COP30 x Sul Global… e o nó na garganta que pode matar, por Janethe Fontes

Janethe Fontes*

*Janethe Fontes é professora de história e sociologia e escritora. Autora, entre outros livros, de Natureza Selvagem (Ed. A Liter Ação). 

Esse nó ao qual me refiro no título não surge apenas em decorrência da 30ª COP, mas das camadas históricas que nos atravessam enquanto país periférico — mesmo quando sediamos decisões que afetam profundamente nossas vidas. 

Acompanhei, de longe — bem longe — tudo o que pude. Não estive em Belém, não pude ouvir os debates oficiais nem aqueles que ocorreram nas frestas, nos corredores, nos bastidores. O que me chegou, como sempre chega para a maioria de nós, foram recortes: manchetes, discursos polidos, promessas calibradas, análises já filtradas pelas lentes das grandes mídias. Ou seja: vi a vitrine, não a engrenagem. Talvez por isso tenham permanecido tantas perguntas grudadas na garganta — perguntas que, talvez por serem incômodas demais, costumam ser tratadas como distrações, “pessimismo”, “ingenuidade”. Mas é justamente desse lugar — o lugar da pergunta indócil — que nasce o pensamento crítico. Por isso ouso escrever o que ficou preso na garganta. 

Ouso também desconfiar, perguntar, friccionar: ao propor o veículo elétrico como solução ao colapso climático, será que não estamos apenas trocando seis por meia dúzia? 

Será que a denominada bateria “verde” realmente reverte os danos ambientais, sociais e econômicos causados pelo combustível fóssil? Ou será que apenas move o dano de lugar, muda o mapa da dor, preserva o mesmo centro de poder? Pois, sejamos honestos: trocar a matriz energética sem mudar a matriz de desigualdade é apenas maquiar o colapso. 

E, cada vez mais, tenho a incômoda impressão de que o carro elétrico — mesmo com suas promessas sedutoras — é menos solução e mais sintoma, já que mantém viva a lógica que nos trouxe até aqui: a lógica do automóvel como eixo da vida, da mobilidade baseada no indivíduo, do consumo que se expande para resolver problemas que ele próprio cria. 

Assim, a pergunta que me assola é: Por que estamos tentando salvar o carro, quando deveríamos salvar a vida coletiva? 

Não existe futuro sustentável quando a cidade continua sendo estruturada para o automóvel. Não importa se o carro é movido a gasolina, etanol, bateria ou hidrogênio: o problema não é o combustível; o problema é a própria ideia de cidade como pista.  

Por isso, quando reflito sobre a COP30, percebo que o debate ecológico não se separa do debate urbano, social, racial, econômico e decolonial. Tudo está amarrado — e é da teia inteira que precisamos falar. 

 

Cidades densas, verdes, conectadas: a política que não cabe no automóvel 

O Brasil — assim como tantos países do Sul — foi empurrado para um modelo urbano disperso, caro, cansativo, dependente do carro. Mas existe outro caminho: o caminho das cidades que respiram juntas. O caminho dos metrôs, dos VLTs (Veículos Leves sobre Trilhos), dos trens regionais, dos corredores verdes, dos bairros acessíveis, da mobilidade como direito e não mercadoria. 

Estudos brasileiros ajudam a consolidar essa crítica. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) já registrava em 2016: “modos coletivos de transporte apresentam gastos de energia e emissões per capita muito menores.” 

É simples: quanto menos carros nas ruas, menor o dano ao clima, ao ar, ao corpo, ao tempo. 

E não é só questão ambiental — é questão de desigualdade urbana. O automóvel é marcador social: define quem pode circular com conforto e quem leva o peso da espera, das filas, do tempo perdido, do transporte precário. 

Cidades densas e conectadas são, portanto, políticas de igualdade. 

 

Economia menos automobilística: romper o velho pacto 

Reduzir o protagonismo do carro não é um ataque à indústria; é um novo pacto civilizatório. O automóvel privado nunca foi apenas meio de transporte — é uma máquina de produzir desigualdade: 

  • ocupa espaço urbano desproporcional, 
  • consome materiais e energia em escala absurda, 
  • gera emissões de carbono e resíduos, 
  • cria congestionamentos que drenam vida, 
  • reforça a cidade como território fragmentado. 

É importante lembrar também que o automóvel privado não apenas gera emissões operacionais, mas exige uma infraestrutura extensiva (estradas, túneis, estacionamentos, manutenção), uma cadeia material volumosa (aço, borracha, plástico, vidro) e um destino adequado para os resíduos ao fim de vida. Tudo isso raramente é contabilizado quando se fala no suposto “carro elétrico verde”. 

Um artigo recente — “Mobilidade Sustentável: ESG e o Transporte Urbano no Brasil” (2025) — reforça que reduzir veículos individuais e ampliar transporte coletivo é essencial para a mobilidade de baixo carbono. 

Ou seja: o caminho não é “carro elétrico para todos”. O caminho é menos carros para todos. 

 

Energia descentralizada: soberania começa na infraestrutura 

Veículos elétricos exigem geração de energia, redes de recarga, infraestrutura pesada. Mas a pergunta crucial é: quem controla essa energia? 

Se as baterias forem importadas e as redes privatizadas, se a extração de minerais continuar destruindo territórios indígenas, se a geração elétrica vier de biomassa insustentável, não há “verde” que resista. 

Energia descentralizada — solar comunitária, geração distribuída, redes locais — devolve poder às comunidades e reduz a dependência de megaprojetos.
Sem soberania energética, não há soberania tecnológica. 

 

Redução real de consumo: o tabu que ninguém toca 

Fala-se em “transição”, mas evita-se o coração do problema: consumimos demais… Demais energia, demais material, demais espaço, demais recursos.  

Nenhuma tecnologia dará conta se não houver redução real — não redução moralista, mas redistribuição do uso da cidade, planejamento urbano, trabalho remoto bem estruturado, políticas de proximidade, resgate do tempo como direito. 

 

Soberania tecnológica e cooperação Sul–Sul 

O Sul Global só deixará de ser extrator quando se tornar criador. Nunca participamos da tecnologia pelo topo — sempre pelo subsolo: 

  • extraímos lítio, mas não produzimos a bateria; 
  • fornecemos energia, mas não controlamos o algoritmo; 
  • suportamos o impacto, mas não colhemos o valor. 

A instalação de um megacentro de inteligência artificial no Ceará é exemplo dessa contradição: é apresentado como progresso, mas consumirá água e energia em escala absurda, podendo aprofundar desigualdades regionais.  

A pergunta é: a quem serve essa inteligência? E mais: que inteligência produz um país que sacrifica seu território para abrigar máquinas que não lhe pertencem? 

O Brasil precisa de soberania tecnológica que não seja mera adesão ao que vem de fora, mas produção crítica, cooperação Sul–Sul, alianças que reorganizem o mapa do conhecimento. Sem isso, continuaremos sendo base de impacto — e nunca base de invenção. 

 

Cidades-esponja: um futuro que aprende com a água 

Enquanto o Ocidente responde às enchentes com mais concreto, bombas e diques, a China vem experimentando um urbanismo que aprende com a natureza: as cidades-esponja. 

Elas aceitam a água, não lutam contra ela: 

  • parques permeáveis, 
  • jardins de chuva, 
  • pavimentos drenantes, 
  • telhados verdes, 
  • reservatórios naturais, 
  • sistemas que imitam o que os rios sempre souberam fazer. 

Não é apenas técnica — é filosofia. É a ideia de que a cidade não precisa dominar a natureza, mas dialogar com ela. 

E fico aqui pensando: como seria o Brasil se aprendêssemos com nossa própria água? Como seria o Ceará — terra marcada por secas e enchentes — se seus investimentos fossem voltados para resiliência climática, e não para as máquinas que treinam inteligências artificiais estrangeiras? 

Cidades-esponja revelam que existe inteligência fora dos laboratórios.
Existe inteligência no ciclo das chuvas, nos solos, nas marés, nas comunidades que sempre sobreviveram apesar do Estado.  

Essa é a inteligência de que precisamos: uma inteligência ecológica, social e decolonial. 

 

Conclusão: o nó na garganta é também semente 

A COP30 terminou. Mas o nó na garganta continua. E talvez deva continuar. Porque esse nó — esse incômodo que não desce — é o que nos impede de aceitar, como espectadores dóceis (deslumbrados), uma transição verde que muda o rótulo, mas não muda o mundo. É ele que nos lembra que nenhuma bateria “verde”, nenhum carro silencioso, nenhum pacto diplomático salvará o planeta se continuarmos preservando a mesma lógica que nos trouxe até aqui: a lógica da desigualdade, do consumo ilimitado, do extrativismo colonial e da cidade pensada como pista. 

O transporte coletivo muda. 

Cidades densas mudam. 

Energia comunitária muda. 

Soberania do Sul muda. 

E justiça climática — se vier — virá das margens, das periferias, das vozes que insistem em existir mesmo quando o mundo tenta reduzi-las ao silêncio. 

Nota:

Enquanto o mundo discute caminhos para mitigar a crise climática, aqui, na cidade onde vivo — Guarulhos — um outro nó na garganta se forma.

Segundo denúncia da vereadora Fernanda Curti (PT), publicada na Revista Forum (em 20/11/2025), a Prefeitura está destruindo uma área que, de acordo com moradores, abrigava quatro nascentes — um pequeno ecossistema que poderia, e deveria, ter sido preservado ou até mesmo reflorestado. Em vez disso, está sendo aterrada para a realização de um megaevento musical.

Assim, um pedaço vivo da cidade — que era pântano, nascente, lago, refúgio — agora vira palco de destruição, na contramão de tudo o que a COP30 tenta simbolizar.

É nesses momentos que sinto o nó subir novamente à garganta, e de forma ainda mais dolorida, já que esse caso eu acompanho de perto. O mesmo nó da COP30, o mesmo nó da transição verde como vitrine, porque o problema não está apenas em Belém, Glasgow, Paris, Nova York etc. O problema está aqui, na esquina, no bairro, no chão concreto de Guarulhos e em outras tantas administrações locais: quando se destrói aquilo que ainda poderia nos salvar, quando o poder público decide que o espetáculo vale mais do que a vida.

Nota final: 

Este ensaio não nasce de uma posição acadêmica. Não sou pesquisadora do tema ecologia. Sou, há algum tempo, uma ecossocialista que olha o mundo com interesse legítimo e inquietação real. Minha análise pode ser ingênua — e talvez por isso mesmo é honesta. 

 

 

Indianos condenam mudanças nas leis trabalhistas

Silvia Portela

Este texto da Reuters noticia a reação das grandes centrais sindicais indianas à tentativa do governo Modi de implementar as regressivas mudanças trabalhistas aprovadas pelo parlamento há cinco anos. As mudanças querem aumentar as jornadas de trabalho, permitir o trabalho noturno das mulheres e facilitar demissões, entre outras mudanças – a receita preferida para prejudicar os trabalhadores. 

Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto de matéria da agência noticiosa Reuters.

Sindicatos indianos planejam protestos em todo o país

Por Sarita Chaganti Singh e Manoj Kumar  

22 de novembro de 2025 11:26 GMT-3 Atualizado em 22 de novembro de 2025    

MUMBAI, 22 de novembro (Reuters) – Dez grandes centrais sindicais indianas condenaram o lançamento, pelo governo, na sexta-feira, de novos códigos trabalhistas, a maior reforma desse tipo em décadas, como uma “fraude enganosa” contra os trabalhadores.  

Os sindicatos, alinhados com partidos de oposição ao primeiro-ministro Narendra Modi, exigiram em comunicado divulgado na noite de sexta-feira a revogação das leis, antes dos protestos nacionais planejados para quarta-feira.  

Uma das centrais sindicais, o Centre of Indian Trade Unionsorganizou marchas de protesto no sábado na cidade de Bhubaneswar, no leste do país, onde centenas de trabalhadores se reuniram e queimaram cópias dos novos códigos trabalhistas.  

O governo de Modi implementa os quatro códigos trabalhistas, aprovados pelo parlamento há cinco anos, buscando simplificar as normas trabalhistas, algumas datando do período colonial britânico, e liberalizar as condições para investimentos. O governo afirma que as mudanças melhoram a proteção dos trabalhadores. 

Embora as novas regras ofereçam benefícios como seguridade social e salário mínimo, elas também permitem que as empresas contratem e demitam trabalhadores com mais facilidade.  

Os sindicatos se opuseram veementemente às mudanças, organizando diversos protestos em todo o país nos últimos cinco anos.  

O Ministério do Trabalho não respondeu imediatamente, no sábado, a um pedido de comentário da Reuters sobre as reivindicações dos sindicatos. Um documento interno do ministério sobre as normas trabalhistas mostra que o governo realizou mais de uma dezena de consultas com sindicatos desde junho de 2024.  

As novas regras permitem turnos mais longos nas fábricas e trabalho noturno para mulheres, além de elevar o limite de demissões que exigem aprovação prévia de 100 para 300 trabalhadores, dando às empresas maior flexibilidade na gestão da força de trabalho.  

As empresas há tempos criticam as normas trabalhistas indianas por considerá-las um entrave para o setor manufatureiro, que contribui com menos de um quinto da economia do país, avaliada em quase US$ 4 trilhões.  

Associação de Empreendedores Indianos (AIEA) expressou preocupação com o fato de as novas regras aumentarem significativamente os custos operacionais para pequenas e médias empresas e interromperem a continuidade dos negócios em setores-chave. A associação solicitou ao governo apoio transitório e mecanismos flexíveis de implementação.  

Nem todos os sindicatos se opõem à reforma. O sindicato de direita Bharatiya Mazdoor Sangh, alinhado ao partido de Modi, pediu aos estados que implementassem as novas normas após consultas sobre alguns dos códigos.

Espera-se que os estados indianos elaborem normas alinhadas aos novos códigos federais que abrangem salários, relações trabalhistas, previdência social e segurança ocupacional. 

Metalúrgicos de Ontário ameaçam ocupar fábrica da GM

Silvia Portela

Os trabalhadores organizados no Sindicato dos Trabalhadores Automotivos de Ontário ameaçam ocupar a fábrica da montadora em Ingersoll, na província de Ontário, Canadá. A GM alegando as tarifas impostas por Trump sobre os produtos canadenses quer transferir a planta para os Estados Unidos. Os metalúrgicos canadenses estão em luta para manter seus empregos ameaçados. E devem estar preocupados sobre a quebra na unidade sindical norte-americana. O texto não cuida dessa questão, mas o United Auro Workers (UAW) apóia a decisão da GM; 

Observatório dos Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais traduziu este texto da PayDay Report, um blog  “que cobre o  movimento sindical em um deserto de notícias”.

Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Automobilística de Ontário Ameaça Ocupar Fábrica Se a GM Retirar Máquinas  

PayDay Staff – 19 de novembro de 2025  A seguinte matéria é de autoria do nosso editor colaborativo, Saleh Waziruddin, que reside em St. Catharines, Canadá.   

“Nós tomaremos a fábrica fisicamente”, disse Mike Van Boekel, presidente da unidade da Unifor Local 88, após a GM não cumprir o prazo estabelecido pelo governo canadense para apresentar seu plano de manutenção da fábrica em funcionamento.  

A fábrica da GM em CAMI contava com 1.200 funcionários antes de ser paralisada no início de abril, e a produção deveria ter sido retomada no mês passado. No entanto, a GM anunciou que interromperia a produção, demitindo todos os trabalhadores.  

A GM alega que a medida se deve à baixa demanda, mas a Unifor afirma que também se deve às tarifas impostas por Trump. “ 

A realidade é que a CAMI foi atingida em ambas as frentes por Trump, que agiu agressivamente para desfazer o apoio aos veículos elétricos e impôs uma tarifa de 25% às montadoras canadenses”, disse Lana Payne, presidente da Unifor.  

O fechamento da fábrica da GM ocorre ao mesmo tempo em que a Stellantis está transferindo a produção planejada para Brampton para Illinois, e parte da produção da GM em Oshawa está sendo transferida para Indiana, devido às tarifas de Trump. A Stellantis também anunciou demissões em Windsor, atribuindo a culpa às tarifas.  

Há três anos, os governos federal e provincial de Ontário destinaram meio bilhão de dólares à GM para reequipar a fábrica de Ingersoll e modificar suas linhas de produção. Agora, a fábrica está fechando – um golpe repentino e chocante para muitos.  

“É devastador”, disse o prefeito de Ingersoll, Brian Petrie, à CBC. “Houve muitos momentos difíceis para os funcionários e para a GM neste projeto, e ouvir que a produção vai ser interrompida… é o pior cenário possível.”  

Os sindicatos canadenses afirmam estar se preparando para uma luta intensa para resistir aos fechamentos, pois temem que outros ocorram no futuro. “Se não lutarmos com força contra ele (Trump) e contra essas empresas, vamos perder tudo”, disse a presidente da Unifor, Lana Payne, no início deste ano.  

A ocupação da fábrica da Ingersoll pode inspirar ações semelhantes em outros locais. Os trabalhadores afirmam estar preparados para ocupar a fábrica, se necessário, para mantê-la em funcionamento. “Deixamos nossa posição bem clara para a empresa: nada entra e nada sai. Se eles tentarem remover sequer uma coisa da fábrica, estamos prontos para tomar o controle. Não estamos brincando”, declarou Mike Van Boeckel, líder do sindicato Unifor, em um comunicado. “Estamos lutando para garantir que a CAMI permaneça aberta… faremos o que for preciso para proteger nossos empregos, nossos membros e o futuro desta fábrica”.