Data centers e meio ambiente: sim, é possível conciliar

Camila Modanez* e Isabela Rocha** 

O Brasil está prestes a lançar sua nova política nacional para data centers (Redata), um movimento estratégico em conformidade com o Plano Brasileiro para IA, que pode redesenhar a infraestrutura digital do país para as próximas décadas, a despeito de questões envolvendo a soberania digital e a exposição do mercado brasileiro ao capital estrangeiro predatório da Big Tech. Mas, junto com a expectativa por mais conectividade, armazenamento e capacidade de processamento, vem também uma pergunta que ecoa com força: é possível expandir a infraestrutura computacional e, ao mesmo tempo, conservar o meio ambiente?

A dúvida é legítima. Enquanto data centers são centrais para a nova economia digital, eles também demandam níveis altíssimos de energia, água e também geram muito calor, impactos que se tornam ainda mais graves perante um cenário de emergência climática e crise hídrica recorrente. A digitalização, assim, avança, mas com ela cresce também o impacto ambiental do mundo digital.

O desafio, então, não se trata em decidir se precisamos ou não de data centers, isso é inevitável em qualquer projeto de desenvolvimento nacional ou anseios por soberania tecnológica. A questão real é como fazer isso de forma responsável, transparente e, principalmente, ambientalmente sustentável.

E, a despeito do ceticismo inicial, a expectativa pode, e mais, deve, ser otimista. Outros países já provaram que é possível expandir infraestrutura crítica com critérios ambientais ambiciosos. Resta saber se o Brasil terá coragem e visão política para seguir esse caminho.

É preciso ressaltar que não há como pensar em futuro digital sem data centers. Eles são o coração invisível da internet, da computação em nuvem, da inteligência artificial, dos serviços públicos digitais e da economia de dados. Toda vez que acessamos um aplicativo, enviamos um e-mail, uma operação bancária online – ou até mesmo compartilhamos um stories no Instagram, estamos utilizando uma fração da capacidade computacional instalada em algum data center, seja ele privado, público, regional ou global.

A tendência é clara: demanda global por capacidade de data center pode mais que triplicar até 2030, impulsionada por tecnologias emergentes como IA generativa, 5G, edge computing e sistemas automatizados. Essas tecnologias, cada uma com especificidades técnicas, convergem para uma maior pressão sobre a infraestrutura digital existente: a IA generativa demanda grande poder computacional para treinar e operar modelos, o 5G amplia exponencialmente a conectividade em tempo real, o edge computing descentraliza o processamento, exigindo múltiplos pontos físicos de dados mais próximos dos usuários, e os sistemas automatizados dependem de operações contínuas, integradas e com alta disponibilidade. Tudo isso exigirá mais infraestrutura física, mais servidores, mais processamento, mais armazenamento, e, consequentemente, mais energia e recursos naturais.

O problema é que os impactos ambientais dessa infraestrutura ainda são pouco discutidos no Brasil. Data centers de médio e grande porte consomem enormes quantidades de energia elétrica e, em muitos casos, água para sistemas de resfriamento evaporativo. Também geram uma quantidade significativa de calor residual, raramente reaproveitado, e de lixo eletrônico, proveniente da obsolescência acelerada dos equipamentos.

Estudos já indicam que a operação de data centers já representa entre 1,5% e 3% do consumo global de eletricidade e tende a crescer de forma contínua. Em regiões com sistemas energéticos dependentes de combustíveis fósseis, isso se traduz diretamente em aumento das emissões de carbono. Em regiões com escassez hídrica, o uso intensivo de água para refrigeração representa uma ameaça silenciosa à segurança ambiental.

Ou seja, os data centers são vitais para a digitalização, mas não podem ser tratados como infraestrutura neutra do ponto de vista ecológico. Sem critérios claros de eficiência, localização e reaproveitamento, o avanço desenfreado dessa infraestrutura pode contradizer os compromissos ambientais que o Brasil assumiu internacionalmente e comprometer metas climáticas de longo prazo.

A boa notícia é que o dilema entre tecnologia e meio ambiente não é inevitável. Diversos países já criaram políticas públicas robustas que conciliam a expansão de data centers com metas de eficiência energética, uso responsável da água e redução de emissões. Não faltam exemplos de como é possível crescer com responsabilidade. O que falta, muitas vezes, é vontade política para adotar esses modelos.

Na União Europeia, por exemplo, data centers com mais de 500 kW de capacidade serão obrigados, desde de setembro de 2024, a reportar publicamente indicadores como PUE (eficiência energética), WUE (uso hídrico), reaproveitamento de calor e percentual de energia renovável. Essa medida visa aumentar a transparência e criar uma pressão regulatória para que o setor adote padrões mais sustentáveis, preparando o terreno para metas obrigatórias nos próximos anos. 

A França foi além: data centers com mais de 1 MW devem, por lei, instalar sistemas de reaproveitamento de calor residual. E aqueles com mais de 500 kW já são obrigados a divulgar publicamente suas métricas ambientais. Além disso, o país vincula benefícios fiscais a metas concretas de eficiência, como a redução do PUE e a reutilização de calor em redes públicas de aquecimento.

Nos Países Baixos, a expansão desordenada foi freada com uma moratória temporária sobre data centers hyperscale até que se definissem critérios mínimos ambientais e urbanísticos. E na Dinamarca, uma reforma recente eliminou o imposto sobre calor residual, incentivando data centers a integrar seu calor excedente aos sistemas de aquecimento urbano, política que já abastece bairros inteiros com energia reaproveitada.

Já em Singapura, uma cidade-estado com espaço físico e recursos naturais limitados, foi adotada uma abordagem centrada em normas técnicas: Lá, só recebe licença para operar quem cumpre o padrão SS 564, baseado em monitoramento rigoroso de consumo, plano de melhoria contínua e compromisso com fontes renováveis. A lógica é simples: eficiência não é opcional, é pré-requisito.

Esses exemplos mostram que não faltam ferramentas técnicas nem jurídicas para alinhar a infraestrutura digital às exigências ambientais do século 21. A pergunta que o Brasil precisa responder agora é: vamos seguir no improviso, sob o risco de agravar a crise climática na região, ou adotar uma política nacional que aprenda com quem já está fazendo certo?

O Brasil tem uma oportunidade histórica de fazer diferente. Ao lançar uma política nacional para data centers, o país pode, e deve, aprender com os exemplos internacionais, evitando repetir o modelo ultrapassado de crescimento sem critérios ambientais. A expansão da capacidade digital é necessária, mas ela precisa ser guiada por parâmetros públicos claros de eficiência, transparência e impacto ambiental mínimo.

Hoje, o país não possui exigências legais específicas de eficiência energética (PUE), uso hídrico (WUE), reaproveitamento de calor (heat reuse) ou fontes renováveis para data centers. Tampouco há uma política de reporte obrigatório dessas métricas, o que dificulta a avaliação do impacto ambiental desse setor e impede o uso de instrumentos fiscais ou regulatórios para premiar quem faz melhor.

Mais do que apenas regular, o Estado brasileiro tem a chance de liderar pelo exemplo, estruturando uma política que combine expansão tecnológica com responsabilidade ecológica, e mostrando que digitalização e sustentabilidade não são caminhos opostos, mas complementares. Essa liderança pode se afirmar tanto em fóruns multilaterais como o BRICS+, a ONU e a OCDE, quanto em espaços técnicos como o Comitê Gestor da Internet, o G20 Digital e a Coalizão de Ministros da Educação da UNESCO, onde o Brasil já possui tradição de protagonismo.

Não há mais espaço para cair em um falso dilema entre desenvolvimento digital e proteção ambiental. O desafio do nosso tempo é justamente fazer ambos ao mesmo tempo, e com urgência. O avanço dos data centers no Brasil é inevitável, e até desejável, desde que esteja ancorado em critérios de eficiência, sustentabilidade e soberania tecnológica.

A nova política nacional de data centers tem o potencial de inaugurar uma nova etapa da digitalização brasileira: mais conectada, mais distribuída, mais limpa e mais justa. Mas isso só será possível se deixarmos de tratar a infraestrutura digital como algo neutro ou inevitável, e passarmos a vê-la como uma peça central do nosso projeto de país, um projeto que precisa ser ambientalmente viável, tecnologicamente soberano e socialmente comprometido. Outros países já mostraram que é possível regular esse setor com inteligência ambiental, metas claras e políticas públicas que recompensam quem inova com responsabilidade. O Brasil pode seguir esse caminho, adaptando-o à sua realidade, aos seus recursos e às suas instituições.

É possível crescer sem destruir. É possível inovar sem esgotar. E é possível, e mais que necessário, fazer do Brasil uma referência em infraestrutura digital com responsabilidade ecológica.

 

* Camila Modanez é pós-graduanda em Estratégia e Liderança Política pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e graduada em Engenharia Mecânica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É integrante do Grupo de Trabalho ‘Estratégia, Dados e Soberania’ do Grupo de Estudos e Pesquisas em Segurança Internacional do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (GEPSI IREL UnB); é também Diretora de Projetos Estratégicos do iBRICS+, Instituto para a Integração Cultural e Desenvolvimento Econômico dos países BRICS+. 

** Isabela Rocha é mestre e doutoranda em Ciência Política pelo Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (IPOL UnB). Atualmente coordena o Grupo de Trabalho Estratégia, Dados e Soberania do Grupo de Estudos e Pesquisas em Segurança Internacional do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (GEPSI IREL UnB) e preside o Fórum para Tecnologia Estratégica dos BRICS+, visando o desenvolvimento de infraestrutura tecnológica integra e soberana no Brasil, no Sul Global, nos países BRICS+, e no mundo.

Redução do déficit nominal brasileiro pela redução dos juros reais, por Claudio Abreu

Claudio Braga de Abreu

Aposentado da BNDESPAR e presidente da AFBNDESPAR, Claudio Braga de Abreu e Silva é engenheiro civil e mestre em Administração de Empresas.

Há trinta e um anos, o Brasil enfrentava uma inflação inercial persistente, mesmo após quatro tentativas fracassadas de estabilização econômica baseadas em congelamento de preços e salários feitas por medidas provisórias. Em junho de 1994, a inflação atingiu 47% ao mês. O Plano Real conseguiu reduzi-la para cerca de 5% ao ano. No entanto, ela permanece inercial em bases anuais, pois os preços, salários e orçamentos públicos continuam a ser reajustados todos os anos.

Desde julho de 1994, tem-se recorrido a juros elevados e à apreciação cambial para manter a inflação sob controle. Essa estratégia, no entanto, gerou um expressivo aumento da dívida pública líquida, que passou de cerca de 25% do PIB em 1995 para 76,1% em 2024. Projeções do Instituto Fiscal Independente (IFI), do Senado Federal, indicam que esse índice pode chegar a 125% do PIB em 2035.

Em 1999, foi instituído o chamado Tripé Econômico – resultado primário, câmbio flutuante e meta de inflação. Esse modelo adota como meta o resultado primário (que exclui os juros), ignorando o resultado nominal (que os inclui). O câmbio flutuante, por sua vez, gera maior volatilidade nas cotações e estimula operações excessivas no mercado futuro, aumentando o risco tanto nas transações externas quanto nas internas. Já a meta de inflação – atualmente fixada em 3% ao ano – é de difícil cumprimento, pois a inflação futura tende a ser a inflação atual (5,20% ao ano em maio/2025), perpetuada por mecanismos de indexação.

O juro de uma operação financeira resulta da soma do juro desejado adicionado de juro para compensar os seus riscos. Assim, se reduzirmos os riscos, também reduziremos o juro da operação. Hoje, a maior parte das operações de curto prazo são prefixadas (inclusive a Selic, apesar de ser flutuante), cujos juros contêm o risco referente à inflação.

Acredito que se as operações pré-fixadas fossem substituídas por operações pós-fixadas, haveria uma redução do risco, pois o relativo à inflação não seria mais considerado. Isto permitiria que o juro real fosse conhecido no momento da contratação. Para tanto proponho transformar a Selic, indexador financeiro fundamental, em uma operação pós-fixada, com determinação mensal, o que faria, com o tempo, que todo o mercado financeiro passasse a ser regido por operações pós-fixadas.

Adicionalmente, a adoção de uma política cambial com bandas reduziria a volatilidade das cotações e o risco cambial das operações externas e, também, das operações internas, na medida que tal risco faz parte da determinação dos juros reais internos.

Para viabilizar essas mudanças, proponho a criação de dois novos indexadores a serem usados nas operações financeiras internas e externas, de forma a considerar o fato de que vivemos numa economia com inflação inercial anual:

  • URF – Unidade Real Financeira
  • URC – Unidade Real Cambial

Após a implantação e consolidação das medidas acima propostas, com o objetivo de reduzir a inflação inercial, dos atuais 5% a.a. para cerca de 1% a.a., proponho a implantação de um Plano Real II, com a criação de nova moeda e manutenção dos dois indexadores.

Em 31/08/1993, finalizei meu trabalho chamado de “A Indexação Diária Negociada”, com o subtítulo “Contra o veneno da cobra só o próprio veneno da cobra”, onde propus uma solução inovadora para combater a nossa inflação inercial e que se tornou a grande inovação do exitoso Plano Real: a criação de um indexador atrelado ao câmbio que depois se transformaria na nova moeda forte nacional, tudo isso sendo feito de forma transparente e anunciada. Meu trabalho foi enviado para o então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, e membros da sua equipe econômica e para o então presidente Itamar Franco. Denominei o indexador de Cruzeiro Cambial (Cc$), mas ele acabou sendo denominado de Unidade Real de Valor (URV). Infelizmente, nunca tive o meu mérito reconhecido neste episódio. (Vide mais detalhes no Anexo, no final do texto em PDF, cujo link segue abaixo).

Em 2024, publiquei um livro, denominado “O ovo de Colombo do Plano Real”, onde conto essa história de forma detalhada e documentada. Ele pode ser acessado gratuitamente na Biblioteca do Projeto Brasil.

Por essa razão, sinto-me à vontade para apresentar novamente propostas inovadoras para enfrentar um dos nossos principais problemas atuais: o desequilíbrio das nossas contas públicas, causado principalmente pelos juros reais mais altos do mundo e insustentáveis no longo prazo, e que responderam por 95,2% do nosso déficit nominal em 2024, sendo os demais 4,8% referentes ao superávit primário.

Embora o aumento das receitas e a redução das despesas primárias também possam contribuir para a melhoria do resultado nominal, não serão tratados neste trabalho, que segue na íntegra abaixo: