Novas montadoras e novas relações de trabalho no Brasil

ODTI

Neste texto Mike Elk, um jornalista estadunidense que vêem bastante ao Brasil, fala da presença das montadoras chinesas no país, da saída das marcas americanas do mercado, do fim das relações dos sindicatos brasileiros com o UAW – o United Auto Workers, o sindicato das montadoras daquela país. Ele entrevista Miguel Torres, presidente da Força Sindical e outros dirigentes sindicais.

Devido à extensão do texto nós vamos dividi-lo em duas partes, focando primeiramente na presença da BYD no Brasil nesta primeira parte. Na segunda parte traremos a questão sindical, com a relação dos sindicatos brasileiros com o UAW e com as empresas chinesas no Brasil. 

O Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais, vinculado ao Instituto Lavoro traduziu este texto do Payday Report, cujo fundador e autor desta reportagem ´é um amigo do Brasil. Mike Elk é um jornalista indicado ao Emmy.

Com a saída de montadoras e sindicatos dos EUA do Brasil, 

… montadoras chinesas e condições de trabalho por vezes análogas à escravidão tomam conta do mercado.   

Mike Elk, publicado em 13 de abril de 2026

Na semana passada, o governo brasileiro incluiu a BYD, a moderna fabricante chinesa de carros elétricos, na “lista da vergonha” por empregar trabalhadores em “condições análogas à escravidão” em sua nova fábrica de carros elétricos em Camaçari, Brasil. A notícia gerou recursos judiciais da BYD, cuja reputação da marca pode ser arruinada pela decisão.  

A notícia causou grande repercussão no Brasil, onde os novos e elegantes carros da BYD são um sucesso nas ruas, sendo o carro elétrico mais vendido do país, com 110.000 unidades vendidas somente em 2025. Já fazia dois anos que eu não fazia reportagens no Brasil, e fiquei impressionado ao notar este carro elegante que eu nunca tinha visto antes. À noite, eu via a linha contínua de luzes da BYD, semelhante a um fio, atravessando o capô. As luzes em forma de cordão eram hipnotizantes e na traseira do carro lia-se a frase “Build Your Dreams” (BYD). (…) 

A substituição dos produtos da GM e da Ford pelos carros chineses da BYD sinaliza uma mudança mais ampla, com a China substituindo os Estados Unidos como principal parceiro comercial do Brasil. Ao mesmo tempo, significa uma mudança de postura, deixando de negociar com as Três Grandes, que negociavam com o sindicato UAW nos EUA, para lidar apenas com sindicatos chineses mais fracos, sem independência e sob a jurisdição do Partido Comunista Chinês.  

Atualmente, mais de 6.000 trabalhadores brasileiros estão empregados na fábrica da BYD em Camaçari, Bahia. Por 20 anos, a unidade foi uma fábrica da Ford, mas em 2021, a Ford encerrou toda a produção no Brasil, transferindo a produção para mão de obra mais barata na Argentina e em outros países. Enquanto a GM e a Volkswagen continuavam com as demissões, a BYD expandiu e revitalizou a decadente cidade automobilística de Camaçari, com o apoio do presidente Lula, um ex-líder sindical dos trabalhadores da indústria automobilística, que exaltava os investimentos chineses no setor. 

Enquanto a GM e a Volkswagen continuavam com as demissões, a BYD expandiu e revitalizou a decadente cidade automobilística de Camaçari, com o apoio do presidente Lula, ex-líder sindical dos trabalhadores da indústria automobilística, que exaltava os investimentos chineses no setor.  

“A invasão da BYD aqui foi massiva”, afirma Miguel Torres, líder sindical brasileiro da Força Sindical, com 2,1 milhões de membros. “Ótimos carros — a preços irrisórios — estão sendo vendidos.”

Após uma expansão de US$ 1,1 bilhão da fábrica em Camaçari, a montadora chinesa pretende produzir 600 mil carros por ano no Brasil e exportá-los para o México e a Argentina, além de outros mercados da América Latina.

A expansão da fábrica foi celebrada por muitos sindicalistas como um marco na resistência brasileira ao imperialismo estadunidense, mas a opinião pública sobre a BYD começou a mudar rapidamente.

Em dezembro de 2025, promotores descobriram que 220 trabalhadores chineses contratados por empreiteiras da BYD no estado da Bahia, Brasil, trabalhavam em “condições análogas à escravidão”. Os promotores afirmaram que eles também eram vítimas de tráfico internacional de pessoas. Muitos dos trabalhadores haviam sido recrutados nas regiões mais pobres da China para trabalhar na construção da fábrica da BYD no Brasil.

Sindicatos brasileiros encontram menos apoio de empresas chinesas 

À medida que Trump fecha as portas para empresas americanas e com a expectativa de aprofundamento das relações econômicas entre China e Brasil, muitos líderes sindicais brasileiros se veem navegando por uma nova dinâmica internacional.  

“Não vamos nos opor à parceria Brasil-China. No entanto, precisamos garantir que os trabalhadores sejam respeitados perante nossas leis”, afirma Miguel Torres. “Sabemos que o contexto cultural é diferente, mas os trabalhadores também estão preocupados com a falta de acesso ao movimento sindical.”  

Os sindicatos brasileiros têm se reunido regularmente com autoridades do governo chinês, incluindo a Confederação Nacional dos Sindicatos da China (NFS), ligada ao Partido Comunista Chinês. (…) 

Em julho passado, Trump impôs tarifas ao Brasil em retaliação a uma decisão do Supremo Tribunal Federal que prendeu o ex-presidente Bolsonaro por tentar anular os resultados das eleições de 2020. As tarifas tiveram pouco efeito, já que menos de 1,2% do comércio brasileiro é com os EUA, em comparação com 28% com a China.  

Com a expansão do BRICS para incluir uma dúzia de países, mais de 55% da população mundial agora está representada no bloco. O BRICS contorna o dólar americano, tornando o comércio entre China e Brasil mais lucrativo e reduzindo a influência financeira dos EUA.  

“O BRICS deu uma força tremenda — não apenas ao Brasil e à China, mas a todos esses países. É mais um sistema para resistir ao poder do Norte Global”, afirma Miguel Torres.  

Tradicionalmente, o Partido dos Trabalhadores do Brasil, fundado pelo presidente Lula em 1980, mantinha uma relação bastante cordial com o Partido Comunista Chinês. O Partido Comunista Chinês, juntamente com outros partidos comunistas, apoiou os esforços brasileiros para derrubar a ditadura apoiada pelos EUA que governou o Brasil de 1964 a 1988.  

Após a reconquista da presidência brasileira em 2022, quando o presidente Lula realizou sua primeira visita de Estado à China em seu novo mandato, em 2023, o primeiro-ministro chinês Xi Jinping pediu à banda que o recebesse com a clássica canção brasileira dos anos 1970 “Um Novo Tempo”, que denunciava o imperialismo estadunidense na América Latina. 

“Acredito que a China merece ser vista com mais carinho e sem preconceitos, porque a China é a inovação econômica e tecnológica do século XXI”, disse Lula. “É assim que devemos olhar para a China, com grande apreço e carinho. E é assim que acredito que a China olha para o Brasil.”

Esses laços tradicionais entre Lula, o Partido dos Trabalhadores e a China se aprofundaram ainda mais, à medida que ele busca estabelecer o BRICS, com forte apoio chinês, como uma alternativa à dominação dos EUA sobre os assuntos econômicos da América Latina. 

 “Temos uma relação mais próxima com o Partido Comunista Chinês do que com o governo Trump”, afirma Mauro Ramos, conselheiro executivo da UGT (União Geral dos Trabalhadores). 

Condições análogas à escravidão na fábrica da BYD no Brasil.  

No entanto, com a chegada das montadoras chinesas, surgem preocupações de que elas não respeitem as leis ou os sindicatos brasileiros. Na China, não existem sindicatos independentes; todos estão sob a égide da Federação Nacional dos Sindicatos da China, liderada pelo Partido Comunista Chinês. Os sindicatos independentes na China são proibidos pelo Estado e frequentemente enfrentam severa repressão.  

Miguel Torres afirma que os sindicatos no Brasil têm encontrado dificuldades para lidar com os chineses em questões sindicais.  

“A maioria das empresas chinesas não teve contato com o movimento sindical brasileiro”, diz Torres.  

Em dezembro de 2024, enquanto a expansão da fábrica estava em andamento, o Ministério do Trabalho e Emprego do Brasil realizou uma inspeção surpresa nas instalações que abrigavam 163 trabalhadores chineses enviados para trabalhar na BYD. Constatou-se que os trabalhadores viviam em condições análogas à escravidão nas dependências da fábrica da BYD.  

Em um dos prédios, 31 trabalhadores dormiam no chão sem colchões e compartilhavam um único banheiro, já bastante usado. A área ao redor do banheiro estava coberta por uma “lama excessiva”. Sem refrigeração, os trabalhadores eram obrigados a guardar a comida no chão, que frequentemente ficava infestado de roedores.  

O Ministério do Trabalho e Emprego do Brasil constatou que a BYD e duas de suas empreiteiras chinesas, a China Jinjiang Construction Brazil e a Tecmonta Intelligent Equipment Brazil, praticavam “tráfico de pessoas” ao trazerem os trabalhadores da China, obrigá-los a trabalhar sete dias por semana, confiscar seus passaportes e proibi-los de sair dos prédios apertados onde viviam.  

Uma investigação posterior(*), conduzida pelo correspondente do The Washington Post, Terrence McCoy, revelou que “no trabalho, eles corriam riscos que os trabalhadores brasileiros disseram ser inacreditáveis, como subir em alturas perigosas sem equipamentos de segurança ou trabalhar perigosamente perto de máquinas pesadas”.  

Se os trabalhadores ameaçassem retornar à China em vez de trabalhar, a BYD e suas contratadas ameaçavam reter metade de seus salários, prometendo pagá-los somente se permanecessem até o término de seus contratos. Em três ocasiões, trabalhadores relataram ao The Washington Post que chegaram a presenciar gerentes da BYD agredindo funcionários.  

O Ministério do Trabalho e Emprego do Brasil acusou a BYD de “escravidão” e tráfico de pessoas, concluindo que as condições de vida eram “uma afronta manifesta aos princípios da dignidade humana”.  

Inicialmente, a BYD tentou minimizar as investigações, classificando-as como propaganda americana destinada a prejudicar as relações econômicas entre China e Brasil.  

“Testemunhamos em primeira mão como certas forças externas atuaram maliciosamente em conjunto e nos difamaram deliberadamente, em um esforço para denegrir marcas chinesas, difamar a China e sabotar a amizade entre China e Brasil”, escreveu Li Yunfei, diretor de relações públicas da BYD, no final de 2024, na plataforma de mídia social chinesa Weibo. “Acredito que todos possam ver claramente o que aconteceu. 

”Os trabalhadores da indústria  brasileira não acreditaram nas alegações da BYD e, em vez disso, entraram em greve contra a empresa no ano passado. 

“Se não fizermos nada, nada será feito. Se não construirmos, eles não irão a lugar nenhum!”, disse o operário da construção civil Paulo Henrique Bispo durante a greve. “Queremos trabalhar, suar, construir — porque todos aqui estão lutando por uma causa justa e querem voltar para casa com mais dignidade.”(**)  

Após a greve, a BYD começou a negociar com os sindicatos brasileiros 

“O sindicato interveio, a BYD agora está trabalhando com o sindicato — eles estão ouvindo. As coisas recomeçaram na Bahia porque houve muita mobilização. Eles paralisaram a construção lá na época, eu me lembro”, diz Miguel Torres. “Eles começaram a respeitar o acordo coletivo de trabalho.”  

Por fim, os sindicatos brasileiros se reuniram com a Embaixada da China em Brasília e persuadiram a montadora chinesa a implementar mudanças. “No ano passado, tivemos uma reunião muito produtiva com o embaixador chinês em Brasília”, diz Miguel Torres. “Não somos contra a parceria Brasil-China. No entanto, devemos garantir que os trabalhadores sejam tratados de acordo com nossas leis.”  

Alguns meses depois, em outubro de 2025, o CEO da BYD, Wang Chuanfu, viajou para Camaçari, no Brasil, para participar, ao lado do presidente Lula, da inauguração da grande expansão da fábrica da BYD, que a tornaria a maior fornecedora de veículos elétricos do mundo. 

Enquanto Lula criticava Trump por impor tarifas ao Brasil devido à prisão de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe, Lula destacou a chegada da montadora chinesa e a saída da Ford, uma empresa americana, como sinais de uma nova ordem econômica.  

“Deus sempre tem razão, mesmo quando as coisas estão confusas”, brincou Lula ao lado de Chuanfu. “A Ford nos deixou. Mas isso significa que a BYD chegou”. (Fim da Primeira Parte) 

(*) a matéria de Terrence McCoy, correspondente do Washington Post, encontra-se em https://www.washingtonpost.com/world/2026/03/01/byd-slavery-allegations-brazil /  

(**) Operários da BYD realizam greve contra a superexploração na Bahia https://averdade.org.br/2026/01/operarios-da-byd-realizam-greve-contra-a-superexploracao-na-bahia  

“Este texto foi traduzido do inglês com uso de uma ferramenta automática, com pequenas modificações  e, portanto, sem a revisão dos autores. As opiniões expressas são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente as visões do ODTI. O texto original contêm os links para as referências.