Marcado: caminhos, Eleições; Lula
- Este tópico está vazio.
-
AutorPosts
-
-
24/03/2026 às 13:32 #10159
Para derrotar a extrema-direita é preciso atacar o coração da precariedade
O professor João Cézar de Castro Rocha entrevistado por Kiko Nogueira.
A planilha organiza a compreensão do caminho sugerido pelo Prof. João Cézar.
17 anos de governo PT.Trecho transcrito pelo Youtube
Se ele nasceu em 95, ele tem 7 anos. Se ele nasceu em 85, ele tem 17 anos. Nos dois casos, há uma circunstância única. De 2002 a 2026, o PT esteve no poder por 17 anos. Em seis eleições, ele viu o PT vencer cinco. Para ele, um jovem hoje no Brasil de 20 anos, de 25 anos, o establishment é o PT, o sistema é a esquerda.
É uma circunstância única na história brasileira. Então, se você hoje tem no Brasil 22 anos, você pode dizer uma frase que, de outra forma pareceria absurda. Na nossa geração aqui, você pode dizer assim: “Eu sou contra o sistema. Eu sou oposição, por isso eu sou de direita. Eu sou contra o sistema, por isso eu apoio a escola austríaca. Eu sou contra o sistema, por eu sou contra o sistema, por isso eu sou neoliberal”.
Ah, então é uma circunstância concreta, objetiva, a equivalência que pode ser feita no Brasil hoje. E os mais jovens fazem isso. Você vê as pessoas que apoiam o Pablo Marçal, elas dizem que apoiam o Pablo Marçal porque elas são contrárias ao sistema. Então tem esse lado de um lado, tem um segundo lado que é não é fácil e é preciso não ser aqui superficial.
Vamos lá, vamos pensar juntos aqui que tá.
Você concordaria se eu propusesse que o PT somente chega ao poder federal em 2002, depois de três décadas de de luta social organizada? Veja, o Lula aparece para o Brasil como liderança nacional nas greves do ABC da segunda metade da década de 1970. Em 1980, o Partido dos Trabalhadores é criado. O Partido dos Trabalhadores é muito ligado na sua gênese às comunidades eclesiais de base, que era um movimento fundamental da Igreja Católica, que foi deixado de lado com o papado do João Paulo I, que tudo fez para destruir a teologia da libertação na América Latina. E entre essas esse esforço, as comunidades eclesiais de base, que na sua quase totalidade eram progressistas, foram sendo esvaziadas.
Aí a igreja evangélica foi entrando, porque as comunidades eclesiais de base estavam nas prisões, nos hospitais, nas periferias, nas favelas. foram saindo as igrejas evangélicas foram entrando.
Mas o PT só chega ao poder em 2002 porque o Lula tem atrás de si três décadas de movimento social. Por exemplo, no início da redemocratização, havia uma parte da sociedade civil organizada que hoje praticamente não existe mais. As famosas associações de moradores foram importantíssimas no período da redemocratização.
Então havia algo muito importante. O PT era um partido de massas. Tá? O PT chega ao poder em 2002, o PT vai se transformando passo a passo num partido de alianças. Eu não digo que com uma crítica, não é uma crítica. No presidencialismo brasileiro, com mais de 30 partidos, se você não for capaz de construir aliança, você não governa. Então, tá ótimo que o PT tenha aprendido a ser o partido de aliança. Isso não é uma crítica, mas ele deixou de ser o partido de massas, isso sim é uma crítica.
É preciso conciliar a capacidade de fazer alianças com a permanência da sociedade civil organizada e mobilizada.
Porque hoje, Kiko, quem é capaz de colocar pessoas na rua, quem tem uma base mobilizada, não é mais a esquerda, é extrema-direita. Veja o que aconteceu o ano passado na disputa dos conselhos tutelares, como a extrema direita se organizou no país inteiro para disputar Conselho Tutelar. É uma atitude característica da esquerda na década de 70 e 80, disputar os espaços e conquistando e tendo uma presença capilarizada na sociedade. Então, famoso trabalho de formiguinha, né, professor? É isso. Hoje quem faz o trabalho de formiguinha e esta eleição demonstrou isso de maneira cabal é a extrema-direita…
E de fato nós vamos ter que fazer essa discussão com a sociedade porque também a forma como vende as a prosperidade. Pessoas por si só consegue fazer tudo e não é verdade. É, eu entendo que tem também falta de discurso, que é muito mais grave da, enfim, é, da teoria da prosperidade, o quanto que isso está é capturando corações e mentes.
Não tem algum jeito de a esquerda se é renovar é para atender essa demanda, professor?
“A pergunta decisiva para entender o Brasil contemporâneo é responder a razão, é compreender a razão pela qual 58 milhões de pessoas votaram no Bolsonaro, um candidato que, em tese, prejudicas essas 58 milhões de pessoas. Basta que pensemos na reforma da previdência aprovada durante o governo Bolsonaro no Brasil. Foi o único país do mundo em que o dito pobre de direita foi à rua para defender a reforma. Na França, Kiko, uma reforma muito menos radical levou a explosão dos coletes amarelos. Você recorda na França eles paravam o país, era pela reforma da previdência. No Brasil o então chamado pobre de direita foi às ruas defender Paulo Guedes. O Paulo Guedes deu uma entrevista dizendo: “Nunca imaginei que isso poderia acontecer”. Então a pergunta básica é: como é que eles apoiam o governo? A Rosana Pinheiro Machado, que é a antropóloga, tem uma pergunta similar. Ela tenta entender uma coisa. “Ah, houve um nos primeiros governos, especialmente nos dois primeiros governos, governos do presidente Lula e no primeiro governo da presidente Dilma, o Brasil conheceu uma pequena revolução silenciosa, com dezenas milhões de pessoas saindo do patamar da fome e da miséria e com surgimento do que se dizia na época, com grande deslumbre, as classes D e E entrando para o consumo.
E o presidente Lula há pouco tempo numa num encontro com Bill Gates, semana passada ele dizia: “Eu não sou marxista”. Ele diz: “Eu sou fordista. Eu quero que o trabalhador compre o produto que ele produziu, tá? Então a Rosana Piro Machado se pergunta, Jessé se pergunta como é que eles votaram, a Rosana Piro Machado se pergunta como é possível que os beneficiários das políticas sociais dos governos do PT se voltem contra ele?
Os dois chegam por vias diversas a uma resposta comum. A resposta comum é que isso só é possível no solo da precariedade. A as pessoas que apoiam Pablo Marçal e no trabalho da Rosana Pira Machado, ela fez um estudo comparativo, por exemplo, Brasil, Filipinas. Nas Filipinas tem lá o Pablo Marçal Filipino, isto é, há pessoas que oferecem formas impossíveis de obter dinheiro rapidamente e de prosperar de uma noite para outra, que é o sonho de todas as pessoas que vivem na precariedade. Então, a precariedade é o solo onde figuras como Pablo Marçal obsedam. Vindo agora ao Jessé de Souza, ele se pergunta, mas como é que ele vota num Pablo Marçal?
Veja, ele diz, então, pense num trabalhador entre seus 40 e 50 anos, desiludido, sem esperança real no seu futuro, aliás, sem nem acreditar que terá futuro. Humilhado todos os dias no transporte público, passando de 4 a 6 horas por dia no transporte público, humilhado no emprego. Ah, uma vida absolutamente sem horizontes ou sem esperança.
Quem é Pablo Marçal? O Pablo Marçal é justamente alguém que não aceita humilhação, que não abaixa a cabeça. A arrogância do Pablo Marçal é vista como um ideal de comportamento. Então, nesses casos, Kiko, algo muito importante, a única forma, eu creio, de derrotar a extrema direita não é no discurso.
No discurso, na utilização das redes sociais, sejamos modestos e sejamos humildes. Eles são 10 vezes melhor do que nós. Olha o que que o Pablo Marçal causou, Kiko. Teve mais de teve 1.700.000 votos como como bolos. A diferença entre Marçal e o Bolos foi 60.000 votos. Foi. Ah, para derrotar a extrema direita é preciso atacar o coração da precariedade. É preciso políticas públicas, que não são políticas públicas possíveis num regime de conciliação eterna. É preciso taxar as grandes fortunas. É preciso uma reforma tributária.
-
-
AutorPosts
- Você deve fazer login para responder a este tópico.