Tarifas dos EUA são “afronta inaceitável à soberania nacional”, afirmam SBPC e ABC

“Uma afronta inaceitável à soberania nacional, à democracia brasileira e à
estabilidade das relações internacionais”, afirmaram a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), duas renomadas instituições brasileiras, expressam sua profunda preocupação e repúdio às ações do governo dos Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump.

A manifestação expressando “profunda preocupação e repúdio” foi publicada em meio à 77ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que ocorre entre os dias 13 e 19 de julho.

O texto destaca ameaças de tarifas e barreiras comerciais, que prejudicam a economia brasileira e violam princípios de comércio justo. Além disso, as entidades denunciam tentativas de ingerência em decisões internas do Brasil, o que afronta a soberania nacional e a autodeterminação.

“Além dos danos econômicos, as entidades signatárias denunciam com veemência a tentativa de ingerência em decisões internas do Estado brasileiro, incluindo pressões políticas que atentam contra a autodeterminação dos povos — um princípio fundamental do direito internacional e da convivência entre nações soberanas.”

Você também pode participar deste debate junto ao Projeto Brasil no Fórum Livre: Taxação dos EUA e Política Monetária Internacional

Leia a íntegra da manifestação, assinada por Renato Janine, presidente da SBPC e conselheiro do Projeto Brasil, e por Helena Nader, presidente da ABC:

Celso Furtado e a doença holandesa, por André Nassif

Luís Nassif

O artigo Underdevelopment, development, and the Dutch disease: the seminal and still relevant theory of Celso Furtado, de André Nassif, publicado na Revista de Economia Política (2025), apresenta diversas contribuições.

→ Acesse a íntegra do artigo no Acervo do Projeto Brasil, aqui.

Abaixo, o resumo e pontos em destaque do artigo de André Nassif sobre Celso Furtado, por Inteligência Artificial:

🧠 1. A teoria furtadiana do subdesenvolvimento

André Nassif defende que Celso Furtado não apenas seguiu a tradição cepalina, mas formulou uma teoria original do subdesenvolvimento, que leva em conta fatores:
• Históricos
• Sociais
• Estruturais

Segundo Furtado:
• O subdesenvolvimento não é uma etapa transitória, mas sim um processo autônomo e historicamente condicionado.
• A formação de mercados internos e a industrialização nos países periféricos dependem da superação de dualidades estruturais, como:
• Agricultura moderna vs. arcaica
• Consumo de massas vs. consumo restrito às elites
• Industrialização com geração de empregos vs. industrialização excludente

Furtado atribui o subdesenvolvimento brasileiro à colonização predatória, à estrutura fundiária desigual e à incorporação subordinada ao capitalismo internacional.

⛽ 2. Furtado foi pioneiro na análise da “doença holandesa”

O artigo demonstra que Celso Furtado foi o primeiro economista a elaborar uma teoria sobre o fenômeno conhecido como “doença holandesa”, antes da Holanda vivenciar o problema e antes da famosa formulação de Corden e Neary (1982).

Ele observou isso ao analisar a Venezuela, nos anos 1950:
• A abundância de petróleo provocou valorização cambial, perda de competitividade industrial e estagnação do setor produtivo.
• O efeito foi de desindustrialização prematura, concentração de renda e manutenção da estrutura agrária retrógrada.

Furtado, porém, não via a abundância de recursos como uma maldição inevitável (como sugeriram Sachs e Warner em 1995), mas sim como uma oportunidade desperdiçada, caso não houvesse:
• Políticas públicas ativas
• Diversificação produtiva
• Formação de capital humano

🧩 Conclusão do artigo

O texto conclui que:
• As teses de Furtado continuam altamente relevantes, sobretudo para países periféricos com abundância de recursos naturais, como o Brasil.
• A superação do subdesenvolvimento exige integração do mercado interno, redução das desigualdades, e o uso estratégico dos recursos naturais via política industrial e social ativa.

Parques e áreas verdes como commodities ambientais: protestos e movimentos sociais no Brasil

Igor Vitorino da Silva*

O Brasil vive a onda da privatização verde. Em todo o país, prefeitos, governadores e gestores públicos têm sido seduzidos pela ideia da concessão pública de parques e áreas verdes como possibilidade de ganhos fiscais com as potencialidades do turismo, do lazer e de variados usos ambientais. Assim, muitas vezes atropelando o debate público e desqualificando contraposições de ONGs, instituições e funcionários públicos, seguem na transferência dos bens públicos para o controle e uso privados, transformando-os em bases da acumulação rentista e neoextrativista brasileira.  

Sob o discurso da modernização e dos investimentos, da gestão eficiente e aumento da arrecadação, com apelos ao desenvolvimento do ecoturismo e do setor imobiliário, governos e iniciativa privada celebram entusiasmadamente o processo de concessão de parques e áreas verdes públicas. Seguem ignorando os argumentos em defesa do acesso gratuito, da qualidade dos serviços e do controle público.

Da mesma forma, minimizam as vozes que denunciam a perda da identidade local desses espaços, na medida em que as áreas verdes e parques concedidos deixam de ser espaços de preservação, conservação, educação ambiental e lazer para constituírem território de extração de investimento e de capital. As concessionárias da iniciativa privada precisam, antes e acima de tudo, gerar lucros para seus investidores, atropelando, com apoio dos governos e da mídia, o interesse público e a sustentabilidade ambiental.

Sob argumentos de ineficiência administrativa, abandono e depredação social, renuncia-se ao uso comum e coletivo desses espaços, por parte de toda a sociedade, para o uso restrito e seletivo do ganho capitalista. Em São Paulo, a voz de Ana Beatriz Nestlehner protestando contra a concessão do Parque da Água Branca (na Zona Oeste de São Paulo) à iniciativa privada realça o processo político acima descrito: “Não existem estudos consistentes de impactos sociais e econômicos. A população não foi incluída nesse processo de concessão. E um bem público tem que servir à sua função pública, que é garantir os direitos constitucionais da população e o bem-estar da população” (G1 SP, 19/03/2022, 13h10).

Em Salvador, os movimentos de resistência (@seremosresistencia, @movimentosalvaverde) ao processo de concessão de parques e áreas verdes vêm travando uma batalha desigual contra a coalização política entre mercado e governos, tentando sensibilizar parlamentares, cidadãos e sujeitos proeminentes na opinião pública soteropolitana. Nesse sentido, tiveram o apoio de Anitta, Regina Casé e Daniela Mercury, que se posicionaram nas redes sociais. Regina Casé, dessa forma, comentou: “A gente não pode deixar derrubar nenhuma área verde, temos que cuidar de todas as áreas verdes que existem em Salvador” (G1BA, 16/05/2025). Também Daniela Mercury desabafou: “Por que vender áreas de proteção ambiental em plena crise climática? Salvador já está sofrendo com temperaturas muito altas, a gente não pode perder a pouca vegetação que tem.”

 

Enfim, não se trata apenas de um processo de transferência da execução e/ou gerenciamento de algum serviço público, mas de um processo evidente de exclusão das populações não solventes e que não podem participar da cidadania do consumo. Essa situação é afirmada e reforçada quando consideramos a desigualdade socioeconômica do país e as tentativas regulares de vários setores econômicos e sociais de desregulamentar a legislação ambiental e exercer livremente seus interesses especulativos e rentistas (turismo e mercado imobiliário).

Apesar de todos os protestos e movimentos sociais em todos os cantos do país, o processo de comodificação (ou mercadorização, mercantilização) por meio da concessão, alimentado pelo discurso econômico de futuros ganhos verdes, tais como os créditos de carbono ou certificados de energia renovável – RECs, segue sequestrando e pilhando, de fato, os bens públicos. 

Essa prática é apoiada na ideia política liberal de que os governos devem focar suas ações em planos de manejo, ordenamento territorial e regularização fundiária, enquanto a iniciativa privada, com apoio logístico e econômico do BNDES Parques e Florestas, Ernst & Young Global Limited (assessorias) e Programa de Parcerias de Investimentos/PPI (ICMBio), deve se aproveitar das vantagens e potencialidades possíveis dos parques e áreas verdes. 

No final, como descrevemos acima, estamos diante de uma conversão mercantil dos bens públicos, que passam a ser submetidos à lógica de “tudo tem um preço”.  Contra essa lógica econômica os movimentos sociais protestam, proclamando à mídia e aos governantes: “O Estado tem condições de proteger a biodiversidade e o direito da população ao contato com a natureza e ao meio ambiente ecologicamente equilibrado” (discurso do militante Darí Lourenço Marchesini, do Comitê Popular de Luta e da Comissão em Defesa do Meio Ambiente de Vila Velha) (SD, 28/12/2024).  É um grande processo de desapropriação/despossessão da natureza, do meio ambiente e da terra no Brasil, e o povo segue em processo de cercamento social, econômico e ambiental, resultante da desigualdade e racismo ambientais. 

 

*Professor e Mestre em História pelo PPHIS/UFPR

Pesquisador Associado Externo do LHIPI – UFES

Pesquisador Associado Externo do LHIPU – IFES