A crescente crise hídrica do Brasil

ODTI

Este texto nos fala da crise hídrica que ameaça a população brasileira.  Nele são apontadas diversas medidas que ajudariam na solução do problema. Mas não se trata simplesmente de “uma mudança de mentalidade na população brasileira”, o Brasil precisa de uma mudança radical na nossa estrutura econômica, que cada vez mais se aprofunda num modelo neocolonialista, profundamente dependente da produção e exportação de bens primários.

O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto do The Ecologist que “é um site de notícias e análises ambientais com foco em justiça ecológica, social e econômica.

A crescente crise hídrica do Brasil  

Monica Piccinini, publicado em 19 de fevereiro de 2026 

Ao nascer do sol às margens do Rio Negro, os pescadores costumam falar da água como se ela estivesse viva. Eles leem os humores do rio, medem o tempo por seus níveis e marcam as estações do ano por suas correntes.  

Por gerações, os cursos d’água da Amazônia moldaram o cotidiano. Agora, esses ritmos familiares estão se tornando mais difíceis de decifrar e confiar.  

As florestas brasileiras fazem mais do que armazenar carbono; elas regulam os sistemas hídricos que sustentam rios, agricultura e cidades em toda a América do Sul.  

Alimentos   

À medida que o desmatamento e a degradação se aceleram, cientistas alertam que o país está entrando em uma crise hídrica oculta com consequências globais.  

O Brasil é frequentemente descrito como uma nação moldada pela água. Ele detém aproximadamente 12% das reservas de água doce do mundo, enquanto a bacia amazônica forma o maior sistema de água doce da Terra.  

O Cerrado, a vasta savana tropical do país, alimenta rios que abastecem cidades e a agricultura em toda a América do Sul.  

No papel, o Brasil parece ter segurança hídrica. No entanto, cientistas alertam que essa segurança depende fortemente de ecossistemas que estão gradualmente perdendo sua capacidade de regular as chuvas e a vazão dos rios.  

Augusto Getirana, cientista pesquisador do Laboratório de Ciências Hidrológicas do Centro  Goddard da NASA, falando a título pessoal, explicou como os sistemas hídricos do Brasil influenciam o abastecimento global de alimentos.  

“O Brasil é o maior produtor mundial de café, soja e carne bovina, entre outras commodities que dependem da água”, disse ele ao The Ecologist.  

“Uma crise hídrica no Brasil que resulta em uma interrupção na produção interna de alimentos rapidamente se torna uma crise global. Vimos isso em 2021, quando os preços dessas commodities aumentaram substancialmente em todo o mundo.”  

Luciana Gatti, pesquisadora sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), argumentou que o desmatamento e a degradação da Amazônia, impulsionados pela expansão agrícola brasileira voltada para a exportação, estão diretamente ligados à crise hídrica.  

“Houve um enorme aumento nas exportações de madeira, carne bovina, soja, milho e minerais. Este é um projeto baseado na destruição da natureza para vender commodities primárias. Os sistemas hídricos são prejudicados por esses modelos de desenvolvimento, com graves consequências para os ecossistemas e para a população brasileira, enquanto concentram riqueza e poder nas mãos de grandes latifundiários.”  

A rede hídrica do Brasil depende de uma delicada parceria entre a floresta amazônica e o Cerrado. Juntos, eles formam uma vasta rede hidrológica que transporta umidade pela atmosfera, armazena água subterrânea e estabiliza bacias hidrográficas em grande parte da América do Sul.  

A redução do tamanho dos rebanhos bovinos ajudaria a diminuir a pressão ambiental e a instabilidade hídrica.  

A insegurança hídrica no Brasil não se resume à diminuição das chuvas. Pesquisadores a descrevem como um enfraquecimento dos processos naturais de regulação climática, uma mudança gradual com consequências potencialmente de longo alcance. 

Pesquisas da Universidade de São Paulo estimam que o desmatamento da Amazônia seja responsável por aproximadamente 74,5% da redução das chuvas e 16,5% do aumento da temperatura durante a estação seca.  

A Amazônia desempenha um papel central no ciclo da água na América do Sul. As árvores absorvem a umidade do solo e a liberam na atmosfera, gerando correntes de ar úmido, frequentemente descritas como “rios voadores”.  

Essas correntes de ar invisíveis transportam a água da chuva muito além da floresta, abastecendo regiões agrícolas, reservatórios e grandes centros urbanos. Por exemplo, uma grande porcentagem da água da chuva que abastece o sistema de Cantareira, em São Paulo, depende da umidade originária da Amazônia.  

Para muitos brasileiros, essas correntes atmosféricas de água são invisíveis, mas seus efeitos influenciam o crescimento das plantações, o reabastecimento dos reservatórios e a navegabilidade dos rios.  

Segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), em 30 de janeiro, o sistema de Cantareira operava com apenas 22% de sua capacidade.  

Com a redução das florestas, cientistas alertam que esse processo de reciclagem da umidade se enfraquece. A redução da cobertura vegetal significa menos umidade no ar, as chuvas tornam-se mais irregulares e o fluxo dos rios cada vez mais instável. Algumas regiões enfrentam secas prolongadas, enquanto outras experimentam chuvas intensas em períodos mais curtos.  

Pesquisadores afirmam que esses extremos não são anomalias isoladas, mas sinais de crescente estresse ecológico. O solo mais seco reduz a recarga dos aquíferos, enquanto os rios respondem de forma mais acentuada tanto à seca quanto às chuvas intensas.  

Eventos climáticos de grande escala, como El Niño, La Niña e as condições quentes no Atlântico Tropical Norte (ANT), apenas agravam a situação, desencadeando inundações ou secas que se propagam pelos sistemas fluviais e aquíferos.  

Ao longo dos cursos d’água da Amazônia, as comunidades já estão sentindo as consequências. Os estoques de peixes estão diminuindo, a água potável está cada vez mais escassa e as rotas de transporte fluvial são interrompidas durante as estações secas, isolando aldeias e restringindo o acesso a alimentos e suprimentos essenciais. 

Cientistas alertam que esse processo de reciclagem da umidade está enfraquecendo. A redução da cobertura vegetal significa menos umidade no ar, as chuvas se tornam mais irregulares e o fluxo dos rios cada vez mais instável. Algumas regiões enfrentam secas prolongadas, enquanto outras experimentam chuvas intensas em períodos mais curtos.  

A fonte de água negligenciada do Brasil  

Embora a Amazônia frequentemente domine as manchetes, cientistas enfatizam que o Cerrado desempenha um papel igualmente crucial na manutenção do equilíbrio hídrico do Brasil. Abrangendo aproximadamente um quarto do país, o bioma alimenta importantes sistemas fluviais, incluindo os rios São Francisco, Paraná e Tocantins. Gatti destacou que o bioma Cerrado é fundamental para sustentar os sistemas hídricos e as bacias hidrográficas do Brasil: “O Cerrado contém cerca de 80% das bacias hidrográficas do Brasil. Ele funciona como uma floresta invertida, concentrada em sistemas radiculares profundos. Essas raízes permitem que a água da chuva se infiltre gradualmente e recarregue os aquíferos. “Quando ocorre o desmatamento, o sistema natural de amortecimento desaparece. A água da chuva não é mais absorvida adequadamente. O solo fica exposto e a água escoa em vez de penetrar no solo.” 

Por gerações, comunidades rurais e indígenas dependeram desses córregos alimentados por águas subterrâneas para a agricultura, a pesca e práticas culturais ligadas aos ciclos sazonais da água.  

Mas o Cerrado está desaparecendo rapidamente. O cultivo de soja, a pecuária e a monocultura em larga escala substituíram vastas áreas de vegetação nativa. Culturas com raízes superficiais capturam menos água, reduzem a recarga dos aquíferos e aceleram a erosão do solo. Córregos que antes sustentavam comunidades agrícolas rurais estão diminuindo ou desaparecendo completamente.  

A crescente pressão industrial do setor agrícola brasileiro tornou-se um pilar do crescimento econômico, mas também intensificou a pressão sobre os recursos hídricos.  

A demanda por irrigação está aumentando, enquanto fertilizantes e pesticidas frequentemente escoam para os sistemas fluviais, poluindo a água, o solo e a vida selvagem. Globalmente, a agricultura responde por 70% do uso de água doce, um padrão refletido na expansão do agronegócio brasileiro.  

Gatti enfatizou o papel da demanda internacional por commodities na perpetuação do desmatamento: “É hipócrita culpar apenas o Brasil por não combater o desmatamento enquanto países como os Estados Unidos, os da Europa, a China, o Reino Unido e outros continuam comprar produtos ligados ao desmatamento. 

 “Se parassem de comprar madeira, carne, soja, milho e minerais produzidos em áreas desmatadas, o desmatamento poderia acabar muito rapidamente.”  

Os incêndios introduzem outra camada de risco. As paisagens queimadas absorvem e liberam água de forma desigual, aumentando o risco de inundações durante os períodos chuvosos e agravando as condições de seca durante os meses secos. Incêndios repetidos estão alterando a composição da floresta em partes da Amazônia, potencialmente enfraquecendo a geração de chuvas ao longo do tempo.  

Gatti disse: “Em 2024, a Amazônia registrou suas maiores emissões de carbono da história, em grande parte devido aos incêndios. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) do Brasil considera as emissões dos incêndios na Amazônia como líquidas zero em sua metodologia oficial. No entanto, os incêndios representam a maior fonte de emissões de carbono da Amazônia.”

Em 2024, incêndios queimaram 3,3 milhões de hectares da Amazônia, liberando aproximadamente 791 milhões de toneladas de CO₂.sobre o que a Alemanha emite em um ano. Pela primeira vez, a degradação florestal causada por incêndios ultrapassou o desmatamento como a principal causa de emissões de carbono na Amazônia.  

As atividades de mineração pressionam ainda mais os sistemas hídricos. Os cursos dos rios são, por vezes, desviados, florestas são derrubadas e os cursos d’água são contaminados com produtos químicos, reduzindo a quantidade de água doce potável disponível para consumo, pesca, agricultura, transporte e ecossistemas.  

Cientistas alertam que, se o desmatamento e a degradação dos ecossistemas continuarem, o fluxo dos rios e os padrões de chuva poderão se tornar progressivamente menos previsíveis, ameaçando a agricultura e o abastecimento de água urbano.  

O Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH) descreve esse desafio emergente como “falência hídrica”, uma situação em que a água doce é consumida mais rapidamente do que a natureza consegue repô-la.  

Especialistas alertam que o acesso desigual à água pode aprofundar a desigualdade social, alimentar a migração e aumentar o risco de conflitos em regiões vulneráveis.  

Apesar das crescentes evidências científicas, a escassez de água ainda é amplamente percebida como um problema distante ou regional em um país historicamente definido pela abundância.  

Ao mesmo tempo, as decisões políticas estão remodelando os próprios rios. Assinado pelo presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva em agosto de 2025, o Decreto 12.600/2025 adicionou os rios Tapajós e Tocantins (estado do Pará), bem como o rio Madeira (estado do Amazonas), ao plano de privatização do Brasil para expandir a navegação ao longo do Arco Norte.  

Hidrólogos e comunidades ribeirinhas alertam que a dragagem dos leitos dos rios e a remoção de rochas para manter essas rotas abertas para embarcações de carga maiores podem perturbar o movimento de sedimentos e os padrões sazonais de cheias.  

Em uma bacia já pressionada por secas cada vez mais intensas, essas mudanças podem comprometer ainda mais a segurança hídrica dos ecossistemas e das pessoas que dependem deles.Ao mesmo tempo, decisões políticas estão remodelando os próprios rios  

Getirana destacou que a crescente crise hídrica do Brasil está enraizada em práticas políticas e culturais de longa data: “Muitas das decisões políticas e econômicas do Brasil foram baseadas  na ideia  de que o país é rico em água”. 

Decisões políticas equivocadas que resultaram em impactos negativos no meio ambiente e na disponibilidade hídrica não estão relacionadas a partidos ou ideologias. Trata-se da cultura do país. Isso acontece há décadas, talvez séculos, independentemente de quem esteja no poder. A má gestão da água está enraizada na cultura brasileira.  

Uma mudança política exige, antes de tudo, uma mudança de mentalidade na população brasileira. Talvez uma maneira de mudar essa mentalidade seja demonstrando como a má gestão está impactando seus meios de subsistência e suas finanças.”  

Gatti também alertou que, no Brasil, a pesquisa científica é frequentemente negligenciada no desenvolvimento de políticas: “As evidências científicas não estão chegando aos tomadores de decisão. As promessas de desmatamento zero até 2030 correm o risco de chegar tarde demais, porque partes da Amazônia podem já estar se aproximando de pontos de inflexão ecológicos.  

Embora o Brasil tenha passado por mudanças políticas na liderança, as políticas estruturais de uso da terra que impulsionam o desmatamento permaneceram praticamente inalteradas.”  

Recuperação  

Apesar da crescente preocupação, alguns cientistas enfatizam que a recuperação ainda é possível.  

Gatti explicou que diversas medidas poderiam fazer uma diferença considerável para a segurança hídrica do Brasil: “O desmatamento zero em todo o país até 2027, e não apenas na Amazônia, é essencial para estabilizar os sistemas de chuva e água.  

Reduzir o tamanho dos rebanhos bovinos, estabelecer limites para a monocultura em larga escala e exigir a restauração florestal em áreas agrícolas ajudariam a reduzir a pressão ambiental e a instabilidade hídrica.  

Expandir os sistemas agroflorestais em larga escala poderia ajudar a restaurar o equilíbrio ecológico, mantendo a produtividade agrícola.”  

Getirana argumentou que a reforma da governança da água deveria ser o primeiro passo para restaurar a estabilidade hídrica do Brasil: “Acredito que a reforma da governança da água seria a base para outras medidas, como a recuperação de terras degradadas e o combate às mudanças climáticas. Além disso, políticas que impeçam a poluição da água poderiam ter impactos quase imediatos.”  

Alguns pesquisadores estão examinando se o reconhecimento dos rios como entidades vivas poderia proporcionar uma proteção ambiental mais robusta. Um projeto liderado pela Universidade de Leeds está explorando como tais marcos legais poderiam ajudar a prevenir a poluição, o desmatamento e a superexploração industrial.  

Para as comunidades ao longo do Rio Negro e em todo o interior do Brasil, a crise já é profundamente pessoal. Os rios estão menos previsíveis, os padrões de chuva estão mudando e a qualidade da água está diminuindo. Suas experiências diárias refletem uma realidade mais ampla: o futuro hídrico do Brasil depende da sobrevivência dos ecossistemas que o sustentam.  

Proteger as florestas brasileiras pode, em última análise, determinar não apenas o futuro ambiental do país,mas a estabilidade dos sistemas hídricos dos quais milhões de pessoas dependem diariamente. A autora,  

Monica Piccinini, é colaboradora regular da revista The Ecologist e escritora freelancer especializada em questões ambientais, de saúde e de direitos humanos. 

Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações e exclusão de partes do texto, e portanto sem a revisão do autor. As opiniões expressas são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente as visões do ODTI. 

Entre as referências do texto as que se seguem são de grande interesse para o entendimento do problema. As demais citações devem ser buscadas no texto original. 

Agencia FAPESP > Desmatamento causa 74% da redução das chuvas e 16% do aumento da temperatura na Amazônia durante a seca https://agencia.fapesp.br/desmatamento-causa-74-da-reducao-das-chuvas-e-16-do-aumento-da-temperatura-na-amazonia-durante-a-seca/55759  

Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) > Sistema Cantareira   https://www.gov.br/ana/pt-br/sala-de-situacao/sistema-cantareira/sistema-cantareira-saiba-mais