#2400
Luis Nassif
Mestre
    @luis-nassif

    Otavio Augusto Boni Licht

    Geólogo, MSc, Dr.,
    Professor colaborador (voluntário) do
    Programa de Pós-graduação em Geologia
    Universidade Federal do Paraná

    Centro Politécnico – UFPR

    Meu prezadíssimo guru

    Muito oportuna a matéria do GGN sobre os ETR (Elementos Terras Raras), especialmente a observação sobre a exportação de matérias primas em bruto ou que sofrem aqui um processo inicial de concentração e beneficiamento. Isso sempre foi uma discussão entre especialistas, mas parece que a exportação de insumos minerais  “in natura”, similarmente aos da agroindústria, é algo que passa por legislação e regramento fiscal que deve ser alterada para implementar a industrialização antes da exportação.

    Mesmo não sendo especialista em “terrasraras” permita-me, entretanto, sugerir alguns pontos a corrigir no texto:
    1 – os ETR ocorrem em muitos ambientes geológicos, mas se concentram especialmente em rochas ditas intrusivas e extrusivas (vulcões) alcalinas, que tëm uma composição química característica, e ainda mais especialmente nos  carbonatitos que ocasionalmente estão associados a elas, como é o caso do complexo de Poços de Caldas em Minas Gerais, o da Barra do Itapurapuã (PR-SP), o de Seis Lagos na Amazônia (https://rigeo.sgb.gov.br/bitstream/doc/17148/1/6152.pdf),e muitos outros;
    2 – tradicionalmente o grupo das Terras Rarasse divide em dois sub grupos, ETR leves (lantanídeos) e ETR pesados (actinídeos), que têm usos e aplicações e valoração no mercado bastante distintas.  (http://mineralis.cetem.gov.br/bitstream/cetem/1140/1/36%20TERRAS%20RARAS%20ok.pdf)
    3 – em virtude da abundância e da aplicação e usos na indústria, nem todos os depósitos (ou jazimentos) de ETR podem ser lavrados sob o ponto de vista econômico;
    4 – os ETR pesados são mais valiosos

    5 – O Li não faz parte do grupo dos ETR.

    Dizia o meu caro e saudoso professor de geoquímica Milton Luiz Laquintinie Formoso, que os Elementos Terras Raras são um paradoxo pois não são terras, e muito menos raras.

    Aproveito a oportunidade para salientar dois pontos que considero importantes.

    1. o entendimento equivocado que os ambientalistas e a imprensa têm da palavra explorar, a qual no jargão da geologia e da mineração tem um significado totalmente diferente. Isso ficou muito evidente na discussão que ocorreu sobre o petróleo na foz do Amazonas. Para os geólogos, explorar  significa ampliar e aprofundar o conhecimento sobre algum fato da natureza. Só depois de ser devidamente explorado e pesquisado é possível decidir se aquele depósito mineral pode ser lavrado ou não, considerando a economicidade. O termo explorar nunca é aplicado no sentido de lavrar um depósito mineral ou de extrair um bem mineral concentrado na natureza.

    2. a confusão feita entre mineração e garimpo. Mesmo que num sentido muito amplo, o garimpo seja uma atividade extrativa mineral, ele não pode ser considerado como mineração que tecnicamente se aplica apenas à indústria mineral, que conta com recursos sofisticados de pesquisa geológica e de planejamento de engenharia. É verdade que os recentes e graves acidentes de Mariana, Brumadinho, Barcarena e Maceió, não contribuem para uma boa imagem da indústria mineral, a qual merecidamente, tem recebido reprovação da sociedade. Em todos esses casos, falharam e superpuseram, o planejamento e a execução por parte das empresas e a fiscalização por parte dos órgãos governamentais de controle.
    Por outro lado, os danos que a atividade garimpeira provocam na natureza são enormes, por serem dispersos e sem qualquer controle e passam por agravos  ambientais (escavações descontroladas, poluição física e química dos cursos d’água e contaminação ambiental), sociais (criação de núcleos populacionais descontrolados, exploração da mão de obra), sanitários (intoxicações, doenças sexualmente transmissíveis e consumo humano de água sem o tratamento adequado) e criminais (estupro e assassinato de moradores nativos, lavagem de dinheiro de atividades ilicitas). Sob o ponto de vista geológico-mineiro, o garimpo provoca um outro dano que é a dilapidação de uma jazida mineral pois, pela necessidade de ganho rápido para a sobrevivência dos homens, e pela falta de conhecimento da jazida e de planejamento da atividade de lavra, o garimpo dirige sua atividade para as porções de teor mais alto e concentrado (minério), desprezando aquelas de menor teor e laterais (minério marginal). Esta abordagem dilapida o depósito que, com uma atividade mineira planejada e baseada no conhecimento, promoveria uma lavra racional já que aproveitaria  conjuntamente as regiões de minério rico e de minério marginal. Isso reduz o teor do minério lavrado, mas amplia grandemente a vida do depósito (que é finito) e, num cenário ideal e moderno, planeja a atividade da comunidade após o encerramento das atividades mineiras.

    Peço desculpas pela “epístola”, mas espero ter esclarecido – mesmo sem ter sido solicitado – esses dois pontos que julgo importantes.

    Um forte e grande abraço

    Otavio

    Av. Cel. Francisco H dos Santos, 100