A teoria da complexidade econômica para fortalecer a NIB

No contexto do estudo da CEPAL sobre a Nova Indústria Brasil (NIB), complexidade econômica não significa dificuldade tecnológica. Significa algo muito mais amplo: a quantidade e a sofisticação dos conhecimentos, competências e instituições que uma economia consegue combinar para produzir bens e serviços.

É um conceito desenvolvido principalmente pelos economistas César Hidalgo (MIT) e Ricardo Hausmann (Harvard), que parte de uma pergunta simples:

O que um país consegue produzir revela o que ele sabe fazer.

Abaixo um resumo do trabalho, feito por IA

A metáfora do Lego

Imagine que cada tecnologia seja uma peça de Lego.

Uma economia simples possui poucas peças.

Com elas consegue montar apenas objetos simples.

Uma economia complexa possui milhares de peças diferentes.

Ela consegue montar aviões, satélites, medicamentos, semicondutores, inteligência artificial, motores elétricos ou equipamentos médicos.

A riqueza não está em uma única peça.

Está na enorme quantidade de peças diferentes e, principalmente, na capacidade de combiná-las.

O conhecimento está distribuído

Nenhuma empresa domina sozinha todo o conhecimento necessário para fabricar um avião.

São necessários:

  • engenheiros aeronáuticos;
  • metalurgistas;
  • fabricantes de ligas especiais;
  • empresas de software;
  • universidades;
  • laboratórios;
  • certificadores;
  • fornecedores de sensores;
  • logística sofisticada;
  • financiamento;
  • trabalhadores altamente qualificados.

Esse conhecimento encontra-se espalhado por milhares de pessoas e instituições.

A complexidade mede justamente essa capacidade coletiva.

Um exemplo simples

Produzir soja exige conhecimento técnico.

Mas produzir um tomógrafo computadorizado exige:

  • eletrônica;
  • óptica;
  • física;
  • software;
  • inteligência artificial;
  • materiais especiais;
  • certificação sanitária;
  • engenharia mecânica;
  • engenharia elétrica;
  • cadeia global de fornecedores.

Por isso o tomógrafo é muito mais complexo que a soja.

Não porque seja “mais importante”, mas porque reúne muito mais capacidades produtivas.

Como ela é medida?

Os pesquisadores utilizam duas informações principais.

Diversidade

Quantos produtos sofisticados um país consegue exportar.

Por exemplo:

  • o Japão exporta milhares de produtos;
  • o Brasil exporta muitos produtos, mas concentrados em alguns setores.

Quanto maior a diversidade, maior tende a ser a complexidade.

Ubiquidade

Quantos países conseguem fabricar determinado produto.

Se apenas poucos países conseguem produzir:

  • semicondutores;
  • turbinas aeronáuticas;
  • equipamentos médicos avançados,

esses produtos possuem alta complexidade.

Se praticamente todos conseguem produzir determinado bem, sua complexidade tende a ser menor.

O Índice de Complexidade Econômica (ECI) combina essas duas dimensões.

A ideia central

Produtos sofisticados revelam capacidades sofisticadas.

Economias sofisticadas conseguem fabricar muitos produtos raros.

Economias pouco sofisticadas concentram-se em poucos produtos comuns.

O “Espaço de Produtos”

Outra inovação importante foi a criação do chamado Product Space.

Imagine um mapa semelhante ao mapa do metrô.

Cada estação representa um produto.

As linhas unem produtos que utilizam conhecimentos semelhantes.

Por exemplo:

Automóveis

      │

Motores

      │

Transmissões

      │

Máquinas industriais

      │

Equipamentos ferroviários

É muito mais fácil passar de motores para máquinas industriais do que diretamente para produção de medicamentos.

Isso ocorre porque as capacidades exigidas são parecidas.

O mesmo vale para regiões

O estudo da CEPAL aplica exatamente essa lógica ao território brasileiro.

Em vez de perguntar:

“Onde devemos construir uma fábrica?”

ele pergunta:

“Quais capacidades já existem nesta região?”

Se uma região possui:

  • indústria metalmecânica;
  • universidades;
  • técnicos;
  • empresas de software;
  • fabricantes de componentes,

ela provavelmente conseguirá desenvolver equipamentos ferroviários ou máquinas para energia renovável com muito mais facilidade.

Já implantar uma indústria de semicondutores exigiria um salto tecnológico muito maior.

O que isso muda na política industrial?

No passado, a lógica era:

instalar fábricas onde não havia indústria.

A lógica da complexidade é diferente:

desenvolver novas atividades próximas das capacidades que já existem.

É uma estratégia de menor risco e maior probabilidade de sucesso.

A NIB e a complexidade

O estudo mostra que as cadeias escolhidas pela Nova Indústria Brasil são, em média, mais complexas que a economia brasileira.

Enquanto a economia nacional apresenta índice médio de complexidade de 0,34, as atividades selecionadas pela NIB alcançam, em média, 0,52. Isso significa que a política industrial está direcionada para setores que concentram mais conhecimento, maior intensidade tecnológica e maior potencial de gerar inovação e ganhos de produtividade.

A crítica ao conceito

Embora muito influente, a teoria da complexidade econômica também recebe críticas. Alguns economistas apontam que:

  • ela privilegia a estrutura produtiva e o comércio exterior, mas capta menos aspectos institucionais e políticos;
  • nem toda atividade de alta complexidade gera, por si só, desenvolvimento social ou redução das desigualdades;
  • países ricos em recursos naturais podem ter alta renda com índices de complexidade relativamente modestos, como ocorre em alguns exportadores de petróleo.

Apesar dessas ressalvas, a abordagem tornou-se uma das principais ferramentas contemporâneas para orientar políticas industriais, justamente porque ajuda a identificar quais setores têm maior potencial de impulsionar a diversificação produtiva e quais trajetórias de desenvolvimento são mais plausíveis para cada território. É essa lógica que fundamenta a proposta do estudo da CEPAL de territorializar as missões da Nova Indústria Brasil.

Entrevista Nova Indústria Brasil (NIB): o esforço de um plano de metas para o país

Nova Indústria Brasil (NIB) foi pensada para ser um plano de metas estratégico voltado ao desenvolvimento sustentável e a soberania nacional. Uallace Moreira, Secretário de Desenvolvimento Industrial do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), explica ao Projeto Brasil a importância de metas setoriais integradas e a necessidade de proteger a soberania nacional, especialmente em áreas críticas como as terras raras.

Em participação no último programa no YouTube com o jornalista Luís Nassif, Moreira resgatou exemplos históricos para enfatizar que a industrialização depende de uma articulação eficiente entre o Estado, bancos públicos e o setor privado.

Ao apresentar como o NIB foi construído, o Secretário afirmou que não se trata de uma construção meramente burocrática, mas resultado de um diálogo social amplo que envolve 25 ministérios, o BNDES e 21 representantes da sociedade civil e do setor produtivo, fundamentado em seis missões estratégicas, abrangendo áreas como agroindústria, saúde, infraestrutura, transformação digital, transição energética e Defesa.  

Uallace apontou que “toda a política industrial foi gestada a partir do diálogo social” e que o objetivo é fortalecer 25 cadeias produtivas específicas onde o Brasil possui potencial competitivo.  

Para Moreira, a indústria é o setor que gera empregos de melhor qualidade. Ele afirma categoricamente que “política industrial é um dos maiores instrumentos de política social porque ela gera emprego de alta qualificação e alta renda”, observando que 50% do PIB industrial é revertido em renda do trabalho.

Como exemplos práticos do Nova Indústria Brasil (NIB), ele citou o Plano Mais Produção, que disponibilizou um volume de crédito de 713 bilhões de reais entre 2023 e 2026 através de bancos públicos para apoiar a indústria. Além do crédito, a política utiliza subvenções, incentivos fiscais e o uso do poder de compra do Estado por meio da exigência de conteúdo local.

Em um dos setores-chaves mais requisitados atualmente, os minerais críticos e as Terras Raras, o Secretário defendeu que o Brasil deve deixar de ser apenas um exportador de matérias-primas bruta.

“O Brasil não quer ser um exportador de minerais brutos. O Brasil não vai aceitar fazer o que aconteceu com minério de ferro, que se explora e exporta bruto e não se agrega e verticaliza a cadeia produtiva”, disse.

Com Nassif, foi discutido exemplos internacionais e como o Brasil deve adotar uma visão de Estado duradoura, inspirada em modelos como o da Coreia do Sul, para garantir o crescimento econômico e a geração de renda.

“A política industrial precisa ter continuidade para que não tenhamos uma interrupção dos investimentos desses projetos, senão você compromete o processo de maturação dessas políticas públicas”, expôs.

Ambos também criticaram as altas taxas de juros como um grande obstáculo ao investimento produtivo, classificando a manutenção da Selic em níveis elevados como um “erro brutal” que penaliza tanto o setor industrial quanto o fiscal, e os riscos de desindustrialização causados pela venda de ativos estratégicos ao exterior.

Moreira conclui que o momento atual exige uma discussão sobre qual “projeto de nação” o país deseja: um país subordinado ou um governo que defenda os interesses da sociedade e a soberania nacional através da inovação e da força de suas cadeias produtivas.

A íntegra do programa Projeto Brasil está disponível no YouTube da TV GGN, confira:

Política Industrial: a atuação do BNDES, o modelo KfW e a Nova Indústria Brasil

Política Industrial e Condicionalidades: Uma Análise Comparativa entre a Atuação do BNDES, o Modelo KfW e a Estratégia Nova Indústria Brasil

José Luis Oreiro

Resumo: Este artigo analisa a eficácia das políticas industriais contemporâneas sob a ótica das condicionalidades de comportamento empresarial, contrastando as práticas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) com os referenciais teóricos de Mazzucato e Rodrik e o modelo de sucesso do banco alemão KfW. O estudo fundamenta-se na necessidade de superar a desindustrialização prematura brasileira e promover uma mudança estrutural ecológica. Através de uma revisão bibliográfica e análise de estudos de caso, investiga-se se o financiamento público brasileiro induz transformações reais na produtividade e sustentabilidade ou se limita à seleção de firmas já produtivas. Os resultados indicam que, enquanto o modelo de Mazzucato e Rodrik exige condicionalidades comportamentais explícitas (direcionalidade, reinvestimento e compartilhamento de lucros), o BNDES ainda opera predominantemente com critérios de elegibilidade financeira e legal. A análise da “Nova Indústria Brasil” (NIB) revela uma dualidade estratégica: o sucesso de programas modernos e setoriais como o MOVER coexiste com instrumentos tradicionais ambientalmente neutros e concentrados regionalmente. Conclui-se que a transição para uma economia de baixo carbono exige a transposição de critérios de sustentabilidade para o núcleo de todos os instrumentos de fomento, transformando os subsídios em “acordos” que promovam o valor público e a produtividade intrasetorial, especialmente em micro e pequenas empresas.

Palavras-Chave: Política Industrial, Condicionalidades, Desindustrialização Prematura, Nova Indústria Brasil.

1.     Introdução

A política industrial vive um ressurgimento global, impulsionado pela percepção de que o Estado não deve apenas corrigir falhas de mercado, mas atuar como um agente formador e direcionador do crescimento econômico. No contexto contemporâneo, a discussão não gira em torno da existência ou não de tais políticas, mas sim de como desenhá-las para que sejam verdes, inclusivas e resilientes. Um elemento central nesse novo paradigma é o conceito de condicionalidade, definido como o conjunto de responsabilidades e compromissos que as empresas privadas devem assumir em troca de benefícios públicos, como subsídios, empréstimos ou incentivos fiscais.

No Brasil, esse debate é urgente. O país enfrenta um processo de desindustrialização prematura caracterizado pela queda contínua da participação da indústria de transformação no Produto Interno Bruto (PIB) e no emprego, antes mesmo de atingir altos níveis de renda per capita.1 Esse fenômeno é acompanhado por uma “heterogeneidade estrutural”, onde coexistem ilhas de alta produtividade voltadas à exportação com uma vasta massa de empresas de baixa produtividade, majoritariamente micro e pequenas empresas (MPEs) que respondem por cerca de três quartos da força de trabalho. A estratégia para superar esse cenário exige políticas que não apenas injetem capital, mas que induzam mudanças comportamentais e tecnológicas.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) tem sido historicamente o braço financeiro dessa estratégia. No entanto, evidências empíricas sugerem que o impacto do seu financiamento na produtividade varia drasticamente conforme o tamanho da empresa. Enquanto micro e pequenas empresas apresentam ganhos marginais significativos ao acessar o crédito, o benefício para grandes empresas é muitas vezes marginal, sugerindo que o banco pode estar meramente selecionando firmas já eficientes em vez de induzir novos comportamentos. Este relatório busca confrontar essa realidade com a taxonomia de condicionalidades proposta por Mazzucato e Rodrik (2026), utilizando o caso do banco alemão KfW como parâmetro de excelência em condicionalidades comportamentais voltadas à eficiência energética.

Ademais, analisa-se a política “Nova Indústria Brasil” (NIB), lançada em 2024, que tenta adotar uma abordagem orientada por missões. O desafio central é verificar se os instrumentos práticos da NIB atendem aos critérios de direcionalidade e valor público ou se repetem erros do passado, como a neutralidade ambiental e a concentração regional de recursos. O objetivo final deste artigo é fornecer uma base teórica e empírica para a reformulação das políticas de crédito e fomento industrial no Brasil, visando uma reindustrialização sustentável e inclusiva.

Este artigo contribui para o avanço do conhecimento ao aplicar uma matriz analítica inédita que integra a taxonomia de Mazzucato e Rodrik (2026) com a realidade da produtividade brasileira por porte de empresa. A pesquisa preenche uma lacuna crítica ao demonstrar que a eficácia da política industrial não depende apenas do volume de crédito, mas da “asimetria de incentivos”: condicionalidades devem ser mais rígidas para grandes corporações (para evitar a busca de renda/rent-seeking) e facilitadoras para MPEs (para superar restrições de capital e escala).

Além disso, o estudo fornece um diagnóstico detalhado da NIB, distinguindo entre o discurso de “neoindustrialização verde” e a prática instrumental. A identificação da “neutralidade ambiental” em instrumentos horizontais como o PROEX serve como um alerta para formuladores de políticas sobre a necessidade de internalizar critérios climáticos em todos os contratos de fomento, transformando o BNDES de um banco de liquidez em um articulador de inovações orientadas por missões. Essa integração entre teoria econômica de ponta e análise empírica de política pública brasileira representa um passo essencial para uma estratégia nacional de desenvolvimento que seja tecnicamente viável e socialmente legítima.

2.     Referencial Teórico

2.1. O Estado Empreendedor e a Nova Política Industrial

A fundamentação teórica de Mazzucato e Rodrik (2026) parte da premissa de que o Estado deve atuar como um “Estado Empreendedor” que molda mercados através de políticas orientadas por missões.1 Ao contrário da visão neoclássica que limita o Estado ao papel de consertador de falhas de mercado, essa abordagem sustenta que o setor público deve assumir riscos em áreas de alta incerteza tecnológica para gerar retornos sociais e ambientais. Para que essa parceria público-privada seja legítima e eficaz, é necessário que os riscos e as recompensas sejam socializados, evitando que o Estado cubra apenas os prejuízos enquanto o setor privado privatiza os lucros.

Nesse cenário, as condicionalidades deixam de ser vistas como entraves burocráticos para se tornarem ferramentas de “direcionalidade”. Elas garantem que o crescimento não seja apenas quantitativo, mas orientado para a redução de desigualdades e a sustentabilidade. O conceito de “autonomia enraizada” de Evans (1995) é recuperado para descrever a relação ideal entre o Estado e as firmas: uma ligação estreita o suficiente para que o governo tenha informação técnica, mas autônoma o bastante para evitar a captura por interesses privados.

2.2. Taxonomia de Condicionalidades

Mazzucato e Rodrik (2026) desenvolvem uma taxonomia detalhada para categorizar as condicionalidades em quatro dimensões fundamentais, apresentadas na Tabela 1. É crucial distinguir entre “critérios de elegibilidade” e “condicionalidades comportamentais”. Os primeiros são pré-requisitos para acessar o benefício (como o tamanho da empresa), enquanto os segundos exigem que a firma realize ações que não faria de outra forma, muitas vezes consideradas custos adicionais pelo setor privado.

Tabela 1: Taxonomia de Condicionalidades segundo Mazzucato e Rodrik (2026)

Fonte: Elaboração do autor com base em Mazzucato e Rodrik (2026).

2.3. Novo Desenvolvimentismo Verde e Produtividade

O Novo Desenvolvimentismo Verde (NDV) complementa essa visão ao focar na Mudança Estrutural Ecológica (ESC). A ESC propõe a transferência de recursos de setores intensivos em carbono para setores de alta produtividade verde. No Brasil, essa transição enfrenta o obstáculo da “doença holandesa”, onde a sobrevalorização cambial causada pela exportação de commodities primárias prejudica a competitividade da indústria manufatureira.

A produtividade do trabalho, definida como valor adicionado por unidade de trabalho, é o indicador central dessa transformação. Orsolin e Nogueira (2026) argumentam que a estratégia de produtividade nacional deve focar em melhorias intra-setoriais, dado que as MPEs operam muito abaixo de seu teto tecnológico. Investimentos em máquinas modernas e serviços de organização produtiva nestas empresas geram ganhos marginais superiores devido à sua baixa intensidade inicial de capital.

3.     Estudos de Caso

Caso 1: O Modelo de Eficiência Energética do Banco KfW (Alemanha)

O KfW, segundo maior banco da Alemanha, implementou programas de construção e renovação energeticamente eficientes que são referência global em condicionalidade. O setor de construção na Alemanha responde por cerca de 30% das emissões de gases de efeito estufa (GEE), tornando a descarbonização dessa área uma missão prioritária.

O programa utiliza a classificação “KfW Efficiency House”, que mede o consumo de energia primária de um edifício em relação a um padrão de referência. A condicionalidade opera através de um mecanismo de incentivos financeiros ex-post:

Os resultados demonstram um multiplicador econômico notável: para cada Euro investido pelo Estado nos programas do KfW, retornaram cerca de 4 Euros através de arrecadação de impostos (como o VAT de 19%), redução de custos com desemprego e contribuições sociais (Mazzucato e Rodrik, 2026, p. 10).  Além disso, o programa gerou aproximadamente 64.000 empregos em tempo integral, três quartos dos quais em MPEs.

Caso 2: O Financiamento do BNDES e a Produtividade no Brasil

A análise de Orsolin e Nogueira (2026) sobre o BNDES foca na relação entre o crédito e a produtividade do trabalho no setor manufatureiro entre 2009 e 2020. O estudo utiliza modelos de painel dinâmico (System GMM) para isolar o efeito do crédito, corrigindo o problema da endogeneidade — o fato de que empresas mais produtivas têm mais facilidade em atender aos critérios formais do banco. Os resultados do estudo são reportados na Tabela 2 abaixo.

Tabela 2: Impacto dos Empréstimos do BNDES na Produtividade do Trabalho por Tamanho de Empresa.

Fonte: Elaboração do autor com base em Orsolin e Nogueira (2026).

Os critérios para concessão de empréstimos do BNDES são descritos como puramente financeiros e legais: conformidade fiscal e social, histórico de crédito satisfatório, capacidade de pagamento e garantias suficientes (colaterais). Não há menção no corpo principal das normas de crédito a condicionalidades que exijam mudanças de comportamento proativas, como metas de inovação verde ou compartilhamento de royalties em troca do subsídio na taxa de juros.

Caso 3: A Nova Indústria Brasil (NIB) e o Programa MOVER

A política NIB (2024-2026) representa a tentativa do governo brasileiro de estruturar a política industrial em torno de seis missões, com uma expectativa de R$ 300 bilhões em recursos. A análise de Pereira (2025) destaca o Programa Mobilidade Verde e Inovação (MOVER) como o exemplo mais bem-sucedido de alinhamento com a nova política industrial.

O MOVER (Lei nº 14.902/2024) institui requisitos obrigatórios de eficiência energético-ambiental para fabricantes de veículos. Ele utiliza um sistema de “créditos financeiros” ex-post, onde as empresas recebem benefícios baseados em investimentos efetivamente realizados em P&D e inovação. Diferente de políticas puramente horizontais, o MOVER exige que 2% das importações de autopeças sejam investidas em parcerias com universidades e ICTs nacionais. No entanto, o programa ainda sofre com uma concentração regional severa, com 98% dos projetos em 2024 localizados no Sul e Sudeste, revelando uma falha na dimensão de justiça social e inclusão.

4. Análise Comparativa e Resposta às Questões

A.  Os empréstimos do BNDES atendem aos quesitos de condicionalidades de Mazzucato e Rodrik? Por quê?

Com base na evidência disponível, os empréstimos padrão do BNDES não atendem aos quesitos de condicionalidades de Mazzucato e Rodrik.1 O banco opera fundamentalmente sob uma lógica de “critérios de elegibilidade” financeiros e administrativos, em vez de “condicionalidades comportamentais” transformadoras.

A análise de Mazzucato e Rodrik (2026) enfatiza que condicionalidades devem ser “acordos” (deals) onde o benefício é proporcional à mudança de comportamento da firma em direção ao bem público. No BNDES, os critérios citados são: regularidade fiscal, capacidade de pagamento, garantias reais e não estar em regime de recuperação de dívida. Esses elementos garantem a saúde financeira do banco, mas não direcionam a firma para objetivos como descarbonização, aumento salarial ou reinvestimento obrigatório de lucros em P&D. Além disso, a gestão do banco é caracterizada como tendo uma relação por vezes “subserviente” às necessidades imediatas do negócio, carecendo da “healthy tension” (tensão saudável) necessária para empurrar as empresas para novas trajetórias tecnológicas. O fato de grandes empresas receberem o crédito sem apresentar ganhos de produtividade adicionais reforça a tese de que o banco atua como um provedor de liquidez para firmas que já operam no teto de sua eficiência, sem exigir a “adicionalidade” comportamental requerida pela taxonomia de Mazzucato e Rodrik (2026)

B.  Mudanças sugeridas nos critérios de concessão do BNDES para a NIB

Para alinhar o BNDES aos objetivos da Nova Indústria Brasil e à taxonomia de Mazzucato e Rodrik, propõem-se as seguintes mudanças estruturais nos critérios de concessão:

C.  A política industrial brasileira definida no Nova Indústria Brasil (NIB) atende aos quesitos de Mazzucato e Rodrik?

A NIB atende aos quesitos de Mazzucato e Rodrik de forma parcial e inconsistente. Existe uma “dualidade” no desenho da política:

Portanto, a NIB possui uma “casca” de direcionalidade por meio de suas seis missões, mas o seu “núcleo” financeiro ainda está fortemente ancorado em lógicas de fomento clássicas que não integram plenamente a taxonomia de condicionalidades comportamentais em todos os eixos.

D. Problemas e inconsistências da NIB

A análise detalhada aponta para cinco grandes problemas e inconsistências na estratégia atual da NIB:

6. Conclusões

A análise comparativa permite concluir que a política industrial brasileira se encontra em uma encruzilhada de paradigmas. De um lado, a ambição da “Nova Indústria Brasil” busca alinhar o país às melhores práticas globais de Estado Empreendedor e missões verdes. De outro, a prática institucional do BNDES e de outros órgãos de fomento ainda está fortemente enraizada em critérios de elegibilidade financeiros que não garantem a transformação comportamental das firmas.

O sucesso do modelo KfW na Alemanha demonstra que a condicionalidade ex-post, vinculada a benefícios financeiros tangíveis (como o bônus de reembolso), é uma ferramenta poderosa para direcionar investimentos privados para o bem comum. No Brasil, a evidência de que o BNDES gera ganhos reais de produtividade apenas onde há escassez crítica de capital (MPEs) sugere que o banco deve repensar sua atuação junto às grandes empresas, exigindo destes compromissos explícitos de inovação aberta, descarbonização e reinvestimento produtivo.

A superação da desindustrialização prematura e a efetivação de uma mudança estrutural ecológica dependem de uma reorientação estratégica: o fim do fomento “ambientalmente neutro”. Programas como o MOVER devem deixar de ser a exceção para se tornarem a regra da política industrial nacional. É imperativo que a NIB supere sua fragmentação, integrando condicionalidades de sustentabilidade e inclusão social no núcleo de todos os seus instrumentos, garantindo que cada Real investido pelo Estado contribua não apenas para o lucro privado, mas para a construção de uma economia mais complexa, verde e equitativa.

Referências Bibliográficas

MAZZUCATO, Mariana; RODRIK, Dani. Industrial policy with conditionalities: a taxonomy and sample cases. Industrial and Corporate Change, v. 00, n. 00, p. 1-27, 2026. doi:10.1093/icc/dtaf063.

ORSOLIN, Felipe; NOGUEIRA, Mauro Oddo. BNDES financing and labor productivity in Brazil: an analysis by company size. Investigación Económica, v. 85, n. 336, Primavera 2026. http://dx.doi.org/10.22201/fe.01851667p.2026.336.92114.

PEREIRA, Bruna Rodrigues. Novo Desenvolvimentismo Verde e Reindustrialização: Um Estudo das Iniciativas Públicas no Brasil (2023-2024). 2025. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Ciências Econômicas) – Universidade de Brasília, Brasília, 2025.

Sobre José Luis Oreiro: Doutor em Economia da Indústria e da Tecnologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2000), Professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e Pesquisador Nível I do CNPq. Tem experiência na área de Economia, com ênfase em Dinâmica Macroeconômica, atuando principalmente nos seguintes temas: Acumulação de capital, crescimento econômico, autonomia de política monetária, taxa de juros e dinâmica não linear. Publicou cerca de 70 artigos em revistas cientificas no Brasil e no exterior como, por exemplo, o Journal of Post Keynesian Economics, International Review of Applied Economics, Investigacion Economica, Revista Brasileira de Economia, Revista de Economia Política e Estudos Econômicos. É co-organizador do livro “Agenda Brasil – políticas econômicas para crescimento com estabilidade de preços” publicado pela Monole em 2003, do livro “Sistema Financeiro: uma analise do setor bancário brasileiro” publicado pela Campus em 2007 e do livro “Política Monetária, Bancos Centrais e Metas de Inflação”, agraciado com o prêmio COFECON como melhor livro de economia do ano de 2009. Leciona as disciplinas de Evolução das Idéias Econômicas e Sociais (EVIES), macroeconomia III, Macroeconomia do Desenvolvimento e Crescimento e Distribuição nos cursos de graduação e pós-graduação em economia da FACE/UNB. Recebeu duas vezes o Prêmio Brasil de Economia (COFECON), em 2005 e 2005, em 2º lugar na categoria artigo, o Prêmio SOF de Monografias 2007 (2º lugar) e o Prêmio Cofecon 2010 (1 lugar). Está classificado entre os 10% mais produtivos economistas do Brasil segundo o critério REPEC da Universidade de Connecnicut. É pesquisador 1C do CNPq e diretor de relações institucionais da Associação Keynesiana Brasileira.