Camila Modanez
Apesar de ser um dos assuntos da vez, com menções cada vez mais frequentes em jornais, relatórios de governo e anúncios corporativos, o conceito de data center ainda é nebuloso para grande parte da população. A maioria das pessoas já entende que eles são importantes, que têm relação com a “nuvem”, com a internet e com o armazenamento de dados, mas poucos sabem, de fato, o que é um data center, como ele funciona ou por que ele está no centro de disputas geopolíticas, socioeconômicas e ambientais no século 21.
Data centers são as infraestruturas responsáveis por manter operante tudo aquilo que hoje está digitalizado: redes sociais, serviços bancários, plataformas de streaming, sites governamentais, ferramentas de inteligência artificial, comércio eletrônico, entre tantos outros. Eles são, nas palavras de estudiosos do campo, os “bunkers da era da informação”: estruturas físicas que tornam possível a virtualidade dos nossos dias.
Mas os data centers não são apenas um símbolo da transformação digital. Eles também são vetores de concentração de poder, de consumo intensivo de recursos naturais e de redefinição do que entendemos por infraestrutura crítica. São, ao mesmo tempo, objetos técnicos e políticos. No caso do Brasil, discutir data centers é discutir soberania, desenvolvimento e justiça socioambiental. E por isso mesmo, compreender o que são, como operam e o que implicam deve deixar de ser um assunto restrito a especialistas.
Mas afinal, o que é um data center?
Data centers são centros de dados que funcionam como “corações” da era digital, bombeando informação constantemente para garantir que sistemas, plataformas e serviços digitais permaneçam disponíveis e seguros. Para isso, contam com uma infraestrutura robusta, composta por:
- Servidores: os computadores responsáveis por armazenar e processar os dados;
- Sistemas de resfriamento: necessários para evitar o superaquecimento dos equipamentos, que operam 24 horas por dia;
- Sistemas de segurança: tanto física (portas blindadas, biometria, vigilância) quanto digital (firewalls, criptografia, redundância);
- Conectividade: conexões de alta velocidade com outras redes e centros de dados, garantindo acesso ágil e contínuo.
Uma analogia útil é imaginar um data center como uma “central elétrica da informação”: em vez de gerar energia, ele gera, organiza e distribui dados: o “combustível” do século 21.
Além da estrutura básica, data centers variam muito em forma e escala. Alguns são pequenos, localizados próximos a centros urbanos para reduzir a latência, os chamados edge data centers; outros são gigantescos, capazes de abrigar centenas de milhares de servidores, os hiperscale data centers, operados por empresas como Google, Amazon e Microsoft. Há ainda os colocation data centers, onde diferentes empresas alugam espaço em um mesmo centro, compartilhando parte da infraestrutura.
Essas diferenças não se limitam ao porte e à finalidade. Existem também diversas “arquiteturas” internas, com variações nos sistemas de resfriamento (a ar, a água, imersão líquida, entre outros), no design dos racks, na estratégia de redundância energética e nas fontes de energia utilizadas.
Compreender essas características é essencial para analisar os impactos, e as promessas, associados aos data centers, especialmente quando se discute sua sustentabilidade e seu papel no desenvolvimento nacional.
Por que consomem tanta energia (e água)?
Data centers operam ininterruptamente, 24 horas por dia, 7 dias por semana. Essa disponibilidade exige que seus servidores estejam sempre ligados, o que gera uma demanda constante de energia, tanto para processar dados quanto para manter a infraestrutura funcionando de forma estável e segura.
Grande parte desse consumo energético não vem dos próprios servidores, mas dos sistemas de resfriamento e da redundância (infraestruturas duplicadas que garantem funcionamento contínuo em caso de falha). Isso significa que manter a temperatura ideal e evitar interrupções é tão custoso energeticamente quanto processar os dados em si.
Para medir a eficiência energética, a principal métrica utilizada é o PUE (Power Usage Effectiveness), que compara a energia total consumida com a energia efetivamente usada pelos servidores. Já no caso da eficiência hídrica, usa-se o WUE (Water Usage Effectiveness), que indica o volume de água utilizado por quilowatt-hora consumido.
O modo como um data center é resfriado tem enorme impacto nessas métricas. Existem diferentes métodos, como resfriamento a ar, a água ou por imersão líquida, e cada um traz seus próprios trade-offs. Sistemas baseados em água tendem a ser mais eficientes energeticamente, mas consomem mais recursos hídricos. Já os sistemas a ar demandam mais energia, mas usam menos água.
Essa lógica, muitas vezes reduzida a números técnicos, não dá conta da complexidade real envolvida. É fundamental considerar também os impactos indiretos, como as emissões associadas à geração de energia elétrica e o uso intensivo de água em regiões de escassez, para avaliar de forma completa os efeitos da expansão dessas infraestruturas.
Por que o Brasil deveria se importar?
O crescimento da demanda por serviços digitais, como computação em nuvem, inteligência artificial e internet das coisas, exige uma infraestrutura robusta para armazenar, processar e transferir grandes volumes de dados. Os data centers são centrais para essa operação, e sua presença nos territórios se torna cada vez mais estratégica.
O Brasil, com seu vasto território, matriz energética majoritariamente renovável e abundância relativa de água em algumas regiões, desponta como um país atrativo para a instalação dessas infraestruturas. Mas essa atratividade também exige cuidado. Se o país não define suas próprias regras e prioridades, corre o risco de se tornar uma colônia digital: um território que hospeda servidores e transfere seus recursos (naturais, humanos e digitais) para o controle de big techs estrangeiras, sem garantir soberania sobre os dados ou sobre a infraestrutura.
Além disso, o argumento de que os data centers trarão emprego e desenvolvimento para o país precisa ser visto com cautela. A maior parte dos empregos gerados se concentra na fase de construção, sendo que a operação cotidiana, em geral, demanda pouca mão de obra e profissionais altamente especializados, muitas vezes estrangeiros ou já alocados nas sedes das empresas.
Ignorar esse debate é perder a chance de definir um projeto nacional para o futuro digital. O Brasil precisa decidir: será apenas o terreno barato e ensolarado para servidores estrangeiros, ou irá construir sua própria rota de soberania e sustentabilidade na era dos dados?
Soberania, sustentabilidade e o futuro dos data centers no Brasil
A chegada de mais data centers ao país não pode ser tratada apenas como investimento estrangeiro ou modernização da infraestrutura digital. Trata-se, antes de tudo, de uma decisão política: quem controla os dados, com quais regras e a que custo ambiental? A expansão dessas infraestruturas impacta diretamente os recursos naturais, o sistema elétrico e o território, e, por isso, precisa ser debatida de forma transparente e orientada por critérios públicos claros.
A regulação será decisiva nesse processo. O Brasil ainda está dando seus primeiros passos na definição de parâmetros para a instalação e operação de data centers. A Medida Provisória que criou o REDATA (Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center no Brasil) traz elementos promissores, como a exigência de uso de energia limpa e a introdução de indicadores ambientais. Mas ainda falta robustez: não há metas para eficiência energética, nem clareza sobre alguns critérios de sustentabilidade dos projetos incentivados.
Se o REDATA for tratado apenas como um atrativo fiscal, sem exigir contrapartidas reais, o país corre o risco de abrir mão da sua soberania digital em troca de promessas infladas de desenvolvimento. Por outro lado, se for aprimorado como uma política de Estado, com foco em sustentabilidade, eficiência e distribuição territorial, pode se tornar um marco para posicionar o Brasil como protagonista em uma transição digital justa.
O futuro dos data centers no Brasil ainda está em aberto. A forma como regulamos hoje essas infraestruturas definirá se elas serão motores de uma transformação soberana e ambientalmente responsável, ou se representarão mais um capítulo de dependência tecnológica e exploração de recursos.