O Fim do Tempo da Justiça

O tempo da justiça na era da hiperconectividade

Por Reynaldo Aragon

Este ensaio é uma reflexão sobre como o tempo da justiça, lento e ritualístico, entrou em choque com a velocidade da informação e da política na era da hiperconectividade. Um convite à consciência sobre os riscos de uma sociedade que julga em segundos e esquece em minutos.

O colapso dos tempos.

O século XXI é o século do colapso dos tempos. Vivemos em uma era em que os acontecimentos se atropelam, em que o instante engole o processo e em que a percepção de justiça se constrói muito antes de qualquer sentença. Enquanto os tribunais ainda se movem na cadência lenta do século XIX, com prazos rituais, carimbos e intermináveis carretas de papéis digitais, a informação corre na velocidade do pulso elétrico. Cada segundo perdido na engrenagem da justiça é uma eternidade na lógica hiperconectada. Cada hesitação judicial é interpretada, instantaneamente, como falha ou conivência.

A política aprendeu a se mover nesse novo ritmo. Ela dança ao compasso dos ciclos de notícias e dos algoritmos. O que antes se media em semanas ou meses, agora se mede em horas de trending topics. O parlamentar que discursa hoje, amanhã já é esquecido; o escândalo da manhã é soterrado pelo escândalo da noite. O cálculo estratégico da política contemporânea já não respeita o tempo da deliberação ou da prudência — ele é refém do clique, da curtida, do compartilhamento em massa. A política, em tempos de hiperconectividade, tornou-se espetáculo contínuo e ansioso, incapaz de esperar que a justiça faça o seu curso.

E a informação, soberana, já não é apenas veloz: ela é total. Ela não corre; ela se antecipa. Ela chega antes do fato, molda expectativas e fabrica realidades. O tribunal da opinião pública não precisa de provas formais ou de audiências: basta um vídeo editado, uma manchete sensacionalista ou um post viralizado para selar reputações e definir narrativas. É o tempo dos metaintermediários algorítmicos, essas camadas invisíveis que filtram e organizam o mundo para nós, decidindo o que vemos, quando vemos e como sentimos. Eles controlam o presente e, por isso, controlam a percepção da verdade.

Neste choque de tempos, a justiça parece imóvel. O que foi concebido para ser prudente e sólido se torna, aos olhos do cidadão hiperconectado, lento, frágil e desconectado da realidade. A lentidão, que outrora era virtude, hoje é percebida como cumplicidade ou impotência. O intervalo necessário para a prova, a análise e a decisão — a fricção essencial da prudência jurídica — é interpretado como falha em um mundo que não tolera o atrito. O efeito psicológico é devastador: se a justiça não responde na velocidade da informação, a sociedade conclui, por reflexo, que justiça não há.

Vivemos, portanto, uma era em que o tempo virou campo de batalha. A verdade, a reputação e a história passaram a ser decididas no intervalo entre uma notificação e outra, no tempo líquido dos feeds e das hashtags. A justiça, que só existe enquanto processo, enfrenta agora um adversário invisível: a sociedade não quer mais processos; ela quer sentenças instantâneas. E quem fornece essas sentenças não é o tribunal de toga, mas o tribunal do algoritmo.

O descompasso dos tempos: justiça, política e informação

A história sempre foi feita de ritmos, e cada instituição move-se em um compasso próprio. A justiça tem o seu, a política tem o dela e, hoje, a informação dita um compasso completamente novo. O drama do nosso tempo é que esses ritmos já não se encontram. Eles colidem, se anulam e, no choque, produzem crises de legitimidade e narrativas instantâneas que moldam a percepção social antes mesmo que qualquer fato amadureça.

O tempo da justiça ainda é o tempo da prudência. Ele é lento, ritualístico, quase cerimonial. Cada ato processual carrega a marca da história: prazos, recursos, audiências, perícias, formalidades que traduzem a ideia de que justiça só existe quando amadurece com cautela. Mas, na era da hiperconectividade, essa virtude virou fraqueza percebida. Para o olhar social treinado pela velocidade do feed, a justiça que tarda soa cúmplice, omissa, impotente. O tempo jurídico, que antes garantia segurança, hoje se tornou tempo morto aos olhos do algoritmo.

Enquanto isso, o tempo da política tornou-se líquido, ansioso, performático. Ele é o tempo do espetáculo, condicionado pela cadência da comunicação digital. Não se governa mais apenas para gabinetes ou parlamentos; governa-se para hashtags e trending topics. A política não espera, reage. A cada rumor ou escândalo viralizado, adapta seu discurso à lógica da urgência. Nesse ambiente, o cálculo estratégico de longo prazo cede lugar à reação imediata, e processos judiciais tornam-se armas narrativas — o terreno fértil do lawfare.

Mas o ritmo que realmente domina nossa era é o tempo da informação. Ele não é apenas rápido, ele é imediato, total e preditivo. A informação não espera o fato; ela antecipa e molda o fato. Vivemos sob o comando de metaintermediários algorítmicos, camadas invisíveis que decidem o que vemos, quando vemos e como sentimos. É nesse espaço que uma acusação basta para destruir uma biografia, porque o tribunal do algoritmo funciona em tempo real: a denúncia viraliza, a manchete sela a reputação e a absolvição, anos depois, não corrige o estrago.

Esse descompasso estrutural entre justiça, política e informação é a contradição central do nosso tempo. A justiça precisa do tempo para existir, mas o mundo não lhe concede esse tempo. A política surfa no tempo da informação, mas também é engolida por ele. E a informação, soberana, fabrica o presente e o transforma em narrativa antes mesmo que a história possa ser escrita. É por isso que tribunais são percebidos como inoperantes, reputações são liquidadas em minutos e a sensação de impunidade cresce mesmo diante de processos em curso. No choque de tempos, quem define o real já não é a sentença final; é o frame algorítmico que viraliza primeiro.

Estamos, assim, diante de uma guerra pelo tempo. Uma guerra silenciosa, em que a velocidade da informação captura o imaginário social antes que a justiça possa atuar. No centro desse conflito emerge a lógica que veremos no próximo movimento deste ensaio: a ideologia da fricção zero, a promessa de que tudo precisa fluir sem atrito, inclusive a própria percepção de justiça.

A ideologia da fricção zero e a ditadura do imediato

Vivemos sob o império da fluidez. A sociedade hiperconectada aprendeu a desejar que tudo aconteça sem obstáculos, sem esperas, sem hesitação. É essa lógica que estrutura a ideologia da fricção zero: a promessa de que qualquer atrito — seja ele físico, emocional, cognitivo ou institucional — deve ser eliminado em nome da eficiência e do conforto. A fricção, que historicamente foi o espaço da dúvida, da deliberação e do conflito, é tratada hoje como falha, como erro de sistema. E no capitalismo digital, essa ideologia transcende a esfera da tecnologia: ela se transforma em ontologia política da conveniência, em norma invisível que define como vivemos, como percebemos e até como julgamos o mundo.

Quando aplicada à percepção da justiça, essa ideologia é devastadora. A sociedade, habituada à lógica do clique, da notificação e da resposta imediata, já não tolera os ritos do devido processo. A paciência histórica necessária para que provas sejam colhidas, argumentos confrontados e sentenças amadurecidas cede lugar à ansiedade do feed. Cada intervalo processual é interpretado como impunidade; cada recurso legítimo, como manobra escusa; cada silêncio institucional, como conivência. A justiça, que sobrevive da fricção — da espera, da análise, do contraditório —, é percebida como falha em uma era que glorifica o fluxo contínuo e invisível das decisões instantâneas.

 

A ideologia da fricção zero, no entanto, não opera sozinha. Ela se materializa na ação silenciosa dos metaintermediários algorítmicos, essas camadas técnicas que organizam o tempo e a percepção social. São eles que decidem quais narrativas emergem, quais acusações viralizam e quais reputações são destruídas antes mesmo que a primeira audiência seja aberta. Nessa lógica, a fricção é um inimigo a ser extinto: qualquer espera é substituída por uma resposta preditiva, qualquer dúvida por uma certeza provisória, qualquer processo por uma narrativa. É o triunfo da antecipação sobre a prudência, do frame algorítmico sobre o tempo histórico da justiça.

Sob essa hegemonia, o que está em jogo não é apenas a velocidade da comunicação, mas a própria estrutura da subjetividade social diante da justiça. A opinião pública já não se forma no espaço do debate ou da argumentação; ela é moldada por fluxos contínuos que naturalizam a eliminação do tempo deliberativo. No tribunal do algoritmo, a hesitação é fraqueza, o silêncio é culpa e a espera é inadmissível. O mundo se habituou a viver sem fricção, e a justiça, que existe porque hesita, passa a ser rejeitada pelo simples fato de ser lenta.

Essa transformação não é apenas tecnológica, mas histórica e dialética. Ela revela a contradição entre o modo de produção informacional e a temporalidade das instituições. O capitalismo digital não tolera lentidão, porque a lentidão não gera engajamento nem captura de dados. Cada segundo sem resposta é uma oportunidade de atenção perdida. A justiça, ao insistir em sua temporalidade própria, colide com uma sociedade que internalizou a velocidade como valor e que aprendeu a chamar de justiça qualquer veredito instantâneo que apareça em uma tela. É nesse choque que nascem as crises de legitimidade, os linchamentos virtuais e a corrosão silenciosa do Estado de Direito.

A ditadura do imediato não é neutra. Ela não apenas acelera a vida; ela redefine o que é real. O que não flui desaparece. O que não viraliza, não existe. A justiça que não responde em tempo real é percebida como injustiça, e essa percepção se torna mais poderosa do que qualquer sentença. É nesse terreno que o lawfare prospera, que reputações são liquidadas em minutos e que absolvições tardias se tornam irrelevantes. O tempo histórico da justiça, para sobreviver, precisa enfrentar o tempo do algoritmo — e essa batalha não se vence com carimbos ou despachos, mas com uma nova consciência do tempo na era da hiperconectividade.

Metaintermediação algorítmica e o novo poder sobre o tempo

A percepção social do mundo já não se organiza no tempo humano, mas no tempo do algoritmo. No coração dessa transformação estão os metaintermediários algorítmicos, camadas técnicas invisíveis que observam, interpretam e decidem antes que possamos pensar ou reagir. Eles são mais que ferramentas; são instâncias de poder silencioso, que modulam nossa percepção do real. Ao filtrar o que vemos, quando vemos e como interpretamos, eles controlam o fluxo de atenção e, com ele, o próprio tempo social. No mundo hiperconectado, quem controla o tempo controla a narrativa — e quem controla a narrativa controla a história.

O impacto desse novo poder sobre a justiça é brutal. O tempo processual, que antes era a única referência legítima para a construção da verdade jurídica, torna-se irrelevante diante da velocidade informacional. Um processo que se arrasta por meses ou anos perde qualquer capacidade de determinar a percepção pública, porque o julgamento social já aconteceu na primeira hora de viralização. O cidadão médio não acompanha os autos; ele acompanha o feed. O veredito que importa não é o da sentença final, mas o que emerge da timeline, estruturado por tendências, memes e manchetes instantâneas. Essa substituição do tempo da justiça pelo tempo algorítmico produz um fenômeno que podemos chamar de alienação de segunda ordem: a sociedade delega ao algoritmo a função de decidir, por reflexo, o que é verdadeiro, o que é falso, quem é inocente e quem já deve ser descartado.

Essa alienação não é fruto do acaso. Ela é projetada e operada como tecnologia de poder. As plataformas digitais foram desenhadas para eliminar o atrito da escolha e da reflexão, transformando o fluxo de informação em uma sequência contínua e confortável. O usuário não precisa buscar; ele é servido. Não precisa comparar; ele consome o que já foi filtrado para confirmar suas expectativas. Essa dinâmica é alimentada por heurísticas cognitivas — atalhos mentais que economizam energia e, ao mesmo tempo, tornam a mente vulnerável à captura. Viés de confirmação, heurística da disponibilidade, confiança delegada: todos se combinam para criar uma adesão quase automática às narrativas que circulam. O cidadão não espera a justiça; ele aceita o veredito do algoritmo como fato consumado.

A consequência política dessa transformação é profunda. A justiça, ao manter sua cadência histórica, perde a disputa simbólica antes mesmo de começar. A política, que já opera no ciclo das redes, aprende a instrumentalizar essa dinâmica: vaza documentos seletivos, cria narrativas parciais, aposta em escândalos fabricados que duram dias, porque sabe que a percepção vale mais do que o processo. O lawfare e as estratégias de guerra híbrida florescem nesse ambiente, em que a verdade jurídica é sempre tardia e a narrativa digital é imediata, viral e quase irrecorrível.

A metaintermediação algorítmica, portanto, não é apenas uma nova forma técnica de distribuir informação. Ela é uma tecnologia de tempo, capaz de reorganizar a experiência histórica da sociedade. O instante se torna soberano, e o processo se torna obsoleto. O tribunal do algoritmo opera em tempo real, enquanto o tribunal da justiça opera em tempo morto. Essa discrepância abre um vácuo que corrói instituições e legitima linchamentos virtuais, condenações sociais e execuções simbólicas antes mesmo que a primeira audiência seja concluída.

Nesse ambiente, a justiça não disputa apenas sentenças; disputa sobrevivência temporal. E essa disputa exige consciência estratégica: ou o sistema jurídico aprende a se comunicar e se proteger no tempo da hiperconectividade, ou continuará sendo esmagado pela velocidade do algoritmo. O controle do tempo deixou de ser atributo do relógio ou do calendário; ele passou a ser um instrumento de poder algorítmico. No século XXI, quem comanda o tempo comanda o imaginário, e quem comanda o imaginário decide o destino de pessoas, governos e instituições antes mesmo que qualquer juiz possa proferir a sua palavra.

A justiça no olho do furacão: entre o lawfare e a guerra híbrida

A justiça, em nosso tempo, não é apenas uma instituição jurídica; ela se tornou um território de disputa estratégica. No epicentro da hiperconectividade, tribunais, investigações e decisões judiciais passaram a ser peças de um tabuleiro mais amplo: o da guerra híbrida, em que economia, política, informação e tecnologia se articulam para desestabilizar adversários e moldar percepções globais. Nesse cenário, o tempo da justiça é uma arma de dois gumes: lento demais para o mundo digital, rápido o suficiente para ser explorado como ferramenta de destruição narrativa.

O lawfare é o mecanismo mais evidente dessa exploração. Ele se apoia na lentidão do processo judicial para criar efeitos políticos imediatos, valendo-se da lógica da informação instantânea para construir narrativas irreversíveis. Uma denúncia, uma operação espetacular, um vazamento seletivo — todos esses elementos circulam nas redes com força viral e constroem a percepção de culpa antes mesmo que qualquer prova seja avaliada. Quando a absolvição chega, anos depois, ela não tem o mesmo peso; a reputação já foi demolida e a função política da acusação já cumprida. Nesse ciclo, a justiça é transformada em arma simbólica, e o devido processo legal torna-se pano de fundo para batalhas informacionais de curto prazo.

Essa dinâmica não é restrita ao plano interno. Na era da hiperconectividade e da interdependência digital, o tempo da justiça nacional pode ser manipulado por vetores transnacionais, que integram narrativas de deslegitimação e pressão geopolítica. O lawfare deixa de ser apenas doméstico e se converte em lawfare transnacional, articulado com plataformas digitais, mídia global e mecanismos jurídicos estrangeiros. No caso do Brasil, vimos como processos de alto impacto — de operações anticorrupção a acusações internacionais — foram amplificados por uma arquitetura de guerra híbrida, onde cada ato judicial era convertido em munição narrativa para enfraquecer lideranças políticas, corroer a confiança na democracia e abrir caminho para interesses externos.

A guerra híbrida contemporânea opera em três tempos simultâneos: o tempo jurídico, o tempo político e o tempo informacional. O jurídico, lento, formal e exigente, sustenta a aparência de legalidade. O político, ágil e oportunista, usa cada fase processual como espetáculo. E o informacional, instantâneo e algorítmico, traduz qualquer ato em narrativa global antes mesmo que o papel chegue à mesa do juiz. Essa sincronia manipulada permite que adversários políticos, agentes econômicos ou potências estrangeiras capturem a percepção social, imponham agendas e destruam reputações como quem dispara um meme. O tribunal de toga perde para o tribunal do feed.

No contexto internacional, essa lógica ganhou força nos últimos anos. Processos judiciais passaram a ser sincronizados com ondas de desinformação, campanhas midiáticas e pressões econômicas, criando cenários em que a justiça de um país serve a um roteiro de desestabilização maior. Sanções seletivas, extraterritorialidade de leis estrangeiras e campanhas globais de difamação transformam tribunais nacionais em pontos de apoio para operações psicológicas transnacionais. O efeito prático é claro: o Estado de Direito é corroído por dentro, enquanto a narrativa internacional pinta o país como instável, corrupto ou autoritário.

Para a justiça, esse é o olho do furacão. Se ela se mantém no seu ritmo histórico, corre o risco de perder legitimidade e ser percebida como cúmplice da impunidade. Se acelera, sucumbe à lógica do espetáculo e da instrumentalização política. E, em qualquer dos cenários, o que está em jogo não é apenas a reputação de indivíduos ou governos, mas a própria soberania jurídica e informacional de um país. A justiça nacional se vê cercada, pressionada por ciclos que não controla, enquanto metaintermediários, plataformas e potências externas dominam o campo de batalha do tempo e da percepção.

É por isso que compreender a relação entre tempo, justiça e hiperconectividade deixou de ser apenas um exercício acadêmico: tornou-se uma questão de sobrevivência histórica. Em um mundo em que reputações são liquidadas em minutos e sentenças levam anos, a justiça não disputa apenas processos; ela disputa a própria capacidade de existir como referência de verdade. E essa disputa se dá em meio à tempestade perfeita de lawfare e guerra híbrida, em que o tempo virou a mais letal das armas.

Para onde vamos: o tempo da justiça na era da hiperconectividade

O século XXI nos colocou diante de uma verdade desconfortável: a justiça não é mais apenas um conjunto de ritos e processos, mas uma disputa pelo controle do tempo e da narrativa. O mundo hiperconectado não espera. Ele não tolera hesitação, silêncio ou prudência. A lógica algorítmica transformou a percepção social em fluxo contínuo, e nesse fluxo, reputações podem ser destruídas em minutos, enquanto a verdade formal leva anos para emergir. Se a justiça não aprender a lidar com esse novo ecossistema temporal, corre o risco de perder não apenas legitimidade, mas função histórica.

O caminho para enfrentar esse desafio não está em abandonar o devido processo ou sacrificar garantias em nome da velocidade. O que está em jogo é reconstruir a interface entre justiça, política e informação. É preciso que tribunais, magistrados e instituições compreendam que a batalha não é apenas jurídica, mas também cognitiva e informacional. A justiça precisa aprender a respirar no tempo da hiperconectividade sem abrir mão da sua essência, e isso implica três frentes estratégicas.

A primeira é comunicação institucional inteligente. Não basta decidir; é preciso fazer com que a sociedade compreenda o processo e perceba o sentido das decisões antes que narrativas tóxicas preencham o vácuo. Silêncio absoluto, em tempos de guerra informacional, é ruído que favorece o inimigo. Uma justiça que se comunica de forma pedagógica e tempestiva cria anticorpos contra linchamentos virtuais e contra a captura da percepção pública.

A segunda é integração cognitiva e informacional. O sistema de justiça precisa se proteger da velocidade que o ameaça. Isso exige estratégias de monitoramento de narrativas, inteligência de dados e capacidade de resposta informacional coordenada. Não se trata de militarizar tribunais ou transformá-los em atores políticos, mas de reconhecer que o campo de batalha da percepção já existe, e ignorá-lo é ceder espaço para o lawfare e para a guerra híbrida.

A terceira é educação social e soberania informacional. Nenhuma instituição será capaz de resistir sozinha à ditadura do imediato se a sociedade continuar refém do algoritmo. É preciso formar cidadãos capazes de compreender a diferença entre narrativa viral e justiça real, reconstruindo o vínculo entre processo, prova e percepção. Isso passa por políticas públicas, letramento midiático e defesa da soberania cognitiva, para que a mente coletiva do país não seja moldada apenas por interesses externos e fluxos de dados invisíveis.

No fundo, o que está em disputa é o tempo histórico da justiça. Ele só sobreviverá se souber dialogar com o tempo líquido da informação e resistir à pressão da ideologia da fricção zero. A justiça não pode se tornar refém do algoritmo, mas também não pode se isolar dele. O desafio é imenso: manter a fricção necessária para garantir direitos, enquanto se aprende a atuar em um mundo que exige respostas instantâneas.

Se falharmos nessa adaptação histórica, o destino será uma justiça irrelevante, substituída pela percepção fabricada em feeds, hashtags e sentenças algorítmicas. Mas se compreendermos que a disputa do século XXI é uma disputa pelo tempo, será possível reconstruir a legitimidade institucional e proteger a democracia do espetáculo e da manipulação. No fim, essa é a lição que a era da hiperconectividade nos impõe: quem não disputa o tempo, perde a história.

Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global.

Ensaio publicado originalmente em <código aberto> 

 

Qual o impacto das Big Techs na pressão econômica de Trump no Brasil

O tarifaço de Donald Trump foi uma tática de pressão econômica utilizada para proteger os interesses das Big Techs contra tentativas de regulamentação e responsabilização no Brasil, demonstrando a influência dessas empresas na política externa dos EUA.

A afirmação é da pesquisadora Isabela Rocha, mestre em ciência política e uma das autoras do estudo Contratos, Códigos e Controle: A Influência das Big Techs no Estado Brasileiro, assinado em parceria com pesquisadores da USP e da Universidade de Brasília (UnB) e disponível aqui no acervo do Projeto Brasil.

Publicado em julho deste ano, o estudo calculou que o Brasil, em todas as suas esferas (federal, estadual e municipal), pagou, ao menos, R$ 23 bilhões em licenças de software, nuvem e tecnologia digital para as Big Techs norte-americanas, nos últimos 10 anos.

Em entrevista a Luís Nassif e economistas do Projeto Brasil, Rocha expôs que o tarifaço desta semana de Trump teve uma relação direta com as Big Techs, funcionando como uma forma de pressão em favor dos interesses dessas grandes empresas de tecnologia.

“Esse tarifaço ele veio em uma tentativa de ameaçar, de fato, o Brasil, para que a gente ‘desse para trás’ e não acontecesse a responsabilização e, principalmente, a regulação das plataformas digitais”, afirmou.

“A gente fez um mapeamento de todos os gastos do governo brasileiro com as Big tech e a gente chegou no montante de R$ 23 bilhões, e 10 bilhões só no ano passado, esses gastos não são irrisórios e considerando o interesse econômico que as Big Tech têm no Brasil, é impossível a gente tirar o tarifaço desse contexto”, continuou.

A pesquisadora apresentou um dos dados alarmantes dessa tentativa de influência no Brasil pelos gigantes da tecnologia: A Meta vem demonstrando “grande interesse no Brasil”, com um membro do governo de Donald Trump chegando a declarar interesses no excedente energético de Itaipu para a construção de Data Centers, o que, segundo a pesquisadora, está ligado ao projeto da Meta de construir tais estruturas no país.

A participação de Isabela Rocha no programa desta semana do Projeto Brasil no Youtube inaugura a nova parceria da plataforma com a equipe de economistas e especialistas do programa Nova Economia da TV GGN, que agora somarão seus conhecimentos à esta iniciativa.

Confira a íntegra da entrevista que foi ao ar nesta quinta (31):

E leia outros artigos e o Fórum Soberania Digital, criado especialmente para debater esta temática no Projeto Brasil:

Setor público gasta bilhões com Big Techs ao invés de ciência nacional, mostra estudo

O ousado plano de soberania digital do governo brasileiro

Soberania Digital

Taxação dos EUA e Política Monetária Internacional

Setor público gasta bilhões com Big Techs ao invés de ciência nacional, mostra estudo

Texto dos pesquisadores adaptado para o Jornal da USP

O setor público brasileiro, nas esferas federal, estadual e municipal, contratou pelo menos R$ 23 bilhões em licenças de software, nuvem, segurança digital e softwares de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) entre 2014 e 2025 – valor superior ao orçamento de diversos Ministérios federais. A estatística é revelada pelo estudo Contratos, Códigos e Controle: A Influência das Big Techs no Estado Brasileiro (leia no Acervo do Projeto Brasil), realizado por pesquisadores da USP e da Universidade de Brasília (UnB). Apenas entre junho de 2024 e junho de 2025, o gasto com produtos tecnológicos internacionais superou R$ 10,35 bilhões, valor que cobriria por um ano o pagamento de bolsas a todos os 350 mil mestrandos e doutorandos do País.

“A escolha revela uma inversão de prioridades que compromete o futuro do País. Não faz sentido o Brasil gastar bilhões de reais em contratos com fornecedores estrangeiros de tecnologia enquanto nossas universidades e centros de pesquisa operam com orçamentos apertados há décadas”, afirma Ergon Cugler, coordenador do estudo, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV) de São Paulo e integrante do Grupo de Estudos em Tecnologia e Inovações na Gestão Pública (Getip) da USP.

 

“Estamos enviando dinheiro público para sustentar a inovação em outros países, quando poderíamos investir esse mesmo valor aqui, fortalecendo a capacidade científica nacional, gerando empregos qualificados e desenvolvendo soluções tecnológicas próprias.”

O setor público brasileiro contratou pelo menos R$ 23 bilhões em TIC entre 2014 e 2025, sem contar sobreposições nem dados não padronizados, sendo R$ 10,35 bilhões apenas no último ano. A análise das bases ComprasNet e Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP) permitiu estimar esse valor piso, revelando a dimensão dos investimentos em tecnologia estrangeira, ainda que o número real possa ser significativamente maior devido à fragmentação das bases da União e inconsistência dos dados. O trabalho mostra que com a quantia já destinada à aquisição de tecnologia estrangeira, nos últimos dez anos, seria possível construir e inaugurar pelo menos 86 data centers de alto padrão no Brasil.

A pesquisa também estima que o valor de R$ 10,35 bilhões é suficiente para pagar bolsas a todos os 350 mil pós-graduandos do País durante um ano inteiro, considerando 100 mil doutorandos a R$ 3.300 mensais e 250 mil mestrandos a R$ 2.100 por mês, segundo os valores da Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Em outra comparação feita no estudo, esse mesmo valor manteria o funcionamento da UnB, com todos os custos operacionais, de corpo docente e demais previsões no orçamento, por até quatro anos e meio.

Demanda pública como motor de desenvolvimento

No recorte do atual mandato, entre janeiro de 2023 e junho de 2025, as três esferas do setor público brasileiro contrataram R$ 5,97 bilhões em licenças de software, R$ 9 bilhões em soluções de nuvem e R$ 1,91 bilhão em segurança digital. O estudo mostra que quatro grandes empresas lideram as contratações públicas federais de tecnologia, com Microsoft, Oracle, Google e Red Hat concentrando volumes bilionários. A Microsoft sozinha aparece com R$ 3,27 bilhões no ComprasNet, sendo R$ 1,65 bilhão apenas no primeiro semestre de 2025. No PNCP, Oracle (R$ 1,02 bilhão), Google (R$ 938 milhões) e Red Hat (R$ 909 milhões) dominam os contratos desde 2022. Licenças de softwares da Microsoft foram negociadas a R$ 3,27 bilhões nas três esferas, sendo R$ 1,65 bilhão só no primeiro semestre de 2025. Serviços de nuvem da Oracle somaram R$ 1,02 bilhão, seguido do Google, com serviços vendidos a R$ 938 milhões, e Red Hat, com R$ 909 milhões em serviços vendidos.

Os pesquisadores ressaltam que esses serviços, licenças e softwares, em boa parte, são negociados por CNPJs de terceiros, o que demonstra a existência de um mercado especializado em intermediação de licenças de software para o setor público. “Cada contrato fechado com uma multinacional é uma porta fechada para startups brasileiras, institutos públicos e redes de universidades que já têm competência técnica para entregar soluções de ponta”, aponta Cugler. “Estamos perdendo a chance de transformar demanda pública em motor de desenvolvimento. A tecnologia comprada de fora não volta em forma de emprego, renda ou autonomia. A tecnologia feita aqui dentro, sim.”

Imagem: Reprodução do artigo

Para ele, o que está em jogo não é só o valor dos contratos, mas o tipo de país que queremos construir. “O Brasil tem infraestrutura, cérebros e rede pública qualificada para oferecer alternativas robustas”, enfatiza. “Mas, para isso acontecer, é preciso uma decisão estratégica: investir no que é nosso. Com os mesmos recursos, que hoje sustentam big techs, poderíamos financiar datacenters nacionais, ciência aberta, segurança digital sob jurisdição própria e gerar milhares de empregos qualificados. É uma escolha que pode mudar nossa ciência.”

A pesquisa foi realizada pelo Getip, vinculado ao Observatório Interdisciplinar de Políticas Públicas Prof. Dr. José Renato de Campos Araújo (OIPP), coordenado pelo professor José Carlos Vaz da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, e o Grupo de Trabalho Estratégia, Dados e Soberania do Grupo de Estudos e Pesquisas em Segurança Internacional (Gepsi Data) do Instituto de Relações Internacionais da UnB. O trabalho, assinado por Ergon Cugler, Isabela Rocha, José Carlos Vaz, Camila Modanez e Julia Veneziani está disponível também na versão completa.