OIT: Falta firmeza contra a uberização, por Erik Chiconelli Gomes

Observatório de Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais (ODTI)

Em Conferência, Organização Internacional do Trabalho começa a esboçar recomendações para o trabalho digno em plataformas. Marco, no entanto, não pode ser “minimalista”: deve ter garantias concretas e regulação firme para subordinar o poder econômico e tecnológico

Por Erik Chiconelli Gomes

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) divulgou em 2025 o primeiro estudo voltado para a criação de uma Convenção e Recomendação Internacional específica para a regulamentação do trabalho decente na economia de plataforma. Este documento histórico, resultado das intensas discussões travadas na 114ª Conferência Internacional do Trabalho realizada em 2025, representa um momento de inflexão na história das relações laborais, mas que deve ser compreendido em uma perspectiva crítica que reconheça a urgência de proteções robustas similares àquelas historicamente conquistadas pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) no Brasil.

A iniciativa da OIT, embora represente um avanço institucional, revela-se insuficiente diante da magnitude da precarização que caracteriza a uberização do trabalho. Como demonstra Abílio (2021), “a uberização nomeia um novo tipo de gestão e controle da força de trabalho, também compreendida como uma tendência passível de se generalizar no âmbito das relações de trabalho”, resultando das “formas contemporâneas de eliminação de direitos, transferência de riscos e custos para os trabalhadores e novos arranjos produtivos” (ABÍLIO, 2021, p. 1). Esta realidade demanda não apenas regulamentação internacional, mas instrumentos normativos que garantam proteção efetiva aos trabalhadores.

Quando observamos as definições propostas pela OIT, encontramos uma tentativa de capturar a complexidade do fenômeno, mas que pode carecer da força normativa necessária. A “plataforma digital de trabalho” é definida como “uma pessoa jurídica ou, quando aplicável sob a lei nacional, pessoa física que, através de tecnologias digitais, usando sistemas automatizados de tomada de decisão: organiza e/ou facilita trabalho realizado por pessoas por remuneração ou pagamento” (ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO, 2025, p. 31). Esta definição, embora tecnicamente precisa, não captura adequadamente a natureza da subordinação disfarçada que caracteriza essas relações laborais.

A experiência histórica brasileira com a CLT demonstra a importância de marcos regulatórios robustos e protetivos. Como observa Krein (2020), “a constituição dos direitos dos trabalhadores no Brasil foi marcada por leis esparsas, e estes somente foram regulamentados, de forma sistemática, a partir de 1930”, culminando na consolidação de um sistema que, mesmo com suas limitações, garantiu proteções fundamentais (KREIN, 2020, p. 12). A atual proposta da OIT, por sua vez, corre o risco de reproduzir a flexibilização excessiva que caracteriza as reformas trabalhistas contemporâneas.

O reconhecimento pela OIT de que “a natureza e o crescimento da economia de plataforma, incluindo a expansão das plataformas digitais de trabalho, estão transformando significativamente a forma como o trabalho é organizado e realizado” (ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO, 2025, p. 31) é fundamental, mas insuficiente se não for acompanhado de mecanismos efetivos de proteção. A experiência concreta dos trabalhadores de plataforma revela uma intensificação da exploração que exige respostas normativas firmes, não apenas orientações flexíveis.

A economia moral dos trabalhadores de plataforma manifesta-se por meio de expectativas legítimas de proteção que ecoam as históricas demandas por direitos trabalhistas. As reivindicações por transparência nos algoritmos, estabilidade na remuneração e proteção contra desativações arbitrárias representam uma continuidade com as lutas históricas por dignidade no trabalho. Como demonstra Antunes (2020), a uberização representa uma “escravidão digital” que exige respostas regulatórias proporcionais à gravidade da precarização (ANTUNES, 2020, p. 62).

A proposta da OIT de incluir “um ambiente de trabalho seguro e saudável” entre os princípios fundamentais (ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO, 2025, p. 33) é importante, mas deve ser complementada por mecanismos concretos de aplicação. A experiência brasileira evidencia que direitos formalmente reconhecidos sem mecanismos efetivos de proteção tornam-se letra morta. A regulação da economia de plataforma não pode repetir os erros das reformas trabalhistas que privilegiaram a flexibilização em detrimento da proteção.

As tensões entre flexibilidade e segurança, que permeiam todo o documento da OIT, devem ser resolvidas claramente em favor da proteção dos trabalhadores. A história das relações de trabalho demonstra que a verdadeira flexibilidade emerge de um ambiente de segurança jurídica e proteção social, não da precarização das condições laborais. A regulação das plataformas digitais deve aprender com os acertos da CLT, que estabeleceu um patamar mínimo de proteção capaz de estruturar relações de trabalho mais equilibradas.


A falsa modernização: crítica à perspectiva flexibilizadora da regulação internacional

A abordagem da OIT para regular o trabalho em plataformas, embora represente um avanço, reproduz perigosamente a lógica flexibilizadora que tem caracterizado as contrarreformas trabalhistas contemporâneas. Quando o documento estabelece que “cada Membro deve tomar medidas para assegurar a classificação correta dos trabalhadores de plataforma digital em relação à existência de uma relação de emprego” (ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO, 2025, p. 34), está tocando em uma questão central, mas sem a firmeza necessária para enfrentar as estratégias empresariais de negação da subordinação laboral.

A experiência brasileira recente com a reforma trabalhista de 2017 ilustra os perigos de uma regulação que privilegia a flexibilização. Como demonstra Krein (2020), essa reforma “amplia a liberdade dos empregadores em determinar as condições de contratação, o uso da força de trabalho e a remuneração dos trabalhadores”, representando “o aumento da insegurança dos trabalhadores e a perda de direitos” (KREIN, 2020, p. 13). A proposta da OIT corre o risco de legitimar uma flexibilização similar no contexto das plataformas digitais.

O tratamento dado pela OIT aos sistemas automatizados exemplifica essa insuficiência. O documento estabelece que “cada Membro deve exigir que as plataformas digitais de trabalho informem os trabalhadores de plataforma digital sobre o uso de sistemas automatizados, baseados em algoritmos ou métodos similares, para monitorar ou avaliar o trabalho” (ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO, 2025, p. 35). Esta exigência de transparência, embora importante, é insuficiente diante da realidade de controle total que os algoritmos exercem sobre o processo de trabalho.

Como observa Abílio (2021), a uberização caracteriza-se pela “consolidação e gerenciamento de multidões de trabalhadores como trabalhadores just-in-time”, envolvendo “um novo tipo generalizável de remuneração por peça” que “conserva sua centralidade nas formas de exploração capitalistas, mas atualiza seus elementos” (ABÍLIO, 2021, p. 1). Esta realidade exige muito mais do que transparência: demanda limitações efetivas ao poder algorítmico e garantias concretas de proteção aos trabalhadores.

A questão da remuneração ilustra claramente os limites de uma abordagem meramente orientativa. Quando a OIT propõe que “cada Membro deve tomar medidas para assegurar que a remuneração devida aos trabalhadores de plataforma digital seja adequada, paga em moeda legal e paga integralmente e em tempo hábil” (ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO, 2025, p. 35), estabelece princípios importantes, mas sem os mecanismos concretos necessários para sua efetivação.

A experiência histórica da CLT mostra que é necessário estabelecer pisos salariais, mecanismos de reajuste e proteções específicas contra a deterioração dos rendimentos.

As propostas sobre segurança e saúde ocupacional revelam uma compreensão inadequada dos novos riscos laborais. O documento reconhece que “medidas tomadas por um Membro para implementar o parágrafo 1 deste Artigo devem buscar prevenir acidentes ocupacionais, doenças ocupacionais e outros ferimentos à saúde associados a longas horas de trabalho e períodos insuficientes de descanso” (OIT, 2025, p. 33). Contudo, como demonstra Antunes (2020), a uberização cria formas inéditas de “submissão dos trabalhadores às plataformas” que se configuram como uma verdadeira “escravidão digital” (ANTUNES, 2020, p. 44).

A atenção dada à proteção de dados pessoais, embora represente uma inovação importante, não aborda adequadamente a dimensão da exploração informacional. A proposta de que “cada Membro deve assegurar que dados pessoais de trabalhadores de plataforma digital sejam coletados, armazenados, processados e usados apenas na medida estritamente necessária para o propósito de seu emprego ou engajamento” (OIT, 2025, p. 36) ignora que a própria coleta desses dados representa uma forma de valor apropriado pelas plataformas sem compensação adequada aos trabalhadores.

O tratamento dado às organizações de trabalhadores revela uma compreensão limitada dos desafios organizativos na economia de plataforma. Embora o documento reconheça formalmente o direito à organização coletiva, não propõe instrumentos efetivos para superar a fragmentação e dispersão que caracterizam esse tipo de trabalho.

A questão da jurisdição e da aplicação das normas ilustra uma contradição fundamental: ao afirmar que “os termos e condições de emprego ou engajamento de trabalhadores de plataforma digital devem ser governados pelas leis e regulamentos do país onde o trabalho é realizado” (OIT, 2025, p. 37), a proposta tenta resolver uma tensão entre capital globalizado e regulação nacional, mas sem mecanismos de coordenação internacional que evitem a corrida para o fundo em termos de proteção social.


Por uma regulação protetiva: lições da história e desafios do presente

A análise crítica da proposta da OIT revela a necessidade urgente de uma regulação verdadeiramente protetiva para o trabalho em plataformas digitais, inspirada nas conquistas históricas da legislação trabalhista.

A subordinação existe independentemente da mediação tecnológica. A regulação das plataformas deve reconhecer a relação de emprego, estabelecer direitos substantivos (salário mínimo, jornada máxima, proteção contra demissão arbitrária, seguridade social), e garantir proteção social universal, com contribuição obrigatória das empresas de plataforma.

Também é necessário impor limites efetivos ao poder dos algoritmos, garantir o direito de contestação de decisões automatizadas, proteção contra discriminação algorítmica, e remuneração mínima garantida independentemente da demanda.

O fortalecimento da organização coletiva é indispensável: as plataformas devem garantir acesso à comunicação entre trabalhadores, proteção contra retaliações, direito de greve e mecanismos de financiamento sindical.

Por fim, os direitos devem vir acompanhados de mecanismos efetivos de aplicação, incluindo fiscalização especializada, penalidades severas, responsabilidade solidária e inversão do ônus da prova em favor dos trabalhadores.

A transformação tecnológica não pode justificar um retrocesso social. A proposta da OIT é um ponto de partida, mas a luta pelo trabalho digno na era digital exige sistemas normativos robustos que subordinem o poder econômico e tecnológico aos direitos fundamentais dos trabalhadores.


Referências

ABÍLIO, Ludmila Costhek. Uberização e plataformização do trabalho no Brasil: conceitos, processos e formas. Sociologias, Porto Alegre, v. 23, n. 58, p. 26-56, set./dez. 2021.
ANTUNES, Ricardo (org.). Uberização, trabalho digital e indústria 4.0. São Paulo: Boitempo, 2020.
KREIN, José Dari. A contrarreforma trabalhista e a precarização das relações de trabalho no Brasil. Revista Katálysis, Florianópolis, v. 23, n. 1, p. 132-142, fev. 2020.
ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO. Decent work in the platform economy. Geneva: ILO, 2025.

A íntegra deste artigo está disponível, também, no Acervo do Projeto Brasil. Acesse aqui.

Declínio Geral dos Direitos dos Trabalhadores: uma análise do Índice Global

Observatório de Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais (ODTI)

Em junho último, a Confederação Sindical Internacional (CSI) publicou seu Índice Global de Direitos, avaliando o estado dos direitos dos trabalhadores em todo o mundo.

O índice, publicado anualmente desde 2014, avalia 151 países com base em 97 indicadores derivados das Convenções da OIT.

Os países são classificados em uma escala de 1 a 5+, sendo 1 a melhor classificação (violações esporádicas) e 5+ significando ausência de garantias de direitos devido à quebra do estado de direito.

Os indicadores incluem violência contra trabalhadores, mortes de sindicalistas, violações do direito à greve, à negociação coletiva, à criação e adesão a sindicatos, ao acesso à justiça, à liberdade de expressão e reunião, além de liberdades civis.

O Brasil manteve a pontuação 4, indicando violações sistemáticas dos direitos.

O texto abaixo foi traduzido pelo Observatório Internacional a partir da apresentação do relatório na página da CSI:
🔗 https://www.ituc-csi.org


Direitos Globais dos Trabalhadores

Esta é a 12ª edição do Índice de Direitos Globais da CSI — o único estudo anual e mundial sobre a violação dos direitos dos trabalhadores, que são base do estado de direito democrático e de condições de trabalho justas.

O Índice de 2025 revela uma crise global cada vez pior para trabalhadores e sindicatos.

As classificações médias se deterioraram em três das cinco regiões globais, com Europa e Américas registrando suas piores pontuações desde 2014.

Apenas sete dos 151 países receberam a melhor classificação.

Os dados mostram aumento das violações do acesso à justiça, liberdade de expressão e reunião, e direito à negociação coletiva.

Nesse cenário, cresce o número de governos que criminalizam organizações civis e sindicatos sob o rótulo de “agentes estrangeiros”.

As violações do direito à greve e de registro sindical permanecem em níveis recordes — um ataque concertado à democracia por parte de autoridades estatais e corporações.

Cada vez mais, esse ataque é orquestrado por demagogos de extrema direita apoiados por bilionários, determinados a remodelar o mundo segundo seus interesses, às custas dos trabalhadores comuns.

O Índice de 2025 é um apelo urgente à ação para resistir a esse golpe contra a democracia.

A campanha “Democracy That Delivers” (Democracia que Atende), da CSI, busca unir trabalhadores em defesa de seus direitos e de um futuro mais justo e sustentável.


Destaques das Violações em 2025

  • 72% dos países reduziram o acesso à justiça (eram 65% em 2024).
  • 45% relataram ataques à liberdade de expressão e reunião (recorde, antes eram 43%).
  • O direito à greve foi violado em 87% dos países.
  • O registro legal de sindicatos foi impedido em 74% dos países — pior nível desde 2014.
  • O direito à negociação coletiva foi restringido em 80% (eram 79% em 2024).
  • Em 71 países, trabalhadores foram presos ou detidos — quase o dobro da taxa de 2014.
  • Três em cada quatro países negaram o direito à liberdade de associação.
  • Violência contra trabalhadores ocorreu em 26% dos países.

Os 10 Piores Países para Trabalhadores (2025)

Bangladesh, Bielorrússia, Equador, Egito, Eswatini, Mianmar, Nigéria, Filipinas, Tunísia e Turquia.


Mais Países se Deterioram do que Melhoram

Pioraram: Argentina, Costa Rica, Geórgia, Itália, Mauritânia, Níger e Panamá.
Melhoraram: Austrália, México e Omã.


Américas

A média das Américas chegou ao pior ponto desde 2014, caindo de 3,56 para 3,68.

A região continua sendo a mais letal para sindicalistas — com mortes na Colômbia, Guatemala e Peru.

  • 92% dos países restringiram o registro sindical.
  • Trabalhadores presos ou detidos em 6 de cada 10 países.
  • 88% violaram o direito à greve.

Argentina, Costa Rica e Panamá caíram de 3 para 4;
México melhorou de 4 para 3 após reformas trabalhistas positivas.

Greves e protestos foram reprimidos na Argentina e no Brasil, e empresas em setores abusivos atuaram contra sindicatos em El Salvador, Costa Rica, Honduras e Panamá.


Um Golpe na Democracia

O Índice mostra que as liberdades democráticas estão sendo minadas por uma elite bilionária que controla quase metade da riqueza global.

Essa concentração de poder econômico permite interferência nas decisões políticas e nas proteções trabalhistas.

Políticos de extrema direita e seus apoiadores bilionários (como Donald Trump e Elon Musk nos EUA e Javier Milei e Eduardo Eurnekian na Argentina) seguem o mesmo manual autoritário em escala global.

O texto defende o fortalecimento dos sindicatos independentes como a principal forma de resistência democrática e de enfrentamento à desigualdade.

O movimento sindical global é apresentado como a maior força social democrática do mundo, capaz de proteger os trabalhadores e reverter a concentração de poder.


📘 Relatório completo (em espanhol):
Índice Global de los Derechos de la CSI 2025 — 23 de mayo de 2025
🔗 https://www.ituc-csi.org/IMG/pdf/es__global_right_index_2025_web_ok.pdf?42600/febaa9d397d3c2bf9a64fd0a5a829969108c4cd9a81dff14aa34eca11031d02e

A íntegra deste artigo está disponível, também, no Acervo do Projeto Brasil. Acesse aqui.

Uma agenda digital para o Brasil: do sequestro à reconstrução, por James Görgen

James Görgen*

A internet não é uma terra sem lei. É um mapa de poder. Entre cabos submarinos, data centers, nuvens e padrões técnicos, formou-se um condomínio de poucas empresas com alcance supranacional e regras próprias que, na prática, competem com leis nacionais. O resultado, já percebido por países do Sul Global, é um sequestro silencioso da autonomia: dependências técnicas viram dependências políticas. O Brasil, potência digital em uso destes serviços e geração de dados, precisa se tornar produtor e desenvolvedor. É aqui que soberania digital deixa de ser palavra de ordem e vira método para um projeto nacional. Este texto é um diagnóstico e, ao mesmo tempo, um chamado à ação em torno de um projeto nacional voltado à construção do ecossistema digital brasileiro.

Nos debrucemos sobre três pontos que conformam o atual estado de coisas no digital. Primeiramente, em pouco mais de 20 anos o mundo passou da ilusão de uma rede mundial sem fronteiras ao poder extraterritorial de fato. Em um piscar de olhos, como ocorre no mundo da tecnologia, a narrativa de uma web neutra e aberta ruiu. Big Techs controlam fatias substanciais da infraestrutura global (cabos, nuvem, serviços de DNS, stacks de software) e dos ambientes online. Podem impor, por contrato ou termos de serviço, obrigações que fazem sombra às leis nacionais. Casos recentes — de cortes de serviço por sanções a mudanças unilaterais de políticas — expõem uma dura realidade: a infraestrutura digital virou ferramenta de coerção geopolítica. Uma decisão fora do país pode suspender serviços essenciais aqui. É um “direito privado com efeitos públicos”.

Em segundo lugar, o papel do Brasil neste cenário é marcado por um dilema. Somos uma potência usuária com autonomia instável. Um gigante conectado, um berço de talentos, com mercado robusto e Estado digital em expansão. Mas a administração pública, o sistema financeiro e o setor privado dependem, em alto grau, de soluções estrangeiras fechadas. Ao lock-in operacional somam-se efeitos cognitivos: a adoção de IA opaca em áreas sensíveis (saúde, educação, segurança) sem transparência sobre dados, vieses e lógica de decisão. No plano jurídico, a disputa em torno da regulação da moderação de conteúdo nas redes sociais — com a decisão recente do STF — abriu espaço para atualizar a responsabilização das plataformas. Ainda falta, porém, um quadro coerente para a tratar as plataformas digitais e a inteligência artificial (IA).

Por fim, temos a conjuntura atual, que forma o que chamo de uma tempestade perfeita formada por Donald Trump na Casa Branca, a bolha de IA e o fraturamento do ecossistema da governança digital global. O retorno de um protecionismo assertivo nos EUA, somado a uma corrida por “interoperabilidade regulatória”, nos próprios termos de Washington, tende a congelar padrões e empurrar dependências. Some-se a isso a intermediação por IA nos buscadores e nas redes, que concentram distribuição de informação, e a emergência da IA afetiva — chatbots que viram “companheiros íntimos” e podem, em períodos eleitorais, orientar escolhas políticas de modo personalizado e invisível. Entre resumos automáticos que engolem a fonte e propaganda segmentada em mensagerias, a esfera pública pode ficar tão visível quanto um arquivo .zip sem senha: existe, mas poucos abrem.

Fundamentos de um projeto

Esta realidade, um tanto quanto apocalíptica, tem como saída uma convergência de seis pilares para a agenda digital brasileira. Um conjunto de ações pragmáticas focado na soberania nacional. Começando de baixo para cima, teríamos:

1.Infraestrutura crítica com comando e metas públicas. Uma nuvem de governo com autonomia real como infraestrutura essencial: dados sensíveis sob gestão estatal direta; multi-cloud por desenho; padrões abertos; auditoria independente; eficiência energética como critério. Serpro, Dataprev, Telebras e RNP como âncoras técnico-operacionais de um sistema federado.

2. Dados como ativo público e motor de inovação. Superar o impasse sobre titularidade e propriedade de dados pessoais e não-pessoais para avançar ao acesso das informações controladas por Big Techs para o governo formular e realizar política pública. Algo como um business to government no formato de data trusts: acesso seguro e anonimizado a dados de alto interesse público por universidades, GovTechs e órgãos de Estado, com trilhas de auditoria e, quando couber, remuneração.

3. Concorrência assimétrica para abrir espaço ao novo. Interoperabilidade obrigatória (mensageria, pagamentos, redes sociais), portabilidade sem fricção, neutralidade de loja/aplicação, vedação a aquisições predatórias e auto-preferência estabelecendo práticas de defesa da concorrência que coloquem a política industrial como aliada.

4. Tributação onde o valor nasce. Alinhar regime fiscal a padrões internacionais, mas assegurando que parte do valor gerado no território fomente a economia digital, financiando infraestrutura, P&D e formação. Ideias em debate em projetos de lei — CIDE-Digital, “PIX das Big Techs” — devem vir com desenho técnico, metas e avaliação de impacto.

5. Normas e padrões, não só leis. Sem presença técnica brasileira de peso em organismos de padronização (internet, IA, telecomunicações, segurança cibernética), a lei vira corrida atrás do protocolo e do algoritmo. Precisamos assento, voto e liderança em grupos de trabalho de fóruns dominados pelas empresas estrangeiras e a chamada “comunidade técnica”.

6. Diplomacia econômica digital. Coalizões Sul-Sul com pontes para a União Europeia e o Sudeste Asiático: nuvem pública regional, espaços setoriais de intercâmbio de dados (saúde, mobilidade, energia), salvaguardas para infraestrutura crítica e posição comum sobre comércio digital e fluxos de dados e de insumos críticos como semicondutores.

Arquitetura institucional

Um projeto abrangente como este exige uma governança e um enforcement regulatório que tenha como centro aorquestração, não o clientelismo tecnológico. A agora Agência Nacional para Proteção de Dados (ANPD) começa a acumular competências para tratar dos diferentes assuntos envolvendo o digital. Mas as atuais missões não alcançam por completo as demandas envolvendo uma agenda digital como a descrita aqui.

Como já se argumentou[1], precisamos de uma Agência Nacional de Infraestrutura e Plataformas Digitais (enxuta, técnica, com diretoria estável e comitê interministerial) que coordene um arranjo composto pela ANPD, Anatel, Cade e outras autarquias nas frentes que se cruzam: dados, plataformas, IA, cibersegurança e infraestrutura. A missão: impedir que compras públicas virem algemas tecnológicas; padronizar exigências (portabilidade, logs, documentação de modelos e APIs), publicar métricas de desempenho e viabilizar auditoria externa.

Este ente faria uma ponte de coordenação institucional com um Gabinete de Soberania Digital na Presidência da República para governar prioridades, orçamento e metas alinhadas de diversos Ministérios.

Começo, meio e métrica

Um projeto deste porte exige um planejamento de curto e longo prazos que pode ser alcançado em 12 meses. As principais ações desta agenda digital dialogam com o que já está sendo conduzido hoje pelo Governo Lula com alguns elementos estratégicos adicionais:

  1. Nuvem Soberana de Governo. Decreto com governança, classificação de dados, SLAs públicos, metas trimestrais de migração, multi-cloud por desenho e relatórios de eficiência energética.
  2. Lei de Acesso a Dados de Interesse Público. Base legal para data trustscom comitê independente, regras de anonimização, trilha de auditoria e sandbox regulatório.
  3. Pacote de Interoperabilidade e Concorrência Digital. Interoperabilidade em mensageria, pagamentos e redes sociais, portabilidade reforçada, neutralidade de loja/aplicação; fast-track para bloquear fusões que impeçam o nascimento de concorrentes.
  4. Marco de IA com foco em risco sistêmico e auditabilidade. Documentação de modelos e dados, model cardsincident reporting, acesso controlado para auditoria; regras específicas para IA afetiva e uso eleitoral (proibição de direcionamento político opaco e obrigação de watermarking/identificação).
  5. Programa Trinca Digital. Semicondutores (com foco em back-end e packaging), software crítico (identidades, segurança, observabilidade) e serviços de nuvem. Encomendas tecnológicas atreladas a compras públicas e metas de P&D local.
  6. Estratégia Nacional de Padrões e Governança Digital. Orçamento plurianual para presença técnica em fóruns de definição de padrões e protocolos, metas de liderança e relatório anual ao Congresso Nacional.
  7. Tributação justa. Revisão de benefícios fiscais e captura de valor com contrapartidas (P&D local, transferência de conhecimento, formação de equipes brasileiras), sem espantar investimento produtivo.
  8. Diplomacia Digital Ativa. Posição brasileira para comércio eletrônico, fluxos de dados e tributação global; propostas de infraestrutura regional e projetos cooperativos em IA de código aberto e responsável.

Memória, transparência e o espaço público

Soberania também é cuidar da memória coletiva. Links se quebram, conteúdos somem e verificabilidade histórica se fragiliza. O Estado precisa de uma Política Nacional de Preservação Digital: repositórios públicos, requisitos de interoperabilidade de arquivos, depósito legal digital para conteúdos financiados por verbas públicas e APIs abertas para pesquisa. Transparência ativa (inclusive dos próprios modelos de IA contratados) reduz assimetria de informação e dá musculatura à sociedade civil e à academia.

Um pacto político possível

Não é a agenda digital de um partido. Todos ganham com serviços públicos resilientes, concorrência leal e capacidades tecnológicas domésticas. Três compromissos destravam o ciclo: orçamento previsível para infraestrutura e participação técnica internacional; estabilidade regulatória para padrões abertos; métrica pública para fiscalização social e parlamentar. Improviso parece barato, mas cobra juros compostos em lock-in, apagões e perdas de talento.

O Brasil já testou demais. Falta escalar. Soberania digital é verbo: governar, interoperar, auditar, investir, formar. É alinhar direitos, concorrência, infraestrutura e indústria para converter uso massivo em capacidade produtiva. No curto prazo, o caminho passa por nuvem pública com domínio real do elementos estratégicos, dados tratados como ativo social, competição que abra espaço ao nascente, IA auditável e diplomacia com espinha dorsal. No médio prazo, por uma arquitetura institucional que evite que contratos privados definam o interesse público. O futuro não será soberano por gravidade. Ou o país organiza seu poder digital — com normas, padrões, infraestrutura e alianças — , ou continuará importando inteligência enquanto exporta dados e oportunidades. Entre sequestro e reconstrução, a janela está aberta. Convém atravessá-la antes que vire espelho.

 

* James Görgen é servidor público federal da carreira de Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, assessor para temas digitais e agenda internacional do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Foi Assessor Especial de Ministros e Diretor de Gestão Estratégica do Ministério das Comunicações. É membro suplente do Comitê Gestor da Internet no Brasil.

O que é um data center e por que isso importa para o Brasil?

Camila Modanez

Apesar de ser um dos assuntos da vez, com menções cada vez mais frequentes em jornais, relatórios de governo e anúncios corporativos, o conceito de data center ainda é nebuloso para grande parte da população. A maioria das pessoas já entende que eles são importantes, que têm relação com a “nuvem”, com a internet e com o armazenamento de dados, mas poucos sabem, de fato, o que é um data center, como ele funciona ou por que ele está no centro de disputas geopolíticas, socioeconômicas e ambientais no século 21.

Data centers são as infraestruturas responsáveis por manter operante tudo aquilo que hoje está digitalizado: redes sociais, serviços bancários, plataformas de streaming, sites governamentais, ferramentas de inteligência artificial, comércio eletrônico, entre tantos outros. Eles são, nas palavras de estudiosos do campo, os “bunkers da era da informação”: estruturas físicas que tornam possível a virtualidade dos nossos dias.

Mas os data centers não são apenas um símbolo da transformação digital. Eles também são vetores de concentração de poder, de consumo intensivo de recursos naturais e de redefinição do que entendemos por infraestrutura crítica. São, ao mesmo tempo, objetos técnicos e políticos. No caso do Brasil, discutir data centers é discutir soberania, desenvolvimento e justiça socioambiental. E por isso mesmo, compreender o que são, como operam e o que implicam deve deixar de ser um assunto restrito a especialistas.

Mas afinal, o que é um data center?

Data centers são centros de dados que funcionam como “corações” da era digital, bombeando informação constantemente para garantir que sistemas, plataformas e serviços digitais permaneçam disponíveis e seguros. Para isso, contam com uma infraestrutura robusta, composta por:

  • Servidores: os computadores responsáveis por armazenar e processar os dados;
  • Sistemas de resfriamento: necessários para evitar o superaquecimento dos equipamentos, que operam 24 horas por dia;
  • Sistemas de segurança: tanto física (portas blindadas, biometria, vigilância) quanto digital (firewalls, criptografia, redundância);
  • Conectividade: conexões de alta velocidade com outras redes e centros de dados, garantindo acesso ágil e contínuo.

Uma analogia útil é imaginar um data center como uma “central elétrica da informação”: em vez de gerar energia, ele gera, organiza e distribui dados: o “combustível” do século 21.

Além da estrutura básica, data centers variam muito em forma e escala. Alguns são pequenos, localizados próximos a centros urbanos para reduzir a latência, os chamados edge data centers; outros são gigantescos, capazes de abrigar centenas de milhares de servidores, os hiperscale data centers, operados por empresas como Google, Amazon e Microsoft. Há ainda os colocation data centers, onde diferentes empresas alugam espaço em um mesmo centro, compartilhando parte da infraestrutura.

Essas diferenças não se limitam ao porte e à finalidade. Existem também diversas “arquiteturas” internas, com variações nos sistemas de resfriamento (a ar, a água, imersão líquida, entre outros), no design dos racks, na estratégia de redundância energética e nas fontes de energia utilizadas.

Compreender essas características é essencial para analisar os impactos, e as promessas, associados aos data centers, especialmente quando se discute sua sustentabilidade e seu papel no desenvolvimento nacional.

Por que consomem tanta energia (e água)?

Data centers operam ininterruptamente, 24 horas por dia, 7 dias por semana. Essa disponibilidade exige que seus servidores estejam sempre ligados, o que gera uma demanda constante de energia, tanto para processar dados quanto para manter a infraestrutura funcionando de forma estável e segura.

Grande parte desse consumo energético não vem dos próprios servidores, mas dos sistemas de resfriamento e da redundância (infraestruturas duplicadas que garantem funcionamento contínuo em caso de falha). Isso significa que manter a temperatura ideal e evitar interrupções é tão custoso energeticamente quanto processar os dados em si.

Para medir a eficiência energética, a principal métrica utilizada é o PUE (Power Usage Effectiveness), que compara a energia total consumida com a energia efetivamente usada pelos servidores. Já no caso da eficiência hídrica, usa-se o WUE (Water Usage Effectiveness), que indica o volume de água utilizado por quilowatt-hora consumido.

O modo como um data center é resfriado tem enorme impacto nessas métricas. Existem diferentes métodos, como resfriamento a ar, a água ou por imersão líquida, e cada um traz seus próprios trade-offs. Sistemas baseados em água tendem a ser mais eficientes energeticamente, mas consomem mais recursos hídricos. Já os sistemas a ar demandam mais energia, mas usam menos água.

Essa lógica, muitas vezes reduzida a números técnicos, não dá conta da complexidade real envolvida. É fundamental considerar também os impactos indiretos, como as emissões associadas à geração de energia elétrica e o uso intensivo de água em regiões de escassez, para avaliar de forma completa os efeitos da expansão dessas infraestruturas.

Por que o Brasil deveria se importar?

O crescimento da demanda por serviços digitais, como computação em nuvem, inteligência artificial e internet das coisas, exige uma infraestrutura robusta para armazenar, processar e transferir grandes volumes de dados. Os data centers são centrais para essa operação, e sua presença nos territórios se torna cada vez mais estratégica.

O Brasil, com seu vasto território, matriz energética majoritariamente renovável e abundância relativa de água em algumas regiões, desponta como um país atrativo para a instalação dessas infraestruturas. Mas essa atratividade também exige cuidado. Se o país não define suas próprias regras e prioridades, corre o risco de se tornar uma colônia digital: um território que hospeda servidores e transfere seus recursos (naturais, humanos e digitais) para o controle de big techs estrangeiras, sem garantir soberania sobre os dados ou sobre a infraestrutura.

Além disso, o argumento de que os data centers trarão emprego e desenvolvimento para o país precisa ser visto com cautela. A maior parte dos empregos gerados se concentra na fase de construção, sendo que a operação cotidiana, em geral, demanda pouca mão de obra e profissionais altamente especializados, muitas vezes estrangeiros ou já alocados nas sedes das empresas.

Ignorar esse debate é perder a chance de definir um projeto nacional para o futuro digital. O Brasil precisa decidir: será apenas o terreno barato e ensolarado para servidores estrangeiros, ou irá construir sua própria rota de soberania e sustentabilidade na era dos dados?

Soberania, sustentabilidade e o futuro dos data centers no Brasil

A chegada de mais data centers ao país não pode ser tratada apenas como investimento estrangeiro ou modernização da infraestrutura digital. Trata-se, antes de tudo, de uma decisão política: quem controla os dados, com quais regras e a que custo ambiental? A expansão dessas infraestruturas impacta diretamente os recursos naturais, o sistema elétrico e o território, e, por isso, precisa ser debatida de forma transparente e orientada por critérios públicos claros.

A regulação será decisiva nesse processo. O Brasil ainda está dando seus primeiros passos na definição de parâmetros para a instalação e operação de data centers. A Medida Provisória que criou o REDATA (Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center no Brasil) traz elementos promissores, como a exigência de uso de energia limpa e a introdução de indicadores ambientais. Mas ainda falta robustez: não há metas para eficiência energética, nem clareza sobre alguns critérios de sustentabilidade dos projetos incentivados.

Se o REDATA for tratado apenas como um atrativo fiscal, sem exigir contrapartidas reais, o país corre o risco de abrir mão da sua soberania digital em troca de promessas infladas de desenvolvimento. Por outro lado, se for aprimorado como uma política de Estado, com foco em sustentabilidade, eficiência e distribuição territorial, pode se tornar um marco para posicionar o Brasil como protagonista em uma transição digital justa.

O futuro dos data centers no Brasil ainda está em aberto. A forma como regulamos hoje essas infraestruturas definirá se elas serão motores de uma transformação soberana e ambientalmente responsável, ou se representarão mais um capítulo de dependência tecnológica e exploração de recursos.

A Previdência 5.0: Um Novo Modelo

por Luiz Alberto Melchert

Capítulo 1: A Contradição Central do Capitalismo Moderno – Quando o Progresso Tecnológico Exige a Reinvenção do Ciclo de Vida

O capitalismo contemporâneo enfrenta um paradoxo profundamente inquietante, gerado por seu próprio sucesso tecnológico. De um lado, a automação e a inteligência artificial elevam a produtividade a níveis históricos, gerando uma abundância sem precedentes de bens e serviços. De outro, esse mesmo progresso técnico reduz sistematicamente a participação da massa de salários no Produto Interno Bruto (PIB). Em linguagem simples: as máquinas e os algoritmos substituem o trabalho humano em escala crescente, fazendo com que uma parcela menor da riqueza total seja distribuída aos trabalhadores na forma de salários.

Esta não é uma mera especulação, mas uma tendência estrutural documentada globalmente. Nos Estados Unidos, a participação do trabalho no PIB recuou de 65% na década de 1970 para aproximadamente 58% atualmente. No Brasil, o fenômeno é ainda mais dramático: conforme dados do IBGE e do IPEA, a participação dos salários no PIB brasileiro encolheu de cerca de 52% no início dos anos 1990 para cerca de 40% hoje – uma queda de doze pontos percentuais que evidencia a intensidade da transformação em curso.

O motor do capitalismo – o lucro e o investimento em tecnologia – está, paradoxalmente, corroendo sua base de sustentação: o poder de compra da maioria da população, que é o principal consumidor da produção. Diante desse cenário, soluções convencionais como a criação artificial de empregos de baixa produtividade mostram-se anacrônicas. A saída racional, ainda que contraintuitiva, é institucionalizar uma redução do período laboral ativo no ciclo de vida. Isso significa permitir que os jovens adiem sua entrada no mercado de trabalho, dedicando-se por mais tempo à educação especializada, e que os trabalhadores se aposentem mais cedo, usufruindo de uma velhice digna enquanto ainda têm saúde e disposição.

Entretanto, essa transição gera um desafio colossal. Ao expandir o contingente de jovens em formação prolongada e idosos em aposentadoria extensa, criamos uma população economicamente inativa numericamente significativa. Eis o cerne da contradição: essas pessoas, embora não estejam produzindo no mercado formal, são absolutamente essenciais para a sustentação do sistema. Elas constituem a demanda que absorve a produção excedente gerada pela automação. Sem seu consumo, o capitalismo enfrentaria uma crise de realização – as fábricas produziriam, mas não haveria compradores suficientes.

Aqui emerge a fragilidade do modelo previdenciário de repartição simples, onde os trabalhadores ativos financiam os inativos atuais. Como demonstrou Paul Samuelson em seu modelo de 1958, esse sistema depende criticamente do crescimento populacional e da produtividade para manter seu equilíbrio. Quando a força de trabalho estagna ou se reduz, e a base contributiva encolhe relativamente ao PIB, o modelo entra em colapso matemático.

A esse problema estrutural soma-se uma vulnerabilidade cíclica grave: a economia capitalista está sujeita a flutuações que impactam violentamente o emprego e a massa salarial. Enquanto as despesas com inativos permanecem constantes ou mesmo crescentes, a receita previdenciária varia conforme os humores do ciclo econômico. Essa desconexão gera déficits periódicos que exigem socorro estatal, levando o sistema à beira da ruptura a intervalos regulares – como se observa nas crises previdenciárias que eclodem a cada duas décadas aproximadamente.

Assim, a questão central desloca-se de “como criar empregos para todos” para “como financiar o consumo da população não ativa de modo estável e sustentável”, mesmo porque reduzir o período laboral é a única forma de manter empregado o contingente economicamente ativo, face ao contante desafio promovido pela crescente automação. A resposta exigirá desvincular o financiamento previdenciário da volatilidade da massa salarial, conectando-o a fontes de receita mais resilientes e alinhadas com a nova economia. No próximo capítulo, exploraremos como uma contribuição previdenciária sobre a movimentação financeira – não sobre a renda do trabalho – pode oferecer essa solução, capturando a riqueza gerada pela circulação do capital em vez de depender de uma base contributiva em declínio estrutural.

Capítulo 2: A CPMF como Alicerce de um Novo Pacto Previdenciário – Desmontando Mitos e Apresentando Soluções

Se o primeiro capítulo estabeleceu o diagnóstico da contradição capitalista, este segundo avança na proposta concreta: uma Contribuição Previdenciária sobre Movimentação Financeira (CPMF) – aqui proposta como um instrumento novo e distinto do modelo anteriormente vigente – redesenhada para financiar o ciclo de vida expandido. Para compreendê-la, é essencial desconstruir dois equívocos recorrentes divulgados pela narrativa mainstream.

O primeiro equívoco é tratá-la como mero tributo. Na verdade, a CPMF proposta é um investimento solidário estratégico para viabilizar o próprio capitalismo. Seu objetivo não é simplesmente arrecadar, mas garantir a perenidade do consumo – elemento sem o qual o sistema entra em colapso. Ao financiar jovens em formação e idosos aposentados, a contribuição sustenta a demanda agregada que absorve a produção gerada pela automação. Não se trata de um custo, mas de um mecanismo de preservação do mercado consumidor, o verdadeiro motor da economia.

O segundo equívoco, e talvez o mais persistente, é a acusação de regressividade. Alegam que tributar movimentações financeiras oneraria injustamente os mais pobres. Esta visão ignora a dinâmica real dos fluxos monetários. Diferentemente da massa salarial – que encolhe drasticamente durante crises –, a movimentação financeira total não se reduz nas fases negativas do ciclo económico. Pelo contrário: o que ocorre é uma mudança na sua composição. Em períodos de recessão, enquanto a parcela vinculada ao comércio e produção pode diminuir, a parcela associada à especulação e ao rentismo frequentemente aumenta. Investidores migram para operações de curto prazo, arbitragem e mercados futuros em busca de proteção ou lucro em meio à volatilidade. Dados do Banco Central durante a crise de 2015-2016 mostram que o volume de operações financeiras de alta frequência aumentou, mesmo com o PIB em queda. Portanto, a base de incidência da CPMF é notavelmente resiliente e até anticíclica em sua essência mais especulativa.

A chave da eficácia e justiça desta contribuição reside na simplicidade e universalidade da alíquota. Deve ser única e idêntica para todos os tipos de movimentação financeira, sem distinções ou isenções. A razão é matemática e incontornável: os ciclos do capital financeiro (rápido, volátil, de alta rotação) são radicalmente diferentes dos ciclos do capital comercial (ligado à produção e ao consumo, de rotação mais lenta). Uma alíquota uniforme aplicada sobre esse universo heterogêneo fará com que a carga tributária recaia proporcionalmente sobre quem mais movimenta recursos – ou seja, os agentes do rentismo e da especulação de alta frequência. Um assalariado que movimenta seu salário uma vez por mês contribuirá simbolicamente. Já um fundo de day trade que gira milhões de reais diariamente aportará volumes significativos. A progressividade, portanto, não é imposta por tabelas complexas, mas emerge naturalmente da própria lógica de funcionamento dos mercados.

Desse modo, o montante total arrecadado deixa de ser função direta – e instável – da massa salarial e passa a ser função de um indicador muito mais abrangente e dinâmico: a velocidade do dinheiro multiplicada pelo PIB financeiro. Este último é um múltiplo do PIB real, pois captura não apenas a produção de bens e serviços, mas toda a circulação de capitais que a acompanha e supera. Esta fórmula gera uma fonte de receita robusta, previsível e alinhada com a riqueza total gerada na economia, resolvendo os dois problemas crônicos do modelo de repartição simples: a dependência dos ciclos de emprego e o declínio estrutural da participação dos salários.

Os recursos arrecadados não se perderão no orçamento geral do Estado. Eles serão destinados à constituição de um fundo previdenciário autônomo, um patrimônio dedicado exclusivamente ao financiamento do novo ciclo de vida. Este fundo, cujo funcionamento detalharemos no próximo capítulo, será o pilar de um sistema sustentável, imune às crises fiscais governamentais e voltado para a garantia de renda para as fases de estudo e de aposentadoria. A CPMF, portanto, muito mais que um tributo, é a chave para desvincular a segurança econômica dos cidadãos dos altos e baixos do mercado de trabalho, reconciliando o progresso tecnológico com o bem-estar social.

Capítulo 3: A Grande Desvinculação – Como a CPMF Liberta a Previdência da Relação de Trabalho

O terceiro pilar desta proposta representa talvez sua consequência mais revolucionária: a desvinculação completa do financiamento previdenciário da relação formal entre empregado e empregador. Isso se concretiza de duas maneiras profundas, uma aliviando o setor produtivo e outra reconstruindo a proteção social para o século XXI.

Em primeiro lugar, a substituição integral das atuais contribuições de empregado e empregador pela Contribuição Previdenciária sobre Movimentação Financeira (CPMF) injeta um fôlego imediato na economia real. O custo do trabalho formal, hoje onerado por pesados encargos que incidem sobre a folha de salários, veria uma redução substancial. Para o empregador, desaparece um dos principais entraves à formalização e à expansão dos quadros. Para o empregado, o valor que era descontado do seu rendimento bruto retorna integralmente ao seu bolso, aumentando seu poder de compra imediato. O lado produtivo da economia, de fato, agradece. A atividade econômica é estimulada na sua base, sem que isso signifique um centavo a menos de recurso para a previdência.

Em segundo lugar, e aqui reside a correção de rota essencial que o projeto aponta, a nova CPMF resolve de forma elegante e definitiva a precariedade trazida pela uberização do trabalho, também conhecida como economia de plataforma. É crucial entender que a contribuição oriunda das transações desses trabalhadores, como o pagamento por uma corrida ou uma entrega, é ínfima, quase simbólica, quando comparada ao montante colossal arrecadado com a especulação financeira e o rentismo. São estes últimos, os movimentos de capital de alta velocidade e grande volume, que se tornam os verdadeiros e principais financiadores de todo o sistema.

Essa é a grande mudança de paradigma. A previdência social começa a passar ao largo do relacionamento entre trabalhadores e empregadores, independentemente do grau de formalização. O trabalhador de aplicativo, o profissional autônomo, o microempreendedor individual e o celetista tradicional estão todos igualmente cobertos, não porque pagam uma contribuição direta, mas porque o sistema como um todo é financiado por uma fonte completamente diversa: a circulação do capital financeiro. A vulnerabilidade do trabalhador, exacerbada pelas plataformas que o privam das garantias tradicionais da CLT, é sanada por um mecanismo macroeconômico que transcende o vínculo empregatício.

Dessa forma, a proposta não se limita a trocar uma fonte de receita por outra. Ela opera uma verdadeira migração de responsabilidade. O fardo de garantir a segurança econômica na velhice e durante a formação deixa de recair sobre os ombros do binômio empregado-empregador e passa a ser sustentado pela parcela mais líquida e dinâmica da economia: o capital que circula em busca de rentabilidade. É o rentismo, paradoxalmente, que financia a proteção social contra os seus próprios efeitos disruptivos no mercado de trabalho. Com isso, a previdência social finalmente se adapta ao século XXI, tornando-se universal por consequência, e não por força de uma regulação complexa e constantemente ultrapassada.

Capítulo 4: A Arquitetura do Fundo Autônomo – Conversão do Patrimônio Público em Proteção Social Permanente

O quarto capítulo desta série consolida o modelo ao detalhar a engenharia institucional que garantirá sua perenidade: a criação de um fundo de capitalização autônomo, alimentado por uma estrutura de recursos diversificada e por uma governança que assegura sua sustentabilidade de longo prazo.

Este fundo será constituído por um pilar principal e fontes complementares. O pilar principal é a simbiose entre a arrecadação da Contribuição Previdenciária sobre Movimentação Financeira (CPMF) e o vasto patrimônio público infraestruturável do país – estradas, ferrovias, portos, aeroportos, redes de energia e telecomunicações. Estes ativos são transferidos para o patrimônio do fundo, que concede sua operação à iniciativa privada.

Uma inovação crucial é a estrutura de cotistas. Todos os cidadãos portadores de CPF ativo tornam-se cotistas seniores, beneficiários prioritários dos rendimentos. O modelo prevê ainda a captação de cotistas juniores, abrindo uma porta opcional para a entrada de recursos de duas origens: os recursos de fundos de previdência privada que queiram migrar para este sistema mais eficiente, e os recursos financeiros advindos das próprias concessões onerosas. Estes cotistas juniores teriam direito a uma parcela dos royalties gerados pelos ativos, em uma posição subordinada aos direitos dos cotistas seniores, criando um mecanismo adicional de capitalização.

A governança do fundo será exercida por um comitê gestor tripartite com composição paritária e independência total do orçamento público. Os concessionários dos ativos têm a função de maximizar a rentabilidade, arcando integralmente com os custos de conservação e modernização.

A correta alocação dos recursos é fundamental e foi precisamente refinada. Os royalties provenientes da exploração dos ativos compõem, integralmente, a renda destinada ao rateio entre os cotistas seniores (os cidadãos inativos). Separadamente, uma reserva contingencial é constituída diretamente com um percentual fixo da arrecadação da CPMF. Esta reserva não é gasta, mas aplicada no mercado financeiro de forma conservadora. Seus rendimentos são reinvestidos na própria reserva, garantindo seu crescimento orgânico e sua capacidade de cobrir eventuais déficits temporários sem afetar o pagamento dos benefícios.

Finalmente, parte do fluxo da CPMF, após a dotação para a reserva, será usada para adquirir novos ativos infraestruturais do Estado, gerando novas concessões e realimentando o ciclo de geração de royalties. Desta forma, o modelo transforma patrimônio público em bem-estar social permanente, criando um sistema previdenciário robusto, auto-sustentável e imune às volatilidades do orçamento fiscal.

Capítulo 5: A Unificação Universal e o Alívio Fiscal – O Fim da Divisão Público-Privada na Previdência

Este capítulo final aborda duas consequências transformadoras do modelo proposto que consolidam sua natureza revolucionária: a unificação universal dos regimes previdenciários e a profunda desoneração fiscal para todas as esferas de governo.

Em primeiro lugar, o sistema aqui projetado dissolve definitivamente a histórica e arbitrária distinção entre a previdência do setor privado e a do setor público. Sob a égide do fundo autônomo, todos os cidadãos portadores de CPF, ao atingirem a condição de inativos, passam a receber seus proventos da mesma fonte única e isonômica: os royalties gerados pela carteira de ativos do fundo. Se a vida laboral de um indivíduo foi integralmente dedicada ao serviço público, ao setor privado ou à economia de plataforma, torna-se irrelevante. A origem dos benefícios não está mais vinculada ao empregador ou ao regime estatutário, mas à participação coletiva em um patrimônio comum gerido com eficiência. Esta é a culminação do princípio da universalidade, criando um verdadeiro piso de proteção social para toda uma nação.

Em segundo lugar, e não menos importante, o modelo elimina integralmente as despesas com previdência dos orçamentos da União, dos estados e dos municípios. Esta é uma liberação fiscal de impacto monumental, particularmente para estados e municípios que hoje se veem estrangulados por seus próprios regimes de previdência, frequentemente deficitários e insustentáveis. Ao transferir a obrigação de pagar aposentadorias e pensões para o fundo autônomo, o sistema libera recursos públicos que podem ser realocados para investimentos urgentes em saúde, educação, segurança e infraestrutura local. O fundo, por sua vez, ao assumir o passado previdenciário, não cria um rombo, pois este é coberto pela valorização presente e futura de seu patrimônio de ativos e pelo fluxo da CPMF.

Dessa forma, a proposta realiza uma dupla e histórica façanha: concede segurança econômica a todos os cidadãos, independentemente de sua trajetória laboral, e devolve à sociedade a capacidade de investir seu dinheiro em serviços públicos de qualidade, sem o peso asfixiante dos compromissos previdenciários. O ciclo virtuoso se completa quando se observa que a infraestrutura concedida pelo fundo melhora a produtividade nacional, que por sua vez fortalece a economia, realimentando todo o sistema. A previdência deixa de ser um problema fiscal insolúvel e se torna o principal alicerce para um desenvolvimento social e econômico verdadeiramente sustentável.

Dívida e endividamento: o novo normal das famílias brasileiras

“Antes, eu era pobre. Agora, sou pobre e endividado.”

Frase anônima brasileira.

Lena Lavinas[1]

Maria Paula Bertran[2]

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Este é o primeiro texto de uma série de três, originalmente publicados no blog Boletim Lua Nova. O artigo abaixo descreve como o comprometimento da renda com dívidas se transformou na rotina das famílias brasileiras. O segundo artigo vai abordar o papel do Governo Federal para aprofundamento deste ambíguo processo, em que políticas públicas paradoxais reforçam o rentismo e a desigualdade. Por fim, o último artigo da série vai apresentar possibilidades e alternativas.

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Quem lê a grande mídia nacional ou acompanha noticiários na televisão tem se familiarizado com matérias cada vez mais frequentes sobre inclusão e educação financeira, bancarização, temas que são igualmente abordados nas redes dos milhares de influenciadores que diariamente dão dicas sobre gestão financeira. Levantamento recente da  FInfluence, realizado pela ANBIMA (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) identificou 741 “finfluenciadores” digitais ativos, sendo a grande maioria, 576, pessoas físicas. O número de perfis corporativos monitorados soma 165. Não apenas essa categoria de influenciadores engrossa a cada dia (+ 30% em um ano), como eles registram, a cada nova publicação, uma média de quase  3.000 interações do público.

O que buscam seus seguidores? Pistas para investir, acompanhar o mercado, mas também orientações de como sair do vermelho. Isso porque a dívida das famílias junto ao setor financeiro é hoje preocupação no topo das angústias de cada dia. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio (CNC), metodologicamente embasada na autodeclaração de entrevistados, indica a percepção de que 78,2% das famílias brasileiras estavam endividadas em maio de 2025. Desse grupo, 29,5% das famílias tinham contas em atraso no mesmo mês, maior nível desde outubro de 2023. Ainda, 12,5% das famílias declararam não ter condições de pagar dívidas vencidas, o que as fará permanecer inadimplentes.

Os dados mais recentes do Banco Central do Brasil, por sua vez, que não capta endividamentos de fora do sistema financeiro, tais como crediário de lojas ou dívidas de luz e água, indicam que o nível de endividamento das famílias brasileiras atingiu 48,7% da renda disponível acumulada nos últimos doze meses em janeiro de 2025, um dos maiores patamares da série histórica. Além disso, o comprometimento da renda familiar com o pagamento de dívidas subiu para 27,3% em janeiro de 2025 (ou 25,1% sem considerar crédito imobiliário), também segundo o Banco Central.

O percentual de endividamento das famílias brasileiras em relação ao PIB está atualmente em torno de 30%, conforme os dados mais recentes disponíveis para o quarto trimestre de 2024, segundo dados da Trading Economics consultoria. Esse índice representa a razão entre o estoque de dívidas das famílias e o Produto Interno Bruto do país, um patamar considerado baixo quando comparado a outras economias. Países como Alemanha, Japão e Estados Unidos indicam percentuais em torno de 70% do PIB.

O argumento é recorrentemente citado para sugerir que existe espaço para aumento do endividamento das famílias brasileiras. Contudo, pelo menos dois fatores diferenciam o Brasil e os países normalmente citados em relação ao percentual de endividamento: o motivo pelo qual as famílias se endividam e a desigualdade local. Enquanto os países desenvolvidos se endividam principalmente para aquisição da casa própria e financiamento estudantil – no caso dos americanos, também as dívidas com despesas de saúde –, os brasileiros se endividam por comida e remédios, pelas estratégias maliciosas dos piores agentes do sistema financeiro, pelo ciclo de endividamento gerado pelos altos juros dos endividamentos pretéritos. São clientes do crédito de consumo não direcionado, de fácil acesso agora. Em um contexto de famílias empobrecidas, estas se endividam para financiar a vida diária, chegam ao final do mês e passam a viver com frações do que poderiam ter, mesmo no ambiente de baixa renda.

A relativa facilidade de acesso ao crédito, especialmente pelo uso do cartão de crédito, mas também pelo empréstimo consignado, aliada a altas taxas de juros – spreads bancários astronômicos, mesmo quando há garantias de colateral, como no caso dos empréstimos consignados –, contribuiu para a rápida escalada do endividamento. Segundo a Serasa, 69% das compras feitas no cartão de crédito são destinadas a supermercados, seguidas por roupas, eletrodomésticos e medicamentos. Isso evidencia que o endividamento, em muitos casos, é uma estratégia de sobrevivência diante da insuficiência de renda.

O endividamento é mais acentuado entre famílias de renda mais baixa — 81% das famílias com até três salários-mínimos possuem dívidas, enquanto o índice cai para 69,8% entre aquelas com renda acima de dez salários mínimos.

“Troca com troco”

Teoricamente, uma dívida é feita para a obtenção de recursos com um propósito específico. A quitação integral da dívida é a expectativa contratual clássica de um contrato de crédito. Isso não acontece no Brasil. O processo de endividamento das famílias brasileiras, especialmente com o protagonismo do crédito consignado, mas também do cartão de crédito, se estrutura, na prática, sobre a perpetuidade e sobre o comprometimento permanente da renda dos indivíduos.

A expressão “troca com troco”, utilizada por Ione Amorim, por muitos anos economista do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), descreve a situação em que o consumidor substitui uma dívida por outra e recebe a diferença em dinheiro — o chamado “troco”.

No contexto do crédito consignado, a “troca com troco” ocorre quando o aposentado(a) ou pensionista, ou ainda o beneficiário de uma transferência monetária pelo Estado e, desde 2025, também o trabalhador da iniciativa privada, quita um empréstimo consignado antigo com um novo, de valor maior, e recebe a diferença em espécie. Ou seja, ao renovar o empréstimo, parte do valor é usada para pagar a dívida anterior e o restante é liberado como mais dinheiro ao consumidor e uma forma de torná-lo cativo do endividamento. Segundo Ione Amorim, essa prática é frequentemente incentivada pelos bancos, especialmente quando há reajuste salarial, perpetuando o ciclo de endividamento, pois o consumidor acaba assumindo uma nova dívida para quitar outra, muitas vezes com juros acumulados e sem clareza das consequências dessa mudança.

Ilícito lucrativo

O fenômeno do ilícito lucrativo no setor de crédito brasileiro representa uma das faces mais sofisticadas das práticas abusivas nas relações de consumo. Grandes instituições financeiras calculam que a manutenção de condutas ilícitas é mais vantajosa economicamente do que o cumprimento rigoroso da legislação consumerista. Trata-se de um comportamento sistemático, no qual a infração deixa de ser um risco e passa a ser incorporada como parte do modelo de negócios, dada a baixa expectativa de fiscalização efetiva e de sanções suficientemente dissuasórias.

No setor de crédito, o ilícito lucrativo manifesta-se por meio de cobrança indevida de tarifas e encargos não previstos ou não informados adequadamente ao consumidor; retenção de valores e demora proposital na devolução de quantias devidas; venda casada de produtos e serviços financeiros; falta de transparência na apresentação de contratos e extratos, dificultando o acesso do consumidor à informação clara e precisa sobre suas obrigações e direitos e até mesmo empréstimos jamais solicitados.

Essas práticas são facilitadas por fatores estruturais, como a vulnerabilidade dos consumidores brasileiros, a assimetria de informação entre bancos e consumidores e a timidez judicial e administrativa em sancionar condutas ilícitas, o que torna as infrações economicamente racionais para as instituições financeiras.

Potencialmente, para além dos problemas econômicos do endividamento da população, a sociedade brasileira é desproporcionalmente onerada pela expectativa extremamente provável de, a partir do momento do primeiro empréstimo, ser vítima de um conjunto de abusos e práticas ilícitas que dificultam e até mesmo impedem a possibilidade de quitação plena de suas dívidas.

Como chegamos a isso?

De maneira relativamente superficial, indicamos que dois fenômenos sociais marcantes caracterizam o primeiro quarto do século XXI e criaram a condição para o grave cenário acima.

De um lado, observa-se um processo de bancarização em massa das classes populares e de “inclusão financeira” levado a cabo nos países do Sul Global, promovendo o acesso ao sistema de crédito e ao sistema financeiro em geral. Com isso, centenas de milhões de pessoas, antes consideradas de alto risco (por não disporem nem de garantia para as dívidas, o colateral, nem de rendimentos regulares), passaram a ser titulares de contas bancárias, fenômeno facilitado pela digitalização e pela telefonia celular.

As fintechs (acrônimo das palavras tecnologia e financeira) permitiram reduzir custos para o setor financeiro (eliminação de unidades de atendimento, novos instrumentos de avaliação de credit score em tempo real, novas linhas de crédito focalizadas em determinados grupos, entre outros). As fintechs permitiram também que bancos tradicionais criassem ou investissem em novos formatos, com mais capilaridade, sem ligação direta com a marca central do conglomerado financeiro e, portanto, sem prejuízos reputacionais para a marca central.

De outro, a consequência imediata, vinda em crescendo incessante, foi o forte aumento do grau de endividamento das famílias. Endividamento para consumo não-direcionado e livre, ou seja, para aquisição de bens comuns, mas não a casa própria, ou o financiamento agrícola ou do empreendedor. Esse crédito torna-se rapidamente indispensável à sua reprodução social, sendo agora complemento inegociável da renda familiar e individual.

A “inclusão financeira” não significou autonomia. A “inclusão financeira” significou a transformação do crédito em complemento indispensável da renda familiar. O crédito deixou de ser um instrumento de alavancagem social para se tornar um meio de paradoxal sobrevivência, no qual a dívida das famílias lhes compra a subsistência imediata e aniquila a capacidade de subsistência a longo prazo. O endividamento contínuo compromete parcela crescente do orçamento familiar com o pagamento de dívidas e juros, perpetuando a dependência das famílias em relação ao sistema financeiro.

Como não poderia deixar de ser, aumento do endividamento significa também explosão da inadimplência. Relacionado com a bancarização, mas com consequências dramáticas para quem declara default. A situação envolve perda de direitos, novos riscos, violência, exclusão. A elevação da inadimplência é vista como ameaça de risco sistêmico ao setor financeiro, reduzindo sua rentabilidade e freando a expansão da oferta de crédito, o que faz encolher o mercado mundial de dívidas.

Quaisquer que sejam as cifras e os montantes estimados, claro está que se tornou urgente formular alternativas para dirimir o bloqueio que tal realidade traz ao reaquecimento do mercado doméstico, ao inibir o consumo das famílias trabalhadoras. Nesse contexto, o Governo Federal lançou, em julho de 2023, o Desenrola Brasil, cuja finalidade consistiu, teoricamente, em oferecer condições para que as pessoas negativadas pudessem renegociar suas dívidas. Assim, reduziriam seus graus de vulnerabilidade financeira, restabelecendo a capacidade de endividamento necessária à retomada de um novo ciclo de expansão financeira. Afinal, o próprio Banco Central (2023) reconheceu que a elevada alavancagem das famílias e as perdas crescentes que tal alavancagem impôs ao setor financeiro provocaram a retração da oferta de crédito às famílias e colocaram em xeque a rentabilidade dos bancos.

O Banco Central, em seu Relatório de Economia Bancária de 2022, fez três observações determinantes da rentabilidade dos bancos naquele ano:

i) o fator predominante nas carteiras de crédito dos bancos é o crédito destinado às famílias (65% do estoque de crédito em 2022, proporção dominante desde 2016);

ii) os tomadores individuais continuam respondendo pela maior parte da receita com juros de empréstimos, ou seja, 73%;

iii) 76% da receita com juros proveniente desses tomadores tem origem no crédito ao consumo (e não no crédito imobiliário ou no crédito direcionado).

Portanto, fica claro que são as famílias na cauda inferior da distribuição que asseguram a alta rentabilidade dos bancos privados brasileiros às custas de uma vida pendurada em dívidas.

Contudo, a escala e a rapidez com que esse fenômeno de bancarização se alastra foram possíveis através da “colateralização da política social” (Lavinas 2020), isto é, mediante a intervenção do Estado que, ao assegurar transferências monetárias de renda regulares a famílias pobres e vulneráveis, torna-se o fiador do colateral que faltava a essas famílias para ingressarem no sistema financeiro.

Esse é o segundo fenômeno que explica a explosão do endividamento das famílias: a colateralização da política social foi a força motriz que garantiu que pessoas sem histórico de crédito e com renda instável, em razão de sua inserção precária no mercado de trabalho, tivessem acesso à chamada “cidadania financeira”, isto é, a incorporação das classes trabalhadoras à marcha da financeirização.

Mas a cidadania financeira não impede a explosão da inadimplência, muito pelo contrário.  Elas se retroalimentam e acabam por colocar em xeque a regra de ouro da acumulação financeira — a expansão da dívida e, portanto, a reprodução do capital portador de juros. Cidadania financeira e níveis crescentes de inadimplência andam juntos, embora impactem distintamente o sistema financeiro. Logo, assim como o Estado garantiu a colateralização da política social quando o objetivo era ampliar o mercado de crédito e consolidar a lógica rentista, ele assume agora o papel de evitar o colapso da dependência da classe trabalhadora em relação ao sistema financeiro devido à inadimplência, desenvolvendo mecanismos de gestão da dívida, para resolver o nó da inadimplência.

Se o gasto social que garante as condições de reprodução está comprimido pela prevalência da austeridade e se o financiamento da sobrevivência via endividamento é estrangulado, como evitar o desastre? Se antes era necessário flexibilizar as regras de acesso ao mercado de crédito pelas massas, com apoio do Estado, agora trata-se de flexibilizar as regras que negam sua permanência. É por isso que o Estado passou a assumir a gestão do endividamento crônico como forma de enfrentar as contradições que a própria acumulação rentista engendra, criando o Desenrola.

Tempos e Contratempos da Política Econômica, um ensaio sobre o Brasil

Nathan Caixeta

Introdução

Leio na coluna de Pedro Cafardo, jornalista de conhecida competência no debate econômico, a sugestão de que o debate sobre os juros no Brasil não deveria ser ofuscado pelas discussões acerca do tarifaço de Trump.

De fato, as últimas ações do Banco Central na condução da política de juros não têm estado no farol dos especialistas como deveriam. Ou pelo menos, as questões cruciais e terríveis que deveriam suscitar maior energia no debate público têm sido obstadas não (só) pelo tarifaço, mas falta de criatividade de economistas, jornalistas e agentes do mercado que, por vício, desgosto ou predileção, costumam se debruçar sobre os problemas dos juros altos, da inflação, da institucionalidade da política monetária e do elevado custo fiscal do serviço da dívida pública.

O artigo chama a atenção para as propostas que José Luis Oreiro ofereceu quando convocado pela Comissão de Debates e Estudos Estratégicos da Câmara dos Deputados (cujo texto integral o autor fez a gentileza de disponibilizar).

Cafardo convocou dois comentaristas para lançar luzes e breves considerações sobre o texto do Dr. Oreiro: Luiz Gonzaga Belluzzo, a quem devo, em amizade, muito mais do que minha formação intelectual, e Felipe Adaime, ex-VP do Banco de Chicago.

Belluzzo cuidou de destacar os aspectos estruturais e históricos que levaram à desindustrialização brasileira e ao ciclo vicioso entre juros altos e câmbio volátil e sobrevalorizado que submeteu o país à estagnação do investimento, da renda e da produtividade nos últimos 40 anos. 

A trinca formada pela globalização financeira, pelo acelerado avanço do desemprego estrutural na indústria, motivado em parte pela avalanche tecnológica 4.0, e pelos desequilíbrios crescentes do sistema monetário financeiro nucleado pelo dólar, tem embalado os ritos e ritmos contemporâneos do capitalismo, ou do Regime do Capital, como preferiria Karl Marx. Esses fenômenos nem de longe alteram o modo de ser desse sistema econômico-político-social, senão manifestam sua saga realizadora: mudar para permanecer igual.

Os leitores deste distinto jornal, agraciados pela variedade de pontos de vista que lhes são oferecidos diariamente, certamente sabem que esses fatores estruturais não respeitam graus ou etapas de desenvolvimento entre diferentes espaços nacionais. Atinge a todos, mas não da mesma maneira.

Na periferia, como diziam os antigos mestres cepalinos, mutações do capitalismo se fazem sentir com especial ferocidade. 

A cada ciclo de inovações tecnológicas os chamados países em desenvolvimento (com exceção da China e da Índia), são atravessados pela intensa desconfiguração de seus (ainda existentes) sistemas industriais e pela desvalorização da mão de obra, sempre excedente e destinada às novas e velhas “alternativas”: o bico, a viração, as ocupações sem carteira assinada, o trabalho dominado pelos algoritmos das plataformas digitais.

De forma análoga, os ciclos de expansão e retração dos fluxos de capitais que, tem pouca ou nenhuma aderência ao malfalado e imaginário risco-fiscal, seguem o ritmo dos novos e velhos estratagemas especulativos-alocativos dos grandes investidores institucionais, bancos multinacionais, shadow-banks e outros concorrentes pelo domínio dos instrumentos que permitem a centralização do capital á nível global. Por aqui, desde o afamado Plano Real, somos campeões na arte de ofertar aos convivas estrangeiros um paraíso de rentabilidade num mundo (quase sempre) em crise. Executamos essa nobre tarefa oferecendo os prazeres tropicais e paradisíacos de juros altos, dividendos não-tributáveis, privatizações, fusões e aquisições e outras traquitanas.

Sob alvo dos devaneios de Donald Trump, o domínio do dólar como moeda-reserva e os (des)arranjos vigentes do sistema monetário-financeiro global tem acenado para a mesma espiral de descredibilidade que afetou a libra-esterlina, da metade do século XIX ao período entreguerras. 

Para sintetizar, a detenção por um único país do privilégio exorbitante (como definiu Charles De Gaulle), de emitir a moeda aceita universalmente para o encerramento de transações comerciais e financeiras, provoca sistematicamente ciclos de expansão e contração da liquidez internacional, inflando bolhas financeiras aqui e acolá, determinando crises estruturais no balanço de pagamento de países externamente deficitários (caso do Brasil nos anos 1980 e da Argentina desde então) e concentrando a responsabilidade no país-emissor (no presente, os EUA), de recepcionar os desequilíbrios entre países deficitários e superavitários em seu (ilimitado?) estoque de dívida pública.

Fato é que o movimento recente dos BRICS+, através da construção em curso de institucionalidades que operam fora do sistema dólar, tem turbado os fiéis que deitam suas oferendas ao poder hegemônico do dólar. Aos devotos, o Presidente dos EUA ofereceu o tarifaço e as demais arbitrariedades que só o dono da moeda-reserva pode executar.

Sem levar em conta esses fatores de ordem estrutural e global, é impossível travar qualquer debate honesto sobre os juros no Brasil. Apesar dos que pensam o país como Banana-Republique, é imperativo alertar que existe algo além entre o céu e a terra do que supõe a vã filosofia mecanicista-positivista que atribui os juros elevados à desconfiança dos investidores forâneos em relação aos fundamentos fiscais do país.

Feitos da Economia dos Práticos-inertes

Feitas essas considerações, ocuparei as linhas que me sobram com os comentários deploráveis de Felipe Adaime. Deixarei minhas observações completas (e discordantes) ao texto de Oreiro suspensas por ora, por considerar que exigem maior atenção do que os caracteres disponíveis me permitem.

Disparou o “especialista de mercado”: o colunista [Cafardo] deveria ser “mais cauteloso” na escolha de “especialistas” de esquerda e “mesclá-los” com vozes do mercado. E em seguida, admite o mesmo: foi aluno de Maria da Conceição Tavares na UFRJ, mas diz não se orgulhar disso, porque ela lhe teria ensinado “um monte de porcarias”.

Ao que parece Adaime sugere a existência de dois mundos distintos: aquele habitado pelos economistas de esquerda, eivado dos vícios da política e da teoria social; e o ilustrado reino de onde ecoam as vozes do mercado. 

O primeiro está sempre pronto a solucionar os problemas do país com ideias vindas fora da caixinha da teoria convencional, que guia as mentes dos agentes de mercado e seus economistas. O segundo, por outro lado, é lúcido e prático, com conhecimento de causa sobre as dificuldades que obrigam o país a ostentar as maiores taxas de juros reais do mundo.

Os práticos e lúcidos apreendem a realidade em seu cotidiano operando nos mercados. Os outros, se encastelam na academia e conspiram a favor da dialética, o que os impede de enxergar o mundo em cores duplas, como fazem os especialistas de mercado.

Isso me trouxe à lembrança as considerações de Jean-Paul Sartre (que não, não jogou pela seleção francesa de futebol, caro Adaime), sobre os sujeitos aos quais denominava de práticos-inertes, sujeitos prontos, não a negar a dialética, mas a operá-la ao avesso. Diz o francês: 

“Assim, o movimento da objetividade define sua necessidade dialética como a atividade orgânica superada e conservada pela inércia na medida em que ele se apresenta, para o próprio agente individual e na apodicticidade da experiência, como superação da individualidade, nesse agente e em todos, por um estado suportado e original de sociabilidade reificante”. (Crítica da Razão Dialética, p. 422)

Tomo a liberdade de imaginar que Felipe, locutor do mercado, não tenha escalado muito o andaime (ou “monte de porcarias”) do marxismo, por isso, peço licença para expor brevemente as virtudes práticas dos seres inertes.

Os seres práticos e lúcidos, muitos que habitam o ambiente dos negócios e das finanças, o mundo falante do mercado, carregados pela razão instrumental e pela herança mecanicista e positivista trazida das navegações inconscientes pelos mares da doutrina liberal, reservam para si uma dialética peculiar, negada e afirmada a todo tempo por sua objetividade esclarecida. 

Essa dialética pendula entre a dinâmica dos indicadores econômicos que tem, quase sempre, três estados possíveis – acima, abaixo ou em linha com seus atributos neutros (ou naturais) – para, enfim, fixar-se no equilíbrio, retornando ao ponto de inércia. Este ponto, em coordenadas cartesianas, satisfaz as condições do crescimento exponencial das crenças e certezas e do decaimento logarítmico da capacidade de observar algo além das duas cores (verdes, de alta, e vermelhas, de baixa) exibidas nos gráficos tipo candlesticks.

O andaime intelectual do especialista Adaime funciona bem em sua função de subir e descer identificando cores e tendências, mas está sempre preso ao movimento pendular implícito na teoria neoclássica da taxa de juros. Vejamos uma amostra:

“O Brasil não caiu em armadilha alguma dos juros e do câmbio – foi levado à situação atual porque a esquerda acha que resolve todos os problemas emitindo moeda e tomando dívida. Se fosse simples assim, não haveria pobreza no mundo. Não dá certo porque o crescimento tem que estar associado à produtividade, à tecnologia e, mais que tudo, ao capital. Também precisa ter estoque de mão de obra, território e recursos naturais. O Brasil tem quase tudo isso, mas é pobre, sem capital. Essa é uma das razões para os juros altos. Como a demanda por capital excede sua oferta, impacta o preço do capital – os juros.”

Os juros no Brasil, permanecem no degrau mais alto do andaime, porque a demanda de capital supera sua oferta. Caso, esse descasamento fosse superado, poderíamos reduzir os juros até o nível neutro ou natural.

Se a praticidade do comentarista já não tivesse disparatado o suficiente, o mesmo se mete a implicar a emissão de dívida pública à escassez de capital. Convém recorrer aqui a uma das quatro operações elementares da aritmética, neste caso, a soma: se o governo emite dívida para financiar gastos, esse estoque de riqueza se converte necessariamente em capital na mão do tomador do título, somando-se ao universo de ativos líquidos, ou quase líquidos em posse do público.

Em seguida, Adaime relaciona os juros altos ao tamanho da dívida pública, que aumenta conforme se acumulam déficits nominais (resultado primário do governo mais juros da dívida). É de bom alvitre recordar, que exceto no período da pandemia, o resultado primário negativo (déficit) nunca ultrapassou 20% do resultado nominal, desde novembro de 2014.

Aliás, vale notar que entre 2003 e 2010, na primeira era da temível esquerda gastadora, os sucessivos e crescentes superávits primários fizeram com que dívida pública em relação ao PIB recuasse 22,67% (ou 17,5 p.p.) em termos brutos e quase 35% (ou 20,4 p.p) em termos líquidos. 

Do ponto mais baixo da série histórica, em abril/2014, ainda sob a batuta de Dilma, para cá, a dívida líquida dobrou e a dívida bruta cresceu quase 60% (ainda em proporção do PIB) e em ambas as óticas se elevaram em mais de 30 p.p. Vale a pergunta: se o primário contribuiu em média, neste período, com 13,67% do resultado nominal (que registra a variação da dívida líquida), é possível outro motivo para a bola de neve do endividamento público senão os juros sistematicamente elevados?

Nas cabeças de planilha dos denunciantes do risco-fiscal, para usar o termo do amigo Luis Nassif, o resultado primário tem por finalidade exclusiva de pagar a dívida pública, devolvendo ao possuidor dos títulos o valor inicialmente aportado mais juros (fixados ou indexados, seja a Selic, ao IPCA e outros índices). Ledo engano. 

Diante da necessidade de financiamento, acusada pelo déficit nominal, o Estado opera a rolagem da dívida velha para frente, emitindo dívida nova, desvalorizando o estoque de títulos de curto prazo e oferecendo como recompensa fluxos de renda futuros na forma de juros que são incorporados no montante da dívida pública. Essa não é uma peculiaridade brasileira, mas a forma moderna de conciliação monetária e fiscal praticada Urbi et Orbi por todos os bancos centrais do mundo.

A peculiaridade da Ilha de Vera Cruz, atual Brasil, é o elevado patamar das taxas de juros praticadas pelo Banco Central, sobretudo, quando consideradas em termos reais. Aqui vamos ao centro do baile cujo ritmo fez o senhor “ex-VP” do Banco de Chicago derrapar no passo e cair de seu andaime.

Juros, expectativas e o Sistema de Metas

As várias interpretações sobre os juros altos no Brasil são possíveis de vender em uma feira, atendendo a todos os gostos e amealhar cada trocado dos visitantes curiosos.

A visão mais difundida, quase que uníssona entre mercadistas e seus economistas de bolso, é que os juros são altos porque o país gasta muito e gasta mal, gerando inseguranças aos investidores sobre os rumos da dívida pública e sobre a resiliência da inflação acima da meta.

A inércia criativa desses praticantes da boa e velha “ciência econômica” os faz retornar, sem querer querendo, ou querendo por querer, aos postulados do sistema de metas: se os preços dos ativos financeiros negociados nos mercados secundários de riqueza informam a todo tempo a trajetória provável da “economia real” cujo desempenho é refletido pelo comportamento de cada ativo especifico, seria razoável presumir que as expectativas dos participantes e negociantes desses ativos servissem como farol aos bancos centrais sobre as tendências da economia como um todo e, em especial, da inflação.

Esse farol funciona bem ou mal, a depender da disposição dos bancos centrais em manejar a taxa de juros para a direção apontada por esses especialistas engajados na predição do futuro com base no aprendizado sobre o passado. 

Além da direção, os bancos centrais devem acertar na medida, reagindo às expectativas com precisão e se mostrando preparados para coibir excessos vindos da “economia real”, tais como: empresários investindo demasiadamente, gente demais trabalhando, recebendo salários, gastando e perturbando o equilíbrio de curto prazo entre oferta e demanda. Se não forem capazes de coibir excessos diretamente, os bancos centrais podem alertar gentilmente os governos sobre a necessidade de ajustar as contas públicas para reorientar as expectativas e conter pressões sobre a demanda e a dívida pública.

Em última instância, as vozes do mercado se juntam à poderosa retórica dos bancos centrais para dizer aos políticos gastões: “se continuarem a gastar, o aumento dos juros vem aí, até que a desaceleração da economia jogue a inflação para baixo, trazendo consigo o desemprego e a impopularidade”. Não muito tempo atrás, a Presidente Dilma se viu nessa posição. Cedeu aos desejos da turma do andaime e o resto virou história.

O economista suíço Christian Marazzi sugere em seus trabalhos mais recentes que as relações dos bancos centrais e dos tesouros nacionais com o mercado e a sociedade se estabelecem por meio de um diálogo perpétuo no qual os entes públicos estão submetidos ao dever do convencimento. 

Ao mercado, bancos centrais e governos devem atestar credibilidade técnica nas decisões acerca do controle da inflação e da contenção de despesas; à sociedade, devem esclarecimentos sobre a dinâmica do emprego, da renda e da distribuição de renda. Tarefa hercúlea nestes tempos em que as palavras perderam seu referente concreto e o diálogo político-social foi invadido pelos signos sem significado. Um exemplo muito fortuito pode ser encontrado na última Ata do Comitê de Política Monetária do BACEN, divulgada em 05/08/2025:

“7. A conjuntura de atividade econômica doméstica tem indicado certa moderação no crescimento e, ao mesmo tempo, apresentado dados mistos entre os setores e indicadores.

  1. De modo geral, observa-se uma certa moderação de crescimento, corroborando o cenário delineado pelo Comitê. Tal moderação, necessária para a abertura de hiato e a convergência da inflação à meta, se coaduna com uma política monetária contracionista. As pesquisas setoriais mensais e os dados mais tempestivos de consumo corroboram uma redução gradual de crescimento.
  2. Em momentos de inflexão no ciclo econômico, é natural que se observem sinais mistos advindos de indicadores econômicos, alguns antecedentes, outros defasados, como também de comparações entre mercados, por exemplo, os mercados de crédito e de trabalho.
  3. O mercado de crédito, mais sensível às condições financeiras, tem apresentado uma moderação mais nítida. Observa-se um recuo nas concessões de crédito livre e elevação nas taxas de juros e de inadimplência. Além disso, no crédito às pessoas físicas, há um aumento do comprometimento da renda familiar com o serviço das dívidas e um aprofundamento do fluxo de crédito negativo, ou seja, maior pagamento do que contratação de dívida por parte das pessoas físicas. Ressaltou-se, no debate, que algumas medidas recentes, como o consignado privado, têm tido menor impacto do que era esperado por muitos participantes do mercado. Tendo em vista o calendário de implementação nesta linha de crédito, bem como o efeito em outras modalidades da introdução e retirada de impostos, o Comitê avalia que deve acompanhar atentamente as próximas divulgações dos dados de crédito.
  4. Em contraposição ao mercado de crédito, o mercado de trabalho segue dinâmico. Tanto do ponto de vista de renda, com ganhos reais consistentemente acima da produtividade, como do emprego, com redução expressiva da taxa de desemprego para níveis historicamente baixos, o mercado de trabalho tem dado bastante suporte ao consumo e à renda.
  5. Desse modo, o Comitê avalia que os sinais advindos da demanda e da atividade econômica até aqui sugerem que o cenário se desenrola conforme esperado e compatível com a política monetária em curso. O Comitê reforça que o arrefecimento da demanda agregada é um elemento essencial do processo de reequilíbrio entre oferta e demanda da economia e convergência da inflação à meta.”

O ilustre colegiado composto pelo Presidente e pelos Diretores do BACEN neste trecho da Ata, que registra ao final a decisão unânime pela manutenção da taxa básica de juros em 15% a.a., informa, em tom sóbrio e com a linguagem carregada das tecnicidades habituais, que a persistente elevação do emprego e da renda tem criado obstáculos à tentativa, até então frustrada, de conduzir a inflação ao centro da meta, hoje fixada em 3% ao ano, com tolerância de 1,5 p.p. para cima e para baixo. 

No mesmo passo, o COPOM carrega esperanças de que o elevado patamar da taxa de juros comprima o ritmo de crescimento da economia, jogando a favor da tal “ancoragem das expectativas”. Quais expectativas? Aquelas formadas pelos operadores de mercado, que formam os preços dos ativos. 

A crença do BC de que acertou na medida tanto no ritmo, como na magnitude das seguidas elevações da taxa de juros desde outubro de 2024, despejará nas botijas dos formadores de preços um modesto rendimento entre 7 a 9% acima da inflação esperada para os próximos 12 meses. Na contramão, a esperança dos guardiões da moeda é que o arrefecimento da atividade econômica (leia-se aumento do desemprego), equilibre oferta e demanda.

O Presidente do BC, Gabriel Galípolo, revelou que, em conversa amistosa com o genial Caetano Veloso, o músico baiano o perguntou sobre ‘forward guidance’, as sinalizações ofertadas pelo BC ao mercado sobre a trajetória futura dos juros. Galípolo respondeu:

“E eu comecei a falar para ele como é que são as escolhas das palavras. Ele falou: ‘então é que nem fazer poesia’. Eu falei que tenho certeza que as pessoas não tem o mesmo prazer lendo suas poesias do que a ata do Copom. Mas tem uma arte por trás de escolher as palavras ali”.

A arte de escolher as palavras dirigidas ao mercado e à sociedade não é, de fato, distante da poesia. Nos dois casos, a linguagem traz à tona o elemento simbólico que pretende produzir no interlocutor uma reação afetiva, isto é, que ultrapassa a casca racional e atinge as camadas sutis da consciência. A diferença reside no artifício linguístico. 

A linguagem poética, ensina Franco Berardi, “é a ocupação do espaço de comunicação por palavras que escapam do plano das trocas… é o espaço da singularidade, da significação corporal, da criação sensorial”. 

A linguagem da finança, que ocupa as linhas e entrelinhas da comunicação dos bancos centrais e governos com o mercado e a sociedade, é perfomativa: busca produzir efeitos a partir de sinais que não carregam ou aludem à referentes concretos, mas que reforçam a necessidade de realização dos efeitos sinalizados. 

Essa forma supera a casca da razão prática no momento em que o referente, que deveria oferecer à consciência algum significado real, é superado pela autorrealização do ato linguístico, que entrega o símbolo em virtude do convencimento. Marazzi exemplifica com clareza os dons da comunicação monetário-financeira:

“Quando, por exemplo, o Tesouro dos EUA escreve em uma nota de US $ 20 “Esta nota tem curso legal para todas as dívidas públicas e privadas”, não está apenas descrevendo um fato, mas na verdade criando um. É um enunciado performativo em que dizer algo torna isso algo verdadeiro”.

A linguagem técnica dos responsáveis pela salvaguarda das finanças públicas e do poder de compra, que preserva distância tétrica da política, encarna imediatamente um ato de troca: o governo e o banco central oferecem credibilidade na condução das políticas econômicas recomendadas pela velha ciência e o mercado e a sociedade retribuem reiterando a soberania monetária, isto é, a autonomia na emissão e gestão da riqueza criada a partir da emissão de dívida pública e selada pela propriedade do dinheiro em atuar como reserva de valor.

Esse ato dialógico ocorre cotidianamente, na forma de uma convenção que reitera a cada instante a possibilidade de acionamento do performativo absoluto, isto é, da sinalização para qual não é possível nenhuma resistência material ou ideal: a confiança dos participantes da vida social e econômica de que o dinheiro emitido pelo Estado captura em seu valor de uso, todos valores de troca da riqueza existente, refletida nas expectativas acerca dos fluxos de renda futuros. 

Neste momento, a dinheiro torna-se o único caminho possível entre o presente e o futuro e a preferência pela liquidez torna-se imperativa na consciência dos homens e mulheres que, como disse um certo filósofo inglês, buscam a lua e se contentam com queijo suíço, ou melhor, buscam preservar seu estoque de riqueza na forma líquida e se contentam no abrigo do Tesouro público.

Sobre o Tempo e a Incerteza

Essas digressões pelos aspectos substantivos da forma-dinheiro foram necessárias para o avanço sobre o perigoso terreno das expectativas, que já aprisionou mentes como a de Robert Lucas na casamata de considerar a incerteza em relação ao futuro como caso particular das propriedades racionais dos seres econômicos.

É prudente recorrer, brevemente a dois conceitos de incerteza, a Incerteza Radical de Keynes, exposta já nos textos preparatórios de sua Teoria Geral de 1936, e a de Werner Heisenberg que elaborou sua Teoria da Incerteza no campo da Mecânica Quântica poucos anos antes de Keynes, em 1927.

A Incerteza de Heisenberg garante que, em um sistema quântico, a variação simultânea da posição e da velocidade de partículas em movimento conduz à indeterminação sobre a precisão das medidas. A eliminação dessa indeterminação depende da subjetividade do observador em fixar a posição correspondente à velocidade da partícula para uma determinada força de aceleração. Igualmente, a posição só pode ser obtida tomando uma velocidade já conhecida.

A hipótese da Incerteza Radical de Keynes estabelece que a precariedade do conhecimento humano impede a formação de considerações precisas sobre o futuro. Por isso, os agentes se apegam à opinião da maioria, na esperança de minimizar os erros de suas previsões. Essa é uma ação racional que dedica os esforços do indivíduo esclarecido em assumir como verdadeiras determinadas hipóteses que não podem ser provadas à priori. Entretanto, essa ação racional pode ser dirigida por suposições inteiramente equivocadas que, igualmente, só se mostram falsas no futuro.

As duas teorias da incerteza indicam que não existem critérios objetivos pelos quais se obtém um conhecimento objetivo. Ao contrário, o conhecimento objetivo parte de uma base de escolhas subjetivas que não podem ser validadas ou impugnadas objetivamente.

A Teoria das Expectativas que domina os modelos mais reputados da macroeconomia moderna postula o contrário acerca da incerteza. Em síntese, informam seus realizadores (dentre os quais alguns keynesianos bastardos) que a incerteza pode ser mitigada pela expansão e qualificação das informações que baseiam a decisão racional dos agentes econômicos. 

A capacidade de aprendizado obtida no passado imuniza os agentes em relação à incerteza sobre o futuro, transformando as decisões econômicas que antes eram objetivamente indetermináveis pelas vias racionais em variáveis de um modelo probabilístico ajustado por um certo erro entre as previsões passadas e a realidade anterior observada. As expectativas refletem, portanto, as probabilidades de determinados eventos futuros.

A amplitude de informações que correm pelas veias das mídias digitais para dentro do circuito financeiro, capacitam os analistas de mercado a formarem os preços dos ativos com cada vez mais precisão, que é assegurada pela significância estatística de seus modelos de probabilidade.

Essa alquimia, operada pela teoria econômica convencional para driblar as inconsistências do conhecimento humano e da capacidade de decidir sobre o futuro baseando-se no passado, mora no coração da operacionalidade do sistema de metas de inflação.

Nas funções de reação dos bancos centrais, inspirados na charmosa Regra de Taylor, com suas diferenças e peculiaridades pontuais, estão abrigadas nos supostos de que os agentes de mercado são capazes de prever com razoável segurança os riscos associados à evolução da inflação. 

Na hipótese de não existirem pressões inflacionárias de demanda (hiato de produto próximo a zero) e de calibragem correta do diferencial de juros entre os juros internos e os juros praticados internacionalmente (garantindo a cobertura da paridade cambial no médio-longo prazo), a decisão do banco central fixa-se tão somente na diferença entre a meta de inflação e as expectativas informadas pelos agentes via precificação dos títulos de dívida.

Espremendo ao limite, o sistema de metas se resume a convencer o mercado de que o banco central fará tudo possível para convergir a inflação em direção à meta, que é definida, no caso brasileiro, pelo Conselho Monetário Nacional. 

Quanto mais desconfiado o mercado em relação à capacidade do banco central de manejar os juros, com direção e precisão necessárias, para realizar seu objetivo dentro de um determinado prazo, mais longos e intensos os ciclos de alta de juros, e mais curtos e moderados os ciclos de baixa, como a experiência pós-pandemia tem demonstrado.

Vale considerar, portanto, as relações entre as expectativas e a meta de inflação. Na função de reação do BC, na qual já mostramos que, em condições ideais, procura-se tão somente encurtar a distância entre as expectativas dos agentes econômicos, denunciadas nos preços dos ativos, e a meta de inflação perseguida, considera-se uma determinada sensibilidade entre o nível de ancoragem das expectativas e a dose necessária de ajuste na taxa de juros que cumprirá o objetivo de mover o crédito e a demanda, impactando a inflação corrente.

Este componente de sensibilidade, calculado via estimação bayesiana, cumpre a função de averiguar a distância entre a taxa de juros praticada pelo Banco Central e a taxa neutra de juros reais (aquela que equilibra oferta e demanda de crédito, anulando pressões inflacionárias de demanda). A diferença entre as expectativas e a meta oferece a direção e, fixada a taxa neutra, obtém-se a precisão requerida para a o ajuste na taxa de juros.

Como já discutimos, as expectativas individuais dos agentes econômicas acerca do futuro são formadas com base em seu imperfeito conhecimento do passado e de suas avaliações subjetivas sobre o comportamento futuro da dinâmica da economia, ou melhor, das variáveis que cada agente imagina impactar, com maior ou menor grau, a dinâmica futura da economia como um todo e de cada mercado em particular. Tais avaliações são elaboradas em condições de incerteza radical, o que exige do observador o amparo de alguma convenção que estabilize seu horizonte de decisão. 

Este amparo é encontrado na opinião da maioria e no grau de confiança que cada agente individual deposita na opinião dos demais. Este procedimento, bem documentado pelos estudos sobre a psicologia das massas, pretende objetificar o processo de avaliação sobre a dinâmica futura da economia e, portanto, sobre as condições de preservação e valorização do estoque de riqueza existente. 

Muito embora os agentes possam confiar cegamente na opinião dos demais, a objetificação da avaliação sobre as condições de preservação e valorização da riqueza revela, na verdade, um grau de subjetividade extremo que está justamente na escolha consciente, ou não, em depositar sua crença nas expectativas exaradas pela coletividade a cada movimento do preço dos ativos. 

Isto equivale à experimentação nos sistemas quânticos, em que ao fixar as variáveis que controlam as condições iniciais do sistema, o observador admite um grau de autodeterminação ex-ante ao experimento. Michael Epperson ao perscrutar os procedimentos dos Quanta à luz da filosofia de Alfred North Whitehead, escreveu:

“Embora a mecânica quântica utilize fatos os fatos constitutivos daquilo que está sendo medido, por exemplo, e os fatos constitutivos do resultado da medição , a mecânica quântica não pode explicar esses fatos. A mecânica produz somente probabilidades. Quando usada para prever e, portanto, descrever uma interação de medição, a mecânica quântica utiliza fatos estipulados como existentes antes da interação de medição fatos que explicam o que deve ser medido, bem como o aparato que realizará a medição. Esses fatos são, segundo o formalismo quântico que descreve a interação de medição, causalmente produtivos de uma matriz de probabilidades mutuamente exclusivas e exaustivas probabilidades referentes a um resultado único e factual. Embora esse resultado único seja antecipado pela mecânica, ele não é explicado pela mecânica, e aí reside a chave para o conflito entre várias interpretações concorrentes da teoria quântica. John Bell explica essa dificuldade da seguinte forma: quando se diz que algo é “medido”, é difícil não pensar no resultado como se referindo a alguma propriedade pré-existente do objeto em questão.”

As dificuldades de elaboração dos Quanta acerca da consistência de seus modelos de previsão sugerem uma avaliação cuidadosa dos mecanismos de transmissão das expectativas dos agentes aos preços dos ativos. 

Se os modelos que baseiam a predição do comportamento futuro da economia têm que, necessariamente, instituir parâmetros iniciais que condicionam seus resultados, as decisões de alocação de riqueza baseadas nesses modelos, portanto, são pré-conduzidas a replicarem a autodeterminação presente nos modelos.

As decisões sobre a riqueza, ensinou Keynes, seguem uma hierarquia intuitiva que leva em conta a preferência dos agentes em preservar sua riqueza na forma líquida, isto é, em dinheiro. A alternativa ao dinheiro, a abstinência da liquidez, é o endereçamento da riqueza para a aquisição de bens, quer sejam bens de consumo, quer sejam bens de investimento engajados no aumento da capacidade de produção e do nível de emprego, quer sejam ativos financeiros que carregam em seus preços as expectativas dos fluxos de renda futuros, subjacentes ao desempenho ou fixados nos valores de face desses ativos.

Como mostrou Hyman Minsky, explorando o circuito Finance-Funding, sugerido por Keynes nos textos posteriores à Teoria Geral, as expectativas sobre o comportamento futuro dos ativos financeiros estão contaminadas pela subestimação do risco-sistêmico, espalhado por toda economia, através das interrelações das posições passivas (de endividamento) e ativas (de investimento) que são compartilhadas pelos portadores dos títulos de propriedade sobre o direito a uma renda futura.

A fixação das condições iniciais nos modelos de predição disponíveis aos alocadores de recursos, que carregam para suas decisões um importante grau de autodeterminação, são responsáveis pelo partilhamento do risco-sistêmico, ocultado na oscilação dos preços dos ativos.

O movimento concreto da dinâmica capitalista surpreende os espíritos confiantes na autonomia de suas decisões, disparando, ao sabor das convenientes tendências à concentração e centralização do capital, sinais de turbulência sistêmica, impossíveis de serem capturados pelos modelos de predição. 

Não por menos, as crises financeiras registram momentos de exuberante (e irracional) confiança na capacidade preditiva dos mercados e de seus agentes, seguidos de súbita desconfiança, revelando aos olhos nus dos homens de carne e osso, a miséria do conhecimento humano sobre o passado, a inconsistente percepção sobre o presente e a ilusória crença acerca do futuro. Estes momentos, de relevante frequência na história do capitalismo, advertem os orgulhosos construtores da hipótese dos mercados eficientes a respeito da visita, inesperada e indesejável, do sorriso da volatilidade.

A propósito de investigar as perigosas relações da ciência com o tempo, Carlo Rovelli demonstra os descaminhos da percepção humana sobre a existência e a passagem do tempo, que surgem de uma visão necessariamente desfocada da realidade. Apoiando-se no trabalho do austríaco Ludwig Boltzmann, ensina o italiano Rovelli:

“Boltzmann mostrou que a entropia existe porque descrevemos o mundo de maneira desfocada. Demonstrou que a entropia é precisamente a quantidade de disposições diversas que a nossa visão desfocada não diferencia. […]

A entropia do mundo não depende apenas da configuração do mundo; depende também de como estamos desfocando o mundo, o que, por sua vez, depende de quais são as variáveis do mundo com as quais nós interagimos, ou seja, a parte do mundo a que pertencemos.”

Como consequência, arremata Rovelli:

“Observamos o universo a partir de dentro, interagindo com uma minúscula porção das incontáveis variáveis do cosmos. Vemos uma imagem desfocada dele. Esse desfocamento implica que a dinâmica do universo com que interagimos é governada pela entropia, que, por sua vez, mede a magnitude do desfocamento. Mede algo que diz respeito mais a nós que ao cosmos. Estamos nos aproximando perigosamente de nós mesmos.”

O desfocamento, medido pelo grau de entropia, pela própria passagem do tempo, é a implicação elementar da incerteza sobre as condições essenciais que permitem a existência e a dinâmica dos sistemas em movimento. Hegel, ao tratar do tempo, denomina esse misterioso atributo, transportado da filosofia ao calculo diferencial, como variabilidade absoluta, que turba e desfoca as percepções apressadas dos seres viventes sobre o espaço e suas dimensões.

Breve quadro sobre as condições políticas e sociais do debate sobre as políticas econômicas

Ao tratarmos das relações humanas é invariável a incapacidade da mente humana em conceber a quantidade e o grau de interrelações entre as varias dimensões que governam a vida social. A coleção de indícios da qual dispõe a teoria social é tão insuficiente que os filhos do iluminismo foram obrigados a recuar até as ousadias da dialética de Aristóteles para encontrar algum caminho de confrontação entre o real e o ideal.

Marx, na introdução aos Grundrisse, a proposito da crítica à ontologia mecanicista esposada pela economia política clássica, estabelece os critérios elementares para a representação ideal do movimento real do objeto. Abro aspas para o filósofo nascido em Tréveris:

“Como em geral em toda ciência histórica e social, no curso das categorias econômicas é preciso ter presente que o sujeito, aqui a moderna sociedade burguesa, é dado tanto na realidade como na cabeça, e que, por conseguinte, as categorias expressam formas de ser, determinações de existência, com frequência somente aspectos singulares, dessa sociedade determinada, desse sujeito, e que, por isso, a sociedade, também do ponto de vista científico, de modo algum só começa ali onde o discurso é sobre ela enquanto tal.”

O trabalho de retirar as cortinas que revestem a representação ideal acerca dos fenômenos reais requer, antes de tudo, a consideração acerca das categorias responsáveis por estruturar as formas de aparecer da dita realidade.

Neste mérito, antes e agora, o discurso que predomina nos corredores da finança e, de forma consigna, nos andares e elevadores dos poderes políticos constituídos e postos a operar a máquina das instituições públicas, é empurrado à reprodução das formas elementares e abstratas de representação da dinâmica econômica e social, pelas forças concretas e avançadas que movem essa mesma dinâmica.

Os esforços teóricos que embalaram a criação da institucionalidade contemporânea dos tesouros nacionais e bancos centrais no bordo do mundo atingido pelos conselhos e consensos de Washington, pretenderam reificar os supostos da naturalidade, da racionalidade e do individualismo que suportaram as construções clássicas da doutrina do equilíbrio.

O novo monolito da ciência econômica acabou por preservar as vigas mestras da teoria do equilíbrio, trocando sua roupagem arquitetônica e sofisticando os mecanismos de imposição da razão econômica na moldura das instituições criadas com o propósito de regular as práticas dos agentes privados e proteger os interesses públicos.

Não surpreende, que sob a atuação dos ventos da globalização financeira, a proa do navio neoliberal tenha sido blindada pela negação do controle de capitais, o regime de metas de inflação e o regime de regras que pregam a neutralidade da política fiscal.

Concordando ou não com as bases teóricas do sistema de metas, fato é, que este instrumento se encrustou profundamente na estrutura das políticas econômicas dos países submetidos à governança neoliberal, ou seja: todos os países, com exceção da China e de exemplares que lutam contra o domínio ocidental, como a Rússia.

Alterar este quadro é uma missão política para gerações, não bastando political will dos governantes e congressistas que, com bravura, tem lutado contra os retrocessos nas políticas sociais e do investimento público, aqui e lá fora.

A ingenuidade dos companheiros da Nova Esquerda, na qual incluo minha geração e a anterior, tem levado o debate sobre a política econômica até o paroxismo moralista, que se propõe a etiquetar tudo quanto existe fora de seus (ou dos nossos) ideais como fruto do neoliberalismo e do financismo. Não podemos, a proposito do combate político, cedermos ao imediatismo ou a esperança de que o jogo de poderes se trata da próxima eleição.

A construção do Brasil como uma, vá lá, potência econômica, que inspirou olhares admirados do mundo desenvolvido, levou 50 anos, de Getúlio aos militares, com avenças e desavenças de nossa história, até hoje atravessada pelas ousadias da caserna pintada de verde-oliva. Foram, portanto, três gerações de brasileiros e brasileiras empenhados na construção do País do Futuro, como profetizou Stefan Zweig.

Com a crise da dívida e a explosão inflacionária vindas da mudança de rota da hegemonia americana pós 1979, a obsessão pela estabilização nos desviou do caminho do desenvolvimento econômico, embora tenhamos, diante das complexidades e contradições da história, conseguido com sucesso (e muitos percalços) a redemocratização e a Constituição de 1988, a mais avançada do mundo nos temas sociais até hoje.

De 1980 até o presente, o país vive um longo e profundo processo de regressão estrutural que se estende das esferas econômica, social e política até a moral e a cultura nacional. A estruturação da política econômica, que amarra qualquer um que tente algo além de um crescimento pífio e alguma melhora na distribuição da renda e da riqueza, faz parte desse movimento regressivo, que se aprofundou após a queda de Dilma e os adventos de Temer-Bolsonaro. 

Foram necessárias, portanto, duas gerações de políticos e burocratas compromissados com a doutrina neoliberal para destruir o país. Nossa Nova Esquerda acha que isso será revertido sem o trabalho de duas ou mais gerações, podendo ultrapassar, inclusive, a existência individual de seus participantes? Dúvidas que persistem…

Retorno ao debate dos juros e das metas de inflação

De volta aos constrangimentos do regime de metas de inflação, é recomendável considerar suas inconsistências com o processo de formação de preços em economias abertas com elevado grau de volatilidade cambial e sensibilidade às variações nos preços internacionais dos chamados bens tradebles.

No limite, repetimos, o sistema de metas visa adequar a trajetória das expectativas de mercado apontadas pelos preços dos ativos à meta a ser perseguida pelos bancos centrais. Não custa rimar a repetição, com a lembrança de as expectativas de mercado estão atreladas ao grau de convencimento adquirido no diálogo entre as instituições públicas e os operadores privados de títulos públicos e demais instrumentos financeiros, e refletem em seus aparatos probabilísticos os pressupostos que autodeterminam o processo de formação de preços dos ativos.

Ao tomarmos ipsis litteris os supostos do Regime de Metas verificamos, sem dificuldades, pouca ou nenhuma atenção ao processo de indexação de preços e contratos, que ocorre, sobretudo, em mercados oligopólicos sensíveis à inflação e à volatilidade da taxa de câmbio e dos preços internacionais de commodities.

Ancoradas as expectativas de mercado à meta de inflação estabelecida, a indexação de qualquer preço é um abuso que se supõe geralmente estimulado por deficiências regulatórias ou incentivos indevidos do governo. Na ausência de choques de oferta e de pressões inflacionárias que fogem da capacidade de reação dos bancos centrais, a teoria informa que as economias submetidas ao regime de metas operam contratos celebrados sempre em termos nominais.

Mesmo na ocasião de choques ou de pressões inflacionárias que escapem dos modelos de previsão e da função de reação dos bancos centrais, a indexação é temporária e deverá ser eliminada tão logo os agentes incorporem, no futuro, os fenômenos que perturbaram a formação de preços no passado. No limite, a indexação não deveria existir e se, porventura, ocorrer temporariamente, as forças do equilíbrio intertemporal se encarregam de eliminá-la.

O desafio da estabilização de preços no Brasil, mesmo antes da explosão inflacionária ocorrida nos anos 1980, foi alvo de grande interesse dos economistas, de Furtado a Rangel, depois, já sob a escalada inflacionária, Pérsio Arida e Lara Resende em seu Larida, ortodoxos, heterodoxos, gregos e troianos. A respeito da inflação, suas causas e peculiaridades no contexto brasileiro, o volume e a variedade de teses que foram produzidas, especialmente nos anos 1980 e 1990, são gigantescos.

No curso de evolução do problema inflacionário, sobretudo a partir de 1980, os economistas ortodoxos foram aos poucos abandonando a defesa de uma estabilização clássica, ou seja, elevação da taxa de juros e corte de gastos. Evidentemente, alguns resistiram na defesa da velha magia, enquanto outros admitiam os entraves impostos pela indexação e pela fragilidade externa do país. 

O consenso era difícil e os fracassos dos seguidos planos de estabilização (Cruzado, Bresser, Verão, Collor I e Collor II) embora tenham deixado claro as raízes do problema inflacionário, pouco sugeriam em termos de sua resolução.

Os problemas elementares, cada qual com sua explicação dentre os economistas que se debruçaram sobre o tema da inflação, eram: o desarranjo fiscal gerado pela própria aceleração inflacionária; a restrição externa imposta pelo elevado endividamento e a dificuldade em atrair reservas cambiais, ambos agravados pela tardia moratória; e a indexação de preços e contratos que, progressivamente, se concentrou na correção ofertada pelo instrumento do overnight.

Em 19 de maio de 1993, o mineiro Itamar Franco, Presidente em exercício após a queda de Fernando Collor, convocou o então Ministro das Relações Exteriores, Fernando Henrique Cardoso, o Sociólogo, para assumir o cargo de Ministro da Fazenda, já havia sido ocupado por outros três ministros, dois políticos e um economista. FHC, por sua vez, convocou a equipe econômica que já trabalhava para um plano de estabilização a ser proposto no pleito eleitoral de 1994. Era o Plano Real, que em primeira vista, parecia ficção.

O Plano consistia na tentativa de atacar, de uma vez, as três grandes causas da aceleração inflacionária: o déficit público, a restrição externa e a hiperindexação. 

Encontramos as pegadas intelectuais do Real em dois trabalhos, o paper de Pérsio Arida e André Lara Resende, de 1985, Inertial Inflation and Monetary Reform in Brazil, apelidado de Larida, e a Tese de Doutoramento de Gustavo Franco, Hyperinflations: The experience of the 1920s reconsidered, de 1989.

Com suas semelhanças e divergências sobre o caráter da inflação brasileira, os dois trabalhos tem uma inspiração comum: as experiências clássicas de estabilização durante o período entreguerras que tem, em comum, a restrição externa como grande entrave para qualquer reforma monetária e o processo de indexação como defesa dos agentes econômicos em relação às incertezas acerca do poder de compra da moeda.

O Larida propõe uma reforma monetária absolutamente incomum ao que até então estava disponível na prateleira dos planos de estabilização: a geração de uma hiperindexação em uma unidade de conta estável de tal modo, que, a indexação em moeda corrente fosse transferida para um indexador comum e administrável. Com isso, na medida em que os preços e contratos fossem, progressivamente, denominados no indexador comum, a função da moeda como reserva de valor, que é a primeira a desaparecer com a aceleração da inflação, retornaria e traria consigo as funções de meio de pagamento e meio de troca.

A grande questão, de enorme incomodo aos autores do Larida, e que praticamente derrotou todos os planos de estabilização anteriores ao Real, era a restrição externa. Nenhum indexador resistiria ao enorme passivo externo, que chegava a representar quase 4 vezes as exportações brasileiras. 

***Esta é uma versão preliminar. O artigo completo será publicado em breve.

Os Economistas e a Sociedade, por Belluzzo e Caixeta

Luiz Gonzaga Belluzzo e Nathan Caixeta

Stanislaw Ponte Preta registrou nas páginas de seu Festival de Besteiras que Assolam o País (Febeapá) um diálogo entre dois invisíveis auxiliares de produção de um programa de televisão que foi ao ar, provavelmente, nos idos de fevereiro de 1967, com o propósito de propagandear o Cruzeiro Novo, parte da reforma monetária do já nomeado Presidente Costa e Silva. 

Stanislaw verifica o desencontro entre o objeto das análises econômicas e os seres comuns e invisíveis submetidos aos conselhos da Velha Ciência:

“Depois que o senhor Ministro do Planejamento terminou sua palestra pela televisão… falando em aritmética frívola, conjuntura econômica, retração monetária e outros bichos”, sai de cena o Ministro acompanhado de seus cupinchas, entram os invisíveis.

Notou e anotou Stanislaw:

“O mais alto, branco e de bigodinho, muito puxado para o magro, perguntou: Tu entendeu alguma coisa do que esse cara falou?

E, ante o olhar perdido do outro: Esse cara que expricô o tal de cruzero novo? 

O outro, que era sobre o redondo, crioulo convicto e jeito mais descansado, respondeu: 

No começo eu prestei atenção. Depois num morei mais e pedi meu boné. 

Pois olha, pelo que eu ouvi: quem era rico ficou mais rico; quem era pobre ficou mais pobre! 

Num me diga! e o crioulo esbugalhou os olhos: Você deve de ter entendido mal. Mais pobre do que eu estou eu num guento ficar.” (sic)

Esse episódio nos provoca a ousadia de registrar algumas das impropriedades econômicas que assolam nossos tempos.

Invictos, na prática do positivismo dogmático e orgulhosos de suas posições de destaque e dos adornos ofertados pela mídia ilustrada, nossos economistas se especializaram no ofício que antes cabia aos profetas, como guardiões das leis que regem o comportamento individual e coletivo dos homens e mulheres invisíveis, existentes no nível atômico, como matérias-primas para os cientistas ocupados no estudo da alocação de recursos escassos, como definiu Paul Samuelson em seus Foundations, uma espécie de catequese para gerações de jovens economistas e que fez muita fama entre nossos exemplares tupiniquins.

Gustavo Franco, em sua quase autobiografia intitulada Cartas a um jovem economista, cuida de travar um diálogo imaginário com aspirantes e leigos interessados pela Dismal Science, a tal Economia.

Pedimos licença ao Sr. Franco para utilizarmos seu exercício agostiniano acerca das preocupações dos economistas:

“Nosso assunto é o modo como agem os conjuntos de pessoas quando se trata de decisões que afetam suas condições materiais de existência. O assunto mais nobre – ou, ao menos, o mais popular entre nós, economistas – é o coletivo. Trata-se aqui do comportamento econômico dito social… é a lógica da ação coletiva, ou o comportamento grupal, que revela uma racionalidade própria ao grupo, que, por sua vez, não é apenas a soma de seus indivíduos, mas algo bem maior e, portanto, muito diferente de seus componentes.”

Aqui vale perquirir a consciência dos economistas acerca do que seja o social, conceito excêntrico que perturba sem descanso filósofos e historiadores.

O desconforto com os apetrechos do utilitarismo clássico e abandonados pela doutrina do Laissez-Faire, os profetas da Velha Ciência resistiram à apostasia Keynesiana ocorrida no pós-Guerra e buscaram ultrapassar a simplicidade de seus predecessores clássicos e neoclássicos. Na peregrinação em busca do Graal da Ciência, encontraram renovado conforto nas teorias das expectativas (primeiro adaptativas, depois racionais), nos modelos estocásticos dinâmicos de equilíbrio geral e nas pobres incursões pela teoria dos sistemas dinâmicos.

Quando se trata de cuidar do funcionamento da economia como um todo, ou seja, de questões ditas macroeconômicas, os vícios do senso comum e da microcefalia individualista levam a recomendações suicidas de política econômica. Nessa visão apologética, a “agregação” dos comportamentos individuais racionais, a soma das partes, determina o resultado para o conjunto da economia. Não por acaso, os economistas da corrente principal empenham-se com denodo na descoberta dos fundamentos microeconômicos da macroeconomia, assim como os alquimistas buscavam a pedra filosofal. Essa proeza intelectual pretende convencer os incautos de que o movimento do “macro” é resultado da agregação das decisões no âmbito “micro”.

Humilhados pelas ousadias de Poincaré, responsável pela prova das limitações analíticas e preditivas do cálculo diferencial, monetaristas, novo-clássicos e tutti quanti, agasalharam seus teoremas com os confortáveis supostos da neutralidade da moeda e da fixação do tempo como propriedade especial dos espaços dinâmicos que, curiosamente, teimam em permanecer estáticos.

As dificuldades em lidar com o demônio do dinheiro e com a incerteza radical, condições de existência da sociabilidade humana, persistem em afastar os economistas da vitória sobre o mundo real.

O social, ou a coletividade, foi acolhido, no âmbito da Economics, pelo gelatinoso conceito de grupo – variável discreta que dispensa a avaliação das subjetividades humanas e que pode ser repartida infinitamente até o nível atômico ou individual -, ou de grupos representativos de indivíduos que compartilham semelhanças e interesses comuns, agindo cooperativamente (ou não). A ação grupal e individual, por certo racional e imprevisível, é guiada pela linguagem comum dos preços, forma impessoal e inexorável de soldagem do comportamento econômico, dito… ou maldito, social.

A metafísica e a epistemologia da corrente dominante ocultam uma ontologia do econômico que postula certa concepção do modo de ser, uma visão da estrutura e das conexões da sociedade mercantil capitalista. Para este paradigma, a sociedade onde se desenvolve a ação econômica é constituída mediante a agregação dos indivíduos, articulados entre si por nexos externos e não necessários.

Os preços participam desse processo social como ratificação de um fato elementar, inescapável aos participantes, como revelação imanente da realidade. Franco, recauchutando o lema do almoço grátis de Friedman, recorre a Machado de Assis para explicar que “não se pode ir à Glória sem pagar o bonde”, lei imposta pela escassez de recursos. Esse ser social, como unidade solitária de uma coletividade, ou parte que solitariamente ativa seu egoísmo cooperativo, recebe a dádiva da liberdade de escolha casualmente restrita pela escassez. 

Os dizeres e saberes da Ciência do Enriquecimento (ou Crematística, como preferiam os gregos) informam a predominância do método e de sua pureza, carregando em sua ontologia peculiar as âncoras do naturalismo, do racionalismo, do individualismo e do equilíbrio, que atuam no subterrâneo das ideias, como modo cientifico de justificação política das façanhas do capitalismo.

Na prática da boa técnica econômica, os especialistas se preservam equidistantes tanto da política, como das especulações e magias da teoria social, fixados no centro de seu laivo positivista. Jean-Paul Sartre definiu os sujeitos guiados pela pureza e pela passividade da razão instrumental como práticos-inertes. Estes seres pensam ter ideias, mas as ideias que os possuem e, não raramente, atuam como poderosos artifícios de hegemonia política.

Os economistas “técnicos”, por um lado, atuam para reiterar a noção do ser social como produto (e produtor) de escolhas restritas ao equilíbrio de forças entre as necessidades e a distribuição meritória da riqueza e, por outro, confortam os corações dos homens e mulheres despossuídos da autonomia de satisfazer suas necessidades (terrivelmente) humanas que, no “equilíbrio”: é plena e irrestrita para alguns poucos que gozam da abundância, e pouca ou nenhuma para todos os outros algemados aos grilhões da escassez.

As recomendações e análises dos economistas (inclusive as nossas), mesmo quando prestadas em boa fé, estão eivadas de valorações e pressupostos não revelados, para não falar de ostentações de rigor e cientificidade incompatíveis com a natureza do objeto investigado. Esse incidente, o desacordo entre o método de investigação e a natureza do objeto investigado, é quase sempre ignorado pelos praticantes da Ciência Triste. Isso não lança necessariamente dúvida sobre a honestidade intelectual dos economistas, mas os obriga a explicitar as “visões” (como dizia Schumpeter) que antecedem e fundamentam suas análises. Essas cautelas tornam-se ainda mais imperiosas quando as sabedorias dos interesses subjugam os interesses pelo conhecimento.

A violência social é a fonte da violência escolar

Ronaldo Martins Gomes 

A violência é considerada pela Organização Mundial da Saúde como um grave problema de saúde pública. Ela é no sentido durkheimiano um fato social, visto que está dotada dos critérios de anterioridade, exterioridade e generalidade. É uma ação social, nos termos de Weber, isto é, como situação de interatividade social entre dois ou mais indivíduos, motivados por expectativas recíprocas de ação. E é, também, tanto parte quanto consequência da luta de classes, conforme explicitado por Marx.

Ela, a violência, é parte indissociável do complexo de relações que constituem as modernas [ou seriam pós-modernas?] sociedades capitalistas, tanto do Norte Global quanto do Sul Global, como o Brasil, por exemplo. Do que decorre, necessariamente, que as instituições que integram essas sociedades estão marcadas pela violência. E dentre essas instituições, destacamos a educação escolar pública, que é nosso espaço de trabalho e convívio social.

Conforme apontado em pesquisas dos campos da Educação e das Ciências Sociais no território nacional, a violência é parte do cotidiano das escolas públicas brasileiras, constituindo-se como um desafio às equipes gestoras e aos coletivos docentes. Para melhor estudar, compreender e agir politicamente sobre esta problemática social, o pesquisador Bernard Charlot da Universidade Federal de Sergipe (UFS) desenvolveu os conceitos de violência à, na e escola.

A violência à escola refere-se às agressões praticadas contra a instituição e a seus representantes legítimos. A violência na escola refere-se às situações de violência cujas origens não estão necessariamente na escola, mas em atos e em ações de violências, que ocorrem fora da escola. Por fim, a violência da escola é aquela praticada por membros de equipes gestoras e/ou do coletivo docente, por meio de suas falas e ações em relação ao coletivo discente. 

O sociólogo brasileiro José Vicente Tavares dos Santos, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), analisa a questão da questão, a partir da microfísica violência. Trata-se de uma perspectiva sociológica que nota nas modernas e fortemente assimétricas sociedades capitalistas três elementos que constituem a “crise social” dos tempos atuais: (i) a crise do contrato social; (ii) a dinâmica entre pulsão de vida e de morte, e (iii) a violência como relação social de excesso de poder.

A crise do contrato social é evidenciada pelo aumento da violência social, pela ampliação do poder do crime organizado na ocupação territorial dos centros urbanos, nas ações dos tribunais do crime impondo suas ‘leis’ às comunidades em que o Estado é ausente, na participação do crime organizado no campo político, no ramo imobiliário e nas prefeituras. A função do contrato social de manutenção da paz, segurança e desenvolvimento se encontra em cheque. Quiçá, cheque-mate.

As tensões da dinâmica entre a pulsão de vida e a de morte são evidenciadas pela quebra das regras sociais, que visam promover a solidariedade social, e sua substituição pela violência. Neste contexto, a civilidade, que é a dominação do ímpeto à violência que caracteriza seres humanos, passa então a se transformar em atos de violência e de práticas de crueldades extremas contra outros indivíduos, grupos sociais, etnias etc.

A violência como relação social de excesso de poder. Distingue o conflito da violência. Enfatiza, com Simmel, que o conflito social é uma característica das sociedades assim como sociabilidade moderna, e que é isso que propicia tanto a ampliação quanto criação de direitos, o que torna os conflitos sociais como ponto de partida para a construção de soluções sociais significativas. Mas se o conflito social é potencialmente benéfico, não o é a violência, pois ela é o excesso de poder.

Chamamos de violência escolar, ao bullying, que inclui agressões físicas, verbais e psicológicas; a violência psicológica/moral, como insultos, humilhações e exclusão social; a violência física, que são agressões corporais; e a violência sexual, como assédio e exploração sexual. Incluimos ainda o cyberbullying, a discriminação (raça/etnia, classe, gênero e deficiência). E também a violência contra a escola (vandalismo e depredação do patrimônio).

A escola é um espaço social de convivências de alta significação. Nela descobrimos os afetos e as preferências, do sexo à política, pois potencializa e expande o habitus (Bourdieu) introjetado na vida familiar. Nela forjamos laços de camaradagem/ódios, que podem se projetar a outras etapas da vida. Nela transformamos nossas preferências de àres do conhecimento, em profissões para toda a vida. Nela mergulhamos com maior profundidade nas teias de relações, que chamamos de sociedade.

É na escola que somos introduzidos ao universo moral da responsividade interpessoal, isto é, ao desenvolvimento da capacidade de se responder adequadamente a sinais sociais ou necessidades do outro agente social. Nela o fluido universo da cultura é descortinado homeopaticamente como o complexo das criações humanas no campo simbólico, artístico e tecnológico, mas também, como apontou Max Weber, cultura como um campo de disputas no mundo social.

Na escola as estruturas sociais: a distribuição hierárquica dos status e dos papeis sociais se evidenciam como prenuncios de divisões maiores e mais complexas, à medida em que tomamos contato com as relações e interações entre aqueles com quem nos identificamos e com quem entramos em conflitos. Da família e grupos de pertença involuntária, passamos a nos identificar e escolher os indivíduos e grupos de forma relativamente mais autônoma.

É nela, na escola e particularmente nas escolas públicas, que a violência – à, na e – escola se torna experiência na vida singular de qualquer estudante. Pois na escola, como dito acima, sob diferentes status se relacionam indivíduos que exercitam diversamente seus papéis sociais, são eles: discentes, docentes, gestores, trabalhadores do apoio escolar e pais e/ou responsáveis. Ao combinar relações binárias possíveis entre cinco tipos de grupos, têm-se 3.125 relações possíveis.

Nessas relações, os fatos e fenômenos que preponderam no espaço social mais amplo constituído por uma infina malha ou teia de relações possíveis, são reproduzidas em forma de fluxos os problemas e demandas. Noutras palavras, a sociedade por meio dos indivíduos “carrega” os problemas e demandas para o interior das instituições sociais em que atua e com as quais reage. É assim que, em meio a 3.125 formas de relações e interações sociais, a violência chega à escola.

Pois é na escola que barreiras geracionais, ou seja, os desafios e dificuldades que surgem na interação entre pessoas de diferentes gerações: docentes/gestores/trabalhadores de apoio e pais e/ou responsáveis e discentes, podem resultar, e habitualmente resultam, em preconceitos, em falta de entendimento e compreensão, em resistências e rebeldias a quaisquer formas de colaboração nas relações e interações sociais.

Mas a escola é, também, o espaço em que a cultura circula em movimentos mais ou menos desorganizados, mas que propiciam uma via comunicativa de alta significação. De fato, na condição de indivíduo que atua profissionalmente no campo da Educação Básica pública, entendemos que a cultura artística em geral e a música particularmente são espaços ótimos à promoção e ao desenvolvimento de alternativas de enfrentamento e combate à violência na escola.

Da Expansão à Dispersão: o BRICS e os limites da ação conjunta

Natalia Fingermann e Roberto Georg Uebel

Do Boletim Lua Nova – CEDEC

Esta publicação faz parte de uma série especial de análises sobre a 17ª Cúpula dos BRICS, no Brasil sob a presidência rotativa do país em 2025. Fruto de uma nova parceria entre o Boletim Lua Nova e pesquisadores do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, esta série visa aprofundar o debate sobre os principais temas, prioridades e desafios deste importante encontro multilateral.*

O bloco dos BRICs foi oficialmente formado em 2009, com uma liderança relevante do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que promovia, à época, uma política externa ativa e autônoma com o objetivo de fortalecer o protagonismo brasileiro entre os países emergentes. Nesse primeiro ano, o bloco divulgou sua primeira Declaração Conjunta em uma reunião em Ekaterinburgo, na Rússia, que tratava principalmente de duas questões centrais ao Sul Global: a reformulação do sistema financeiro mundial pós-2008 e a reestruturação das instituições internacionais. Naquele momento, o bloco ainda não contava com a participação da África do Sul, país que seria admitido somente em 14 de abril de 2011.

Atualmente, o BRICS tem uma maior representatividade econômica. Com a admissão de novos membros entre os anos de 2023 e 2024 – Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Irã e Indonésia – o grupo atingiu 46 % da população mundial, com um PIB em poder de paridade de compra de 40,2 % em 2024, superando significativamente o grupo dos países do G-7 (28,8 %) (SOUTO, 2025). Entretanto, esse aumento no poder econômico do bloco não tem alterado a sua capacidade de concertação política em um cenário de evidente desestruturação da Ordem Internacional de Bretton Woods, abrindo uma janela de oportunidade para um maior protagonismo do grupo no sistema internacional.

Em abril deste ano, já sob a presidência brasileira, a reunião de chanceleres dos BRICS não apresentou uma Declaração Conjunta oficial, demonstrando a dificuldade de se alcançar um consenso político entre os 11 países-membros. Para os meios de comunicação, o resultado dessa reunião ministerial mostra a vulnerabilidade da posição brasileira no interior do bloco, que não tem conseguido articular posições comuns sobre temas sensíveis da agenda, tal como Ucrânia e Gaza, seja quando esteve com o comando do G-20 em 2024, seja na liderança dos BRICS em 2025. Além disso, outra crítica feita diretamente ao chanceler Mauro Vieira foi a ausência, na declaração da presidência, de qualquer referência à criação de uma moeda própria para o comércio intra-bloco, tal como já havia sido ventilado pelos representantes da diplomacia nacional.

Contudo, é importante destacar que essa responsabilização imposta exclusivamente ao Itamaraty e/ou ao presidente Lula desconsidera, pelo menos, três fatores externos à atuação direta do Brasil: I. as divergências históricas intra-membros; II. a participação direta e/ou indireta dos membros em conflitos regionais atuais; e III. o limitado nível de institucionalidade do BRICS.


As divergências históricas intra-membros

A composição inicial do BRIC já enfrentava o desafio de equilibrar interesses entre dois rivais históricos, China e Índia. Contudo, vale ressaltar que, à época de sua formação, o governo Lula II detinha uma ampla capacidade de articulação do Sul Global, com uma aliança estratégica já estabelecida previamente com a Índia e África do Sul, por meio da consolidação do Fórum IBSA (2003).

Além disso, a China, sob Hu Jintao (2003–2013), e a Índia, sob Manmohan Singh (2004–2014), adotavam um estilo de política externa diferente daquele estabelecido pelos seus respectivos sucessores, Xi Jinping e Narendra Modi. Em ambos os países se notava a vontade de se criar uma relação mais harmoniosa e cooperativa com os parceiros do Sul Global, adotando uma postura mais cautelosa entre os vizinhos asiáticos. No ano de 2005, por exemplo, a China e a Índia assinaram a Strategic and Cooperative Partnership for Peace and Prosperity, e, logo no ano seguinte, ambos os países decidiram reabrir a passagem de Nathula, que estava fechada por 44 anos, para facilitar o comércio regional. Depois, houve ainda avanços na solução de questões na Caxemira e um acordo assinado durante a Cúpula dos BRICS, em 2011, que sinalizava não somente uma aproximação comercial, mas também o estreitamento das relações entre outras áreas, como cooperação em defesa.

Entretanto, a “lua de mel” entre esses dois rivais históricos começou a se deteriorar com a mudança de governo, chegando a uma situação dramática em 2020 com o enfrentamento das tropas chinesas e indianas na fronteira de Sikkim e Tibete. Esse cenário já se delineava desde 2014, quando Xi Jinping optou por militarizar o Oceano Índico, incluindo o maior rival indiano, o Paquistão, na Rota da Seda. Com isso, Modi, recém-empossado, decidiu alterar sua estratégia diplomática com o vizinho, reativando o grupo dos Quad, envolvendo os Estados Unidos, Japão, Índia e Austrália, desde 2017, com o propósito de reequilibrar o poder militar regional. Hoje, as relações comerciais entre a China e Índia se mantêm estáveis e representativas, porém diplomaticamente abaladas, principalmente pelo claro financiamento militar chinês ao Paquistão, tal como foi visto na disputa fronteiriça de 2025.

Outra rivalidade histórica entre os membros é a do Irã com os Emirados Árabes Unidos, uma vez que os EAU assinaram o Acordo de Abraão, mediado pelos Estados Unidos para normalizar as relações com Israel, além de participar da parceria estratégica I2U2, envolvendo Estados Unidos, Índia e Israel. Já as relações conflituosas entre Arábia Saudita e Irã, que haviam sido cortadas após Riad executar um clérigo xiita em 2016, foram restabelecidas, ainda que de maneira tímida, graças a um acordo mediado pela China, em 2023, quando os dois países se comprometeram a retomar as relações diplomáticas com a reabertura de suas embaixadas.

Por fim, destaca-se a disputa mais recente entre o Egito e a Etiópia em relação à Grande Barragem da Renascença Etíope no Rio Nilo, que tem gerado tensões entre os dois membros dos BRICS, com queixas formalmente apresentadas pelo Egito no Conselho de Segurança das Nações Unidas, nos anos de 2021 e 2024, sobre recorrentes violações do direito internacional por parte do governo etíope.

Portanto, nota-se que a expansão dos BRICS não promove necessariamente um aumento na capacidade de coesão política entre o grupo, uma vez que há disputas históricas tanto entre os membros originários, como entre os novos membros. Essas divergências tornam-se ainda mais acirradas no contexto internacional atual, em que o envolvimento direto e/ou indireto dos países-membros nos conflitos regionais é uma constante.


A participação direta e/ou indireta dos membros em conflitos regionais atuais

Dos membros fundadores do bloco, apenas Brasil e África do Sul não apresentam conflitos geopolíticos de ordem territorial-fronteiriça e regional, tampouco internacional. Este fato, sob uma perspectiva de poder estrutural, também limita uma coesão entre seus membros, haja vista que existem conflitos regionais entre os próprios membros, como o caso de China e Índia, além de animosidades pretéritas entre a própria Rússia e China, aparentemente superadas pelas boas relações entre Putin e Xi Jinping.

Cabe observar que, no caso do entorno estratégico do Brasil, China e Rússia estão diretamente relacionadas com a questão da Venezuela e, mais recentemente, com o caso da Guiana Essequiba. O envolvimento de Pequim e Moscou coloca Brasília e, particularmente, o próprio Itamaraty, em uma situação complexa, seja como mediador, seja como observador ou partícipe das instabilidades geopolíticas na parte setentrional da América do Sul.

No caso sul-africano, apesar das instabilidades regionais, o país tem evitado um esforço de participação, senão como mediador – aos mesmos moldes do Brasil, no caso sul-americano – mas em menor proporção. Em episódios de querelas territoriais recentes na região, como em Moçambique e no Oceano Índico, Pretória tem buscado exercer um papel simbólico, com pouca capacidade de influência efetiva, priorizando a mediação da União Africana, como o Brasil, que também tentou desempenhar um papel de mediador regional no Mercosul e na CELAC.

As implicações da guerra na Ucrânia e as tensões territoriais na Caxemira, Xinjiang, Taiwan e no Tibete colocam Rússia, Índia e China em uma posição contrária, para não dizer refratária, em comparação aos demais membros do BRICS original. Se somados os novos membros, pelo menos cada um deles apresenta um conflito regional no qual está diretamente envolvido, senão todos, quando observada a guerra em Gaza e as instabilidades em todo o Oriente Médio e Norte da África. Até mesmo a Indonésia, que deverá ser a terceira maior economia do mundo até 2050, tem enfrentado cenários de tensionamento geopolítico no seu entorno do Sudeste Asiático, inclusive com a própria China.

Nesse contexto, o direcionamento para uma construção de coesão no âmbito dos BRICS, coordenado pela presidência pro tempore do Brasil encontra limitações de ordem geográfico-política (COSTA, 2008) e de posicionamento da própria política externa brasileira neste ambiente de fragmentação do multilateralismo, o que dificulta o grau de institucionalidade do próprio BRICS.


O limitado nível de institucionalidade do BRICS

O Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) e o Acordo de Reserva Contingente (CRA), propostos pelos membros originários na 6ª Cúpula dos BRICS, em 2014, são considerados a primeira tentativa de se criar mecanismos institucionais mais consolidados entre os países membros (FOKINA, 2023).

Entretanto, nota-se que os avanços no sentido de estabelecer uma institucionalidade rígida e formal no bloco ainda são precários. Pois, o grupo não possui estatuto próprio, não funciona com um secretariado fixo e não dispõe de recursos para financiar suas atividades.

Apesar dessa limitação institucional, que faz o grupo ser apresentado como uma entidade semelhante ao G-7, Papa e Han (2025) indicam a ocorrência de um processo gradual de institucionalização do bloco, que é importante para se buscar contrabalancear com a hegemonia norte-americana no sistema internacional. De acordo com os autores, o BRICS adota um modelo de institucionalidade flexível e seletiva, caracterizado por três dimensões principais:
(1) a produção de saídas institucionalizadas, como declarações conjuntas, planos de ação e, em menor grau, instituições formais como o NDB e o CRA;
(2) a mobilização de diferentes tipos de atores domésticos, incluindo líderes estatais, ministérios, governos subnacionais e sociedade civil;
(3) a formação de subcoalizões internas para facilitar consensos e avançar pautas específicas.

Contudo, os mesmos autores ressaltam desafios significativos na institucionalidade do bloco. Eles decorrem da diversidade de interesses nacionais e da assimetria de poder entre seus membros, especialmente no que diz respeito ao peso político e econômico exercido por China e Rússia em relação aos demais integrantes do grupo. Essas disparidades dificultam a construção de instituições formais mais robustas e permanentes, uma vez que a tomada de decisões consensuais se torna complexa.


Considerações Finais

Diante disso, é possível afirmar que os limites da atuação brasileira dentro do BRICS devem ser analisados a partir de um contexto mais amplo, que supere um olhar restrito às questões endógenas da diplomacia nacional. Em primeiro lugar, vale notar que as divergências históricas entre os membros, como no caso das rivalidades persistentes entre China e Índia ou Irã e Emirados Árabes Unidos, impõem barreiras significativas à construção de consensos duradouros no bloco, comprometendo sua coesão política. Em segundo lugar, a participação direta ou indireta dos países-membros em conflitos regionais intensifica a fragmentação da agenda comum, uma vez que muitos desses atores se encontram em lados opostos nas disputas geopolíticas sensíveis, tal como Gaza, Ucrânia e Caxemira. Por fim, o limitado nível de institucionalidade do BRICS compromete ainda mais sua capacidade de resposta coordenada frente aos atuais desafios globais, restringindo o potencial do grupo como ator estratégico dentro do sistema internacional.

  • Este texto não reflete necessariamente as opiniões do Boletim Lua Nova ou do CEDEC. Gosta do nosso trabalho? Apoie o Boletim Lua Nova!


Referências

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  • LANCASTER, John. India, China hoping to “reshape the world order” together. The Washington Post, Washington, 12 abr. 2005.

  • LEVESQUES, Antoine. India–China relations under the Modi 3.0 government. Online Analysis, International Institute for Strategic Studies, 23 jul. 2024.

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  • NÚCLEO DE ESTUDOS E NEGÓCIOS AMERICANOS. A fragmentação da multilateralidade já começou. Nota Alta ESPM, 18 fev. 2025.

  • PEREIRA, Analúcia Danilevicz. Do BRIC ao BRICS: o ingresso da África do Sul…, VI ENABED, 2013.

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  • RAJAN, D. S. China: President Xi Jinping’s South Asia policy – implications for India. Chennai Centre for China Studies, 27 abr. 2015.

  • RAJAN, Amit; DONNELLON-MAY, Genevieve. The political gaps in the BRICS wall. East Asia Forum, 22 nov. 2024.

  • REUNIÃO de chanceleres do Brics termina sem declaração conjunta… O Globo, 29 abr. 2025.

  • RÜCKERT, Aldomar Arnaldo; CARNEIRO, C. P. F.; FONSECA, Ludmila L. Políticas territoriais na União Europeia e no Brasil/América do Sul, 2021.

  • SAINT-MÉZARD, Isabelle. Jiang Zemin et Hu Jintao en Inde…, Critique internationale, 2007.

  • SMITH, Jeff M. The Quad 2.0…, Heritage Foundation, 2020.

  • SOUTO, Mayara. BRICS GDP outperforms global average…, BRICS Brasil, 2 maio 2025.

  • STRANGE, Susan. The retreat of the state…, Cambridge University Press, 1996.

  • VISENTINI, Paulo Fagundes. The Brazil of Lula… Austral: Brazilian Journal of Strategy and International Relations, 2012.


* Os artigos publicados da série especial de análises sobre a 17ª Cúpula dos BRICS estão no acervo do Projeto Brasil, na aba Documentos, confira:

A Cúpula dos BRICS no Brasil: Prioridades, Agenda e Desafios

Fortalecendo a Cooperação do Sul Global para uma Governança Inclusiva e Sustentável: a agenda climática da 17ª Cúpula dos BRICS

Da Expansão à Dispersão: o BRICS e os limites da ação conjunta

A Diversidade do BRICS+: Vantagens para uma Ordem Multipolar mais Inclusiva

BRICS no Rio: Ampliação, Divergências e a Busca por uma Governança Global Inclusiva

Maria da Penha sob ataque: como desinformação e discurso de ódio alimentam a misoginia

Julie Ricard e Ergon Cugler

Nesta semana comemoramos mais um aniversário da Lei Maria da Penha, marco histórico na luta contra a violência de gênero no Brasil. Reconhecida internacionalmente como uma das legislações mais avançadas no enfrentamento à violência contra as mulheres, ela continua sendo alvo de uma campanha persistente de desinformação na machosfera; e não por acaso.

Mas por que essa lei, símbolo da luta contra a violência de gênero, tem sido sistematicamente atacada em canais de desinformação e ódio online? A resposta está menos nas fake news em si e mais nas estruturas de poder que se sentem ameaçadas.

Em investigações que temos conduzido no Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas (DesinfoPop) da FGV, encontramos uma combinação perigosa de desinformação e discurso de ódio em comunidades do Telegram. O que vemos nesses espaços é um retrato assustador de como falsas narrativas alimentam e justificam a misoginia, abrindo caminho para a legitimação da violência contra as mulheres.

Essas campanhas misóginas não ganham tração sozinhas. Elas prosperam em plataformas digitais que lucram com o engajamento do ódio e que pouco fazem para conter a propagação de mentiras que colocam vidas em risco.

A construção dessa retórica segue um roteiro perturbadoramente simples. A base é desacreditar a vítima que deu origem à lei: Maria da Penha. Mensagens sensacionalistas como “A lei Maria da Penha sendo desmascarada” ou “Vocês sabem da real história da Maria da Penha?! Eu tbm nunca tinha ouvido falar sobre o outro lado da história”, buscam semear dúvida sobre um caso que passou por várias instâncias de julgamento no Brasil, e até chegar à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (CIDH/OEA). A fonte que utilizam para tal afirmação? Uma suposta “investigação” publicada na plataforma “Brasil Paralelo”, que inclusive foi processada pela AGU por disseminar essa desinformação.

Em outras palavras: as narrativas buscam esvaziar de credibilidade a própria base moral e histórica da legislação. Uma vez criada a dúvida inicial, a retórica avança alegando que a lei é utilizada para perseguir injustamente os homens. Assim, mulheres fariam em sua maioria falsas acusações e os homens seriam vítimas indefesas de um sistema que supostamente não exige provas. Uma mensagem ilustra bem esse mecanismo: “Às mulheres BASTA FALAR que foi agr3ssão, ao rapaz resta se desdobrar para mostrar que é mentira”. Em outra afirmação falsa que não cita nenhuma fonte, afirmam que “80% das acusações da Lei Maria da Penha são falsas”.

Se você assistiu à série “Adolescência”, que bombou nas redes há alguns meses, vai lembrar de uma característica marcante dos grupos masculinistas da chamada “machosfera”: a síndrome de perseguição. E é exatamente o que observamos nesses conteúdos: a ideia delirante de que existe uma conspiração misândrica orquestrada contra os homens. Esse backlash ilustra a sensação dos homens que estão sendo questionados e perdendo privilégios, frente aos avanços impulsionados pelos movimentos feministas e políticas públicas de igualdade de gênero. Eles não entendem essas mudanças como uma busca por igualdade, entendem como um ataque pessoal contra eles: “Vivemos numa sociedade ginocêntrica, misândrica, anti-masculina e infanticida, governada tiranicamente pelo feminismo”, diz uma mensagem.

Algumas mensagens chegam a conectar essa síndrome de perseguição ao universo conspiratório mais amplo, alegando supostos “planos globais de redução populacional”, narrativas comumente associadas aos “globalistas” e a chamada “nova ordem mundial”: “Se relacionar hoje em dia ficou quase impossível. Isso favorece o quê? O que os globalistas sempre sonharam: redução da população mundial”, diz outra mensagem. 

Uma vez estabelecida a suposta conspiração, o próximo passo eleva a retórica ao ódio, com mensagens que fazem parte de uma engrenagem de ódio cuja meta é apagar a humanidade feminina e reconfigurar a mulher como alvo legítimo de violência. Uma mensagem perturbadora sintetiza essa escalada: “O homem tem que abandonar casamento e filhos e começar a ver mulher não como ser humano, mas como vaginas que falam, que só servem pra ser depósito de esperma”.

Esses conteúdos não podem ser naturalizados, porque eles formam opinião, moldam percepções e, sobretudo, legitimam a violência. A Lei Maria da Penha incomoda porque ela toca exatamente onde precisa: no poder patriarcal que, por séculos, naturalizou o silêncio das mulheres frente à violência doméstica. É por isso que enfrentar a desinformação não é só uma questão de corrigir informação, é sobretudo enfrentar as normas sociais e estruturas de ódio que são acionadas através da mentira. 

Neste 7 de agosto, não basta celebrar as (muitas) conquistas da Lei Maria da Penha. Infelizmente, ainda precisamos defendê-la, inclusive nas trincheiras digitais onde o ódio tem se organizado. Combater essas narrativas é essencial para garantir os direitos das mulheres em uma sociedade cada vez mais intoxicada por conspirações e ódio. Defender a Lei Maria da Penha é também defender um projeto de país onde a verdade e a justiça prevaleçam sobre o ódio e a mentira. É escolher o lado da vida, da dignidade e da igualdade em uma disputa cada vez mais visceral pelo futuro do Brasil.

Julie Ricard é doutoranda em Administração Pública e Governo na Fundação Getulio Vargas (FGV), onde integra o Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas (DesinfoPop/CEAPG/FGV). Mestre em Relações Internacionais pelo Sciences Po (França) e em Estudos de Gênero pela Université Paris 7, foi pesquisadora para a Iniciativa Humanitária de Harvard e o Shorenstein Center. Atuou como consultora da UNESCO, apoiando os esforços de enfrentamento à desinformação sobre saúde pública da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República e Diretora do programa Tecnologia e Democracia na Data-Pop Alliance.

Ergon Cugler atua como pesquisador CNPq no Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas (DesinfoPop/CEAPG/FGV). É graduado em gestão de políticas públicas pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-graduado em Data Science & Analytics também pela USP, possui mestrado em Administração Pública em Governo pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e especialização em ciência de dados pela Universitat de Barcelona. É Conselheiro da Presidência da República no Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CDESS), o Conselhão do Governo Federal.

Créditos da imagem: Maria da Penha, homenageada com o título de Doutora Honoris Causa – Fotomontagem: Flickr/UFCD, Pixabay e Jornal da USP

Setor público gasta bilhões com Big Techs ao invés de ciência nacional, mostra estudo

Texto dos pesquisadores adaptado para o Jornal da USP

O setor público brasileiro, nas esferas federal, estadual e municipal, contratou pelo menos R$ 23 bilhões em licenças de software, nuvem, segurança digital e softwares de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) entre 2014 e 2025 – valor superior ao orçamento de diversos Ministérios federais. A estatística é revelada pelo estudo Contratos, Códigos e Controle: A Influência das Big Techs no Estado Brasileiro (leia no Acervo do Projeto Brasil), realizado por pesquisadores da USP e da Universidade de Brasília (UnB). Apenas entre junho de 2024 e junho de 2025, o gasto com produtos tecnológicos internacionais superou R$ 10,35 bilhões, valor que cobriria por um ano o pagamento de bolsas a todos os 350 mil mestrandos e doutorandos do País.

“A escolha revela uma inversão de prioridades que compromete o futuro do País. Não faz sentido o Brasil gastar bilhões de reais em contratos com fornecedores estrangeiros de tecnologia enquanto nossas universidades e centros de pesquisa operam com orçamentos apertados há décadas”, afirma Ergon Cugler, coordenador do estudo, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV) de São Paulo e integrante do Grupo de Estudos em Tecnologia e Inovações na Gestão Pública (Getip) da USP.

 

“Estamos enviando dinheiro público para sustentar a inovação em outros países, quando poderíamos investir esse mesmo valor aqui, fortalecendo a capacidade científica nacional, gerando empregos qualificados e desenvolvendo soluções tecnológicas próprias.”

O setor público brasileiro contratou pelo menos R$ 23 bilhões em TIC entre 2014 e 2025, sem contar sobreposições nem dados não padronizados, sendo R$ 10,35 bilhões apenas no último ano. A análise das bases ComprasNet e Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP) permitiu estimar esse valor piso, revelando a dimensão dos investimentos em tecnologia estrangeira, ainda que o número real possa ser significativamente maior devido à fragmentação das bases da União e inconsistência dos dados. O trabalho mostra que com a quantia já destinada à aquisição de tecnologia estrangeira, nos últimos dez anos, seria possível construir e inaugurar pelo menos 86 data centers de alto padrão no Brasil.

A pesquisa também estima que o valor de R$ 10,35 bilhões é suficiente para pagar bolsas a todos os 350 mil pós-graduandos do País durante um ano inteiro, considerando 100 mil doutorandos a R$ 3.300 mensais e 250 mil mestrandos a R$ 2.100 por mês, segundo os valores da Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Em outra comparação feita no estudo, esse mesmo valor manteria o funcionamento da UnB, com todos os custos operacionais, de corpo docente e demais previsões no orçamento, por até quatro anos e meio.

Demanda pública como motor de desenvolvimento

No recorte do atual mandato, entre janeiro de 2023 e junho de 2025, as três esferas do setor público brasileiro contrataram R$ 5,97 bilhões em licenças de software, R$ 9 bilhões em soluções de nuvem e R$ 1,91 bilhão em segurança digital. O estudo mostra que quatro grandes empresas lideram as contratações públicas federais de tecnologia, com Microsoft, Oracle, Google e Red Hat concentrando volumes bilionários. A Microsoft sozinha aparece com R$ 3,27 bilhões no ComprasNet, sendo R$ 1,65 bilhão apenas no primeiro semestre de 2025. No PNCP, Oracle (R$ 1,02 bilhão), Google (R$ 938 milhões) e Red Hat (R$ 909 milhões) dominam os contratos desde 2022. Licenças de softwares da Microsoft foram negociadas a R$ 3,27 bilhões nas três esferas, sendo R$ 1,65 bilhão só no primeiro semestre de 2025. Serviços de nuvem da Oracle somaram R$ 1,02 bilhão, seguido do Google, com serviços vendidos a R$ 938 milhões, e Red Hat, com R$ 909 milhões em serviços vendidos.

Os pesquisadores ressaltam que esses serviços, licenças e softwares, em boa parte, são negociados por CNPJs de terceiros, o que demonstra a existência de um mercado especializado em intermediação de licenças de software para o setor público. “Cada contrato fechado com uma multinacional é uma porta fechada para startups brasileiras, institutos públicos e redes de universidades que já têm competência técnica para entregar soluções de ponta”, aponta Cugler. “Estamos perdendo a chance de transformar demanda pública em motor de desenvolvimento. A tecnologia comprada de fora não volta em forma de emprego, renda ou autonomia. A tecnologia feita aqui dentro, sim.”

Imagem: Reprodução do artigo

Para ele, o que está em jogo não é só o valor dos contratos, mas o tipo de país que queremos construir. “O Brasil tem infraestrutura, cérebros e rede pública qualificada para oferecer alternativas robustas”, enfatiza. “Mas, para isso acontecer, é preciso uma decisão estratégica: investir no que é nosso. Com os mesmos recursos, que hoje sustentam big techs, poderíamos financiar datacenters nacionais, ciência aberta, segurança digital sob jurisdição própria e gerar milhares de empregos qualificados. É uma escolha que pode mudar nossa ciência.”

A pesquisa foi realizada pelo Getip, vinculado ao Observatório Interdisciplinar de Políticas Públicas Prof. Dr. José Renato de Campos Araújo (OIPP), coordenado pelo professor José Carlos Vaz da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, e o Grupo de Trabalho Estratégia, Dados e Soberania do Grupo de Estudos e Pesquisas em Segurança Internacional (Gepsi Data) do Instituto de Relações Internacionais da UnB. O trabalho, assinado por Ergon Cugler, Isabela Rocha, José Carlos Vaz, Camila Modanez e Julia Veneziani está disponível também na versão completa.

 

A reunião do G7 e a Cúpula da OTAN

A REUNIÃO DO G7 E A CÚPULA DA OTAN: DA COMÉDIA À HUMILHAÇÃO*

Por José Luís Fiori

Grupo dos Sete (G7) foi criado em 1975, por iniciativa do presidente francês Valéry Giscard d’Estaing. Reuniu-se pela primeira vez na cidade de Rambouillet, perto de Paris, inicialmente como um G6, só incorporando seu sétimo membro, o Canadá, em 1976. Em 1998, virou G8 com a incorporação da Rússia, que depois foi excluída do grupo, em 2015.

Nos seus primeiros tempos, o G7 se propôs a ser uma reunião informal dos dirigentes dos sete países que eram na época os “mais ricos e industrializados” do mundo. Seu objetivo era discutir informalmente as grandes questões mundiais e, naquele momento em particular, a crise econômica mundial provocada pelo fim do padrão dólar e a primeira grande recessão do pós-II GM. Depois essa reunião se repetiu anualmente, e o G7 foi se transformando – com o avanço do processo de globalização – numa espécie de “comitê central” das grandes potências ocidentais – e mais o Japão – que dominaram a “ordem mundial” durante a segunda metade do século XX.

Quase simultaneamente com a criação do G7, criou-se também o Sistema Swift, que entrou em operação em 1977, com sede em Bruxelas, reunindo os grandes bancos e banqueiros destas mesmas potências, visando facilitar as grandes transações financeiras internacionais. Por cima das fronteiras nacionais, e por trás dos grandes negócios mercantis, este sistema acabou se transformando num “comando econômico central” dessas potências, que tutelaram o processo da globalização financeira depois do fim da Guerra Fria e recolocaram a OTAN na condição de “braço armado” do G7.

Por fim, a partir da década de 90, a reunião anual do Fórum Econômico Mundial de Davos foi escolhida como “parlamento” ou “parlatório” das elites políticas e empresariais de todo o mundo associadas ao projeto da globalização liberal. Deve-se ter claro que em todos estes espaços, foros e instâncias institucionais, os EUA foi sempre a potência dominante, de todos os pontos de vista.

Na segunda década do século XXI, entretanto, depois da grande crise econômica de 2008, da frustração com o insucesso das “guerras sem fim” dos EUA e da OTAN no Oriente Médio, do crescimento exponencial da China e da Índia, e do retorno da Rússia à condição de grande potência militar e energética, todas estas instâncias de gestão do projeto da globalização liberal foram perdendo representatividade e credibilidade. Os países-membros do G7 deixaram de ser os mais ricos e mais industrializados do mundo, e já não há mais razão para que alguns de seus membros sigam fazendo parte deste “comando político” do sistema mundial.

Foi nesse mesmo período de “declínio ocidental” que se formou o grupo do BRICS, que cresceu rapidamente e hoje já possui um PIB maior que o do G7, incluindo quatro das dez maiores economias do mundo (em termos de paridade do seu poder de compra), com 43% do PIB global, 50% das reservas mundiais de petróleo e 60% das reservas globais de gás natural, além de incluir a Rússia na condição de maior potência nuclear do planeta.

No seu primeiro mandato, o presidente Donald Trump deu claros sinais de que já havia compreendido e assimilado essa nova realidade; logo em seguida, o governo democrata de Joe Biden tentou reanimar o projeto de globalização liberal e suas várias instâncias de poder, sobretudo depois do sucesso de sua operação conjunta de derrubada do governo ucraniano, em 2014, por conta de sua resistência ao projeto da União Europeia e da OTAN, de “anexação” da Ucrânia. Esse “ressurgimento”, entretanto, durou pouco e já na reunião do G7 de Tóquio, em 2024, multiplicaram-se os sinais de fragilidade do grupo, ameaçado por uma possível vitória eleitoral de Donald Trump e pelo avanço manifesto da senilidade de Joe Biden.

Nada do que se viu em Tóquio, entretanto, chega aos pés do que aconteceu na reunião anual de 2025, realizada na cidade de Kanaskis, no Canadá, nos dias 16 e 17 de junho, poucos dias após o ataque militar de Israel contra o Irã. Um verdadeiro “bate-cabeças” de todos contra todos, como se estivéssemos assistindo a uma verdadeira “ópera cômica”, a começar com a chegada de seu principal personagem, o presidente americano – com seu indefectível boné de “garotão americano” – e que logo depois de desembarcar na cidade fez duas declarações que caíram como uma bomba no meio dos seus aliados “russofóbicos” do G7 e dos líderes da Comissão Europeia que estavam presentes.

Primeiro, Donald Trump defendeu a reincorporação da Rússia ao grupo, e em seguida expôs sua tese de que a Guerra da Ucrânia não teria ocorrido se Joe Biden não tivesse excluído os russos do G7, uma verdadeira heresia do ponto de vista de seus aliados da EU e da OTAN. Ato seguido, Trump retirou-se da reunião antes do jantar de abertura e confraternização, negando-se a discutir uma tomada de posição conjunta do grupo frente ao conflito do Oriente Médio. Por fim, já a caminho de casa, ridicularizou de forma pessoal e explícita o presidente francês Emmanuel Macron, que já não anda bem das pernas há um bom tempo.

Aliás, desde antes da reunião já era possível antecipar o fracasso do encontro, se tivermos em conta que o líder do grupo, Donald Trump, desde o início de seu governo vem propondo a anexação, aos EUA, do Canadá, que é um dos Estados-membros do próprio grupo, além da Groenlândia, que pertence à União Europeia, que estava presente na reunião. Além disso, o governo Trump declarou e está em plena “guerra comercial” contra todos os seus “aliados” do G7. Por fim, o presidente americano desconheceu solenemente o presidente da Ucrânia, Vladimir Zelensky, que já foi “garoto propaganda” de Joe Biden e da EU, e hoje está transformado numa espécie de “mala sem alça” com o qual a Sra. Ursula Von der Leyen passeia por todas as reuniões, festas ou jantares promovidos pela União Europeia.

Depois disto, ficou irrelevante a declaração final de apoio ao “ataque preventivo” de Israel, elaborada pela Grã-Bretanha, França e Alemanha, que foi divulgada junto com o escandaloso “sincericídio” do primeiro-ministro alemão Friedrich Merz, que declarou que era bom que Israel “fizesse o trabalho sujo” de destruir o Irã em lugar dos europeus. Quatro dias depois, os EUA fizeram o “trabalho sujo” e bombardearam o Irã sem levar em conta o “arrufo” dos europeus soterrados pela onipotência e pelo deboche norte-americano.

Assim mesmo, uma semana depois deste bombardeio, Grã-Bretanha, França e Alemanha ainda tentaram desfazer a péssima imagem deixada pela reunião do G7 do Canadá, transformando a cúpula da OTAN, realizada na cidade de Haia, nos dias 27 e 28 de junho, num novo espetáculo circense, só que agora de absoluta subserviência e humilhação. Desta vez, sob o comando do secretário-geral da OTAN, o holandês Mark Rutte e seus liderados europeus fizeram verdadeiros malabarismos cenográficos e retóricos para não irritar o presidente americano e passar uma imagem fictícia de unidade e coesão interna. Aplaudiram de pé o ataque dos EUA contra o Irã e aprovaram a exigência americana de dedicar 5% dos seus orçamentos aos gastos militares, que na prática serão destinados à compra de armas norte-americanas. E literalmente esconderam o “mala sem alça” do grupo, o presidente Vladimir Zelensky, para que ele não fosse destratado uma vez mais pelo presidente americano.

Mas os parceiros asiáticos da OTAN se negaram à comparecer à esta “pajelança”, e antes mesmo de desembarcar em Haia, Donald Trump já declarou – para pânico dos europeus em geral, e sobretudo de seus pequenos Estados bálticos – que a garantia de defesa mútua consagrada pelo Artigo 5º. do Tratado do Atlântico Norte, assinado em 1948, dependia da interpretação que se fizesse de cada caso. Afirmação que ele mesmo desdiria algumas horas depois que todos se submeteram à sua vontade. Apesar de que todos os governantes europeus saibam hoje que a palavra de Trump varia a cada dia, assim como sabem que sua promessa comum de aumentar os gastos militares só será válida em 2035, quando provavelmente quase nenhum daqueles que assinaram o acordo estarão ainda à frente dos seus governos.

Por fim, e antes mesmo de chegar à Holanda, Donald Trump tornou pública uma carta pessoal do secretário-geral da OTAN, absolutamente humilhante, pelo seu grau de subserviência e bajulação. Nessa carta, Mark Rutte dirige-se ao presidente americano dizendo, textualmente, “parabéns e obrigado por sua ação decisiva, que foi realmente extraordinária, algo que ninguém mais ousou fazer. Isso deixa todos nós mais seguros. Você está voando para outro grande sucesso em Haia esta noite. Donald, você conseguirá algo que NENHUM outro presidente americano em décadas conseguiu fazer. A Europa vai pagar em GRANDE escala, como deveria, e a vitória será sua”. Pano rápido.


Este artigo integra a publicação “África Insubmissa” do Observatório Internacional do Século XXI, uma publicação do Grupo de Pesquisa Poder Global e Geopolítica do Capitalismo do CNPQ/LABEPOG/NUBEA/UFRJ. A íntegra da edição pode ser lida aqui, no Acervo do Projeto Brasil.

Os recursos naturais, a disputa geopolítica e a luta pela soberania africana

Por José Luís Fiori*

África é o segundo maior continente do mundo, com cerca de 1 bilhão e meio de habitantes, ou seja, 18,83% da população mundial. São nove territórios e 57 Estados independentes, divididos em cinco grandes regiões, e é comum separá-las em dois grandes blocos: a África do Norte, predominantemente arábica, e a África Negra ou Sub-Sahariana, ao sul do Sahel. Apesar de suas dimensões geográficas e demográficas, a África produz apenas 5,4% do PIB mundial (em termos de paridade do poder de compra), 2% das transações comerciais globais e captou menos de 2% do investimento direto estrangeiro dos últimos anos.

A independência africana, depois da II Guerra Mundial, despertou grandes expectativas com relação aos seus novos governos de “libertação nacional” e projetos de desenvolvimento, que foram bem-sucedidos – em alguns casos – durante os primeiros tempos de vida independente. Esse desempenho inicial, entretanto, foi atropelado por sucessivos golpes militares (envolvendo, quase sempre, suas ex-metrópoles coloniais) e pela crise mundial dos anos 1970, que atingiu todas as sociedades periféricas, provocando um prolongado declínio da economia africana até o início do século XXI. Na década de 90, depois do fim do mundo socialista e da Guerra Fria, e no auge da globalização financeira, o continente africano ficou praticamente à margem dos novos fluxos de comércio e investimentos globais. E só voltou a crescer nas primeiras décadas do século XXI, assim mesmo de forma extremamente desigual. Nigéria, Egito e África do Sul são os três países mais ricos da África.

A África conta com 25% das reservas mundiais de urânio, mais de 35% do potencial hidroelétrico do mundo e é responsável pelo fornecimento de 15% da produção mineral do planeta, dos quais 20% de diamantes e platina, 50% de cobalto, mais de 30% de ouro e de cromo, e cerca de 20% de manganês e fosfato.

Além disso, a África é hoje uma grande produtora e fornecedora de petróleo para a Europa e a Ásia. E foi graças a essa sua produção energética, e de alguns outros minerais estratégicos, que a economia africana começou a se recuperar a partir de 2001, alavancada pelo crescimento econômico da China e da Índia. Hoje a China é o maior parceiro comercial da África e vem aumentando seus investimentos em infraestrutura, energia e mineração, assim como no caso da Índia, que compete com os chineses em muitos casos, rivalizando e superando em conjunto a Europa e os Estados Unidos, que foram os principais parceiros econômicos do continente africano logo após as independências nacionais.

Nesse novo contexto, adquire enorme importância a incorporação de Nigéria, Egito e Etiópia como países-membros do BRICS, na 15ª Cúpula do BRICS, realizada em Johanesburgo. Estes vieram se somar à África do Sul como “membros plenos”, e a Nigéria e Uganda, que foram convidados como “membros associados” na 16ª. Cúpula do BRICS, realizada na cidade de Kazan, Rússia.

Do lado norte-americano, depois da frustrada “intervenção humanitária” na Somália, em 1993, o presidente Bill Clinton visitou o continente e definiu uma estratégia de “baixo teor” para a África: democracia e crescimento econômico, através da globalização de seus mercados nacionais. Mas após 2001, os Estados Unidos mudaram sua política africana, em nome do combate ao terrorismo e da proteção de seus interesses estratégicos e energéticos, culminando com a criação, em outubro de 2007, do Comando dos Estados Unidos para a África, o AFRICOM, estabelecido em Camp Lamonier, a maior base militar dos EUA na África, na cidade de Djibouti, onde França e China também possuem bases ultramarinas.

Esse aumento da presença militar americana, entretanto, não foi um fenômeno isolado nas duas primeiras décadas do século XXI; pelo contrário, foi acompanhado de perto pela União Europeia e Grã-Bretanha, que mantém uma importante base militar conjunta com os EUA nas Ilhas Chagos, especificamente em Diego Garcia. Por outro lado, a Rússia vem expandindo sua presença africana, com a assinatura de vários acordos de colaboração militar com países da África Negra – em particular da região do Sahel, que se estende da Costa Atlântica até o Mar Vermelho –, envolvendo o projeto de instalação de uma base naval na costa do Mar Vermelho, no território do Sudão.

Mais recentemente, depois da reeleição de Donald Trump, os EUA recolocaram a economia e recursos minerais no topo da sua agenda africana. E Trump promoveu um primeiro acordo de paz entre Ruanda e a República Democrático do Congo, depois de décadas de conflito, que rendeu para os EUA um acesso privilegiado aos recursos minerais do Congo, como no caso dos seus acordos recentes com a Ucrânia. Assim mesmo, este jogo de xadrez econômico e militar tende a se complicar com o avanço da competição e do enfrentamento entre as “potências ocidentais” e os países do BRICS, liderados exatamente, pela China, Rússia e Índia. Uma disputa que relembra a todo momento a ameaça de uma volta à história trágica da dominação colonial da África.

Cabe relembrar que tudo começou exatamente com a conquista portuguesa da cidade de Ceuta, no norte da África, em 1415, seguindo depois pela costa africana, transformando a população negra na principal commodity da economia mundial a partir do século XVI. Depois, de novo, na “era dos impérios”, no final do século XIX, as potências europeias conquistaram e submeteram – em poucos anos – todo o continente africano, com exceção da Etiópia. E agora, já na terceira década do século XXI, há sinais de que a África possa se transformar – uma vez mais – no palco de um novo grande enfrentamento entre as velhas e novas grandes potências do sistema internacional.

É nesse contexto que se deve ler e interpretar a chamada “primavera árabe”, uma revolta social que se alastrou de 2010 a 2015, no chamado “Grande Médio Oriente” (expressão cunhada pela política externa dos EUA), começando pela Tunísia, seguida por Líbia, Egito, Marrocos e Argélia. Foi um movimento que combinou, em todos os casos, a efervescência e a revolta social interna de cada um destes países com o patrocínio e a intervenção externa, direta ou indireta, dos Estados Unidos, visando a derrubada de governos ou a mudança de regimes que haviam sido apoiados ou financiados até então pelas próprias potências ocidentais. A revolta foi reprimida no Marrocos e na Argélia, e foi revertida no Egito, mas se transformou numa guerra aberta no caso da Líbia, com participação direta das forças da OTAN.

Após 2020, um novo “tufão político” sacudiu a África, com uma sucessão de golpes e revoltas militares concentrados na região do Sahel, incluindo países como Mali, Guiné, Chade, Burkina Faso, Níger e Gabão. Foram sete golpes de Estado em apenas dois anos, quase todos com uma linguagem e proposta de ruptura definitiva dos laços neocoloniais que mantiveram esses países ligados e dependentes de seus colonizadores europeus, mesmo após suas independências. E quase todos se propuseram a aumentar seus graus de soberania interna através de um realinhamento internacional, com uma aproximação militar e econômica da Rússia e da China.

Não há dúvida, entretanto, de que o grande momento de ruptura e afirmação da autonomia africana, em particular a África Negra frente aos seus colonizadores brancos e europeus, aconteceu quando o governo da África do Sul, à frente de vários outros países africanos, entrou com ação judicial junto à Corte Internacional de Justiça sediada em Haia, acusando Israel de genocídio da população palestina da Faixa de Gaza. Uma petição judicial de 84 páginas que acusa Israel de haver violado a Convenção de Genebra de 1948, apoiada posteriormente pelos 57 países da Organização dos Países Islâmicos, e pelos 22 membros da Liga Árabe, além dos governos de Turquia, Colômbia, Brasil e Bolívia.

Pela primeira vez na História, um país africano e negro, ex-colônia europeia, se levanta sobre seus próprios pés e toma a iniciativa soberana de acusar Israel, um “país branco e escolhido por Deus”, por crimes contra a humanidade, frente a um tribunal criado e controlado pelas grandes potências colonialistas europeias, as mesmas que criaram e mantêm o Estado de Israel. Um verdadeiro momento revolucionário nas relações entre a África e seus ex-colonizadores, e mais do que isto, um momento revolucionário na história moral do Sistema Internacional e da Humanidade.


* Este artigo integra a publicação “África Insubmissa” do Observatório Internacional do Século XXI, uma publicação do Grupo de Pesquisa Poder Global e Geopolítica do Capitalismo do CNPQ/LABEPOG/NUBEA/UFRJ. A íntegra da edição pode ser lida aqui, no Acervo do Projeto Brasil.

Data centers e meio ambiente: sim, é possível conciliar

Camila Modanez* e Isabela Rocha** 

O Brasil está prestes a lançar sua nova política nacional para data centers (Redata), um movimento estratégico em conformidade com o Plano Brasileiro para IA, que pode redesenhar a infraestrutura digital do país para as próximas décadas, a despeito de questões envolvendo a soberania digital e a exposição do mercado brasileiro ao capital estrangeiro predatório da Big Tech. Mas, junto com a expectativa por mais conectividade, armazenamento e capacidade de processamento, vem também uma pergunta que ecoa com força: é possível expandir a infraestrutura computacional e, ao mesmo tempo, conservar o meio ambiente?

A dúvida é legítima. Enquanto data centers são centrais para a nova economia digital, eles também demandam níveis altíssimos de energia, água e também geram muito calor, impactos que se tornam ainda mais graves perante um cenário de emergência climática e crise hídrica recorrente. A digitalização, assim, avança, mas com ela cresce também o impacto ambiental do mundo digital.

O desafio, então, não se trata em decidir se precisamos ou não de data centers, isso é inevitável em qualquer projeto de desenvolvimento nacional ou anseios por soberania tecnológica. A questão real é como fazer isso de forma responsável, transparente e, principalmente, ambientalmente sustentável.

E, a despeito do ceticismo inicial, a expectativa pode, e mais, deve, ser otimista. Outros países já provaram que é possível expandir infraestrutura crítica com critérios ambientais ambiciosos. Resta saber se o Brasil terá coragem e visão política para seguir esse caminho.

É preciso ressaltar que não há como pensar em futuro digital sem data centers. Eles são o coração invisível da internet, da computação em nuvem, da inteligência artificial, dos serviços públicos digitais e da economia de dados. Toda vez que acessamos um aplicativo, enviamos um e-mail, uma operação bancária online – ou até mesmo compartilhamos um stories no Instagram, estamos utilizando uma fração da capacidade computacional instalada em algum data center, seja ele privado, público, regional ou global.

A tendência é clara: demanda global por capacidade de data center pode mais que triplicar até 2030, impulsionada por tecnologias emergentes como IA generativa, 5G, edge computing e sistemas automatizados. Essas tecnologias, cada uma com especificidades técnicas, convergem para uma maior pressão sobre a infraestrutura digital existente: a IA generativa demanda grande poder computacional para treinar e operar modelos, o 5G amplia exponencialmente a conectividade em tempo real, o edge computing descentraliza o processamento, exigindo múltiplos pontos físicos de dados mais próximos dos usuários, e os sistemas automatizados dependem de operações contínuas, integradas e com alta disponibilidade. Tudo isso exigirá mais infraestrutura física, mais servidores, mais processamento, mais armazenamento, e, consequentemente, mais energia e recursos naturais.

O problema é que os impactos ambientais dessa infraestrutura ainda são pouco discutidos no Brasil. Data centers de médio e grande porte consomem enormes quantidades de energia elétrica e, em muitos casos, água para sistemas de resfriamento evaporativo. Também geram uma quantidade significativa de calor residual, raramente reaproveitado, e de lixo eletrônico, proveniente da obsolescência acelerada dos equipamentos.

Estudos já indicam que a operação de data centers já representa entre 1,5% e 3% do consumo global de eletricidade e tende a crescer de forma contínua. Em regiões com sistemas energéticos dependentes de combustíveis fósseis, isso se traduz diretamente em aumento das emissões de carbono. Em regiões com escassez hídrica, o uso intensivo de água para refrigeração representa uma ameaça silenciosa à segurança ambiental.

Ou seja, os data centers são vitais para a digitalização, mas não podem ser tratados como infraestrutura neutra do ponto de vista ecológico. Sem critérios claros de eficiência, localização e reaproveitamento, o avanço desenfreado dessa infraestrutura pode contradizer os compromissos ambientais que o Brasil assumiu internacionalmente e comprometer metas climáticas de longo prazo.

A boa notícia é que o dilema entre tecnologia e meio ambiente não é inevitável. Diversos países já criaram políticas públicas robustas que conciliam a expansão de data centers com metas de eficiência energética, uso responsável da água e redução de emissões. Não faltam exemplos de como é possível crescer com responsabilidade. O que falta, muitas vezes, é vontade política para adotar esses modelos.

Na União Europeia, por exemplo, data centers com mais de 500 kW de capacidade serão obrigados, desde de setembro de 2024, a reportar publicamente indicadores como PUE (eficiência energética), WUE (uso hídrico), reaproveitamento de calor e percentual de energia renovável. Essa medida visa aumentar a transparência e criar uma pressão regulatória para que o setor adote padrões mais sustentáveis, preparando o terreno para metas obrigatórias nos próximos anos. 

A França foi além: data centers com mais de 1 MW devem, por lei, instalar sistemas de reaproveitamento de calor residual. E aqueles com mais de 500 kW já são obrigados a divulgar publicamente suas métricas ambientais. Além disso, o país vincula benefícios fiscais a metas concretas de eficiência, como a redução do PUE e a reutilização de calor em redes públicas de aquecimento.

Nos Países Baixos, a expansão desordenada foi freada com uma moratória temporária sobre data centers hyperscale até que se definissem critérios mínimos ambientais e urbanísticos. E na Dinamarca, uma reforma recente eliminou o imposto sobre calor residual, incentivando data centers a integrar seu calor excedente aos sistemas de aquecimento urbano, política que já abastece bairros inteiros com energia reaproveitada.

Já em Singapura, uma cidade-estado com espaço físico e recursos naturais limitados, foi adotada uma abordagem centrada em normas técnicas: Lá, só recebe licença para operar quem cumpre o padrão SS 564, baseado em monitoramento rigoroso de consumo, plano de melhoria contínua e compromisso com fontes renováveis. A lógica é simples: eficiência não é opcional, é pré-requisito.

Esses exemplos mostram que não faltam ferramentas técnicas nem jurídicas para alinhar a infraestrutura digital às exigências ambientais do século 21. A pergunta que o Brasil precisa responder agora é: vamos seguir no improviso, sob o risco de agravar a crise climática na região, ou adotar uma política nacional que aprenda com quem já está fazendo certo?

O Brasil tem uma oportunidade histórica de fazer diferente. Ao lançar uma política nacional para data centers, o país pode, e deve, aprender com os exemplos internacionais, evitando repetir o modelo ultrapassado de crescimento sem critérios ambientais. A expansão da capacidade digital é necessária, mas ela precisa ser guiada por parâmetros públicos claros de eficiência, transparência e impacto ambiental mínimo.

Hoje, o país não possui exigências legais específicas de eficiência energética (PUE), uso hídrico (WUE), reaproveitamento de calor (heat reuse) ou fontes renováveis para data centers. Tampouco há uma política de reporte obrigatório dessas métricas, o que dificulta a avaliação do impacto ambiental desse setor e impede o uso de instrumentos fiscais ou regulatórios para premiar quem faz melhor.

Mais do que apenas regular, o Estado brasileiro tem a chance de liderar pelo exemplo, estruturando uma política que combine expansão tecnológica com responsabilidade ecológica, e mostrando que digitalização e sustentabilidade não são caminhos opostos, mas complementares. Essa liderança pode se afirmar tanto em fóruns multilaterais como o BRICS+, a ONU e a OCDE, quanto em espaços técnicos como o Comitê Gestor da Internet, o G20 Digital e a Coalizão de Ministros da Educação da UNESCO, onde o Brasil já possui tradição de protagonismo.

Não há mais espaço para cair em um falso dilema entre desenvolvimento digital e proteção ambiental. O desafio do nosso tempo é justamente fazer ambos ao mesmo tempo, e com urgência. O avanço dos data centers no Brasil é inevitável, e até desejável, desde que esteja ancorado em critérios de eficiência, sustentabilidade e soberania tecnológica.

A nova política nacional de data centers tem o potencial de inaugurar uma nova etapa da digitalização brasileira: mais conectada, mais distribuída, mais limpa e mais justa. Mas isso só será possível se deixarmos de tratar a infraestrutura digital como algo neutro ou inevitável, e passarmos a vê-la como uma peça central do nosso projeto de país, um projeto que precisa ser ambientalmente viável, tecnologicamente soberano e socialmente comprometido. Outros países já mostraram que é possível regular esse setor com inteligência ambiental, metas claras e políticas públicas que recompensam quem inova com responsabilidade. O Brasil pode seguir esse caminho, adaptando-o à sua realidade, aos seus recursos e às suas instituições.

É possível crescer sem destruir. É possível inovar sem esgotar. E é possível, e mais que necessário, fazer do Brasil uma referência em infraestrutura digital com responsabilidade ecológica.

 

* Camila Modanez é pós-graduanda em Estratégia e Liderança Política pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e graduada em Engenharia Mecânica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É integrante do Grupo de Trabalho ‘Estratégia, Dados e Soberania’ do Grupo de Estudos e Pesquisas em Segurança Internacional do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (GEPSI IREL UnB); é também Diretora de Projetos Estratégicos do iBRICS+, Instituto para a Integração Cultural e Desenvolvimento Econômico dos países BRICS+. 

** Isabela Rocha é mestre e doutoranda em Ciência Política pelo Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (IPOL UnB). Atualmente coordena o Grupo de Trabalho Estratégia, Dados e Soberania do Grupo de Estudos e Pesquisas em Segurança Internacional do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (GEPSI IREL UnB) e preside o Fórum para Tecnologia Estratégica dos BRICS+, visando o desenvolvimento de infraestrutura tecnológica integra e soberana no Brasil, no Sul Global, nos países BRICS+, e no mundo.

A ideologia da positividade e a destruição do dissenso: um ensaio dialético

A ideologia da positividade e a destruição do dissenso: um ensaio dialético

Por Reynaldo Aragon

Num tempo em que sorrir virou mandamento, a positividade compulsória se ergue como a mais sutil e devastadora arma do capitalismo: silencia a dor, dissolve o conflito, esteriliza a política. Este ensaio rasga o verniz brilhante do otimismo tóxico para devolver ao dissenso sua dignidade transformadora. Porque só quem ousa dizer não, pode reconstruir o nós.

Vivemos num tempo em que a positividade se ergueu como mandamento absoluto. Ser positivo, sorrir, motivar-se, ressignificar toda dor, converter todo fracasso em oportunidade: eis a cartilha moral da era digital, repetida como oração laica nos corredores corporativos, nas timelines luminosas, nas rodas de conversas empobrecidas pelo vocabulário do coaching. O imperativo da positividade não tolera a recusa, não admite o protesto, não suporta a crítica; é um dogma suave que se inscreve nos corpos e nas mentes como segundo instinto, e, ao mesmo tempo, dissolve o dissenso na espuma anestésica do otimismo.

“A crítica da religião se transforma na crítica do direito, a crítica do direito na crítica da política, e a crítica da política na crítica da economia política.” – Karl Mark

A cultura da positividade não é uma flor, espontânea, brotada do espírito humano contemporâneo: ela é, antes de tudo, um produto histórico, político e econômico. É a forma ideológica específica do capitalismo digital avançado para conter a potência do conflito, para domesticar a negação, para mutilar a imaginação política que ousa sonhar outro mundo. Seu sorriso não é inocente; sua leveza é brutal.

Byung-Chul Han descreveu com precisão a exaustão do sujeito contemporâneo, esmagado pela positividade compulsória. Mark Fisher denunciou a prisão mental do realismo capitalista, onde não cabe alternativa nem esperança. Wendy Brown desnudou a captura neoliberal da esfera pública, onde a cidadania se torna performance e a política vira gestão de si. Cada um desses autores, à sua maneira, apontou a ruína subjetiva e coletiva gerada por um sistema que exige entusiasmo mesmo no abismo.

Mas é ao olhar de Marx e da tradição materialista histórico-dialética que cabe rasgar o véu final: a positividade tóxica não paira sobre as pessoas como névoa moral, mas brota do ventre da exploração capitalista, que precisa impedir a negação radical, precisa sufocar a luta, a rebeldia, a crítica, para garantir a reprodução de sua ordem. Essa positividade é o cimento ideológico que preenche as rachaduras de um sistema podre, e, ao mesmo tempo, anestesia os corpos para aceitarem a dor sem transformá-la em levante.

Este ensaio quer mergulhar nesta engrenagem com a faca afiada do materialismo dialético. Quer rastrear, em cada canto, como a positividade compulsória se construiu como dispositivo hegemônico, servindo ao capital para neutralizar a política e suprimir o dissenso. Quer ouvir os ecos de Han, Fisher e Brown, mas reinscrevê-los na gramática da luta de classes, onde a negação não é doença, mas condição da liberdade.

Sigamos, então, sem medo do conflito porque só o conflito faz a história caminhar.

Marx: ideologia, alienação e a negação negada

No coração do pensamento marxista lateja uma verdade incômoda: toda sociedade de classes forja, ao lado de suas estruturas econômicas, as engrenagens ideológicas necessárias para naturalizar a dominação. Não basta explorar; é preciso convencer o explorado de que sua servidão é justa, inevitável ou até virtuosa. É nesse ponto que a ideologia deixa de ser mera ilusão e se converte em condição indispensável para a reprodução do capital.

Marx, ao desconstruir as engrenagens do capitalismo industrial, revelou que a ideologia não paira como uma nuvem de engano voluntário, mas se entranha na materialidade da vida social, moldando percepções, hábitos, linguagens, afetos. Ao formatar a consciência, a ideologia pacifica a luta, nega a negação, paralisa o potencial transformador que brota da contradição. E se há algo que a história ensina, na leitura dialética, é que a mudança nasce do choque, do antagonismo, do dissenso que se organiza.

A positividade tóxica, nesse sentido, é uma forma ideológica extraordinariamente eficiente. Ao prescrever o otimismo como única via aceitável, ela sequestra o dissenso antes mesmo que este floresça, transformando a dor em falha individual, o fracasso em prova de insuficiência pessoal, e a revolta em desequilíbrio psicológico. Como um anestésico administrado em doses diárias, a positividade bloqueia a percepção da exploração, impedindo que a negação, a recusa, a denúncia, a indignação se articule enquanto força histórica viva.

Alienação, para Marx, não é somente afastamento do produto do trabalho, mas estranhamento de si, do outro e do mundo. O trabalhador, alienado, não reconhece a própria força como força social transformadora. A positividade compulsória amplifica esse estranhamento, pois retira do indivíduo a possibilidade de identificar a raiz estrutural de sua dor, empurrando-o para soluções mágicas, motivacionais, atomizadas, incapazes de tocar na contradição de classe.

E aqui se revela sua função mais perversa: a positividade compulsória não apenas ilude, ela desarma. Porque se toda crítica se transforma em “negatividade”, resta ao indivíduo apenas dobrar-se ao sistema, ainda que este o sufoque. A negação, que seria a centelha da transformação, é rotulada como erro, como vício, como fracasso de caráter. E assim, o capital respira aliviado: sua paz se sustenta sobre a mutilação simbólica do conflito.

Este é o solo fértil onde a positividade germina como dispositivo histórico: não uma patologia espontânea, mas uma necessidade funcional à ordem burguesa. Em cada sorriso imposto, há uma máquina de silenciamento; em cada palavra de motivação, um gesto de legitimação da exploração. Por isso, resgatar Marx significa devolver ao dissenso sua dignidade, restituindo a negação ao seu lugar originário, o de motor da história.

Gramsci: hegemonia, senso comum e consentimento.

Antonio Gramsci nos ensina que o poder capitalista não se sustenta apenas sobre a coerção, mas sobre um pacto profundamente assimétrico de consentimento. Não basta dominar corpos; é preciso conquistar mentes e corações. Essa conquista se dá através da produção de um senso comum, tecido no cotidiano, capaz de fazer parecer natural aquilo que é, na verdade, imposição histórica.

Gramsci chama esse processo de hegemonia: a construção de uma direção cultural, moral e intelectual que legitima a ordem dominante e neutraliza a força potencial do conflito de classes. Ao capturar a imaginação popular, a hegemonia se apresenta como horizonte único, dissolvendo alternativas e marginalizando todo gesto de recusa.

A positividade tóxica é uma engrenagem essencial dessa hegemonia contemporânea. Ela molda sujeitos que internalizam a exploração como falha pessoal e, ao mesmo tempo, celebram a resiliência como virtude suprema. Sob o manto suave de “vencer desafios”, a positividade transforma derrotas coletivas em desafios individuais, e a solidariedade em performance de autoajuda. Assim, o senso comum se estrutura num código afetivo, onde a negação do sistema não cabe, pois o fracasso sempre será culpa de quem não foi suficientemente otimista.

Gramsci nos ajuda a perceber que esse senso comum não surge do nada: ele é trabalhado pacientemente pelos aparelhos privados de hegemonia (escolas, meios de comunicação, igrejas, redes digitais) que propagam valores, narrativas e afetos funcionalmente adaptados ao capital. O otimismo compulsório, nesse quadro, não é apenas um modismo motivacional, mas uma tecnologia política sofisticada para domesticar consciências.

A positividade, assim, reforça o consentimento. Consentimento para aceitar salários degradantes, jornadas extenuantes, vidas precárias, desde que se tenha força para “superar”, para “fazer acontecer”, para sorrir apesar da dor. Consentimento para abdicar da ação coletiva, pois a política se torna sinônimo de negatividade, e a negatividade é crime moral num mundo regido pelo imperativo do entusiasmo.

Gramsci nos oferece, portanto, a chave para decifrar essa positividade como hegemonia afetiva: uma forma de governo dos sentimentos, afinada à lógica neoliberal, que desarma a crítica e fragmenta a solidariedade. E nos lembra, acima de tudo, que somente a ruptura do senso comum, somente a contra-hegemonia forjada na prática política e no conflito organizado, poderá devolver à história a sua energia transformadora.

Byung-Chul Han: a positividade como performance neoliberal.

Byung-Chul Han, com a precisão cirúrgica de quem observa a alma de um tempo, nomeou a era atual como a era do desempenho. Não vivemos mais sob o signo da disciplina que moldava sujeitos obedientes, mas sob a tirania de uma liberdade aparente que exige, paradoxalmente, um desempenho ilimitado. A positividade, nessa ordem, não é apenas um adorno cultural: ela se torna motor da produtividade, uma engrenagem vital para manter o sujeito girando na roda do capital sem questionar a estrutura que o esmaga.

Han descreve o sujeito de desempenho como aquele que se explora voluntariamente, convencido de que toda falha é falta de esforço, toda dor é falta de entusiasmo. Esse sujeito internaliza a positividade como imperativo ético, tornando-se ao mesmo tempo, patrão e escravo de si mesmo. A positividade, nesse contexto, não é mero estado de espírito. É uma técnica de governo das almas.

Mas há um ponto onde Han recua: embora ilumine as patologias do excesso de positividade, depressão, burnout, cansaço crônico, ele não interroga de forma radical sua raiz material. O materialismo histórico-dialético pode avançar justamente onde Han para, ao revelar que o sujeito de desempenho não é produto do acaso, mas resultado de relações sociais e econômicas que exigem flexibilidade, docilidade, hiperdisponibilidade e autogestão. É o capital, em sua fase neoliberal, que precisa dissolver laços de classe, solidariedades históricas e projetos coletivos, substituindo-os por uma ética narcisista e isolada de superação pessoal.

A positividade compulsória, portanto, não brota da alma humana. Brota do capital, que para seguir acumulando, depende de corpos dóceis, mentes anestesiadas, afetos capturados. O não se torna um risco, pois pode travar a engrenagem. O dissenso se torna uma ameaça, pois pode romper o fluxo da mercadoria. Logo, a positividade vira antídoto preventivo contra qualquer embrião de negação.

Han nos oferece, assim, uma análise poderosa do adoecimento social, mas o marxismo nos obriga a ir além: a positividade não adoece apenas, ela explora, pois prolonga a alienação e transforma o sofrimento humano em ativo gerencial. Cada lágrima reprimida, cada medo silenciado, cada crítica anulada serve ao capital, garantindo sua reprodução sem fraturas visíveis.

Em última instância, a positividade neoliberal não é um capricho da subjetividade moderna, mas parte integral da estratégia de hegemonia de um sistema que transforma tudo, até os afetos, em mercadoria. A recusa, por isso, é o primeiro passo para retomar o sentido histórico do humano: resgatar a capacidade de dizer não e, a partir daí, reconstruir a possibilidade de dizer nós.

Mark Fisher: realismo capitalista e a colonização do imaginário.

Mark Fisher cravou na carne do nosso tempo a expressão realismo capitalista, essa sensação sufocante de que não existe alternativa, de que o capitalismo não apenas domina o presente, mas sequestra o futuro e torna impensável qualquer horizonte de transformação. No mundo moldado por esse realismo, a positividade compulsória cumpre um papel sinistro: ela opera como muleta ideológica para suportar um sistema sem sonhos, sem esperança, sem utopias.

A positividade, nesse cenário, não passa de um recurso narcotizante. Ao anestesiar o sofrimento e converter toda angústia em problema de gestão pessoal, ela paralisa a imaginação política, exilando o dissenso para a terra do impossível. Fisher apontou com clareza: a força do capitalismo tardio não está apenas na exploração econômica, mas na captura do imaginário, no bloqueio das alternativas, na destruição da capacidade de desejar outro mundo.

O imperativo do otimismo, disseminado como doutrina de autoajuda, alinha-se perfeitamente a esse projeto de colonização do pensamento. O realismo capitalista precisa que as pessoas se mantenham motivadas, mas jamais indignadas. Precisa que tolerem a precariedade, mas não que a transformem em luta. Precisa que convertam a crítica em fracasso individual, e o fracasso em lição de superação. Assim, a positividade se torna uma das colunas mestras do edifício ideológico que sustenta o “não há alternativa”.

Do ponto de vista marxista, a positividade compulsória serve para naturalizar a exploração, mascarando as contradições estruturais e interditando qualquer faísca de insubordinação. O dissenso é demonizado como negatividade, e a negatividade, por sua vez, como ameaça à própria estabilidade psíquica. Num mundo onde o otimismo vira obrigação, a revolta se converte em patologia, e a recusa em crime moral.

Fisher nos convida, então, a restituir ao imaginário sua potência revolucionária. E o materialismo histórico-dialético nos lembra que o imaginário não brota do nada, mas nasce das condições materiais concretas que o tornam possível. Precisamos recuperar a capacidade de desejar o impossível, pois só assim podemos enxergar que o impossível de hoje é a realidade transformada de amanhã. Romper com o realismo capitalista significa devolver ao dissenso seu lugar legítimo: o de gesto inaugural de um futuro emancipado.

Wendy Brown: vulnerabilidade, neoliberalismo e democracia esvaziada.

Wendy Brown, ao analisar as engrenagens do neoliberalismo, nos adverte sobre um processo ainda mais devastador do que a simples mercantilização da vida: a corrosão da própria ideia de política. Sob o neoliberalismo, a esfera pública vai sendo gradualmente esvaziada, transformada num simulacro de participação onde a cidadania se dissolve na lógica da gestão, e o comum se reduz a uma soma de empreendimentos individuais.

Nesse ambiente, a positividade compulsória ocupa lugar de destaque. Ela converte a vulnerabilidade, que poderia ser percebida como condição compartilhada, portanto, passível de ação coletiva e solidariedade, em falha moral. Cada sujeito, transformado em gestor de si mesmo, passa a carregar não apenas o peso de sobreviver, mas também o de justificar seus próprios tropeços como fraqueza de caráter. O espaço da política, lugar histórico de disputa e conflito, é convertido em vitrine de performances otimistas, onde qualquer expressão de dor se torna inconveniente e qualquer crítica soa como desajuste.

A positividade, ao negar a legitimidade do sofrimento coletivo, atua como operador de fragmentação social. Ela impede a percepção de pertencimento de classe, desfaz laços de solidariedade e bloqueia a construção de um nós capaz de intervir na realidade. Assim, o neoliberalismo se alimenta dessa fragmentação: indivíduos isolados, consumidos pela gestão de si, sem horizonte de transformação, tornam-se presas fáceis para a exploração e a manipulação política.

Wendy Brown nos oferece a chave para entender como esse processo corrói a democracia em sua raiz: sem conflito, sem antagonismo, sem capacidade de dizer não, a democracia se torna espetáculo vazio, ritual inofensivo, incapaz de enfrentar as desigualdades estruturais que a ameaçam. A positividade tóxica, nesse quadro, é aliada perfeita do neoliberalismo, pois transforma cidadãos em performers satisfeitos, sempre sorrindo, sempre resilientes, sempre inofensivos.

O materialismo histórico-dialético, por sua vez, devolve a esses fragmentos a possibilidade de se recompor em força histórica viva. Ele nos recorda que a vulnerabilidade, longe de ser vergonha, pode ser motor de solidariedade, porque expõe a dependência mútua que estrutura toda forma de vida humana. Resgatar a política significa, pois, resgatar o direito de sofrer coletivamente, de transformar essa dor em palavra pública, de erguê-la como bandeira para a ação e a organização.

No lugar da positividade obrigatória, ergue-se, então, a recusa como ato inaugural de reconstrução do comum. O dissenso não destrói a democracia. Ao contrário, a funda. E sem dissenso, resta apenas a solidão gerencial do neoliberalismo, onde cada um afunda em seu próprio sorriso, sem sequer ter a quem pedir socorro.

Articulação dialética: síntese e negação radical

Todas as vozes que ecoaram até aqui, Marx, Gramsci, Byung-Chul Han, Mark Fisher, Wendy Brown, nos ajudam a decifrar a positividade compulsória como uma engrenagem cuidadosamente forjada para proteger o capital de seu maior risco: o risco da negação.

No solo da exploração, a positividade nasce como ideologia funcional, pois impede que a dor se organize em discurso, que o discurso se organize em movimento, que o movimento se organize em práxis transformadora. Se toda angústia vira falha individual, se toda indignação vira negatividade patológica, então não há conflito, e sem conflito, não há história.

O materialismo histórico-dialético nos oferece o gesto mais profundo e corajoso: recusar a naturalização desta positividade como um dado eterno da condição humana. Ele nos obriga a olhar para a positividade não como escolha moral, mas como resultado de processos materiais, históricos e de classe. Nos obriga a perguntar: a quem serve a positividade? E a resposta emerge cristalina, ela serve ao capital, que precisa de corpos dóceis e mentes domesticadas, de afetos domesticáveis e sonhos colonizados.

É nesse ponto que a negação radical se impõe como urgência histórica. Porque negar não é sinônimo de destruição estéril; ao contrário, negar é afirmar a possibilidade de outro mundo. O dissenso é a fagulha que reacende a imaginação política, que resgata a solidariedade como forma de resistência, que restitui à dor coletiva sua dignidade e seu poder.

A positividade compulsória destrói a política ao extirpar o dissenso. Romper esse cerco significa devolver à política sua condição originária de conflito, de disputa, de antagonismo legítimo entre projetos de sociedade. O sorriso imposto pelo capital não é a paz — é a paz dos cemitérios, onde não há vozes, não há histórias, não há sonhos.

Cabe a quem ainda deseja emancipação erguer o não, mas um não dialético: aquele que se levanta não apenas contra, mas também para o comum, para a dignidade, para a liberdade, para a reconstrução de uma humanidade que se recusa a ser reduzida à performance de si.

Eis o desafio que nos resta: restaurar o dissenso como motor da democracia, devolver à negação seu lugar de honra na história, rasgar o véu anestésico da positividade tóxica e resgatar a potência viva do coletivo. Porque só na recusa nasce a possibilidade do novo. E porque, como nos ensinou Marx, a história avança não pela harmonia, mas pela força criadora do conflito.

Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global.