Desdolarização: Brasil reduz dólar nas reservas e moedas digitais redefinem comércio mundial

Economista Carla Beni explica como a desdolarização avança de forma gradual, com mais ouro, Yuan e com moedas digitais fora da órbita dos EUA.

O Brasil no processo de desdolarização? Especialistas contam como o fenômeno está ocorrendo na economia brasileira e internacional. Para explicar o tema, o Projeto Brasil recebeu a economista Carla Beni, conselheira do Corecon-SP (Conselho Regional de Economia de São Paulo) e professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

A especialista afirma que a desdolarização, com a redução da quantidade de dólares estocados nas reservas internacionais, sendo substituídos por ouro ou outras moedas, como o Yuan chinês, já é visível. Segundo os dados do Banco Central, ela destaca que, entre 2018 e o final de 2024, a participação do dólar nas reservas brasileiras caiu de aproximadamente 90% para 78,45%, enquanto a moeda chinesa subiu de zero para 5,3% e o ouro saltou de 0,75% para 3,55%.

A convidada aponta que a confiança no dólar foi abalada por eventos como a pandemia e as sanções contra a Rússia, que impulsionaram a criação de sistemas de pagamento alternativos ao Swift, liderados por China e Rússia. Ela menciona que o Brasil já realiza pagamentos diretos em Yuan, evitando a “triangulação” pelo dólar através de acordos bilaterais entre bancos centrais.

Apesar do movimento de queda, ela concorda com o termo “desdolarização gradual e limitada”, pois os Estados Unidos ainda possuem um enorme poderio econômico e os países credores, como a China, têm cautela para não desvalorizar seus próprios estoques de títulos da dívida americana.

O papel do ouro e as moedas digitais

Beni observa uma tendência global de aumento das reservas em ouro como proteção contra possíveis sanções internacionais. Além disso, ela projeta que o futuro do comércio internacional passará pelas moedas digitais estatais, citando o desenvolvimento do Drex no Brasil e do Yuan digital.  

A economista apontou que o gatilho para muitos países, incluindo o Brasil, foi a observação de sanções impostas contra países como a Rússia e a Venezuela. Ao ver que reservas em dólares poderiam ser congeladas ou bloqueadas por decisões políticas de governos estrangeiros (como os Estados Unidos), as nações passaram a buscar ativos que não pudessem ser sancionados, sendo o ouro a principal alternativa de segurança.

Esse cenário impulsionou a diversificação das reservas para evitar a dependência total do “privilégio exorbitante” do dólar. Por isso, expôs Carla, o ouro é utilizado para substituir o estoque de dólares nas reservas internacionais. 

Esse não é um movimento isolado do Brasil, acrescentou a professora. Trata-se de um fenômeno internacional onde diversos bancos centrais estão “juntando ouro nos cofres” para se protegerem de possíveis instabilidades no sistema financeiro tradicional e no sistema de pagamentos Swift.

A alternativa é, também, o sistema de pagamentos independentes. Para reduzir a dependência do sistema Swift, a China e a Rússia desenvolveram seus próprios sistemas de pagamentos internacionais, que são descritos pela convidada como muito mais ágeis que o modelo tradicional. O movimento evita a chamada “triangulação do dólar”, permitindo que as trocas comerciais ocorram diretamente entre as moedas locais (como Real e Yuan).

Os participantes apontaram que existe, ainda, uma discussão sobre o desenvolvimento de um sistema similar ao Pix entre os países dos BRICS, o que facilitaria transferências e pagamentos imediatos em moedas locais. O futuro do comércio dentro desse bloco deve passar pelas moedas digitais emitidas pelo Estado, como o Drex no Brasil e o Yuan digital. Diferente das criptomoedas, essas moedas possuem emissão estatal e devem tornar o comércio internacional entre esses países ainda mais dinâmico.

Assista à íntegra do episódio:

*Ilustração de capa: Infobrics.org