Do MTST aos Brics: o debate sobre como o Brasil pode alcançar soberania digital

A urgência da soberania digital brasileira foi o eixo do Plano de Metas discutido no último programa do Projeto Brasil no YouTube, com a participação de Isabela Rocha-Dashicheva, presidente do Fórum para Tecnologia Estratégica dos Brics+Felipe Bonel, coordenador do núcleo de tecnologia do MTST, que vem desenvolvendo projetos de autonomia digital e de construção de infraestruturas brasileiras próprias.

A pesquisadora destacou o lançamento do Índice de Soberania Digital,  , que posiciona o país em uma situação alarmante de dependência tecnológica. Isabela Rocha explica que o Brasil ocupa apenas a 48ª posição mundial, empatado com a Ucrânia e o Cazaquistão, apresentando fragilidades críticas em infraestrutura de hardware e armazenamento de dados, apesar de possuir vastas reservas de minerais estratégicos.

Isabela destaca que o Brasil possui todos os insumos necessários — como a maior reserva de terras raras do mundo, profissionais qualificados e excedente de energia — mas carece de “coragem política” para enfrentar as Big Techs. Ela critica incentivos fiscais dados a empresas estrangeiras enquanto nacionais lutam para competir.

Além disso, analisa modelos internacionais, citando que a China lidera o índice por seu planejamento de longo prazo, enquanto o modelo russo foca na resiliência pós-sanções e o europeu na governança e regulação. 

Felipe Bonel apresentou uma iniciativa inovadora do MTST, que constrói infraestruturas próprias e promove o letramento digital popular em periferias para reduzir a dependência de gigantes estrangeiras. Ele apresentou o conceito de “soberania digital popular”, defendendo que a tecnologia deve ser ocupada como um território e construída pelas mãos de quem luta.

Bonel detalhou experiências práticas do movimento, como a plataforma “Contrate Quem Luta”, que utiliza inteligência artificial para conectar trabalhadores do movimento a contratantes, o projeto de um data center popular, o uso de softwares livres para substituir ferramentas de Big Techs e a criação de hotspots de internet livre para a população em cozinhas solidárias, que fornece acesso a internet com responsabilidade, impedindo e letrando sobre o uso de plataformas de apostas digitais, ‘tigrinho’ ou de web prostituição.

Os especialistas Do MTST aos Brics: o debate sobre como o Brasil pode recuperar sua soberania digitalargumentaram que a autonomia do país exige coragem política para investir em soluções nacionais e romper com o modelo de exportação de commodities. A discussão enfatizou que o controle sobre os Data Centers e a governança de dados são fundamentais para a proteção da democracia e o desenvolvimento estratégico do Estado.

O tema integra o Plano de Metas 2 do Projeto Brasil, leia a íntegra aqui: Data Centers como Motor de Reindustrialização Tecnológica.

Confira a íntegra deste episódio no YouTube da TV GGN:

Da Embraer à “Embramar”: especialistas propõem novo projeto nacional de Defesa

A indústria de Defesa brasileira, sob a ótica da soberania nacional e das novas tensões geopolíticas, deve ser reformulada, diante da falta de governança integrada entre as Forças Armadas e a ausência de uma elite política que compreenda a Defesa como pilar do desenvolvimento. 

Essa foi a conclusão do grupo de pesquisadores reunidos no programa “Indústria de Defesa: da soberania nacional às tecnologias do futuro”, do Plano de Metas do Projeto Brasil

Com sólida experiência em Segurança Internacional e Defesa Nacional, o professor de Relações Internacionais da UnB, Antônio Ramalho, defendeu uma mudança profunda na doutrina militar brasileira, argumentando que o país deve parar de focar exclusivamente no “inimigo interno” e começar a se preocupar com ameaças externas reais.

“É preciso mudar a doutrina; é preciso que os militares brasileiros comecem a entender que aquele Estado antes percebido como o principal e primeiro aliado pode vir a ser a ameaça“, apontou.

Ele enfatizou que a Governança de Defesa precisa ser restabelecida com uma visão estratégica de longo prazo, que inclua a integração das burocracias do Estado e que uma das nossas maiores vulnerabilidades é “o estabelecimento de projetos estratégicos” nacionais.

Nesse sentido, Marcos Barbieri, professor da Unicamp e um dos principais especialistas do país em Indústria Aeroespacial e de Defesa também focou na importância do desenvolvimento tecnológico nacional com a integração entre as Forças Armadas, Universidades e o setor privado.

Ele apresentou como a transferência de tecnologia no projeto dos caças Gripen fortaleceu a engenharia local. O DNA do Gripen é também um pouco verde e amarelo; houve um ganho que nós não teríamos em hipótese alguma com o caça francês e com o caça americano”, afirmou. 

Barbieri também enfatizou a importância de modelos como o da Embraer para criar empresas de capital nacional que desenvolvam propriedade intelectual e garantam autonomia estratégica ao país. Nessa linha, criticou a política macroeconômica brasileira, que, segundo ele, sabota a indústria e os “players” nacionais, “tanto do ponto de vista da Defesa quanto do ponto de vista da oferta”.

O exemplo da Embraer e do Gripen contrastam com a crise de obsolescência enfrentada pela Marinha na proteção da Amazônia Azul. A análise foi do mestre em Estudos Marítimos pela Escola de Guerra Naval (EGN), Felipe Sales.

Ele propôs a criação de uma “Embramar”, uma empresa naval de capital nacional inspirada no modelo da Embraer, para desenvolver projetos de propriedade intelectual brasileira e competir no mercado global. “O modelo Embraer precisa ser expandido… tem que ser uma empresa brasileira que desenvolva tecnologia própria, projetos próprios e crie produtos de propriedade intelectual brasileira”, defendeu.

Sales também alertou para os riscos da dependência tecnológica em setores críticos como inteligência artificial e comunicações, fundamentais para a segurança do Estado no século XXI.

O tema integra o Plano de Metas 4 do Projeto Brasil, leia a íntegra aqui: Transformando a Indústria da Defesa.

Assista à íntegra do espisódio no programa do Projeto Brasil no YouTube da TVGGN:

Seminário: Qual deve ser o próximo grande Plano de Metas do Brasil?

O que o Brasil precisa fazer para recuperar sua capacidade de planejar o futuro? Setenta anos após o audacioso Plano de Metas de Juscelino Kubitschek, quais são os desafios para construir uma estratégia nacional capaz de recolocar o país na rota da industrialização, da inovação e da soberania?

Essas são algumas das questões que estarão no centro do seminário “De JK a Lula: O que falta ao Brasil para traçar um Plano de Metas?”, promovido pelo Projeto Brasil/Jornal GGN, em parceria com a TV GGN e com apoio da Emgea (Empresa Gestora de Ativos). O debate será realizado na quinta-feira, 16 de julho, às 18h, com transmissão online e gratuita.

Mediado pelo jornalista Luis Nassif, o encontro reunirá especialistas que ocupam posições estratégicas na formulação e na análise das políticas de desenvolvimento do país: 

Uallace Moreira

Secretário de Desenvolvimento Industrial, Comércio, Serviços e Inovação do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), economista e um dos formuladores da Nova Indústria Brasil. Abordará o papel da política industrial como instrumento para ampliar a competitividade, a inovação e a soberania econômica brasileira.

Frederico Rocha

Professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), referência em economia industrial, produtividade e desenvolvimento. Discutirá os desafios para reconstruir a capacidade produtiva nacional e elevar a complexidade tecnológica da economia brasileira.

Daniel Aarão Reis

Historiador, professor do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense (UFF) e um dos principais estudiosos da história política brasileira contemporânea. Trará a perspectiva histórica de Juscelino Kubitschek, os ciclos de desenvolvimento do país e os desafios para transformar projetos de governo em políticas permanentes de Estado.

O debate

O seminário parte de um diagnóstico: depois de décadas de desindustrialização e crescente dependência da exportação de commodities, o Brasil enfrenta o desafio de reconstruir sua capacidade de formular políticas de longo prazo.

Inspirado no legado do Plano de Metas de JK — que transformou a estrutura produtiva brasileira ao combinar planejamento, investimento e coordenação estatal — o debate propõe discutir uma questão decisiva:

Como construir um projeto de Estado capaz de sobreviver aos ciclos políticos e devolver ao país a capacidade de planejar seu próprio desenvolvimento?

Sete décadas depois dos “50 anos em 5”, a proposta é discutir quais devem ser as novas metas nacionais para enfrentar os desafios da economia do século XXI, marcada pela corrida tecnológica, pela transição energética, pela reindustrialização, pela disputa geopolítica por recursos estratégicos e pela construção de uma arquitetura de governança capaz de transformar planejamento em execução, protegendo projetos estruturantes da volatilidade política e das mudanças de governo.

Outro eixo central será o debate sobre como recuperar as capacidades do Estado brasileiro para definir prioridades, coordenar investimentos e impulsionar inovação em áreas estratégicas, articulando reindustrialização, transição ecológica e transformação digital como motores de um novo ciclo de desenvolvimento nacional.

O encontro integra a série especial Plano de Metas, iniciativa do Projeto Brasil que reúne pesquisadores, gestores públicos e especialistas para discutir propostas concretas para um novo ciclo de desenvolvimento nacional em áreas estratégicas como minerais críticos, soberania digital, economia da Amazônia, indústria de defesa e desenvolvimento territorial.

Mais do que revisitar o passado, o seminário convida o público a refletir sobre uma pergunta que ganha cada vez mais relevância diante das transformações da economia global:

Qual deve ser o próximo grande Plano de Metas do Brasil?

ANOTE NA AGENDA!