Desindustrialização expõe crise do Rio e saúde aparece como alternativa estratégica

Especialistas defendem novo pacto entre Estado, SUS e indústria para reconstruir a economia fluminense e a do próprio país

A crise de desindustrialização do Rio de Janeiro ganhou um novo enquadramento estratégico: a saúde como motor de desenvolvimento econômico, tecnológico e social. Esse foi o eixo central do debate promovido pelo Fórum de Reitores das Instituições Públicas do Estado (Friperj) e pela Finep, durante seminário realizado no último dia 7.

Reunindo nomes-chave da formulação de políticas públicas — como o ex-ministro José Gomes Temporão, o pesquisador Carlos Gadelha e o superintendente do BNDES João Pieroni —, o encontro apontou caminhos concretos para reposicionar o estado no cenário produtivo nacional, a partir do fortalecimento do chamado Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS).

Desindustrialização e oportunidade estratégica

Há um diagnóstico comum entre academia, governo e instituições de fomento: o Rio enfrenta um processo prolongado de desindustrialização. Mas, longe de um cenário de esvaziamento irreversível, especialistas veem na saúde uma oportunidade concreta de reverter esse quadro.

Carlos Gadelha, coordenador da Rede CEIS e líder do Grupo de Pesquisa Desenvolvimento Sustentável, CT&I e CEIS – GPCEIS/CEE-ENSP/Fiocruz, e conselheiro do Projeto Brasil, destacou que o CEIS reúne condições únicas para liderar esse movimento. Ao integrar indústria, serviços, ciência e tecnologia, o setor pode agregar valor à produção, estimular inovação e gerar empregos qualificados — elementos centrais para qualquer estratégia de desenvolvimento sustentável.

Os dados reforçam esse potencial. A saúde já responde por cerca de 11% dos empregos no estado, além de concentrar uma base científica robusta: o Rio é o segundo estado brasileiro em número de mestres e doutores, com forte presença nas áreas de saúde e ciências biológicas, responsáveis por um quarto da produção científica nacional.

Estado, governança e política industrial

Se há consenso sobre o potencial, também há clareza sobre o desafio: transformar capacidade instalada em projeto de desenvolvimento exige coordenação política e institucional.

José Gomes Temporão defendeu a construção de uma governança própria para o setor, baseada em um pacto entre diferentes atores — governo estadual, municípios, universidades, indústria e instituições de fomento. A proposta passa por organizar o CEIS como política de Estado, com planejamento estratégico e metas de longo prazo.

Um dos instrumentos centrais dessa estratégia é o uso do poder de compra do Sistema Único de Saúde (SUS). Ao direcionar a demanda pública para fortalecer cadeias produtivas locais, o Estado pode induzir inovação, ampliar a produção nacional e reduzir a dependência externa — um ponto recorrente nos debates recentes sobre soberania.

Integração entre ciência, indústria e financiamento

Outro ponto enfatizado foi a necessidade de articulação efetiva entre universidades, centros de pesquisa e setor produtivo — uma lacuna histórica no modelo brasileiro de desenvolvimento.

Nesse sentido, o papel de instituições como o BNDES e a Finep aparece como decisivo para financiar a inovação e estruturar cadeias produtivas mais sofisticadas. A integração entre conhecimento científico e produção industrial é vista como condição para transformar potencial em capacidade econômica real.

Um projeto em disputa

O debate também evidenciou que o futuro do Rio — e, em alguma medida, do próprio país — passa pela definição de um projeto nacional que recoloque o Estado como indutor do desenvolvimento.

A proposta de novos fóruns e articulações sinaliza que esse processo está em construção. Mais do que diagnósticos, o desafio agora é transformar consenso em ação coordenada, capaz de enfrentar a desindustrialização e reposicionar a saúde não apenas como política social, mas como eixo estruturante da economia.

Acompanhe a íntegra do evento:

Terras raras, políticas públicas e competitividade, por Arthur Oscar Guimarães

“Não vamos entregar nossas terras raras”

Arthur Oscar Guimarães¹

Terras raras, políticas públicas e competitividade: esse é o tripé básico do debate em questão. Com esse breve texto trazemos ao debate uma tese: em momento de efervescência midiática, a discussão a respeito das terras raras brasileiras está com foco no que vem ocorrendo no cenário mundial. Não nos esqueçamos que o Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras, e a nossa tarefa central deverá ser a definição de uma política pública clara, factível e com objetivos de curto, médio e longo prazos de como cuidaremos dessa nossa riqueza mineral. E, para início de conversa, o debate sobre terras raras só faz sentido se falarmos em política industrial e projeto nacional de desenvolvimento.  

Ao menos três pressupostos ganham relevo nesse momento. Em qualquer das opções que adotar, o Brasil não pode: 

  1. prescindir dos conhecimentos acumulados ao longo dos anos pelo SGB/CPRM – Serviço Geológico do Brasil; 
  1. adotar medida que não seja discutida no âmbito do CNPM – Conselho Nacional de Política Mineral (de preferência, como fez o presidente Lula, incluindo Terras Raras no nome desse Conselho, pra indicar prioridade nesse momento); e 
  1. deixar de ouvir, até mesmo por razões constitucionais, o Congresso Nacional em relação às proposições legislativas atinentes ao tema (com destaque para a criação da empresa estatal TERRABRAS S.A.)2  

Nesses termos, a presença do Estado é primordial, mas o desenvolvimento do setor se dará com um setor produtivo dinâmico, público e privado, mas em estrita obediência à legislação vigente, mas fundamentalmente à soberania nacional. 

Dois eventos ganharam destaque na mídia e partiremos deles para expor nosso posicionamento: um primeiro, ainda do final de 2025 e reforçado agora no início de 2026, relaciona-se à decisão do Governo Federal em relação ao Conselho Nacional de Política Mineral (CNPM) que terá como foco os minerais críticos, entre os quais as terras raras, elementos essenciais para a fabricação de produtos de tecnologia como, por exemplo, smartphones e carros elétricos (mas sabemos que as aplicações industriais vão muito mais além, particularmente na área de energia – voltaremos a esse ponto); e um segundo, o debate que se amplia a cada dia, centrado na criação ou não de uma empresa estatal, já batizada de TERRABRAS – Terras Raras Brasileiras S.A.3   

Todavia, é preciso reconhecer que o atual debate relacionado às terras raras se transformou, nesse momento, numa miríade de conceitos, sonhos, expectativas e barreiras que estão por demandar – de todos nós – pés no chão. É preciso que tenhamos claro que existem ações já em andamento, mas há um outro universo de ações ainda por implementar. E o Governo, ao menos de público, encontra-se mais lento que o demandado para esse tipo de cenário. 

Segundo nossa concepção não há como desconsiderar a necessidade de definição de uma política pública que, segundo nos ensina a teoria, tem por objeto central “colocar o governo em ação”4. Estão explícitas as demonstrações que a tarefa cobra ação urgente do nosso País, em particular ao Governo Federal, visto estarem escancaradas as manifestações dos norte-americanos. 

Sabemos que há ações em andamento, mas o ciclo da política pública é constituído por estágios, que muitas vezes não são considerados (às vezes porque demandam tempo), e no caso específico das terras raras talvez seja o caso de nos adequarmos a eles, sendo o papel do CNPM central nesse caso, senão vejamos: definição de agenda; identificação de alternativas; avaliação das opções; seleção das opções; implementação e avaliação5, sendo esta última de caráter permanente, particularmente quanto ao impacto desejado com a nova política pública para o setor produtivo. Ratificamos, público e privado. 

Poderíamos nos ater, preliminarmente, a debater os elementos que entendemos centrais da mencionada política pública, mas a opção aqui é indicar – mais à frente – um aspecto que entendemos basilar para posicionar o Brasil no mercado de terras raras, caso a nossa opção seja a de não nos mantermos como historicamente estivemos, posicionados no mercado mineral como fornecedores de commodities. 

Em texto recente, denominado Lonely Empire (Império Solitário), Mark Blyth, Professor de Economia Internacional da Brown at University, afirma que “O imperialismo aberto da administração Trump desfez a ordem global de normas e instituições compartilhadas mais rápido do que qualquer um esperava.”6 (grifamos) E complementa o autor: 

Em tal mundo, a segurança aparentemente reside em tomar território antes que outras potências o façam, em vez de se apoiar em alianças e instituições multilaterais. Assim, a Groenlândia será americana, e a influência chinesa na América Latina será eliminada. O projeto de dividir o mundo em esferas de segurança, sustentadas por arquiteturas tecnológicas rivais e fontes de energia concorrentes, está avançando rapidamente. A única lei internacional agora é a lei da selva, na qual os fortes predam os fracos. (grifamos) 

Se concordássemos com o cenário sombrio desenhado por Mark Blyth, caberia perguntar: o que nos resta fazer? Dentre outras, temos uma resposta. Ao Brasil será fundamental gerar competitividade no setor dos minerais críticos, incluso aí nossas terras taras. 

Devemos partir de um conceito tradicional de competitividade vinculado à capacidade de uma indústria ou empresa de se destacar no mercado, buscando manter ou aumentar (melhorar) a sua posição em relação aos concorrentes (ou um país de alcançar maior espaço para seus produtos no comércio mundial). 

Mas falar em gerar competitividade é falar primordialmente em investimento. Não há uma conta exata no setor mineral de quanto estamos falando, mas a despeito desse aparentemente desconhecimento, há indícios claros de que estamos diante de movimentações políticas e econômicas que não podem ser desconsideradas, senão vejamos: 

Fato 1. Os governos dos Estados Unidos e de Goiás (Gov. Ronaldo Caiado, candidato a Presidente da República) assinaram um memorando de entendimento (na opinião de vários juristas um ato inconstitucional) cujo objetivo reside em aumentar o acesso de empresas americanas a minerais críticos e terras raras naquele estado. (Revista Exame, 18.03.2026) 

Fato 2. O Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato a Presidente da República, em palestra proferida nos EUA (29.03.2026) afirmou: “O Brasil é a solução para que os Estados Unidos não dependam mais da China em terras raras e minerais críticos”. (CNN, Brasil, 30.03.2026) 

Fato 3. O U.S. International Development Finance Corporation (DFC), uma agência financeira do governo dos EUA (um banco estatal de desenvolvimento voltado a projetos estratégicos no exterior), realizou um investimento na empresa Serra Verde (Goiás). Trata-se de um financiamento de US$ 565 milhões. (Folha de S.Paulo, 05.02.26)  

Fato 4. A USA Rare Earth, empresa dos EUA comprou a mineradora brasileira de terras raras Serra Verde por US$ 2,8 bilhões. O acordo de 15 anos com capital do governo dos EUA garante escoamento total da produção da Serra Verde, consolidando o Brasil na corrida global por tecnologia. (REUTERS, 20.04.2026)7 

Um resumo do que estamos assistindo indica que há uma clara estratégia de “pré-posicionamento” geoeconômico. Mais que isso: uma opção de participação futura, mesmo que minoritária. Não se trata de novidade, pois os norte-americanos usam esse tipo de instrumento financeiro (na África e na Ásia para minerais críticos), em que esse tipo de investimento é bastante revelador. O caso da DFC no Brasil segue um padrão já testado pelos Estados Unidos: financiar, garantir acesso e manter opção estratégica sem controle explícito imediato. Era o que se imaginava até a USA Rare Earth informar que adquiriu (?) a mineradora brasileira de terras raras Serra Verde por US$ 2,8 bilhões em dinheiro e ações. 

Esse caso da empresa Serra Verde, com o DFC financiando e a USA Rare Earth comprando, revela exatamente o padrão que os americanos já usaram na África e na Ásia: entra como financiador, garante o fluxo da produção e compra quando o ativo está maduro. Enquanto o Brasil debate modelos e marcos regulatórios, o mercado já havia decidido. 

Antes de tratar com maior acuidade de aspectos legais referentes a essa transação corporativa, chama a atenção de qualquer leitor mais atento o teor da cláusula de proibição de venda da produção da Serra Verde para qualquer empresa do resto do mundo, inclusive para empresas brasileiras. 

Caberia, então, perguntar: o negócio entre a empresa Serra Verde e a USA Rare Earth não seria uma afronta à livre concorrência e à livre iniciativa, além de ser contra a soberania e o interesse nacional? O conjunto de informações disponível justifica e exige que a Justiça brasileira e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica – CADE se posicionem rapidamente. 

Por todos os motivos até aqui elencados, a proposição legislativa, já em tramitação na Câmara dos Deputados, de criação da empresa estatal TERRABRAS – Terras Raras Brasileiras S.A. (uma delas é o PL Nº 1.733q2026, de autoria do Dep. Rodrigo Rollemberg, do PSB/DF) passe, a cada dia, a fazer mais sentido político, econômico e social, pois abre o debate para um projeto de desenvolvimento nacional. Ainda está em aberto qual seria o melhor formato de inserção do Estado, mas de pronto traz à lume a ideia de que o Estado brasileiro deverá atuar em favor da nossa soberania no setor mineral, como indutor do desenvolvimento tecnológico nacional. 

A realidade nos impõe como tarefa histórica destacar que o formato da TERRABRAS, se vier a se constituir e consolidar, precisa ter desde a concepção o que aqui denominaremos de mandato tecnológico, não apenas o extrativo mineral, mas termos em mente a necessidade de condicionar qualquer licença ou incentivo do setor a critérios de processamento mínimo em território nacional, como fizemos no caso do petróleo, quando da exploração do pré-sal. 

Sem isso, continuaremos exportando minério bruto e repetindo com as terras raras o mesmo equívoco histórico que cometemos, por exemplo, com o minério de ferro. O risco concreto é trocar a dependência em relação à China pela dependência com os EUA, com a desvantagem de que, no segundo caso, os ativos já estarão fora do nosso controle quando a negociação começar. 

Não se trata, nem de longe, de tarefa fácil. Construir uma empresa do porte que se faz necessário no setor mineral poderá custar alto ao País, mas a opção política, seja do atual Governo (e nas palavras do Presidente Lula, parece sim haver interesse no assunto), seja no próximo mandato presidencial (2027/2030), a TERRABRAS servirá como o pontapé para os debates e ações efetivas de como o Brasil deve proceder para alcançar uma inserção verdadeiramente competitiva no cenário internacional dos minerais críticos e das terras raras. 

Referências 

BLYTH, Mark. Império Solitário. Império Solitário de Mark Blyth – Project Syndicate. Mar 16, 2026. In https://project-syndicate.us10.list-manage.com/track/click?u=9116789a51839e0f88fa29b83&id=bb354800ae&e=db042cbac9 (Acessado em 20.04.2026) 

GUIMARÃES, A.O. Terrabras – uma estatal necessária. Publicado 11/02/2026. In https://outraspalavras.net/crise-brasileira/terrabras-uma-estatal-necessaria/ (Acessado em 10.04.2026) 

GUIMARÃES, A.O. e BRANDÃO, F.C. TERRABRAS S.A. – terras raras e soberania. Publicado 30/03/2026. https://revistaforum.com.br/opiniao/terrabras-s-a-terras-raras-e-soberania/ (Acessado em 20.04.2026) 

SOUZA, Celina. Políticas públicas: uma revisão da literatura. In https://www.scielo.br/j/soc/a/6YsWyBWZSdFgfSqDVQhc4jm/?format=html&lang=pt (Acessado em 03.04.2026) 

REUTERS. Empresa dos EUA compra mineradora brasileira de terras raras por US$ 2,8 bilhões – ISTOÉ DINHEIRO. In https://istoedinheiro.com.br/usa-rare-earth-mineradora (Acessado em 20.04.2026) 

O que significa trabalhar vigiados por algoritmos? Por Lynn Parramore

Trabalho estreitamente vigiado

ODTI 

Neste texto, a autora discute as questões relacionadas à vigilância e supervisão dos trabalhadores por AI. O texto é longo, mas a importância da discussão impõe uma leitura atenta. São descritas as formas de vigilância algorítmica sobre trabalhadores de escritório em geral, .não apenas sobre trabalhadores por aplicativo ou em tarefas repetitivas. 

Essa discussão não é recente. Lembro-me dos bancários de São Paulo, nos anos 90. desconfiarem do Itaú estar controlando o número de “autenticações” de seus caixas tentando antecipadamente detectar LER (lesões por efeito repetitivo) para dispensá-los. Ou de um sindicato no Rio de Janeiro ter recorrido à Justiça do Trabalho, vitoriosamente se me lembro, para desligar a vigilância pervasiva por câmeras no local de trabalho. Mas a IA dá uma nova dimensão para esse controle patronal, e os sindicatos não podem ignorar. 

O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais, vinculado ao Instituto Lavoro. Traduziu este texto do site do Institute for New Economic Thinking.

O que significa trabalhar sob o olhar de um algoritmo?  

Por Lynn Parramore, Analista Sênior de Pesquisa do Instituto para o Novo Pensamento Econômico.  

“Alguém deve ter contado mentiras sobre Joseph K., pois, sem ter feito nada de errado, ele foi preso certa manhã.”

O Processo (1925), Franz Kafka  

Lá está você, encarando a tela. O cursor congela, então você o cutuca — só por precaução. Você pareceu distraído? Não há nada de errado. Mesmo assim, você age como se houvesse.  

Um programa de software silencioso está observando constantemente. A empresa chama isso de “ajuda”. Um “parceiro” de IA para torná-lo mais rápido, mais inteligente, mais produtivo — e até mais feliz. No entanto, você sente que algo mudou sob o olhar desse inquisidor digital. Talvez você nem saiba o que está sendo observado ou medido, ou para onde todas essas informações vão. 

 Isso está se tornando rapidamente o novo normal nos escritórios, onde olhos algorítmicos nunca piscam. Essa mudança exerce uma pressão real sobre como pensamos sobre direitos. Alguns já estão previstos em lei — mesmo que não sejam facilmente aplicáveis ​​— como limites à vigilância intrusiva, proteção da privacidade e devido processo legal em avaliações e demissões. Outros são mais difíceis de nomear, mesmo que as pessoas os sintam todos os dias: A necessidade de uma margem de transparência e a compreensão de que possuímos um senso de identidade que não se reduz a dados. Esses direitos são a base para a dignidade e o trabalho significativo – vitais para uma força de trabalho bem-sucedida, empresas prósperas e uma sociedade próspera.  

Os empregadores sempre buscaram controle; os trabalhadores sempre lutaram por autonomia e dignidade. A IA é o capítulo mais recente, e talvez o mais intenso até agora – mais íntimo e abrangente do que qualquer monitoramento anterior. O rumo dessa história é incerto, mas sem uma intervenção rápida e deliberada, a trajetória se inclina para a normalização de sistemas inexplicáveis ​​que são francamente kafkianos. 

Olhos sem rosto  

Os sistemas de monitoramento por IA atuais se dividem em duas categorias: ferramentas que rastreiam seu comportamento e sistemas que tomam decisões automatizadas com base nele. Juntos, são frequentemente chamados de “bossware” – um termo bastante semelhante ao já consagrado “spyware”.  

Não contente em observar e medir, o bossware prevê, influencia e intervém: Krista, permaneça dentro dos aplicativos aprovados durante o horário de trabalho. Dave, tome medidas corretivas para melhorar sua pontuação de engajamento.  

Entregar suas tarefas já não é suficiente. O trabalho pode parecer um jogo em um tabuleiro invisível. Quanto mais você digita, mais o algoritmo aprende. Só ele sabe o resultado real.  

Muitos trabalhadores em tempo integral, parcial e freelancers agora enfrentam o que alguns descrevem como um nível “desumanizante” de vigilância. E a maioria, especialmente trabalhadores de escritório e contratados com pouca proteção organizada ou contratos claros, está à deriva em uma zona cinzenta legal. Mesmo para aqueles com a sorte de ter sindicatos, as antigas salvaguardas estão defasadas em relação à tecnologia. Os funcionários são deixados à própria sorte, tentando navegar por sistemas de espionagem que não compreendem totalmente.  

Cada vez mais, a vigilância é conduzida por “mineração de tarefas”, softwares que registram como os funcionários interagem com seus computadores e fluxos de trabalho para mapear como o trabalho é realizado e onde pode ser otimizado ou automatizado. Seu comportamento digital diário se torna um conjunto contínuo de dados sobre produtividade.  

Isso é, efetivamente, o taylorismo do século XXI. Os empregadores o apresentam como eficiência, mas os trabalhadores frequentemente o vivenciam como exposição e humilhação. Para alguns, não se trata tanto do rastreamento de resultados, como pacotes entregues ou vendas fechadas. Com isso, eles poderiam conviver. Trata-se do escrutínio das entradas: minutos ociosos sinalizados, pausas para ir ao banheiro cronometradas, tom e cadência analisados ​​minuciosamente em ligações telefônicas. Quando se adicionam políticas opacas, a expectativa de disponibilidade constante e capturas de tela frequentes que fazem você temer procurar uma receita de peixe cozido no vapor, o que poderia ter sido ganho em produtividade se perde em uma onda crescente de estresse.  

Imagine um barista do Starbucks, ou qualquer outro trabalhador de escritório ou freelancer, sob o olhar atento de uma IA chamada “Aware”, que monitora o Slack, o Teams e o Zoom em busca de engajamento, sentimentos ou qualquer coisa que se qualifique como “comportamento de risco”, enviando as avaliações para os painéis dos gerentes. Os trabalhadores veem apenas os resultados, não a lógica que os gerou. É a lógica de Kafka atualizada para software.  

O barista consentiu com esse sistema? Não no sentido convencional. O algoritmo não é opcional, e os contratos e proteções trabalhistas comuns não previam um supervisor tão opaco e integrado.  

Com ferramentas mais sofisticadas à sua disposição, os empregadores buscam capturar não apenas o que você faz, mas como você se sente enquanto faz. Sistemas de IA interpretam expressões faciais, movimentos oculares e até postura, transformando seu humor em uma métrica. O que já se infiltrava no ambiente de trabalho como biovigilância se transformou em Inteligência Artificial Emocional. A inteligência artificial está presente em todos os lugares, de call centers a escritórios financeiros.  

Programas de IA alegam usar dados de dispositivos vestíveis, textos e atividades do computador para detectar como você se sente, mas, na realidade, trata-se apenas de inferências: nunca do que você realmente sente. Uma ampla gama de empregadores já utiliza IA Emocional, apesar de especialistas alertarem que a ciência por trás dela é, no mínimo, duvidosa. Seria ceticismo ou interesse? Empresas como a Azure Vision podem parecer saber, mas pesquisadores da Universidade de Western Ontario foram diretos: “Não devemos acreditar na palavra dos cientistas da computação de que os paradigmas para emoções humanas que eles desenvolveram… podem produzir verdades absolutas sobre as emoções humanas”.  

Parte da razão é que as máquinas são tendenciosas. Mulheres, funcionários mais velhos, trabalhadores neurodiversos e pessoas negras têm muito mais probabilidade de serem mal interpretados e avaliados incorretamente. O que o algoritmo sinaliza como “desengajamento” pode ser simplesmente fadiga, diferença cultural ou, Deus nos livre, um momento de reflexão tranquila. No entanto, essas interpretações equivocadas podem influenciar avaliações de desempenho, promoções e demissões. 

Por que a preocupação?  

Mesmo na melhor das hipóteses, a vigilância por IA pode ser contraproducente, deixando os trabalhadores com mais precariedade, piores condições de trabalho, salários e horários injustos e mais discriminação — tudo isso enquanto aprofunda a desigualdade. No entanto, alguns empregadores estão apresentando a vigilância por IA como uma ferramenta de bem-estar, em vez de um Grande Irmão na sua mesa de trabalho.  

No JPMorgan Chase, por exemplo, cada movimento digital de funcionários juniores agora é rastreado para detectar “excesso de trabalho”. A empresa alega que tudo se resume a “conscientização” e “bem-estar”. Mas mesmo quando a supervisão é apresentada como útil, o monitoramento e o gerenciamento algorítmico podem gerar problemas. Em um experimento, os participantes realizaram a mesma tarefa sob duas condições: observados por um humano ou por um sistema de IA chamado “AI Technology Feed”. Mesmo quando o feedback era o mesmo, o grupo da IA ​​se sentiu estressado, impotente e menos criativo, e reagiu mais contra a IA do que contra o observador humano. Um estudo de 2025 descobriu que o aumento da vigilância digital corrói a confiança e mantém os trabalhadores em constante estado de alerta.  

Katharina Klug, pesquisadora de psicologia organizacional da Universidade de Bremen, alerta que a vigilância no local de trabalho impulsionada por IA “pode ter efeitos desmotivadores… se for feita de forma não transparente — você não sabe quais dados estão sendo coletados ou o que seu empregador faz com eles”. Ela observa que o resultado pode ser uma mudança na motivação em direção a recompensas extrínsecas e uma situação em que os funcionários se sintam pressionados e ansiosos. A economista Nadia Garbellini, da Universidade de Modena, na Itália, alertou que a IA pode diminuir a qualidade dos empregos, relegando os trabalhadores a um “grau cada vez menor de autonomia”.  

É também uma questão de saúde. A vigilância por IA gera estresse antecipatório: você se preocupa com como cada ação pode ser interpretada no futuro. Isso pode levar à exaustão, à redução da capacidade imaginativa e até mesmo a sintomas físicos. Alex Rosenblat escreveu sobre chefes de IA que, além de possibilitarem problemas como roubo de salários, às vezes incentivam atividades arriscadas, como incentivar motoristas do Uber a continuarem dirigindo quando estão cansados.  

Mesmo quando os funcionários entendem as métricas, problemas não intencionais aparecem. Por exemplo, as pessoas manipulam o que está sendo medido, muitas vezes em detrimento da visão geral, o que leva a uma conformidade superficial e a artimanhas com as métricas. Em alguns locais de trabalho, os funcionários são levados a recorrer a contramedidas, como os famosos “dispositivos de movimento do mouse”, que simulam leves movimentos do cursor para que os funcionários possam fazer uma pausa para fumar sem serem detectados. O Wells Fargo demitiu mais de uma dúzia de funcionários após detectar tais táticas.  

E o que acontece com os dados dos funcionários depois de coletados? Eles podem não permanecer dentro do local de trabalho. Os empregadores podem repassá-los a fornecedores, serviços em nuvem e empresas de análise, enquanto ferramentas como Slack ou Zoom geram fluxos de dados comportamentais que circulam por meio de diversas terceiras partes sob amplos contratos de serviço.  

As políticas do local de trabalho permitem cada vez mais a ampla coleta e reutilização de métricas de produtividade, metadados de comunicação e outros rastros digitais. Muitas vezes, a IA se expande por meio de atualizações que oferecem pouca clareza sobre o uso posterior. Em algumas jurisdições, leis como a Lei de Privacidade do Consumidor da Califórnia (CCPA) oferecem direitos limitados de acesso ou recusa a certos usos de dados, incluindo a venda de informações pessoais, embora a aplicação seja desigual e as opções de recusa raramente sejam simples. Em outros lugares, boa sorte.  

Mesmo que uma empresa não pretenda vender seus dados, eles ainda podem escapar. O aplicativo de vigilância WorkComposer deixou mais de 21 milhões de capturas de tela de funcionários expostas em um bucket não seguro do Amazon S3. Imagens sensíveis da atividade dos funcionários vazaram, colocando os trabalhadores em risco de roubo de identidade e outros danos. Ops!  

A IA também amplificou um risco no local de trabalho que poderíamos chamar de “avaliação paralela”. Seu gerente chama isso de “programa de treinamento”, mas, nos bastidores, a IA está analisando suas fraquezas. Quando você termina a sessão, o algoritmo já fez sua recomendação sobre você, deixando o para o gerente humano simplesmente clicar em “aprovar”.  

Enquanto isso, o sistema constrói uma visão mais completa do seu desempenho, aprimorando as avaliações sobre se a empresa pode, em última análise, prescindir de você. Thomas Ferguson, diretor de pesquisa da INET, observa que analistas do setor alertam, em conversas privadas, que funcionários que tentam se familiarizar com ferramentas de IA podem preferir experimentar o software por conta própria, em vez de compartilhar o conhecimento com seus empregadores. “As práticas trabalhistas nos EUA tratam a maioria dos trabalhadores como ferramentas descartáveis ​​e casuais”, comenta ele, “com efeitos previsivelmente desastrosos sobre a rapidez com que os benefícios sociais da IA ​​podem se disseminar em diversos setores”. Ferguson acredita que a introdução da IA ​​em países do norte da Europa com proteções trabalhistas mais robustas será mais fácil.  

Sem essas proteções, acabamos com o tribunal de Kafka em sua forma mais eficiente: cobranças invisíveis processadas em tempo real por burocratas invisíveis.  

A inteligência artificial também pode reduzir seu salário por meio do que é conhecido como “pagamento por vigilância”. Um relatório do Washington Center for Equitable Growth, que analisou 500 fornecedores de IA, constatou que, sob sistemas de IA, “pessoas diferentes podem receber salários diferentes por trabalhos praticamente iguais, e os trabalhadores individuais não conseguem prever seus rendimentos ao longo do tempo”. O resultado é uma “desvinculação entre trabalho árduo e remuneração justa e segura” — uma dinâmica que afetou primeiro os trabalhadores autônomos, como motoristas de aplicativos de transporte e entregadores de comida, e agora está se espalhando para outros setores e empregos.  

Por fim — e mal arranhamos a superfície dos riscos da vigilância por IA — as empresas estão implantando IA para manter os sindicatos afastados. Ferramentas desenvolvidas para o setor militar estão patrulhando cubículos e corredores de armazéns, garantindo que a organização sindical nunca ganhe força. Algumas empresas chegam a usar IA para monitorar as redes sociais fora do ambiente de trabalho a fim de descobrir quem tem intenção de se sindicalizar. Funcionários da Amazon e até mesmo da Universidade de Boston já experimentaram a repressão sindical impulsionada por IA. A implementação antissindical da IA ​​tornou-se uma característica sinistra do que tem sido chamado de “amazonização da força de trabalho americana”.  

De uma forma mais insidiosa, a gestão algorítmica tende a transformar o local de trabalho de um espaço político compartilhado em uma câmara de isolamento, onde as pessoas competem contra suas próprias sombras digitais. A experiência passa a ser pautada por métricas individuais em vez de condições coletivas, corroendo o senso de autonomia.  

Projetando para a Dignidade  

Na era da IA, nos deparamos com questões tanto regulatórias quanto conceituais. Há uma necessidade urgente de explicitar com mais precisão os riscos humanos envolvidos e insistir que a eficiência, por mais útil que seja, não define o propósito do trabalho nem a abrangência total dos direitos dos trabalhadores.  

A questão mais profunda é que o trabalho está sendo cada vez mais executado por sistemas que vão além da simples coleta de informações sobre as pessoas, transformando essas informações em julgamentos, frequentemente sem explicações e com pouquíssimo espaço – e praticamente nenhum direito legal – para contestá-los.  

Alguns governos estão começando a reagir. Na União Europeia, a Lei de Inteligência Artificial trata a IA usada no ambiente de trabalho para contratação, demissão, remuneração e avaliação de desempenho como de “alto risco”, o que significa que as empresas precisam documentar o funcionamento desses sistemas, testá-los quanto a vieses e manter um ser humano no processo. O Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD) também garante aos trabalhadores alguns direitos básicos de acesso aos seus dados e de contestação de decisões totalmente automatizadas que os afetem materialmente.  

Os Estados Unidos, por outro lado, ainda estão tateando em meio a um sistema fragmentado. As leis trabalhistas e de privacidade existentes podem, por vezes, ser ampliadas para abranger a vigilância no local de trabalho ou a pontuação algorítmica, mas a aplicação é desigual e as regras não foram criadas para sistemas que terceirizam o julgamento para modelos. A maior parte da estrutura legal ainda pressupõe a existência de uma pessoa real tomando uma decisão que possa ser apontada como responsável. Cada vez mais, não há ninguém humano envolvido.  

Essa lacuna é importante, porque a lei por si só não vai reequilibrar essa situação. Os trabalhadores precisam de sindicatos, acordos de negociação coletiva e capacidade de organização que realmente podem moldar a forma como esses sistemas são usados ​​na prática. Onde os sindicatos são fortes, eles começaram a reagir: exigindo transparência em relação às ferramentas de monitoramento, limitando o uso de pontuações algorítmicas em medidas disciplinares e salariais e insistindo em revisão humana quando sistemas automatizados sinalizam ou classificam trabalhadores.  

Nada disso é abstrato. É a diferença real entre ter voz em como você é avaliado e descobrir, depois do fato, que você foi avaliado.  

Importa muito quem vê os dados e quem os controla, e também como isso impacta as pessoas, que se sentem constantemente interpretadas por sistemas que não entendem o contexto. A maior parte do trabalho humano não é uma série de resultados claros e mensuráveis. É complexo. Há dias ruins, recuperação, curvas de aprendizado, distrações, improvisação e decisões que não se traduzem facilmente em pontos de dados.  

Em última análise, está em jogo uma espécie de direito à indeterminação: o direito de não ser definido por sistemas que estão sempre tentando inferir que tipo de trabalhador você é a partir de qualquer rastro que você deixe. Ninguém espera estar completamente livre de mensuração — isso não é realista —, mas podemos e devemos esperar um limite para o que essas mensurações podem significar e quanta autoridade elas podem ter.  

Sem esses limites, o trabalho começa a parecer menos algo que você faz e mais algo em que você está sendo constantemente transformado. Quando isso acontece, o trabalhador é reduzido a um mero perfil que é continuamente atualizado e eternamente avaliado. 

 Isso não significa argumentar que a IA não tenha lugar no ambiente de trabalho. Essa questão já foi debatida, e muitas ferramentas podem ser úteis se aplicadas de forma ponderada e transparente, com ampla participação dos trabalhadores. A questão é: elas serão ferramentas que apoiam os seres humanos e a prosperidade compartilhada, ou permitiremos que sejam o meio mais recente pelo qual a gestão extrai mais controle e menos resistência?  

Apenas um desses caminhos abre espaço para a dignidade 

O direito de não ser definido por sistemas que estão sempre tentando inferir que tipo de trabalhador você é a partir de qualquer rastro que você deixe. Ninguém espera estar completamente livre de avaliações — isso não é realista —, mas podemos e devemos esperar um limite para o que essas avaliações podem significar e quanta autoridade elas podem ter. Sem esses limites, o trabalho começa a parecer menos algo que você faz e mais algo em que você está sendo constantemente transformado. Quando isso acontece, o trabalhador é reduzido a um mero perfil que é continuamente atualizado e eternamente avaliado. Isso não significa argumentar que a IA não tenha lugar no ambiente de trabalho. Essa questão já está ultrapassada, e muitas ferramentas podem ser úteis se aplicadas de forma ponderada e transparente, com ampla participação dos trabalhadores. A questão é: elas serão ferramentas que apoiam os seres humanos e a prosperidade compartilhada, ou permitiremos que sejam o meio mais recente pelo qual a gestão extrai mais controle e menos resistência?  

Apenas um desses caminhos abre espaço para a dignidade. 

“Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações  e, portanto, sem a revisão dos autores. As opiniões expressas são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente as visões do ODTI. O texto original contêm os links para as referências.