Política Industrial: a atuação do BNDES, o modelo KfW e a Nova Indústria Brasil

Política Industrial e Condicionalidades: Uma Análise Comparativa entre a Atuação do BNDES, o Modelo KfW e a Estratégia Nova Indústria Brasil

José Luis Oreiro

Resumo: Este artigo analisa a eficácia das políticas industriais contemporâneas sob a ótica das condicionalidades de comportamento empresarial, contrastando as práticas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) com os referenciais teóricos de Mazzucato e Rodrik e o modelo de sucesso do banco alemão KfW. O estudo fundamenta-se na necessidade de superar a desindustrialização prematura brasileira e promover uma mudança estrutural ecológica. Através de uma revisão bibliográfica e análise de estudos de caso, investiga-se se o financiamento público brasileiro induz transformações reais na produtividade e sustentabilidade ou se limita à seleção de firmas já produtivas. Os resultados indicam que, enquanto o modelo de Mazzucato e Rodrik exige condicionalidades comportamentais explícitas (direcionalidade, reinvestimento e compartilhamento de lucros), o BNDES ainda opera predominantemente com critérios de elegibilidade financeira e legal. A análise da “Nova Indústria Brasil” (NIB) revela uma dualidade estratégica: o sucesso de programas modernos e setoriais como o MOVER coexiste com instrumentos tradicionais ambientalmente neutros e concentrados regionalmente. Conclui-se que a transição para uma economia de baixo carbono exige a transposição de critérios de sustentabilidade para o núcleo de todos os instrumentos de fomento, transformando os subsídios em “acordos” que promovam o valor público e a produtividade intrasetorial, especialmente em micro e pequenas empresas.

Palavras-Chave: Política Industrial, Condicionalidades, Desindustrialização Prematura, Nova Indústria Brasil.

1.     Introdução

A política industrial vive um ressurgimento global, impulsionado pela percepção de que o Estado não deve apenas corrigir falhas de mercado, mas atuar como um agente formador e direcionador do crescimento econômico. No contexto contemporâneo, a discussão não gira em torno da existência ou não de tais políticas, mas sim de como desenhá-las para que sejam verdes, inclusivas e resilientes. Um elemento central nesse novo paradigma é o conceito de condicionalidade, definido como o conjunto de responsabilidades e compromissos que as empresas privadas devem assumir em troca de benefícios públicos, como subsídios, empréstimos ou incentivos fiscais.

No Brasil, esse debate é urgente. O país enfrenta um processo de desindustrialização prematura caracterizado pela queda contínua da participação da indústria de transformação no Produto Interno Bruto (PIB) e no emprego, antes mesmo de atingir altos níveis de renda per capita.1 Esse fenômeno é acompanhado por uma “heterogeneidade estrutural”, onde coexistem ilhas de alta produtividade voltadas à exportação com uma vasta massa de empresas de baixa produtividade, majoritariamente micro e pequenas empresas (MPEs) que respondem por cerca de três quartos da força de trabalho. A estratégia para superar esse cenário exige políticas que não apenas injetem capital, mas que induzam mudanças comportamentais e tecnológicas.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) tem sido historicamente o braço financeiro dessa estratégia. No entanto, evidências empíricas sugerem que o impacto do seu financiamento na produtividade varia drasticamente conforme o tamanho da empresa. Enquanto micro e pequenas empresas apresentam ganhos marginais significativos ao acessar o crédito, o benefício para grandes empresas é muitas vezes marginal, sugerindo que o banco pode estar meramente selecionando firmas já eficientes em vez de induzir novos comportamentos. Este relatório busca confrontar essa realidade com a taxonomia de condicionalidades proposta por Mazzucato e Rodrik (2026), utilizando o caso do banco alemão KfW como parâmetro de excelência em condicionalidades comportamentais voltadas à eficiência energética.

Ademais, analisa-se a política “Nova Indústria Brasil” (NIB), lançada em 2024, que tenta adotar uma abordagem orientada por missões. O desafio central é verificar se os instrumentos práticos da NIB atendem aos critérios de direcionalidade e valor público ou se repetem erros do passado, como a neutralidade ambiental e a concentração regional de recursos. O objetivo final deste artigo é fornecer uma base teórica e empírica para a reformulação das políticas de crédito e fomento industrial no Brasil, visando uma reindustrialização sustentável e inclusiva.

Este artigo contribui para o avanço do conhecimento ao aplicar uma matriz analítica inédita que integra a taxonomia de Mazzucato e Rodrik (2026) com a realidade da produtividade brasileira por porte de empresa. A pesquisa preenche uma lacuna crítica ao demonstrar que a eficácia da política industrial não depende apenas do volume de crédito, mas da “asimetria de incentivos”: condicionalidades devem ser mais rígidas para grandes corporações (para evitar a busca de renda/rent-seeking) e facilitadoras para MPEs (para superar restrições de capital e escala).

Além disso, o estudo fornece um diagnóstico detalhado da NIB, distinguindo entre o discurso de “neoindustrialização verde” e a prática instrumental. A identificação da “neutralidade ambiental” em instrumentos horizontais como o PROEX serve como um alerta para formuladores de políticas sobre a necessidade de internalizar critérios climáticos em todos os contratos de fomento, transformando o BNDES de um banco de liquidez em um articulador de inovações orientadas por missões. Essa integração entre teoria econômica de ponta e análise empírica de política pública brasileira representa um passo essencial para uma estratégia nacional de desenvolvimento que seja tecnicamente viável e socialmente legítima.

2.     Referencial Teórico

2.1. O Estado Empreendedor e a Nova Política Industrial

A fundamentação teórica de Mazzucato e Rodrik (2026) parte da premissa de que o Estado deve atuar como um “Estado Empreendedor” que molda mercados através de políticas orientadas por missões.1 Ao contrário da visão neoclássica que limita o Estado ao papel de consertador de falhas de mercado, essa abordagem sustenta que o setor público deve assumir riscos em áreas de alta incerteza tecnológica para gerar retornos sociais e ambientais. Para que essa parceria público-privada seja legítima e eficaz, é necessário que os riscos e as recompensas sejam socializados, evitando que o Estado cubra apenas os prejuízos enquanto o setor privado privatiza os lucros.

Nesse cenário, as condicionalidades deixam de ser vistas como entraves burocráticos para se tornarem ferramentas de “direcionalidade”. Elas garantem que o crescimento não seja apenas quantitativo, mas orientado para a redução de desigualdades e a sustentabilidade. O conceito de “autonomia enraizada” de Evans (1995) é recuperado para descrever a relação ideal entre o Estado e as firmas: uma ligação estreita o suficiente para que o governo tenha informação técnica, mas autônoma o bastante para evitar a captura por interesses privados.

2.2. Taxonomia de Condicionalidades

Mazzucato e Rodrik (2026) desenvolvem uma taxonomia detalhada para categorizar as condicionalidades em quatro dimensões fundamentais, apresentadas na Tabela 1. É crucial distinguir entre “critérios de elegibilidade” e “condicionalidades comportamentais”. Os primeiros são pré-requisitos para acessar o benefício (como o tamanho da empresa), enquanto os segundos exigem que a firma realize ações que não faria de outra forma, muitas vezes consideradas custos adicionais pelo setor privado.

Tabela 1: Taxonomia de Condicionalidades segundo Mazzucato e Rodrik (2026)

Fonte: Elaboração do autor com base em Mazzucato e Rodrik (2026).

2.3. Novo Desenvolvimentismo Verde e Produtividade

O Novo Desenvolvimentismo Verde (NDV) complementa essa visão ao focar na Mudança Estrutural Ecológica (ESC). A ESC propõe a transferência de recursos de setores intensivos em carbono para setores de alta produtividade verde. No Brasil, essa transição enfrenta o obstáculo da “doença holandesa”, onde a sobrevalorização cambial causada pela exportação de commodities primárias prejudica a competitividade da indústria manufatureira.

A produtividade do trabalho, definida como valor adicionado por unidade de trabalho, é o indicador central dessa transformação. Orsolin e Nogueira (2026) argumentam que a estratégia de produtividade nacional deve focar em melhorias intra-setoriais, dado que as MPEs operam muito abaixo de seu teto tecnológico. Investimentos em máquinas modernas e serviços de organização produtiva nestas empresas geram ganhos marginais superiores devido à sua baixa intensidade inicial de capital.

3.     Estudos de Caso

Caso 1: O Modelo de Eficiência Energética do Banco KfW (Alemanha)

O KfW, segundo maior banco da Alemanha, implementou programas de construção e renovação energeticamente eficientes que são referência global em condicionalidade. O setor de construção na Alemanha responde por cerca de 30% das emissões de gases de efeito estufa (GEE), tornando a descarbonização dessa área uma missão prioritária.

O programa utiliza a classificação “KfW Efficiency House”, que mede o consumo de energia primária de um edifício em relação a um padrão de referência. A condicionalidade opera através de um mecanismo de incentivos financeiros ex-post:

Os resultados demonstram um multiplicador econômico notável: para cada Euro investido pelo Estado nos programas do KfW, retornaram cerca de 4 Euros através de arrecadação de impostos (como o VAT de 19%), redução de custos com desemprego e contribuições sociais (Mazzucato e Rodrik, 2026, p. 10).  Além disso, o programa gerou aproximadamente 64.000 empregos em tempo integral, três quartos dos quais em MPEs.

Caso 2: O Financiamento do BNDES e a Produtividade no Brasil

A análise de Orsolin e Nogueira (2026) sobre o BNDES foca na relação entre o crédito e a produtividade do trabalho no setor manufatureiro entre 2009 e 2020. O estudo utiliza modelos de painel dinâmico (System GMM) para isolar o efeito do crédito, corrigindo o problema da endogeneidade — o fato de que empresas mais produtivas têm mais facilidade em atender aos critérios formais do banco. Os resultados do estudo são reportados na Tabela 2 abaixo.

Tabela 2: Impacto dos Empréstimos do BNDES na Produtividade do Trabalho por Tamanho de Empresa.

Fonte: Elaboração do autor com base em Orsolin e Nogueira (2026).

Os critérios para concessão de empréstimos do BNDES são descritos como puramente financeiros e legais: conformidade fiscal e social, histórico de crédito satisfatório, capacidade de pagamento e garantias suficientes (colaterais). Não há menção no corpo principal das normas de crédito a condicionalidades que exijam mudanças de comportamento proativas, como metas de inovação verde ou compartilhamento de royalties em troca do subsídio na taxa de juros.

Caso 3: A Nova Indústria Brasil (NIB) e o Programa MOVER

A política NIB (2024-2026) representa a tentativa do governo brasileiro de estruturar a política industrial em torno de seis missões, com uma expectativa de R$ 300 bilhões em recursos. A análise de Pereira (2025) destaca o Programa Mobilidade Verde e Inovação (MOVER) como o exemplo mais bem-sucedido de alinhamento com a nova política industrial.

O MOVER (Lei nº 14.902/2024) institui requisitos obrigatórios de eficiência energético-ambiental para fabricantes de veículos. Ele utiliza um sistema de “créditos financeiros” ex-post, onde as empresas recebem benefícios baseados em investimentos efetivamente realizados em P&D e inovação. Diferente de políticas puramente horizontais, o MOVER exige que 2% das importações de autopeças sejam investidas em parcerias com universidades e ICTs nacionais. No entanto, o programa ainda sofre com uma concentração regional severa, com 98% dos projetos em 2024 localizados no Sul e Sudeste, revelando uma falha na dimensão de justiça social e inclusão.

4. Análise Comparativa e Resposta às Questões

A.  Os empréstimos do BNDES atendem aos quesitos de condicionalidades de Mazzucato e Rodrik? Por quê?

Com base na evidência disponível, os empréstimos padrão do BNDES não atendem aos quesitos de condicionalidades de Mazzucato e Rodrik.1 O banco opera fundamentalmente sob uma lógica de “critérios de elegibilidade” financeiros e administrativos, em vez de “condicionalidades comportamentais” transformadoras.

A análise de Mazzucato e Rodrik (2026) enfatiza que condicionalidades devem ser “acordos” (deals) onde o benefício é proporcional à mudança de comportamento da firma em direção ao bem público. No BNDES, os critérios citados são: regularidade fiscal, capacidade de pagamento, garantias reais e não estar em regime de recuperação de dívida. Esses elementos garantem a saúde financeira do banco, mas não direcionam a firma para objetivos como descarbonização, aumento salarial ou reinvestimento obrigatório de lucros em P&D. Além disso, a gestão do banco é caracterizada como tendo uma relação por vezes “subserviente” às necessidades imediatas do negócio, carecendo da “healthy tension” (tensão saudável) necessária para empurrar as empresas para novas trajetórias tecnológicas. O fato de grandes empresas receberem o crédito sem apresentar ganhos de produtividade adicionais reforça a tese de que o banco atua como um provedor de liquidez para firmas que já operam no teto de sua eficiência, sem exigir a “adicionalidade” comportamental requerida pela taxonomia de Mazzucato e Rodrik (2026)

B.  Mudanças sugeridas nos critérios de concessão do BNDES para a NIB

Para alinhar o BNDES aos objetivos da Nova Indústria Brasil e à taxonomia de Mazzucato e Rodrik, propõem-se as seguintes mudanças estruturais nos critérios de concessão:

C.  A política industrial brasileira definida no Nova Indústria Brasil (NIB) atende aos quesitos de Mazzucato e Rodrik?

A NIB atende aos quesitos de Mazzucato e Rodrik de forma parcial e inconsistente. Existe uma “dualidade” no desenho da política:

Portanto, a NIB possui uma “casca” de direcionalidade por meio de suas seis missões, mas o seu “núcleo” financeiro ainda está fortemente ancorado em lógicas de fomento clássicas que não integram plenamente a taxonomia de condicionalidades comportamentais em todos os eixos.

D. Problemas e inconsistências da NIB

A análise detalhada aponta para cinco grandes problemas e inconsistências na estratégia atual da NIB:

6. Conclusões

A análise comparativa permite concluir que a política industrial brasileira se encontra em uma encruzilhada de paradigmas. De um lado, a ambição da “Nova Indústria Brasil” busca alinhar o país às melhores práticas globais de Estado Empreendedor e missões verdes. De outro, a prática institucional do BNDES e de outros órgãos de fomento ainda está fortemente enraizada em critérios de elegibilidade financeiros que não garantem a transformação comportamental das firmas.

O sucesso do modelo KfW na Alemanha demonstra que a condicionalidade ex-post, vinculada a benefícios financeiros tangíveis (como o bônus de reembolso), é uma ferramenta poderosa para direcionar investimentos privados para o bem comum. No Brasil, a evidência de que o BNDES gera ganhos reais de produtividade apenas onde há escassez crítica de capital (MPEs) sugere que o banco deve repensar sua atuação junto às grandes empresas, exigindo destes compromissos explícitos de inovação aberta, descarbonização e reinvestimento produtivo.

A superação da desindustrialização prematura e a efetivação de uma mudança estrutural ecológica dependem de uma reorientação estratégica: o fim do fomento “ambientalmente neutro”. Programas como o MOVER devem deixar de ser a exceção para se tornarem a regra da política industrial nacional. É imperativo que a NIB supere sua fragmentação, integrando condicionalidades de sustentabilidade e inclusão social no núcleo de todos os seus instrumentos, garantindo que cada Real investido pelo Estado contribua não apenas para o lucro privado, mas para a construção de uma economia mais complexa, verde e equitativa.

Referências Bibliográficas

MAZZUCATO, Mariana; RODRIK, Dani. Industrial policy with conditionalities: a taxonomy and sample cases. Industrial and Corporate Change, v. 00, n. 00, p. 1-27, 2026. doi:10.1093/icc/dtaf063.

ORSOLIN, Felipe; NOGUEIRA, Mauro Oddo. BNDES financing and labor productivity in Brazil: an analysis by company size. Investigación Económica, v. 85, n. 336, Primavera 2026. http://dx.doi.org/10.22201/fe.01851667p.2026.336.92114.

PEREIRA, Bruna Rodrigues. Novo Desenvolvimentismo Verde e Reindustrialização: Um Estudo das Iniciativas Públicas no Brasil (2023-2024). 2025. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Ciências Econômicas) – Universidade de Brasília, Brasília, 2025.

Sobre José Luis Oreiro: Doutor em Economia da Indústria e da Tecnologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2000), Professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e Pesquisador Nível I do CNPq. Tem experiência na área de Economia, com ênfase em Dinâmica Macroeconômica, atuando principalmente nos seguintes temas: Acumulação de capital, crescimento econômico, autonomia de política monetária, taxa de juros e dinâmica não linear. Publicou cerca de 70 artigos em revistas cientificas no Brasil e no exterior como, por exemplo, o Journal of Post Keynesian Economics, International Review of Applied Economics, Investigacion Economica, Revista Brasileira de Economia, Revista de Economia Política e Estudos Econômicos. É co-organizador do livro “Agenda Brasil – políticas econômicas para crescimento com estabilidade de preços” publicado pela Monole em 2003, do livro “Sistema Financeiro: uma analise do setor bancário brasileiro” publicado pela Campus em 2007 e do livro “Política Monetária, Bancos Centrais e Metas de Inflação”, agraciado com o prêmio COFECON como melhor livro de economia do ano de 2009. Leciona as disciplinas de Evolução das Idéias Econômicas e Sociais (EVIES), macroeconomia III, Macroeconomia do Desenvolvimento e Crescimento e Distribuição nos cursos de graduação e pós-graduação em economia da FACE/UNB. Recebeu duas vezes o Prêmio Brasil de Economia (COFECON), em 2005 e 2005, em 2º lugar na categoria artigo, o Prêmio SOF de Monografias 2007 (2º lugar) e o Prêmio Cofecon 2010 (1 lugar). Está classificado entre os 10% mais produtivos economistas do Brasil segundo o critério REPEC da Universidade de Connecnicut. É pesquisador 1C do CNPq e diretor de relações institucionais da Associação Keynesiana Brasileira.

Novas montadoras e novas relações de trabalho no Brasil

ODTI

Neste texto Mike Elk, um jornalista estadunidense que vêem bastante ao Brasil, fala da presença das montadoras chinesas no país, da saída das marcas americanas do mercado, do fim das relações dos sindicatos brasileiros com o UAW – o United Auto Workers, o sindicato das montadoras daquela país. Ele entrevista Miguel Torres, presidente da Força Sindical e outros dirigentes sindicais.

Devido à extensão do texto nós vamos dividi-lo em duas partes, focando primeiramente na presença da BYD no Brasil nesta primeira parte. Na segunda parte traremos a questão sindical, com a relação dos sindicatos brasileiros com o UAW e com as empresas chinesas no Brasil. 

O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais, vinculado ao Instituto Lavoro traduziu este texto do Payday Report, cujo fundador e autor desta reportagem ´é um amigo do Brasil. Mike Elk é um jornalista indicado ao Emmy.

Com a saída de montadoras e sindicatos dos EUA do Brasil, 

… montadoras chinesas e condições de trabalho por vezes análogas à escravidão tomam conta do mercado.   

Mike Elk, publicado em 13 de abril de 2026

Na semana passada, o governo brasileiro incluiu a BYD, a moderna fabricante chinesa de carros elétricos, na “lista da vergonha” por empregar trabalhadores em “condições análogas à escravidão” em sua nova fábrica de carros elétricos em Camaçari, Brasil. A notícia gerou recursos judiciais da BYD, cuja reputação da marca pode ser arruinada pela decisão.  

A notícia causou grande repercussão no Brasil, onde os novos e elegantes carros da BYD são um sucesso nas ruas, sendo o carro elétrico mais vendido do país, com 110.000 unidades vendidas somente em 2025. Já fazia dois anos que eu não fazia reportagens no Brasil, e fiquei impressionado ao notar este carro elegante que eu nunca tinha visto antes. À noite, eu via a linha contínua de luzes da BYD, semelhante a um fio, atravessando o capô. As luzes em forma de cordão eram hipnotizantes e na traseira do carro lia-se a frase “Build Your Dreams” (BYD). (…) 

A substituição dos produtos da GM e da Ford pelos carros chineses da BYD sinaliza uma mudança mais ampla, com a China substituindo os Estados Unidos como principal parceiro comercial do Brasil. Ao mesmo tempo, significa uma mudança de postura, deixando de negociar com as Três Grandes, que negociavam com o sindicato UAW nos EUA, para lidar apenas com sindicatos chineses mais fracos, sem independência e sob a jurisdição do Partido Comunista Chinês.  

Atualmente, mais de 6.000 trabalhadores brasileiros estão empregados na fábrica da BYD em Camaçari, Bahia. Por 20 anos, a unidade foi uma fábrica da Ford, mas em 2021, a Ford encerrou toda a produção no Brasil, transferindo a produção para mão de obra mais barata na Argentina e em outros países. Enquanto a GM e a Volkswagen continuavam com as demissões, a BYD expandiu e revitalizou a decadente cidade automobilística de Camaçari, com o apoio do presidente Lula, um ex-líder sindical dos trabalhadores da indústria automobilística, que exaltava os investimentos chineses no setor. 

Enquanto a GM e a Volkswagen continuavam com as demissões, a BYD expandiu e revitalizou a decadente cidade automobilística de Camaçari, com o apoio do presidente Lula, ex-líder sindical dos trabalhadores da indústria automobilística, que exaltava os investimentos chineses no setor.  

“A invasão da BYD aqui foi massiva”, afirma Miguel Torres, líder sindical brasileiro da Força Sindical, com 2,1 milhões de membros. “Ótimos carros — a preços irrisórios — estão sendo vendidos.”

Após uma expansão de US$ 1,1 bilhão da fábrica em Camaçari, a montadora chinesa pretende produzir 600 mil carros por ano no Brasil e exportá-los para o México e a Argentina, além de outros mercados da América Latina.

A expansão da fábrica foi celebrada por muitos sindicalistas como um marco na resistência brasileira ao imperialismo estadunidense, mas a opinião pública sobre a BYD começou a mudar rapidamente.

Em dezembro de 2025, promotores descobriram que 220 trabalhadores chineses contratados por empreiteiras da BYD no estado da Bahia, Brasil, trabalhavam em “condições análogas à escravidão”. Os promotores afirmaram que eles também eram vítimas de tráfico internacional de pessoas. Muitos dos trabalhadores haviam sido recrutados nas regiões mais pobres da China para trabalhar na construção da fábrica da BYD no Brasil.

Sindicatos brasileiros encontram menos apoio de empresas chinesas 

À medida que Trump fecha as portas para empresas americanas e com a expectativa de aprofundamento das relações econômicas entre China e Brasil, muitos líderes sindicais brasileiros se veem navegando por uma nova dinâmica internacional.  

“Não vamos nos opor à parceria Brasil-China. No entanto, precisamos garantir que os trabalhadores sejam respeitados perante nossas leis”, afirma Miguel Torres. “Sabemos que o contexto cultural é diferente, mas os trabalhadores também estão preocupados com a falta de acesso ao movimento sindical.”  

Os sindicatos brasileiros têm se reunido regularmente com autoridades do governo chinês, incluindo a Confederação Nacional dos Sindicatos da China (NFS), ligada ao Partido Comunista Chinês. (…) 

Em julho passado, Trump impôs tarifas ao Brasil em retaliação a uma decisão do Supremo Tribunal Federal que prendeu o ex-presidente Bolsonaro por tentar anular os resultados das eleições de 2020. As tarifas tiveram pouco efeito, já que menos de 1,2% do comércio brasileiro é com os EUA, em comparação com 28% com a China.  

Com a expansão do BRICS para incluir uma dúzia de países, mais de 55% da população mundial agora está representada no bloco. O BRICS contorna o dólar americano, tornando o comércio entre China e Brasil mais lucrativo e reduzindo a influência financeira dos EUA.  

“O BRICS deu uma força tremenda — não apenas ao Brasil e à China, mas a todos esses países. É mais um sistema para resistir ao poder do Norte Global”, afirma Miguel Torres.  

Tradicionalmente, o Partido dos Trabalhadores do Brasil, fundado pelo presidente Lula em 1980, mantinha uma relação bastante cordial com o Partido Comunista Chinês. O Partido Comunista Chinês, juntamente com outros partidos comunistas, apoiou os esforços brasileiros para derrubar a ditadura apoiada pelos EUA que governou o Brasil de 1964 a 1988.  

Após a reconquista da presidência brasileira em 2022, quando o presidente Lula realizou sua primeira visita de Estado à China em seu novo mandato, em 2023, o primeiro-ministro chinês Xi Jinping pediu à banda que o recebesse com a clássica canção brasileira dos anos 1970 “Um Novo Tempo”, que denunciava o imperialismo estadunidense na América Latina. 

“Acredito que a China merece ser vista com mais carinho e sem preconceitos, porque a China é a inovação econômica e tecnológica do século XXI”, disse Lula. “É assim que devemos olhar para a China, com grande apreço e carinho. E é assim que acredito que a China olha para o Brasil.”

Esses laços tradicionais entre Lula, o Partido dos Trabalhadores e a China se aprofundaram ainda mais, à medida que ele busca estabelecer o BRICS, com forte apoio chinês, como uma alternativa à dominação dos EUA sobre os assuntos econômicos da América Latina. 

 “Temos uma relação mais próxima com o Partido Comunista Chinês do que com o governo Trump”, afirma Mauro Ramos, conselheiro executivo da UGT (União Geral dos Trabalhadores). 

Condições análogas à escravidão na fábrica da BYD no Brasil.  

No entanto, com a chegada das montadoras chinesas, surgem preocupações de que elas não respeitem as leis ou os sindicatos brasileiros. Na China, não existem sindicatos independentes; todos estão sob a égide da Federação Nacional dos Sindicatos da China, liderada pelo Partido Comunista Chinês. Os sindicatos independentes na China são proibidos pelo Estado e frequentemente enfrentam severa repressão.  

Miguel Torres afirma que os sindicatos no Brasil têm encontrado dificuldades para lidar com os chineses em questões sindicais.  

“A maioria das empresas chinesas não teve contato com o movimento sindical brasileiro”, diz Torres.  

Em dezembro de 2024, enquanto a expansão da fábrica estava em andamento, o Ministério do Trabalho e Emprego do Brasil realizou uma inspeção surpresa nas instalações que abrigavam 163 trabalhadores chineses enviados para trabalhar na BYD. Constatou-se que os trabalhadores viviam em condições análogas à escravidão nas dependências da fábrica da BYD.  

Em um dos prédios, 31 trabalhadores dormiam no chão sem colchões e compartilhavam um único banheiro, já bastante usado. A área ao redor do banheiro estava coberta por uma “lama excessiva”. Sem refrigeração, os trabalhadores eram obrigados a guardar a comida no chão, que frequentemente ficava infestado de roedores.  

O Ministério do Trabalho e Emprego do Brasil constatou que a BYD e duas de suas empreiteiras chinesas, a China Jinjiang Construction Brazil e a Tecmonta Intelligent Equipment Brazil, praticavam “tráfico de pessoas” ao trazerem os trabalhadores da China, obrigá-los a trabalhar sete dias por semana, confiscar seus passaportes e proibi-los de sair dos prédios apertados onde viviam.  

Uma investigação posterior(*), conduzida pelo correspondente do The Washington Post, Terrence McCoy, revelou que “no trabalho, eles corriam riscos que os trabalhadores brasileiros disseram ser inacreditáveis, como subir em alturas perigosas sem equipamentos de segurança ou trabalhar perigosamente perto de máquinas pesadas”.  

Se os trabalhadores ameaçassem retornar à China em vez de trabalhar, a BYD e suas contratadas ameaçavam reter metade de seus salários, prometendo pagá-los somente se permanecessem até o término de seus contratos. Em três ocasiões, trabalhadores relataram ao The Washington Post que chegaram a presenciar gerentes da BYD agredindo funcionários.  

O Ministério do Trabalho e Emprego do Brasil acusou a BYD de “escravidão” e tráfico de pessoas, concluindo que as condições de vida eram “uma afronta manifesta aos princípios da dignidade humana”.  

Inicialmente, a BYD tentou minimizar as investigações, classificando-as como propaganda americana destinada a prejudicar as relações econômicas entre China e Brasil.  

“Testemunhamos em primeira mão como certas forças externas atuaram maliciosamente em conjunto e nos difamaram deliberadamente, em um esforço para denegrir marcas chinesas, difamar a China e sabotar a amizade entre China e Brasil”, escreveu Li Yunfei, diretor de relações públicas da BYD, no final de 2024, na plataforma de mídia social chinesa Weibo. “Acredito que todos possam ver claramente o que aconteceu. 

”Os trabalhadores da indústria  brasileira não acreditaram nas alegações da BYD e, em vez disso, entraram em greve contra a empresa no ano passado. 

“Se não fizermos nada, nada será feito. Se não construirmos, eles não irão a lugar nenhum!”, disse o operário da construção civil Paulo Henrique Bispo durante a greve. “Queremos trabalhar, suar, construir — porque todos aqui estão lutando por uma causa justa e querem voltar para casa com mais dignidade.”(**)  

Após a greve, a BYD começou a negociar com os sindicatos brasileiros 

“O sindicato interveio, a BYD agora está trabalhando com o sindicato — eles estão ouvindo. As coisas recomeçaram na Bahia porque houve muita mobilização. Eles paralisaram a construção lá na época, eu me lembro”, diz Miguel Torres. “Eles começaram a respeitar o acordo coletivo de trabalho.”  

Por fim, os sindicatos brasileiros se reuniram com a Embaixada da China em Brasília e persuadiram a montadora chinesa a implementar mudanças. “No ano passado, tivemos uma reunião muito produtiva com o embaixador chinês em Brasília”, diz Miguel Torres. “Não somos contra a parceria Brasil-China. No entanto, devemos garantir que os trabalhadores sejam tratados de acordo com nossas leis.”  

Alguns meses depois, em outubro de 2025, o CEO da BYD, Wang Chuanfu, viajou para Camaçari, no Brasil, para participar, ao lado do presidente Lula, da inauguração da grande expansão da fábrica da BYD, que a tornaria a maior fornecedora de veículos elétricos do mundo. 

Enquanto Lula criticava Trump por impor tarifas ao Brasil devido à prisão de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe, Lula destacou a chegada da montadora chinesa e a saída da Ford, uma empresa americana, como sinais de uma nova ordem econômica.  

“Deus sempre tem razão, mesmo quando as coisas estão confusas”, brincou Lula ao lado de Chuanfu. “A Ford nos deixou. Mas isso significa que a BYD chegou”. (Fim da Primeira Parte) 

(*) a matéria de Terrence McCoy, correspondente do Washington Post, encontra-se em https://www.washingtonpost.com/world/2026/03/01/byd-slavery-allegations-brazil /  

(**) Operários da BYD realizam greve contra a superexploração na Bahia https://averdade.org.br/2026/01/operarios-da-byd-realizam-greve-contra-a-superexploracao-na-bahia  

“Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações  e, portanto, sem a revisão dos autores. As opiniões expressas são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente as visões do ODTI. O texto original contêm os links para as referências.