatos associados com as possíveis conseqüências da adoção generalizada da Inteligencia Artificial. Os sindicatos querem proteção contra a perda de direitos, de condições de trabalho e de empregos.
Uma justa preocupação, Cabe lembrar que a regulamentação brasileira sobre IA não tem uma linha sobre a sua influencia no emprego e nas condições de trabalho.
Sindicatos pedem medidas rigorosas de proteção da IA para os trabalhadores
A Confederação Sindical Internacional (CSI) expressou preocupação urgente com a adoção de tecnologias de inteligência artificial (IA) não regulamentadas em um fórum internacional sobre IA e trabalho, organizado pelo Ministério do Trabalho francês em Paris.
No fórum, representantes de governos, organizações internacionais, empresas multinacionais e parceiros sociais se reuniram para avaliar coletivamente como a IA está remodelando o mundo do trabalho.
Uma delegação de sindicatos franceses, europeus e internacionais, incluindo a CSI, expressou preocupação urgente sobre a forma como essas tecnologias estão sendo implementadas:
os temores de perda de empregos e deslocamento permanecem generalizados, juntamente com os crescentes riscos de intensificação do trabalho, vigilância intrusiva e erosão das condições de trabalho.
Também foram levantadas grandes preocupações em relação ao trabalho invisível da IA. Muitos dos trabalhadores que utilizam essas tecnologias, como rotuladores de dados e moderadores de conteúdo, frequentemente trabalham em condições precárias, com baixos salários e pouca proteção.
“Não podemos aceitar uma implementação de IA que gere lucros privados enquanto socializa os custos por meio de demissões em massa e deterioração das condições de trabalho. A IA deve beneficiar a todos, não apenas bilionários da tecnologia e acionistas corporativos.”
O secretário-geral da ITUC, Luc Triangle, enfatizou que a IA deve ser governada no interesse público: “Assim como as ondas anteriores de mudanças tecnológicas, a IA deve ser regulamentada. Os formuladores de políticas devem introduzir e aplicar fortes salvaguardas para evitar violações de direitos, discriminação e abusos. E, crucialmente, os sindicatos – como representantes democráticos dos trabalhadores – devem ter voz em como essas tecnologias são projetadas, implementadas e gerenciadas. A tecnologia deve trabalhar para os trabalhadores, não contra eles. “
”Espera-se que as conclusões deste fórum influenciem as discussões internacionais subsequentes sobre essas tecnologias, incluindo a próxima Cúpula de Ação de IA da Índia.”
Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações e exclusão de partes do texto, e portanto sem a revisão do autor. As opiniões expressas são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente as visões do ODTI.
BNDES, academia e gestores públicos defendem articular uma política industrial, inspirado em JK, com inovação, tecnologia e planejamento de 20 a 30 anos.
O Projeto Brasil apresenta um debate estratégico sobre a retomada do desenvolvimento industrial e tecnológico brasileiro, inspirado no histórico “Plano de Metas” de Juscelino Kubitschek. Especialistas discutiram a necessidade de políticas públicas integradas que unam ciência, inovação e sustentabilidade para superar décadas de estagnação econômica e desmonte institucional.
Os jornalistas Luis Nassif e Sergio Leo receberam três convidados de peso para debater o plano de metas ideal para o país: José Luis Gordon, diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do BNDES; Celso Pansera, ex-ministro e presidente da Codemar (Companhia de Desenvolvimento de Maricá) e Celso Pinto de Melo, titular do Departamento de Física da UFPE.
Nassif apontou que o exemplo de Juscelino Kubitschek e seu Plano de Metas servem como uma referência fundamental para o debate atual sobre o desenvolvimento brasileiro, especialmente na ideia de retomar o papel do Estado como indutor e orquestrador da economia.
Entraves: juros e investimentos do Estado
Entre os principais entraves citados, destacam-se as altas taxas de juros, o excesso de burocracia e a falta de investimentos perenes em pesquisa. Pansera enfatizou que as altas taxas de juros “arrebentam” a economia e que o excesso de burocracia dos órgãos de controle, como o TCU, trava a inovação e consome o tempo dos pesquisadores com preenchimento de formulários em vez de foco nos resultados.
O ex-ministro defendeu a necessidade de recursos perenes e volumosos para a ciência, sugerindo a meta de 2% do PIB para inovação, com foco em áreas onde o Brasil tem vocação.
Nesse sentido, relatou a experiência de Maricá, onde royalties do petróleo são usados para criar um Fundo Soberano e financiar um parque tecnológico, aeroporto e porto, transformando compras públicas em instrumentos de desenvolvimento regional e inovação.
Brasil voltou às ‘engrenagens do desenvolvimento’
Por outro lado, o diálogo enfatizou o papel indutor do Estado, por meio de órgãos como o BNDES e a FINEP, para fortalecer a soberania nacional. O diretor do BNDES afirmou que o atual governo está “religando as engrenagens do desenvolvimento”, reconstruindo as estruturas de planejamento e políticas públicas (como a Nova Indústria Brasil – NIB) que haviam sido esvaziadas.
Gordon destacou que o BNDES voltou a ser a “casa da indústria”, batendo recordes de apoio à inovação (R$ 36 bilhões) e oferecendo taxas incentivadas para que o empresário possa correr riscos tecnológicos.
Ele ainda explicou que políticas industriais sólidas estão fazendo multinacionais (como a Bosch e montadoras) deslocarem seus centros de Pesquisa e Desenvolvimento (PID) para o Brasil, gerando empregos qualificados.
Brasil deve integrar as “ilhas de excelência” em um “continente de inovação”
O professor titular da UFPE, Celso Pinto de Melo, propôs que o Brasil deve conectar suas “ilhas de excelência” científica em um sistema integrado, transformando um arquipélago isolado em um “continente de inovação”. Ele defendeu que polos de desenvolvimento tecnológicos como a Embrapa e a Embraer devam formar um continente produtivo interligado, utilizando áreas como bioeconomia e inteligência artificial para modernizar o país.
Inspirado pelo modelo chinês e por Mariana Mazzucato, o pesquisador defendeu que o Estado deve ser o indutor, definindo missões estratégicas (saúde, defesa, bioeconomia) e organizando as agências (BNDES, FINEP, universidades) verticalmente para cumprir essas missões.
Melo citou JK como exemplo de presidente que, mesmo sob ataques e crises, conseguiu articular um plano de Estado de longo prazo que elevou o ânimo nacional, algo que o Brasil precisa recuperar para ser uma nação soberana em vez de uma “colônia tecnológica”. O docente expôs que o desenvolvimento do país não pode ser um plano de governo de 4 anos, mas sim um projeto de Estado com horizonte de 20 a 30 anos.
Por fim, o debate ressaltou que o sucesso desse projeto depende de um planejamento de longo prazo e do resgate de um sentimento de otimismo e brasilidade.
Assista à íntegra do debate no programa Projeto Brasil, no YouTube do Jornal GGN:
Quais caminhos o Brasil precisa percorrer para garantir o acesso universal ao Sistema Único de Saúde (SUS) em meio à transformação digital e, ao mesmo tempo, fortalecer o desenvolvimento nacional com inovação e equidade? Esse é o debate que mobilizará o webinário “Desenvolvimento, Tecnologias Digitais e o Risco da Vulnerabilidade em Saúde (Vulnerabilidade 4.0)”, marcado para o dia 3 de março, das 10h às 12h, que será realizado online pelo Grupo de Pesquisa “Desenvolvimento Sustentável, CT&I e CEIS” (GPCEIS/CEE-ENSP/Fiocruz), parceiros do Projeto Brasil.
O encontro reunirá pesquisadores e autoridades que atuam na interface entre saúde pública, ciência, tecnologia e inovação: Ana Estela Haddad, Secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde (SEIDIGI/MS); Helena Maria Martins Lastres, Cocriadora e coordenadora da Rede de Sistemas e Arranjos Produtivos e Inovativos Locais (RedeSist/IE-UFRJ); Monica Felts de La Roca Soares, Diretora Científica do CNPq (DCTI/CNPq) e Naomar de Almeida Filho, Professor Titular de Epidemiologia do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA.
O webinário integra a série “Transformação Digital na Saúde Pública”, promovida pelo Centro de Estudos Estratégicos da Presidência da Fundação Oswaldo Cruz, iniciada em julho de 2024 e dedicada a discutir os rumos da saúde pública no contexto da revolução digital, entre eles:
• Políticas públicas voltadas ao acesso universal, à produção e à inovação local;
• Perspectivas da Economia Política de Dados e da soberania;
• Iniciativas em ciência, tecnologia e inovação para fortalecer a soberania sanitária;
• Potencialidades e desafios da transformação tecnológica a partir do olhar da saúde coletiva.
Para o pesquisador e coordenador do GPCEIS, Carlos Gadelha, conselheiro do Projeto Brasil, o encontro ocorre em um momento decisivo. Segundo ele, compreender os efeitos da digitalização sobre o sistema de saúde é fundamental para avaliar se essas mudanças ampliarão o acesso universal ou, ao contrário, poderão aprofundar vulnerabilidades e exclusões sociais no país.
Este texto nos fala da crise hídrica que ameaça a população brasileira. Nele são apontadas diversas medidas que ajudariam na solução do problema. Mas não se trata simplesmente de “uma mudança de mentalidade na população brasileira”, o Brasil precisa de uma mudança radical na nossa estrutura econômica, que cada vez mais se aprofunda num modelo neocolonialista, profundamente dependente da produção e exportação de bens primários.
O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto do The Ecologist que “é um site de notícias e análises ambientais com foco em justiça ecológica, social e econômica.
A crescente crise hídrica do Brasil
Monica Piccinini, publicado em 19 de fevereiro de 2026
Ao nascer do sol às margens do Rio Negro, os pescadores costumam falar da água como se ela estivesse viva. Eles leem os humores do rio, medem o tempo por seus níveis e marcam as estações do ano por suas correntes.
Por gerações, os cursos d’água da Amazônia moldaram o cotidiano. Agora, esses ritmos familiares estão se tornando mais difíceis de decifrar e confiar.
As florestas brasileiras fazem mais do que armazenar carbono; elas regulam os sistemas hídricos que sustentam rios, agricultura e cidades em toda a América do Sul.
Alimentos
À medida que o desmatamento e a degradação se aceleram, cientistas alertam que o país está entrando em uma crise hídrica oculta com consequências globais.
O Brasil é frequentemente descrito como uma nação moldada pela água. Ele detém aproximadamente 12% das reservas de água doce do mundo, enquanto a bacia amazônica forma o maior sistema de água doce da Terra.
O Cerrado, a vasta savana tropical do país, alimenta rios que abastecem cidades e a agricultura em toda a América do Sul.
No papel, o Brasil parece ter segurança hídrica. No entanto, cientistas alertam que essa segurança depende fortemente de ecossistemas que estão gradualmente perdendo sua capacidade de regular as chuvas e a vazão dos rios.
Augusto Getirana, cientista pesquisador do Laboratório de Ciências Hidrológicas do Centro Goddard da NASA, falando a título pessoal, explicou como os sistemas hídricos do Brasil influenciam o abastecimento global de alimentos.
“O Brasil é o maior produtor mundial de café, soja e carne bovina, entre outras commodities que dependem da água”, disse ele ao The Ecologist.
“Uma crise hídrica no Brasil que resulta em uma interrupção na produção interna de alimentos rapidamente se torna uma crise global. Vimos isso em 2021, quando os preços dessas commodities aumentaram substancialmente em todo o mundo.”
Luciana Gatti, pesquisadora sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), argumentou que o desmatamento e a degradação da Amazônia, impulsionados pela expansão agrícola brasileira voltada para a exportação, estão diretamente ligados à crise hídrica.
“Houve um enorme aumento nas exportações de madeira, carne bovina, soja, milho e minerais. Este é um projeto baseado na destruição da natureza para vender commodities primárias. Os sistemas hídricos são prejudicados por esses modelos de desenvolvimento, com graves consequências para os ecossistemas e para a população brasileira, enquanto concentram riqueza e poder nas mãos de grandes latifundiários.”
A rede hídrica do Brasil depende de uma delicada parceria entre a floresta amazônica e o Cerrado. Juntos, eles formam uma vasta rede hidrológica que transporta umidade pela atmosfera, armazena água subterrânea e estabiliza bacias hidrográficas em grande parte da América do Sul.
A redução do tamanho dos rebanhos bovinos ajudaria a diminuir a pressão ambiental e a instabilidade hídrica.
A insegurança hídrica no Brasil não se resume à diminuição das chuvas. Pesquisadores a descrevem como um enfraquecimento dos processos naturais de regulação climática, uma mudança gradual com consequências potencialmente de longo alcance.
Pesquisas da Universidade de São Paulo estimam que o desmatamento da Amazônia seja responsável por aproximadamente 74,5% da redução das chuvas e 16,5% do aumento da temperatura durante a estação seca.
A Amazônia desempenha um papel central no ciclo da água na América do Sul. As árvores absorvem a umidade do solo e a liberam na atmosfera, gerando correntes de ar úmido, frequentemente descritas como “rios voadores”.
Essas correntes de ar invisíveis transportam a água da chuva muito além da floresta, abastecendo regiões agrícolas, reservatórios e grandes centros urbanos. Por exemplo, uma grande porcentagem da água da chuva que abastece o sistema de Cantareira, em São Paulo, depende da umidade originária da Amazônia.
Para muitos brasileiros, essas correntes atmosféricas de água são invisíveis, mas seus efeitos influenciam o crescimento das plantações, o reabastecimento dos reservatórios e a navegabilidade dos rios.
Segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), em 30 de janeiro, o sistema de Cantareira operava com apenas 22% de sua capacidade.
Com a redução das florestas, cientistas alertam que esse processo de reciclagem da umidade se enfraquece. A redução da cobertura vegetal significa menos umidade no ar, as chuvas tornam-se mais irregulares e o fluxo dos rios cada vez mais instável. Algumas regiões enfrentam secas prolongadas, enquanto outras experimentam chuvas intensas em períodos mais curtos.
Pesquisadores afirmam que esses extremos não são anomalias isoladas, mas sinais de crescente estresse ecológico. O solo mais seco reduz a recarga dos aquíferos, enquanto os rios respondem de forma mais acentuada tanto à seca quanto às chuvas intensas.
Eventos climáticos de grande escala, como El Niño, La Niña e as condições quentes no Atlântico Tropical Norte (ANT), apenas agravam a situação, desencadeando inundações ou secas que se propagam pelos sistemas fluviais e aquíferos.
Ao longo dos cursos d’água da Amazônia, as comunidades já estão sentindo as consequências. Os estoques de peixes estão diminuindo, a água potável está cada vez mais escassa e as rotas de transporte fluvial são interrompidas durante as estações secas, isolando aldeias e restringindo o acesso a alimentos e suprimentos essenciais.
Cientistas alertam que esse processo de reciclagem da umidade está enfraquecendo. A redução da cobertura vegetal significa menos umidade no ar, as chuvas se tornam mais irregulares e o fluxo dos rios cada vez mais instável. Algumas regiões enfrentam secas prolongadas, enquanto outras experimentam chuvas intensas em períodos mais curtos.
A fonte de água negligenciada do Brasil
Embora a Amazônia frequentemente domine as manchetes, cientistas enfatizam que o Cerrado desempenha um papel igualmente crucial na manutenção do equilíbrio hídrico do Brasil. Abrangendo aproximadamente um quarto do país, o bioma alimenta importantes sistemas fluviais, incluindo os rios São Francisco, Paraná e Tocantins. Gatti destacou que o bioma Cerrado é fundamental para sustentar os sistemas hídricos e as bacias hidrográficas do Brasil: “O Cerrado contém cerca de 80% das bacias hidrográficas do Brasil. Ele funciona como uma floresta invertida, concentrada em sistemas radiculares profundos. Essas raízes permitem que a água da chuva se infiltre gradualmente e recarregue os aquíferos. “Quando ocorre o desmatamento, o sistema natural de amortecimento desaparece. A água da chuva não é mais absorvida adequadamente. O solo fica exposto e a água escoa em vez de penetrar no solo.”
Por gerações, comunidades rurais e indígenas dependeram desses córregos alimentados por águas subterrâneas para a agricultura, a pesca e práticas culturais ligadas aos ciclos sazonais da água.
Mas o Cerrado está desaparecendo rapidamente. O cultivo de soja, a pecuária e a monocultura em larga escala substituíram vastas áreas de vegetação nativa. Culturas com raízes superficiais capturam menos água, reduzem a recarga dos aquíferos e aceleram a erosão do solo. Córregos que antes sustentavam comunidades agrícolas rurais estão diminuindo ou desaparecendo completamente.
A crescente pressão industrial do setor agrícola brasileiro tornou-se um pilar do crescimento econômico, mas também intensificou a pressão sobre os recursos hídricos.
A demanda por irrigação está aumentando, enquanto fertilizantes e pesticidas frequentemente escoam para os sistemas fluviais, poluindo a água, o solo e a vida selvagem. Globalmente, a agricultura responde por 70% do uso de água doce, um padrão refletido na expansão do agronegócio brasileiro.
Gatti enfatizou o papel da demanda internacional por commodities na perpetuação do desmatamento: “É hipócrita culpar apenas o Brasil por não combater o desmatamento enquanto países como os Estados Unidos, os da Europa, a China, o Reino Unido e outros continuam comprar produtos ligados ao desmatamento.
“Se parassem de comprar madeira, carne, soja, milho e minerais produzidos em áreas desmatadas, o desmatamento poderia acabar muito rapidamente.”
Os incêndios introduzem outra camada de risco. As paisagens queimadas absorvem e liberam água de forma desigual, aumentando o risco de inundações durante os períodos chuvosos e agravando as condições de seca durante os meses secos. Incêndios repetidos estão alterando a composição da floresta em partes da Amazônia, potencialmente enfraquecendo a geração de chuvas ao longo do tempo.
Gatti disse: “Em 2024, a Amazônia registrou suas maiores emissões de carbono da história, em grande parte devido aos incêndios. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) do Brasil considera as emissões dos incêndios na Amazônia como líquidas zero em sua metodologia oficial. No entanto, os incêndios representam a maior fonte de emissões de carbono da Amazônia.”
Em 2024, incêndios queimaram 3,3 milhões de hectares da Amazônia, liberando aproximadamente 791 milhões de toneladas de CO₂.sobre o que a Alemanha emite em um ano. Pela primeira vez, a degradação florestal causada por incêndios ultrapassou o desmatamento como a principal causa de emissões de carbono na Amazônia.
As atividades de mineração pressionam ainda mais os sistemas hídricos. Os cursos dos rios são, por vezes, desviados, florestas são derrubadas e os cursos d’água são contaminados com produtos químicos, reduzindo a quantidade de água doce potável disponível para consumo, pesca, agricultura, transporte e ecossistemas.
Cientistas alertam que, se o desmatamento e a degradação dos ecossistemas continuarem, o fluxo dos rios e os padrões de chuva poderão se tornar progressivamente menos previsíveis, ameaçando a agricultura e o abastecimento de água urbano.
O Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH) descreve esse desafio emergente como “falência hídrica”, uma situação em que a água doce é consumida mais rapidamente do que a natureza consegue repô-la.
Especialistas alertam que o acesso desigual à água pode aprofundar a desigualdade social, alimentar a migração e aumentar o risco de conflitos em regiões vulneráveis.
Apesar das crescentes evidências científicas, a escassez de água ainda é amplamente percebida como um problema distante ou regional em um país historicamente definido pela abundância.
Ao mesmo tempo, as decisões políticas estão remodelando os próprios rios. Assinado pelo presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva em agosto de 2025, o Decreto 12.600/2025 adicionou os rios Tapajós e Tocantins (estado do Pará), bem como o rio Madeira (estado do Amazonas), ao plano de privatização do Brasil para expandir a navegação ao longo do Arco Norte.
Hidrólogos e comunidades ribeirinhas alertam que a dragagem dos leitos dos rios e a remoção de rochas para manter essas rotas abertas para embarcações de carga maiores podem perturbar o movimento de sedimentos e os padrões sazonais de cheias.
Em uma bacia já pressionada por secas cada vez mais intensas, essas mudanças podem comprometer ainda mais a segurança hídrica dos ecossistemas e das pessoas que dependem deles.Ao mesmo tempo, decisões políticas estão remodelando os próprios rios
Getirana destacou que a crescente crise hídrica do Brasil está enraizada em práticas políticas e culturais de longa data: “Muitas das decisões políticas e econômicas do Brasil foram baseadas na ideia de que o país é rico em água”.
Decisões políticas equivocadas que resultaram em impactos negativos no meio ambiente e na disponibilidade hídrica não estão relacionadas a partidos ou ideologias. Trata-se da cultura do país. Isso acontece há décadas, talvez séculos, independentemente de quem esteja no poder. A má gestão da água está enraizada na cultura brasileira.
Uma mudança política exige, antes de tudo, uma mudança de mentalidade na população brasileira. Talvez uma maneira de mudar essa mentalidade seja demonstrando como a má gestão está impactando seus meios de subsistência e suas finanças.”
Gatti também alertou que, no Brasil, a pesquisa científica é frequentemente negligenciada no desenvolvimento de políticas: “As evidências científicas não estão chegando aos tomadores de decisão. As promessas de desmatamento zero até 2030 correm o risco de chegar tarde demais, porque partes da Amazônia podem já estar se aproximando de pontos de inflexão ecológicos.
Embora o Brasil tenha passado por mudanças políticas na liderança, as políticas estruturais de uso da terra que impulsionam o desmatamento permaneceram praticamente inalteradas.”
Recuperação
Apesar da crescente preocupação, alguns cientistas enfatizam que a recuperação ainda é possível.
Gatti explicou que diversas medidas poderiam fazer uma diferença considerável para a segurança hídrica do Brasil: “O desmatamento zero em todo o país até 2027, e não apenas na Amazônia, é essencial para estabilizar os sistemas de chuva e água.
Reduzir o tamanho dos rebanhos bovinos, estabelecer limites para a monocultura em larga escala e exigir a restauração florestal em áreas agrícolas ajudariam a reduzir a pressão ambiental e a instabilidade hídrica.
Expandir os sistemas agroflorestais em larga escala poderia ajudar a restaurar o equilíbrio ecológico, mantendo a produtividade agrícola.”
Getirana argumentou que a reforma da governança da água deveria ser o primeiro passo para restaurar a estabilidade hídrica do Brasil: “Acredito que a reforma da governança da água seria a base para outras medidas, como a recuperação de terras degradadas e o combate às mudanças climáticas. Além disso, políticas que impeçam a poluição da água poderiam ter impactos quase imediatos.”
Alguns pesquisadores estão examinando se o reconhecimento dos rios como entidades vivas poderia proporcionar uma proteção ambiental mais robusta. Um projeto liderado pela Universidade de Leeds está explorando como tais marcos legais poderiam ajudar a prevenir a poluição, o desmatamento e a superexploração industrial.
Para as comunidades ao longo do Rio Negro e em todo o interior do Brasil, a crise já é profundamente pessoal. Os rios estão menos previsíveis, os padrões de chuva estão mudando e a qualidade da água está diminuindo. Suas experiências diárias refletem uma realidade mais ampla: o futuro hídrico do Brasil depende da sobrevivência dos ecossistemas que o sustentam.
Proteger as florestas brasileiras pode, em última análise, determinar não apenas o futuro ambiental do país,mas a estabilidade dos sistemas hídricos dos quais milhões de pessoas dependem diariamente. A autora,
Monica Piccinini, é colaboradora regular da revista The Ecologist e escritora freelancer especializada em questões ambientais, de saúde e de direitos humanos.
Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações e exclusão de partes do texto, e portanto sem a revisão do autor. As opiniões expressas são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente as visões do ODTI.
Entre as referências do texto as que se seguem são de grande interesse para o entendimento do problema. As demais citações devem ser buscadas no texto original.
O atual presidente do Clube de Engenharia (Rio de Janeiro/Brasil), o engenheiro Francis Bogossian, conselheiro do Projeto Brasil, conversa com Luis Nassif sobre o papel da Engenharia brasileira para o desenvolvimento do país e a necessidade urgente de retomar grandes projetos de infraestrutura.
“Não há desenvolvimento sem engenharia e não há engenharia sem desenvolvimento“, resume. Na conversa, ele destaca que “a Engenharia está em todos os setores do desenvolvimento“, incluindo áreas como a medicina.
O especialista critica o atual modelo de licitações focado apenas no menor preço, defendendo que a priorização da qualidade técnica é essencial para a segurança e inovação tecnológica do país. Segundo ele, o foco deveria ser o “melhor preço“, definido como aquele que permite oferecer um “serviço de qualidade, durabilidade, segurança, responsabilidade social“.
Boghossian, que é fundador da empresa Geomecânica, que se dedicou a estudos de plataforma de produção de Petróleo para a Petrobrás desde 1973, lamenta o desmantelamento de grandes construtoras após a Operação Lava Jato e a perda de soberania em serviços especializados, como os da Petrobras.
“O objetivo foi acabar com a capacidade da engenharia brasileira“, afirma.
Uma das sugestões centrais de Boghossian é a criação de uma estrutura governamental específica, uma espécie de “Ministério da Engenharia”, para coordenar políticas industriais e científicas, coordenar licitações, o ensino da área e o uso de novas tecnologias, como a utilização estratégica da Inteligência Artificial.
A Luís Nassif, o engenheiro enfatiza que o progresso nacional é indissociável da valorização da engenharia em setores que vão da bioeconomia à medicina, e reforça a importância de projetos executivos rigorosos para evitar o desperdício de recursos públicos e garantir o crescimento sustentável.
A entrevista com Francis Boghossian, presidente do Clube de Engenharia e conselheiro do Projeto Brasil, está disponível no YouTube do Jornal GGN, confira:
Economista Carla Beni explica como a desdolarização avança de forma gradual, com mais ouro, Yuan e com moedas digitais fora da órbita dos EUA.
O Brasil no processo de desdolarização? Especialistas contam como o fenômeno está ocorrendo na economia brasileira e internacional. Para explicar o tema, o Projeto Brasil recebeu a economista Carla Beni, conselheira do Corecon-SP (Conselho Regional de Economia de São Paulo) e professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
A especialista afirma que a desdolarização, com a redução da quantidade de dólares estocados nas reservas internacionais, sendo substituídos por ouro ou outras moedas, como o Yuan chinês, já é visível. Segundo os dados do Banco Central, ela destaca que, entre 2018 e o final de 2024, a participação do dólar nas reservas brasileiras caiu de aproximadamente 90% para 78,45%, enquanto a moeda chinesa subiu de zero para 5,3% e o ouro saltou de 0,75% para 3,55%.
A convidada aponta que a confiança no dólar foi abalada por eventos como a pandemia e as sanções contra a Rússia, que impulsionaram a criação de sistemas de pagamento alternativos ao Swift, liderados por China e Rússia. Ela menciona que o Brasil já realiza pagamentos diretos em Yuan, evitando a “triangulação” pelo dólar através de acordos bilaterais entre bancos centrais.
Apesar do movimento de queda, ela concorda com o termo “desdolarização gradual e limitada”, pois os Estados Unidos ainda possuem um enorme poderio econômico e os países credores, como a China, têm cautela para não desvalorizar seus próprios estoques de títulos da dívida americana.
O papel do ouro e as moedas digitais
Beni observa uma tendência global de aumento das reservas em ouro como proteção contra possíveis sanções internacionais. Além disso, ela projeta que o futuro do comércio internacional passará pelas moedas digitais estatais, citando o desenvolvimento do Drex no Brasil e do Yuan digital.
A economista apontou que o gatilho para muitos países, incluindo o Brasil, foi a observação de sanções impostas contra países como a Rússia e a Venezuela. Ao ver que reservas em dólares poderiam ser congeladas ou bloqueadas por decisões políticas de governos estrangeiros (como os Estados Unidos), as nações passaram a buscar ativos que não pudessem ser sancionados, sendo o ouro a principal alternativa de segurança.
Esse cenário impulsionou a diversificação das reservas para evitar a dependência total do “privilégio exorbitante” do dólar. Por isso, expôs Carla, o ouro é utilizado para substituir o estoque de dólares nas reservas internacionais.
Esse não é um movimento isolado do Brasil, acrescentou a professora. Trata-se de um fenômeno internacional onde diversos bancos centrais estão “juntando ouro nos cofres” para se protegerem de possíveis instabilidades no sistema financeiro tradicional e no sistema de pagamentos Swift.
A alternativa é, também, o sistema de pagamentos independentes. Para reduzir a dependência do sistema Swift, a China e a Rússia desenvolveram seus próprios sistemas de pagamentos internacionais, que são descritos pela convidada como muito mais ágeis que o modelo tradicional. O movimento evita a chamada “triangulação do dólar”, permitindo que as trocas comerciais ocorram diretamente entre as moedas locais (como Real e Yuan).
Os participantes apontaram que existe, ainda, uma discussão sobre o desenvolvimento de um sistema similar ao Pix entre os países dos BRICS, o que facilitaria transferências e pagamentos imediatos em moedas locais. O futuro do comércio dentro desse bloco deve passar pelas moedas digitais emitidas pelo Estado, como o Drex no Brasil e o Yuan digital. Diferente das criptomoedas, essas moedas possuem emissão estatal e devem tornar o comércio internacional entre esses países ainda mais dinâmico.
Esta notícia dá conta da luta dos trabalhadores em saúde da Califórnia contra a utilização da inteligência artificial nas empresas de saúde, relatando os usos atuais da tecnologia e os seus riscos futuros. Trata-se portanto, de uma das primeiras lutas sindicais contra a IA e que, provavelmente, terá tanta repercussão quanto a vitoriosa luta dos escritores de enredos contra os estúdios em Hollywood. Os sindicatos brasileiros devem ficar atentos ao uso dessas tecnologias na empresas para substituir trabalhadores.
O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto do jornal Los Angeles Times, o conhecido jornal californiano.
Uma das primeiras batalhas trabalhistas da Califórnia sobre IA está acontecendo na Kaiser Permanente
Por Queenie Wong, repórter do Los Angeles Times. Publicado em 6 de fevereiro de 2026
Trabalhadores da Kaiser Permanente, incluindo terapeutas e profissionais de saúde mental, estão exigindo proteção contra a IA, à medida que o sistema de saúde expande o uso da tecnologia.
A Kaiser afirma que a IA reduz a burocracia, ajudando os médicos a se concentrarem no atendimento ao paciente, mas os trabalhadores argumentam que isso pode levar à perda de empregos e danos aos pacientes. Quase metade dos profissionais de saúde comportamental da Kaiser no norte da Califórnia se sente desconfortável com as ferramentas de IA.
Trabalhadores de um dos sindicatos mais poderosos da Califórnia estão formando uma frente inicial para a batalha contra a inteligência artificial, alertando que ela pode eliminar empregos e prejudicar a saúde das pessoas. Como parte das negociações com seu empregador, os funcionários da Kaiser Permanente têm se manifestado contra o uso de IA (Inteligência Artificial) pela gigante provedora de serviços de saúde.
Eles estão elaborando reivindicações em torno dessa questão e de outras, utilizando piquetes e greves de fome para ajudar a persuadir a Kaiser a usar a poderosa tecnologia de forma responsável. A Kaiser afirma que a IA poderia livrar os funcionários de tarefas tediosas e demoradas, como fazer anotações e preencher formulários. Os trabalhadores dizem que isso poderia ser o primeiro passo em uma espiral descendente que levaria a demissões e danos à saúde dos pacientes. (…)
“A IA não substitui a avaliação e o cuidado humanos”, disse Candice Lee, porta-voz da Kaiser, em um e-mail. “A inteligência artificial tem um potencial significativo para beneficiar a área da saúde, apoiando diagnósticos melhores, aprimorando o relacionamento entre paciente e médico, otimizando o tempo dos profissionais de saúde e garantindo equidade nas experiências de atendimento e nos resultados de saúde, atendendo às necessidades individuais.”
Os receios em relação à inteligência artificial estão abalando diversos setores em todo o país.
Assistentes administrativos da área médica estão entre os mais expostos à IA, de acordo com um estudo recente da Brookings Institution e do Center for the Governance of AI. Esses assistentes realizam o tipo de trabalho em que a IA está se tornando cada vez mais eficiente. Ao mesmo tempo, eles têm menos probabilidade de possuir as habilidades ou o apoio necessários para a transição para novos empregos, segundo o estudo.
Existem milhões de outros empregos que estão entre os mais vulneráveis à IA, como escriturários, corretores de seguros e tradutores, de acordo com a pesquisa divulgada no mês passado.
Na Califórnia, sindicatos trabalhistas pressionaram o governador Gavin Newsom e os legisladores esta semana para que aprovem mais leis para proteger os trabalhadores da IA. A Federação Sindical da Califórnia (California Federation of Labor Unions) patrocinou um pacote de projetos de lei para abordar os riscos da IA, incluindo a perda de empregos e a vigilância.
A tecnologia “ameaça destruir os direitos dos trabalhadores e causar desemprego em massa”, afirmou o grupo em uma carta conjunta com líderes da AFL-CIO em diferentes estados. A Kaiser Permanente é a maior empregadora privada da Califórnia, com cerca de 19.000 médicos e mais de 180.000 funcionários. Ela tem uma presença significativa em Washington, Colorado, Geórgia, Havaí e outros estados.
O Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Saúde (National Union of Healthcare Workers), que representa os funcionários da Kaiser, esteve entre os primeiros a reconhecer e responder à invasão da IA no ambiente de trabalho. À medida que negocia melhores salários e condições de trabalho, o uso de IA também se tornou um novo e importante ponto de discussão entre trabalhadores e administração.
A Kaiser já utiliza software de IA para transcrever conversas e fazer anotações entre profissionais de saúde e pacientes, mas os terapeutas têm preocupações com a privacidade em relação à gravação de comentários altamente sensíveis. A empresa também usa IA para prever quando pacientes hospitalizados podem apresentar piora em seu quadro clínico. Ela oferece aplicativos de saúde mental para seus beneficiários, incluindo pelo menos um com um chatbot de IA.
No ano passado, profissionais de saúde mental da Kaiser fizeram uma greve de fome em Los Angeles para exigir que a operadora de saúde melhorasse seus serviços de saúde mental e o atendimento ao paciente.
O sindicato ratificou um novo contrato que abrange 2.400 funcionários de saúde mental e medicina de dependência química no sul da Califórnia no ano passado, mas as negociações continuam. Eles querem que a Kaiser se comprometa a usar a IA apenas para auxiliar, e não para substituir, os trabalhadores.(…)
Prestadores de serviços de saúde também enfrentaram processos judiciais devido ao uso de ferramentas de IA para gravar conversas entre médicos e pacientes. Um processo judicial de novembro, apresentado no Tribunal Superior do Condado de San Diego, alegou que a Sharp HealthCare usou um software de anotações com IA chamado Abridge para gravar ilegalmente conversas entre médicos e pacientes sem consentimento.
A Sharp HealthCare afirmou que protege a privacidade dos pacientes e não usa ferramentas de IA durante as sessões de terapia.
Alguns médicos e clínicos da Kaiser, incluindo terapeutas, usam o Abridge para fazer anotações durante as consultas. A Kaiser Permanente Ventures, seu braço de capital de risco, investiu na Abridge. (…)
A empresa afirmou que seus funcionários revisam as anotações geradas por IA para garantir a precisão e obtêm o consentimento do paciente, e que as gravações e transcrições são criptografadas. Os dados são “armazenados e processados em ambientes aprovados e em conformidade com as normas por até 14 dias antes de serem excluídos permanentemente”.
Legisladores e profissionais de saúde mental estão explorando outras maneiras de restringir o uso de IA na área da saúde mental.
A Associação de Psicologia da Califórnia está tentando aprovar uma legislação para proteger os pacientes da IA. Ela se uniu a outras entidades para apoiar um projeto de lei que exige consentimento claro e por escrito antes que uma sessão de terapia seja gravada ou transcrita.
O projeto de lei também proíbe indivíduos ou empresas, incluindo aqueles que usam IA, de oferecer terapia na Califórnia sem um profissional licenciado. (…)
Cerca de 12% dos adultos provavelmente usarão chatbots de IA para cuidados com a saúde mental nos próximos seis meses, e 1% já os utiliza, de acordo com uma pesquisa da NAMI/Ipsos realizada em novembro
Queenie Wong é repórter de tecnologia do Los Angeles Times. Na CNET e no Mercury News, ela escreveu sobre as maiores redes sociais do mundo. Wong também cobriu política e educação para o Statesman Journal em Salem, Oregon. Criada no sul da Califórnia, ela começou a ler o The Times ainda criança e fez sua primeira aula de jornalismo no ensino fundamental. Ela se formou na Universidade Washington and Lee, onde estudou jornalismo e artes plásticas.
Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações e exclusão de partes do texto, e portanto sem a revisão do autor. As referencias são encontradas no original. . As opiniões expressas são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente as visões do ODTI.
O Brasil padece de uma miopia de gestão que precisa ser superada, se houver a mínima ambição de se transformar em uma economia avançada. Diante de qualquer crise ou desafio estrutural, a resposta de Brasília é quase pavloviana: cria-se um novo programa, uma nova secretaria ou uma sigla imponente. No entanto, o que a experiência de décadas nos mostra é que o problema brasileiro raramente é a falta de estruturas ou de capital humano. O Brasil dispõe do que há de mais difícil no processo de catch-up (o emparelhamento com nações desenvolvidas): instituições públicas consistentes, organizações civis de alcance nacional e centros de pesquisa de excelência.
O que falta, e o que tem condenado o país ao improviso, é o chamado Estado Orquestrador.
A Engenharia do Possível
Minha percepção sobre o poder da articulação governamental não nasceu em gabinetes, mas na prática. Em 1974, montei um jornal em Poços de Caldas, mesmo já trabalhando na imprensa paulista. Com o lançamento de máquinas Singer, de tricô, vislumbrei o que poderia ser uma política pública de baixo custo e alto impacto: unir a tradição das bordadeiras locais, o design moderno e o suporte logístico do Senac ou do Banco do Brasil. A ideia, que transformaria artesãs em empreendedoras de moda para o mercado paulista, causou pânico no poder público local. O medo do novo paralisou a oportunidade.
Anos depois, vi esse modelo florescer em Birigui. Em meio à crise do pós-Real e à avassaladora invasão dos produtos chineses, não foi o Estado quem “fez”, mas quem “ajudou a fazer”. Um sindicato empreendedor, em parceria com a prefeitura e o Banco do Brasil, criou um arranjo produtivo que salvou a indústria de calçados infantis da região. Enquanto centros tradicionais como Franca soçobravam, Birigui exportava. Ali, o Estado não foi espectador, nem dono da fábrica; foi o articulador.
O Triângulo das Bermudas de Brasília
Ao longo da minha trajetória jornalística, vi dezenas de propostas de projetos de alta viabilidade sumirem no ar rarefeito da capital federal. O “Exporta Brasil”, que pretendia usar a capilaridade das agências do Banco do Brasil e o banco de dados da Fedex para projetar a exportação de pequenas empresas no mundo, morreu na inércia de ministros que copiavam ideias de terceiros, mas não tiravam do papel.
O mesmo destino teve a proposta de transformar o currículo Lattes em uma ponte tecnológica. Temos o maior cadastro de doutores e pesquisadores do mundo, mas o utilizamos apenas para fins acadêmicos. O projeto de transformar esse “cérebro nacional” em uma consultoria acessível para pequenas empresas via Sebrae perdeu-se nos corredores do Palácio do Planalto.
No começo do governo Dilma, técnicos do Ministério do Planejamento montaram uma versão digital do orçamento participativo, permitindo o acesso popular pela Internet. Por ela, o público poderia opinar sobre parte do orçamento. As propostas mais votadas seriam analisadas pelo Tribunal de Contas da União e pelo próprio Planejamento. Aquelas aprovadas seriam inseridas na proposta orçamentária. Não saiu do papel
Em Brasília, as ideias não morrem por falta de mérito, mas por desestímulo político. E também pelo comportamento estanque das diversas instituições de Estado, sem a presença do Estado Orquestrador.
O conflito permanente entre o público e o privado tornou-se uma caricatura útil para esconder a inação. Planejar virou palavrão; decidir, um risco pessoal que o burocrata prefere não correr.
Reprodução
Orquestrar não é Controlar
O país vive falsos paradoxos:
Estado versus mercado,
público versus privado,
regulação versus crescimento.
O modelo funcional é conhecido:
o Estado define direção e reduz risco sistêmico;
o mercado executa, inova e escala;
a sociedade legitima e fiscaliza.
A alternativa para o desenvolvimento brasileiro está testada e disponível. Não exige leis mirabolantes ou orçamentos bilionários. Exige o que chamo de Engenharia Institucional básica: a capacidade do Estado de articular atores públicos, setor privado e sociedade organizada.
O modelo funcional é simples na teoria, mas exige coragem na prática: o Estado coordena e reduz o risco; o mercado executa e escala; a sociedade legitima e fiscaliza. Até hoje, só vi uma gestão pública vitoriosa nessa direção: o trabalho de Fernando Haddad à frente do Ministério da Educação.
O Brasil já provou que sabe coordenar — do Plano de Metas de JK à construção do SUS. Desaprendemos a lição por termos nos rendido ao improviso. O Estado não precisa produzir tudo, mas precisa saber alinhar as engrenagens. Sem um maestro, a melhor orquestra do mundo produz apenas ruído.
A seguir, publicaremos uma série de análises sobre o papel transformador do Estado Orquestrador, inclusive com exemplos concretos de como pode se dar essa articulação em vários níveis.
Propostas feitas com auxílio de Inteligência Artificial
Dá para fazer muita coisa — e rápido — quando o governo para de tentar reinventar a roda e passa a alinhar as engrenagens que já existem no Brasil. O país não sofre de falta de instituições; sofre de descoordenação crônica. Eis um mapa do que é possível fazer agora, com o que já está aí:
Desenvolvimento produtivo sem criar novos ministérios (milagre possível)
Quem já existe
BNDES, Finep, Embrapii
SENAI, SENAC, SENAR
Sebrae, Apex
Universidades federais, IFs
Bancos públicos (BB, CEF, BNB, Basa)
O que pode ser feito
Programas nacionais por cadeia produtiva (não por setor genérico): alimentos processados, fármacos, defesa, mobilidade elétrica, agroindústria, economia do cuidado
Crédito + tecnologia + compras públicas num único pacote
Contratos de desempenho com metas claras (exportação, emprego, inovação)
Resumo: o Estado deixa de ser caixa eletrônico e vira orquestrador.
Segurança pública: menos bravata, mais inteligência integrada
Quem já existe
PF, PRF, polícias civis e militares
Coaf, Receita Federal
CNJ, MP, Detrans, guardas municipais
O que pode ser feito
Centros integrados regionais de inteligência financeira + criminal
Força-tarefa permanente contra lavagem de dinheiro local (jogo, milícia, tráfico, grilagem)
Banco único de dados operacionais (com controle judicial)
Resumo: crime organizado odeia integração. Vive de silo.
Saúde: SUS com cérebro digital
Quem já existe
SUS, Fiocruz, Butantan
Datasus, Anvisa
Universidades e hospitais públicos
O que pode ser feito
Prontuário nacional interoperável (já tecnicamente viável)
Produção local de insumos estratégicos com compras públicas garantidas
Rede nacional de vigilância epidemiológica em tempo real
Resumo: o SUS já é gigante — falta coordenação tecnológica, não discurso.
Educação e trabalho: parar de formar desempregados sofisticados
Quem já existe
MEC, IFs, SENAI/SENAC
Sistema S
Universidades públicas
Ministérios do Trabalho e da Indústria
O que pode ser feito
Pactos regionais: formação ligada a projetos produtivos reais
Cursos técnicos conectados a compras públicas e crédito
Resumo: atraso não é falta de dinheiro — é excesso de atrito.
Meio ambiente e economia: parar de tratar como inimigos
Quem já existe
Ibama, ICMBio
Embrapa
Universidades
Cooperativas e povos tradicionais
O que pode ser feito
Bioeconomia amazônica com crédito, assistência técnica e mercado garantido
Rastreabilidade obrigatória (já existe tecnologia)
Valorização econômica de quem preserva
Resumo: floresta em pé precisa modelo de negócios, não só discurso moral.
Democracia e instituições: coordenação é proteção
Quem já existe
STF, TSE, CNJ
CGU, TCU
MP, Defensorias
Universidades e imprensa
O que pode ser feito
Protocolos institucionais contra desinformação e ataques coordenados
Transparência ativa e dados abertos integrados
Educação midiática e institucional permanente
Resumo: democracia não se defende sozinha — precisa engenharia.
A virada de chave
O Brasil não precisa de mais estruturas. Precisa de:
coordenação,
metas claras,
integração institucional,
liderança política com visão de sistema.
Ou, em termos menos diplomáticos:
menos improviso, menos vaidade, menos silo.
É só alguém juntar as peças — como num Lego institucional gigante.
Perfeito. Segue um capítulo editorial, com linguagem de análise estratégica, pé no chão institucional e aquela ironia discreta que a realidade brasileira autoriza.
Capítulo — O Brasil já existe (falta combiná-lo)
O Brasil não é um país inviável. É um país desalinhado.
Ao contrário do mito recorrente — muito útil para vendedores de soluções mágicas — o problema central do Estado brasileiro não é a ausência de instituições, nem a escassez de técnicos, nem a falta de recursos. O Brasil tem tudo isso. O que lhe falta é coordenação política com visão de sistema.
Temos ministérios que não conversam, autarquias que competem, políticas públicas que se anulam e órgãos de controle que fiscalizam o vazio porque ninguém planejou o cheio. O resultado é um Estado grande no organograma e pequeno no impacto.
Não é caos. É fragmentação administrada.
1. O fetiche da criação e a aversão à articulação
Diante de qualquer problema estrutural, a reação automática é criar:
um novo programa,
uma nova secretaria,
um novo comitê,
uma nova sigla.
É o urbanismo de Brasília aplicado à política pública: mais prédios, menos circulação.
Enquanto isso, estruturas robustas já existentes — BNDES, SUS, Sistema S, universidades federais, bancos públicos, agências reguladoras, estatais estratégicas — operam como ilhas de excelência cercadas por um oceano de descoordenação.
Criar algo novo rende manchete. Articular o que já existe rende resultado — e menos crédito político imediato. Eis o drama.
2. O Estado como orquestrador (não como caixa eletrônico)
Durante décadas, o Estado brasileiro oscilou entre dois extremos igualmente ineficientes:
o Estado que tenta fazer tudo sozinho;
o Estado que terceiriza tudo e se limita a assinar cheques.
Ambos fracassam pelo mesmo motivo: ausência de projeto.
A alternativa está dada, testada no mundo e possível no Brasil: o Estado como orquestrador de capacidades.
Não produz tudo, não controla tudo, mas coordena, define prioridades e alinha incentivos.
Isso significa:
crédito condicionado a metas produtivas;
compras públicas conectadas à inovação;
formação profissional ligada a projetos reais;
fiscalização integrada a dados e inteligência.
Nada disso exige novas leis mirabolantes. Exige vontade política de alinhar engrenagens.
3. Segurança, saúde e educação: o problema não é falta de força, é falta de cérebro coletivo
Na segurança pública, o país convive com dezenas de órgãos armados, mas raríssimos centros permanentes de inteligência integrada. O crime organizado, ao contrário, opera em rede, com fluxo financeiro, logística e informação.
Na saúde, o SUS é um dos maiores sistemas públicos do mundo, mas ainda funciona com ilhas de informação, prontuários fragmentados e compras descoordenadas. O cérebro existe; falta o sistema nervoso.
Na educação, formam-se profissionais sem conexão com projetos produtivos, enquanto setores inteiros reclamam de falta de mão de obra qualificada. É o paradoxo do diploma desempregado.
O padrão se repete: capacidade existe, coordenação não.
4. Infraestrutura, meio ambiente e desenvolvimento: o falso dilema
Outro mito persistente sustenta que desenvolvimento e meio ambiente são forças opostas. Na prática brasileira, o conflito não é entre preservar ou crescer — é entre planejar ou improvisar.
Sem planejamento integrado:
licenciamento vira gargalo político,
obra vira novela,
investimento foge.
Com coordenação:
projetos ganham previsibilidade,
preservação vira ativo econômico,
infraestrutura deixa de ser aposta e vira política.
O Brasil já tem os órgãos, os dados, a tecnologia e o capital humano para isso. Falta apenas o gesto mais simples e mais raro: sentar as instituições na mesma mesa com metas comuns.
5. Democracia: instituições fortes não funcionam no vácuo
Instituições não se defendem sozinhas. Democracia não é só Constituição; é engenharia institucional em funcionamento contínuo.
Sem articulação:
a desinformação corre solta,
conflitos viram espetáculo,
a confiança pública se dissolve.
Com coordenação:
dados circulam,
responsabilidades ficam claras,
abusos são contidos antes de virar crise.
A defesa democrática não é retórica. É processo.
6. A escolha política que nunca é técnica
Nada disso é segredo. Nada disso é utopia. Nada disso depende de “reforma estrutural profunda” para começar.
Depende de uma escolha política simples — e difícil:
trocar o protagonismo individual pelo resultado sistêmico.
Governar articulando forças existentes não rende heróis solitários, nem slogans fáceis. Rende algo mais perigoso para o populismo: política pública que funciona.
Conclusão — O país está montado. Falta apertar os parafusos.
O Brasil não precisa ser reinventado. Precisa ser operado com método.
As instituições estão aí.
As pessoas estão aí.
Os recursos estão aí.
O que falta não é Estado.
É coordenação com visão histórica.
Ou, para dizer sem rodeios:
o problema do Brasil não é falta de peças — é o manual de montagem ignorado em nome do improviso.
Memorial JK – Reprodução
Excelente gancho histórico. Aqui dá para mostrar, com fatos, que coordenação institucional não é invenção moderna — é o que separa governos “memoráveis” de governos “barulhentos”.
Segue um capítulo editorial comparativo, JK × New Deal, focado na articulação entre Estado, sociedade e instituições já existentes.
Quando o Estado resolveu coordenar: JK e o New Deal
Há momentos raros em que governos param de discutir se o Estado deve agir e passam a decidir como ele vai agir. O Plano de Metas de Juscelino Kubitschek e o New Deal de Franklin D. Roosevelt nasceram exatamente desses momentos de lucidez histórica.
Não foram milagres. Foram engenharias institucionais deliberadas.
O Plano de Metas de JK: desenvolvimento por coordenação, não por decreto
O Plano de Metas (1956–1961) não foi apenas uma lista de objetivos. Foi um método de articulação entre órgãos públicos, empresas privadas, bancos, técnicos e atores internacionais.
Estruturas já existentes mobilizadas
BNDE (criado em 1952, ainda jovem, mas central)
Banco do Brasil
SUMOC (embrião do Banco Central)
Ministérios setoriais
Empresas estatais (Petrobras, Eletrobras em gestação)
Empresas privadas nacionais e estrangeiras
Corpo técnico do ISEB e da Cepal
Nada disso foi criado por JK do zero. O mérito foi conectar.
Como funcionava a articulação na prática
a) Metas claras e finitas
31 metas agrupadas em energia, transporte, alimentação, indústria de base, educação
Um objetivo político explícito: “50 anos em 5”Sem metáfora: prazo manda.
b) Crédito direcionado
O BNDE não financiava “boas intenções”
Financiava projetos aderentes às metas
Energia financiava indústria; indústria alimentava infraestrutura
c) Aliança Estado–empresa
O Estado entrava com:
crédito,proteção cambial,infraestrutura.
crédito,
proteção cambial,
infraestrutura.
O setor privado entrava com:
capital,tecnologia,execução.
capital,
tecnologia,
execução.
Multinacionais vieram porque havia plano, não porque havia discurso liberal.
d) Coordenação política no centro
A Casa Civil funcionava como núcleo estratégico
Conflitos entre ministérios eram resolvidos politicamente, não empurrados para a gaveta
Resumo JK: o Estado não era dono de tudo — era o maestro. E ninguém toca sinfonia olhando só para a própria partitura.
O New Deal: o nascimento do Estado coordenador moderno
O New Deal (1933–1939) nasceu do colapso total: desemprego em massa, bancos quebrados, confiança zerada. Roosevelt não inventou um novo Estado — reprogramou o existente.
Instituições mobilizadas
Tesouro dos EUA
Federal Reserve
Governos estaduais e municipais
Sindicatos
Associações empresariais
Universidades
Judiciário (sim, mesmo sob tensão)
O New Deal foi menos sobre criar agências — e mais sobre fazer o sistema operar em rede.
O sistema financeiro deixou de comandar o Estado — passou a servi-lo.
d) Comunicação política permanente
Fireside chats: Roosevelt falava direto com a sociedade
Criava legitimidade para decisões difíceis
Resumo New Deal: o Estado virou plataforma de reconstrução, não árbitro distante.
O ponto comum entre JK e Roosevelt
Apesar de contextos distintos, há uma coincidência estrutural:
ElementoPlano de MetasNew DealInstituições pré-existentesPlanejamento explícitoCoordenação política centralAliança com setor produtivoLegitimidade socialConflitos resolvidos politicamente
Nenhum dos dois governou por improviso.
Nenhum dos dois acreditava em “mão invisível salvadora”.
Ambos entenderam algo simples — e esquecido:
mercados funcionam melhor quando o Estado coordena expectativas.
A lição esquecida
O Brasil de hoje se parece mais com o pré-JK do que com o JK.
E o mundo atual se parece mais com 1933 do que muitos admitem.
A diferença é que:
as instituições já existem,
a tecnologia facilita a coordenação,
o capital humano é maior.
O que falta não é capacidade.
É coragem política para coordenar.
Ou, em versão menos acadêmica:
governos fracassam não porque fazem demais,
mas porque fazem cada um por conta própria.
Questão vai ao núcleo invisível do problema. O bloqueio ao planejamento no Brasil não vem da falta de ideias, mas do choque entre dogmas opostos que, curiosamente, produzem o mesmo efeito: paralisia.
Segue o mapa dos dogmas ideológicos antagônicos que, na prática, se alimentam mutuamente e sabotam qualquer tentativa séria de coordenação.
Os dogmas ideológicos que sabotam o planejamento
O dogma do “Estado mínimo redentor”
(o mercado resolve tudo — se deixarem)
A crença
Planejamento = intervencionismo
Política industrial = atraso
Coordenação = aparelhamento
Estado bom é Estado ausente
Como isso impede o planejamento
Demoniza qualquer tentativa de definir prioridades nacionais
Transforma planejamento em suspeita moral
Faz do improviso uma virtude (“o mercado ajusta”)
O paradoxo
Os países que mais planejam (EUA, Alemanha, Coreia do Sul, China) são tratados como exceções — ou convenientemente ignorados.
Resultado: o Estado vira árbitro mudo num jogo jogado por quem já tem vantagem.
O dogma do “Estado salvador onipotente”
(o Estado faz tudo — se quiser)
A crença
Vontade política basta
Planejamento substitui execução
Decreto resolve gargalo estrutural
Instituições se alinham por comando
Como isso impede o planejamento
Confunde plano com lista de desejos
Subestima capacidade operacional
Ignora limites federativos e institucionais
Gera metas sem meios
O paradoxo
Quando o plano falha, a culpa recai “na sabotagem”, nunca no desenho.
Resultado: frustração crônica e descrédito do próprio planejamento.
O dogma tecnocrático despolitizado
(basta seguir os números)
A crença
Política atrapalha
Técnicos são neutros
Planejamento é exercício matemático
Conflitos se resolvem por evidência
Como isso impede o planejamento
Ignora que toda decisão envolve poder
Foge do conflito em vez de resolvê-lo
Substitui coordenação por planilha
O paradoxo
Sem decisão política, os melhores dados não saem do Excel.
Sem decisão, o conflito continua — só que sem solução.
Resultado: governança de café frio.
O dogma do “Brasil é inviável”
(nada dá certo aqui)
A crença
Instituições não funcionam
Planejamento sempre fracassa
Melhor não tentar
Como isso impede o planejamento
Naturaliza o improviso
Desresponsabiliza gestores
Mata ambição pública
O paradoxo
A profecia se cumpre por desistência antecipada.
Resultado: mediocridade como política de Estado.
O ponto cego comum a todos os dogmas
Apesar de opostos, todos compartilham um erro central:
tratam planejamento como ideologia, não como método.
Planejamento não é:
estatização,
voluntarismo,
tecnocracia,
populismo,
nem austeridade cega.
Planejamento é coordenação política baseada em evidência, com decisão, risco calculado e responsabilidade.
Conclusão — Planejar é escolher, e escolher incomoda
O planejamento incomoda porque:
define prioridades,
cria perdedores no curto prazo,
expõe decisões,
exige liderança.
Dogmas, de direita ou de esquerda, oferecem conforto:
explicam o fracasso,
evitam escolhas,
terceirizam a culpa.
Governar, não.
Planejamento não é ideologia. É método.
Resposta editorial aos dogmas que paralisam o Brasil
Toda vez que o Brasil tenta planejar, o debate descamba para uma guerra de rótulos. Planejamento vira “estatismo” para uns, “insuficiência política” para outros, “risco fiscal” para terceiros. O resultado é previsível: o método desaparece, o dogma vence.
Este editorial responde a esses dogmas — não para conciliá-los artificialmente, mas para desarmá-los.
Ao dogma do Estado mínimo: planejamento não substitui mercado, organiza expectativas
Planejamento não elimina concorrência, não define preços, não escolhe vencedores no detalhe. Ele faz algo mais básico: reduz incerteza sistêmica.
Os mercados que funcionam melhor no mundo são justamente os que operam dentro de:
infraestrutura planejada,
crédito coordenado,
regras previsíveis,
objetivos nacionais explícitos.
Chamar isso de intervencionismo é confundir direção com controle.
Mercado sem coordenação não é livre — é assimétrico.
Ao dogma do Estado salvador: planejamento não dispensa limites, exige execução
Planejamento não é lista de desejos nem substituto da realidade institucional. Ele só funciona quando:
reconhece capacidades existentes,
respeita limites federativos,
integra o setor privado,
aceita correções de rota.
Planos que ignoram meios viram retórica.
Retórica não transforma estrutura produtiva.
Planejar é escolher o que não será feito — e isso exige mais maturidade política do que proclamar intenções.
Ao dogma tecnocrático: dados não decidem sozinhos
Evidência é condição necessária, não suficiente.
Planejamento envolve conflito distributivo, prioridades políticas e escolhas que nenhum algoritmo resolve. Fingir neutralidade técnica é uma forma elegante de não decidir.
Sem autoridade política:
dados viram relatório,
relatório vira gaveta,
gaveta vira desculpa.
Planejamento exige técnica e decisão. Separar uma da outra é sabotagem sofisticada.
Ao dogma fiscalista absoluto: investir não é irresponsabilidade, é escolha temporal
Responsabilidade fiscal não é sinônimo de imobilismo.
O verdadeiro risco fiscal está em:
baixo crescimento,
infraestrutura precária,
desindustrialização,
perda de capacidade produtiva.
Planejamento sério diferencia:
gasto corrente de investimento,
despesa ineficiente de indução estrutural.
Austeridade sem estratégia preserva números no curto prazo e destrói o futuro silenciosamente.
Ao dogma do controle paralisante: governar envolve risco calculado
Estado que não assume risco não governa — administra o vazio.
Controle público é essencial, mas quando atua apenas como veto:
premia quem não decide,
pune quem tenta,
institucionaliza a inação.
Planejamento bem feito reduz risco justamente porque antecipa problemas.
Controlar o improviso depois é sempre tarde demais.
Ao dogma do consenso impossível: planejar é escolher, não agradar
Nenhum processo de planejamento sério nasce de unanimidade.
Ele nasce de prioridade clara e conflito administrado.
Esperar consenso total é:
adiar decisões,
diluir metas,
terceirizar responsabilidade.
Democracia não é ausência de conflito.
É capacidade de decidi-lo institucionalmente.
Ao dogma do “Brasil não dá certo”: a história prova o contrário
O Brasil já coordenou:
industrialização,
infraestrutura,
ciência,
políticas sociais complexas.
Fracassos não provam inviabilidade.
Provam descontinuidade e descoordenação.
Naturalizar o fracasso é o dogma mais confortável — e o mais destrutivo.
O ponto comum que os dogmas escondem
Todos esses dogmas, embora opostos, produzem o mesmo efeito:
impedem o Estado de funcionar como sistema.
Uns demonizam a coordenação.
Outros a caricaturam.
Quase todos preferem o conforto da crítica ao risco da execução.
Planejamento não é bandeira ideológica.
É instrumento de governo.
Conclusão — Planejar é assumir responsabilidade histórica
Planejar significa:
dizer para onde o país vai,
admitir limites,
assumir conflitos,
responder por resultados.
Dogmas oferecem álibis.
Planejamento exige compromisso.
O Brasil não precisa escolher entre Estado e mercado, controle e execução, técnica e política. Precisa integrar.
Enquanto o debate ficar preso a dogmas, o país continuará refém do improviso — que é a ideologia mais cara de todas.
Reprodução
Planejar não é ideologia. É governar.
Resposta aos dogmas que paralisam o Brasil
O Brasil não está travado por falta de ideias, recursos ou instituições. Está travado por um impasse menos visível e mais persistente: a captura do debate público por dogmas ideológicos opostos que produzem o mesmo resultado — a impossibilidade de planejar.
Sempre que o tema surge, a discussão descamba para caricaturas. Planejamento vira sinônimo de estatismo para uns, de voluntarismo para outros, de irresponsabilidade fiscal para terceiros. No meio do tiroteio, o método desaparece. E o país segue governado por improvisos.
Este editorial parte de uma tese simples:
planejamento não é doutrina. É técnica de governo em democracias complexas.
O mito do Estado mínimo que resolve tudo
O primeiro bloqueio vem do dogma segundo o qual qualquer tentativa de coordenação estatal seria uma ameaça à liberdade econômica. Planejar, nessa visão, é “escolher vencedores”, “interferir no mercado” ou “repetir erros do passado”.
O problema é factual: os países capitalistas mais dinâmicos planejam intensamente. Planejam infraestrutura, energia, inovação, defesa, cadeias produtivas estratégicas. Não para substituir o mercado, mas para organizar expectativas e reduzir incerteza.
Mercados funcionam melhor quando sabem para onde o país vai.
Sem direção, não há concorrência plena — há assimetria.
O mito do Estado salvador que resolve tudo
No polo oposto, outro dogma igualmente paralisante: a crença de que basta vontade política para que o Estado imponha uma transformação estrutural por decreto.
Aqui, planejamento vira lista de desejos. Metas se multiplicam sem meios. Conflitos institucionais são ignorados. Limites federativos desaparecem do papel — mas não da realidade.
Quando o plano falha, a culpa recai sempre em fatores externos: sabotagem, elite, conjuntura. Nunca no desenho.
Planejar não é prometer tudo.
É escolher pouco, com base no que pode ser executado.
O conforto da tecnocracia sem decisão
Há ainda o dogma aparentemente neutro: o de que bastaria “seguir os dados”. Planejamento vira exercício estatístico, e a política é tratada como ruído.
É uma ilusão elegante. Dados não resolvem conflitos distributivos. Indicadores não escolhem prioridades. Evidência não substitui autoridade política.
Sem decisão, relatórios viram gavetas.
E gavetas não governam países.
A austeridade sem horizonte
Outro bloqueio recorrente é o fiscalismo absoluto, que transforma qualquer investimento público em suspeita moral. Tudo vira risco. O futuro pode esperar.
Mas o verdadeiro risco fiscal não é investir — é não crescer. É conviver com infraestrutura precária, baixa produtividade, desindustrialização e dependência cíclica de commodities.
Planejamento sério distingue gasto de investimento.
Austeridade sem estratégia preserva números no curto prazo e corrói a base econômica no longo.
O controle que paralisa
Some-se a isso o dogma do controle punitivo, no qual governar passa a ser sinônimo de não errar. Decidir vira risco pessoal. Inovar vira exposição.
O resultado é um Estado que não falha porque não age.
Controle público é indispensável. Mas quando atua apenas como veto, ele institucionaliza a inação. Planejamento bem feito reduz risco justamente porque antecipa problemas — algo impossível no improviso permanente.
O consenso impossível
Há, por fim, o dogma do consenso absoluto: a ideia de que planejar exige agradar a todos. Como isso é impossível, decide-se não decidir.
Prioridades são diluídas, metas perdem força, e a política vira uma sequência de anúncios desconectados.
Democracia não é ausência de conflito.
É capacidade de administrá-lo institucionalmente.
O erro comum a todos os dogmas
Esses dogmas discordam em tudo — menos no efeito final. Todos impedem o Estado de funcionar como sistema.
Uns demonizam a coordenação.
Outros a caricaturam.
Quase todos preferem o conforto da crítica ao risco da execução.
Planejamento, no entanto, não é bandeira ideológica.
É instrumento básico de governo em sociedades complexas.
Planejar é assumir responsabilidade
Planejar significa:
definir prioridades nacionais,
integrar políticas públicas,
alinhar instituições,
assumir conflitos,
responder por resultados.
Dogmas oferecem álibis.
Planejamento exige compromisso.
O Brasil já fez isso antes. Em momentos decisivos, coordenou investimento, crédito, infraestrutura e política social. Não foi perfeito. Mas funcionou melhor do que o improviso que se tornou regra.
O país não precisa escolher entre Estado e mercado, técnica e política, controle e execução. Precisa integrar.
Enquanto o debate permanecer prisioneiro de dogmas, o Brasil continuará governado pela ideologia mais cara de todas: a do improviso permanente.
Diante da votação próxima no senado argentino da reforma trabalhista proposta pelo governo de Milei, a maior central argentina, a CGT, vai fazer um protesto na quarta-feira próxima em Buenos Aires.
O governo argentino continua em sua senda de destruir os direitos sociais do povo argentino – depois da devastação da população aposentada ele agora quer destruir os direitos sociais dos trabalhadores argentinos aumentando o número de “serviços essenciais”, obrigando os trabalhadores desses setores a trabalharem nos feriados sem remuneração extra; substituindo as clausulas de ultratividade nos convênios coletivos por acordos por empresa; enfraquecendo a negociação coletiva: eliminando as quotas sindicais dos trabalhadores não associados, e muito mais. Em breve, certamente veremos uma greve geral dos argentinos.
O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto do jornal Pagina 12, o combativo jornal argentino.
CGT pressiona para travar artigos-chave da reforma laboral
Depois de anunciar uma concentração para a próxima quarta-feira nos arredores do Congresso argentino, quando o Senado tratará do projeto de reforma trabalhista impulsionado pelo governo, a CGT centra a sua atenção na estratégia para frear a iniciativa, assegurando que o governo não tem os votos necessários para aprová-lo. A idéia da central operária é reunir os votos suficientes para inverter os pontos “críticos”, avaliando a judicialização como uma das vias possíveis, tal como aconteceu com o Mega DNU* de dezembro de 2023.
O triunvirato** formado por Jorge Sola, Cristian Jerónimo e Octavio Argüello vê a reforma laboral como “uma longa guerra de várias batalhas”, em que a greve geral é uma carta valiosa, mas que deve ser jogada no momento certo. O triunvirato confia em que vários legisladores que dialogam com o Presidente aprovaram o projeto em geral mas, no momento de discutir cada artigo em particular, não acompanharão a iniciativa libertária.
Os principais artigos que os sindicalistas se propõem a combater prevêem a ampliação das atividades que são consideradas “essenciais”, que garante serviços mínimos determinados ramos em feriados; a eliminação da ultratividade dos convênios coletivos, priorizando os acordos particulares por empresa, anulando a capacidade de negociação dos sindicatos; as alterações nas quotas solidárias que trazem os trabalhadores não filiados ao grêmio e a criação de um Fondo de Asignación Laboral (FAL), em substituição do atual sistema de indenizações.
O ás na manga que guarda a central operária é a judicialização daqueles pontos que fugirem ao filtro legislativo e que a central considera que dificilmente sejam considerados constitucionais em qualquer vara do trabalho. No entanto, a partir da condução advertem que a anulação na justiça “não será tão fácil” como com o Mega DNU.
Notas do Observatório
*O chamado Mega DNU é o Decreto de Necesidad y Urgencia (DNU) 70/2023 “Bases para la reconstrucción de la Economía argentina” que pretendia destruir diversas leis e direitos dos argentinos e que teve muitas das suas clausulas denegadas pelo Justiça argentina.
**O chamado triunvirato refere-se à grupo dirigente da CGU, composto hoje por Jorge Sola (Seguros), Cristian Jerónimo (Vidreiros) y Octavio Arguello (Caminhoneiros).
Este texto foi traduzido do espanhol com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações, e portanto sem a revisão do autor. As referencias são encontradas no original. . As opiniões expressas são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente as visões do ODTI.
O Brasil tem a oportunidade de se tornar protagonista na reindustrialização verde, com capacidade de atingir a total produção de terras raras com a mínima emissão de gás carbônico do mundo. É o chamado “refino verde”, explicou a diretora executiva do Instituto E+ Transição Energética, Rosana Santos, no especial Terras Raras do Projeto Brasil.
Rosana trouxe a interface entre mineração e desenvolvimento econômico sustentável no debate com a geóloga, pesquisador e ex-reitora da UnB, Márcia Abrahão. A especialista confirmou que não haverá transição energética ou avanços em tecnologias como a Inteligência Artificial sem minerais críticos e terras raras.
Desmistificando que a extração de terras raras seja amigável ao meio ambiente, Rosana foi além e argumentou que, uma vez inevitável o uso destes minérios na atualizada, o Brasil deve então utilizar sua matriz energética limpa para realizar o “refino verde”.
Ela propôs o uso de biogás e biometano para atingir as altas temperaturas necessárias no processamento dos minerais críticos, o que daria ao produto brasileiro uma vantagem competitiva internacional por ter baixas emissões de carbono, tornando o Brasil o país com a menor emissão possível destes minérios.
Refino verde: como é feito
A representante explicou que processos industriais como o refino de terras raras e outros minerais críticos são “extremamente energointensivos” e exigem altíssimas temperaturas. Enquanto outros países utilizam combustíveis fósseis (carvão ou gás natural) para esse fim, emitindo grandes volumes de gases de efeito estufa, o Brasil pode realizar o chamado “refino verde” utilizando sua matriz elétrica (que é 90% limpa) e complementando com biogás ou biometano para atingir altas temperaturas.
Isso resultaria em minerais refinados com emissões que poderiam chegar a apenas 1/3 das emissões de qualquer outro lugar do mundo.
Para a pesquisadora, a medida seria benéfica ao Brasil não somente em termos ambientais, propriamente. Há uma tendência global onde, em igualdade de preços, o comprador opta pelo produto que emite menos carbono. Mecanismos regulatórios internacionais, como o CBAM europeu (mecanismo de ajuste de fronteira de carbono), começam a considerar o conteúdo de emissões como critério de compra e tributação, o que favorece países com matrizes limpas.
A disponibilidade de energia verde abundante e barata funciona como um imã para indústrias globais, um conceito definido nas fontes como “power shoring”, afirmou Santos. Em vez de apenas exportar a matéria-prima bruta, o Brasil pode atrair empresas para produzirem em território nacional, agregando valor e gerando empregos de qualidade motivados pela pegada de carbono reduzida da produção local, expôs.
Desafios jurídicos
Advogada e pesquisadora, Ana Paula Lemes de Souza abordou junto à Márcia Abrahão os desafios jurídicos, regulatórios e socioambientais. Ela alertou para o perigo de um “atropelamento” dos processos de licenciamento ambiental devido à pressão geopolítica.
Souza destacou os interesses internacionais e os riscos do uso do “mito da sustentabilidade”, onde o discurso da emergência climática poderia ser usado para favorecer interesses bélicos e comerciais em detrimento da soberania territorial e dos povos tradicionais.
Nessa linha, a advogada expôs a importância de regulamentações como os projetos de lei em tramitação – como o PL 2780/2024 e o PL 4443 -, destacando a “regra dos 80%”, que visa exigir que a maior parte das terras raras extraídas seja processada no país para evitar o “neocolonialismo verde”.
Ambas as especialistas destacaram que o Brasil vive um momento estratégico e que a soberania nacional deve ser protegida. Segundo elas, o país deve aproveitar suas riquezas minerais para se tornar um protagonista tecnológico, garantindo que o bônus econômico não resulte em um passivo ambiental e social insustentável para os territórios explorados.
Assista à íntegra dos episódios das especialistas que abordaram os desafios ambientais das Terras Raras no Brasil:
Este texto dá conta da mobilização sindical contra a reforma previdenciária que o governo de Santiago Peña quer fazer aprovar no congresso paraguaio. Seguindo as imposições das instituições financeiras (capitaneadas pelo FMI) e das agências de análise de risco.
Peña faz um governo de austeridade. A competência da administração de Peña e sua subordinação aos EUA tem trazido dividendos para seu governo. Mas até quando? Uma mobilização sindical no país pode trazer esperança de mudanças.
O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto do blog Paraguay Post, “guia essencial sobre tudo relacionado ao Paraguai”.
Sindicatos se mobilizam contra reforma da previdência no Paraguai
The Weekly Post
Laurence Blair, publicado em 02 de fevereiro de 2026 ∙
Na imagem: Sindicatos de professores protestam contra a reforma da previdência proposta pelo governo paraguaio em frente ao Congresso, em 20 de janeiro. (Foto: OTEP)
Bomba-relógio da previdência no Paraguai
O Congresso do Paraguai foi convocado de seu recesso de verão para uma sessão extraordinária nesta quinta-feira para deliberar sobre uma importante reforma da previdência.
Delineadas pelo presidente do Paraguai, Santiago Peña, em 30 de dezembro, as mudanças imporiam uma idade mínima de aposentadoria de 57 anos para professores da rede pública, professores universitários, juízes, policiais e militares, aumentariam o valor que eles devem contribuir para suas aposentadorias e reduziriam os pagamentos finais.
O governo Peña afirma que a reforma é urgentemente necessária para sanar um rombo de US$ 380 milhões nas finanças públicas. O governo alega que o custo de sustentar aposentados dessas profissões — por meio de um fundo público de pensões conhecido como Caja Fiscal — pode chegar a US$ 10 bilhões até 2030.
Em uma proposta legislativa apresentada ao Congresso, Peña e o ministro da Economia e Finanças, Carlos Fernández Valdovinos, citam a necessidade de “enfrentar o problema de frente” e “pensar nas gerações futuras” para “transformar o Paraguai na grande nação que está destinado a ser”.
Os sindicatos reagiram com fúria às propostas, classificando-as como precipitadas, sem consenso e injustas para os trabalhadores que contribuíram para o sistema durante anos. Professores se declararam em “estado de guerra” e ameaçaram boicotar as salas de aula quando as aulas retornarem no final do mês.
Associações de policiais e militares aposentados, por sua vez, pediram a taxação dos produtores de soja, uma das principais exportações do agronegócio paraguaio, para ajudar a pagar as pensões. Eles contam com o apoio de José Rodríguez, deputado do Partido Colorado, na situação do partido governista.
Carlos Fernández Valdovinos, ministro da Economia e Finanças do Paraguai, sugeriu que a única alternativa seria aumentar o IVA de 10% para 14% — uma possibilidade que ele posteriormente descartou, afirmando que “este governo não vai aumentar impostos”.
O presidente Peña tem feito progressos na redução do déficit fiscal – a diferença entre os gastos e a receita anual do governo, para uma meta oficial de 1,5% do PIB. O déficit encerrou 2025 em 2% do PIB, ante 2,5% no ano anterior.
Mas instituições financeiras internacionais — incluindo o FMI, antigo empregador de Peña — e agências de classificação de risco como a Fitch estão pressionando-o para manter o ritmo. Ambas alertaram que o crescente déficit fiscal pode esgotar seriamente as reservas do Paraguai e, em última instância, prejudicar sua credibilidade.
A mídia corporativa e a classe política paraguaia também concordam amplamente que a complexa teia de benefícios previdenciários do país representa uma crise iminente, que se arrasta há duas décadas e não pode mais ser adiada. Alguns especialistas afirmam que as reformas precisam ir ainda mais longe para realmente cobrir o custo do envelhecimento da população.
Mas, com as eleições locais se aproximando em outubro,Logo em seguida, com as primárias partidárias para as eleições nacionais de 2028 — e com o Partido Colorado fragmentado no Congresso — o governo Peña pode ter deixado para a última hora a implementação de sua reforma mais controversa até o momento.
Análise do The Post: Instados por políticos a fazer sacrifícios pelo bem comum, os agentes da lei e educadores do Paraguai poderiam, com razão, responder: vocês primeiro.
Ao mesmo tempo em que busca reduzir os benefícios sociais dos trabalhadores comuns, Peña continuou financiando a caixa parlamentar, que permite que senadores e deputados federais recebam uma aposentadoria vitalícia a partir dos 55 anos, após apenas 10 anos de contribuições.
Esse sistema, apelidado de “aposentadoria VIP” pelos críticos, custou aos contribuintes US$ 5 milhões desde 2015 — um valor que, segundo especialistas, pode chegar a US$ 100 milhões até 2040.
“Precisamos refletir profundamente sobre nossos próprios privilégios”, disse a deputada federal da oposição e pré-candidata à prefeitura de Assunção, Johanna Ortega, na semana passada. “Não podemos pedir a um ou a vários grupos que apertem os cintos sem pensar em nós mesmos.”
Um vídeo que circulou na sexta-feira — mostrando Peña decolando de um campo de golfe em um helicóptero da Força Aérea — intensificou as críticas ao estilo de vida extravagante do presidente, à sua crescente riqueza pessoal e às frequentes viagens nacionais e internacionais financiadas pelos contribuintes.
Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações, e portanto sem a revisão do autor. As referencias são encontradas no original. As opiniões expressas são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente as visões do ODTI.
Este texto traz a palavra de um setor pouco ouvido na discussão sobre a Groenlândia – o povo inuite que constitui 90% da po0pulação local de 57 mil habitantes. Ausente do debate, o povo inuit ocupa as terras geladas da ilha há tempos imemoriais.
O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto da Arctic Today, que traz “notícias e análises de toda a região do Ártico”.
Ninguém é dono de nossas terras no Ártico, nós as compartilhamos, dizem os inuítes da Groenlândia.
Reportagem de Jacob Gronholt-Pedersen; Edição de Alex Richardson, , Reuters, publicado em 29 de janeiro de 2026
O presidente dos EUA, Donald Trump, fala sobre a Groenlândia como um ativo estratégico que poderia ser comprado por Washington, enquanto a Dinamarca afirma sua soberania legal sobre a ilha. Para o povo inuíte, que vive aqui há séculos, ninguém é dono das terras do Ártico.
O conceito de que a propriedade é compartilhada coletivamente é central para a identidade inuíte, dizem eles. Sobreviveu a 300 anos de colonização e está previsto em lei: as pessoas podem possuir casas, mas não a terra sob elas.
“Não podemos nem comprar nossa própria terra, mas Trump quer comprá-la – isso é muito estranho para nós”, disse Kaaleeraq Ringsted, 74, em Kapisillit, um pequeno assentamento de casas de madeira agarrado à margem de um fiorde a leste da capital, Nuuk.
“Desde criança, estou acostumado com a ideia de que só se pode alugar terras. Sempre estivemos acostumados com a ideia de que somos donos coletivos de nossas terras.”
Uma vida Livre na Natureza
Ringsted, um ex-pescador e caçador nascido em Kapisillit, falava na pequena igreja situada em um penhasco acima da vila, acessível apenas por uma íngreme escadaria de madeira, onde agora atua como catequista.
É pleno inverno e o sol raramente surge acima das montanhas ao redor. O povoado disperso abaixo também possui uma escola, um mercado e uma casa de serviços onde os moradores podem tomar banho e lavar roupa. Uma pequena sala de emergência contém suprimentos médicos básicos. Um anúncio de emprego para um funcionário da clínica estava afixado na porta.
É um lugar de beleza bruta e logística complexa. O pequeno cais é a tábua de salvação, por onde o barco semanal traz suprimentos de Nuuk e de onde pescadores e caçadores partem em busca de focas, alabotes, bacalhaus e renas.
“Sempre tivemos uma vida livre aqui, em contato com a natureza”, disse Heidi Lennert Nolso, a líder da aldeia. “Podemos navegar e ir a qualquer lugar sem restrições.”
Guardiôes, não donos
A Groenlândia e seu povo foram lançados aos holofotes globais no ano passado, quando Trump retomou sua exigência de que os EUA assumissem o controle da ilha por questões de segurança nacional e para ter acesso aos seus abundantes recursos minerais.
Desde então, Trump recuou das ameaças de que os EUA poderiam tomar a ilha à força e disse ter garantido acesso total e permanente dos EUA à Groenlândia em um acordo com a OTAN, mas muitos detalhes permanecem obscuros.
Os moradores da vila disseram que acompanhavam as notícias, mas não era algo sobre o qual comentavam muito.
“As pessoas aqui estão interessadas no dia que está por vir. Tem comida na geladeira? Ótimo, então posso dormir um pouco mais. Se não tiver comida, vou sair para pescar ou caçar uma rena”, disse Vanilla Mathiassen, uma professora dinamarquesa em Kapisillit que trabalha em cidades e vilarejos da Groenlândia há 13 anos.
Ulrik Blidorf, advogado em Nuuk e proprietário do escritório Inuit Law, disse que a Groenlândia, um território autônomo dinamarquês, não possui propriedade privada de terras.
“Na Groenlândia, você não pode ser dono da terra”, disse Blidorf. “É assim desde que nossos ancestrais chegaram aqui. Hoje, você tem o direito de usar a área onde tem sua casa.”
Quase 90% da população da Groenlândia, de 57.000 habitantes, é composta por indígenas inuítes, que habitam a ilha continuamente há cerca de 1.000 anos.
Rakel Kristiansen, de uma família de praticantes de xamanismo, disse que o povo inuíte se vê como guardiões temporários da terra.
“Em nossa opinião, a questão errada é a posse da terra”, disse ela. “A questão deveria ser quem é responsável pela terra. A terra existia antes de nós e existirá depois de nós.”
O foco é a Sobrevivência
De volta a Kapisillit, um vento frio sopra da camada de gelo da Groenlândia. Duas águias-marinhas circulam sobre o fiorde e gaivotas se agrupam ao redor dos barcos de pesca. Aqui, o foco é a sobrevivência. Mas há menos caçadores e pescadores agora, já que a atração da educação, dos empregos e dos serviços levou as pessoas para longe do assentamento nas últimas décadas.
Na escola, William, de 8 anos, Malerak, de 7, e Viola, de 7, são os únicos alunos restantes, estudando sob um mapa da Groenlândia impresso em 1954. Durante o recreio, eles vão andar de trenó. Os três se mudarão em breve, e a escola pode fechar.
Novas casas de veraneio, algumas com banheiras de hidromassagem externas, foram construídas ao longo da baía para os ricos moradores de Nuuk. Elas permanecem vazias e fechadas no inverno.
De um penhasco próximo, avista-se um fiorde repleto de icebergs. A paisagem poderia atrair turistas, mas a vila carece até mesmo de infraestrutura básica
“Há o risco de o assentamento morrer”, disse o líder da vila, Nolso. “As pessoas estão envelhecendo.” Kapisillit já teve quase 500 moradores em seu auge, disse Kristiane Josefsen, residente de longa data. Hoje, restam apenas 37. Josefsen, nascida em 1959, trabalha com pele de foca — lavando, processando e raspando para vender em Nuuk para a confecção de trajes típicos.
“Raspar peles de foca é muito desgastante para o corpo”, disse ela.
Mas, embora planeje se aposentar este ano, ela não pretende ir embora. “Vou ficar aqui. Este é o meu lugar”, disse ela. “Esta é a minha terra. A Groenlândia é a minha terra.”
Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações, e portanto sem a revisão do autor. As referencias são encontradas no original. . As opiniões expressas são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente as visões do ODTI.
O Dia Nacional de Luta “Fora ICE”, que se originou a partir da luta em Minneapolis, alcançou milhares de pessoas nos Estados Unidos, com destaque para o Oregon e a California, fechando escolas e empresas em mais de 120 cidades.
Os assassinatos de Renee Good e Alex Pretti por agentes federais em Minnesota ampliou a indignação e os protestos contra Trump em todo a país. A triste ironia de Good e Pretti, ambos brancos, terem sido mortos na mesma cidade em que morreu George Floyd em 2020, assassinado por um policial de Minneapolis, ilustra a insegurança que ameaça os Estados Unidos. Cabe lembrar que o assassinato de Floyd, que impulsionou o movimento “Black lives”, também marcou a fim da primeira administração de Trump.
O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto da Anadolu Agency (AA), a tradicional agência de notícias turca, fundada em abril de 1920.
Protestos em massa contra a agência federal de imigração ocorrem nos EUA, com milhares de pessoas se manifestando na Califórnia e no Oregon.
Darren Lyn, publicado em 31 de janeiro de 2026 e atualizado no dia 01 de fevereiro.
Grandes manifestações contra as operações do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) ocorreram em todo os EUA na sexta-feira, com milhares de manifestantes tomando as ruas em um dia nacional de luta que os organizadores denominaram “Fora ICE”.
A insatisfação de muitos americanos com os agentes do ICE foi exemplificada pelos milhares de manifestantes que foram às ruas de Los Angeles.
Na sequência da repressão à imigração promovida pelo governo Trump, que resultou nas mortes de Renee Good e Alex Pretti, ambos americanos, por agentes do ICE no estado de Minnesota, manifestantes em Los Angeles expressaram sua frustração e medo com as violentas operações do ICE, que têm ocorrido em muitos estados governados por democratas, como a Califórnia.
“Eu nasci em Los Angeles e vi tantos vizinhos, tantos amigos meus — pessoas que ajudaram a construir esta cidade — sendo tirados de nós”, disse um manifestante à emissora de televisão KTLA. “Não posso ficar parado e assistir ao que está acontecendo.”
Além de marchas e manifestações, os organizadores do movimento ICE Out incentivaram os americanos a faltarem ao trabalho, à escola e a deixarem de fazer compras em lojas na sexta-feira, em solidariedade à oposição ao programa federal de imigração do governo Trump.
Manifestantes entraram em confronto com a polícia em frente ao prédio federal em Los Angeles, onde atiraram lixo e garrafas contra os policiais, o que levou ao uso de spray de pimenta contra a multidão, segundo repórteres que cobriam os protestos.
Líderes locais, incluindo o deputado federal Brad Sherman e o vereador de Los Angeles Bob Blumenfield, juntaram-se às manifestações, criticando as táticas federais contra a imigração e exigindo mudanças nas políticas do governo Trump.
Sherman disse a repórteres que esperava que os protestos levassem o governo a reconsiderar sua abordagem, enquanto Blumenfield afirmou que os manifestantes estavam levantando suas vozes “o mais alto que podemos aqui… e em todo o país”.
Centenas de estudantes do ensino médio em Los Angeles fizeram greves, juntando-se aos protestos em vez de frequentar as aulas. Algumas empresas no sul da Califórnia anunciaram o fechamento temporário de suas lojas em apoio ao movimento anti-ICE.
“Está crescendo”, disse um manifestante à KTLA. “Isso nos mostra que somos mais numerosos do que eles.”
Vigílias à luz de velas foram planejadas para a noite de sexta-feira em homenagem a Good, Pretti e outros mortos durante os protestos relacionados à imigração em Minnesota.
Os manifestantes esperam que os protestos em massa pressionem os líderes federais a diminuir a agressividade e a violência das operações do ICE.
No estado do Oregon, veteranos americanos realizaram um protesto no prédio federal da cidade de Eugene para expressar sua oposição às injustiças percebidas na conduta violenta dos agentes do ICE durante as batidas de imigração.
Membros do grupo Veteranos pela Paz enfatizaram que seu objetivo é responder às táticas violentas do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA) realizando manifestações pacíficas e não violentas.
“Não somos violentos, estamos protestando pacificamente”, disse a porta-voz do grupo, Pat Driscoll, em entrevista. “Não vamos deixar isso acontecer sem nos manifestarmos e expressarmos nossas opiniões.”
O objetivo do grupo é promover a união entre o governo e o povo americano afetado pelas violentas operações do ICE. “Precisamos nos unir”, disse Driscoll.
“Precisamos nos organizar juntos, porque ninguém mais vai nos proteger.”
Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações, e portanto sem a revisão do autor. As referencias são encontradas no original. . As opiniões expressas são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente as visões do ODTI.
Diplomata afirma que o mundo vive uma ruptura histórica, enquanto o Brasil mantém um discurso defasado e uma política econômica incompatível com um projeto de desenvolvimento soberano.
O mundo não atravessa uma simples transição, mas uma “ruptura da ordem internacional a que nós estávamos acostumados”. A afirmação é do embaixador Rubens Ricupero, em entrevista ao Projeto Brasil, com os jornalistas Luís Nassif e Sergio Leo, analisando a atual conjuntura geopolítica.
Ricupero reconhece o enfraquecimento do sistema multilateral, mas pondera que as organizações internacionais não pararam totalmente de funcionar, observando que “boa parte do comércio mundial continua regido pelas regras da OMC” e que o sistema ainda opera em conflitos que não envolvem diretamente as divergências entre as três superpotências nucleares (EUA, China e Rússia).
Diplomacia do Brasil e o “Soft Power”
Ricupero enfatiza que a influência brasileira é estritamente diplomática. Ele afirma que o Brasil “só tem condições de influir no multilateral”, pois não possui poder militar estratégico ou nuclear. Para ele, o país depende do seu “soft power”, que se manifesta através de “propostas e do diálogo” em fóruns como a ONU.
O embaixador elogia o discurso recente do primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, mas lamenta que o Brasil não tenha sido o protagonista dessa fala.
Ricupero argumenta que o discurso brasileiro “não se atualizou em relação ao mundo atual”, mantendo-se preso a conceitos dos anos 70 e 80, como a dicotomia Norte-Sul, que já não refletem a posição do Brasil como grande exportador global.
Política Industrial e “Taxa de juros injustificável”
Sobre o desenvolvimento econômico, Ricupero é enfático ao dizer que o caminho para a competitividade não passa pelo protecionismo tarifário, mas pela incorporação de tecnologia. O embaixador defende que a “política industrial hoje em dia (…) tem que ser uma política de conhecimento”.
Ele cita a Embraer e a Embrapa como setores onde o Brasil é indiscutivelmente competitivo porque houve “investimento pesado e um esforço planejado de aumento da qualidade” e “incorporação de conhecimento”.
O embaixador aponta que a política macroeconômica brasileira, especialmente com as atuais taxas de juros, é incompatível com um projeto de crescimento industrial.
Ele classifica o nível da taxa SELIC como “injustificável”.
O Impacto da Operação Lava Jato
De acordo com os documentos, a Operação Lava Jato prejudicou a exportação de serviços de engenharia ao provocar a liquidação das grandes empresas brasileiras do setor, que antes possuíam forte competitividade internacional.
O embaixador Rubens Ricupero afirma que o Brasil deu um “tiro no pé” ao permitir que a operação liquidasse companhias como Odebrecht e Andrade Gutierrez. Essas empresas não apenas dominavam o mercado interno, mas eram capazes de vencer licitações internacionais de alta complexidade, como a construção do metrô de Miami.
Ele argumenta que o combate à corrupção deveria ter focado na punição de indivíduos e não na destruição das empresas, o que resultou na perda de mercado para competidores estrangeiros.
Assista à íntegra do episódio do Projeto Brasil com Rubens Ricupero no YouTube: