Especialistas apontam: como o Brasil deve retomar o desenvolvimento

BNDES, academia e gestores públicos defendem articular uma política industrial, inspirado em JK, com inovação, tecnologia e planejamento de 20 a 30 anos.

O Projeto Brasil apresenta um debate estratégico sobre a retomada do desenvolvimento industrial e tecnológico brasileiro, inspirado no histórico “Plano de Metas” de Juscelino Kubitschek. Especialistas discutiram a necessidade de políticas públicas integradas que unam ciência, inovação e sustentabilidade para superar décadas de estagnação econômica e desmonte institucional.

Os jornalistas Luis Nassif e Sergio Leo receberam três convidados de peso para debater o plano de metas ideal para o país: José Luis Gordon, diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do BNDES; Celso Pansera, ex-ministro e presidente da Codemar (Companhia de Desenvolvimento de Maricá) e Celso Pinto de Melo, titular do Departamento de Física da UFPE.

Nassif apontou que o exemplo de Juscelino Kubitschek e seu Plano de Metas servem como uma referência fundamental para o debate atual sobre o desenvolvimento brasileiro, especialmente na ideia de retomar o papel do Estado como indutor e orquestrador da economia.

Entraves: juros e investimentos do Estado

Entre os principais entraves citados, destacam-se as altas taxas de juros, o excesso de burocracia e a falta de investimentos perenes em pesquisa. Pansera enfatizou que as altas taxas de juros “arrebentam” a economia e que o excesso de burocracia dos órgãos de controle, como o TCU, trava a inovação e consome o tempo dos pesquisadores com preenchimento de formulários em vez de foco nos resultados.

O ex-ministro defendeu a necessidade de recursos perenes e volumosos para a ciência, sugerindo a meta de 2% do PIB para inovação, com foco em áreas onde o Brasil tem vocação.

Nesse sentido, relatou a experiência de Maricá, onde royalties do petróleo são usados para criar um Fundo Soberano e financiar um parque tecnológico, aeroporto e porto, transformando compras públicas em instrumentos de desenvolvimento regional e inovação.

Brasil voltou às ‘engrenagens do desenvolvimento’

Por outro lado, o diálogo enfatizou o papel indutor do Estado, por meio de órgãos como o BNDES e a FINEP, para fortalecer a soberania nacional. O diretor do BNDES afirmou que o atual governo está “religando as engrenagens do desenvolvimento”, reconstruindo as estruturas de planejamento e políticas públicas (como a Nova Indústria Brasil – NIB) que haviam sido esvaziadas.

Gordon destacou que o BNDES voltou a ser a “casa da indústria”, batendo recordes de apoio à inovação (R$ 36 bilhões) e oferecendo taxas incentivadas para que o empresário possa correr riscos tecnológicos.

Ele ainda explicou que políticas industriais sólidas estão fazendo multinacionais (como a Bosch e montadoras) deslocarem seus centros de Pesquisa e Desenvolvimento (PID) para o Brasil, gerando empregos qualificados. 

Brasil deve integrar as “ilhas de excelência” em um “continente de inovação”

O professor titular da UFPE, Celso Pinto de Melo, propôs que o Brasil deve conectar suas “ilhas de excelência” científica em um sistema integrado, transformando um arquipélago isolado em um “continente de inovação”. Ele defendeu que polos de desenvolvimento tecnológicos como a Embrapa e a Embraer devam formar um continente produtivo interligado, utilizando áreas como bioeconomia e inteligência artificial para modernizar o país. 

Inspirado pelo modelo chinês e por Mariana Mazzucato, o pesquisador defendeu que o Estado deve ser o indutor, definindo missões estratégicas (saúde, defesa, bioeconomia) e organizando as agências (BNDES, FINEP, universidades) verticalmente para cumprir essas missões.

Melo citou JK como exemplo de presidente que, mesmo sob ataques e crises, conseguiu articular um plano de Estado de longo prazo que elevou o ânimo nacional, algo que o Brasil precisa recuperar para ser uma nação soberana em vez de uma “colônia tecnológica”. O docente expôs que o desenvolvimento do país não pode ser um plano de governo de 4 anos, mas sim um projeto de Estado com horizonte de 20 a 30 anos.

Por fim, o debate ressaltou que o sucesso desse projeto depende de um planejamento de longo prazo e do resgate de um sentimento de otimismo e brasilidade.

Assista à íntegra do debate no programa Projeto Brasil, no YouTube do Jornal GGN:

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