O legado de JK e o desafio de reconstruir um projeto nacional para o Brasil

O legado de Juscelino Kubitschek (JK) e os desafios atuais trazem perspectivas complementares sobre a história do desenvolvimento brasileiro e os entraves para a construção de um novo projeto nacional. Este foi o debate do “Seminário De JK a Lula: O que falta ao Brasil para traçar um Plano de Metas?”, promovido pelo Projeto Brasil/Jornal GGN, com o apoio da Emgea – Empresa Gestora de Ativos, nesta quinta-feira (16).

“A gente é um grande transatlântico à deriva e é preciso urgentemente que essa situação seja superada”, afirmou Daniel Arão Reis, historiador e professor do Programa de Pós-Graduação em História na UFF, apresentando que no governo JK havia um compromisso claro com um projeto de país, centrado na industrialização e na soberania nacional. 

Eu vejo a nação brasileira à deriva. Uma nação potente, rica em termos de recursos naturais e humanos, tem uma boa inserção internacional, mas realmente tem um processo de deriva no sentido de que a gente não sabe para onde está indo. Os grandes estados nacionais se caracterizam por essa capacidade de definir projetos. Tivemos tentativas nesse sentido na época do governo Vargas, tivemos tentativas nesse sentido na época do Juscelino, teve o plano trienal do Jango (…), e acho que isso se perdeu na Nova República, é uma coisa muito angustiante.” 

Para o historiador, o Brasil atual vive um “marasmo social” e os governos atuam como “grandes gerentes” de situações e crises, sem um norte claro ou uma ambição que empolgue a opinião pública. 

“Definir um projeto não quer dizer que ele vai ser aprovado. O próprio governo Juscelino enfrentou muita resistência e uma das maneiras que o Juscelino adotou para enfrentar essa resistência foi a criação dos chamados Grupos Executivos em Brasília, inclusive tinha um que se chamava a Nova Capital, havia o grupo executivo de indústria automobilística, o grupo executivo de tal setor, esses grupos executivos trabalhavam por fora, havia resistência, havia denúncias, mas tinha um projeto com o qual você podia mobilizar as consciências e tentar enfrentar as oposições.” 

Os especialistas Daniel Arão Reis e Carlos Frederico Rocha, com a mediação do jornalista Luis Nassif, destacaram que, embora o período de Juscelino Kubitschek (JK) sirva como inspiração por seu projeto de nação, existem diferenças estruturais profundas e contradições que distinguem aquela época da atualidade.      

Carlos Frederico Rocha, professor do Instituto de Economia da UFRJ, ressaltou que JK tinha os recursos públicos “à mão” para executar o Plano de Metas. 

Atualmente, o orçamento está engessado, com cerca de 90% de gastos obrigatórios, e o Executivo perdeu o controle sobre a alocação de recursos para o Legislativo. Segundo Rocha, o governo federal hoje “não consegue colocar recurso em lugar nenhum” sem depender de emendas parlamentares, o que retira o seu poder de negociação para um projeto nacional.

Além disso, outros contextos de organização institucional, mercado de trabalho e mobilização das bases sociais distinguiam-se. 

Rocha explicou que na década de 50, o Estado brasileiro estava criando suas instituições (como o BNDES em 1953), o que facilitava o ordenamento da burocracia. Hoje, o Estado é forte e capacitado, mas as burocracias (como Petrobras e BNDES) tornaram-se autônomas, o que torna a coordenação interna do Executivo muito mais “lenta e complicada”. Além disso, segundo ele, órgãos de controle (TCU, CGU, MPF) criaram um sistema de fiscalização que, muitas vezes, paralisa a gestão por disputas burocráticas.

No contexto do mercado de trabalho, o economista e pesquisador explicou que JK obteve resultados positivos por se beneficiar de um excedente de mão de obra vindo do campo devido à urbanização acelerada. Atualmente, esse excedente não existe mais, e o desafio do desenvolvimento exige uma mão de obra muito mais qualificada, o que impõe uma dinâmica econômica diferente daquela enfrentada por JK.

Por fim, Daniel Arão Reis destacou que, no passado, havia bases populares e operárias (como as de São Bernardo do Campo) que estruturavam os movimentos sociais e davam suporte a projetos políticos e, hoje, essas bases estão desorganizadas e fragmentadas pela nova revolução científico-tecnológica, dificultando a mobilização das consciências necessária para lutas políticas e para alterar a correlação de forças no Congresso, por exemplo.

Ainda, nos resultados econômicos do país de JK, Reis lembrou que o governo Juscelino gerou uma inflação alta que corroeu o poder de compra das classes populares, pois não existiam mecanismos de reajuste salarial ou correção monetária na época e Rocha observou que, apesar da memória positiva, o salário mínimo real de JK não teve aumento substantivo em relação ao período de Vargas, ao passo que hoje as classes populares têm maior peso político e o salário mínimo real é superior ao daquela época.

Os participantes enfatizaram que a falta de coordenação política e a desarticulação dos movimentos sociais impedem o país de traçar metas ambiciosas para o futuro. O diálogo sugeriu que a retomada da soberania e do crescimento depende de um novo pacto social e a necessidade de vontade política capaz de superar os atuais desafios e transformar o Estado em um motor de inovação e igualdade social.

“Seminário De JK a Lula: O que falta ao Brasil para traçar um Plano de Metas?” é uma produção online e gratuita, disponível na TV GGN no Youtube:

Da Embraer à “Embramar”: especialistas propõem novo projeto nacional de Defesa

A indústria de Defesa brasileira, sob a ótica da soberania nacional e das novas tensões geopolíticas, deve ser reformulada, diante da falta de governança integrada entre as Forças Armadas e a ausência de uma elite política que compreenda a Defesa como pilar do desenvolvimento. 

Essa foi a conclusão do grupo de pesquisadores reunidos no programa “Indústria de Defesa: da soberania nacional às tecnologias do futuro”, do Plano de Metas do Projeto Brasil

Com sólida experiência em Segurança Internacional e Defesa Nacional, o professor de Relações Internacionais da UnB, Antônio Ramalho, defendeu uma mudança profunda na doutrina militar brasileira, argumentando que o país deve parar de focar exclusivamente no “inimigo interno” e começar a se preocupar com ameaças externas reais.

“É preciso mudar a doutrina; é preciso que os militares brasileiros comecem a entender que aquele Estado antes percebido como o principal e primeiro aliado pode vir a ser a ameaça“, apontou.

Ele enfatizou que a Governança de Defesa precisa ser restabelecida com uma visão estratégica de longo prazo, que inclua a integração das burocracias do Estado e que uma das nossas maiores vulnerabilidades é “o estabelecimento de projetos estratégicos” nacionais.

Nesse sentido, Marcos Barbieri, professor da Unicamp e um dos principais especialistas do país em Indústria Aeroespacial e de Defesa também focou na importância do desenvolvimento tecnológico nacional com a integração entre as Forças Armadas, Universidades e o setor privado.

Ele apresentou como a transferência de tecnologia no projeto dos caças Gripen fortaleceu a engenharia local. O DNA do Gripen é também um pouco verde e amarelo; houve um ganho que nós não teríamos em hipótese alguma com o caça francês e com o caça americano”, afirmou. 

Barbieri também enfatizou a importância de modelos como o da Embraer para criar empresas de capital nacional que desenvolvam propriedade intelectual e garantam autonomia estratégica ao país. Nessa linha, criticou a política macroeconômica brasileira, que, segundo ele, sabota a indústria e os “players” nacionais, “tanto do ponto de vista da Defesa quanto do ponto de vista da oferta”.

O exemplo da Embraer e do Gripen contrastam com a crise de obsolescência enfrentada pela Marinha na proteção da Amazônia Azul. A análise foi do mestre em Estudos Marítimos pela Escola de Guerra Naval (EGN), Felipe Sales.

Ele propôs a criação de uma “Embramar”, uma empresa naval de capital nacional inspirada no modelo da Embraer, para desenvolver projetos de propriedade intelectual brasileira e competir no mercado global. “O modelo Embraer precisa ser expandido… tem que ser uma empresa brasileira que desenvolva tecnologia própria, projetos próprios e crie produtos de propriedade intelectual brasileira”, defendeu.

Sales também alertou para os riscos da dependência tecnológica em setores críticos como inteligência artificial e comunicações, fundamentais para a segurança do Estado no século XXI.

O tema integra o Plano de Metas 4 do Projeto Brasil, leia a íntegra aqui: Transformando a Indústria da Defesa.

Assista à íntegra do espisódio no programa do Projeto Brasil no YouTube da TVGGN:

Economia de Bem-Estar e soberania: seminário reúne grandes especialistas para discutir o futuro do Brasil

O Bem-estar para além de “caber no PIB”. Um time de especialistas de alto nível estará reunido no próximo dia 23 para discutir um dos maiores desafios do Brasil: como transformar a Saúde, a Educação e a Cultura em motores da economia e da soberania nacional. O seminário “Economia de Bem-estar e Soberania: desafios estruturantes”, promovido pelo Projeto Brasil do Jornal GGN, em parceria com o Grupo de Pesquisa “Desenvolvimento Sustentável, CT&I e Complexo Econômico-Industrial da Saúde” (GPCEIS) da Fiocruz, e com o apoio da Emgea – Empresa Gestora de Ativos, propõe um debate sobre um novo modelo de desenvolvimento capaz de combinar crescimento econômico, inclusão social e sustentabilidade. O evento é gratuito e será transmitido na TV GGN no YouTube.

O seminário tem por objetivo discutir a economia do bem-estar como eixo estruturante de uma estratégia de reconstrução nacional e de desenvolvimento soberano para o Brasil, explorando o potencial da saúde, educação e cultura como vetores de transformação produtiva, tecnológica e institucional.

Para este importante encontro, convidamos Fernando de Souza Coelho, pesquisador da EACH/USP e escritor, que abordará Compras públicas e inovação; Márcio Pochmann, presidente do IBGE, para tratar de Emprego e desigualdade; José Eduardo Cassiolato, ex-Secretário de Planejamento, coordenador RedeSist da UFRJ, focada em Arranjos Produtivos Locais; Deryk Vieira Santana, Diretor de Políticas para Trabalhadores da Cultura e Economia Criativa do Ministério da Cultura; Luiz Roberto Liza Curi, Reitor do UniSenai Inovação SP, ex-presidente do CNE – Conselho Nacional da Educação; e Carlos Gadelha, Coordenador da Rede CEIS – Complexo Econômico-Industrial da Saúde da Fiocruz. A mediação será realizada pelo jornalista Luís Nassif.

É uma mudança de paradigma: compreender que os grandes desafios nacionais só serão enfrentados no país quando alcançada a efetivação de direitos sociais básicos, especialmente o acesso universal, equitativo e de qualidade à saúde, à educação e à cultura. 

O bem-estar não apenas cabe no PIB, mas representa uma alavanca para um novo padrão de desenvolvimento comprometido com a sociedade e os desafios nacionais. É ele que deve orientar a política industrial e os investimentos estratégicos do país, tendo como metas fundamentais a melhoria das condições de vida da população, a sustentabilidade e a construção de um projeto nacional de longo prazo”, afirma Carlos Gadelha, coordenador da Rede CEIS e um dos organizadores do evento. 

O encontro integra a construção de um Plano de Metas para o desenvolvimento nacional, iniciativa do Projeto Brasil/GGN que reúne pesquisadores, gestores públicos e especialistas para discutir estratégias capazes de combinar crescimento econômico, inovação, inclusão social e soberania. 

O debate buscará explorar como uma política orientada por missões e desafios estruturantes pode integrar desenvolvimento econômico, social e ambiental, promovendo uma economia voltada ao bem-estar da população, à sustentabilidade e à construção de um projeto nacional de longo prazo. 

Serviço

Seminário Economia do Bem-Estar: desafios estruturantes
Data: 23 de julho de 2026, às 18h30
Transmissão: Online – https://www.youtube.com/watch?v=f0J5Y9LDMeE