Terras Raras: a corrida contra o tempo para o Brasil

Debate reúne geólogos e especialistas para apontar limites, riscos e caminhos para superar o papel de exportador de matéria-prima.

Como o Brasil pode transformar suas reservas minerais de terras raras em soberania nacional e autonomia tecnológica? A geóloga, pesquisadora e ex-reitora da UnB, Márcia Abrahão, trata de responder a este questionamento com uma equipe de especialistas convidados na série especial Terras Raras, do Projeto Brasil, lançado no Youtube.

O atual diretor-presidente do Serviço Geológico do Brasil (SGB/MME) Valdir Silveira e o doutor em geologia Nilson Francisquini Botelho (UnB/Universidade de Paris) destacaram o potencial estratégico do Brasil no setor, sua importância para a soberania nacional e a transição energética global. 

O país possui uma das maiores reservas mundiais desses minerais, essenciais para tecnologias de ponta como semicondutores, turbinas eólicas e veículos elétricos. Especialistas defendem que o Brasil deve superar o estágio de exportador de matéria-prima para dominar o ciclo tecnológico completo, investindo em pesquisa e purificação. Eles ressaltaram, ainda, a necessidade de políticas públicas integradas que fortaleçam instituições como a CPRM e a Universidade de Brasília (UnB).

Silveira afirma que o Brasil ocupa a segunda ou terceira posição mundial em reservas de terras raras. Ele destaca que o país possui diversidade e complexidade geológica em estados como Goiás, Amazonas, Roraima e no litoral, o que garante fertilidade para depósitos de classe mundial.

O especialista recorda que, nos anos 80, o Brasil possuía uma cadeia de valor de terras raras e tecnologias de processamento mais evoluídas que as da China. 

Contudo, uma decisão política no início dos anos 90 (governo Collor) interrompeu os investimentos por considerar o mercado pequeno na época, o que ele classifica como um “grande erro” que agora exige uma corrida contra o tempo para recuperar o domínio tecnológico.

Desafios a superar

Como uma das principais representações do setor, Valdir Silveira afirmou que Serviço Geológico do Brasil conta com apenas 277 geólogos e hidrólogos para todo o país, um número até dez vezes menor do que o de países como China e Austrália. 

Ele defende o uso de aerogeofísica profunda para saltar etapas de mapeamento e o fortalecimento do Plangel (plano de 10 anos para minerais da transição energética).

Silveira posiciona-se contra a criação de novas empresas estatais específicas para cada mineral (como uma “empresa de terras raras”) ou legislações isoladas. 

Para ele, o Brasil já possui os órgãos necessários — SGB (pesquisa), ANM (regulação) e CETEM (tecnologia mineral) — e o que falta é dar recursos, pessoal e condições de trabalho para que essas instituições atuem de forma integrada com as universidades.

Nilson Francisquini Botelho, professor titular da Universidade de Brasília (UnB) e especialista em geologia com doutorado pela Universidade de Paris, oferece uma perspectiva científica e estratégica sobre o papel das terras raras no Brasil. Ele explicou que das 17 terras raras, ele destaca que apenas quatro elementos são realmente vitais devido ao seu alto valor e demanda: praseodímio, neodímio, disprósio e térbio. 

Botelho destacou o potencial dos depósitos de argila iônica e a necessidade de conhecimento técnico para transformar reservas em produção real. Segundo ele,  esses depósitos são mais fáceis de explorar e são os únicos que contêm abundância de terras raras pesadas (disprósio e térbio), que atualmente são monopólio da China.

“Otimismo exagerado”? A realidade brasileira

Contudo, Botelho alerta para o otimismo exagerado sobre as reservas brasileiras (estimadas em 21 milhões de toneladas). Ele afirma que o Brasil ainda está em estágio inicial e muitas das reservas registradas são de depósitos complexos e de difícil exploração tecnológica, e o que é realmente explotável a curto e médio prazo é uma fração bem menor do total.

Em sua participação na série especial, Adão Villaverde, membro do Conselho de Inovação da FIERGS e detentor do mérito científico brasileiro, aborda o tema das terras raras e minerais críticos sob a ótica da geopolítica e da soberania nacional.

Para ele, esses recursos não são apenas matérias-primas, mas “ativos intangíveis da inovação” e do conhecimento, fundamentais para que o Brasil alcance independência científica e tecnológica.

Ele ressalta que potências como a China e os Estados Unidos (através do Chips Act) estão investindo centenas de bilhões de dólares para garantir a hegemonia nesse setor. O especialista enfatiza que não basta possuir o minério; é preciso dominar o conhecimento técnico-científico para realizar o processamento completo.  

Villaverde enfatiza que a mineração deve ocorrer sob um rigoroso rastreamento socioambiental para garantir o desenvolvimento sustentável e a autonomia geopolítica frente à disputa entre China e Estados Unidos.

O pesquisador é um forte defensor das empresas públicas como indutoras de desenvolvimento. 

Ele cita a CEITEC (semicondutores) como exemplo de instituição que cria “massa crítica” e forma profissionais altamente qualificados que, muitas vezes, acabam suprindo o setor privado. 

Assista aos dois episódios da série especial Terras Raras, com Márcia Abrahão:

Projeto Brasil lança série especial sobre Terras Raras e soberania brasileira na TV GGN

A série propõe uma reflexão sobre a importância estratégica desses minerais na transição energética e nas disputas geopolíticas.

O Projeto Brasil apresenta a série especial “Terras Raras: soberania, energia e futuro”. A série é conduzida pela geóloga e pesquisadora da UnB, Márcia Abrahão, e reúne especialistas de diferentes áreas para discutir os desafios e oportunidades do Brasil diante dessa agenda estratégica.

A nova série de entrevistas da TV GGN, produzida para o Projeto Brasil estreia nesta semana, às 17h.

Os programas são comandados pela geóloga e pesquisadora Márcia Abrahão, ex-reitora da da Universidade de Brasília (UnB), que recebe especialistas de diversas áreas do conhecimento para debater o papel do Brasil na exploração e no uso das Terras Raras, um conjunto de 17 elementos químicos essenciais para tecnologias como baterias, turbinas eólicas, veículos elétricos e equipamentos de alta precisão.

Os episódios vão ao ar diariamente às 17h e abordam diferentes dimensões do tema:

O que são Terras Raras e por que ganharam importância mundial: A Agenda de Pesquisa no Brasil (Episódio 1): com Márcia Abrahão (UnB), Nilson Francisquini Botelho (UnB) e Valdir Silveira (Diretor-presidente interino do Serviço Geológico do Brasil – SGB/MME).

A centralidade das Terras Raras na disputa geopolítica contemporânea (Espisódio 2): com Márcia Abrahão (UnB) e Diógenes Breda (economista, UFU).

Caminhos para uma política soberana de Terras Raras no Brasil: oportunidades, desafios e estratégias (Espisódio 3): com Márcia Abrahão (UnB) e Adão Villaverde (PUC-RS).

Terras Raras e transição energética: implicações para o desenvolvimento econômico do Brasil e as mudanças climáticas (Episódio 4): com Márcia Abrahão (UnB) e Rosana Santos (Instituto E+ Transição Energética).

A proposta da série é contribuir para o debate público sobre como o Brasil pode desenvolver uma política soberana de Terras Raras, conectando pesquisa científica, desenvolvimento industrial e sustentabilidade ambiental.

Assista aos episódios:

Acordo Mercosul–UE pode aprofundar fragilidade da indústria brasileira, alertam especialistas

O acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia (UE), apresentado como marco diplomático após mais de duas décadas de negociações, pode aprofundar a fragilidade estrutural da indústria brasileira caso não venha acompanhado de uma política industrial articulada, agressiva e de longo prazo. O alerta foi feito por especialistas no programa especial do Projeto Brasil, transmitido na TV GGN, que discutiu os impactos econômicos, produtivos e geopolíticos do tratado.

Segundo as professoras Marta Castilho, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Miriam Saraiva, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), o acordo explicita uma assimetria estrutural entre os dois blocos. Enquanto a União Europeia opera com uma base industrial sofisticada, diversificada e tecnologicamente avançada, o Mercosul permanece concentrado em exportações agrícolas e minerais, o que eleva o risco de reprimarização da economia.

O acordo tende a reforçar um padrão clássico Norte-Sul, em que exportamos produtos primários e importamos bens de maior valor agregado”, afirmou Castilho. Para ela, sem instrumentos de defesa e investimentos produtivos coordenados, o Brasil corre o risco de aprofundar sua trajetória de desindustrialização.

Indústria sob pressão

Entre os setores mais vulneráveis estão os segmentos químico, farmacêutico, automobilístico, de máquinas e equipamentos e de bens de capital, justamente aqueles com maior densidade tecnológica e hoje dependentes de proteção tarifária para competir. Segundo Castilho, a redução dessas barreiras pode ser “perniciosa” para cadeias produtivas estratégicas.

No setor automotivo, por exemplo, há o risco de “arbitragem de produção”: empresas europeias com fábricas no Brasil podem concluir que é mais vantajoso produzir na Europa e exportar ao Mercosul, em vez de manter plantas industriais locais.

Outro ponto sensível envolve os minerais críticos, como o lítio. O acordo limita a imposição de impostos sobre a exportação desses recursos, o que, segundo Castilho, “desestimula o beneficiamento industrial” e empurra países como Brasil e Argentina para o papel de fornecedores de matéria-prima na transição energética global.

Agronegócio: ganhos aquém do esperado

Embora o agronegócio brasileiro tenha sido historicamente um dos principais defensores do acordo, os ganhos concretos ficaram abaixo das expectativas. Setores agrícolas europeus, especialmente na França, resistiram fortemente à abertura, resultando em cotas reduzidas e concessões mais restritas do que o inicialmente previsto.

No Brasil, segmentos como o vinícola se preparam para enfrentar concorrência direta de produtos europeus, com queda expressiva de tarifas. Segundo Saraiva, esses setores tendem a aceitar a abertura e, em contrapartida, pressionar o governo por políticas de competitividade, como redução do Custo Brasil e melhorias em logística e financiamento.

Compras públicas como instrumento de defesa

Apesar do cenário adverso, o Brasil conseguiu negociar exceções relevantes no capítulo de compras governamentais. Áreas estratégicas, como o Sistema Único de Saúde (SUS), ficaram fora da abertura irrestrita, preservando o poder do Estado de direcionar licitações para estimular a produção nacional.

Foi uma das partes mais difíceis da negociação”, explicou Saraiva. Segundo ela, enquanto a União Europeia defendia abertura total, o Brasil adotou postura protetiva, especialmente após renegociar pontos flexibilizados na versão assinada em 2019, durante o governo Jair Bolsonaro.

O resultado permite que União, estados e municípios mantenham áreas protegidas, usando o poder de compra pública como instrumento de política industrial, uma das poucas ferramentas diretas ainda disponíveis em um contexto de abertura comercial.

Continuidade sob risco

Outro desafio estrutural é a instabilidade das políticas industriais no Brasil. Para Saraiva, a continuidade depende menos dos governos e mais do engajamento do próprio setor privado.

O setor beneficiado precisa agir como força de veto contra retrocessos”, disse, citando o papel da Confederação Nacional da Indústria (CNI) ao barrar tentativas de desmonte da Tarifa Externa Comum do Mercosul durante o governo Paulo Guedes.

Sem esse compromisso, avalia, qualquer avanço tecnológico obtido nos anos de transição pode ser revertido por mudanças políticas, transformando o acordo em mais um episódio de abertura sem contrapartida produtiva.

Geopolítica e rearranjo global

Além dos efeitos econômicos, o acordo tem peso estratégico em um cenário de fragmentação do comércio internacional e retração do multilateralismo. Para Saraiva, trata-se de um reposicionamento do Mercosul diante da crescente rivalidade entre Estados Unidos e China.

A União Europeia está bastante fragilizada frente às pressões norte-americanas, especialmente em segurança e defesa”, afirmou. “Esse não é apenas um acordo comercial, é um acordo de associação interregional, que inclui cooperação política e tecnológica.”

Ela citou como precedente a parceria entre Brasil e Suécia no programa dos caças Gripen, exemplo de transferência tecnológica viabilizada por acordos estruturados de cooperação.

Entre desenvolvimento e dependência

Para Castilho, o sucesso ou fracasso do acordo dependerá diretamente da capacidade do Estado brasileiro de articular política comercial, industrial e tecnológica. Sem isso, o tratado pode se converter em uma abertura de mercado assimétrica, com efeitos duradouros sobre a soberania produtiva.

O acordo não pode ser visto como um fim em si mesmo”, resumiu. “Ele precisa ser tratado como uma ferramenta dentro de um projeto nacional de desenvolvimento.

O risco, caso contrário, é consolidar um modelo econômico baseado na exportação de commodities e na importação de tecnologia.