Argentina: Salários em queda

Silvia Portela 

Este texto do Página 12 mostra as péssimas condições que enfrentam os argentinos diante da política econômica criminosa de Milei, Nem mesmo o principal sindicato argentino, o Sindicato dos Comerciários consegue repôr os salários corroídos pela inflação. Com o grande aumento do trabalho precário e informal no país é possível imaginar a terrível situação da maioria dos trabalhadores argentinos. 

O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto do Página 12, o conhecido periódico argentino.

A âncora imposta pelo Governo afundou o poder de compra

Os salários diminuíram na maioria dos sindicatos  

Em novembro, registrou-se uma queda real média de 4,5% em 80% dos acordos coletivos.  

Por Mara Pedrazzoli, publicado em 17 de janeiro de 2026  

Em 2025, o Governo estabeleceu diretrizes salariais rígidas e congelou os aumentos em torno de 1,5%, insuficientes para compensar a alta dos preços. Como resultado, em novembro, o salário médio nos principais acordos coletivos havia acumulado uma perda real de 4,5% em comparação com o início do ano. A queda na renda foi generalizada e teve impacto direto no consumo e na atividade econômica interna. Na prática, os acordos coletivos atuaram como âncora para um processo de desinflação que acabou fracassando, levando a quedas persistentes nos salários reais no setor privado — uma dinâmica que se aprofundou nos meses seguintes e com a aceleração da inflação que marcou o final do ano.  

Diante da imposição, pelo governo, de uma diretriz salarial excessivamente exigente — com aumentos mensais de 1,5% entre julho e novembro, resultando em uma significativa perda do poder de compra —, as negociações tiveram que ser reabertas em dezembro e janeiro com aumentos maiores. “A situação atual é semelhante à que ocorreu após a suspensão do controle de capitais”, observa Federico Pastrana, diretor da CP Consultora e autor de seu relatório mais recente.  

A reabertura da negociação coletiva revelou que a estrutura salarial oficial era insustentável diante da alta dos preços e forçou uma correção, ainda que tardia, de uma política que corroía a renda. 

No início de 2025, o governo havia pressionado por negociações abaixo de 2% ao mês, mas a disparada inflacionária em março e abril e a consequente queda real dos salários forçaram um afrouxamento das diretrizes. Posteriormente, com a desaceleração dos preços em maio e junho, o governo voltou a endurecer as diretrizes salariais. Essa oscilação nas diretrizes salariais revelou uma estratégia errática, sujeita ao ambiente inflacionário, que transferiu o custo do ajuste para os salários.  

As diretrizes salariais ganharam novo fôlego em dezembro e janeiro, mas a aceleração dos preços no final de 2025 atingiu tal magnitude que os novos acordos não conseguiram compensar a queda acumulada. Segundo dados da consultoria, em novembro de 2025, o salário médio sob os principais acordos coletivos de trabalho havia acumulado uma perda real de 4,5% em comparação com o início do ano. Assim, mesmo com acordos mais favoráveis ​​no final do ano, os salários reais ainda não haviam se recuperado.  

Nesse sentido, como alerta Pastrana, “a política salarial está em suspenso”. Diante das quedas ininterruptas, nas negociações coletivas retomadas em dezembro e janeiro, foram alcançados aumentos salariais mais expressivos, mas os índices exorbitantes de inflação mensal estão impulsionando uma tendência de estagnação que pode persistir. “O componente político (reforma trabalhista) e o desempenho do emprego e da inflação serão fatores decisivos na evolução dos salários nos próximos meses”, conclui o relatório. Além disso, uma análise dos diversos Acordos Coletivos de Trabalho revela que a queda em relação à inflação foi generalizada. “Nos últimos cinco meses comparados (entre agosto e dezembro de 2025), apenas 20% dos setores conseguiram aumentar os salários reais em relação ao mês anterior”, afirma o CP.  

Isso significa que uma pequena fração dos sindicatos obteve uma melhora relativa na renda, enquanto a grande maioria viu suas condições salariais piorarem. Nesse sentido, o cenário “frouxo” do mercado de trabalho desempenha um papel fundamental: com suspensões, férias antecipadas, demissões e fechamento de empresas, a possibilidade de negociar aumentos salariais é limitada.  

A queda na renda também se reflete em outros indicadores salariais, além dos principais acordos coletivos. Segundo o relatório da CP Consultora, o Índice de Salários (IS) do Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC) apresentou queda real de 0,2% em outubro, pelo segundo mês consecutivo.  

Da mesma forma, o salário médio no Sistema Integrado de Pensões da Argentina (SIPA), divulgado pelo Ministério do Trabalho, registrou queda real mensal de 0,9% em novembro, marcando seu terceiro declínio consecutivo. Em conjunto, esses dados confirmam que a deterioração dos salários reais é um fenômeno generalizado e persistente que continua a corroer o poder de compra dos trabalhadores.  

Por outro lado, por setor, constata-se que as negociações coletivas são mais heterogêneas do que eram há alguns meses. “Os percentuais acordados e a incorporação de valores fixos apresentam um cenário mais diverso”, o que se reflete no aumento do coeficiente de variação, que subiu de 55% em agosto para 85% em outubro. As diferentes realidades setoriais também se traduzem em acordos mais diversos.  

Especificamente, no caso do acordo coletivo do Comércio, descrito no relatório da CP, o maior do país e frequentemente utilizado como referência para os demais, após seis meses de aumentos mensais não cumulativos de 1%, o último acordo assinado (dezembro) estipula apenas a incorporação de um valor fixo extraordinário de 60.000 pesos. Isso não compensa a perda anterior e, sem qualquer aumento percentual daqui para frente, promete rápida erosão de seu valor nos próximos três meses.  

“A incapacidade de estabelecer um aumento percentual no acordo coletivo mais importante do país é sintoma da falta de uma diretriz salarial clara”, afirmam.  

A análise dos diversos acordos coletivos de trabalho também mostra que, ao contrário da visão tradicional que equipara mecanicamente a inflação mais baixa a contratos cada vez mais longos, o processo atual é lento. Os acordos aumentaram sua duração apenas timidamente, de uma média de 3,2 meses em agosto para 3,6 meses em dezembro de 2025. 

Este texto foi traduzido do espanhol com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações.. As opiniões expressas são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente as visões do ODTI. 

Pressão de Trump sobre Venezuela expõe fragilidade regional e disputa por minerais críticos

A escalada de pressões dos Estados Unidos sobre a Venezuela, sob o governo de Donald Trump, não é um episódio isolado de sua política externa agressiva, mas parte de uma disputa global por recursos estratégicos, do petróleo às terras raras, que pode redesenhar o tabuleiro de poder na América do Sul. O alerta foi feito por especialistas em geopolítica, energia e mineração em debate promovido pelo Projeto Brasil, na TV GGN, que reuniu a pesquisadora Astrid Aguilera Cazalbon, pesquisadora do Grupo de Estudos sobre Segurança Energética (GESENE/UFPB), e o professor Fernando Landgraf, da Escola Politécnica da USP. [Assista a íntegra no fim da matéria]

Segundo os analistas, a investida contra Caracas expõe não apenas a vulnerabilidade venezuelana, mas a fragilidade de toda a arquitetura regional de integração e defesa de recursos naturais. Em paralelo, escancara o vazio de uma política brasileira consistente para terras raras, minerais críticos para a indústria de alta tecnologia, em um momento de reorganização das cadeias globais.

Pressão sobre a Venezuela e risco sistêmico

Astrid Aguilera avalia que a estratégia de Washington mira diretamente o controle de recursos energéticos e infraestruturas críticas, com efeitos que extrapolam as fronteiras venezuelanas. “Qualquer processo de ataque, mesmo que pareça isolado em um país, representa um ataque à soberania de todos os outros países da região e do subcontinente como um todo”, afirmou.

Na leitura da pesquisadora, a ofensiva de Trump contra Caracas configura “um ataque direto à nossa soberania e à estabilidade da região”, com potencial de deflagrar conflitos de maior escala. O temor é que disputas em torno de petróleo e gás acabem deslocadas para áreas sensíveis, como a margem equatorial brasileira, ampliando riscos à segurança energética regional.

O debate destacou que, historicamente, episódios de intervenção ou sanções severas contra países produtores não se restringem ao plano diplomático: tendem a impactar fluxos comerciais, investimentos, cadeias de abastecimento e até infraestruturas físicas, fatores que, em um continente interdependente, reverberam além das fronteiras nacionais.

Silêncio institucional e paralisia regional

Apesar da gravidade do cenário, Astrid apontou a ausência de posicionamentos públicos por parte de organismos que deveriam liderar respostas coordenadas. “Hoje faz muita falta ter instituições fortes que consigam construir uma posição conjunta em defesa dos nossos recursos”, disse, ao citar o esvaziamento de instâncias como a União de Nações Sul-Americanas (UNASUL).

Entidades técnicas voltadas à integração energética, como a Organização Latino-Americana de Energia (Olade), a Associação Regional de Empresas de Petróleo e Gás (Arpel) e a Comissão de Integração Energética Regional (CIER), também não apresentaram manifestações formais contra ataques à infraestrutura ou à soberania energética venezuelana.

O Mercosul, que em 2018 se pronunciou sobre a crise humanitária no país, tampouco divulgou declaração recente sobre o agravamento do quadro político e geopolítico. O mesmo ocorre com o Consenso de Brasília, criado em 2023, apesar de a Venezuela integrar o bloco.

Para os especialistas, essa inércia reflete divergências políticas internas e a dificuldade de construir consensos mínimos em um cenário de fragmentação regional, agravado pelo distanciamento da Argentina do atual governo Javier Milei em relação aos mecanismos de integração sul-americana.

Terras raras: corrida global, política nacional ausente

Enquanto a geopolítica do petróleo volta ao centro das tensões internacionais, outro eixo estratégico ganha força: as terras raras, grupo de 17 elementos químicos essenciais à produção de motores elétricos, turbinas eólicas, equipamentos médicos, mísseis, satélites e chips avançados. Apesar de deter algumas das maiores reservas do mundo, o Brasil segue sem uma política estruturada para o setor e permanece majoritariamente como exportador de matéria-prima.

“Não existe hoje uma política de terras raras no Brasil. O que existe é a possibilidade de qualquer empresa, inclusive estrangeira, deter áreas de mineração no país”, afirmou Fernando Landgraf.

Segundo o professor, todos os projetos em andamento estão vinculados a capitais internacionais, sobretudo australianos e canadenses, em parte porque investidores nacionais se afastam de iniciativas de longo prazo diante do custo elevado do crédito. “Com a taxa de juros nesse patamar, o capital brasileiro não tem apetite para esse tipo de investimento”, disse.

Landgraf observa ainda que parte desses agentes atua de forma especulativa, adquirindo direitos minerários sem compromisso imediato com produção, tecnologia ou agregação de valor. “Muitos são aventureiros ou especuladores que só querem valorizar a área para depois vender”, afirmou.

Exportação primária e dependência tecnológica

Um dos principais riscos, segundo os especialistas, é a repetição do padrão histórico de exportação de matéria-prima sem beneficiamento local. Landgraf citou o projeto “Clara” como exemplo: embora avançado do ponto de vista minerário, prevê que a separação dos minerais, etapa mais complexa e tecnologicamente sofisticada, seja realizada nos Estados Unidos, com financiamento do governo americano.

Você exporta o minério e importa o produto de alto valor agregado”, disse o pesquisador, ao apontar que essa dinâmica perpetua a dependência tecnológica e bloqueia o desenvolvimento de uma indústria nacional de ímãs permanentes, componentes-chave da transição energética.

Hoje, iniciativas brasileiras concentram-se em esforços pontuais, como o laboratório-fábrica do SENAI em Minas Gerais e pesquisas no CTEN e no CDTN, ainda restritas à escala experimental. A separação dos 17 elementos das terras raras, destacou Landgraf, permanece um gargalo tecnológico não superado no país.

Risco ambiental e dilemas regulatórios

Outro ponto sensível é o impacto ambiental da mineração de terras raras, sobretudo em regiões vulneráveis. Landgraf alertou para a ausência de estudos robustos sobre os efeitos dessas tecnologias em áreas como Poços de Caldas (MG). “Não sabemos ainda qual é o impacto ambiental real dessas novas rotas de mineração”, disse.

No Congresso, propostas para criar impostos de exportação ou mecanismos de proteção às matérias-primas enfrentam resistência, sob o argumento de que poderiam inviabilizar o surgimento de mineradoras nacionais. O impasse revela, segundo os debatedores, a falta de uma estratégia de Estado capaz de equilibrar soberania, sustentabilidade e desenvolvimento industrial.

Soberania energética e integração em xeque

Para Astrid, a ausência de uma política regional articulada e a dependência crescente de capitais externos colocam em risco a própria ideia de soberania energética coletiva. “A integração energética depende de infraestrutura compartilhada. Um ataque à soberania de um país não fica contido nele, desloca conflitos e vulnerabilidades para os vizinhos”, afirmou.

Na avaliação dos especialistas, sem instituições supranacionais fortes e sem políticas nacionais robustas para recursos estratégicos, a América do Sul tende a seguir como fornecedora de insumos brutos em um mundo cada vez mais competitivo, justamente no momento em que potências disputam petróleo, minerais críticos e cadeias industriais associadas à transição energética e à segurança tecnológica.

O resultado, alertam, é a ampliação da vulnerabilidade externa e a perda de margem de manobra estratégica em um tabuleiro internacional cada vez mais hostil aos países que não controlam suas próprias matérias-primas, tecnologias e cadeias de valor.