A transformação digital da saúde já se tornou um campo estratégico de disputa global — e o Brasil corre o risco de ampliar sua dependência tecnológica se não avançar na soberania sobre dados, infraestrutura digital e inovação. O alerta foi o eixo central do webinário “Desenvolvimento, Tecnologias Digitais e o Risco de Vulnerabilidade em Saúde (Vulnerabilidade 4.0)”, realizado em 3 de março por pesquisadores e gestores da área.
Os números apresentados durante o debate revelam a dimensão da desigualdade tecnológica no setor. Hoje, 86% das patentes em saúde estão concentradas em apenas 10 países, enquanto 50 grandes corporações dominam a chamada saúde 4.0, sediadas em apenas 6 nações.
O professor Carlos Gadelha, coordenador do grupo de pesquisa “Desenvolvimento Sustentável, CT&I e CEIS” da Fundação Oswaldo Cruz e conselheiro do Projeto Brasil, afirmou que a digitalização da saúde criou um novo eixo de poder global.
Segundo ele, na atual geopolítica, soberania não se limita mais ao território físico. Dados e informação tornaram-se ativos estratégicos centrais, capazes de influenciar o sistema político, a economia e a própria democracia, indicou.
A preocupação ganha peso diante do crescimento acelerado do setor. O mercado global de saúde digital já se aproxima de US$ 1 trilhão, quase metade do valor do mercado mundial de medicamentos.
Dependência tecnológica
O diagnóstico apresentado pelos pesquisadores aponta uma forte dependência estrutural do Brasil e de outros países periféricos em relação à infraestrutura digital internacional.
Entre os dados destacados no encontro:
- 1/3 dos 500 supercomputadores mais potentes do mundo estão nos EUA
- 90% dos modelos de IA (inteligência artificial) seguem a lógica das grandes corporações
- 60% dos dados brasileiros não estão hospedados em instituições nacionais
- 83% das universidades utilizam servidores estrangeiros
Ao mesmo tempo, o setor público brasileiro já movimenta recursos relevantes: o gasto público em tecnologia da informação na saúde se aproxima de R$ 10 bilhões. Ainda assim, segundo os especialistas, esse investimento não tem se traduzido na mesma proporção em emprego qualificado, inovação nacional ou soberania tecnológica.
Para Gadelha, a agenda de digitalização em curso no Ministério da Saúde é robusta, mas precisa avançar em um ponto central: a governança pública dos dados. “Não há soberania em saúde sem controle público de dados estratégicos”, afirmou.
Dados de saúde: ativo econômico e político
A economista Helena Lastres, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, chamou atenção para outro aspecto pouco visível da digitalização: a captura econômica dos dados.
Segundo ela, informações de saúde muitas vezes são comercializadas ou exploradas sem conhecimento da população, em um ambiente global dominado por oligopólios digitais.
Lastres comparou o cenário atual ao processo de privatização das telecomunicações nas últimas décadas, que consolidou a divisão internacional do trabalho no setor tecnológico.
Sem regulação adequada, afirmou, países periféricos se tornam meros fornecedores de dados enquanto as etapas mais valiosas — como desenvolvimento de algoritmos, softwares e plataformas — permanecem concentradas nos países centrais.
SUS como motor de desenvolvimento
Diante desse cenário, especialistas defendem que o SUS (Sistema Único de Saúde) pode assumir um papel estratégico na transformação digital do país.
A diretora científica do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, Monica Felts, destacou que o Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS) tem potencial para articular inovação científica, produção industrial e acesso universal.
Segundo ela, o poder de compra do Estado pode funcionar como alavanca para desenvolver tecnologia nacional, fortalecer a indústria e reduzir a dependência externa.
Felts citou a atualidade do pensamento do economista Celso Furtado, que defendia um modelo de desenvolvimento baseado em autonomia tecnológica e papel indutor do Estado.
Agenda digital do SUS
No campo das políticas públicas, o Ministério da Saúde apresentou iniciativas que buscam estruturar essa transformação digital sob governança pública.
Entre os projetos em andamento estão:
- Meu SUS Digital, com diretrizes de segurança e soberania de dados
- SAGE (Sala de Apoio à Gestão Estratégica), voltada à análise de dados para políticas públicas
- Infraestrutura de Dados Espaciais da Saúde (IDE-MS)
- Ampliação da Telesaúde para regiões com menor acesso
- Desenvolvimento de projetos de inteligência artificial sob governança pública
A secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde, Ana Estela Haddad, ressaltou que proteger os dados em saúde é uma questão estratégica para o país. “A defesa dos dados em saúde é central para a soberania sanitária e para o desenvolvimento nacional”, afirmou.
Entre as prioridades, ela destacou a construção de uma nuvem soberana para os dados governamentais, além de iniciativas científicas como o programa Genoma Brasil.
A disputa pelo futuro da saúde
Para o epidemiologista Naomar de Almeida Filho, da Universidade Federal da Bahia, a digitalização da saúde exige não apenas tecnologia, mas também reflexão política e teórica. Segundo ele, o desafio é atualizar os princípios históricos do SUS — universalidade, integralidade e equidade — para o ambiente digital.
Isso significa garantir que a inovação tecnológica não amplie desigualdades, mas fortaleça o acesso à saúde, a justiça social e a sustentabilidade.
No centro deste debate está uma pergunta cada vez mais decisiva para as políticas públicas: quem controla os dados, os algoritmos e a infraestrutura da saúde no século XXI. E, como alertaram os especialistas, a resposta pode definir o futuro do SUS e da soberania sanitária brasileira.